Nos últimos dias, a CNN acompanhou em Paris a SIAL (Salão Internacional da Alimentação), uma das principais feiras mundiais de alimentos e bebidas, onde mais de 150 empresas brasileiras participaram além de dez cooperativas da agricultura familiar com stands próprios pela primeira vez. Nos corredores, entre degustações, reuniões com compradores e apresentações de novos produtos, conversamos com exportadores brasileiros que tentam ampliar a presença do país no mercado internacional.
Havia de tudo: carnes, bebidas, óleos essenciais e produtos de empresas que começam a dar os primeiros passos fora do Brasil.
Nas conversas com empresários, a reportagem perguntou o que o governo brasileiro precisa fazer para ajudar o país a vender mais no mercado internacional. As demandas envolveram a abertura de novos destinos, a negociação de barreiras comerciais, o apoio às empresas que querem exportar e a manutenção de relações diplomáticas com os principais parceiros.
As respostas também trouxeram preocupações sobre a condução da política externa no próximo mandato presidencial, especialmente diante da disputa eleitoral entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Nos planos de governo apresentados ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), os dois candidatos prometem ampliar a presença brasileira no mercado internacional, mas partem de ênfases diferentes. Lula defende a continuidade da diversificação de mercados, o fortalecimento da diplomacia comercial e a ampliação de acordos, com prioridade para o multilateralismo e a integração regional.
Flávio propõe uma política externa orientada pelo pragmatismo econômico, com maior abertura comercial, aproximação com parceiros estratégicos e apoio à internacionalização de pequenas e médias empresas. Os dois também preveem medidas diplomáticas para enfrentar barreiras comerciais impostas por outros países.
A escolha de quem conduzirá a política externa e de quais interlocutores ocuparão posições estratégicas está entre as preocupações dos exportadores ouvidos pela reportagem.
No atual governo, o embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, é uma das figuras centrais da política externa. Parte do empresariado critica a orientação diplomática do governo e manifesta preocupação com os efeitos de divergências políticas sobre as relações comerciais.
No atual governo, o embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, é uma das figuras centrais da política externa. Parte do empresariado critica a orientação diplomática do governo e manifesta preocupação com os efeitos de divergências políticas sobre as relações comerciais.
Um dos pontos de discussão é a aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica, criada para permitir que o Brasil responda a medidas comerciais consideradas prejudiciais aos seus interesses. Em episódios envolvendo restrições impostas por parceiros como Estados Unidos, China e União Europeia, o debate passou pela forma como o país deve reagir e pelos possíveis efeitos das contramedidas sobre as empresas brasileiras.
Para os exportadores, a questão é conciliar a defesa dos interesses nacionais com a manutenção do acesso aos mercados. Uma resposta comercial pode servir como instrumento de negociação, mas também exige avaliar os impactos sobre produtores e empresas que dependem das vendas externas.
Entre os empresários que acompanham a eleição, também há preocupação com os nomes que poderão ocupar postos estratégicos em um eventual governo Flávio Bolsonaro. A possibilidade de Eduardo Bolsonaro assumir o Ministério das Relações Exteriores ou a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos é vista com ressalvas por parte dos interlocutores ouvidos pela reportagem.
Entre os empresários que acompanham a eleição, também há preocupação com os nomes que poderão ocupar postos estratégicos em um eventual governo Flávio Bolsonaro. A possibilidade de Eduardo Bolsonaro assumir o Ministério das Relações Exteriores ou a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos é vista com ressalvas por parte dos interlocutores ouvidos pela reportagem.
O mercado americano é um destino importante para diferentes cadeias do agronegócio brasileiro, assim como China e União Europeia. Por isso, a composição da equipe diplomática é acompanhada pelo setor, que depende de canais de negociação com governos estrangeiros para tratar de tarifas, exigências sanitárias e condições de acesso.
Além das relações políticas, os exportadores apontam medidas práticas para ampliar os negócios. Entre elas estão a negociação de protocolos sanitários para permitir a entrada de produtos brasileiros, o fortalecimento da rede de adidos agrícolas nas embaixadas, a organização de missões comerciais e o apoio às empresas interessadas em acessar novos mercados.
A abertura de um mercado, porém, não significa que as exportações começarão imediatamente. Depois da autorização, as empresas ainda precisam atender às exigências do país importador, encontrar compradores, negociar preços e estruturar a logística.
Desde 2023, o Brasil abriu mercados para cerca de 700 produtos agropecuários em 99 países, segundo dados divulgados pelo governo federal. Essas aberturas estão associadas a uma corrente de comércio estimada em US$ 4 bilhões. O indicador reúne oportunidades comerciais relacionadas aos novos acessos, mas não deve ser confundido com receita já obtida exclusivamente com essas autorizações.
A diversificação também busca reduzir a dependência de poucos destinos. A China, por exemplo, tem peso relevante nas exportações brasileiras de soja, carnes e outros produtos. Mudanças nas regras de importação, nas tarifas ou nas condições de compra podem afetar diretamente setores que concentram suas vendas em determinados mercados.
Para as empresas, ampliar o número de compradores não significa substituir os parceiros tradicionais, mas criar alternativas para escoar a produção e reduzir a exposição a restrições comerciais.
A próxima gestão terá de dar continuidade às negociações em andamento, buscar novos acordos e apoiar a transformação das autorizações sanitárias e comerciais em embarques efetivos. Também precisará lidar com eventuais conflitos comerciais sem interromper os canais de diálogo com os principais destinos das exportações brasileiras.