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O clã dos Cury

22 September 2026 at 08:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

O candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante – SP), até poucos meses mais conhecido pelos seus milhões de livros best-sellers de autoajuda, saltou de um nome com baixas intenções de voto até meados de agosto para cerca de 7% do eleitorado, segundo a pesquisa Quaest, de 14 de setembro.

Cury se apresenta como um intelectual, alguém culto e fora da política, capaz de resolver os problemas mais complexos com inteligência emocional e uma gestão tecnocrata. Na urna, seu nome consta como “Escritor Augusto Cury”. Ele reforça o fato de ser médico, e até usa o sobrenome para fazer um trocadilho com “cura” em seu slogan “O Brasil tem cura”.

Mas, além da candidatura que hoje ocupa o terceiro lugar nas intenções de voto para presidente, Cury tem um verdadeiro clã familiar na política, e que vem dominando ao menos dois municípios no interior paulista. A família conta com um sobrinho e um primo que concorrem neste ano, outro sobrinho eleito em 2024, dois irmãos que foram vereadores e um patriarca que entrou na política na época da ditadura, pelo Arena.

Por que isso importa?

  • A rede familiar do escritor Augusto Cury está há décadas ocupando cargos políticos no interior paulista, o que contradiz a visão de que o candidato é um outsider na disputa política

Sobrinhos consolidam nova geração no reduto político dos Cury

O sobrinho mais velho de Cury, Daniel Augusto Cury (Avante – SP), 47 anos, é um antigo conhecido do eleitor de Colina, no interior paulista, reduto político da família. Sócio na empresa Semear Gestão em Agronegócio Ltda, uma distribuidora de produtos agropecuários, Daniel concorreu pela primeira vez em 2016, sendo eleito vereador pelo PDT na cidade.

Daniel é apoiado por Augusto Cury para o cargo de deputado federal na cidade de Colina e se define como “representante do agro” em suas redes

Desde então, Daniel tentou cargos em todas as eleições seguintes, perdendo em quase todos. Primeiro foi a tentativa de chegar à prefeitura, pelo PSB em 2020, depois, tentou ser deputado federal pelo mesmo partido em 2022, quando terminou como suplente. Em 2024, repetiu o resultado, ficando em segundo lugar na disputa pela prefeitura de Colina.

Agora, em 2026, Daniel tenta novamente uma vaga na Câmara dos Deputados, mas dessa vez pelo Avante, partido adotado por seu tio, candidato ao Planalto. Ele recebeu R$ 34 mil da direção do partido via fundo especial para a campanha.

Neste ano, o candidato não declarou bens ao Tribunal Superior Eleitoral, ao contrário de outras campanhas. Ele registrou R$ 46 mil em 2020 — e apenas R$ 5 mil em 2024.

A reportagem questionou Daniel sobre não ter declarado bens em 2026, que não respondeu.

Enquanto isso, seu irmão mais novo e também sobrinho de Augusto Cury, o corretor de imóveis Rafael Cury (PSB – SP), de 42 anos, que já havia ficado como suplente em 2016, garantiu a continuidade da família no Legislativo, sendo eleito vereador em Colina em 2020 e reeleito em 2024 pelo PSB.

Rafael declarou um patrimônio de R$ 12 mil em 2016, R$ 3,9 mil em 2020 e R$ 155 mil em 2024. A maior parte deste dinheiro, R$ 120 mil, seria o valor de um carro em posse do vereador.

O primo e a campanha de marketing do escritor

A 18 km de distância de Colina, em Barretos, a família tem outro candidato: Caio Cury (Avante – SP), 35 anos, é agricultor e disputa sua primeira eleição, concorrendo a deputado estadual. Com o nome de batismo Curi, com “I”, Caio é filho de uma prima em primeiro grau de Augusto Cury, mas nas redes sociais apresenta proximidade com o presidenciável.

Foto mostra Caio Cury (esq) com o candidato a presidencia da república Augusto Cury
Em seu Instagram, Caio Cury (esq), se apresenta com o “mesmo propósito” que o candidato à presidência da República, Augusto Cury

O sobrenome, de cara, garantiu um privilégio partidário: um número em sequência, que normalmente é disputado entre os candidatos pela facilidade de memorização para o eleitor.

Caio é o candidato da família mais ativo nas redes sociais, postando vídeos com Augusto Cury, que acompanha em agendas, e fazendo campanha ativa para o “tio”, com memes em que o escritor ultrapassa outros nomes da direita na disputa pelo terceiro lugar, como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).

Apesar de constar como sócio nas empresas Cury Moura Serviços em Engenharia, Cury Moura Educação Comércio de Livros e Fort Polpas e Frutas Congeladas, Caio Cury não declarou bens ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) quando embarcou no projeto do tio para eleger ao menos um deputado federal e um deputado estadual pelo Avante. Enquanto isso, o escritor registrou impressionantes R$ 242 milhões.

No sábado, 5 de setembro, uma matéria da Folha de S. Paulo divulgou que três empresas do escritor nos Estados Unidos ficaram de fora da declaração ao TSE: “Cury Academia Comportamental”, a “Contemplare Investments” e a “Free Mind Publish”. Outras duas empresas no Brasil também não foram registradas: “Contemplare” e “Academia de Pensar e Brincar”. A publicação ainda afirma que a equipe de Cury disse que “eventuais inconsistências na declaração apresentada serão corrigidas” e que o patrimônio é de origem legal. Em uma atualização padrão de meio de campanha, a candidatura declarou as empresas ao TSE.

As estratégias das campanhas de Caio e Augusto Cury são tocadas pela Agência Comunica Brasil, do advogado paraibano João Nascimento Jr., também responsável pela imagem do humorista Manoel Gomes (Avante – SP), conhecido como Caneta Azul.

De acordo com o painel da Meta, que divulga os gastos dos candidatos com anúncios em suas plataformas, Augusto Cury teria gasto R$ 150 mil em impulsionamento de publicações entre 14 de junho e 11 de setembro, enquanto Caio Cury gastou R$ 4,3 mil no mesmo período.

Segundo o portal Metrópoles, na terça-feira, 8 de setembro, o deputado Otoni de Paula (PSD-RJ) entrou com uma representação no TSE para investigar a campanha de Cury. O escritor nega manipulações e afirma que o crescimento nas redes sociais foi “natural” e que as pessoas “descobriram suas ideias”. O processo ainda tramita no TSE.

O irmãos e o patriarca da família

Daniel e Rafael são filhos de Salomão Jorge Cury Filho, conhecido como “Mãozinho”, vereador por cinco mandatos em Colina e irmão de Augusto Cury. Ele foi eleito pelo PMDB em 1988, reeleito pelo PL em 1996, depois pelo extinto PTB em 2000 e pelo PMDB outra vez em 2004 e 2008.

Em 2012, voltou ao PTB e foi eleito novamente, mesmo com sua candidatura indeferida, tendo seu mandato cassado em 2013. Mãozinho ocupou o cargo de presidente da Câmara de Vereadores de Colina em três situações: de 2000 a 2001, de 2005 a 2006, e entre 2009 e 2010.

  • O município de Colina é localizada a 405 km da Capital Paulista
    O município de Colina é localizada a 405 km da Capital Paulista
  • O município de Colina é localizada a 405 km da Capital Paulista
    O município de Colina é localizada a 405 km da Capital Paulista
A cidade de Colina em foto, reduto eleitoral de Daniel, Rafael e Jorge Cury Filho
A cidade de Colina em foto, reduto eleitoral de Daniel, Rafael e Jorge Cury Filho
O município de Colina é localizada a 405 km da Capital Paulista

Assef Jorge Cury, irmão de Mãozinho e Augusto Cury, também foi vereador, por dois mandatos, pelo PSDB, entre 1997 e 2004.

Já o patriarca da família, Salomão Jorge Cury, pai de Mãozinho, Assef e Augusto Cury, falecido em 2024, exerceu cinco mandatos como vereador em Colina, entre 1964 e 1979, pelo Arena, entre 1979 e 1985, pelo PFL, durante o regime militar, e pelo PL, entre os anos de 1985 a 1988, já na redemocratização. Salomão também presidiu a Câmara Municipal de Colina.

A rede dos Cury

Para o professor de sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ricardo Costa de Oliveira, que pesquisa famílias políticas, nepotismo e genealogia, apesar de Augusto Cury se apresentar como alguém de fora da política, ele é sim fruto de uma linhagem que estabeleceu relações políticas, econômicas e sociais ao longo de décadas.

“Como uma família política, ela tem aquela questão de poder local ao longo de várias gerações. Também, além do poder legislativo local, tem uma ramificação no poder judiciário; fenômeno frequente em famílias políticas. Isso certamente pesa na própria decisão da candidatura do Augusto Cury; ele é originário de uma família política. Então, não é apenas uma questão de que ele seria novo no campo político. Não, ele é de uma importante e significativa família política do poder local”.

Autor de “Na Teia do Nepotismo – sociologia política das relações de parentesco e poder político no Paraná e no Brasil”, Oliveira avalia que oligarquias como a família Cury se mantêm influentes firmando laços com outros grupos do poder local.

“Famílias políticas estão entrelaçadas por relações matrimoniais, de casamentos, negócios, atividade em sociedade. É um fenômeno muito frequente nos municípios brasileiros. Eles casavam na própria comunidade, depois também casam com outra família que também é da política lá de Colina, a família Brait”.

Os Projetos de Lei n.º 183/2026 e 189/2026 da Câmara Municipal de Colina, protocolados em 26 de agosto e 1.º de setembro deste ano, são exemplos de como esse tipo de relação familiar, mesmo que distante, perpetua a influência local.

O primeiro projeto, assinado pelo vereador Valdir Ricardo Brait (PSB – SP), primo do colega de vereança e partido Rafael Cury, pretende rebatizar uma unidade básica de saúde como “Dr. Salomão Jorge Cury”. O segundo, do vereador Mario Henrique Barco Pinto Neto (MDB – SP), propõe mudar o nome do bairro “Jockey Club” para “Salomão Jorge Cury”.

À primeira vista, podem parecer apenas mudanças nos nomes de um equipamento público ou de um bairro, mas são uma forma de poder simbólico de quem é considerado importante na região.

E essa cultura política “familiar” é um dos fatores que permite que tanto Daniel, já veterano de eleições, quanto Caio, estreante na política, concorram, dessa vez com verdadeiras chances de vencer, com o nome, imagem e partido do tio escritor.

“Eles (os sobrinhos) se beneficiam de todas as maneiras. Em primeiro lugar, com o capital político de Augusto Cury, à medida que ele começa a se aproximar de dois dígitos nas pesquisas. Eu acho que é uma rede, entendendo sociologicamente o nepotismo como a relação entre famílias e poder político, é uma rede de nepotismo. Política no Brasil é negócio de família, e é o caso da família do Augusto Cury”, critica Oliveira.

A reportagem procurou o candidato à presidência, Augusto Cury, para se posicionar. O espaço segue aberto.

Moraes deve ser investigado, Mendonça, afastado e relatórios são ilegais, diz professor

5 September 2026 at 08:00

A divulgação, permitida pelo ministro André Mendonça, de um relatório da Polícia Federal (PF) contendo mensagens enviadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes pelo ex-banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, agravou a crise de imagem pela qual o Tribunal passa há bastante tempo. E na avaliação do professor de Direito Constitucional e Teoria Geral do Direito na PUC de São Paulo, Pedro Estevam Alves Pinto Serrano, ela nem deveria ter acontecido.

“A retirada do sigilo daquele relatório foi uma decisão ilegal e inusual”, afirma. “Qualquer magistrado no Brasil, mesmo de primeiro grau, é investigado sigilosamente”, explica.

Professor na PUC-SP, Pedro Serrano defende que ações de ministros do STF tenham consequências

O professor também critica a atitude do ministro André Mendonça em relação à falta de autorização do plenário do STF para iniciar a investigação. Ele lembra que a troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes já havia sido divulgada pela imprensa. Portanto, Mendonça “tinha total condição de suspeitar que o ministro Alexandre poderia estar envolvido e uma mera suspeita já enseja pedir autorização pro plenário”.

Por outro lado, mesmo ressaltando que as mensagens não provam nenhuma ilegalidade cometida pelo ministro Alexandre de Moraes, para Serrano, elas trazem “indícios que merecem ser apurados” e, com isso, “caberia uma investigação” da relação de Moraes com o ex-banqueiro.

Alexandre de Moraes também não escapa das críticas do professor quanto ao pedido de investigação contra o colega Mendonça, enviado ao presidente do STF, Edson Fachin, na última quinta-feira, 3 de setembro. “Acho exagerada a decisão de querer investigar o ministro André [Mendonça]. Não acho que esteja caracterizado esse tipo de gravidade na conduta dele. Acho que seria adequado retirá-lo da relatoria”, diz Serrano.

“O ministro André [Mendonça] teve um comportamento inadequado, com relação à própria Corte. E teve também, como foi revelado, uma certa relação com o Vorcaro”, pondera. A ação, no entanto, não deveria, na visão do constitucionalista, gerar investigação, e sim o afastamento do inquérito, por “fundada suspeita de que ele agiu de forma partidária”.

Entre as medidas apontadas pelo jurista para diminuir o desgaste que o STF já está sofrendo, seria evitar “ficar entrando na lógica do espetáculo”. “Por isso que defendo como uma das medidas que a reunião do plenário do Supremo, para decidir essas questões, só ocorra depois das eleições”.

Dentro dessa lógica do espetáculo, Pedro Serrano cita a proliferação de relatórios da PF nas decisões dos ministros e os vazamentos. “É muito ruim, porque eles são feitos de forma seletiva, e esses relatórios, na maioria das vezes, são ilegais”.

“O pior é o vazamento de informações; vazar informação é crime. O jornalista que divulga está no exercício do seu direito de informar, natural, inclusive tem direito ao sigilo de fonte. Mas o servidor público, o agente policial, que vaza informação, comete crime. Então, o correto seria a polícia cortar na carne, processar quem tem vazado informações”, declara.

Veja os principais trechos da entrevista com o professor:

O STF tem enfrentado crises institucionais, algumas vezes causadas por algum de seus membros, mas em grande parcela geradas por uma campanha difamatória e repleta de desinformação. Qual é o maior risco que a Corte pode sofrer após a retirada do sigilo, pelo ministro André Mendonça, do relatório da Polícia Federal envolvendo o ministro Alexandre de Moraes?

A retirada do sigilo daquele relatório foi uma decisão ilegal e inusual. Qualquer magistrado no Brasil, mesmo magistrado de primeiro grau, é investigado sigilosamente. Não existe nenhum tipo de verificação, apuração que envolva um magistrado que não seja sigiloso.

Isso gera toda uma repercussão pública, a meu ver, prematura e indevida, porque ainda não está claro que foi cometido algum crime. Você tem indícios que ensejam investigar o ministro Alexandre, mas não tem ainda a materialidade do delito. O ministro André Mendonça cometeu um equívoco quando divulgou indevidamente o relatório. E, obviamente, esse equívoco contribui para que haja problemas na imagem do Supremo.

Por outro lado, embora possam querer anular o relatório por conta de investigar um ministro do Supremo, outro equívoco dele foi não ter solicitado autorização do plenário [do STF]. Por mais que ele fale que não tinha como adivinhar que a pessoa [com quem Daniel Vorcaro] estava conversando era o ministro Alexandre [de Moraes].

Na realidade, foi divulgado até pela imprensa, já há bastante tempo, esse diálogo entre o Vorcaro e o ministro Alexandre. Ele tinha total condição de suspeitar que o ministro Alexandre poderia estar envolvido e, portanto, uma mera suspeita já enseja pedir autorização pro plenário. Ele deveria ter pedido autorização. Mas isso, a meu ver, não torna nulas as provas de base, que são os celulares apreendidos por ordem judicial de forma totalmente lícita. O que está contido dentro deles é prova legítima, a meu ver.

E ali não tem crime comprovado do ministro Alexandre, de modo nenhum, é precipitado falar isso. Mas existem indícios que merecem ser apurados. Acho que caberia uma investigação.

Na sua avaliação, a despeito da crise institucional que poderia causar, o ministro André Mendonça agiu corretamente ao expor as informações contidas no relatório?

O ministro André teve um comportamento inadequado, com relação à própria Corte. E teve também, como foi revelado, uma certa relação com o Vorcaro, inclusive tendo a suspeita de que ele recebeu um terno caro do advogado do Vorcaro. Seria também de bom tom ele ser afastado da relatoria do caso. Tem fundada suspeita de que ele agiu de forma partidária, por razões de disputa de poder, não por razões de Direito. Tudo isso implica, a meu ver, que seria bom para a corte afastá-lo da relatoria ou que ele pedisse o afastamento.

O Plenário do STF, segundo a imprensa, está dividido em relação aos próximos passos. Um grupo deve seguir a PGR e anular as provas, mas outro pode defender uma investigação ao ministro Moraes. Essa situação pode ser prejudicial ao bom andamento da Corte?

A divisão que a Corte está tendo é sempre ruim. Um colegiado, quando unificado, sempre é melhor, mas de qualquer forma, decisões colegiadas muitas vezes implicam em divergência, então isso não é novo no Tribunal, é comum. Não acho que isso prejudique a Corte.

Na sua opinião, o PGR Paulo Gonet deveria ter se declarado suspeito para apresentar um parecer sobre o caso?

Embora não haja nenhum ilícito demonstrado em relação ao ministro e ao procurador [Paulo] Gonet, só conversas, — e também não vi ali nenhuma amizade íntima com Vorcaro, nada do gênero, foi só um contato social mesmo — eu creio que com tudo que está ali, [incluindo a história do filho [de Paulo Gonet] seria mais adequado ele próprio escolher um subprocurador-geral e botar outra pessoa para subscrever.

Não acho que ele seja necessariamente suspeito. Para mim, não está caracterizada a suspeição, mas de qualquer forma, seria adequado, de bom alvitre, de bom procedimento, ele escolher outra pessoa para subscrever.

O senhor avalia que seria necessário investigar o ministro Alexandre de Moraes, o procurador-Geral da República, Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues? Todos foram citados no relatório da PF divulgado por André Mendonça.

As mensagens divulgadas com relação ao ministro Alexandre de Moraes não caracterizam ainda crime. Tem suspeita, indícios que ensejam uma apuração e, no final dessa apuração, se verifica se obtiveram provas ou não de alguma ilicitude.

O mesmo não acredito que ocorra com o PGR [Paulo] Gonet e com Andrei Rodrigues, diretor da PF. Não existe ali nenhum indício que leve a uma investigação deles, não há ilicitude. Foram citados os nomes, mas não vejo nada que comprometa a conduta deles. Acho que o correto seria investigar o ministro Alexandre, a conduta dele, mas não a do delegado Andrei e não a do PGR.

Quais os caminhos podem ser percorridos pelo STF diante dessa crise? Quais as oportunidades de mudança o senhor enxerga para o STF nesse momento?

Grosso modo, eu acho que o caminho a ser seguido é, de um lado, autorizar a investigação do ministro Alexandre e, do outro, afastar o ministro André Mendonça da relatoria [do inquérito do banco Master]. Porque o ministro André Mendonça também não foi bem na forma como se conduziu.

Vai ter um desgaste inevitável para o Supremo. O desgaste já está ocorrendo. Eu acho que você reduz o desgaste quando adota posturas jurídicas, técnicas, em vez de ficar entrando na lógica do espetáculo. Por isso é que defendo como uma das medidas que a reunião do plenário do Supremo, para decidir essas questões, só ocorra depois das eleições. A eleição está logo aí. Se houver algum ilícito, algum crime, ele não prescreve rapidamente.

Então, não há motivo para tomarem uma medida açodada e, se a decisão ocorrer antes da eleição, a meu ver, vai servir ao espetáculo e não ao Direito, porque vai ser um ‘fuzuê’ em plena eleição.

A atitude do ministro Alexandre de Moraes ao solicitar ao presidente do STF que investigue o ministro André Mendonça, no Inquérito das Fake News, gera mais instabilidades institucionais ou, pelo contrário, pode dar fim à crise?

Eu acho exagerada a decisão de querer investigar o ministro André. Não acho que esteja caracterizado esse tipo de gravidade na conduta dele. Acho que seria adequado retirá-lo da relatoria. Mas não creio que tenha sentido incluí-lo nesse inquérito das fake news. Acho que foi uma conduta um pouco exagerada.

Quanto ao papel da Polícia Federal, é comum e está de acordo com o devido processo legal essa proliferação de relatórios, inclusive investigando autoridades com prerrogativas, como ministro do STF e o procurador-Geral da República, ou criticando procedimentos adotados por outros ministros do STF? Isso pode virar uma “guerra entre instituições”?

Não apenas a proliferação de relatórios é muito ruim, porque eles são feitos de forma seletiva, como esses relatórios, essas investigações, na maioria das vezes, são ilegais. E por que esses atos de investigação são ilegais? Porque há autoridades com foro, tem que haver autorização do Supremo para poder investigar, inclusive ministro, em especial ministro do STF.

O pior é o vazamento de informações; vazar informação é crime. O jornalista que divulga está no exercício do seu direito de informar, natural, inclusive tem direito ao sigilo de fonte. Mas, o servidor público, o agente policial, que vaza informação, comete crime. Então, o correto seria a polícia cortar na carne, processar quem tem vazado informações.

É importante haver esse tipo de sanção, porque é isso que cria o espetáculo; e o vazamento de informação é sempre seletivo. Ninguém vaza o inquérito todo. Então, essa seletividade não é à toa, é feita porque pode haver um desejo de agir político do policial que vaza. Ou seja, querer que repercuta nas eleições. Isso é muito grave, atinge até a democracia. Realmente, eu creio que deveria punir os agentes que vazam informações.

O senhor vê a possibilidade de punição para os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça diante das últimas divulgações, até mesmo por meio de um possível processo de impeachment por parte do Senado?

Eu não acho que, nem no caso do ministro Alexandre, nem no caso do ministro André, esteja caracterizado o crime de responsabilidade que enseja impeachment. Nós não estamos no parlamentarismo. Já escrevi muito sobre isso. O parlamento não pode ficar decidindo aplicar impeachment sem que haja crime de responsabilidade caracterizado. Nesses dois casos, não há.

Por enquanto, no [caso do] ministro Alexandre, o que há são indícios. Ainda não existem fatos que estejam materialmente caracterizados como crime de responsabilidade. O ministro André Mendonça, a mesma coisa. Pode ter praticado uma irregularidade ou outra, agiu de forma, talvez, política, mas isso não enseja, a meu ver, impeachment.

Não é qualquer ilegalidade ou qualquer inconstitucionalidade que pode gerar impeachment. Tem que ser um atentado contra a Constituição, é o que a própria Constituição determina. Então eu acho que, por enquanto, não está caracterizada conduta que gere impeachment para nenhum dos dois.

Essa individualização do uso da máquina pública abre a possibilidade de nulidades nos processos envolvidos, como o Inquérito das Fake News e na própria Compliance Zero?

Eu acho que é prematuro ainda se falar em nulidade. Nulidades por conta dessas divulgações e dessa crise toda, mas pode ser que venha a gerar no futuro. Por hora, eu acho prematuro falar nisso.

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