Portugal consegue escalar? Cinco desafios para a próxima década

Nos últimos dez anos, Portugal demonstrou uma capacidade notável para atrair investimento, criar novos polos de inovação, afirmar-se como destino para talento internacional e modernizar setores tradicionais da economia. Mas a pergunta que deverá marcar a próxima década não é se Portugal consegue crescer. É se Portugal consegue escalar.
Num contexto global cada vez mais competitivo, crescer já não basta. A capacidade de transformar boas ideias em empresas globais, talento em produtividade e investimento em valor sustentável será o verdadeiro fator diferenciador. Para isso, identifico cinco desafios.
O primeiro é a dimensão empresarial. Portugal continua a ter excelentes empresas, mas poucas com dimensão global. Precisamos de facilitar o crescimento orgânico, mas também fusões, aquisições e alianças estratégicas que permitam consolidar setores, entrar em novos mercados e reforçar competências.
O segundo é a produtividade. O crescimento sustentável dependerá menos do aumento dos recursos disponíveis e mais da capacidade de gerar mais valor por cada euro investido e por cada hora trabalhada. Isso exige melhor gestão, inovação, digitalização e processos eficientes.
O terceiro é o talento. Atrair pessoas qualificadas não chega. É necessário desenvolvê-las, retê-las e criar condições para que tenham impacto. A competição por competências críticas é hoje global. A formação contínua, a requalificação profissional e uma ligação mais próxima entre universidades e empresas assumem um papel central.
O quarto é a transformação tecnológica. A inteligência artificial, a automação e os dados estão a redefinir modelos de negócio. O desafio já não é adotar tecnologia, mas integrá-la na estratégia, redesenhar operações e convertê-la em crescimento, competitividade e valor.
O quinto é a competitividade estrutural do país. A simplificação administrativa, a estabilidade regulatória, a eficiência da justiça económica e uma fiscalidade orientada para o crescimento continuarão a ser fatores decisivos para atrair investimento e aumentar a confiança.
Estes desafios têm um denominador comum: a capacidade de execução. Portugal não parte do zero. Tem talento, espírito empreendedor, capacidade de adaptação e empresas que já competem com sucesso internacionalmente. O que tem faltado, demasiadas vezes, é continuidade na estratégia, rapidez na decisão e disciplina na concretização.
A próxima década será, por isso, menos uma questão de potencial e mais uma questão de concretização e criação de escala. Num mundo onde a velocidade da mudança continuará a acelerar, os países que conseguirem escalar serão os que transformarão ambição em execução, conhecimento em inovação e visão em crescimento sustentável. Portugal tem condições para estar entre eles. A questão é se conseguiremos atuar à escala dessa ambição. Quero acreditar que sim.