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A Reforma da Reforma


Durante décadas, a reforma foi um destino relativamente previsível. Trabalhar, descontar, reformar-se e receber um rendimento vitalício que permitisse manter um padrão de vida digno. O principal desafio consistia em acumular anos de carreira suficientes para aceder ao sistema. Hoje, porém, essa realidade está a mudar profundamente.

A transformação silenciosa que atravessa os sistemas de pensões das economias desenvolvidas representa muito mais do que uma alteração técnica ou regulatória. Trata-se de uma transferência estrutural de responsabilidade, onde aquilo que antes era assumido pelo Estado, pelos fundos de pensões ou pelos empregadores está gradualmente a passar para os indivíduos. A questão não é apenas como financiar a reforma. É também como gerir a incerteza.

À primeira vista, esta mudança parece positiva. Os cidadãos passam a ter maior autonomia sobre as suas poupanças, podendo decidir como investir os seus ativos, quando levantar capital e de que forma organizar a transmissão de património para as gerações seguintes.

Mas existe um paradoxo.

Mais liberdade significa também mais responsabilidade. E responsabilidade financeira exige competências que a maioria das pessoas nunca desenvolveu ao longo da sua vida.

O reformado de amanhã pode ter de tomar decisões hoje sobre alocação de ativos, risco de mercado, inflação, fiscalidade e financiamento de cuidados de saúde de longa duração. São escolhas com impacto diferido que poderão moldar os últimos vinte ou trinta anos de vida. Uma decisão errada aos 55 anos pode ser praticamente irreversível aos 80.

Os anos imediatamente anteriores à reforma estão a transformar-se no momento mais valioso da nossa jornada financeira, pois o risco da longevidade, outrora mutualizado, será crescentemente individual.

Paradoxalmente, muitos dos sistemas financeiros continuam a estar organizados como se a esperança de vida fosse significativamente inferior à atual. O desafio deixou de ser apenas acumular riqueza para a reforma. O verdadeiro desafio é assegurar que essa riqueza sobrevive à própria longevidade.

A pergunta crítica já não é “quanto dinheiro tenho?”, mas sim “quanto tempo terá esse dinheiro de durar?”. Na esmagadora maioria das situações, não sabemos responder.

É precisamente aqui que emerge uma oportunidade estratégica para as empresas de seguros do ramo vida e sociedades gestoras de fundos de pensões.

Não é difícil perceber porquê.

Escolher um seguro automóvel é uma decisão transacional. Escolher como financiar os últimos vinte ou trinta anos de vida é uma decisão existencial.

Os avanços tecnológicos podem ajudar a organizar informação, simular cenários e aumentar a eficiência. Mas dificilmente eliminam a dimensão emocional associada ao envelhecimento, à dependência futura de terceiros ou à transmissão de património para os filhos e netos.

A confiança será sempre um ativo humano. E talvez essa seja uma das conclusões mais interessantes desta nova realidade. Quanto mais digital se torna a indústria, maior parece ser a procura por aconselhamento humano quando estão em causa decisões de elevado impacto.

Portugal é simultaneamente um dos países mais envelhecidos do Mundo e um dos que enfrenta maiores desafios demográficos nas próximas décadas. A sustentabilidade dos sistemas públicos de proteção social, a pressão sobre os cuidados de longa duração e a necessidade crescente de poupança privada tornarão inevitavelmente mais relevante o papel do setor segurador e de fundos de pensões.

Mas esta oportunidade traz consigo uma responsabilidade.

Se vamos assumir uma parcela crescente do risco financeiro associado à longevidade, então o mercado terá de responder com soluções simples, transparentes e compreensíveis.

A próxima geração de vencedores no setor não será necessariamente aquela com os produtos mais sofisticados. Será provavelmente aquela que conseguir reduzir a complexidade, aumentar a literacia financeira e construir relações de confiança duradouras.

Estarão os futuros pensionistas preparados para serem gestores do seu próprio risco de longevidade?

 

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Tiago Venâncio vai deixar a Aegon Santander Portugal


O CEO Tiago do Couto Venâncio decidiu deixar a liderança da Aegon Santander Portugal, confirmou o gestor a ECOseguros. Após mais de uma década à frente de um projeto, o gestor prepara-se para continuar profissionalmente em Portugal, encerrando “um ciclo marcado pelo crescimento do negócio, pela rentabilidade e pela aplicação de dados e inteligência artificial à atividade seguradora”, disse.

Embora tenha sido reconfirmado como CEO das seguradoras Aegon Santander, Tiago Venâncio vai deixar as companhias para exerce funções fora do grupo espanhol.Hugo Amaral/ECO

A saída acontece por sua iniciativa, apesar da renovação do mandato até 2029, recentemente publicada pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF).

À frente da operação desde 2015, Tiago do Couto Venâncio liderou a criação e o desenvolvimento das seguradoras Vida e Não Vida da parceria entre a Aegon e o Santander. Ao longo deste período, o negócio aproximou-se dos 300 milhões de euros em prémios anuais, e conquistou posições entre os cinco maiores operadores em segmentos relevantes dos seguros de proteção, Vida, Saúde, Multirriscos e Acidentes Pessoais, apesar de comercialmente apenas utilizar o canal bancário da rede Santander.

As seguradoras Aegon Santander têm, nos últimos anos, apresentado uma rendibilidade dos capitais próprios superior a 40%, tendo distribuído de mais de 200 milhões de euros em dividendos acumulados aos acionistas.

Tiago Venâncio é formado em Matemática pela Universidade Nova com pós – graduação no ISCTE e é speaker no ISEG nas áreas de Seguros, Cálculo Atuarial e Matemática Financeira.

O negócio dos seguros no grupo Santander é o 5º maior em Portugal com prémios num valor próximo de mil milhões de euros. Está repartido entre o próprio banco para os seguros financeiros do ramo Vida, e a associação com os holandeses da Aegon (51%/49%) acontece em duas seguradoras que comercializam seguros de vida, incluindo os associados ao crédito, e seguros Não Vida, como multirriscos habitação, acidentes e outros produtos.

Tem ainda uma seguradora em parceria com a espanhola Mapfre vocacionada para seguros Não Vida como automóvel, responsabilidade civil e multirriscos para empresas. Nesta, designada Mapfre Santander, a Mapfre detém 50,01% da sociedade e o Santander Totta 49,99%.

Nova estratégia da Aegon

Em dezembro último a Aegon anunciou que pretendia transferir a sede para os Estados Unidos, passar a chamar-se Transamerica e concentrar-se no mercado americano de seguros de vida, reforma e poupança. A mudança de sede está prevista para 1 de janeiro de 2028. Neste percurso, a Aegon acordou vender a operação britânica à Standard Life por uma contrapartida total de 2 mil milhões de libras, incluindo dinheiro e ações da compradora.

No entanto, a Aegon declarou que quer continuar a desenvolver os negócios ibéricos através do Santander. A sua estratégia internacional “passa por manter parcerias que geram resultados, em vez de necessariamente deter a totalidade das seguradoras”. disse fonte da companhia ao jornal Cinco Dias.

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