O Núcleo identificou páginas de fofoca de grande alcance no Instagram que fizeram publicações com texto semelhante e quase simultaneamente que enaltecem dois candidatos ao Senado por São Paulo, na noite deste sábado (3.out.2026), às vésperas da votação do primeiro turno. Nenhuma delas sinaliza se o conteúdo se deu mediante publicidade.
Por que isso importa?
O Tribunal Superior Eleitoral proíbe, desde 48h antes até 24h depois da eleição, a circulação paga ou impulsionada de propaganda eleitoral na internet, mesmo se a contratação tiver sido realizada antes desse prazo. Campanha velada, sem sinalização, pode configurar crime eleitoral.
No caso do deputado federal Guilherme Derrite (PL-SP), foram 18 perfis que postaram que o candidato defende que facções criminosas sejam enquadradas como organizações terroristas. Em quatro páginas (@alfinetei, @acerteinoticias, @portalfoquei e @kimfofoca), tanto a legenda quanto a imagem eram as mesmas: “LINHA DURA CONTRA O CRIME! Derrite defende classificar facções criminosas como organizações terroristas”.
Reprodução de post na página @alfinetei, de 3.out.2026, curtida por Derrite e posteriormente apagada
A página com maior número de seguidores que veiculou o post foi a @alfinetei. A publicação teve, inclusive, curtida do perfil oficial de Derrite.
À reportagem, a assessoria de Derrite disse que “a campanha não tem nenhum envolvimento ou investimento nesses canais de comunicação”. Coincidentemente, após contatarmos a campanha, a publicação na página @alfinetei foi excluída. Os posts feitos por @diferentona, @asatualidades e @odiariobrasileiro também foram apagados depois que a reportagem procurou as páginas.
No caso da ex-ministra Simone Tebet (PSB), 11 páginas repercutiram ontem, também quase simultaneamente, um corte de uma declaração dela sobre redução da maioridade penal que foi dada durante debate de candidatos ao Senado na Band, em 9.set.2026.
Reprodução de post da página @fofocas, publicada em 3.out.2026
Ela afirmou ser favorável à medida a pessoas a partir de 16 anos que tenham cometido crimes graves. Duas delas também haviam feito publicações sobre Derrite (@sobrefavela e @noticiasexplicadas).
A assessoria de Tebet não respondeu ao contato da reportagem até a publicação.
Em dez.2025, parte dessas páginas também promoveu feitos da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que disputa a reeleição, conforme reportagem da revista piauí, de 12.jan.2026. São elas: @fofocas, @rainhamatos e @vemebuscarhebe, da Agência Buzz, que pertence à Mynd; e @alfinetei.
Tanto a Secretaria de Comunicação do Estado de São Paulo quanto a agência que representa as páginas negaram à revista o pagamento para repercutir as ações do governo.
O Núcleo buscou as páginas mencionadas pelos canais de comunicação disponíveis, como e-mail e mensagem direta pelo Instagram, mas não houve retorno até a publicação.
No próximo domingo (4), os eleitores brasileiros irão votar em seus representantes para os cargos de presidente, governadores, senadores e deputados. Apesar da possibilidade da decisão para os cargos executivos ser definida apenas em um segundo turno e estender os prazos das campanhas eleitorais, a pauta política não deve se restringir apenas às vésperas de votação. Entender e acompanhar a atuação de cada cargo e partidos é fundamental para o desenvolvimento do país nos próximos anos.
Além do presidente e governadores de todas as unidades da federação, também serão definidas 513 cadeiras na Câmara e 54 das 81 do Senado. Para a cientista política Tathiana Chicarino, entrevistada no Pauta Pública desta semana, em um cenário de crescente personalização da política, os papéis dos partidos e do Legislativo muitas vezes ficam em segundo plano. Na conversa com Andrea Dip, ela também chama atenção para a forma como escândalos políticos e de corrupção ocupam o debate eleitoral, principalmente em período de campanha, e acabam transformando a política em espetáculo.
Coordenadora do curso de sociologia e política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP) e pesquisadora do Observatório de Conflitos Online da Universidade Federal do ABC (UFABC), Chicarino afirma que “as eleições já têm um teor bastante personalizado e passa a ser consumida numa lógica entre bem e mal, com um enredo como se fosse uma novela ou um folhetim, e isso é muito despolitizante” e acrescenta que a política precisa ser trazida novamente para o debate público.
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 236
Eleições 2026 além da disputa presidencial – com Tathiana Chicarino
2 de outubro de 2026
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Cientista política explica o papel dos partidos, das redes sociais e do Congresso nas eleições de 2026
Às vésperas das eleições, sob as atuais denúncias e conflitos envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), os debates sobre as propostas políticas ficaram em segundo plano. Porém, a composição do Supremo depende diretamente de quem ocupa a presidência da República e o Senado Federal. Por que o Congresso Nacional é peça central na disputa de poder? E qual a importância de entendermos a atuação de cada cargo político e da relevância dessas eleições?
A gente costuma dizer que desde por volta de 2013, embora tenham eventos anteriores a isso, como a crise econômica de 2008, de 2010 em diante, inaugurou-se uma “década crítica” em que uma série de crises, de hegemonia e escândalos, vão perpassando nossa política institucional. Tivemos junho de 2013, Lava Jato; 2018, eleição do Bolsonaro, e agora mais uma eleição que, de novo, reforçamos sua importância, que se insere nessa conjuntura um pouco mais ampla.
Olhando para o STF, podemos até traçar um pouco antes, com o Mensalão. Em toda a dinâmica de espetacularização que o poder judiciário vem tendo no Brasil, a partir dos anos 2000, o Mensalão é um momento muito importante. Historicamente, a gente dá muito mais atenção às eleições dos cargos majoritários: presidência da república, governo de estado e prefeituras. As eleições já têm um teor bastante personalizado, então, quem é o candidato? O que aquele candidato representa em oposição a uma outra personalidade política?
No nosso período de construção de um sistema partidário no Brasil, por volta dos anos 1930, quando começamos a estruturar partidos políticos, temos um período de ditadura. Depois uma quadra democrática, a primeira com certa estabilidade – mas bem longe de ser Estado [Democrático de Direito]. Tem Juscelino Kubitschek quase não assumindo; Jânio Quadros renunciando; golpe [de 1964]… Quer dizer, os partidos, que estavam se estruturando, tendo alguma capacidade de articulação nacional e também de identificação, isso também é interrompido ali com a ditadura. Que depois vem a Arena e o MDB. Com a redemocratização, em 1979, abre-se uma lei orgânica de partidos e aí a possibilidade de criação de vários partidos.
O Partido dos Trabalhadores (PT), partido com a maior identificação partidária, é criado nesse contexto. De lá para cá, temos muitos partidos. É claro que, com algumas legislações de cláusula de desempenho – a chamada cláusula de barreira também –, se tenta diminuir o número de partidos políticos. Ainda assim, são muitos partidos e as pessoas mal conseguem identificar quais partidos são e qual a diferença entre um e outro. Vira tudo uma coisa grande, homogênea e disforme, chamada Centrão, e, do outro lado, o PT.
Mas, quando a gente fala de cargos do legislativo, é fundamental entendermos essa estrutura partidária. Porque, para deputados estaduais, federais e vereadores, nós votamos no partido, não votamos na pessoa em primeiro lugar. Nós votamos no partido e dizemos quem gostaríamos que ocupasse a cadeira que o partido porventura venha a ganhar.
O nosso trabalho é quase ranquear os candidatos. Assim, fica muito difícil para as pessoas entenderem as crises institucionais, que se estendem. Além das pessoas conseguirem pouco identificar o papel dos partidos no legislativo, essa eleição ainda foi completamente capturada por todo o discurso de escândalo político e de corrupção. É uma eleição bastante complexa desse ponto de vista.
Com as redes sociais, temos visto um crescimento justamente nessa personificação de quem ocupa os cargos políticos e menos destaque no peso institucional partidário, mesmo em projetos políticos, na composição do Congresso. Porque, na verdade, as campanhas políticas não acabam nunca, elas continuam online ininterruptamente e de uma maneira totalmente personificada. Então, quais são os efeitos e riscos dessa personalização e dessa espetacularização da política?
A espetacularização da política não é de agora, mas ela se intensifica. Então, o que seria essa espetacularização da política? É a gente consumir a política como uma mercadoria, e, sendo uma mercadoria: “eu vou escolher aquilo que mais me convém, se serve mais para mim, se tem mais status’. Enfim, ela passa a ser uma dinâmica bastante individualizante e muito pouco responsável, na qual as pessoas “se tornam muito pouco responsáveis por aquilo que consomem”. E política não é assim.
O político que está lá, eleito por nós, não é o nosso funcionário. Não é assim que funciona a política. A política tem como base interação e coletividade. Então, uma vez que votei, consumi, pronto, paguei, minha responsabilidade acabou. A espetacularização é exatamente isso: consumir a política a partir da mercadoria, da imagem do espetáculo, enquanto uma passividade. “Eu sou a plateia e o espetáculo está ali, e eu estou consumindo aquele espetáculo”.
Porque a lógica algorítmica das plataformas vai tracionar ainda mais esse tipo de conteúdo e adicionando a isso, uma camada de personalização, que tem relação com o histórico da construção da política no Brasil, especialmente em um sistema presidencialista.
Não importa o meu perfil – se eu estou em um coletivo ou partido político – as redes tracionam ainda muitos conteúdos que são individualizantes, de indivíduos personalizados. Então, esses dois elementos, a personalização e a espetacularização, ganham ainda mais fôlego, mais ênfase nesse contexto de plataformização, e aí coloca-se uma terceira: o escândalo.
A escandalização da política, que também temos passado em alguns momentos de lá para cá – e eu estou falando dessa década crítica de 2013 – tendo como marco importante esse processo de escandalização. A política passa a ser consumida numa lógica entre o “bem e o mal”, entre o “mocinho e o bandido”, tem um enredo que acompanha-se como se fosse uma novela, um folhetim. Isso é muito despolitizante, porque a política fica capturada nesse contexto pela moral. Então, “a moral diz o que é certo, o que é errado, o que é o bom, o que é o mal” e aí as pessoas ficam até um pouco confusas. “Nossa, mas ele era bonzinho, agora não é mais?”
E por quê? Porque a política é tratada dessa maneira, a partir da moralização. Também temos outras questões, como o corte neoliberal nas nossas vidas como um todo, na nossa vida, no trabalho e também na política, que puxa para uma superindividualização. Tudo isso que estamos vivendo.
Agora, como sair disso? A política precisa ser trazida novamente para o debate, a política, política mesmo, a discordância, a busca por consensos, ainda que sejam consensos temporários. Porém, dentro dessa década tem sido complexo trabalhar isso. Em termos, como de Antonio Gramsci (1891-1937), estamos passando por uma crise de hegemonia. Nessa década crítica em que é muito difícil encontrarmos um sentido de direção política.
Por isso que a eleição é importante, mas ela é um momento. Se tratarmos a eleição como algo que vai resolver todos os nossos problemas, ano que vem, vamos voltar aqui e falar “nossa, e as instituições, hein?”
Inclusive vimos isso acontecer na passagem de Bolsonaro para Lula em 2023. Quando Lula é eleito, então pensa-se que “acabou a extrema direita no Brasil”; depois quando Bolsonaro é preso, pensa-se “acabou a extrema direita e o bolsonarismo no Brasil”. Mas estamos vendo que não é assim. Como se deu a movimentação da direita, nesse caso?
É interessante trazer essa questão do Bolsonaro, enquanto a vitória eleitoral em 2018. Eu falo muito isso: “ele não é como um raio de luz que apareceu no céu azul, de repente. Nossa, ninguém estava vendo e, de repente, um candidato de extrema direita é eleito”. A construção já vinha acontecendo nas redes, desde pelo menos 2010. Por uma rearticulação das chamadas “novas direitas”, articulando-se com uma direita mais tradicional, uma direita muito radical, uma direita das “viúvas da ditadura”.
Todos esses movimentos ajudaram a rearticular essa direita, que passa a não ter mais vergonha e encontra em Bolsonaro um projeto político viável, do ponto de vista eleitoral. E isso não aconteceu só no Brasil; também pode-se pensar isso nos Estados Unidos, em outros países em que a extrema direita também passa a ter essa viabilidade eleitoral. Mas não foi uma derrota em 2018. Eles elegeram uma série de senadores, deputados, governadores, e em 2022 também, com muita estratégia, com táticas muito claras.
Então, isso está acontecendo de forma sistemática desde 2010. Em 2018, tem esse momento importante da vitória à presidência da República. De fato, a cadeira de presidente importa, tem muito poder, tem capacidade de desarticular projetos políticos que estão em andamento, em disputa, tem um processo de desinstitucionalização muito grande, de rompimento de política pública. O retrocesso é muito grande; perder uma presidência da República é algo muito importante, mas não resolve todos os problemas. – Como eu estava falando – o Jair Bolsonaro perde em 2022, é preso, julgado e, ainda assim, existe uma força política e social bastante expressiva.
Ao menos 1.069 anúncios com menções a Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) no Facebook, Instagram e Threads foram pagos em dólar durante a campanha eleitoral de 2026. Dados da Biblioteca de Anúncios da Meta analisados pela Agência Pública revelam que os conteúdos custaram ao menos US$ 120,8 mil.
Os anúncios circularam sem rótulo de conteúdo político, mecanismo exigido pelas regras da Meta, entre 16 de agosto e 30 de setembro. Por isso, foram removidos por violação das regras da plataforma. Mas antes disso chegaram a mais de 82 milhões de impressões (número de vezes que um anúncio apareceu em uma tela).
O rótulo exige uma maior transparência sobre os anunciantes. Se os anúncios não estiverem rotulados como políticos, as páginas não são obrigadas a informar quem pagou pelos anúncios nem o público ao qual os conteúdos foram direcionados.
Impulsionamento do exterior
Algumas, no entanto, divulgaram à Meta que os anúncios foram pagos usando uma plataforma de pagamentos norte-americana chamada pagolink.global, não disponível no Brasil. A empresa tem sede em Delaware, estado que não exige identificação de sócios. Através dela, foi impulsionada uma campanha de conteúdos a favor do candidato Augusto Cury (Avante), conforme revelou a Agência Lupa.
Dentre os anúncios analisados pela Pública, a PagoLink Global foi responsável, por exemplo, pelo pagamento de um anúncio com um vídeo desinformativo sobre Lula (PT). Nele, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) tira de contexto uma fala do presidente para insinuar que ele teria ofendido garis. O post rodou nas redes sociais da Meta antes de ser suspenso, e atingiu mais de 150 mil impressões.
Anúncio com vídeo descontextualizado de Lula foi pago por empresa americana
Foi também através da PagoLink Global que foram impulsionados conteúdos contrários a Flávio Bolsonaro (PL). Entre eles, um anúncio que direcionava à reportagem do ICL que revelou que a empresa do candidato dividia endereço com escritório de Camilo Antunes, investigado por fraudes no INSS. O conteúdo atingiu mais de 70 mil impressões a um custo de US$ 200.
Anúncio pago por empresa dos EUA direcionava para reportagem sobre empresa de Flávio Bolsonaro (PL)
Para a advogada eleitoral Vânia Aieta, o mero uso de plataformas estrangeiras para o pagamento de anúncios não configura, por si só, uma violação, desde que seja declarado à Justiça Eleitoral.
Os anúncios, no entanto, violam norma eleitoral que proíbe o impulsionamento por terceiros.
“Não é permitido pagamento de impulsionamento se não for feito pela pessoa candidata ou por seu partido/federação ou diretamente da conta corrente eleitoral. Como a conta corrente eleitoral é obrigatoriamente em reais, também não pode haver pagamento em dólar”, explica o advogado Fernando Neisser.
Também é proibida a veiculação de anúncios com propagandas negativas sobre outros candidatos. “O impulsionamento de conteúdo em provedor de aplicação de internet somente poderá ser utilizado para promover ou beneficiar candidatura, partido político ou federação que o contrate”, diz a resolução nº 23.732/2024 do TSE.
“Impulsionamento ilegal tem previsão de multa de 5 mil reais ou o dobro do valor gasto naquele impulsionamento, o que for maior”, informa Neisser.
Questionada, a Meta afirmou que aplicou suas políticas contra os anúncios identificados pela Pública. “Nosso processo de análise de anúncios possui diversas camadas de revisão e detecção, antes e durante sua veiculação. Os anúncios citados pela reportagem foram corretamente identificados por nossos sistemas por não incluírem um rótulo sobre temas sociais, eleições ou política, e nossas políticas foram aplicadas a essas peça”, diz a nota encaminhada à reportagem.
O volume de reclamações judiciais sobre desinformação e publicidade digital irregular quase triplicou na Justiça Eleitoral em 2026 em relação às eleições de 2022, totalizando 9.571 processos no mesmo período até 1º.out.2026.
Esse montante corresponde a 11,4% do total de processos desse ciclo eleitoral, frente a 4,1% das eleições de 2022, de acordo com análise de dados feita pelo Núcleo.
A maioria desse tipo de processos envolve propaganda irregular em redes sociais e na internet em geral, inclusive impulsionamento de conteúdo denunciado.
Ao todo, o TSE já registrou ao menos 84,1 mil processos judiciais nesse ciclo eleitoral até 1º.out, cerca de 1% a mais do que no mesmo período em 2022.
Como fizemos isso
O Núcleo acessou dados de processos eleitorais no repositório de dados abertos do TSE. Última data de acesso 1º.out.2026.
Esses dados possuem um campo de assunto principal do processo em questão, além de outros assuntos relacionados. O Núcleo fez a junção de duas tabelas a fim de saber todos os assuntos mencionados, a partir do seguinte filtro.
internet (Propaganda Política – Propaganda Eleitoral – Internet)
redes sociais (Propaganda Política – Propaganda Eleitoral – Redes Sociais)
impulsionamento (Propaganda Política – Propaganda Eleitoral – Impulsionamento)
app de mensagem (Propaganda Política – Propaganda Eleitoral – Aplicativo de Mensagem Instantânea)
inteligência artificial (Propaganda Política – Propaganda Eleitoral – Uso de Inteligência Artificial)
deep_fake (Propaganda Política – Propaganda Eleitoral – Deep Fake)
fake news
Propaganda Política – Propaganda Eleitoral – Divulgação de Notícia Sabidamente Falsa (fake_news_a)
Propaganda Política – Propaganda Eleitoral – Divulgação de Notícia Sabidamente Falsa (fake_news_b, variante com caractere diferente)
Divulgação de Falsa Imputação (fake_news_c)
Desinformação sobre a Integridade do Processo Eleitoral (fake_news_d)
Divulgação de Fatos Inverídicos na Propaganda Eleitoral (fake_news_e)
Para a análise foram considerados processos únicos, levando em conta que um processo pode aparecer mais de uma vez quando muda de relator ou de instância. Vale notar que, embora a campanha oficial tenha começado em 16.ago.2026, há processos anteriores a isso sobre essas eleições na Justiça.
O Núcleo utilizou o modelo de IA Claude Fable 5.1 para checar as análises desenvolvidas por humanos e sugerir melhorias.
Faltam 28 minutos pro domingo virar segunda e o vagão só esvazia na estação Guilhermina-Esperança. O ambulante me cumprimenta com a cabeça, senta e acomoda a sacola preta entre as pernas. Estico o pescoço e vejo, lá dentro, algumas cocadas.
Parece que o dia foi bom, mesmo assim quero perguntar das vendas. Daria, com muito prazer, um pouco do meu tempo, do meu sono e até parte do que tenho na carteira para saber não só das cocadas. Quero conhecer, um tiquinho que seja, este trabalhador. Quem vende cocadas até o último trem do domingo tem muito pra contar.
Dou sorte. Mesmo tendo falado o dia inteiro de suas cocadas, que são gostosas, que desfazem na boca, que são baratas, que são mineiras e que vêm direto do Vale do Jequitinhonha, ele ainda quer falar.
Ajeita o boné, pigarreia.
— Meu nome é Getúlio. Getúlio Pereira da Silva. G. P. S. Nunca me perco. Entendeu? (rimos os dois) Mas sou conhecido como Raimundo. Eu explico: Pro ambulante, o marketing é tudo. Entro no vagão e anuncio: “Chegou a melhor cocada do mundo, a cocada do Raimundo”. Eu experimentei essa publicidade porque a rima é boa e eu sempre adorei o nome Raimundo. Tem passageiro que comenta. “Olha aí o Raimundo”. Então, deixa ficar. Virei Raimundo. Quer provar uma? É de graça que hoje esvaziei a sacola três vezes.
Aceito e me delicio com a doce mistura de coco e rapadura.
— Cremosa, né?
— Maravilhosa, Raimundo. Respondo com a boca ainda cheia e uma lasca de coco entre os dentes.
— Tem uns que reclamam da confusão. A gente grita mesmo. O jogador não pede a bola? O motoboy não buzina? O feirante não zoa? Por que a gente não pode? Ninguém é obrigado a saber da vida dos outros, mas será que eles sabem que, por trás de uma cocada, tem uma criança com fome, às vezes doente? Que tem aluguel, um monte de boletos, agiota te ameaçando?
— Quantos filhos você tem?
— Três. Olha aqui no celular. Anderson, Henrique e a caçula, a Marcela.
— Eu não peço nada, eu ofereço. Quem quer, quer. Quem não quer, não quer.
— Muita gente compra?
— Compra. E sabe por quê?
— Por quê?
— Porque o produto é bom e barato. E tem mais (ele sussurra): pobre não tem medo de gastar. Ele me vê e pensa: amanhã eu posso tá desempregado, posso ter que trabalhar como camelô. Então, eu ajudo agora e, se depois eu tiver no sufoco, alguém vai dar uma força.
— Mas dizem que é barato porque é clandestino.
— Mentira. É barato porque não tem intermediário; no supermercado o preço é maior porque eles têm muito mais despesas e também querem mais lucro. Aqui é diferente, vou no depósito e pago à vista.
— Então, por que é proibido?
— Porque é fácil mexer com o pobre. Eu garanto pro senhor. Meu produto não deve nada ao do supermercado. Eu ando de metrô e de trem todo dia e pago a passagem, viu? Eu sou camelô e passageiro ao mesmo tempo e garanto: a gente não atrapalha ninguém. Sabe o que atrapalha?
— O quê?
— O atraso e a superlotação. Tem que botar mais trens para circular. Só que a empresa ou o governo não quer gastar. É simples: com o trem cheio ganham mais. Agora, com a privatização, o que já era ruim ficou pior. Os vigilantes vêm pra cima como se o camelô fosse um bandido. Eu não sou bandido, sou empreendedor.
— Você manda bem, Raimundo. Já tinha falado de marketing, publicidade, agora empreendedor.
— Estudei um pouco. Empreendedor, eu ouvi essa no tempo que tinha passeata, sindicato. Durante um protesto, um cara subiu no caminhão e disse bem assim: Camelô é empreendedor e empreendedor é quem faz o Brasil crescer, nunca esqueci.
— Já tomaram sua mercadoria?
— Já, mas não desanimo. Toda profissão tem risco e eu adoro esse meu trabalho. Só que as autoridades não dão valor. Eles podiam cadastrar a gente.
— Como seria?
— Um número certo de ambulantes em cada trem, todo mundo com crachá, uniforme. Trabalho organizado.
Última estação. Getúlio levanta e me olha.
— Ué, não vai descer?
— Vou voltar. Vim até aqui para te ouvir.
A porta fecha e a gente acena um pro outro.
A voz feminina se impõe.
— Diamante Negro na promoção: é 3 por 5, que eu não brinco.
Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.
Nas duas últimas legislaturas no Congresso Brasileiro, 370 deputados e senadores foram responsáveis por propostas de lei que enfraquecem os direitos indígenas — e 270 deles disputam reeleição neste ano. Ao todo, esses políticos atuaram em 252 projetos, a maioria incidindo negativamente sobre o direito à terra para esses povos.
As informações são baseadas em um levantamento da Agência Pública a partir da nova plataforma lançada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o Congresso Anti-Indígena.
Entre os projetos de lei que afetam os indígenas, estão propostas que buscavam anular decretos de demarcação de territórios e outros que alteram a Constituição Federal, para que as decisões sobre a demarcação sejam feitas pelo Congresso Nacional — justamente onde estão os políticos que atuam contra a demarcação de mais terras.
Para Cleber Buzatto, missionário do Cimi Regional Sul, essa atuação mostra que o principal interesse é impedir as demarcações e também explorar as terras.
“Isso demonstra uma articulação dos setores anti-indígenas, seja do ponto de vista político, mas, também, dos grupos econômicos que têm interesses sobre as terras, portanto, se organizam e atuam de forma bastante enfática e violenta contra os direitos indígenas no Congresso Nacional por meio de um conjunto amplo de partidos e parlamentares”, explica Buzzatto.
Entre 513 deputados e deputadas federais eleitos em 2022, apenas cinco se autodeclaram indígenas, menos de 1% do total. Como a Públicamostrou, neste ano, o movimento indígena lançou 47 pré-candidaturas para tentar mudar esse quadro. “É importante que os próprios povos [indígenas] consigam acessar espaços nessas casas legislativas, especialmente no âmbito da Câmara dos Deputados, que é onde tem mais candidatos indígenas disputando as vagas, até para que essa diretriz seja coerente com a defesa de fato dos direitos e dos interesses dos projetos de vida e futuro dos povos indígenas”, afirma.
Atualmente, segundo dados do Cimi, 291 propostas legislativas que impactam os direitos indígenas tramitam no Congresso Nacional. Entre elas, 204 têm efeitos negativos, segundo o levantamento.
PL, de Bolsonaro, é o principal partido a votar em propostas anti-indígenas, aponta levantamento
A partir da análise de mais de 41 mil votos, a plataforma identificou, dentre os partidos políticos, 19 que votaram sempre ou quase sempre em projetos que vão contra os povos indígenas. Apenas oito partidos votaram favoravelmente.
O Partido Liberal (PL), do candidato à presidência Flávio Bolsonaro, fica em primeiro lugar tanto entre os partidos cujos políticos mais propuseram propostas anti-indígenas, quanto entre os parlamentares que mais votam em projetos contrários aos direitos desses povos. São 95 proposições e 6.630 votos desfavoráveis segundo a classificação do Cimi. Em seguida, está o MDB, com 47 proposições, e o Partido Progressista (PP), com 42. Já entre os partidos cujos políticos tiveram mais votos em projetos contrários aos direitos indígenas, após o PL, está o PP, com 3.232 votos, e, em terceiro lugar, o União, com 3.063.
Por outro lado, o Partido dos Trabalhadores (PT), do presidente e candidato Lula, é o que mais teve propostas e votos em projetos classificados como favoráveis aos indígenas, com 4.971 a favor e 71 proposições. Em seguida, está o PSB, com 1.127 votos a favor, e o PDT, com 1.114 votos. O PCdoB, mesmo com apenas 11 deputados na Câmara, tem 100% dos votos direcionados a pautas consideradas favoráveis aos indígenas. Após o PT, entre os partidos que mais propuseram propostas favoráveis, estão o Psol, com 31 propostas.
Políticos que fizeram mais propostas com efeitos negativos aos direitos indígenas, segundo o levantamento
Deputado federal Marcos Pollon (PL-MS)
Candidato à reeleição para deputado federal pelo Mato Grosso do Sul, o deputado tem um total de 26 propostas classificadas como contrárias aos direitos indígenas, sendo 24 delas sobre o direito territorial dos povos tradicionais. O deputado é o terceiro-secretário da Frente Parlamentar Invasão Zero, grupo criado em 2023 que defende o direito à propriedade contra o Marco Temporal.
Entre as principais propostas do deputado está o PL 2145/2023, que altera o “Estatuto do Índio” para impedir o reconhecimento de determinadas áreas como de ocupação tradicional. Já o PDL 521/2025 impede a atuação da Força Nacional em apoio à Funai na Terra Indígena Rio dos Índios (RS) e o PL 4039/2024 obriga a União a indenizar não indígenas em áreas que ocorreu esbulho por indígenas e que não eram demarcadas.
A reportagem procurou a assessoria do deputado, que afirmou, em nota, não reconhecer o Cimi como “autoridade para julgar meu mandato” e que seu trabalho para os povos originários é para que eles “tenham reconhecido o direito de propriedade das terras que ocupam e possam produzir e prosperar nessas áreas, sem violência no campo.”. O deputado também cita que atuou como consultor jurídico em 2015 durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cimi, criada para investigar as ações do órgão no estado. A CPI foi anulada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), que a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul não tinha competência para realizar a CPI.
Senador Luis Carlos Heinze (PP-RS)
Com 15 propostas classificadas como anti-indígenas, todas elas com relação ao direito territorial, o senador Luis Carlos Heinze, que teve passagem na Câmara dos Deputados e no Senado, ocupa o segundo lugar entre os políticos que mais propuseram leis contra os indígenas.
Entre as propostas de autoria do senador, estão três Propostas de Emenda à Constituição (PEC) que transferem do Poder Executivo para o Congresso Nacional a atribuição de demarcar terras indígenas, as PECs 61/2023, 319/2004 e 59/2023.
Questionado sobre sua posição diante a classificação que suas propostas são contrárias aos povos indígenas, Heinze em nota à Pública afirma que “suas propostas não são contrárias aos povos indígenas”. Segundo o senador, sua atuação “é pautada pelo respeito e defesa do direito de propriedade e da segurança jurídica no campo, garantindo a proteção aos produtores que possuem o título legítimo de suas terras” e também defendeu a inclusão dos povos originários “deve passar pela autonomia e pelo desenvolvimento econômico”.
Senador Zequinha Marinho (Pode-PA)
Concorrendo à reeleição no Senado, Zequinha Marinho é autor de 13 proposições legislativas que interferem no direito territorial dos povos indígenas.
Além de criar a PEC 10/2024, que modifica o artigo 231 da Constituição Federal para “permitir aos índios [sic] produzir e comercializar livremente sua produção”, que abre brechas jurídicas para a entrada do agronegócio em territórios reservados, o senador é também assina a PEC 59/2023, que retira o poder do Ministério da Justiça e da Presidência da República para decidir sobre demarcações, colocando o tema sob crivo dos parlamentares.
A reportagem procurou a assessoria do senador, que não respondeu.
Deputada Coronel Fernanda (PL-MT)
Com 13 proposições classificadas como contrárias aos indígenas, e concorrendo para a reeleição na câmara dos deputados, a deputada Coronel Fernanda apresentou propostas que também podem gerar danos ao meio ambiente.
O PDL 466/2023, de sua autoria, suspende o decreto nº 11.367/2023, que recriou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), enfraquecendo ferramentas de proteção ambiental e de enfrentamento à grilagem.
Também é de sua autoria o PDL 380/2024, que suspende resolução do Conselho Nacional de Política Indigenista que recomenda ao Governo Federal a inclusão do tema da demarcação das terras indígenas como eixo do Plano Clima.
Procurada, a assessoria da deputada não respondeu.
Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.
Noite de 12 de setembro de 2026, Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Um grupo de militantes de esquerda se reúne em uma casa após uma atividade política na cidade. Integra o grupo a advogada Fernanda Klitzke, candidata à suplente na chapa de Décio Lima (PT) ao Senado. Vizinhos chamam a Polícia Militar (PM), reclamando de barulho.
A polícia chega e a candidata se apresenta como advogada aos policiais e questiona uma abordagem. Fernanda é agredida com um mata leão, derrubada no chão, chutada, baleada com tiros de borracha e levada presa. Ela foi liberada em seguida e teve que passar por atendimento médico.
A partir desse caso, de 12 a 28 de setembro, um levantamento da Agência Pública compilou casos de violência política denunciados por candidatos nas eleições deste ano. Foram identificadas 11 ocorrências em quatro das cinco regiões do Brasil. Ao menos uma a cada 37h. O dado que mais chama a atenção é que dos 11 casos, 6 deles (54,5%) envolvem policiais ou agentes de segurança privada como os agressores.
A frequência de casos de violência política levantados pela Pública nesses 17 dias de campanha para o primeiro turno é maior do que a aferida no mais recente estudo realizado pelas ONGs Justiça Global e Terra de Direitos, que há 10 anos compila dados de violência política. No período entre o final do 2º turno da eleição de 2024 e a véspera do início da campanha política de 2026, dia 15 de agosto, foram 354 casos, um a cada 44h. Esse foi o período pré-eleitoral mais violento da série histórica, afirmam as organizações autoras do estudo.
Os 354 casos de violência política do estudo das ONGs representam um aumento de 18,4% em relação aos 299 casos registrados no período pré-eleitoral da edição anterior da pesquisa, entre 1º de novembro de 2022 e 15 de agosto de 2024. O levantamento aponta que a violência política não desaparece fora do calendário eleitoral, tanto que em 2025, ano sem eleições, 225 casos foram registrados.
PMs e seguranças contra a atividade política
O levantamento da Agência Pública encontrou três episódios em que não houve violência física, mas intimidação criminosa a candidatos durante suas atividades de campanha. Foram dois incidentes em São Paulo e um em Pernambuco, envolvendo dois candidatos homens e duas candidatas mulheres.
No último dia 15, a deputada estadual Rosa Amorim (PT), candidata a deputada federal, e a vereadora Jô Cavalcanti (PSOL), candidata a uma vaga na Assembleia Legislativa de Pernambuco, faziam panfletagem em frente ao Instituto Federal de Pernambuco, no Recife. Ambas são negras. Seguranças de uma empresa que prestava serviço na organização da fila de um exame pré-Enem retiraram o material das mãos dos estudantes e jogavam no lixo.
Em São Paulo, no Vale do Anhangabaú, o motoboy e candidato a deputado estadual pelo PSOL, Júnior Freitas, um homem negro, realizava uma atividade de campanha, no dia 19 de setembro, com bandeiras com um grupo de apoiadores quando foram abordados por um segurança dizendo que não era possível fazer campanha no local, que seria privado. O Vale do Anhangabaú é uma praça pública que passou por uma recente modernização e a gestão do espaço e segurança foram privatizados pela prefeitura de São Paulo. Depois da abordagem, questionada pelo candidato, a atividade prosseguiu.
Já o vereador Nabil Bonduki (PT) comandava uma pedalada com apoiadores no Minhocão, no dia 20 de setembro, uma via elevada para carros na capital paulista que aos finais de semana e feriados é liberada para pedestres e bicicletas. Ele foi abordado três vezes durante a atividade, uma delas por uma policial militar que pediu o RG do candidato, perguntou quantas pessoas estavam reunidas com ele e o tempo que ficariam no local.
Para o advogado Alberto Rollo, especialista em direito eleitoral, apesar de não-violentas, as três abordagens configuram o crime previsto no artigo 332 do código eleitoral: impedir propaganda, com pena de detenção de 1 a 6 meses de prisão e multa. Para o jurista, contudo, o que mais preocupa não é a abordagem em si, mas a presença da PM e um eventual direcionamento da polícia.
“O que preocupa mais é, pode ser ignorância [da policial militar que abordou o candidato], ela não sabe, ou pode ser ordem de alguém? É isso que preocupa. A Polícia Militar, eu não vou falar de prefeitura, vou falar de Estado. Polícia Militar é do Estado. Será que existe algum tipo de ordem para dificultar a propaganda de adversários políticos?”, questionou Rollo.
Em Prata, no Cariri paraibano, um grupo de simpatizantes do PT organizou e informou as autoridades locais sobre uma atividade com som em apoio à reeleição do presidente Lula no dia 12 de setembro. PMs e policiais da reserva apareceram no local atirando para o alto e para o chão. Manifestantes foram chamados de baderneiros e vagabundos. O PT denunciou o caso à Corregedoria da PM. A corporação afirmou, entretanto, que houve resistência à abordagem e que, por isso, foi necessário um disparo de advertência.
Ação suprapartidária contra abuso de autoridade
As ações violentas recentes contra candidaturas de esquerda chamaram a atenção do ex-senador Eduardo Suplicy, 85, fundador do PT e atualmente deputado estadual em busca da reeleição. Em vídeo publicado em seu Instagram, ele compilou diversos episódios ocorridos recentemente e defendeu uma atuação conjunta das forças políticas. “É preciso uma ação suprapartidária e denunciar à corregedoria e à ouvidoria da PM e ao Ministério Público e à Justiça Eleitoral”, afirmou.
De acordo com o jurista Alberto Rollo, o policial militar que impede ou atrapalha uma atividade de campanha política “pratica ato de abuso de autoridade, porque está impedindo alguma coisa que é lícita. Então, além do crime do Código Eleitoral, tem o crime de abuso de autoridade”.
Para o advogado, os candidatos vítimas de violência ou de abordagens policiais atrapalhando suas atividades políticas, devem, além de denunciar os casos à Justiça Eleitoral, procurar também a Justiça comum para denunciar o abuso de autoridade.
Segundo Gisele Barbieri, coordenadora de incidência política da Terra de Direitos, os casos de violência policial identificados na pesquisa “vem aumentando” e geralmente ocorrem durante manifestações em defesa de demandas populares e na forma de apreensão irregular de materiais de campanha.
“É preciso cobrar respostas quanto à apuração e responsabilização dos [agentes públicos] envolvidos por parte das corporações. São casos que nos preocupam e apontam para abuso de autoridade por agentes de segurança que deveriam proteger esses representantes políticos, principalmente, no período de campanha e no exercício de seus direitos políticos”, afirmou.
Ameaça à democracia
Para Glaucia Marinho, diretora-executiva da ONG Justiça Global, a participação de agentes de segurança pública na violência política é uma ameaça à democracia. “A pesquisa mostra que inclusive grupos criminosos e, até mesmo, policiais entre os responsáveis pelos atos de violência. Estamos diante de um cenário que ameaça não apenas a vida de representantes políticos, mas também o funcionamento das instituições democráticas. O Estado brasileiro precisa desenvolver e aperfeiçoar mecanismos eficazes de prevenção, proteção, investigação e responsabilização para enfrentar essa violência de forma contínua.”.
A pesquisa realizada pelas ONGs indicou ainda que em 64 episódios (18,1% do total) o agressor também possuía mandato eletivo ou cargo público. Quando somados a policiais e outros agentes estatais, os ataques cometidos por representantes do próprio Estado chegam a quase um terço do total (29,9%).
Situação relatada pelo policial civil e deputado estadual Leonel Radde (PT) ilustra essa realidade. Ele participava de uma atividade política em Charqueadas (RS), no dia 20 de setembro, acompanhado de uma vereadora da cidade, quando passou a ser ameaçado de morte por um policial penal armado e que, o deputado afirma, estaria alcoolizado.
No Rio de Janeiro, em 28 de setembro, o deputado estadual Flavio Serafini (PSOL) denunciou o colega de Alerj, Alexandre Knoploch (PL), por ameaça e invasão. Ambos disputam a reeleição. Em vídeo registrado por apoiadores de Serafini, Knoploch aparece mostrando uma arma na cintura. Em entrevistas, o candidato do PL admitiu ainda ter usado spray de pimenta contra os adversários políticos e afirmou ter sido intimidado.
Ataques são racistas e machistas
A menção ao gênero e à identidade racial de alguns dos políticos vítimas dos casos de violência levantados pela Pública nessa reportagem não é aleatória. A pesquisa da ONG Justiça Global e da Terra de Direitos aponta que metade das vítimas de violência política no período analisado é mulher, apesar de as mulheres ocuparem apenas 18% dos cargos no legislativo, segundo dados do TSE. A violência política, aponta a pesquisa das ONGs, além de machista é racista. Uma a cada três vítimas mulheres de violência política é preta ou parda.
Nos casos compilados pela Pública há 13 vítimas diretas, sendo cinco mulheres, três delas se autodeclaram negras. Entre os oito homens vítimas de violência política, um é negro.
Uma das mulheres negras vítima de violência política é a vereadora Iza Lourença (PSOL), de Belo Horizonte. Candidata a deputada estadual, ela teve o comitê atacado por adolescentes com uma bomba caseira que explodiu no portão do imóvel. Dois funcionários do comitê foram agredidos.
No local, afirma a vereadora, foi roubado um banner e outros materiais da candidata e deixado material de campanha do deputado federal e candidato à reeleição Nikolas Ferreira (PL). Imagens que ela obteve de câmeras de segurança mostram os menores correndo e entregando uma sacola com o banner furtado nas mãos de um homem, que se disse apoiador do PL e que foi detido.
A pesquisa da Justiça Global e da Terra de Direitos encontrou ações assumidas inclusive por grupos ou perfis declaradamente neonazistas ou supremacistas. Foram quatro casos de ameaça, todos contra mulheres pretas, em quatro estados: a prefeita Professora Nilda, de Parnamirim (RN), e as vereadoras Alice Carvalho (Santa Maria, RS), Vivi Reis (Belém, PA) e Adriana Gerônimo (Fortaleza, CE).
Em uma das ameaças, o grupo exigiu que a vítima renunciasse ao cargo para parar com as agressões. No caso de Belém, um grupo que se denomina “Nova Ordem Ariana”, ameaçou de estupro e morte a vereadora Vivi Reis e fez menção a um massacre. O caso de Fortaleza descreve as armas e um plano de dupla execução na casa da vereadora Adriana Gerônimo, alcançando também a esposa da parlamentar.
O último incidente do levantamento da reportagem da Pública também aconteceu em Santa Catarina. Na noite de domingo (27), em Itajaí, a casa da mãe do candidato a senador pelo PT, Décio Lima, uma idosa de 88 anos, que tem Alzheimer, foi atacada a pedradas por uma pessoa em um carro. A pedra quebrou uma janela do imóvel e parte de uma estrutura em madeira. Havia três pessoas no local, mas ninguém se feriu. Na frente da casa havia banners do candidato.
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Nove entre dez colunistas de política da grande imprensa lamentam que a gente esteja discutindo Nossa Senhora da Aparecida no final da campanha eleitoral. Enquanto isso, nunca o noticiário foi tão contaminado pela negação do subjetivo – a religiosidade do brasileiro -, e nunca soou tão parcial – por mais que se reafirme a “isenção” da imprensa. Além de críticas de diversos veículos a respeito da cobertura do episódio, a própria Globo, uma das protagonistas do caso, se tornou alvo de protestos de eleitores.
Sim, esse é um assunto relevante para a população e deve fazer parte do debate público em um momento em que a religião é explorada politicamente e invade até as decisões do TSE, como vimos acontecer mais uma vez.E a imprensa errou de cabo a rabo – do desmentido da Globo sobre uma afirmação correta de uma jornalista responsável, ao bombardeio de títulos e notícias sobre a “fake news”, criada e propagada pela própria imprensa a partir da “correção” e depois manipulada nas redes sociais.
Em vez de defender a jornalista, que jamais disse que Flávio pretendia destronar a santa, mas apenas comentou um fato que já viralizava nas redes – a existência de “um movimento da Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos que está mobilizando um projeto de lei para tirar de Nossa Senhora da condição de padroeira” – que, segundo ela, poderia ter impacto entre “os eleitores católicos de Lula”, a imprensa embarcou no desmentido da Globo (com aquele comportamento de boiada que já comentei na coluna anterior). Até mesmo entidades como a Abraji e a Fenaj demoraram a manifestar solidariedade e não citaram o nome da empresa que cometeu o erro que gerou agressões à jornalista.
A imprensa também não questionou o fato gravíssimo que foi a censura de opinião do humorista Antônio Tabet, que apenas exerceu o direito à liberdade de expressão como reconheceu o próprio TSE na quarta-feira, após o ministro André Mendonça mudar o seu voto. A reação foi a de “proteger” Flávio de prejuízos eleitorais pela alegada falsa informação – logo ele, que usa a desinformação como ferramenta de campanha e conta com aliados que agridem pessoas nas redes – como fez o blogueiro foragido Allan dos Santos em reação violenta e repugnante ao protesto da CNBB. Nem quando o direito de expressão dos brasileiros foi massivamente cerceado pelas Big Techs depois da determinação de censura de Mendonça – um tema eminentemente jornalístico – reviu sua posição.
De lá para cá cometeu também o erro da arrogância elitista (ou seria constrangimento por seu papel?) ao desvalorizar o tema de um debate público que acontece e precisa acontecer no Brasil sob a desculpa cínica de que eleitores e candidatos deveriam estar discutindo propostas que podem mudar o Brasil (como se a imprensa estivesse fazendo isso, em vez de se embrenhar em vazamentos seletivos de escândalos de corrupção).
A separação de Igreja e Estado é condição necessária para a democracia, estabelecida no Brasil na Constituição de 1891 e reforçada no artigo 19 da Constituição de 1988, que inspirou a legislação eleitoral que proíbe a propaganda política em igrejas e a doação de recursos para campanhas, assim como a destinação de recursos públicos para igrejas – embora isso aconteça, como sugere a ligação da Igreja da Lagoinha com o banqueiro Daniel Vorcaro e seu cunhado Fabiano Zettel, maior doador das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas nas eleições de 2022.
Mas a mesma Constituição cidadã, pilar da redemocratização brasileira, foi promulgada pela Assembleia Constituinte “sob a proteção de Deus”, o que não retira a laicidade do Estado, já que o impede de privilegiar uma religião determinada. Talvez seja apenas uma reafirmação da fé que ressoa na nossa alma brasileira, também formada por histórias milagrosas como a dos pescadores que no século 18 encontraram uma pequena imagem de uma santa negra, que fez jorrar peixes em suas redes, e depois se tornou a padroeira do Brasil.
Não se brinca com a fé, como sabe Fernando Henrique Cardoso que perdeu a primeira eleição para prefeito de São Paulo depois da ditadura, em 1985, para qual era francamente favorito, depois de se embananar para responder se acreditava em Deus, pergunta feita pelo jornalista Bóris Casoy, colunista e ex-editor-chefe da Folha de São Paulo, que sabia de antemão a resposta do sociólogo e o efeito negativo sobre sua candidatura.
É exatamente pela complexidade e subjetividade do assunto que a cobertura da imprensa deve ser duplamente cuidadosa, sem vestir a capa da neutralidade enquanto alimenta o discurso dos que valem de crenças religiosas para se eleger – como fez Flávio em aliança com Mendonça, ao transformar a disputa no STF em guerra santa e o ministro em ícone de campanha – e sem desprezar o impacto que esses temas têm para nós, brasileiros.
No Brasil, onde há tantos pais fujões, ausentes ou mesmo estupradores, não há referência afetiva maior do que a mãe, a mulher negra ancestral que criou e cria o povo brasileiro. Nossa Senhora, entre nós, responde por muitos nomes – da Conceição, da Praia, de Aparecida – e tem afinidade (sincretismo) com Oxum, a orixá da feminilidade e maternidade, assim como Nossa Senhora dos Navegantes com Iemanjá.
Nossas “nossas senhoras” nos abençoam dentro da complexa espiritualidade dos brasileiros, que ultrapassa o limite das igrejas e das religiões, como Eduardo Coutinho discute no documentário “Santo Forte” e confirmou recentemente pesquisa do Iser/Quaest.
Os evangélicos – ou os que pretendem agradá-los – têm o direito de discutir se Nossa Senhora da Aparecida do Brasil, declarada padroeira do país pelo Vaticano, em 1930, quando o poder da Igreja Católica era incontestável, deve permanecer como tal, como faz o projeto do pastor e ex-deputado Victor Galli (da ala mais direitista e mais enfurnada na política dos neopentecostais), desde que de forma transparente, com os candidatos assumindo suas convicções e não de maneira subliminar como apontou a CNBB. Também os católicos e outros simpatizantes de Nossa Senhora têm o direito de escolher candidatos de acordo com a sua fé.
O que os políticos evangélicos não podem é celebrar cultos no Congresso Nacional, exigir alinhamento político do Brasil a Israel (que consideram uma nação sagrada), impedir políticas públicas de igualdade de gêneros sob pretexto religioso, negar a autonomia da mulher inclusive em projetos de lei, utilizar templos como plataformas de campanha, destruir culturas indígenas, lançar fake news contra candidatos a ponto de identificar um deles com a figura do “diabo”, apoiar a destruição de terreiros e a agressão a pessoas de outras religiões, sobretudo de origem africana.
É nesse contexto que se trava a batalha por Nossa Senhora, embora nada disso tenha sido mencionado pela imprensa neste debate tão crucial em um país que ainda luta pela separação entre igrejas e Estado e não é capaz de garantir a todos os direitos constitucionais, inclusive a liberdade religiosa, afetada pelo racismo e instrumentalizada por políticos como o próprio Flávio Bolsonaro.
Boa votação a todos, que como sabemos, estarão rezando pela vitória do seu candidato.
Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.
O mercado do tiro participa das eleições financiando campanhas e lançando candidatos próprios, enquanto alguns parlamentares eleitos defendem suas pautas no Congresso. Empresários de clubes de tiro e fabricantes, comerciantes e importadores de armas despejaram pelo menos R$ 1,2 milhão na campanha deste ano, revela cruzamento de dados feito pela Agência Pública.
O levantamento, que considera doações registradas no Tribunal Superior Eleitoral até 30 de setembro, mostra que 96 candidatos foram beneficiados com financiamento de 98 empresários ligados ao setor.
Há ainda 28 sócios e administradores que registraram candidaturas próprias – metade deles concorrem pelo PL, partido do candidato à presidência Flávio Bolsonaro. Eles disputam principalmente cargos de deputado estadual (17), mas há registros para deputado federal, vice-governador e 1º suplente de senador.
Entre os candidatos que receberam doações desses empresários, estão nomes conhecidos, como os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG), Kim Kataguiri (Missão-SP) e Julia Zanatta (PL-SC), que concorrem à reeleição. Com exceção de Zanatta, que recebeu R$ 5 mil, os outros dois deputados receberam valores baixos, inferiores a R$ 400. Os três defenderam ou beneficiaram o setor durante seus mandatos.
As maiores quantias foram recebidas pelos candidatos filiados ao PL (R$ 420 mil), ao Republicanos (R$ 153 mil) e ao Novo (R$ 133 mil) – juntas, as três legendas de direita e extrema direita concentram quase 60% dos R$ 1,2 milhão doados a candidatos.
As doações registradas até agora são menores do que as computadas nas eleições de 2022, quando 118 empresários do setor doaram R$ 2,69 milhões a 126 candidatos.
O cruzamento considerou todos os clubes de tiro, fabricantes, vendedores e importadores de armas e munições com registro no Exército e cruzou com a base de dados da Receita Federal para chegar aos nomes dos sócios e administradores. Desde 2015, é proibido que empresas façam doações a campanhas políticas – esse espaço é hoje ocupado por pessoas físicas.
A doação de campanha é permitida por lei e não implica nenhuma irregularidade. Ela, no entanto, pode ser um indicativo dos setores que serão defendidos e beneficiados caso os financiados sejam eleitos.
Para Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, esse apoio eleitoral ajuda a sustentar uma agenda do setor, que passa pela compra de armas, pela redução da tributação e pelo funcionamento dos clubes. “O lobby parlamentar visa prioritariamente à aprovação de projetos de lei que flexibilizem o comércio, ampliem o porte de armas para categorias funcionais, diminuam tributos e reduzam o controle estatal sobre os clubes de tiro. Apoiar candidatos alinhados garante uma bancada ativa e comprometida com a ampliação contínua das garantias econômicas e operacionais do setor”, analisa a especialista.
Na avaliação de Felippe Angeli, coordenador de advocacy do Justa, a proibição de doações empresariais em 2015 mudou a forma de participação desse mercado no financiamento eleitoral. “Desde a proibição de doações de pessoas jurídicas, donos e executivos das grandes indústrias, além de empresários de clubes de tiro, continuam doando como pessoas físicas. Eles encaram essas doações como investimento estratégico”. A leitura do coordenador descreve a articulação do setor – os registros de doação, isoladamente, não são suficientes para revelar a motivação de cada financiador.
Conflito de interesses?
Julia Zanatta (PL-SC) é uma dessas pontes entre o setor e o Congresso. Aos 41 anos, a catarinense natural de Criciúma construiu sua ascensão política alinhada ao bolsonarismo e às pautas conservadoras. Formada em jornalismo e direito, Zanatta chegou à Câmara na eleição de 2022 e fez da defesa das armas uma marca do mandato. Em 2025, ela destinou uma emenda parlamentar de R$ 800 mil (posteriormente ampliada para cerca de R$ 999 mil) para a prefeitura de São José, em Santa Catarina, contratar um clube de tiro de um aliado seu para realizar treinamentos para a Guarda Municipal.
Deputada federal Julia Zanatta em foto, no Instagram, em um trono de fuzis
Em novembro de 2025, o ICL Notícias revelou que uma auditoria do Tribunal de Contas de Santa Catarina identificou indícios de direcionamento na contratação. A prefeitura negou irregularidades e afirmou ter seguido a legislação. À época, a deputada disse em suas redes sociais que a destinação da emenda atendeu a todas as exigências legais de transparência e rastreabilidade. Afirmou ainda que manteria o direcionamento de verbas para treinamentos em clubes de tiro, estendendo o investimento para a aquisição de armamentos, fuzis e munições.
Carolina Ricardo, do Sou da Paz, faz uma dura crítica quando o apoio político se transforma em destinação de dinheiro público sem transparência. “Uma coisa é a atuação política legítima no processo legislativo, outra, completamente diversa, é o desvio de emendas públicas para custear campeonatos privados ou pagar serviços de clubes particulares sem concorrência transparente. O direcionamento de emendas para capacitação de Guardas Civis Municipais em estandes privados exemplifica o uso personalista do recurso público, frequentemente desprovido de rigor licitatório.”
Além dessa emenda, a bandeira pró-armas de Zanatta aparece em seus discursos, nas visitas aos clubes de tiro e nos nomes que ajudaram a financiar sua campanha. Um deles é Filipe Silveira Pavei, sócio-administrador da Pavei Brasil e de outras empresas de comércio e importação de armamentos. Em 2022, ele doou R$ 10 mil à deputada. Na campanha deste ano, o levantamento identificou um aporte de R$ 5 mil. O empresário também contribuiu para a campanha de outros candidatos.
A Agência Pública procurou Zanatta, Kataguiri, Nikolas Ferreira e o empresário Filipe Silveira Pavei, mas eles não responderam até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.
Dinheiro público, campanha própria
Um empresário do setor simboliza como negócios e política se retroalimentam. Wagner Higa de Freitas é sócio de uma empresa de comércio de armas e também presidente da Federação de Tiro do Mato Grosso do Sul. A federação foi contemplada por uma emenda de R$ 3 milhões do deputado federal Marcos Pollon (PL-MS), anunciada em dezembro de 2025. Além de ter sido beneficiado com dinheiro público, Higa de Freitas é candidato a deputado estadual (PL-MS) neste ano e recebeu doações de cinco empresários do setor para sua campanha.
A emenda de Pollon, segundo o G1, era para a melhoria das estruturas dos 61 clubes de tiro filiados à federação de Freitas, para a aquisição de um playground e para a realização do primeiro Campeonato Estadual de Tiro em 2026. À época, Pollon defendeu a destinação do recurso público como uma forma de valorizar o tiro esportivo.
Apesar de, neste ano, Pollon ainda não ter recebido doações de empresários do setor, o deputado e candidato à reeleição é conhecido defensor dos clubes de tiro e das empresas de armas.
Deputado federal Marcos Pollon (à dir.) em cena de vídeo ao lado de Wagner Higa de Freitas, no Instagram
Aos 45 anos, o advogado de Mato Grosso do Sul é fundador do PROARMAS, movimento que mobiliza apoiadores do acesso civil ao armamento. Antes de pedir votos, ele já atuava no debate sobre as regras para caçadores, atiradores e colecionadores, os CACs. Em 2022, foi eleito com 103.111 votos, a maior votação para deputado federal no estado.
Durante o seu mandato, o bolsonarista apresentou projetos que beneficiam o setor, inclusive no campo tributário. Duas das propostas apresentadas propõem isenção de tributos a armas, munições e equipamentos comprados por atiradores desportivos registrados ou por mulheres vítimas de violência doméstica. Pollon também quer criar, com recursos públicos, o “Programa Minha Primeira Arma”, que subsidia a aquisição do primeiro armamento. Para os clubes de tiro, o deputado defende qualificá-los como Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscips). O deputado usa o mesmo argumento, o do tiro como atividade de interesse coletivo, ao destinar recursos públicos à federação de Mato Grosso do Sul.
Pollon e Zanatta assumiram seus mandatos no início de 2023, em meio a uma virada na política de armas. Entre 2019 e 2022, o governo Bolsonaro ampliou a quantidade de armamentos e munições que civis e CACs podiam comprar e reduziu a fiscalização do setor. Porém, no seu primeiro dia de governo, Lula assinou o Decreto 11.366, que revogou normas da gestão anterior, suspendendo novos registros de clubes de tiro e CACs e restringindo a compra de armas e munições por civis.
Em julho, o governo publicou a nova regulamentação do Estatuto do Desarmamento, e Zanatta, cinco dias depois, tentou reverter parte das restrições no Congresso.
Carolina vê nessa reação uma mudança na forma de atuação política dos defensores das armas. “O debate público arrefeceu em relação à exaltação bélica de 2022 [sob Bolsonaro], mas a articulação legislativa prossegue de maneira silenciosa. Com os limites impostos pelos decretos do atual Executivo e a atuação da Polícia Federal, os parlamentares do setor concentram seus esforços em projetos de lei infraconstitucionais e negociações de bastidores.”
Grandes doadores, grandes negócios
No levantamento da Agência Pública, apenas cinco doadores concentram mais da metade (55,6%) dos recursos investidos nos candidatos deste ano. Bernardo Simões Birmann, membro do conselho de administração da Taurus e administrador da AMTT CBC Comércio Varejista Ltda, destinou R$ 150 mil a Thiago Virgilio Teixeira de Souza (Republicanos-RJ), candidato a deputado estadual. Além disso, ele também injetou R$ 50 mil na campanha do deputado federal Roberto Luiz (PL-RJ), candidato à reeleição. É o maior valor destinado por um empresário a candidatos no levantamento de 2026.
Birmann também aparece entre os financiadores de 2022. Naquele pleito, destinou R$ 100 mil a Julio Lopes (PP-RJ) e R$ 35 mil a Hugo Leal (PSD-RJ). A presença do mesmo doador em duas eleições mostra a continuidade das contribuições, embora os beneficiários tenham mudado.
Outra parcela expressiva vem de dirigentes de entidades esportivas. Ronaldo Baumgarten Neto, presidente do Tabajara Tênis Clube, que tem um estande de tiro, doou R$ 100 mil à candidatura para a Câmara dos Deputados de João Paulo Kleinübing (PL-SC).
Cinco empresários ligados a empresas de armas e clubes de tiro concentram 55,6% dos recursos investidos nos candidatos deste ano
Procuramos Bernardo Simões Birmann, da Taurus, Thiago Virgilio Teixeira de Souza (Republicanos-RJ), Ronaldo Baumgarten Neto e João Paulo Kleinübing (PL-SC), mas eles não responderam até a publicação deste texto.
Empresários que disputam cargos
Maycon Henrique Tombini reúne as duas formas de participação. Identificado como sócio da Liga Nacional de Rifle, ele disputa uma vaga de deputado federal pelo PL de Goiás e investiu R$ 184,5 mil na própria campanha.
Em 2022, Tombini constava como financiador de outras candidaturas, com destaque para os R$ 66,9 mil destinados ao Major Vitor Hugo (PL-GO), que foi deputado federal entre 2018 e 2022, mas não conseguiu se eleger naquele ano. Agora, ele está entre os que buscam ocupar novamente uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Entre os empresários-candidatos, destaca-se também um dos conselheiros da Taurus, a maior fabricante de armas do país. José Paulo Cairoli (MDB) foi vice-governador do Rio Grande do Sul e hoje concorre a uma vaga como 1º suplente ao Senado.
Procurados, Maycon Henrique Tombini, Major Vitor Hugo, Wagner Higa de Freitas e José Paulo Cairoli não se manifestaram até a publicação deste texto.
A questão do armamento e dos incentivos ao setor ultrapassa os muros empresariais e os corredores do poder – e atinge diretamente a sociedade.
Para Ricardo, a discussão sobre quem financia e quem decide a política de armas precisa considerar também quem sofre suas consequências. “A violência armada não se dispersa de maneira neutra: ela incide com maior gravidade sobre as populações negras, periféricas e vulneráveis. O incremento de armas em circulação, seja pela letalidade direta, seja pelo extravio e incremento do poder bélico de grupos criminosos, recrudesce de forma trágica a desigualdade e a insegurança nos territórios mais desassistidos do país.”
METODOLOGIA
A Pública cruzou listas de quatro grupos empresariais que estão na Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados do Exército com cadastros da Receita Federal e dados eleitorais do TSE. Entraram no cruzamento registros de clubes de tiro e fabricantes, vendedoras e importadoras de armas de fogo, munições, armas de pressão, produtos menos letais e insumos como peças, carregadores e acessórios. Ficaram de fora atividades exclusivamente químicas, explosivos de mineração, fogos de artifício e blindagem de veículos sem vínculo com armas.
Foram identificadas pessoas físicas que aparecem como sócios, administradores e dirigentes, além de empresários individuais e representantes cadastrais de sócios. O cruzamento eleitoral combina nome e os dígitos disponíveis do CPF. A base da Receita foi obtida em agosto de 2026: esses vínculos não comprovam, por si, que a mesma função era exercida em 2022. Diferenças de grafia e empresas sem pessoa física identificada no cadastro também limitam a abrangência do levantamento.
Os dados eleitorais foram extraídos em 30 de setembro de 2026. Repetições causadas pelo vínculo de uma pessoa com mais de uma empresa foram descontadas, e as abas por atividade não foram somadas entre si. Como a eleição está em curso, os valores de 2026 são parciais. A inclusão no levantamento identifica um vínculo cadastral e uma movimentação declarada, sem presumir irregularidade ou uma motivação comum a todos os doadores.
Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.
A cada seis horas, uma mulher foi vítima de feminicídio no Brasil em 2026. De janeiro a julho, foram 848 assassinatos femininos, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), uma média de quatro a cada dia. Mais de 62% das vítimas desse tipo de crime, desde 2021, são negras e metade tem entre 30 e 49 anos, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Apesar da segurança pública ter sido apontada como a principal preocupação do brasileiro nas eleições de 2026, a legislação não tem acompanhado o desafio de proteger as mulheres no Brasil – e quando se tratam de mulheres negras trabalhadoras, o grau de correspondência entre o que é decidido no Congresso Nacional e quem acaba beneficiado pelas leis pode passar batido na hora do eleitor escolher seu candidato. Justamente por isso, relembrar é votar.
Poucas propostas que visam a proteção feminina tramitaram na última legislatura e, entre elas, a de maior expressão foi o PL da Misoginia (PL 896/23), que busca alterar a Lei de Racismo (Lei 7.716/86) para incluir os crimes de ódio contra mulheres e endurecer as penas atuais, além de torná-los inafiançáveis e imprescritíveis. Em julho de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o REC nº 3690/2026, para acelerar a votação do PL da Misoginia por 293 votos.
Mesmo com a proximidade das eleições e a urgência da pauta no debate público, 158 parlamentares votaram contra o adiantamento. Um levantamento realizado pela Agência Pública tentou identificar como esses deputados se posicionaram em outras pautas de interesse público que contemplassem questões de gênero ou segurança pública.
Além de se posicionarem para frear o PL da Misoginia, oito parlamentares também trabalharam para impedir o acesso de mulheres ao aborto legal, defenderam a fragilização de cláusulas pétreas como a presunção de inocência e se opuseram ao fim da escala 6×1. São eles: Bibo Nunes (PL-RS), Daniel Freitas (PL-SC), Fabio Schiochet (União-SC), Julia Zanatta (PL-SC), Maurício Marcon (PL-RS), Nicoletti (PL-RR), Pezenti (MDB-SC) e Ricardo Guidi (PL-SC). Todos voltam a concorrer pelos votos dos eleitores em 2026, Nicoletti pelo Senado e os demais pela reeleição na Câmara.
Atualmente, a principal lei em vigor no Brasil que trata da misoginia, o ódio ou aversão às mulheres pelo fato de serem mulheres, é a Lei 13.642/18, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade de investigar crimes de misoginia na internet. Para especialistas ouvidos pela Pública, a legislação ainda é insuficiente para lidar com o desafio que se impõe às mulheres.
“É fundamental que o Projeto de Lei [da Misoginia] seja aprovado logo, colocado em vigor e que as pessoas comecem a entender que isso é muito grave. Nós estamos falando de metade da população brasileira que está sob constante ameaça em função dessa perspectiva, que vai começar na misoginia e que termina no feminicídio”, avalia a pesquisadora em violência de gênero e professora da Universidade de Brasília (UnB), Carla Antloga.
Os crimes de misoginia, agressões e outras formas de violência contra mulheres contribuem para a cultura de dominação que leva ao assassinato. Segundo o relatório Retratos do Feminicídio no Brasil, em 2024, 66% dos casos de feminicídio ocorreram na residência da vítima, 80% dos casos envolvendo companheiros ou ex-parceiros. Em 2025, 148 mulheres foram mortas mesmo tendo uma Medida Protetiva de Urgência (MPU) vigente. Além disso, 41% da população feminina, 42,5 milhões de mulheres, já sofreram algum tipo de agressão ao longo da vida, incluindo ofensas verbais.
Outra questão que poderia mobilizar o eleitorado feminino diz respeito à mobilização contra a Resolução 258 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) sobre o aborto legal. As diretrizes, publicadas em janeiro de 2025, garantiam o aborto legal e seguro para os casos de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, mas foram contestadas pelo Congresso.
Em novembro, o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 3/25, da deputada Chris Tonietto (PL-RJ) foi votado e aprovado na Câmara, por 317 a 111, dificultando o acesso ao procedimento nos moldes da lei.
Julia Zanatta é a única parlamentar entre o grupo que votou contra acelerar o PL da Misoginia e pautas como aborto legal, fim da escala 6×1, mas a favor das PECs da Blindagem e da Segurança
Na ocasião, Zanatta, única mulher entre os oito identificados pela Pública que se opuseram às principais demandas populares quanto a pautas de gênero e segurança votadas entre 2025 e 2026, chegou a afirmar em plenário que “o que está em jogo aqui é muito mais que uma Resolução, trata-se de uma invasão de competência, e por isso, apresentei um Projeto de Lei proibindo o Conanda de tratar desse assunto e usurpar a competência que cabe ao Congresso Nacional. Se essa Resolução sanguinária for aprovada, a responsabilidade será inteiramente do governo Lula”, justificando a apresentação do Projeto de Lei 4.296/24 para proibir a autoridade do Conanda sobre o procedimento.
Os oito deputados identificados neste levantamento se autodeclaram brancos, sete representam a Região Sul do Brasil, e seis são do Partido Liberal (PL) – metade também declara ser empresário no campo profissão do Portal da Câmara dos Deputados.
Segundo a professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Cintia Pinheiro de Souza, o parlamento precisa ser diverso para que se aproxime do perfil do eleitorado. No entanto, a professora acredita que essa representatividade nem sempre é definidora de voto.
“Para parte do eleitorado, isso pode ser importante, mas não significa que seja uma preocupação ampla. Há outras questões que costumam ser priorizadas na hora do voto: a viabilidade da candidatura, pois eleitores não querem desperdiçar seu voto, a competência, a reputação, e as ações passadas”, avalia.
Entre o grupo identificado pela Pública, apenas Nicoletti não disputa reeleição e concorre a uma vaga no Senado
Além disso, o peso da representatividade em uma eleição não significa necessariamente um comportamento recorrente padrão. Segundo pesquisa Datafolha BR-09956/2026, de junho deste ano, somente 23% dos eleitores brasileiros se lembram em quem votou para cargos no legislativo nas eleições de 2022.
Ao longo de uma semana, a Pública procurou duas vezes, por e-mail e telefone, os parlamentares para questionar as justificativas de seus votos, em particular, sobre as pautas de interesse do eleitorado feminino. Apesar do contato direto com as equipes de gabinete de Freitas, Nicoletti, Nunes, Pezenti, Schiochet e Zanatta, os deputados preferiram não se pronunciar sobre o assunto até o momento. Os representantes de Guidi e Marcon não atenderam o telefone e foram procurados por escrito, mas não responderam aos contatos da reportagem. O espaço segue aberto e será atualizado tão logo haja manifestação.
O clamor (ignorado) das ruas e estações de trabalho
Entre os oito deputados que se opuseram ao PL da Misoginia, ao PDL que dificulta acesso ao aborto e também foram contra o fim da escala 6×1, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 221/2019, quatro são empresários, cinco representam Santa Catarina, dois, o Rio Grande do Sul, e um, Roraima. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Santa Catarina e Roraima estão entre os estados com maior parcela de trabalhadores no regime 6×1, em segundo e terceiro lugares, respectivamente. Mas essa não é a única desconexão de representação observada.
Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil é composto por 51% de mulheres e de maioria negra, 55%, entre pretos e pardos. Já de acordo com o MTE, 35 milhões de pessoas trabalhavam acima de 40 a 44 horas semanais até 2025; mais de 14 milhões trabalhavam 6 dias na semana e folgavam um, incluindo mais de um milhão de trabalhadoras domésticas. O cenário de quem debate e vota pelo fim da escala 6×1 no Congresso, que tem maioria de homens brancos, não corresponde ao perfil demográfico brasileiro.
A PEC 221/2019 ficou parada até março de 2023 e foi retomada após mobilização nas redes sociais e nas ruas, com o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e demais organizações, atuando em grandes centros urbanos do país. A proposta foi aprovada na Câmara, em 27 de maio de 2026, por 461 votos. Apenas 19 parlamentares se disseram contra a adequação da jornada de trabalho do brasileiro.
Os oito deputados identificados pela Pública estavam entre os 19 que se opuseram ao fim da escala 6×1. Mais que isso, o grupo também assinou a emenda nº 1 à própria PEC 221/2019, de autoria do deputado Sérgio Turra (PP-RS), dando prazo de 10 anos para que as empresas incorporem a redução da jornada de trabalho para 40h semanais, e permitindo que empregadores aumentem em até 30% (52 horas) a jornada de trabalho de seus funcionários.
Atualmente a PEC tramita no Senado Federal, onde foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça e aguarda votação em plenário.
Maior parte dos deputados que votaram na combinação de pautas de interesse do eleitorado feminino representa Santa Catarina, a exemplo de Daniel Freitas
Na proteção dos seus, a postura é outra
O mesmo grupo de oito deputados que se posicionou contra pautas de gênero e de trabalho, que interessam boa parte da população beneficiada, se pôs a favor de outras duas pautas que dividem opiniões e podem beneficiá-los eleitoral ou juridicamente. Os parlamentares defenderam a PEC da Segurança Pública, 18/2025, que endurece medidas de segurança e pode eliminar garantias constitucionais, e a PEC da Blindagem, 3/2021, que dificulta investigações contra parlamentares.
A PEC da Segurança Pública surgiu como uma proposta do governo federal enviada ao Congresso Nacional em abril de 2025, com o objetivo de organizar a cooperação entre os estados brasileiros e regularizar o Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Contudo, a proposta foi alterada e passa a inserir regras rígidas de execução penal diretamente no artigo 5º da Constituição, que deveria servir como declaração de direitos e garantias fundamentais. O projeto ainda prevê prisão obrigatória em regime de segurança máxima, fim das saídas temporárias para reeducandos, e impedimento à redução de pena para integrantes de organizações criminosas.
A proposta pode ferir cláusulas pétreas, que não poderiam ser abolidas ou alteradas por meio de emendas constitucionais, como a presunção da inocência e a individualização da pena, que exige que a punição seja aplicada de forma justa e personalizada para cada crime e infrator. O dispositivo foi aprovado por 461 a 14 em 4 de março de 2026.
Já a PEC 3/2021 foi aprovada em plenário da Câmara em setembro de 2025, e com 344 votos a favor e 133 contra. A proposta era de que inquéritos e processos criminais contra parlamentares pelo Supremo Tribunal Federal (STF) dependeriam de aval prévio do Congresso. Os oito deputados do levantamento da Pública foram a favor da iniciativa, que só não foi para frente depois que uma intensa pressão popular fez com que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado rejeitasse a PEC por unanimidade, no mesmo mês.
A disparidade entre posicionamentos quanto ao que atinge os parlamentares e outras que impactam o eleitorado é um dos pontos que, segundo o doutorando em ciência política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Bhreno Vieira, podem afastar a sociedade do parlamento, o que é agravado pela falta de acesso do eleitor aos legisladores eleitos.
“A gente vê um Congresso que de certa forma é cooptado ou por interesses próprios ou de lobby, que atuam fortemente nesse sentido de moldar a atuação. Esses grupos têm acesso muito mais fácil do que [os demais] setores da sociedade brasileira, então isso gera um descompasso muito forte na representação, principalmente nas pautas [defendidas]”, avalia Vieira.
Plenário do Congresso Nacional durante sessão solene
Vulnerabilidade on e offline
A violência contra mulheres vai muito além do feminicídio e excede o campo do físico. Agressões não se restringem ao que é praticado “cara a cara”, e a internet tem sido um campo fértil para ataques.
Um exemplo da articulação de grupos misóginos no meio digital foi a trend do TikTok “treinando caso ela diga não”, de março de 2026. Nos vídeos postados, homens simulavam pedidos de casamento em frente a objetos que representavam mulheres, que, posteriormente, acabavam chutados ou socados.
Segundo a pesquisadora em violência de gênero Carla Antloga, a presença dessas articulações digitais é um problema grave que foi sendo naturalizado. “A gente tem um primeiro desafio que é uma cultura que foi se se naturalizando na internet, por conta dos fóruns red pill, mas que também tá naturalizado, infelizmente, no discurso da extrema direita, de que o ‘macho’ tem que ser provedor e a mulher tem que abaixar a cabeça e obedecer”, aponta.
De acordo com dados do Safernet, com base em denúncias anônimas, 2025 foi o ano em que mais de 8 mil brasileiras relataram ter sido vítimas de práticas misóginas na internet. O comportamento sistemático mostra que há componentes de cultura relevantes a serem enfrentados que vão além das vias legais e legislativas.
“Somente a legislação não dá conta, mas ela é um marco para dizer que isso não será mais aceito e que as vidas das mulheres importam, sim, e que quem comete esse tipo de crime vai ser adequadamente punido”, conclui Antloga.
Nesta quinta-feira, 1º de outubro, voltou a circular um comentário do candidato à presidência e então deputado estadual Flávio Bolsonaro sobre o assassinato da juíza Patrícia Acioli, morta com 21 tiros na porta de casa, em Niterói (RJ), em 12 de agosto de 2021. Na data, poucas horas depois da juíza ser morta, Flávio publicou no Twitter, hoje X, uma resposta à rádio CBN Rio, dizendo que a própria magistrada tinha contribuído para ter “mts inimigos” [sic].
“Que Deus tenha essa juíza, mas a forma absurda e gratuita com q ela humilhava Policiais nas sessões contribuiu p ter mts inimigos” [sic], escreveu às 8h39. A Justiça depois condenou 11 policiais militares pelo crime.
O post continua no ar no X. Hoje também é o dia em que a Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (AMAERJ) entrega, no centro do Rio, o prêmio de direitos humanos que leva o nome da juíza. Também hoje à noite, na mesma cidade, Flávio, senador e candidato do PL à Presidência da República, participa do último debate na TV Globo antes do primeiro turno.
A relação de Flávio com policiais acusados de integrar milícias já foi alvo de questionamentos. Quando era deputado estadual, ele propôs homenagens na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) a agentes que depois foram investigados ou presos por envolvimento com grupos milicianos. Um deles foi o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime e morto em 2020.
A reportagem procurou a assessoria de imprensa de Flávio Bolsonaro e perguntou se ele mantém o que escreveu em 2011, se se arrepende ou pretende apagar a publicação e em que fatos se baseou para dizer que a juíza “humilhava” policiais nas sessões. Também perguntou se, sabendo que o crime foi planejado e executado por policiais militares, ele considera que Patrícia Acioli contribuiu para a própria morte, e como avalia hoje o legado dela no combate às milícias. Por fim, a reportagem pediu que ele comentasse as homenagens que propôs na Alerj, quando era deputado estadual, a policiais depois investigados ou presos por ligação com milícias, como Adriano da Nóbrega. Até a publicação deste texto, não houve resposta. O espaço segue aberto à manifestação.
Quem foi Patrícia Acioli
Patrícia Acioli era a juíza titular da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, e recebia ameaças de morte com frequência. Ela ficou conhecida por julgar policiais militares ligados a milícias e a grupos de extermínio, e mandou para a prisão mais de 60 agentes de segurança.
Ela foi executada na noite de 11 para 12 de agosto de 2011, quando chegava em casa, no bairro de Piratininga, em Niterói. Horas antes, tinha decretado a prisão preventiva de PMs do 7º Batalhão (São Gonçalo) investigados pela morte do jovem Diego da Conceição, em um caso registrado como “auto de resistência”. As investigações concluíram que o crime foi planejado no batalhão para impedir as prisões.
Onze policiais militares foram condenados pelo assassinato, e as penas somadas passam de 250 anos. O mandante, segundo a Justiça, foi o tenente-coronel Cláudio Luiz Silva de Oliveira, que comandava o 7º BPM. Em 2014, ele foi condenado a 36 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado e pela formação de quadrilha armada.
O caso virou um marco na discussão sobre a infiltração de milícias nas forças de segurança do Rio e sobre a segurança de magistrados que julgam o crime organizado. Foi a primeira vez que um juiz em exercício foi assassinado no estado.
O prêmio Patrícia Acioli
A cerimônia do 15º Prêmio AMAERJ de Direitos Humanos – Patrícia Acioli acontece nesta quinta-feira, Fórum Central do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). A AMAERJ criou a premiação em 2012, um ano após o crime, para “homenagear a memória da juíza” e “dar continuidade à luta da magistrada em prol da dignidade humana”.
Ao longo de 15 edições, o prêmio se tornou uma das principais vitrines do jornalismo e da produção acadêmica sobre direitos humanos no estado. Ele reconhece reportagens sobre violência policial, sistema prisional, racismo e acesso à Justiça, temas próximos aos que custaram a vida da juíza.
Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.
Sérgio Henrique Sant’Anna, sócio do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), recebeu R$340 mil nas eleições de 2026. Segundo dados da plataforma DivulgaCand do Tribunal Superior Eleitoral, duas empresas suas prestaram serviços para três campanhas à Câmara dos Deputados.
A NHR Estratégia e Comunicação LTDA recebeu R$160 mil das campanhas de General Girão (PL-RN) e Athally Cristhinny (Republicanos-RR) por serviços não especificados, que receberam R$2,8 milhão e R$625 mil de fundo partidário, respectivamente.
A empresa foi fundada em março deste ano com capital social de R$100 mil para realização de “atividades de consultoria em gestão empresarial”.
Outros R$180 mil foram pagos a sua sociedade individual de advocacia pela campanha de Lucas Pavanato (PL-SP), que por sua vez, recebeu R$2,8 milhões da Direção Nacional do PL.
Entre 2022 e 2025, o escritório dividiu o endereço com o Instituto Conservador Liberal, entidade que fundou com Eduardo Bolsonaro para realização da Conferência CPAC Brasil. O empresário diz que o ICL está ativo apenas na Receita Federal e que não tem relação com as atividades do ex-deputado no exterior.
Por que isso importa?
Sérgio e Eduardo Bolsonaro fundaram juntos o Instituto Coservador Liberal (ICL), que promovia no Brasil o CPAC, conferência conservadora ligado ao Trumpismo. O evento não acontece no Brasil desde que Eduardo foi para os EUA, onde mantém sua atividade política nos EUA, cujo financiamento é ainda pouco claro.
Em julho de 2025, o The Intercept Brasil revelou que a Sant’Anna havia recebido R$600 mil em recursos do fundo partidário do PL ao longo de 2024 para prestação de serviços advocatícios – mesmo período em que realizou uma das edições do CPAC Brasil com Eduardo Bolsonaro.
Agora, a Pública revela que o empresário segue sendo financiado com fundo eleitoral através de aliados dos Bolsonaro.
Sérgio Sant’Ana e Eduardo Bolsonaro durante o CPAC Brasil 2021
O coro também foi entoado por Lucas Pavanato na Câmara Municipal de São Paulo. O vereador postulante à Câmara dos Deputados fez um discurso a favor de Eduardo Bolsonaro quando ele anunciou sua ida aos Estados Unidos. “O recado que eu deixo é claro, nós não vivemos em uma democracia”, disse.
Lucas Pavanato na Assembleia Legislativa de São Paulo
Girão também integra a comitiva de parlamentares bolsonaristas que frequenta eventos conservadores internacionais. Em 2024, foi um dos deputados convidados pelo republicano Chris Smith a comparecer em audiência pública em Washington, que acabou sendo cancelada.
Já Athally está fazendo sua estreia na política apresentando-se como a única candidata a deputada federal em Roraima apoiada por Nikolas Ferreira (PL-MG), também aliado de Sant’Anna. O advogado acompanhou o deputado mineiro na chamada “Caminhada Pela Liberdade” realizada em janeiro deste ano, que pedia a anistia a presos pelo 8 de janeiro, entre eles, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Questionadas, as campanhas dos candidatos Athally e Girão não responderam sobre os serviços prestados por Sergio Sant’Anna às campanhas. Já o candidato Lucas Pavanato afirmou que “todos os serviços jurídicos da campanha foram prestados pelo contratado” e que “não conversa com o Eduardo [Bolsonaro] faz quase um ano”.
O advogado afirmou que presta serviços de advocacia para Pavanato e de assessoria de comunicação para Girão e Athally. Também negou relação com Eduardo Bolsonaro, de quem diz ter se afastado desde que foi para os Estados Unidos.
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Atual candidato à presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não tinha cargo no governo de seu pai, mas exerceu forte influência política nos hospitais federais do Rio de Janeiro entre 2019 e 2022, de acordo com gestores e ex-gestores hospitalares, parlamentares, funcionários dos órgãos de controle da União e servidores públicos entrevistados pela Agência Pública.
Publicamente, dois políticos se pronunciaram neste ano sobre o controle dos hospitais federais por Flávio durante o governo do pai. Em março de 2026, o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), um pastor evangélico de direita, acusou o senador de ter liderado um esquema de corrupção nos hospitais federais do Rio. “Toda a estrutura de poder e de indicação política, e as empresas que participariam de licitações, que ganhariam ou perderiam, tudo isso estava dentro do grupo cuja cabeça era o senador Flávio Bolsonaro”, afirmou. Otoni tem defendido o voto em Lula, adversário de Flávio.
Dois meses depois, em maio, durante a inauguração de um novo centro na Fiocruz, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT-SP), chamou Flávio de “o poderoso chefão” dos hospitais federais no governo de seu pai, e voltou a utilizar o termo em entrevista à Agência Pública em setembro. “Era, de fato, o poderoso chefão dos hospitais federais. Passava por ele a indicação de quem seria diretor e todas as decisões relacionadas a hospitais e contratos. Ele montou um esquema de rachadinha política com a ocupação dos cargos e provocou um desmonte. Todos os contratos de terceirizados tinham funcionários fantasmas. Um contrato de limpeza falava em 200 postos de trabalho, quando a gente olhou só havia 50 pessoas trabalhando”, disse o ministro.
Com orçamento superior a 3 bilhões de reais para os quatro anos, período em que o país enfrentou a pandemia de Covid, documentos e depoimentos obtidos pela Pública revelam que a precariedade no funcionamento dos seis hospitais federais do Rio convivia com contratos superfaturados e concentração de recursos em custeio de despesas, comandadas pelos administradores locais, que seriam indicados pelo grupo político de Flávio Bolsonaro.
Enquanto isso, de acordo com o relatório final da CPI da Covid, que dedica um capítulo inteiro ao Rio de Janeiro, 30% dos leitos clínicos e de UTI nos hospitais e institutos federais na capital fluminense “estavam e permaneceram fechados durante a pandemia, embora pudessem ter sido disponibilizados aos pacientes nesse período, evitando, inclusive gastos com abertura de hospitais de campanha. A maior parte estava fechada por falta de profissionais de saúde. No fim de dezembro de 2020, 3,5 mil contratos foram encerrados nos hospitais federais do Rio de Janeiro. Posteriormente, a Medida Provisória nº 1.022, de 31 de dezembro de 2020, prorrogou apenas 1,4 mil contratos por sessenta dias. Esse quadro foi decisivo para agravar o atendimento à população do Rio de Janeiro ante o recrudescimento da pandemia”, conclui o relatório.
O Estado do Rio de Janeiro registrou mais de 2,8 milhões de casos confirmados de Covid e 77.166 mortes, sendo que mais da metade delas – 38,8 mil – ocorreram na capital.
A atuação de políticos nos bastidores dos seis hospitais federais do Rio – Hospital do Andaraí, Hospital Geral de Bonsucesso, Hospital Cardoso Fontes, Hospital de Ipanema, Hospital da Lagoa e Hospital dos Servidores – durante a pandemia, já desastrosa em nível federal, pode ser contada também pelas marcas que deixou nas unidades que fazem parte da rede de assistência do SUS. A bagunça foi tão grande que a milícia chegou a ocupar um terreno do Hospital Cardoso Fontes para extorquir funcionários e familiares de pacientes com a cobrança de estacionamento, segundo inquérito aberto na Polícia Civil.
Em abril de 2023, a pedido do deputado e médico sanitarista Daniel Soranz (PSD-RJ), a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara visitou a rede federal do Rio e encontrou 735 leitos inoperantes ou bloqueados, andares inteiros vazios, alas trancadas com correntes e cadeados, obras paralisadas e equipamentos sem uso.
No Hospital do Bonsucesso, onde, em plena pandemia, um incêndio que começou no almoxarifado matou quatro pacientes – todos internados com Covid-19 –, a emergência estava fechada, embora reformada, por falta de pessoal; 126 dos 411 leitos estavam impedidos, e diálise, cardiologia e pós-operatório estavam parados. No Andaraí, a falta de médicos era tão grande que até para declarar a morte de pacientes a demora chegava a duas horas. A cozinha inacabada obrigava o hospital a gastar R$ 1,6 milhão por mês transportando comida. No Cardoso Fontes, pacientes esperavam em pé e em macas improvisadas nos corredores.
“É ainda mais grave que isso tudo tenha ocorrido durante a pandemia”, afirma Soranz, que é doutor em saúde pública pela Fundação Oswaldo Cruz e um dos principais nomes da saúde pública do Rio nos últimos anos, quando foi secretário municipal da área em três períodos diferentes, sempre em gestões do ex-prefeito Eduardo Paes, também do PSD. Segundo ele, “Flávio [Bolsonaro] teve uma influência nefasta para os hospitais federais, foi algo terrível”, disse à Agência Pública.
Contratos superfaturados
Um diagnóstico de 235 páginas feito pelo Ministério da Saúde em fevereiro de 2023, ao qual a Pública teve acesso, mostra que 72% dos recursos dos seis hospitais – R$ 50,3 milhões por mês – eram consumidos em custeio, ou seja, com contratos administrativos, como limpeza, vigilância e rouparia. No Hospital do Bonsucesso, onde a fatia chegava a quase 80%, os contratos de apoio administrativo com a empresa Nova Rio Serviços Gerais tinham margens de lucro até 561% maiores do que o acordado e custos indiretos até 581% superiores aos acertos equivalentes do ministério. O hospital pagou mais de R$ 2 milhões em plano de saúde privado para funcionários da empresa terceirizada e adicional de insalubridade, sem laudo, para secretárias e almoxarifes.
Aliados de Flávio Bolsonaro também aparecem nesses contratos como a família do deputado federal Altineu Côrtes, presidente do PL no Rio de Janeiro. A lavanderia Max Clean, fundada pelo pai de Altineu e registrada em nome de uma tia, multiplicou por oito seu faturamento durante esses anos. Segundo informações do Portal da Transparência, a empresa já recebeu R$ 81,5 milhões do Ministério da Saúde em centenas de contratos – e continua recebendo até hoje. “A Max Clean atendia todos os hospitais. Hoje, continua no Hospital dos Servidores e no Lagoa, é difícil tirá-los. Os fiscais do ministério que analisam esse contrato já pediram para deixar a função. É muita pressão”, revela uma servidora, que preferiu não se identificar. “Em época de pregão, o Seu Altineu, pai do deputado, chegava armado nos hospitais com uma sacola cheia de chocolates, distribuindo doces pra gente. Nossa esperança é tirar eles em abril, quando o contrato vence, e que eles não ganhem a próxima licitação.”
O mesmo diagnóstico do Ministério da Saúde explica como os contratos emergenciais se multiplicavam. “Não raro a troca de diretor ou de coordenador de Administração coincidia com a proximidade do término de um contrato, e quando um novo diretor era nomeado não tinha tempo hábil para iniciar processos regulares, e um novo contrato emergencial era efetuado”, registra o documento, que lembra que esse tipo de contrato “geralmente tem um valor acima do licitado”. Entre 2019 e 2022, o Hospital do Bonsucesso teve cinco diretores. O relatório também recomendou auditar a pesagem da roupa suja e o faturamento da lavanderia, onde as peças eram levadas “sem controle de saída”.
Não há um cálculo do sobrepreço total nos contratos de 2019 a 2022, mas a Pública obteve 13 relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU) e outros cinco da Controladoria Geral da União (CGU) que indicam valores muito acima do mercado e foram localizados em auditorias preventivas, evitando que fossem assinados. Em uma delas – que analisou o Edital do Pregão Eletrônico nº 05/2022 para a compra de 120,9 milhões em insumos para cirurgia vascular para o Hospital dos Servidores, a auditoria identificou “falhas na estimativa de preços que resultaram na adoção de valores superdimensionados em aproximadamente R$ 69 milhões”, ou seja, sobrepreço de 57%.
Em outro caso, no mesmo hospital, a análise do Pregão Eletrônico nº 20/2021, que autorizou a compra de medicamentos para pacientes com câncer no valor de R$ 31,3 milhões, identificou sobrepreço de R$ 18,1 milhões, ou seja, novamente de 57%. Houve ainda uma tentativa de compra de stents heparinados para cirurgia vascular por R$ 7,5 milhões. Em licitações públicas regulares no Brasil, eles são comprados por valores que não costumam passar de R$ 30 mil. O Hospital dos Servidores pagaria R$ 42 mil em cada uma das 180 unidades.
Hospitais federais do Rio enfrentaram sucateamento e problemas de gestão durante o governo Bolsonaro
Um “feudo” dominado por políticos
“Em todo o país, só o Rio de Janeiro tem hospitais federais pelo fato de ter sido a capital até 1960”, lembra o médico João Marcelo Ramalho Alves, diretor do Hospital dos Servidores Federais, que era conhecido como “hospital dos presidentes”. Inaugurado em 1947, tendo Getúlio Vargas como matrícula número 01, o hospital atendeu a cúpula do poder por décadas, e foi pioneiro em diversas áreas, como a introdução da residência médica e a realização de cirurgias inéditas e transplantes. Com o tempo e a mudança da capital para Brasília, os hospitais ficaram suscetíveis a políticos do Rio, que já teve outros parlamentares como figuras centrais como Roberto Jefferson.
“Um hospital só perde em complexidade para controle de tráfego aéreo. São contratos de vários tipos, mais de 5 mil itens a comprar. Para quem quer fazer esquema, sempre foi uma área fácil”, diz Ramalho Alves, que também dirige o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle e foi diretor do Departamento de Gestão Hospitalar do Ministério da Saúde no Rio em 2014.
Isso poderia explicar o interesse de Flávio Bolsonaro pelo “feudo”, que se manifestou ainda na primeira gestão do Ministério da Saúde do governo do pai, embora ele jamais tenha tido atuação relevante na área da saúde, nem no Senado nem na Assembleia Legislativa do Estado do Rio, onde exerceu quatro mandatos consecutivos como deputado estadual. Em 31 de julho de 2019, Flávio manifestou publicamente sua oposição ao indicado pelo então ministro Luiz Mandetta para o Hospital Geral do Bonsucesso, o médico Paulo Cotrim, efetivado depois de seis meses como interino. O hospital é a maior unidade de saúde do Rio em volume de atendimentos e com 4,5 mil funcionários.
Cotrim substituiu Luana Camargo, depois que a ex-diretora promoveu uma festa de aniversário do hospital que custou mais de 150 mil reais, segundo ela pagos por fornecedores. Revoltados com a patuscada em uma unidade sem ar-condicionado, superlotada, com postos de trabalho ocupados por pessoas sem experiência e onde os próprios pacientes tinham que comprar seus remédios, os servidores invadiram a festa e enviaram uma carta ao ministro Mandetta. À época, o então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, declarou ter “fortes indícios e depoimentos” de que o hospital estava dominado por uma milícia.
A decisão de afastar Luana fez uma equipe da pasta ser ameaçada durante vistoria à unidade, mas Mandetta efetivou o servidor, o que desagradou Flávio Bolsonaro, que criticou o ministro nas redes sociais ao ter seu nome marcado em um post que enaltecia o novo diretor. “Esclareço que não tenho NENHUMA participação/responsabilidade na nomeação do Sr. Paulo Cotrim. Se tivesse sido consultado, diria para não nomeá-lo”, afirmou, dizendo que o médico já havia ocupado “cargos importantes em gestões passadas nessa unidade, que possui um histórico sombrio de má gestão e indicações políticas”. Menos de um mês depois, Cotrim foi exonerado.
Em seu lugar entrou Cristiane Jourdan, defensora do uso de hidroxicloroquina para tratamento da Covid-19, e depois escolhida por Jair Bolsonaro para a diretoria da Anvisa. Reportagem do Jota na época afirmou que, ao dirigir o Hospital de Bonsucesso, ela “acabou vinculando sua imagem ao senador Flávio Bolsonaro, responsável por orquestrar algumas mudanças na gestão hospitalar do estado”. Durante a gestão de Jourdan, como consta no relatório final da CPI da Pandemia, o hospital chegou a fechar as portas após ser anunciado como unidade de referência para a Covid-19. “No entanto, a maior parte dos leitos não foi utilizada, mesmo tendo sido fechados 28 serviços especializados de média e alta complexidade”, diz o relatório da CPI. “Dos 240 leitos existentes, apenas 18 pacientes estavam internados por Covid-19 e 17 estavam na emergência. Ou seja, na prática, o hospital de Bonsucesso não foi referência na pandemia e tampouco atendeu à população nos demais serviços, impactando a assistência à saúde”.
A partir do episódio Luana/Cotrim, as indicações começaram a passar pelo filho mais velho de Bolsonaro. Já havia sido escolha dele, em fevereiro daquele ano, o nome do médico Marcelo Muniz Lamberti para assumir o Departamento de Gestão Hospitalar (DGH) do Ministério da Saúde no Rio, chefiando diretamente os hospitais. Lamberti ascendeu rapidamente ao posto de Superintendente do Ministério da Saúde no Rio e, em junho de 2019, tornou-se Diretor de Programa da pasta, posição vinculada ao gabinete do ministro.
Duas semanas antes de Lamberti ser alçado a diretor, Flávio Bolsonaro participou de uma reunião em Brasília com o ministro Mandetta, o próprio Lamberti e o então secretário de Atenção Especializada à Saúde (Saes), Francisco de Assis Figueiredo. O encontro entrou na agenda oficial do ministro: foi dia 28 de maio de 2019.
Assim que assumiu o cargo, Lamberti teria promovido uma “caça às bruxas”, nas palavras de um servidor concursado, demitindo aqueles do campo político oposto ao governo. A Pública também teve acesso à gravação de uma reunião, realizada no dia 6 de março de 2020, com 3h11m de duração. Nela, além de ameaçar demitir terceirizados e servidores temporários, Lamberti afirma que é ele quem manda no ministério da Saúde no Rio de Janeiro e que, se fosse preciso, rasgaria a Constituição para fazer valer sua vontade.
Pressão sobre Nísia Trindade e descentralização dos hospitais
Primeira mulher a assumir o ministério da Saúde no início do novo governo, em 2023, a ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade acertou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que teria autonomia total para escolher os diretores dos hospitais “exatamente por causa do que todo mundo sabia existir”, conta em entrevista à Agência Pública. “Um descalabro absoluto, era um problema crônico do Rio”, comenta.
Nísia admite ter sofrido “muita pressão” dos que queriam controlar o “feudo”, sobretudo de políticos do Centrão, ela diz, citando o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL). “Ele questionava o fato do orçamento de R$ 240 bilhões do ministério ser gerido por mim”, lembra. Outro parlamentar que trabalhou para tirar Nísia da pasta foi o Doutor Luizinho (PP-RJ), que sonhava – e ainda sonha – ser ministro da Saúde e comandar o terceiro maior orçamento da Esplanada do Ministério, que só perde para Previdência Social e Desenvolvimento e Assistência Social. Ex-secretário de saúde no Rio, o Dr. Luizinho se tornou nacionalmente conhecido por seu envolvimento com transplantes de órgãos infectados pelo vírus HIV.
Nísia afirma que “havia muita resistência” a qualquer mudança. A solução encontrada pelo novo governo foi tirar os hospitais da administração direta do ministério e reestruturar a gestão. Não foi tarefa fácil. Em outubro de 2024, o Bonsucesso passou ao Grupo Hospitalar Conceição, empresa pública federal ligada ao Ministério da Saúde e sediada em Porto Alegre. O hospital ficou cinco dias ocupado por manifestantes e os novos administradores só conseguiram entrar depois de uma decisão de reintegração de posse e acompanhados pela Polícia Federal. Ainda assim, o Ministério da Saúde teve que pedir uma escolta armada para a nova diretora da unidade, Elaine López. Dois meses depois, os hospitais de Andaraí e Cardoso Fontes foram entregues à prefeitura do Rio.
Nísia Trindade assumiu o Ministério da Saúde em 2023 e iniciou a reestruturação dos hospitais federais
Em março de 2025, Nísia foi substituída no ministério por Alexandre Padilha, mas o processo de reestruturação dos hospitais federais no Rio continuou. Em dezembro, o Hospital dos Servidores foi incorporado à UNIRIO, sob gestão da Ebserh, rebatizada em março como HU Brasil – outra empresa pública federal criada em 2011 para gerir hospitais universitários –, e atravessou um processo de fusão com o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle. O Hospital da Lagoa passou à Fundação Oswaldo Cruz em 2026. Só o Hospital de Ipanema continua sob gestão direta do ministério.
Com a reestruturação, o orçamento total dos seis hospitais passou de aproximadamente R$ 800 milhões para R$ 2 bilhões anuais. Segundo o ministério, já houve aumento de 30% no número de cirurgias (foram 21.869 em 2025) e 28% a mais de internações (42.516 em 2025). Houve também reabertura de 335 leitos somando todas as unidades (27% a mais do que antes) e 16 salas de cirurgia reativadas.
O deputado Daniel Soranz, da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, elaborou um relatório, ao qual a Pública teve acesso, comparando a situação dos hospitais federais no Rio em dois períodos diferentes: abril de 2023, logo no início do novo governo, e o segundo semestre de 2026. A ideia era avaliar os avanços do plano de reestruturação em relação aos anos Bolsonaro. No Bonsucesso, os leitos em funcionamento passaram de 215 para 423 e a emergência foi reaberta em janeiro de 2025. As internações cresceram 46,6%, as cirurgias 55,9% e os exames, 45,4%. Os profissionais aumentaram 73,4%, de 3.150 para 5.462, e o investimento, que ficou entre R$ 3,3 milhões e R$ 5,6 milhões por ano entre 2020 e 2023, chegou a R$ 36,7 milhões em 2024, segundo o relatório.
No Andaraí, a emergência, fechada havia dez anos, voltou a funcionar e ganhou estrutura definitiva, e em 2026 foi inaugurado o novo prédio de Trauma. A cozinha foi concluída, o que acabou com o gasto mensal milionário com transporte de comida. A radioterapia foi inaugurada, o centro de queimados foi ampliado e o centro cirúrgico passou de três para 12 salas. O hospital ganhou 23 leitos de UTI, um tomógrafo e um ambulatório com 21 salas. Os leitos em funcionamento subiram de 165 para 351, com ocupação entre 96% e 99%, as cirurgias cresceram 36% e os profissionais cadastrados passaram de cerca de 2,6 mil para 5.114.
No Cardoso Fontes, todos os leitos foram reabertos, as internações aumentaram 72%, de 4.084 para 7.034, e o quadro de pessoal cresceu 41,7%. A equipe da prefeitura, que cuida da regulação de vagas nos hospitais do SUS, antes impedida de atuar, segundo o relatório da Câmara, passou a trabalhar dentro da unidade. Em Ipanema, a fila de cirurgias caiu 38%, as internações passaram de 4.853 para 5.594, as cirurgias chegaram a 12.378 no ano, recorde da série, e o quadro de pessoal cresceu 23,1%. No Lagoa, as internações subiram 11,9%, e nos primeiros meses da nova gestão cresceram 21,7%, com alta de 20,9% nas cirurgias. A melhora, porém, é desigual. Em Ipanema, as três salas cirúrgicas fechadas em 2023 continuam sem uso e as consultas ambulatoriais caíram de 118 mil para 112,8 mil. No Lagoa, a produção ambulatorial caiu de 1,08 milhão de procedimentos em 2023 para 606 mil em 2025, e os servidores efetivos diminuíram de 850 para 734, enquanto os temporários passaram de 525 para 764.
O médico João Marcelo Ramalho Alves, que dirige o Hospital dos Servidores e o Gaffrée e Guinle, que já resultou na contratação de 1.258 profissionais por concurso depois da fusão, também apoia a reestruturação. “O caminho é esse. O Ministério da Saúde existe para criar e gerir políticas públicas, não para administrar hospitais”, diz Alves, que lembra que ainda há muito a ser feito para recuperar os hospitais do Rio. Apesar dos avanços, a fila de pessoas à espera de cirurgia aumentou de 18 mil pacientes para 21 mil desde 2024, segundo informações do portal que contabiliza esses dados.
Biópsias em potes de sorvete e pedidos de investigação
Em 2025, a Defensoria Pública da União encontrou biópsias acumuladas por meses no Bonsucesso, guardadas no formol em potes de sorvete e paçoca por falta de médicos patologistas – um problema sobretudo para pessoas com câncer que, por lei, devem iniciar o tratamento no SUS até 60 dias após o diagnóstico. “Se não tem diagnóstico, não tem tratamento. Tivemos que entrar com uma Ação Civil Pública, que segue tramitando, para pedir um novo plano de trabalho dos hospitais federais como um todo. A mudança de gestão foi mal recepcionada por servidores e o déficit de médicos ainda é grande”, afirma Taísa Bittencourt Leal Queiroz, Defensora Regional de Direitos Humanos da Defensoria Pública da União. “Quando a saúde é invadida pela política, ela se deteriora de um jeito absurdo. Quem sofre com isso é a população que depende do SUS”, diz a defensora.
No fim de agosto, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu ao Supremo Tribunal Federal que investigue Flávio por suspeitas envolvendo o controle político dos hospitais federais. Ele citou no documento as auditorias do TCU e da CGU que identificaram os sobrepreços nos contratos. A notícia do fato foi encaminhada ao ministro Flávio Dino e pede que uma investigação, já em andamento no STF, seja ampliada para apurar a conduta do senador, e se ele teve participação nas irregularidades constatadas. Lindbergh citou no documento o depoimento na CPI da Pandemia, em 16 de junho de 2021, do ex-governador do Rio Wilson Witzel, que afirmou que os hospitais federais tinham dono. “Tem um dono, e esta CPI pode descobrir quem é o dono”, disse diante de Flávio Bolsonaro e dos demais presentes. Em seguida, confirmou a parlamentares que se referia a Flávio, mas negou a declaração ao ser processado pelo senador.
Integrantes da CPI disseram à Pública que faltou tempo e recursos para investigar a denúncia de Witzel. A comissão apontou quatro pessoas como responsáveis pelas irregularidades constatadas. Além de Marcelo Lamberti, foram citados o coronel da reserva George Divério, que também foi superintendente do Ministério da Saúde durante a presidência de Bolsonaro, Jonas Roza, que trabalhava com Lamberti no DGH, e o advogado Joabe Antonio de Oliveira, servidor concursado que foi coordenador administrativo da Superintendência do ministério no Rio e diretor administrativo do Hospital de Bonsucesso. Divério foi nomeado em 2020 e exonerado em 26 de maio de 2021 após denúncias de contratações sem licitação – em um período de dois dias, ele autorizou dois contratos que somavam R$ 28,8 milhões. Joabe aprovou contratações sem licitação com valor superior a R$ 14 milhões no Bonsucesso.
Flávio Bolsonaro é alvo de pedido de investigação sobre sua atuação nos hospitais federais do Rio
Procurado pela Pública, Flávio não respondeu aos pedidos de entrevista feitos ao seu assessor. Marcelo Lamberti respondeu por mensagem. Garantiu que “os atos da gestão estão disponíveis no SEI (Sistema Eletrônico de Informações, plataforma oficial do governo federal para gestão de documentos e processos administrativos), corroborando as ações verídicas e documentadas procedidas, incluindo as de correição junto aos órgãos federais de controle para apurar irregularidades”. Segundo Lamberti, “quanto a narrativas e ilações de opositores a essas correições procedidas no SEI, nada tenho a falar pela falta de conteúdo técnico”. O médico também afirma que, após se desligar das atividades exercidas no ministério, não responde a processos pela sua gestão. Perguntado sobre sua relação com Flávio Bolsonaro, se eles já se conheciam antes do senador indicá-lo ao cargo e como Flávio exercia influência nos hospitais federais, Lamberti se disse um “servidor técnico”, e que “nomeações e exonerações de servidores estão a cargo do escalão superior da pasta”.
A Pulsa Uniformes que recebeu R$ 457 mil vindos de uma Emenda Parlamentar Individual, conhecida como Emenda Pix, do deputado federal candidato à reeleição Mario Frias (PL/SP), tem entre seus sócios o ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).
O cargo foi ocupado por dois mandatos do prefeito Marco Bertaiolli que se elegeu pela primeira vez pelo DEM e depois migrou para o PSD (2009-2016) e seguiu durante a gestão de Marcus Melo do PSDB, de 2017 até 2020. Guimarães também presidiu a Liga Nacional de Basquete em 2020, cujo torneio conta com a presença do Mogi Basquete, time em que Guimarães foi dirigente.
A Pulsa Uniformes é uma confecção sediada no bairro Jardim Camila, em Mogi das Cruzes (SP). A quantia recebida em 26 de maio seria para quimonos, tatames e outros 14 itens para um projeto social de lutas marciais para crianças, mas não há comprovação de que o material foi entregue. Segundo a Controladoria Geral da União, “a execução física do projeto não foi integralmente comprovada”.
A casa cinza, mais à esquerda da imagem, é a sede da Pulsa Uniforme em Mogi das Cruzes e não apresenta placa de identificação
O dinheiro foi pago à Pulsa, à vista, pelo Instituto Conhecer Brasil, de Karina Gama, que recebeu o dinheiro da emenda. Karina Gama é a produtora executiva da cinebiografia de Jair Bolsonaro Dark Horse. Já o deputado Mario Frias foi Ministro da Cultura do governo Jair Bolsonaro e é roteirista do filme. O material esportivo teria como destino o projeto social Lutando pela Vida, em Pirassununga (SP).
A Polícia Federal (PF) e a Controladoria Geral da União (CGU) investigam a real destinação de emendas dos deputados Mario Frias, Marcos Pollon (PL/MS) e Bia Kicis (PL/DF) para as organizações de Karina Gama. O caso está sob a relatoria do ministro Flavio Dino, no STF, uma vez que há deputados federais envolvidos. Pollon e Kicis, por exemplo, sequer poderiam destinar recursos para emendas fora de suas bases eleitorais.
A investigação da PF que tramita no STF apura 10 crimes, entre eles peculato (desvio ou má aplicação de dinheiro público), fraude em licitação, falsificação, advocacia administrativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
A Pulsa tem foco na venda de uniformes de times de basquete, vôlei, handebol e futsal. Apesar de ter recebido à vista o pagamento pelos uniformes de artes marciais e 120 placas de tatame, a Pulsa informou à CGU em julho deste ano que ainda não havia entregado nenhum material previsto para o projeto Lutando pela Vida e disse que os itens estavam “em fabricação”. Em abril, aponta o relatório, o ICB teria comprado os tatames de outro fornecedor por R$ 58 mil com recursos de outro contrato. O material teria sido entregue ao projeto em Pirassununga, em maio, segundo o instituto de Karina da Gama afirmou à CGU.
“Essa cliente é do Luiz”
Na quinta-feira, 24 de setembro, a reportagem da Agência Pública foi até a sede da Pulsa, que ocupa uma casa de dois andares, em Mogi das Cruzes. No imóvel, pintado de cinza na frente e preto na lateral, não há placas ou qualquer outro sinal mais ostensivo de que uma empresa funciona ali.
Na entrada lateral, há um escritório com um show-room dos produtos da marca. Uma gerente atendeu a reportagem na calçada e informou que somente o sócio-gestor, Luiz Fernando da Silva, que estaria no Rio de Janeiro, poderia falar sobre o contrato com o ICB. “Essa cliente é do Luiz”, disse a funcionária.
Por mensagem no WhatsApp, o sócio-diretor afirmou que os itens foram entregues, mas alegou que não tinha como confirmar se já teria sido uma entrega total ou parcial, pois estava viajando. “Se precisar de algo mais detalhado, eu te peço e te mando. Prezamos pela transparência”, escreveu em uma mensagem de WhatsApp quando também elogiou o trabalho realizado pela CGU.
As mensagens não foram mais respondidas por Silva depois que a reportagem pediu que ele informasse a data da entrega e fornecesse alguma comprovação, como recibos ou fotos. Ele também não informou, ao ser questionado, qual foi o pedido completo do ICB à Pulsa, com as quantidades que deveriam ser fornecidas de cada item.
Nilo Guimarães também foi procurado, mas não respondeu o contato. O espaço segue aberto e será atualizado em caso de manifestação.
O projeto Lutando pela Vida é uma ação de ensino de lutas marciais para 500 crianças cuja vigência começou em 31 de dezembro de 2024 e termina em 28 de agosto de 2027. Dos R$ 1,5 milhão da emenda de Frias foram liberados R$ 1 milhão pelo Ministério dos Esportes para o ICB de Karina Gama, para “Implementação e Desenvolvimento do Projeto Lutando Pela Vida no Estado de São Paulo/SP”, conforme o termo de fomento publicado em 14 de janeiro de 2025.
Até julho crianças estavam sem quimonos
A partir daquele momento, o ICB já poderia iniciar a execução do projeto, mas a CGU constatou que até 12 de junho a emenda não havia sido completamente executada. Até o final de julho, dos R$ 521 mil gastos no projeto administrado pelo ICB a maior despesa foi com a Pulsa: R$ 427 mil.
Ainda assim, o Instagram do projeto Lutando pela Vida exibe vídeos e fotos, publicados em julho, que mostram crianças sem quimono numa academia de lutas. Para a CGU, nem mesmo essas publicações podem ser consideradas como prova conclusiva, uma vez que não são georreferenciadas e foram feitas em um local fechado, o que impede a Controladoria de aferir se são mesmo da academia que recebe o projeto.
Dos recursos pagos pelo ICB, os R$ 94,5 mil restantes foram usados para pagar instrutores, monitores e outros profissionais envolvidos com as aulas de lutas para crianças. Segundo a CGU, as planilhas de frequência das crianças foram preenchidas pela equipe do projeto, mas não têm assinatura dos responsáveis pelos menores, o que não atende às determinações do Ministério dos Esportes para comprovar a frequência em projetos dessa natureza.
Doador de campanha virou professor
Aliado político de Mario Frias, Rudyge Alex Scatolini Boldrini, doou R$ 4 mil para a campanha do ex-ator de Malhação à deputado federal em 2022 e em 2026 foi contratado para o projeto. Boldrini abriu este ano uma MEI para receber o dinheiro e emitiu uma nota fiscal para o ICB em 9 de março, antes mesmo de assinar com o instituto, o que só ocorreu no dia seguinte. Até o momento, ele recebeu R$ 13,7 mil. Uma das monitoras do projeto, aponta a CGU, era recepcionista contratada via CLT pela prefeitura de Pirassununga. A íntegra do relatório de apuração 2007711, que analisa o projeto Lutando pela Vida, citado pelo STF, segue sob segredo de Justiça, segundo informações da CGU enviadas à Pública.
O pagamento de R$ 427 mil da ICB à Pulsa não é o único da empresa de uniformes sob o escrutínio da CGU, conforme se verifica na plataforma e-CGU.Outros dois projetos financiados com emendas parlamentares, o Circuito Suzano de Esportes e Lazer, realizado pela Associação Cultural Quântica, e o Circuito Cultural e de Lazer, realizado pelo Instituto Mogiano de Pesquisa, Educação e Cultura, ambos realizados em Suzano (SP), foram analisados pela CGU entre 2024 e 2025 no âmbito da investigação sobre a constitucionalidade das Emendas Pix.
Em ambos os casos, a Pulsa forneceu material esportivo, recebendo R$ 112.800 no primeiro e R$ 2.710 no segundo circuito. Nas fiscalizações de ambos os projetos, a CGU verificou “inconformidades”, “impropriedades” e “irregularidades”.
A investigação em torno das emendas que favoreceram organizações de Karina Gama e que podem ter sido desviadas para o esquema que supostamente financiaria o filme Dark Horse ganhou dois novos capítulos, nos dias 10 e 12 de setembro.
No dia 10, a PF realizou a operação Make Up em endereços ligados a Mario Frias e Karina Gama. O celular do deputado foi apreendido. No dia 12, o ministro Dino determinou a quebra do sigilo de todo o material apreendido nas investigações até então conduzidas pela Polícia Civil de São Paulo sobre o contrato do ICB com a prefeitura de São Paulo para fornecimento de wifi. O material está sob análise da Polícia Federal e novas perícias estão sendo realizadas.
O que dizem Mario Frias e Karina Gama
O deputado Mario Frias não foi localizado em seu gabinete na Câmara dos Deputados. A reportagem ligou para lá várias vezes nos últimos dois dias e não obteve resposta. A comunicação do Partido Liberal também não conseguiu encaminhar os questionamentos ao deputado e informou que os contatos eram apenas os do gabinete. Quando a PF realizou busca e apreensão em endereços ligados à ele, Frias negou irregularidades e disse que a operação era uma “cortina de fumaça” em meio a eleição.
O advogado Ricardo Sayeg, que defende Karina Gama, não respondeu aos questionamentos da Pública enviados por e-mail e aplicativos de mensagem. Em nota à imprensa no dia 13 de setembro, o defensor disse que a produtora nega atos ilícitos, que ela está colaborando com as autoridades, tendo apresentado mais de 20 mil páginas de documentos. A defesa ressaltou que “investigação não é acusação, muito menos, condenação” e que a repercussão política do caso não pode substituir o devido processo legal. O espaço segue aberto e a reportagem será atualizada em caso de manifestação.
Como funciona uma emenda parlamentar?
As emendas parlamentares são recursos do orçamento federal que deputados e senadores indicam para financiar obras, projetos e serviços nos estados que os elegeram. Atualmente, as emendas consomem 22% do orçamento discricionário (verbas para custeio e investimentos) do Governo Federal.
Depois que o orçamento da União é aprovado pelo Congresso, deputados e senadores apresentam propostas para incluir ou modificar os gastos.
As emendas dos deputados e senadores são impositivas. Uma vez aprovado o orçamento, o ministério a que cabe o tipo de investimento libera o recurso conforme determinado pelo parlamentar. Em 2026, as emendas do orçamento consumiram R$ 61 bilhões.
No caso tratado nessa reportagem, o deputado federal Mario Frias (PL/SP) aprovou a emenda 202444230014 , no valor total de R$ 1.499.949, dos quais R$ 1 milhão foram destinados ao projeto Lutando pela Vida, cuja gestão é do Instituto Conhecer Brasil (ICB). Como era um projeto de iniciação esportiva, a emenda foi para o Ministério dos Esportes que firmou com o ICB um termo de fomento e encaminhou o recurso à ONG. A partir de então, os pagamentos e contratações foram feitas pelo ICB.
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Não tenho boas pesquisas de opinião para provar o argumento. Tenho uma percepção. Pode ser até mesmo uma crença, uma questão de fé…
Eu acredito que o tema do meio ambiente nos une. Não importa a coloração política ou a religião que você professa; em princípio, estamos irmanados na preocupação com a água que vamos beber, o ar que respiramos e a boa comida em nossos pratos.
A polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida, que agora domina o debate eleitoral, me fez lembrar de um exemplo em que a questão ambiental ajuda a unir mundos diferentes. Existe uma iniciativa inter religiosa para a proteção das florestas. Criada há sete anos por várias organizações não governamentais e a seção de meio ambiente das Nações Unidas, esta aliança tem colocado lado-a-lado pastores, padres, rabinos, pais-de-santo e pajés para discutir a proteção do meio ambiente, em especial da Amazônia.
Quem me contou os resultados desta iniciativa foi seu facilitador no Brasil, Carlos Vicente, engenheiro florestal acreano que por muitos anos foi um dos assessores mais próximos da ex-ministra do Meio Ambiente e atual candidata ao Senado por São Paulo, Marina Silva. Em muitas conferências nas quais nos encontramos, ele me relatou com um brilho nos olhos como estes líderes religiosos aparentemente tão distantes em seu dia-a-dia convergiam em uma visão sobre a importância de respeitar a vida e a sacralidade da natureza.
Algo que Carlos destacou foi o profundo impacto que uma visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) causou a um pastor evangélico. A viagem à sede da instituição, em São José dos Campos, no interior de São Paulo, ocorreu na época em que Bolsonaro e membros de seu governo, como o General Heleno e o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, atacavam o INPE. Os cientistas apenas faziam seu trabalho ao divulgar os dados que mostravam aumento do desmatamento. Depois de entender como funcionavam os sistemas de monitoramento, o pastor defendeu a proteção da Amazônia em um de seus sermões.
A lembrança do que me contou Carlos Vicente em meio a este turbilhão que mistura Nossa Senhora com eleições me deu um pouco de esperança. Me confirmou algo que eu já havia sentido nas eleições de 2018 e logo no início do governo Bolsonaro, quando houve a crise das queimadas. O tema da Amazônia e do combate ao desmatamento é um caminho de diálogo com indecisos. Em conversas casuais, é difícil encontrar alguém que defenda abertamente derrubadas, poluição e maus-tratos aos animais.
Minha impressão se tornou então mais forte com o que aconteceu em 2019, logo após o fatídico dia 18 de agosto, quando a fumaça das queimadas na Amazônia transformou em noite uma tarde de São Paulo. Aquelas imagens, seguidas por investigações jornalísticas que mostraram uma articulação de produtores rurais para celebrarem um Dia do Fogo, geraram uma mobilização nacional e internacional frente aos descalabros da política anti-ambiental de Bolsonaro.
Esta pressão da opinião pública fez com que Bolsonaro tivesse que recuar. Lembrem-se que o vice-presidente Hamilton Mourão foi designado para apaziguar os ânimos, fazendo a interlocução com parceiros históricos do Brasil nos investimentos em conservação, como a Alemanha e a Noruega.
Enquanto o mundo estava cobrando o governo Bolsonaro, a questão ambiental e a Amazônia estavam também no centro da Igreja Católica. O Papa Francisco fez das mudanças climáticas e da proteção à Amazônia uma das principais marcas de seu pontificado. Realizou o primeiro encontro de bispos para propor uma ação conjunta com os povos indígenas, o Sínodo da Amazônia. Estendeu os braços aos melhores cientistas do mundo no tema. Os brasileiros Carlos Nobre, do INPE, e Ima Vieira, do Museu Emílio Goeldi, foram alguns dos que tiveram o ouvido atento de Francisco.
Por isso, não me parece aleatório que Flávio Bolsonaro tenha resolvido atacar a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para achar um culpado ao dano que lhe faz a polêmica da Nossa Senhora. Os bispos sempre estiveram antenados com a questão ambiental e suas campanhas, ao longo dos anos, destacaram temas como o direito à terra, a proteção das terras indígenas e contra a estatização do acesso à água. A CNBB sempre foi uma defensora do meio ambiente como algo primordial na conduta de uma instituição religiosa.
Durante a presidência de Bolsonaro foram muitos os embates com a CNBB e outras alas da Igreja Católica, como a Comissão Pastoral da Terra e o Conselho Indigenista Missionário. Estes braços da igreja foram fiéis à sua missão e apontaram os desmantelamentos que estavam sendo promovidos por Bolsonaro. Assim como fez seu pai, Flávio ataca a CNBB pois sabe que ela será uma instituição que não deixará ocultas as maldades planejadas contra os territórios.
Cientes de seu papel em defender “a Casa Comum”, os bispos da Região Norte 1 da CNBB, que inclui as dioceses do Amazonas e de Roraima, divulgaram no último dia 23 um comunicado para conclamar aos brasileiros que levem em consideração as questões socioambientais no momento do voto. “O cardeal Leonardo Steiner, Arcebispo Metropolitano de Manaus e presidente do Regional Norte 1, nos recorda que na Carta encíclica Laudato Sí, publicada em 2015, Papa Francisco defende que o cuidado com o meio ambiente é inseparável da justiça social, da dignidade humana e da vida em sociedade”, diz um dos trechos da carta aberta.
Eu arrisco dizer que a Amazônia é tão icônica como uma santa. E não só para os brasileiros: o mundo venera a Amazônia. Infelizmente, e isso não é fake news, há muitos dispostos a destruir essa maravilha da natureza. Divina? Não sei. Aí, vai de cada um.
Em 16 de abril de 2021, um homem de colete preto circulava entre os entregadores do iFood que faziam greve em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo. Tinha um adesivo no boné, outro no face shield, além de uma faixa de três metros de comprimento e pacotes de adesivos para distribuir. Todos diziam a mesma coisa: “vacina pros entregadores de aplicativo já”.
Parecia mais um motoboy, mas segundo a Agência Pública revelou, era um funcionário de uma agência de monitoramento digital a serviço de uma campanha contratada pelo iFood. A ideia da empresa era levantar a pauta das vacinas para esvaziar a reivindicação da greve. Funcionou: naquele dia, parte da imprensa noticiou que os entregadores pediam vacinas.
A cena abre “A máquina oculta de propaganda do iFood”, reportagem de Clarissa Levy para a Pública, de abril de 2022. Com base em mais de 30 documentos e em relatos de quem trabalhou no projeto, a apuração descreveu como as agências Benjamim Comunicação e Social QI (SQi) teriam operado, entre 2020 e 2021, uma propaganda “lado B” contra os “Breques dos Apps”.
Um documento de orientação resumia a regra: “NUNCA assinado como iFood para que ninguém desconfie”. Numa reunião gravada, obtida pela reportagem, publicitários da Benjamim avaliaram que a Não Breca Meu Trampo “cumpriu uma missão” ao enfraquecer Paulo Lima, o Galo, líder dos Entregadores Antifascistas. O iFood negou qualquer relação com a SQi e disse que não compactua com perfis falsos. As agências contestaram a reportagem à época.
iFood não pode interferir em greves de entregadores
Nesta semana, o caso chegou a uma nova etapa, conforme informou o Ministério Público Federal (MPF), nesta terça-feira, 29 de setembro. O iFood repassou R$ 3 milhões ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para financiar pesquisas como parte de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que a empresa, a Benjamim e a SQi assinaram em 7 de julho de 2023 com o MPF e o Ministério Público do Trabalho (MPT) para encerrar três inquéritos abertos a partir da denúncia da Pública.
Apesar de ter aceitado o acordo, o iFood não reconhece as condutas e repete isso na página que mantém sobre o TAC: afirma que “não cometeu qualquer uma das condutas investigadas” e que assinou o TAC para evitar um processo “longo e desgastante”.
O TAC se divide em três eixos: satisfação, não repetição e compensação. Os dois primeiros, segundo o MPF, foram cumpridos “em larga medida”.
A declaração pública conjunta veio primeiro. Pelo registro do próprio iFood, saiu no site da empresa em 10 de julho de 2023, na página inicial da Folha de S.Paulo no dia 16 e, entre 18 de julho e 5 de agosto, em dias alternados, no Instagram, no Facebook e no Twitter.
Depois, veio a campanha sobre o direito à informação e a liberdade de expressão dos entregadores, com três meses de peças semanais nos perfis oficiais do iFood, criadas com a Benjamim e com alcance medido pela SQi. A proposta foi entregue aos procuradores em setembro de 2023. O MPF informa que a campanha foi realizada.
No eixo de não repetição, o iFood indicou três consultorias em direitos humanos em agosto de 2023. O MPF escolheu uma em outubro, e a contratação foi concluída em dezembro. Cabe à consultoria elaborar um programa interno para identificar riscos à transparência e à liberdade de expressão nas atividades da empresa, com relatórios semestrais ao MPF por dois anos. O MPF diz que a medida é inédita em TACs e que o programa segue “sob acompanhamento”. Por seis meses, o iFood também ficou proibido de anunciar suas próprias medidas de respeito ao direito de greve.
Outras obrigações não têm prazo para serem cumpridas. Perante o MPT, o iFood se comprometeu a não bloquear, suspender ou descredenciar entregadores por participação em greves ou sindicatos, a não usar “prepostos ou instrumentos tecnológicos” para interferir em manifestações e a não premiar quem deixar de aderir a paralisações. Benjamim e SQi assumiram compromissos semelhantes. Cada obrigação descumprida gera multa de R$ 50 mil por mês, até o limite de R$ 500 mil por ano.
Dinheiro vai para pesquisas sobre trabalho de entregadores e responsabilidade de plataformas
O eixo de compensação é o que se movimenta mais lentamente. O TAC fixou em R$ 6 milhões o valor que o iFood deve investir em pesquisas sobre três temas: relações de trabalho dos entregadores, mercado publicitário e responsabilidade das plataformas. O acordo não fixou prazo para a escolha de quem administraria o dinheiro, mas determinou que, feita a escolha, a transferência ocorreria em até 15 dias úteis. O primeiro repasse chegou três anos e dois meses após a assinatura e corresponde à metade do total.
O CNPq deve lançar, ainda neste semestre, a chamada pública para selecionar pesquisadores. Os projetos se dividem em duas frentes: regulação da publicidade e do marketing digital, e responsabilidade das plataformas diante de conteúdos falsos sobre saúde pública, meio ambiente e democracia. As pesquisas devem terminar até julho de 2030, com resultados públicos.
Duas horas. Essa é a contagem do tempo que separa a execução do advogado Davi Sebba e o nascimento de seu primeiro e único filho, Gabriel Davi. Foi no dia 5 de julho de 2012, por volta das 18 horas, que Sebba saiu de casa e foi até o hipermercado Carrefour, em Goiânia, para comprar os últimos itens necessários ao nascimento do primogênito. No estacionamento da loja, porém, houve um suposto confronto com três policiais militares, que resultou em uma vítima fatal. Entre 19h10 e 19h11 Davi Sebba foi atingido por um tiro no coração.
Mais de catorze anos depois, o caso chega nesta quinta-feira, 1° de outubro, ao Tribunal do Júri de Goiás. De acordo com o relatório do inquérito ao qual a Agência Pública teve acesso, Sebba sofreu uma emboscada e foi executado. O homicídio aconteceu horas após outro assassinato. Em plena via pública, o radialista Valério Luiz, sem antecedentes criminais, foi morto a tiros, caso que só foi julgado em 2022.
Em 2012, sob o governo de Marconi Perillo, que à época era filiado ao PSDB e hoje é novamente candidato ao cargo pelo mesmo partido, Goiás registrou uma taxa de 44,3% de assassinatos para cada 100 mil habitantes, levando o estado a figurar em 4º lugar no ranking de mais violento do país, segundo dados do Mapa da Violência 2014.
Naquela época, a região teve 1.297 homicídios dolosos. Em relação ao número de pessoas mortas em confronto com a Polícia Militar, foram 6 em 2011 e 17 em 2012, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A organização registra, também, que no mesmo ano já era considerada “baixa” a classificação de qualidade na transparência de informações sobre mortes perpetradas por policiais.
Não à toa, a morte de Sebba ilustra a questão. No seu caso, respondem pelos crimes de homicídio qualificado, fraude processual, porte ilegal de arma de fogo com numeração raspada, disparo de arma de fogo e usurpação de função pública os policiais Jhonatas Atenevir Jordão, Edinailton Pereira de Souza e o soldado Luiz Frederico Oliveira. Eles são acusados, principalmente, de terem feito uma emboscada e executado Sebba. O agente Jordão foi condenado na Justiça Federal em 2016 em um caso sobre espionagem envolvendo policiais federais. A sentença foi definida pelos crimes de organização criminosa e corrupção passiva.
O caso de Davi Sebba
De acordo com depoimentos incluídos no relatório da investigação, Jordão e Edinailton se deslocaram até o hipermercado, onde encontraram o soldado, para fazer uma abordagem a Sebba.
O advogado estava sendo monitorado pela Polícia Federal (PF) em uma investigação por tráfico de entorpecentes e teria ido ao local para vender um tablete de maconha. A perícia, entretanto, não encontrou nenhuma droga no carro, nem na residência de Sebba. A investigação não chegou a ser concluída por causa de sua morte.
Na versão dos policiais militares, o confronto no hipermercado ocorreu porque o advogado reagiu a aproximação, portando um objeto na mão – em alguns depoimentos, os agentes disseram que o item era parecido com uma arma. Ao ver Sebba em contato com o suposto comprador do entorpecente, eles decretaram a voz de polícia. Jordão, no entanto, viu o advogado pegando algo dentro do carro, o que pensou ser uma arma, e então disparou contra a vítima.
Segundo os agentes, mesmo atingido, Sebba continuou dirigindo em direção à saída do estacionamento. No trajeto, ele colidiu em uma pilastra no local. Em seguida, ao ser retirado do veículo por um segurança do Carrefour e pelo agente Jordão, os policiais notaram o revólver em cima do banco do passageiro.
Na versão dos policiais militares, o confronto no supermercado ocorreu porque o advogado reagiu a aproximação e arrancou com o veículo que dirigia, motivo pelo qual foram feitos os disparos, que acertaram principalmente as rodas traseiras do carro. Apesar disso, a vítima teria continuado em fuga, tendo colidido o automóvel com uma barraca de coco.
Ao ser retirado do veículo por um segurança do Carrefour, os policiais notaram um revólver em cima do banco do passageiro. O policial Jordão, no entanto, teria percebido antes a arma e, por isso, efetuou o tiro que vitimou Sebba.
As conclusões registradas no relatório da investigação assinado pelo delegado Murilo Polati contrastam com a versão dos acusados. A autoridade concluiu que Sebba “foi executado, uma vez que não teve possibilidade alguma de reação no momento da abordagem policial”, que também não se deu “exatamente no local mencionado pelos policiais e pelo suposto comprador”.
Advogado Davi Sebba era monitorado pela Polícia Federal, mas investigação não encontrou entorpecentes em seu carro nem na sua casa
Atesta, ainda, que a arma encontrada no carro foi “plantada pelos policiais militares envolvidos na abordagem”, que “alteraram sobremaneira a cena do crime, recolhendo todos os estojos de munição existentes no local”. A questão impossibilitou, inclusive, a realização de outros exames de balística para comprovar o verdadeiro autor do disparo que tirou a vida do advogado.
Segundo Polati, os policiais fizeram uma “grave alteração do estado original das coisas”: retiraram o corpo da vítima de dentro do veículo, vasculharam o interior do carro, removeram a chave de ignição e abriram a tampa do porta-malas. A perícia também não encontrou pólvora em seus dedos, nem “fragmentos de impressões papilares apropriados para confronto na arma de fogo” encontrada no interior do veículo, o que significa que Sebba não tocou no referido objeto.
O delegado registrou, ainda, que “a quebra de sigilo dos dados telefônicos de Jordão e Edinailton demonstrou que eles conversaram entre eles dez vezes” quando já estavam no hipermercado, “o que demonstra claramente que cada um estava em um ponto diferente do estacionamento aguardando a chegada da vítima, e não juntos conforme aduziram em seus depoimentos e também aos peritos”.
O Conselho Nacional de Direitos Humanos manifestou repúdio ao caso. Segundo o órgão, “a minimização da violação de direitos humanos pela estigmatização e criminalização da vítima é notória e se repete como outros casos de violências causadas por agentes estatais”.
Federalização de crimes da PM de Goiás
Naquele mesmo dia, horas antes de se reunir com Jordão, o agente Edinailton esteve na cena de outro crime, ocorrido no mesmo dia, 5 de julho de 2012: o assassinato do comentarista esportivo Valério Luiz, morto enquanto saía da emissora de rádio em que trabalhava. Segundo o Ministério Público do estado, a motivação do crime teria sido críticas feitas pelo radialista contra a direção do clube Atlético Goianiense.
“Ele [Edinailton] procurou câmeras ao redor da cena [do homicídio] para ver se tinha alguma. Com certeza foi na intenção de pegar essas imagens, qualquer imagem que existisse, e sumir com elas”, disse à Pública Valério Luiz Filho, advogado e filho do radialista.
Os casos de Davi Sebba e Valério Luiz chegaram a integrar um relatório produzido em 2012 pelo deputado estadual Mauro Rubem (PT), então presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado de Goiás, e pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos (hoje Conselho Nacional de Direitos Humanos). O documento serviu de base para o pedido de federalização (transferência da investigação de um crime da Justiça Estadual para a Justiça Federal, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal) de 30 crimes cometidos por policiais militares da corporação goiana, que envolviam tortura, homicídios e desaparecimentos forçados.
Os casos reuniam sobretudo agentes da ROTAM (Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas). O grupo foi criado com base na doutrina da Rota da Polícia Militar de São Paulo, mantendo uma adequação às necessidades do Centro-Oeste. Na época, os agentes da Rotam estavam lotados no Comando de Missões Especiais (CME) da Polícia Militar do Estado de Goiás. O setor incorporava, também, o Batalhão de Choque e o Grupo de Radiopatrulhamento Aéreo (GRAER). O CME era chefiado pelo então coronel Wellington Urzêda, atual vereador de Goiânia pelo Partido Liberal (PL) e atual candidato à deputado estadual pela mesma sigla.
Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime
CME-2
Neste Comando havia ainda um grupo de inteligência formado por 16 policiais, entre eles Edinailton (envolvido no caso de Davi Sebba), Ademá Figueredo e Djalma Gomes da Silva. Os dois últimos foram réus no julgamento do assassinato de Valério Luiz. Figueredo foi apontado como autor dos disparos e condenado a 16 anos de reclusão; Djalma, acusado de ter auxiliado no planejamento do homicídio e atrapalhado as apurações, foi absolvido.
Comandados pelo então capitão Durvalino Câmara dos Santos Júnior, também piloto do GRAER, o coletivo de inteligência era chamado de CME-2. Foi Santos Júnior quem recebeu no dia 5 de julho de 2012 uma ligação do policial federal Rômulo Mendonça Bailão informando que Sebba estaria no hipermercado para vender o entorpecente. Bailão pediu para que uma equipe fosse deslocada até o local para prender o suspeito e Santos Júnior determinou as instruções iniciais para a operação.
De acordo com o relato do capitão, tais informações foram obtidas por escutas telefônicas autorizadas judicialmente e faziam parte de uma grande operação desencadeada pela corporação federal. Ainda segundo o depoimento de Santos Júnior, “era normal a troca de informações com outras corporações de segurança”.
Policiais militares, no entanto, não têm competência para participarem de investigações. A questão foi endereçada no relatório final do caso, cujo teor a Pública teve acesso. “Ao final, cumpre ressaltar que a função dos policiais militares lotados no setor de inteligência daquela instituição é a de investigar os seus próprios pares em razão das condutas ilícitas por ele cometidas, e não a de investigação de crimes comuns, função esta atribuída constitucionalmente às Polícias Judiciárias”, escreveu o delegado Murilo Polati no documento.
Em 2011, um ano antes da execução do advogado, o Capitão Durvalino Câmara dos Santos Júnior foi preso durante a Operação Sexto Mandamento, realizada pela Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário em Goiás. No total, 19 policiais militares foram presos sob suspeita de integrarem um grupo de extermínio. Atualmente, Santos Júnior é Chefe do Estado-Maior Estratégico da Polícia Militar do Estado de Goiás.
Responsável por analisar e votar propostas de segurança pública e de combate à criminalidade, a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados (CSPCCO) tem 32 titulares, dos quais 19 têm relação direta com forças de segurança. Um levantamento feito pela Agência Pública identificou que 12 dos deputados ligados a corporações policiais aparecem como acusados, partes, investigados ou réus em procedimentos judiciais de natureza criminal. As ações vão desde injúria e difamação até violência contra a mulher.
Parte das ações judiciais levantadas tramitam sob sigilo. Nos casos dos deputados Paulo Bilynskyj (PL-SP) e Delegado da Cunha (União Brasil-SP), ambos figuram no polo passivo de processos que apuram crimes de violência contra a mulher. Capitão Alden (PL-BA) foi acusado de invadir as dependências de um hospital durante a pandemia da Covid-19. Já Aluísio Mendes (Republicanos-MA), Capitão Meira (PL-PE), Delegado Caveira (PL-PA) e Delegado Fábio Costa (PP-AL) respondem por crimes contra a honra em ações que ainda tramitam na Justiça.
Num outro grupo estão os titulares que conseguiram se livrar dos procedimentos.
A Delegada Adriana Sauthier Accorsi (PT-GO) e o Sargento Fahur (PSD-PR) responderam, respectivamente, por irregularidades nas contas eleitorais e por abuso de autoridade, mas firmaram acordos com o Ministério Público. Enquanto Pedro Aihara (PP-MG) respondeu por crime praticado contra a Administração, mas teve o processo encerrado na Justiça Federal após o MP entender que o imposto devido seria “irrisório”.
Entre os parlamentares absolvidos das acusações estão Alberto Fraga (PL-DF), que respondeu por posse ilegal de arma de fogo e suposta cobrança de propina, e o Sargento Gonçalves (PL-RN), investigado por metralhar um suspeito durante uma operação policial.
Uma pesquisa internacional publicada em 5 de abril de 2025 pelo Centro de Pesquisa em Política Econômica (CEPR), que tem como um dos autores o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Breno Sampaio, cruzou dados sobre a prevalência de candidatos com antecedentes criminais ocupando cargos públicos no Brasil. O estudo identificou que indivíduos já acusados de crime têm até o dobro da probabilidade de se candidatarem e serem eleitos. “Um padrão que persiste em todos os partidos políticos e níveis de governo”, diz a pesquisa.
Para o analista político Melillo Dinis, várias razões permitem inferir a quantidade expressiva de políticos respondendo a processos criminais, especialmente no Congresso Nacional, a exemplo de: foro privilegiado, financiamento de campanhas, alianças políticas, infiltração do crime organizado na política local e permissividade da legislação eleitoral.
Segundo Dinis, o estudo do CEPR sugere que o próprio sistema político atrai proporcionalmente mais indivíduos com problemas jurídicos prévios, “em parte devido à busca por poder econômico ou pelas proteções jurídicas que o cargo oferece”. “É um fenômeno mais brasileiro que de outros países, o que aponta para um desvio da função política”, pontuou.
Delegado Da Cunha
Figurinha carimbada nas páginas policiais, Carlos Alberto da Cunha foi denunciado à Justiça pelo Ministério Público, em 2023, por violência doméstica contra sua então companheira. À época, um vídeo em que ele aparece agredindo, xingando a mulher e ameaçando matá-la foi veiculado na imprensa. A defesa negou as acusações e afirmou que provaria a inocência do parlamentar no processo, que corre sob sigilo no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). A ação ainda não foi encerrada.
Anos antes, um outro episódio colocou o ainda delegado no centro de outras investigações administrativas e judiciais, quando o então policial passou a responder por suspeitas de abuso de autoridade e constrangimento ilegal relacionadas à simulação de prisão durante um resgate num caso de sequestro na Zona Leste de São Paulo.
A ocorrência ocorreu em julho de 2020, quando a polícia localizou um cativeiro e libertou a vítima. Segundo apurado, Da Cunha chegou após o fim da operação e teria determinado que o resgate fosse reproduzido para a gravação de imagens, posteriormente publicadas em seu próprio canal no YouTube.
A Justiça aceitou denúncia do Ministério Público sobre o caso e tornou Da Cunha réu, em processo que ainda tramita sob sigilo no Tribunal de Justiça de São Paulo.
Na esfera administrativa, após a apuração de irregularidade funcional da Corregedoria, o Conselho da Polícia Civil decidiu demiti-lo. A demissão, confirmada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no Diário Oficial de 3 de setembro de 2026, no entanto, não foi efetivada. No mesmo dia, a Justiça de São Paulo concedeu liminar, assinada pelo desembargador Álvaro Torres Júnior, que impediu a decisão, exigindo análise mais aprofundada sobre o caso.
À Pública, o parlamentar disse que o “processo instaurado em 2023 [violência doméstica] segue em segredo de justiça”. “No segundo caso, o procedimento foi arquivado com a extinção da punibilidade”, informou. O deputado não comentou a demissão por Tarcísio.
Capitão Alden
O Capitão Alden (PL-BA) responde a pelo menos dois processos que não podem ser acessados publicamente pela internet. Em um deles, o parlamentar foi denunciado pelo Ministério Público por invadir as dependências do Hospital Riverside, localizado no município de Lauro de Freitas (BA), acessando áreas restritas da unidade de saúde.
O processo 8016892-62.2023.8.05.0150 corre em sigilo e derivou do Procedimento Investigatório Criminal n.º 003.9.103129/2020, que relata como, no dia 17 de junho de 2020, o deputado descumpriu as regras sanitárias e administrativas que estabeleciam a restrição de acesso e circulação de pessoas no âmbito de unidades destinadas ao tratamento de pacientes acometidos com o vírus SARS-CoV-2.
O coronel ainda aparece como acusado em um inquérito da Polícia Militar da Bahia, no processo 0027464-98.2011.8.05.0001, de 2011, por “crime militar”.
A reportagem procurou, por semanas, o parlamentar por e-mail e telefone, mas não obteve resposta. Em caso de manifestação, esse espaço será atualizado.
Paulo Bilynskyj
O deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP), que também possui carreira como delegado, foi acusado de ameaçar e praticar violência psicológica contra uma ex-namorada. O processo 1504500-16.2022.8.26.0050, de 2022, tramita sob sigilo na 1ª Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Fórum Regional II de Santo Amaro.
Não foi o primeiro caso do parlamentar envolvendo ex-companheiras que foi parar na Justiça. Em 2020, Bilynskyj foi baleado seis vezes pela então namorada Priscila Barrios, que, segundo a investigação, teria tirado a própria vida em seguida.
Conforme as investigações da Polícia Civil de São Paulo, o episódio ocorreu no apartamento do delegado depois de uma discussão entre os dois. O deputado teve um dos dedos da mão amputado devido aos ferimentos. A Justiça arquivou o caso.
A reportagem procurou o deputado por e-mail e telefone, mas não obteve retorno. Em caso de manifestação, esse espaço será atualizado.
Coronel Meira
Luiz de França e Silva Meira, o Coronel Meira (PL-PE), aparece em pelo menos quatro processos públicos ou ações de natureza criminal relacionados a acusações de crimes contra a honra, injúria, difamação e ameaça.
Em um dos casos, Meira foi alvo de uma queixa-crime no Supremo Tribunal Federal (STF) feita pelo coronel da reserva Elias Miler da Silva, após supostas ofensas e ameaças durante sessões da Comissão de Segurança Pública na Câmara dos Deputados. Miler é assessor de assuntos parlamentares e representante da Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares Estaduais, por isso, acompanha a tramitação de propostas da área no Congresso.
“Cheguei aqui e disse que quem fez isso aqui é um filho da puta, e aí o coronel veio para cima de mim questionando se eu estava falando com ele. Se a carapuça caiu na cabeça dele é problema dele. Agora meus problemas eu resolvo, tá certo, Miler? Aqui dentro, no braço, lá fora, na bala. Eu não vou ficar desonrado”, disse o parlamentar em sessão da CSPCCO do dia 7 de outubro de 2025.
A defesa de Elias Miler afirmou que as manifestações do deputado ultrapassaram os limites da imunidade parlamentar. O processo movido resultou, em abril de 2026, numa medida cautelar determinada pelo ministro Flávio Dino, proibindo Meira de se aproximar mais do que 50 metros do assessor.
A determinação foi atualizada um mês depois, em maio, após Coronel Meira assumir a presidência da CSPCCO, o que, segundo a defesa do parlamentar, o impediria de exercer suas funções na Casa Legislativa. O STF, então, suprimiu a restrição, mas determinou a continuidade do impedimento de qualquer tipo de discussão acalorada, presencial ou virtualmente, entre as partes. O processo ainda aguarda recebimento ou rejeição da queixa-crime.
Mas essa não é a única questão com a qual o coronel tem que lidar na Justiça. Duas ações envolvendo o parlamentar tramitam no Supremo Tribunal Federal por crimes contra a honra, como injúria e difamação. Uma delas, a PET 16354, foi apresentada este ano pelo senador José Renan Vasconcelos Calheiros Filho e tramita sob sigilo.
Uma segunda ação, a Petição 15.942, é uma queixa-crime movida pelo cacique Marcos Xucuru, prefeito de Pesqueira (PE). Segundo a denúncia, o deputado teria utilizado as redes sociais e a tribuna da Câmara dos Deputados para fazer acusações e ofensas contra o cacique, incluindo uma suposta ligação com o tráfico de drogas e outros crimes.
Na Justiça estadual, uma decisão liminar da 2ª Vara Cível de Pesqueira determinou a retirada de vídeos das redes sociais relacionados ao caso. A determinação foi dirigida ao Facebook Serviços Online do Brasil, responsável pelo Instagram. Enquanto isso, no STF, o processo está em análise, sob relatoria do ministro Luiz Fux.
À Pública, a assessoria do Coronel Meira informou que “os processos mencionados referem-se a ações de natureza penal relacionadas exclusivamente a alegadas manifestações e declarações de caráter político atribuídas ao deputado”: “Todas decorrentes de divergências e disputas inerentes à atividade parlamentar”.
“Tratam-se de processos ainda em tramitação, sem decisão judicial definitiva quanto aos fatos imputados, sendo que, em alguns casos, sequer houve a citação do deputado. Assim, a existência de tais registros processuais não se confunde com condenação ou reconhecimento judicial da prática dos crimes alegados, permanecendo as questões submetidas à apreciação do Poder Judiciário.”
Um quarto processo criminal envolvendo o coronel Meira já foi encerrado após um acordo. O Ministério Público Federal (MPF) moveu ação penal contra o deputado após suas declarações sobre a então superintendente da Polícia Federal Carla Patrícia Cintra, durante entrevistas, em que, segundo a acusação, teria afirmado que Cintra protegeria políticos do PSB e estaria obstruindo investigações em Pernambuco. O parlamentar firmou acordo e pagou R$ 7,9 mil, dividido em parcelas, e o caso transitou em julgado em julho de 2024.
Delegado Caveira
Lenildo Mendes dos Santos Sertão, conhecido como Delegado Caveira (PL-PA), é alvo de uma ação apresentada pela prefeita de Ulianópolis, Kelly Cristina Destro, que teria sido chamada de “vagabunda” e “desonesta” pelo deputado durante evento político em 2022.
A acusação reúne vídeos, publicações nas redes sociais e registros da repercussão das declarações na imprensa, entendidas pela prefeita como ataques à honra e à atuação dela como autoridade pública.
A Justiça recebeu a ação e determinou que o deputado apresentasse sua defesa. O processo passou por diferentes instâncias antes de retornar à Justiça de Ulianópolis. Até o momento, não houve decisão.
A reportagem procurou, por semanas, o deputado por meio de email e telefone, mas não obteve resposta. Em caso de manifestação, esse espaço será atualizado.
Alberto Fraga
Ex-presidente da Comissão de Segurança Pública, o deputado Alberto Fraga (PL-DF) foi condenado duas vezes, em ocasiões diferentes, mas em ambos os casos teve o caso revisto pela Justiça e foi absolvido.
Em 2011, durante o cumprimento de mandado judicial no apartamento de Fraga em Brasília, no contexto da Operação Regin, que investigava um esquema de propinas na Secretaria de Transportes do Distrito Federal, policiais encontraram um revólver de uso restrito .357 Magnum e centenas de munições.Em 2013, ele foi condenado a quatro anos de prisão, em primeira instância, e sua defesa recorreu da decisão.
Em setembro de 2018, o Exército Brasileiro assinou portarias autorizando a aquisição de até duas armas de fogo de uso restrito, calibre 9 milímetros, para uso particular de servidores da segurança pública. Em fevereiro de 2019, Fraga acabou absolvido após desembargadores do Tribunal de Justiça do Distrito Federal entenderem que a resolução do Exército gerou a absolvição do crime.
Também em setembro de 2018, Fraga foi condenado a uma pena superior a quatro anos de prisão em regime semiaberto em um processo movido pelo Ministério Público do Distrito Federal dez anos antes, em que o político foi acusado por supostamente exigir R$ 350 mil em propina para autorizar a operação de uma cooperativa de micro-ônibus em Brasília.
A defesa dele recorreu, e em 2020, a 2ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) reformou a sentença. Os desembargadores consideraram que as provas reunidas seriam frágeis e insuficientes para sustentar a condenação e o parlamentar foi absolvido por unanimidade.
À Pública, a equipe de Fraga ressaltou que o deputado não sofreu penalidades:
Tanto é assim que todas as certidões negativas criminais foram devidamente apresentadas e juntadas ao pedido de registro de candidatura perante o TRE/DF, tendo o registro de candidatura sido deferido sem objeção. Assim, o deputado e atual candidato não possui nenhum processo criminal em andamento e nenhuma condenação, decorrente desse ou de qualquer outro processo.”
Aluísio Mendes
Aluísio Guimarães Mendes Filho (Republicanos-MA) foi processado, em 2026, pelo juiz federal Magno Linhares. Trata-se de uma queixa-crime por calúnia que tramita no STF, mas ainda aguarda manifestação do MPF.
Segundo o magistrado, o parlamentar imputou contra ele o crime de interferir no Judiciário maranhense e obter condenação criminal em “tempo recorde” do ex-prefeito de Rosário (MA), Calvet Filho, aliado de Mendes. O juiz, autor da ação, é pai do atual prefeito de Rosário, Jonas Magno (PDT).
“Essas pessoas que usam de forma ardilosa e covarde o Judiciário do nosso Estado para perseguir as pessoas inocentes terão a resposta que merecem”, discursou Mendes na Tribuna do Plenário da Câmara dos Deputados.
A reportagem procurou, por semanas, o deputado por email e telefone, mas não obteve resposta. Em caso de manifestação, esse espaço será atualizado.
Delegada Adriana Accorsi
A delegada e ex-candidata à Prefeitura de Goiânia Adriana Sauthier Accorsi (PT-GO) foi alvo de uma ação do Ministério Público Eleitoral (MPE) relacionada à prestação de contas da campanha de 2016.
No processo, o MPE apontou suspeitas de irregularidades nas contas eleitorais, incluindo despesas de campanha que não teriam sido declaradas e o órgão desconfiou de possível “caixa 2”. Um inquérito foi aberto, mas um acordo de R$ 5 mil como reparação foi firmado antes da continuidade da ação penal e a ação foi encerrada.
À Pública, a assessoria da deputada informou que “Adriana Accorsi não responde a qualquer ação penal e não possui condenação criminal”. “O procedimento citado foi encerrado e arquivado definitivamente mediante acordo proposto pelo Ministério Público, sem qualquer julgamento do mérito, sem reconhecimento de culpa, sem condenação ou impacto em seus antecedentes.”
Fábio Costa
O Delegado Fábio Costa (PP-AL) se tornou, em 2024, alvo de uma queixa-crime apresentada pelo presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas, Marcelo Victor Correia dos Santos, após uma publicação nas redes sociais.
Segundo a acusação, Costa teria associado o presidente da Assembleia a uma mala de dinheiro e levantado suspeitas sobre a promoção de um militar. Na ação, Marcelo Victor afirmou que as declarações são falsas e atingiram sua honra.
A defesa de Fábio Costa, por outro lado, sustenta uma versão diferente. Segundo os advogados, as manifestações estão protegidas pela imunidade parlamentar e fazem parte do debate político. O processo ainda não teve decisão no STF. A análise está sob responsabilidade do ministro Luiz Fux.
A reportagem procurou, por semanas, o deputado por email e telefone, mas não obteve resposta. Em caso de manifestação, esse espaço será atualizado.
Sargento Fahur
O deputado federal Gilson Cardoso Fahur, o Sargento Fahur (PSD-PR), respondeu a uma ação penal na Justiça Federal por abuso de autoridade a partir de um vídeo em que o policial militar aposentado aparecia, durante uma operação, ofendendo verbalmente pessoas detidas sob sua custódia, o que foi entendido como situações de constrangimento e vexame.
O juiz Fernando Tonding Etges, encerrou a ação penal e determinou o arquivamento do processo após a homologação de um acordo para suspensão condicional que envolvia o pagamento de R$ 1,2 mil e comparecimento mensal do deputado em juízo – o que a defesa depois justificou a ausência alegando as atividades legislativas do parlamentar em Brasília.
Em nota à Pública, Fahur afirmou que todos os envolvidos foram autuados legalmente pela Polícia Civil. “Durante uma entrevista sobre a ocorrência, me referi aos três envolvidos como ‘Gordo’, ‘Gordinho’ e ‘Robocop’. Cabe esclarecer que as alcunhas ‘Gordo’ e ‘Gordinho’ foram informadas pelos próprios detidos durante a abordagem. Já a expressão ‘Robocop’ foi utilizada em referência ao terceiro indivíduo, que caminhava de forma rígida porque estava com haxixe preso às pernas com fita adesiva”, narrou. O parlamentar disse não se envergonhar do ocorrido.
Sargento Gonçalves
Em 2022, Evandro Gonçalves da Silva Júnior, o deputado Sargento Gonçalves (PL-RN), foi processado criminalmente por matar um suspeito de roubo de veículo com uma submetralhadora durante uma perseguição policial em julho de 2021, quando ainda atuava como 3º Sargento da Polícia Militar do Rio Grande do Norte.
O caso chegou a tramitar na Justiça Militar, mas posteriormente foi encaminhado para a Justiça Comum. A investigação concluiu que os policiais haviam atuado em legítima defesa.
Em nota, a defesa do sargento informou que as 1ª e 2ª Varas Criminais de Natal arquivaram o caso que “foi encerrado na fase de investigação, sem denúncia ou condenação do Sargento Gonçalves”. “A apuração militar também concluiu pelo não indiciamento dos policiais envolvidos, por não identificar crime militar ou transgressão disciplinar”, afirmou a equipe do deputado.
Pedro Aihara
Em 2024, o deputado Pedro Doshikazu Pianchao Aihara (PP-MG), que é bombeiro militar, foi alvo de procedimento investigatório criminal conduzido pelo MPF por suspeita de descaminho – crime que consiste em iludir, no todo ou em parte, o pagamento de impostos ou direitos devidos pela entrada, saída ou consumo de mercadorias permitidas no país.
A Receita Federal apreendeu quatro notebooks de procedência estrangeira com Aihara no aeroporto de Foz do Iguaçu. Segundo o relatório fiscal, o valor dos impostos que deixaram de ser recolhidos era de R$ 2,8 mil.
O MPF pediu o arquivamento do procedimento, citando o princípio da insignificância e jurisprudência dos tribunais superiores que afasta a tipicidade criminal em determinadas situações envolvendo débitos tributários inferiores a R$ 20 mil. O procedimento foi encerrado sem aplicação de penalidade.
Por meio de nota, a assessoria do deputado informou que “o episódio decorreu exclusivamente de um contratempo logístico e de interpretação burocrática por parte da fiscalização”: “O grupo viajou em quatro pessoas, mas, devido a contingências de retorno (parte da equipe deslocou-se por via terrestre e o deputado por via aérea), os equipamentos acabaram sendo concentrados temporariamente para transporte conjunto”.
“Não houve qualquer intuito comercial, clandestinidade, fraude ou dano ao erário, premissas atestadas pela absoluta boa-fé e transparência com que os bens foram portados e apresentados. Inclusive há a comprovação de todos esses aspectos no recurso administrativo que foi apresentado”, informaram.
Cíntia Tatiele Pereira perdeu a prima, a servidora pública Priscila Pereira, vítima de feminicídio, em Porto Velho (RO). Priscila foi assassinada em 2020 com um tiro na cabeça pelo marido, o sargento da Polícia Militar Edmundo do Amaral, que tirou a própria vida em seguida.
Antes do crime, Priscila visitou Cintia, que, à época, morava em São Paulo. Durante sua estadia, chamou a sua atenção o comportamento “demasiadamente apegado à esposa” de Edmundo. Cíntia lembra ter tido poucas oportunidades de ficar a sós com a irmã. Em uma ida à escola para deixar a filha, as duas conseguiram conversar e Priscila revelou que, há meses, era agredida psicológica e fisicamente pelo marido. “Em uma briga, ele apontou a arma para ela, que o denunciou. Ele foi submetido a diligências internas, mas nunca ficou preso”, rememora.
Um dia, Priscila foi à casa de uma amiga cutilar as unhas e fazer um trabalho acadêmico. O sargento pediu a chave do carro dela para levar pizza para os filhos e ela se negou a entregar. Travou-se uma discussão, eles foram para o banheiro, quando dois disparos foram ouvidos. Para a prima, foi um assassinato premeditado: “Tanto que ele ligou para a ex-mulher pedindo que cuidasse dos filhos que ele iria fazer uma besteira”, afirma Cíntia, que também foi vitima de violência em um dos relacionamentos e se tornou diretora da Coordenadoria de Políticas para as Mulheres de Porto Velho.
Priscila Pereira foi assassinada com um tiro na cabeça, aos 29 anos, em Porto Velho
Apesar de ter feito denúncia contra o marido, no momento da morte, Priscila não tinha nenhuma medida protetiva. Ela não é a única. Em 2025, oito dos nove estados da Amazônia Legal registraram 200 feminicídios – 90% das vítimas não tinham qualquer medida de proteção ativa na hora do óbito, segundo dados inéditos obtidos pela Agência Pública. Rondônia, estado de origem de Priscila, registrou 25 mortes, mas em todos os casos a mulher não possuía medida cautelar. No Brasil, foram 1.568 mulheres vítimas de feminicídio em 2025 – mais de quatro por dia –, aumento de 4,7% em relação a 2024.
Seis dos dez estados com as maiores taxas de feminicídio do país estão na Amazônia Legal. O Acre, por exemplo, é o campeão brasileiro com a maior taxa do crime em 2025, com 3,2 mortes por 100 mil mulheres, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número é mais do que o dobro da taxa média brasileira de 1,4. Rondônia (com 2,9), Mato Grosso (2,7) e Tocantins (2,5) completam o ranking das maiores taxas de feminicídio do Brasil.
Os dados foram pedidos pela Agência Pública à Secretaria de Segurança Pública (SSP) de todos os estados da Amazônia Legal – só o Pará não respondeu. No entanto, o estado é o que teve a menor taxa de feminicídio por cem mil mulheres na Amazônia.
A medida protetiva no caso da violência de gênero é uma ordem judicial destinada à proteger a mulher, impedindo que o agressor se aproxime da vítima. Em alguns casos, o abusador pode ficar sob monitoramento eletrônico e a medida pode vir acompanhada de acolhimento para a mulher e os filhos, caso não tenha condições financeiras ou rede de apoio segura.
A violência contra a mulher possui etapas que escalam de agressões verbais à físicas. Quanto antes a denúncia for realizada, mais rápido esse ciclo pode ser interrompido. Todavia, em muitos casos as agressões avançam silenciosamente, incólumes aos olhos do Estado. Para se ter uma ideia, apenas 10 das 25 vítimas de feminicídio em Rondônia tinham registros de denúncias anteriores, de acordo com a SSP.
No segundo estado com a maior taxa de feminicídio do Brasil, o crime virou promessa de campanha dos principais candidatos ao governo. Marcos Rogério (PL), líder da intenção de voto em Rondônia, propõe que “os serviços de saúde estejam preparados para identificar situações de violência, que haja ampliação da Lei Maria da Penha e fortalecimento das delegacias da mulher”. Já o segundo nas intenções de voto, Adailton Furia (PSD), fala em “implantar unidades especializadas nas principais regiões do estado e ampliar a Patrulha Maria da Penha”.
Já no Acre, campeão no ranking de taxa de feminicídio, a candidata à reeleição Mailza Silva (PP), propõe “a interiorização dos serviços, ampliação dos canais de denúncia e maior rigor no monitoramento de agressores”. O candidato Alan Rick (Republicanos), segundo colocado nas pesquisas, defende o “reforço na corporação das delegacias da mulher e autonomia para reduzir a dependência econômica das mulheres de homens abusivos”.
A concentração de serviços nas capitais
As altas taxas de feminicídios em alguns estados da Amazônia Legal pode ser explicada, entre outros fatores, pela “concentração dos serviços nas capitais”, analisa a professora da faculdade de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenadora da Clínica de Atenção à Mulher em Situação de Violência, Luanna Thomaz.
Luanna Thomaz, pesquisadora e professora da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Pará
A pesquisadora observa que “o feminicídio não é algo homogêneo”, ou seja, “fatores culturais, religiosos e geográficos influenciam na forma como ele é registrado, processado e julgado”. No caso das cidades amazônidas, prossegue a especialista, os serviços de combate estão concentrados nas capitais, enquanto as cidades do interior não possuem infraestrutura adequada da rede de proteção.
Isso faz com que, muitas vezes, essas mulheres dos interiores se sintam desprotegidas”.
Luanna Thomaz
Pesquisadora e professora da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Pará
Não é por acaso que a taxa de feminicídio é mais alta em cidades de até 50 mil habitantes do que em capitais ou municípios maiores, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Outro desafio destacado por Thomaz é que “muitas mulheres têm dificuldade não só de buscar uma medida protetiva por não ter acesso a uma delegacia da mulher ou qualquer delegacia perto, mas também de fazer com que essa medida protetiva seja realidade a ponto de ela não ser morta”.
Em Rondônia, três mulheres assassinadas em 2025 tiveram medida protetiva em algum momento do ciclo de violência. “Uma medida foi revogada e duas foram extintas antes da ocorrência do feminicídio”, disse à Pública a Secretaria de Estado de Comunicação.
O relatório Sócio-Econômico da Mulher 2026, elaborado pelo Observatório da Igualdade de Gênero e o Ministério das Mulheres, retrata em números a insuficiência de equipamentos da rede de proteção às vítimas de violência. Os sete estados da região Norte representam 45% do território nacional e têm área superior à da Índia. Esses estados possuem 66 delegacias especializadas em violência contra a mulher, 19 juizados e varas especializadas, dez núcleos de Defesa nas Defensorias Públicas, 17 casas abrigo e só 13 Patrulhas Maria da Penha. Esta última iniciativa consiste em rondas por bairros onde há mulheres com medidas protetivas ativas para evitar o descumprimento.
A realidade no interior
Era mais um dia comum no interior do Amazonas. Na quarta-feira, 20 de agosto, Lene Tavares levou a irmã, Ana Tavares, 20 anos, de moto à escola onde ela trabalhava. Naquela mesma noite, o aplicativo de troca de mensagens sinalizou que Ana ficara online até às 19h45. No dia seguinte, como ela não foi trabalhar, colegas de trabalho foram à sua residência, um quarto na Pousada Flor da Mata, em Barcelos (400 km) de Manaus, após ligarem insistentemente para o celular sem que ela atendesse.
Ana Tavares foi morta por asfixia, aos 20 anos; suspeito é um jovem que “nutria um sentimento/interesse pela vítima.”
Chegando ao local, encontraram Ana Tavares morta, enrolada em um lençol, cheia de hematomas e cercada por cápsulas de medicamentos. A irmã, em choque, conta que não conseguia imaginar o que poderia ter acontecido. “Ela estava com a mesma farda que usava quando eu a deixei na escola”, lembra.
Lene explica que Ana namorava um policial que, na noite da sua morte, estava de plantão no quartel de Barcelos. Antes de morrer, a jovem relatou a outra irmã “que procurou um jovem chamado Alex para colocar um piercing e que teria sido assediada e passou a temê-lo”, relembra.
Ao lado de familiares, Lene pediu as imagens das câmeras de segurança da pousada. Os vídeos mostram um jovem de camisa vermelha entrar no quarto da vítima segurando uma sacola. Alguns minutos depois, ele sai da pousada e retorna sem a sacola nas mãos. A irmã levou as imagens à polícia. Quando a reportagem da Pública entrevistou Lene, em 15 de setembro, faltavam poucos dias para completar um mês da morte da irmã. Ela expressava angústia com a falta de respostas.
Entramos em contato com a Promotoria de Justiça de Barcelos, que disse que “a Polícia Civil concluiu as investigações do inquérito e que o Ministério Público do Estado do Amazonas já ofereceu denúncia formal contra o suspeito, que já evoluiu para Ação Penal e está em fase de citação do acusado”, diz a nota.
Ainda segundo o órgão, “os exames comprovaram que a vítima foi morta por asfixia” E que, além disso, a perícia apontou que a cena do crime foi alterada para simular um suicídio – com a alteração da posição do corpo e a inserção de medicamentos controlados ao lado da vítima. O acusado, ainda de acordo com o Ministério Público, “nutria um sentimento/interesse pela vítima, embora não tivesse formalmente estabelecido um relacionamento amoroso público entre eles”. Por fim, o órgão conta que “manifestou-se pela prisão preventiva do acusado”, porém, o Poder Judiciário “indeferiu aplicando medidas cautelares diversas da prisão”, concluiu.
Familiares de Ana Tavares e moradores de Barcelos fazem protesto em busca de justiça pela morte da jovem de 20 anos
Para mulheres como Ana Tavares, que vivem no interior, além de indígenas e ribeirinhas, que residem em territórios dentro da floresta, a violência de gênero ganha um aliado: o isolamento. Luanna Thomaz, da UFPA, frisa que os municípios amazônicos possuem distâncias de aldeias, comunidades e municípios que “não são calculadas por quilômetros, mas, sim, por horas de avião, barco e caminhadas”, destaca. “A região ainda têm dificuldade de atender mulheres ribeirinhas”, completa.
A diretora de Pesquisa do Instituto Igarapé, Melina Risso, diz que o órgão monitorou, entre os anos de 2017 e 2022, os casos de violência contra a mulher na Amazônia brasileira, colombiana e peruana. Com base nesse estudo, ela avalia que “o enfrentamento à violência nessa região ainda é muito inicial”. E que há fatores culturais e ambientais que intensificam o problema. “Há culturas indígenas que são bem patriarcais e percebemos também que defensoras ambientais passaram a sofrer violência de gênero com maior intensidade, à medida em que assumiram a liderança na defesa dos seus territórios”, explica.
Diretora de Pesquisa do Instituto Igarapé, Melina Risso, afirma que “é preciso interiorizar serviços de proteção às mulheres.”
Para pedir uma medida protetiva, as mulheres precisam se dirigir a uma delegacia especializada ou a uma delegacia comum e, caso não tenha acesso a nenhum desses equipamentos, pode ir direto à Justiça. Para uma mulher que vive na Terra Indígena Yanomami, por exemplo, o acesso físico a um desses equipamentos é uma operação de grande porte. E, ao chegar ao local, ainda há a barreira do idioma. “Em muitos desses locais, sequer há intérprete para auxiliar na comunicação entre a vítima e o delegado”, acrescenta.
Imagine que uma mulher indígena ou ribeirinha alvo de violência, que mora na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio, terá que andar três dias de barco até Altamira, no Pará, para realizar uma denúncia ou pedir uma medida protetiva. Nessas regiões, a morte pode chegar antes do Estado.
Ingridy estava grávida quando recebeu um tiro na cabeça enquanto dormia, o autor do disparo, o então namorado, foi capturado um ano depois e cumpre pena de 27 anos
Cárcere privado, uma fuga, um descuido e a morte
“Nunca mais eu fui a mesma desde que ela foi embora”. É com essa frase que a diarista Ivonete Silva, 55 anos, que mora em Macapá, resume os últimos seis anos da vida sem a filha Ingridy Cordeiro. A jovem foi assinada pelo então namorado em 2020, enquanto dormia no apartamento dele.
A diarista soube que a filha se relacionava com o que viria a ser o seu algoz através de uma postagem nas redes sociais. Procurou as amigas de Ingridy e logo soube que Edigelson “tinha histórico de práticas de violência contra outras mulheres. “Certa vez, perguntei sobre ele à Ingridy e ela disse ‘não é nada importante, mãe, fique tranquila’”, explicou Ivanete.
O tempo passou e Ivonete percebeu a filha mudar de comportamento. “Ela passava dias sem vir em casa, sem ver as filhas. Mudou muito o jeito de agir com a família”. Novamente, a mãe se informa com as amigas e afirma ter descoberto que “ele batia nela, deixava ela em cárcere privado. Ela era muito simpática, muito alegre, se dava bem com todo mundo, o rapaz não gostava dessa simpatia e ficava batendo nela”, detalha.
Ivonete compara a dor da perda da filha a “uma ferida aberta”, hoje, faz diária três vezes por semana para complementar a renda e sustentar as netas, órfãs do feminicídio
Em outubro de 2020, Ingridy revelou à mãe tudo o que estava passando. Elas decidiram passar uma temporada em Belém, no Pará. No mês seguinte, Ingridy informa à mãe que iria retornar à Macapá para receber um dinheiro de uma colega. De volta à cidade, Ivonete conta que o rapaz, tão logo soube do seu retorno, a atraiu ao apartamento. “Só tive notícias dela quando ele deu um tiro na cabeça dela, sem chance de defesa”, explica.
Edigelson foi preso um ano depois do crime, em uma igreja, na Vila Cabanos, em Barcarena, interior do Pará, condenado à 27 anos de prisão. Durante o julgamento, o Ministério Público do Amapá descobriu que ele fora condenado anteriormente por furto e tráfico de drogas, com trânsito em julgado”.
Ivonete passou a cuidar das netas, filhas de um relacionamento anterior de Ingridy. Realiza faxina às segundas, quartas e sextas para garantir o sustento da família, pois a pensão do falecido marido e o Benefício de Prestação Continuada de uma das netas, diagnosticada com autismo, não são suficientes para manter a família. “A minha vida mudou muito depois que ela foi embora. Peço a Deus para me dar muita saúde”, explica. “Peço justiça para que punam essas pessoas. Elas acabam a vida da gente”.
Em menos de uma semana, o Brasil vai às urnas para o primeiro turno das eleições que decidem presidente, governadores, senadores e deputados. E, em menos de seis, serão os Estados Unidos que irão votar em nomes para o Congresso e os governos estaduais.
Isso ocorre em um período no qual a popularidade de Donald Trump continua caindo nas pesquisas – levantamento do American Research Group aponta seu índice mais baixo de todos os tempos: 29% de aprovação.
Especialistas avaliam que os republicanos podem perder o controle da Câmara dos Representantes e, possivelmente, até mesmo do Senado. Isso abriria caminho para sérias investigações do Congresso contra o presidente por sua má conduta no exercício do cargo.
Mas esse movimento gera uma dúvida: diante de um declínio político de Trump, ele pode se tornar ainda mais agressivo e descontrolado para manter seu poder?
A guerra sem fim contra o Irã
Na semana passada, nas Nações Unidas, Trump chocou o mundo ao ameaçar aniquilar o Irã — o que, se ocorresse, seria o maior crime contra a humanidade desde a Segunda Guerra Mundial. No entanto, sua ameaça não é um sinal de força, mas sim de fraqueza. Ele embarcou em uma guerra insensata, sem uma estratégia clara para vencer ou retirar os Estados Unidos do conflito de maneira elegante.
Nate Silver, importante analista político, ao acompanhar a média das pesquisas de opinião, constatou que 59% dos americanos são contra a guerra, enquanto o apoio a ela gira em torno de 34%.
Trump agora afirma, cinicamente, que a liderança da República Islâmica do Irã só concordará em negociações sérias após as eleições de meio de mandato. Ao mesmo tempo, ele acaba de rejeitar as iniciativas iranianas de sentar-se e conversar. Ele nega que os estoques de armas do Pentágono estejam esgotados, e o “Departamento de Guerra” — nome que ele deu ao Departamento de Defesa — oculta o número de soldados americanos feridos ou mortos durante o conflito.
Ainda assim, o Estreito de Ormuz permanece funcionalmente fechado, e os Houthis — aliados do Irã — estão bloqueando a navegação no Mar Vermelho. Além disso, eles explodiram o oleoduto saudita projetado para contornar o bloqueio imposto pelo Irã. Como resultado, os preços do petróleo e do diesel continuam exorbitantes, mantendo elevados os custos de alimentos, fertilizantes e transporte nos Estados Unidos e em todo o mundo.
O boicote da imprensa ao autoritarismo de Trump
Nesta semana, Trump decidiu demonstrar força política ao proibir o acesso à Casa Branca de dois canais de notícias a cabo de orientação moderada a esquerdista — a CNN e a MS Now (anteriormente MSNBC) — bem como do Politico, uma organização internacional de notícias que cobre política e políticas públicas. Ao anunciar a ordem executiva, o presidente insistiu que ela puniria veículos de imprensa que promovessem “fake news” (notícias falsas), uma medida que viola claramente a Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que garante a liberdade de imprensa.
Em uma demonstração surpreendente de solidariedade, o grupo de imprensa (press pool) da Casa Branca — um pequeno conjunto de jornalistas, fotógrafos e emissoras de televisão que, em sistema de rodízio, compartilham a cobertura de notícias com outros membros da imprensa — concordou em boicotar conjuntamente qualquer reportagem sobre o presidente até que a proibição fosse revogada. Isso incluiu a Fox News, que, historicamente, tem apoiado Trump de forma leal. Ao defender a ordem executiva no tribunal, o governo Trump mudou sua justificativa, alegando que esses veículos de imprensa violavam a “segurança nacional”. O juiz, no entanto, ordenou a revogação da proibição, embora agora Trump tenha impedido a CNN de acompanhá-lo a bordo do Air Force One, o avião presidencial.
Não está claro por quanto tempo essas agências de notícias manterão o plano de negar ao presidente a cobertura televisiva que ele tanto deseja. Ainda assim, embora a proibição possa ter reforçado o apoio entre seus seguidores mais leais, ela também revela, de forma contundente, as tendências autoritárias do presidente.
De repente, a “segurança nacional” tornou-se a justificativa para quase todas as medidas que Trump adota para ampliar seu poder presidencial. Ele usou a expressão para defender a construção de seu salão de baile dourado, argumentando que abrigos (bunkers) e sistemas de segurança seriam instalados sob o megaedifício anexo à Casa Branca. Após críticos se oporem à construção de um arco do triunfo de cerca de 76 metros de altura em Washington, ele alegou que a estrutura estava sendo projetada como um local de “segurança nacional” para atiradores de elite e para repelir ataques de drones. Qualquer pessoa que já tenha subido ao topo do Arco do Triunfo, em Paris, sabe o quão surreal é essa afirmação.
A cruzada anticomunista paga com dinheiro público
Trump também parece ter violado a legislação eleitoral federal ao produzir um anúncio pago pelo governo dos EUA para promover sua candidatura à presidência — ação que não pode ser contestada porque a Comissão Eleitoral Federal não possui quórum de comissários para adotar medidas legais, devido à recusa de Trump em nomear novos membros para o conselho. O anúncio de trinta segundos exibe uma montagem de imagens de Trump, com frases que aparecem repetidamente na tela, proclamando: “O maior corte de impostos da história dos EUA” e “A América nunca será um país comunista”. A trilha sonora traz um coro cantando “ame-me” (love me), revelando, de forma patética, uma das principais vulnerabilidades psicológicas de Trump.
Quando repórteres questionaram a adequação do anúncio, a Casa Branca alegou tratar-se de uma mensagem de utilidade pública. A senadora de New Hampshire, Maggie Hassan, argumentou que se tratava de propaganda governamental proibida por lei federal, e o deputado de Maryland, Jaime Raskin, prometeu iniciar investigações logo após a posse do novo Congresso.
O tema anticomunista, no entanto, não é novidade no repertório de Trump. Quando o socialista democrata Zohran Mamdani venceu a eleição para a prefeitura de Nova York no ano passado, isso impulsionou uma pequena onda de vitórias semelhantes de candidatos de esquerda nas primárias do Partido Democrata em todo o país. Em resposta, os republicanos lançaram anúncios alegando que todos os democratas — até mesmo os mais moderados — eram comunistas radicais. Contudo, em sua eterna busca por amor e aceitação, Trump reuniu-se com Mamdani na semana passada em Nova York, elogiou o prefeito e insistiu que ele deveria ir à Casa Branca para aprender com o presidente.
O fervor anticomunista, no entanto, não se manifestou quando ele organizou uma visita de Estado de três dias de Xi Jinping, presidente da República Popular da China, supostamente para abordar as diferenças entre os dois países. Trump recebeu o presidente chinês no aeroporto, uma honra não concedida a chefes de Estado há décadas. Ele também insistiu em um grande tour pela Casa Branca, mostrando com orgulho um heliponto recém-instalado e a enorme escavação de uma obra que, em breve, será seu precioso salão de baile.
Embora Trump tenha estendido o tapete vermelho para receber o chefe do Partido Comunista Chinês, nada parece ter saído desse encontro. Não houve declaração conjunta sobre como controlar os aspectos perigosos da inteligência artificial ou sobre como encerrar a guerra com o Irã. As divergências comerciais foram deixadas para negociações futuras. Em vez disso, a China mostrou ao mundo que agora está em pé de igualdade com os Estados Unidos.
Trump também não vê problemas em convidar Vladimir Putin para uma reunião do G20 em Miami, em dezembro de 2026, ocasião em que provavelmente mostrará ao presidente russo sua residência na Flórida. Líderes europeus que apoiam os esforços da Ucrânia para se defender da invasão russa expressaram séria preocupação com o convite. Ao mesmo tempo, observadores políticos continuam intrigados com a forte afinidade de Trump por líderes autoritários.
As derrotas e decisões irracionais do presidente
Como tudo ao redor de Trump parece estar dando errado, seria de esperar que ele fizesse escolhas sensatas diante da derrota eleitoral prevista para o próximo mês. Embora uma maioria favorável na Suprema Corte dos EUA tenha acabado de emitir uma decisão que beneficia a iniciativa de Trump de permitir que o governo federal utilize listas de eleitores controladas pelos estados para excluir nomes dos registros — visando verificar a cidadania de supostos eleitores inelegíveis —, a medida provavelmente será ineficaz, dado o pouco tempo restante até as eleições.
Essa medida, que ignora uma tradição jurídica de duzentos e cinquenta anos segundo a qual governos estaduais e locais administram as eleições, é consistente com outras decisões da maioria de direita da Corte. Tais decisões reverteram práticas anteriores em que o governo federal intervinha nas eleições apenas para garantir o direito de voto dos cidadãos — especialmente quando muitos estados do Sul impediam a participação de negros.
No entanto, em uma derrota para a estratégia de Trump de restringir o voto nas próximas eleições — e em mais uma decisão da Suprema Corte —, seus aliados conservadores no Judiciário barraram suas tentativas de impedir o voto por correio, baseadas em alegações infundadas de que centenas de milhares de não cidadãos teriam votado ilegalmente em eleições recentes.
Considerando que os Democratas poderiam conquistar o controle da Câmara e talvez até do Senado, seria de se esperar que Trump fizesse tudo o que pudesse para favorecer seus candidatos em disputas acirradas. Ele anunciou recentemente que faria campanha em 35 dos distritos eleitorais mais disputados do país. Em vez disso, nesta semana ele estará no Alabama — estado que venceu com uma vantagem de 35 pontos percentuais sobre Kamala Harris em 2024 — e em Oklahoma, onde obteve 34,3% de votos a mais do que seu oponente democrata. Essas decisões políticas não fazem sentido, a menos que se entenda que Trump valoriza mais um grande comício em local fechado, cercado por um público que o adora, do que comparecer a locais onde seus candidatos enfrentam forte oposição.
Economia ruim pressiona candidaturas de republicanos
À medida que as taxas de juros sobem e os preços de alimentos e energia aumentam, mais disputas parlamentares — que, num passado recente, provavelmente seriam vencidas por republicanos — passam a ser ameaçadas por candidatos democratas. Nesse cenário, candidaturas para o Congresso e para os governos estaduais tornam-se mais competitivas, forçando os republicanos a gastar centenas de milhões de dólares em locais que, há seis meses, eram considerados redutos conservadores. Em estados tradicionalmente controlados pelo Partido Republicano, candidatos democratas estão ganhando terreno nas pesquisas. No Texas e na Flórida, por exemplo — onde o Partido Republicano domina a política há décadas —, candidatos democratas podem vir a derrotar seus oponentes.
De repente, candidatos republicanos em distritos onde o eleitorado está quase igualmente dividido entre os dois partidos estão se distanciando do presidente para atrair eleitores que podem ter votado em Trump há dois anos, mas que agora se arrependem. Os candidatos republicanos em situação de vulnerabilidade não querem que Trump faça campanha por eles, e alguns chegaram a remover das redes sociais fotos com o presidente ou declarações de apoio às suas políticas.
No entanto, assim como faz com a mídia que critica sua gestão, Trump também não hesita em atacar aqueles que o desafiam, especialmente dentro do Partido Republicano. Isso ficou evidente depois que a deputada conservadora de origem cubana Maria Elvira Salazar, da Flórida, gravou um anúncio em frente ao Capitólio, afirmando que as políticas de Trump na aplicação das leis de imigração haviam “ido longe demais” e destacando que 50% das pessoas detidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) não tinham antecedentes criminais.
Logo após a veiculação do anúncio, Salazar disse à imprensa que tivera uma “conversa muito boa” com o presidente sobre o assunto. Inicialmente, Trump afirmou discordar de Salazar, mas manteve seu apoio a ela, o que parecia indicar que os congressistas republicanos poderiam, então, criticar a Casa Branca sem medo de represálias. Contudo, poucos dias depois, Trump disparou uma série de ataques à deputada nas redes sociais, revelando que continua extremamente suscetível a críticas e pouco tolerante com membros do próprio partido que se opõem às suas políticas.
Alguns candidatos republicanos de outros distritos fortemente divididos também se distanciaram do presidente quanto ao conflito com o Irã, especialmente devido aos impactos nos preços dos alimentos e dos combustíveis. No entanto, no Congresso, eles votaram contra resoluções que pediam o fim da guerra. Ainda assim, a imagem do Partido Republicano vem perdendo força, uma vez que Trump parece incapaz de reverter a queda de sua popularidade.
Caso os republicanos percam o controle de uma das casas legislativas ou de todo o Congresso e passem a investigar a corrupção e o abuso de poder do Executivo por parte de Trump, ele inevitavelmente reagirá com uma campanha agressiva, questionando o processo eleitoral, a cobertura da mídia e os candidatos democratas vitoriosos.
Para citar o poeta galês Dylan Thomas, é pouco provável que Trump “entre docemente naquela noite serena” e aceite a derrota. Resta saber quanto dano Trump causará aos Estados Unidos e ao mundo à medida que seu poder, influência e popularidade diminuem.