O meu Thanksgiving
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O Thanksgiving, que celebramos no Canadá na próxima segunda-feira, é muito mais do que um feriado marcado pelo delicioso peru assado e pelas maravilhosas reuniões familiares. Por aqui, esta festa carrega um grande simbolismo, focado principalmente na gratidão por tudo o que aconteceu de bom e especial no ano que agora termina.
Contudo, para nós, comunidade luso-canadiana, a realização desta festa, ano após ano, deve fazer-nos lembrar as nossas raízes e levar-nos a refletir: o que devemos dar em troca à sociedade civil por tudo o que esta nos dá, não só ao nível dos privilégios, como também da prosperidade a que este ano tivemos acesso? Se o ano correu bem, isso obriga-nos a olhar para trás com orgulho, mas também para a frente com enorme responsabilidade.
A nossa história neste país foi construída a pulso, com o suor de gerações de emigrantes portugueses que encontraram no Canadá uma terra de oportunidades, segurança e liberdade. Fomos bem acolhidos, e os canadianos permitiram que tivéssemos sucesso e, ao mesmo tempo, mantivéssemos a nossa identidade bem viva. Por isso, sentarmo-nos à mesa nos próximos dias não pode ser apenas para comer e conversar, mas deve ser visto como um ato de gratidão. Para que esta seja verdadeira, deve ser convertida em cidadania ativa e responsabilidade social coletiva. Dar em troca à sociedade civil canadiana manifesta-se em gestos de compromisso ético diários. O primeiro e mais imediato é o combate à pobreza, às dificuldades sociais e à fome, realidades que afetam muitos dos nossos vizinhos e que não estão longe, apenas em África. Apoiar os bancos alimentares locais ou as instituições de caridade da nossa própria comunidade, que tanto fazem pelos mais desfavorecidos e pelos nossos idosos, é o reconhecimento prático da dignidade do outro.
Quando a comunidade luso-canadiana se mobiliza para partilhar recursos e tempo, não está apenas a fazer caridade; está a fortalecer a rede de segurança social que protege a todos. Assim como no passado fomos ajudados a dar os primeiros passos num novo país, cabe-nos agora assumir um papel ativo no acolhimento de quem chega. Dar em troca significa orientar os mais jovens, apoiar os novos imigrantes a entrar no mercado de trabalho e combater o isolamento social. Significa também participar de forma construtiva no processo democrático local, exercer o direito de voto e assumir cargos de liderança cívica, garantindo que a voz e os valores luso-canadianos podem influenciar o futuro do país.
O Thanksgiving não é apenas um ponto de chegada, mas sim um ponto de partida anual para renovarmos o nosso “contrato social” com o Canadá. Celebrar esta data com consciência cívica é compreender que o privilégio de viver numa sociedade pacífica e próspera traz consigo a obrigação moral de contribuir para a sua melhoria contínua.
Que a nossa maior expressão de gratidão seja o compromisso firme de continuar a dar o melhor de nós, honrando o passado e erguendo um Canadá cada vez mais justo e solidário.
Vitor Silva/MS
