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Análise da Abin aponta extrema-direita no Brasil como “facilitadora” de ofensiva de Trump

25 September 2026 at 18:30

Sentado, de mãos cruzadas e com olhar sério para a câmera, o embaixador dos Estados Unidos no Panamá, Kevin Cabrera, anuncia, em vídeo publicado no canal do Departamento de Estado no YouTube em 13 de agosto de 2026: “Agora, a América tem a oportunidade de estabelecer uma nova ordem”. A frase ecoa a Doutrina Monroe, do princípio do século 19, que tratava o continente americano como área de influência dos EUA. O presidente Donald Trump a resgatou para justificar interferências políticas, militares e econômicas em outros países. Um dos alvos é o Brasil, em pleno ano eleitoral. A Agência Pública apurou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) tem monitorado a situação por meio de relatórios internos que classificam os discursos de figuras da extrema-direita no Brasil como “facilitadores” de ataques à soberania nacional.

Recentemente, num relatório entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à Polícia Federal (PF), a Abin classificou como “crítico” o risco de interferência e influência dos EUA nas eleições brasileiras. O conteúdo do documento foi revelado pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. A Pública apurou que relatórios semelhantes vêm sendo produzidos desde novembro de 2025, quando a gestão de Trump passou a ampliar o plano de hegemonia na América Latina. 

Parte da extrema-direita no Brasil tem visões ideológicas alinhadas à gestão trumpista. Essa ala extremista é observada, nas análises da Abin, como colaboradora dos interesses americanos no país. Os países latino-americanos já foram definidos como “quintal” de Washington pelo Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Peter Hegseth, em entrevista à Fox News no ano passado. A ascensão desta narrativa trumpista foi rebatida pelo presidente Lula em seu último discurso, na abertura da Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira, 22 de setembro. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou o presidente, que também é candidato à reeleição. 

Fontes da Abin contaram à reportagem, sob reserva, que o cerne do interesse dos EUA estaria na extração de terras raras — mais de 20% das reservas mundiais de terras raras estão no solo brasileiro. A Pública mostrou que, no início do mandato, Trump assinou um decreto para acelerar a produção de minerais críticos e reduzir a dependência do governo chinês. “(…) Minerais críticos são essenciais para a prontidão militar americana, já que eles são componentes-chave de jatos, satélites, submarinos, bombas e sistemas de mísseis guiados”, registra um trecho do decreto.

A Pública também apurou que a embaixada dos EUA no Brasil procurou o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcanti (RJ), para que ele recebesse dois enviados do Departamento de Estado. Segundo a apuração, a missão da dupla era lançar dúvidas sobre as urnas eletrônicas. O Itamaraty negou os vistos a Riley Bernes e Samuel Samson.

Em meio à tensão diplomática, o Ministério das Relações Exteriores ainda não deu aval à indicação de Donald Trump para a embaixada dos EUA no Brasil. O indicado foi o representante da Flórida  — equivalente a um deputado estadual —, Daniel Perez, cujo nome foi aprovado pelo Senado americano em 7 de agosto. Contudo, ele não pode assumir o cargo sem o agrément — norma da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, de 1961. O agrément é a aceitação do país que vai receber o indicado e vem antes da indicação, o que não ocorreu no caso brasileiro. 

O parlamentar é fiel ao movimento nacionalista Make America Great Again (MAGA), amigo pessoal e integrante do mesmo grupo político de Marco Rubio. A Pública mostrou que Perez é peça importante no projeto expansionista de Trump e que seria uma figura relevante na tentativa de interferência no Brasil, inclusive no auxílio à formulação de leis no Congresso Nacional.

Discursos intervencionistas no radar da Abin

O monitoramento da Abin abrange ainda discursos intervencionistas que possam “causar impacto nas instituições” e obter apoio popular e político para uma interferência americana. O acompanhamento dos agentes de inteligência é constante e poderia incluir políticos com mandatos e posicionamentos radicais, bem como pessoas com poder de mobilização, como influenciadores digitais de extrema-direita.

“As eleições brasileiras não têm, como há quatro anos, um cenário de abolição do Estado Democrático de Direito. Agora é um cenário de interferência externa em que o governo dos EUA tem preferência pelo campo opositor e vê nesse campo um facilitador de seus interesses unicamente americanos”, frisou uma fonte da Abin, sob condição de anonimato. 

Ações para estimular o apoio à interferência americana foram intensificadas em 2026. Entre elas, a protagonizada por Marco Rubio em 16 de julho, quando convocou 66 países a se unirem a um projeto de combate ao que classificou como “terrorismo de extrema esquerda”. Sem provas, Rubio — filho de cubanos conservadores e integrante de uma elite econômica estabelecida na Flórida — acusou Cuba de espionagem e de infiltração no território americano. 

Dois meses depois, em 22 de setembro, os 14 países da América Latina, membros do “Escudo das Américas” — aliança bélica criada por Donald Trump — assinaram um acordo para impor sanções às facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), a exemplo do congelamento de bens e de restrições à imigração e a vistos. 

Departamento de Guerra dos EUA investe 750 milhões de dólares em terras raras brasileiras

26 August 2026 at 16:00

O Departamento de Guerra, antigo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, anunciou um investimento de 750 milhões de dólares (cerca de R$ 3,8 bilhões) na compra de terras raras produzidas no Brasil pela mineradora Serra Verde.

Na prática, o anúncio coloca as terras raras extraídas no Brasil diretamente no ecossistema da indústria militar estadunidense – elementos de terras raras são utilizados pela indústria de armamentos dos EUA por seu magnetismo e resistência a altas temperaturas. Essa possibilidade já havia sido apontada por reportagem da Agência Pública, que mostrou as conexões da Serra Verde com os interesses do governo americano. 

Segundo o Departamento de Guerra, os recursos serão aportados em uma “Empresa de Propósito Específico” para viabilizar um acordo de compra do concentrado de terras raras (chamado de carbonato) produzido pela Serra Verde no projeto Pela Ema, no norte de Goiás. 

Esse acordo já tinha sido tornado público pela própria mineradora em abril, quando a Serra Verde comunicou uma operação de fusão e aquisição com a empresa americana USA Rare Earth e a formalização de um contrato para fornecer 100% da sua produção por 15 anos para uma “Empresa de Propósito Específico”, que à época não foi nomeada ou especificada, mas que seria capitalizada por agências do governo americano e fontes privadas. 

Agora, o próprio Departamento de Guerra deu mais detalhes sobre o investimento na “Empresa de Propósito Específico”, chamada “US SIIE”. O montante de 750 milhões de dólares faz parte de um pacote de investimentos de 1,55 bilhão de dólares no total, que inclui um compromisso de compra de 300 milhões pela Agência de Logística de Defesa do Departamento e outro compromisso de compra de 500 milhões por parte de um grande banco comercial que não foi especificado.

“Garantir cadeias de suprimentos resilientes, tanto domésticas quanto de aliados, é um requisito fundamental para operações de guerra”, afirmou Mike Cadenazzi, Secretário-Assistente de Guerra para Política de Base Industrial. 

“Ao estabelecer parceria com a Serra Verde, damos um passo decisivo para quebrar o quase monopólio de nossos adversários sobre os elementos de terras raras. Esse esforço conjunto assegura que nossa base industrial de defesa tenha acesso garantido e de longo prazo aos materiais críticos necessários para fabricar sistemas de armas de última geração e manter nossa vantagem tecnológica”, completou ele, em referência à China, que controla mais de 90% do processamento industrial desses elementos químicos.

Elementos de terras raras são utilizados em ímãs de caças F-35, drones e mísseis Tomahawk, produzidos pela indústria de armamentos dos EUA. Não à toa, o governo americano tem pressa em quebrar esse monopólio. O Departamento de Guerra decidiu proibir, a partir de 2027, a aquisição de ímãs feitos com terras raras extraídos ou processados na China e em outros países considerados inimigos, como Rússia, Irã e Coreia do Norte. 

No meio dessa disputa, o Brasil, dono da segunda maior reserva de terras raras no mundo, é estratégico. Assim como a Serra Verde, que é a única mineradora no país a já produzir terras raras em escala comercial. A empresa produz um concentrado com vários elementos de terras raras, entre eles o samário, que é majoritariamente usado pela indústria militar por conta de sua resistência a altas temperaturas. Desde abril do ano passado, a China restringiu a exportação desse elemento e seus derivados, como as ligas metálicas, e passou a exigir uma série de documentos para a obtenção de licenças de exportação, incluindo a identificação do usuário final dos produtos – que, em muitos casos, são fabricantes de armamentos.

“A Serra Verde é a única produtora das terras raras pesadas fora da Ásia e ela tem as quatro terras raras magnéticas”, disse Barbara Humpton, CEO da USA Rare Earth, em uma entrevista à Fox News. “E a iniciativa brilhante do governo dos EUA foi criar uma sociedade de propósito específico, com apoio de várias agências governamentais e investimento privado, para garantir um contrato de compra de 100% da produção por 15 anos, assegurando que nós tenhamos acesso aos materiais necessários para a nossa economia e para a nossa defesa”, completou a executiva.

Para isso, a USA Rare Earth, dona da Serra Verde, já garantiu 1,6 bilhão de dólares em financiamento do governo americano, que terá participação acionária na companhia. Também comprou a britânica Less Common Metals, uma das maiores fornecedoras de ligas metálicas de terras raras, e firmou um acordo de vendas mútuas com a Arnold Magnets. Diante das restrições chinesas, essas duas empresas – Less Common Metals e Arnold Magnets – trabalharam ao longo do ano passado para encontrar fontes alternativas de samário a fim de continuar produzindo os ímãs usados em mísseis Tomahawk, como mostrou o jornal americano New York Times. 

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