PM é acusada de obrigar três pessoas presas em Piracicaba a usarem camiseta do PT
22 October 2026 at 13:30
Policiais militares de São Paulo são acusados de terem obrigado pessoas que foram presas por suspeita de tráfico de drogas em Piracicaba, no interior do estado, a vestirem camisetas de campanha com frases de apoio ao PT e ao presidente Lula (PT). Segundo testemunhas que acompanharam a abordagem policial e também de acordo com a mãe de um adolescente de 17 anos que foi apreendido, o filho dela foi obrigado por policiais a usar a camiseta pró-Lula. O caso ocorreu nesta quarta-feira (21). O caso foi explorado pelo ex-secretário de Segurança Pública e agora senador eleito Guilherme Derrite (PP), aliado de Flávio Bolsonaro (PL), nas redes sociais. O PT acionou o Ministério Público Eleitoral. Uma testemunha ouvida pelo GLOBO em condição de anonimato contou o que viu durante a abordagem policial. Moradora da comunidade Pantanal Vitória, na cidade de Piracicaba, a mulher afirma que saiu para trabalhar com duas colegas — as três são ligadas à deputada estadual Professora Bebel (PT) e trabalham na campanha pró-Lula — e vestiam camisetas do partido, com a frase “Professores e professoras da Apeoesp com Lula”. A mulher diz que, ao passarem por uma viela da comunidade, presenciaram uma operação policial em alguns barracos da região. Os policiais, segundo ela, batiam nos suspeitos e quebravam itens das moradias. Ela relatou ter visto os agentes retirarem três jovens de dentro de uma das casas — os mesmos suspeitos que foram presos na sequência —, e ressaltou que nenhum deles usava roupa de partido. — Estavam com a camiseta normal deles mesmo. Não lembro a cor, mas não era camiseta de partido — diz ela. Durante a passagem pela viela, as três mulheres também foram abordadas pelos policiais. Um dos agentes perguntou para onde a testemunha ouvida pelo GLOBO estava indo e disse algumas ofensas por causa da camiseta do partido que ela usava. Para evitar o confronto, a mulher ficou em silêncio. Ao mesmo tempo, mais adiante, outros policiais exigiram que as duas colegas dela tirassem a camiseta do PT que estavam usando, e mandaram que buscassem uma terceira peça na casa de uma delas. Com medo, a testemunha se refugiou no barraco de uma amiga. Ela soube depois que os três rapazes foram presos usando camisetas partidárias idênticas às recolhidas durante a ação policial. Em entrevista à TV Todo Dia, jornal de Piracicaba, Edna Souza, mãe do menor apreendido, falou que estava em casa com sua bebê, quando se deparou com policiais entrando em sua casa atrás de seu filho. Ela relatou que os policiais agrediram seu filho na residência, chegaram a dar um murro no peito de sua outra filha, de 14 anos, enquanto ela pedia para eles pararem. — Eles desceram com meu filho pela escada, o policial estava com o rosto do meu filho no chão, em cima do meu filho, e eu pedindo para eles saírem. Aí a minha filha de 14 anos veio, e o policial deu um murro no peito dela. Eles foram para outra favela com meu filho, bateram muito nele, tem vídeo dos vizinhos. E colocou a camiseta nele do Lula. Ele não estava com a camiseta, ele e os três meninos. E colocaram as três blusas iguais, eu perguntei por que eles colocaram essa blusa, eles disseram que ele já estava, mas ele não estava, porque eu não tenho esse tipo de blusa em casa — falou. A deputada Professora Bebel disse ao GLOBO que os policiais também agrediram as militantes que trabalham em sua campanha para pegar as camisetas delas e acusa uma tentativa de "armação". — Foi uma armação para dizer que todo mundo que é do Partido dos Trabalhadore tem envolvimento com ilícitos, com drogas. Você pegar duas mulheres, entrar na casa delas, pegar a camiseta delas. O negócio perdeu o parâmetro do que é viver numa civilidade, do que é disputar uma eleição, sem criar esse tipo de fatos negativos para a sociedade — falou. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que os três foram detidos após uma denúncia feita pelo telefone 190, com a descrição dos suspeitos. Segundo a pasta, o adolescente de 17 anos estava com 23 porções de cocaína, enquanto os homens de 21 e 24 anos foram encontrados com um revólver e outras 137 porções da droga. A SSP declarou que não compactua com desvios de conduta e orientou que eventuais vítimas formalizem denúncias em delegacias, pela Delegacia Digital ou na Corregedoria da Polícia Militar. A secretaria afirmou, ainda, que não havia registros dos fatos relatados na Comunidade Pantanal Vitória. Em nota, Derrite afirmou que "o objetivo da publicação foi chamar a atenção para o aliciamento de jovens pelo tráfico de drogas, uma realidade que não se restringe aos grandes centros urbanos e também atinge municípios do interior paulista" e que "a publicação não faz qualquer menção às camisetas utilizadas pelos envolvidos". Ele ainda defendeu que "os fatos sejam devidamente apurados pelos órgãos competentes".