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A alfarrobeira e o seu legado secular

11 October 2026 at 18:04

Para nós, algarvios, é familiar a omnipresença da humilde alfarrobeira, designadamente na zona do Barrocal, local de eleição edáfico (do gr. “édaphos”, terra, solo) para esta sóbria espécie vegetal, originária, segundo consta, da Mesopotâmia, sua pátria remota. Conta-se como mais um dos inúmeros contributos da presença árabe, entre nós, a quem devemos, não apenas uma verdadeira revolução nos processos com novas técnicas na agricultura, no al-Andalus peninsular, como a migração e introdução de um sem número de outras espécies arbóreas e arbustivas.

Não me irei debruçar sobre a alfarrobeira, na vertente económica em si, uma vez que outros já o fizeram, melhor do que eu faria, neste mesmo espaço do nosso Jornal do Algarve.

Irei, antes, focar-me num outro aspecto histórico desta simpática árvore talvez, suponho eu, não tão conhecido.

O termo alfarroba veio-nos do ár. “al-ẖarrûba”, que, por sua vez, foi tomado do gr. “kérăs, kérātos” (chifre, corno), sua verdadeira origem. Aos olhos gregos foi atribuída tal designação, devido à semelhança deste fruto, que é ligeiramente curvo, com um chifre.

O contributo do fruto da alfarrobeira, em transacções comerciais de algo tão valioso como o ouro, desde tempos imemoriais, que remontam aos da própria Mesopotâmia, tem a ver com as humildes e minúsculas sementes da alfarroba.

Como assim?

Desde tão cedo, na história do Médio Oriente, como com os negociantes fenícios, a massa de cada semente da alfarroba era considerada como extremamente uniforme e pendular, pelo que, à falta de outro meio mais credível para pesar um metal tão caro como o ouro, foi, desde esses tempos remotos, tomada como fiável para esse fim.

Como se sabe, foram duas as grandes línguas que, desde os últimos três séculos anteriores ao advento da Era Cristã, dominaram culturalmente, “grosso modo”, a Europa: o Latim, na sua parte ocidental, devido à ascensão do Império Romano, e o Grego, na parte nascente, pela emergência de Alexandre, o Grande, cujos limites do império haveriam de tocar as fronteiras da própria India.

No âmbito da dominante influência cultural do Grego, como língua franca na área oriental da Europa, reflectindo rotas comerciais mediterrânicas extremamente activas, em termos comerciais, à modesta semente da alfarroba, então correntemente usada como padrão de peso para metais preciosos, seria atribuída a designação grega, “kerátion”, semente da alfarroba, ou seja, o diminutivo, como acima referimos, do gr. “kérăs”, o nome grego para alfarroba.

Quem não conhece o termo “quilate”, unidade que representa, actualmente, a massa padronizada de 0,2 g., a mesma que se atribuía, dantes, a cada semente da alfarroba, em termos empíricos ?

Este “quilate” nada mais é do que a evolução do grego “kerátion”, semente da alfarroba, através da língua árabe. No âmbito do intenso comércio praticado pelos Árabes, através das rotas comerciais e traduções científicas do tempo, e segundo as regras fonéticas da sua língua, o grego “kerátion”evoluiria, via árabe, para a forma intermédia “qīrāt“, antecâmara do actual “quilate”.

Nas línguas inglesa e francesa, por exemplo, a evolução seguiu caminho diferente do nosso e deu “carat”, enquanto no Italiano deu “carato” e, no Castelhano, tal como em nós, “quilate”.

Contudo, aplicado ao ouro, o quilate não funciona como medida de peso, mas como critério de “pureza do metal”, visto que o ouro é passível de ligas com outros metais, o que lhe retira a pureza, algo que é fundamental ter em conta, no acto da negociação.

Apenas o ouro com 24 quilates é considerado puro e, proporcionalmente, com 18 quilates tem 75% de pureza – o que significa que apenas três quartos são de ouro puro e um quarto de outro(s) metal(is) – ou com 12 quilates, apenas com 50% e por aí adiante.

De notar que o ouro puro desgasta-se mais facilmente do que como liga metálica, sendo por esse facto que algum do ouro comercializado não é de 24 quilates.

Permita-se-me, como vem a talho de foice, como sói dizer-se, que explique o porquê da escala utilizada de 24, como método para medir a pureza do ouro.

Tem a ver com o facto de a semente de alfarroba ter uma designação semelhante ao de uma pequena moeda de prata romana (do lat. siliqua) e de esta ser 1/24 (vigésima quarta parte) do soldo (do lat. solidus), moeda de ouro de grande pureza, criada no séc. IV.

Modernamente, como acima refiro, havia a necessidade de padronizar, cientificamente, a unidade de medida “quilate”, pelo que lhe foram atribuídas 0,2 gramas, pelo Sistema Internacional de Unidades (SI).

Acrescente-se que, segundo medidas rigorosas efectuadas, se chegou à conclusão de que a suposta uniformidade das sementes de alfarroba não correspondia à realidade, uma vez que aquelas podem, pontualmente, diferir, entre si, nalguns nanogramas.

Mais tarde, o quilate haveria de passar a ser igualmente utilizado em pedras preciosas, aqui, com o critério de peso e não, como no ouro, em que se tem de aquilatar, sim, não do peso, mas da sua pureza, como atrás se refere.

– Os processos para determinar a pureza do ouro, baseiam-se em vários métodos laboratoriais, de que refiro a espectrometria ou o ensaio electrolítico.

– O critério para determinar o valor de diamantes e outras gemas utiliza três pilares de avaliação, de que um é o peso, em quilates (0,2 g), e os outros a cor e clareza, no caso dos diamantes.

Para finalizar, não obstante todas as modernas técnicas postas ao serviço do comércio das mais valiosas jóias, a memória da humilde semente da alfarroba haveria de sobreviver, como símbolo, embora não como padrão prático, no termo “quilate”, medida básica para aferir do valor do ouro, assim como das mais valiosas gemas.

Aumentar salários não chega: é preciso devolver poder de compra aos portugueses

11 October 2026 at 14:40

Portugal enfrenta uma realidade económica que merece uma reflexão séria: apesar dos aumentos salariais anunciados ao longo dos últimos anos, muitas famílias continuam a sentir enormes dificuldades em fazer face às despesas mensais. Para milhares de trabalhadores, receber mais ao final do mês não significa necessariamente viver melhor.

O problema está na diferença entre aquilo que aparece no recibo de vencimento e aquilo que efetivamente sobra depois de pagar a renda da casa, a alimentação, a eletricidade, a água, os transportes, os seguros e os impostos. É nesta diferença que reside uma das maiores preocupações da sociedade portuguesa: a dificuldade crescente em transformar o trabalho numa verdadeira garantia de estabilidade financeira.

Não basta aumentar os salários se o custo de vida continuar a absorver os rendimentos das famílias

Os aumentos salariais são importantes e necessários. Contudo, não podem ser apresentados como uma solução isolada, nem utilizados como único indicador da melhoria das condições de vida dos portugueses.

Quando o salário aumenta, mas as despesas essenciais acompanham essa subida, o resultado pode ser uma melhoria praticamente impercetível no orçamento familiar.

A questão fundamental é simples: o que interessa não é apenas quanto ganha um trabalhador, mas aquilo que consegue fazer com o dinheiro que recebe.

O peso dos impostos sobre quem trabalha

Uma política económica centrada nas pessoas deve começar por reconhecer o valor do trabalho. Quem trabalha a tempo inteiro, cumpre os seus deveres e contribui para o funcionamento do país deve ter condições para viver com dignidade, constituir poupanças e preparar o futuro.

É por isso que o aumento dos salários deve ser acompanhado por uma redução responsável da carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho, em particular nos escalões baixos e intermédios. Não faz sentido promover aumentos salariais sem avaliar quanto desse esforço chega efetivamente ao bolso dos trabalhadores.

O objetivo deve ser claro: permitir que os portugueses conservem uma parcela maior do rendimento que conquistam com o seu trabalho.

Esta redução fiscal deve ser acompanhada por uma gestão eficiente dos recursos públicos, pela avaliação da despesa do Estado e pelo combate ao desperdício. Aliviar os impostos não pode significar ignorar a sustentabilidade das contas públicas, mas também não pode continuar a ser tratado como uma questão secundária para quem vive com um orçamento limitado.

O trabalho deve compensar, e o esforço de quem produz riqueza tem de se traduzir numa melhoria concreta das condições de vida.

A habitação tornou-se um dos maiores obstáculos à estabilidade financeira

A crise da habitação é outro dos fatores que mais contribuem para a pressão sobre os rendimentos das famílias. Em diversas regiões do país, o valor das rendas e dos imóveis afastou-se da capacidade financeira de muitos trabalhadores, incluindo aqueles que têm emprego estável.

Para um jovem que pretende sair de casa dos pais, para um casal que deseja constituir família ou para um trabalhador que procura viver perto do seu local de trabalho, encontrar uma habitação a um preço comportável tornou-se um desafio cada vez maior.

Quando uma parte excessiva do salário é destinada à renda ou à prestação da casa, ficam comprometidas outras necessidades fundamentais. Poupar torna-se difícil, enfrentar uma despesa inesperada pode representar um problema grave e o recurso ao crédito pode transformar-se numa solução de recurso para despesas correntes.

Não podemos normalizar uma realidade em que trabalhar não chega para garantir o acesso a uma habitação digna. É necessário travar a escalada dos preços através de uma resposta estrutural: aumentar a oferta de habitação, simplificar e acelerar os processos de licenciamento, disponibilizar terrenos, recuperar imóveis devolutos e criar condições para construir a custos mais comportáveis.

Devem igualmente ser avaliadas medidas proporcionais que reduzam os comportamentos especulativos e promovam uma utilização mais eficiente do património habitacional, sem desincentivar a construção, o arrendamento ou o investimento necessário para aumentar a oferta.

A solução não passa por procurar culpados de forma indiscriminada, mas por corrigir os desequilíbrios que impedem o mercado de responder às necessidades reais da população.

Combater a inflação e recuperar o poder de compra

A inflação representa outro desafio, sobretudo quando incide sobre despesas das quais as famílias não podem prescindir. A alimentação, a energia e os transportes ocupam uma parcela significativa dos orçamentos familiares, pelo que qualquer aumento persistente nestes custos reduz a margem financeira disponível. É importante, contudo, distinguir a inflação geral da evolução dos preços da habitação. São fenómenos relacionados com o custo de vida, mas que exigem respostas diferentes.

No combate à inflação, o país deve promover a concorrência, a produtividade e o funcionamento eficiente dos mercados, avaliando medidas temporárias e devidamente fundamentadas quando os aumentos dos bens essenciais colocam em causa as condições de vida das famílias mais vulneráveis.

Na habitação, é necessário atuar sobre a oferta, os custos de construção, o licenciamento e os desequilíbrios entre os preços praticados e a capacidade financeira dos agregados familiares. Os aumentos salariais devem, por isso, ser avaliados em função da evolução do poder de compra real, e não apenas pelo número de euros acrescentados ao vencimento.

Uma economia que permita viver, e não apenas sobreviver

Portugal precisa de uma estratégia económica que articule três objetivos fundamentais: salários dignos, impostos mais baixos sobre o trabalho e habitação acessível.

Estas medidas devem ser acompanhadas pelo crescimento da produtividade, pela valorização das empresas que investem e criam emprego e por uma utilização criteriosa dos recursos públicos. Só assim será possível construir uma economia que concilie melhores rendimentos com estabilidade financeira e oportunidades reais para as novas gerações.

O crescimento económico não pode ser avaliado exclusivamente através de indicadores macroeconómicos. Esses indicadores são importantes, mas devem ser acompanhados por uma pergunta essencial: estão os portugueses a viver melhor?

Uma economia pode crescer e, ainda assim, deixar muitas famílias sem capacidade para poupar, adquirir habitação ou enfrentar imprevistos. É precisamente por isso que as políticas públicas devem ser avaliadas pelos seus resultados concretos na vida das pessoas.

Não se pretende defender aumentos salariais artificiais, desligados da produtividade, nem ignorar as dificuldades das empresas. Pretende-se exigir uma política económica equilibrada, em que o Estado, as empresas e os decisores públicos assumam as suas responsabilidades e em que o trabalhador não seja o elemento esquecido desta equação.

A dignidade de quem trabalha deve estar no centro das prioridades nacionais

O verdadeiro progresso não consiste em ganhar mais euros para pagar despesas cada vez maiores. Consiste em ganhar o suficiente para viver melhor, poupar, constituir família e construir um futuro com segurança e liberdade.

Portugal precisa de devolver aos seus cidadãos a confiança de que o trabalho continua a ser um caminho de mobilidade social e de realização pessoal. Aumentar salários é necessário. Reduzir a carga fiscal sobre o trabalho é essencial. Garantir habitação acessível é urgente.

Sem estas três dimensões, corremos o risco de continuar a anunciar melhorias económicas que uma parte significativa da população não consegue sentir na sua vida quotidiana.

Trabalhar para sobreviver não pode ser o destino de quem trabalha honestamente.
Trabalhar tem de voltar a ser um caminho para uma vida melhor.

Para ler o artigo anterior publicado pelo autor, clique aqui.

* Vogal da Direção Política Nacional do REAGIR

Dois diferendos, em escalas diferentes: Pichardo/Ronaldo…

11 October 2026 at 16:04

…Conhecidos do grande público, o atleta de triplo salto, Pedro Pichardo, campeão olímpico em ‘Tóquio 2020’, e o futebolista, capitão da nossa seleção e astro maior do firmamento, Cristiano Ronaldo, protagonizam diferentes conflitos.

Um, o Pichardo, é feito de silêncio, prova e dignidade, o outro, Ronaldo, tem sido objeto de ruído, ego e palco.

No momento em que debitamos este modesto escrito, e em respeito para com a linha editorial do ‘Times’ do Algarve, ainda sem conhecermos a versão oral ou escrita do futebolista, não poderemos aprofundar o ‘caso’, que tem feito correr mundo, seja escrito ou falado, razão pela qual nos limitaremos a caracterizar, o diferendo do Pichardo como vivendo no escuro, com documentos numa pasta, e o do Ronaldo, na ausência de (mais) dados tem tido, ainda assim, os holofotes permanentemente acesos, com um fartote de comentários…

Como bom seria que ambos pudessem redundar, ter o seu desfecho final, em observância para com princípios e valores éticos essenciais, tais como: dignidade, equidade, responsabilidade, respeito e verdade.

Na circunstância e em liberdade de expressão, a grande almofada para se ser digno, talvez que importe trazer ao ‘palco dos acontecimentos’ três mestres – porque sábios! -. Um, Laborinho Lúcio: “A justiça deve rosto, voz e coração”, o outro, Michel Renaud: “O desporto é uma atividade essencialmente humana, que implica o jogo do corpo, a força da alma, a educação do espírito”, e o mestre dos mestres, Manuel Sérgio: “Só se sabe aquilo que se vive”, sem que antes, ao fecharmos este time out, não nos tivéssemos de socorrer do celebérrimo rodapé de Fernando Pessa: “E esta, hein?!”, quando também se deva rematar, assim, assertiva e responsávelmente: “Não há remates à baliza, há pessoas que rematam à baliza”.

Na abrangência dos três saberes: Fazer – o rigor, o treino, o jogo; Estar – o cidadão, como estamos uns com os outros?; Ser – pessoa, com voz para ouvir os seus pares e coração para pesar as provas e não o poder.

Pela simples razão de que o sucesso, o êxito não se compra apenas se merece!

Uma vez mais, as tais ‘coisas’ da ‘coisa desportiva’… e não só!

*Embaixador para a Ética no Desporto, uma vez, Embaixador para sempre

O dia em que subir um lanço de escadas deixou de ser normal

10 October 2026 at 11:01

Tudo começou com um cansaço aparentemente banal. Uma pessoa ativa, profissionalmente realizada, habituada a uma vida normal, começa a sentir que algo mudou. As escadas parecem mais longas. O percurso habitual até ao trabalho torna-se mais exigente. Ao final do dia, a energia desaparece mais depressa do que seria expectável. Primeiro atribui-se a culpa ao stress. Depois à idade. Mais tarde, à falta de descanso. Mas o cansaço não passa.

Meses depois surgem outros sinais. Perda de peso sem explicação. Suores noturnos. Uma sensação constante de fraqueza. Finalmente, chega o diagnóstico: Mielofibrose. Para a maioria dos portugueses, o nome diz pouco ou nada. No entanto, para quem recebe este diagnóstico, representa uma mudança profunda na sua vida.

Embora seja uma doença pouco conhecida, a Mielofibrose tem um impacto significativo na vida de quem com ela convive. Por isso, vale a pena falar sobre esta doença, que permanece praticamente invisível para a sociedade até ao momento em que entra, sem aviso, na vida de alguém.

A Mielofibrose é um cancro raro do sangue que afeta a medula óssea. À medida que a doença evolui, a produção normal de células sanguíneas torna-se menos eficaz, levando frequentemente ao aparecimento de anemia, aumento do baço e sintomas constitucionais como febre, perda de peso, fadiga e suores noturnos.

Apesar dos avanços científicos das últimas décadas, continua a existir uma realidade difícil de ignorar: muitas pessoas vivem durante bastante tempo com sintomas que são subvalorizados, quer pelos próprios doentes, quer por quem os rodeia. Talvez porque todos nós nos habituámos a normalizar o cansaço.

Vivemos numa sociedade onde estar cansado é quase um estado permanente. Trabalhamos mais. Dormimos menos. Acumulamos responsabilidades. Por isso, quando alguém se queixa de fadiga persistente, raramente imagina que possa estar perante uma doença hematológica grave.

Contudo, para muitos doentes com Mielofibrose, a anemia torna-se uma das manifestações mais incapacitantes da doença. Os números ajudam a perceber a dimensão do problema: cerca de 38% dos doentes apresentam anemia no momento do diagnóstico, percentagem que ultrapassa os 50% durante a evolução da doença. Mas os números contam apenas parte da história.

A verdadeira dimensão da anemia mede-se de outra forma. Mede-se no avô que deixou de brincar com os netos porque já não tem energia. Na pessoa que abandona a atividade física que sempre praticou. No profissional que passa a ter dificuldade em cumprir um dia de trabalho. Na família que reorganiza a sua rotina em função de consultas, exames ou transfusões. Mede-se, sobretudo, na perda gradual de autonomia. É por isso que, quando falamos de Mielofibrose, não estamos apenas a discutir resultados laboratoriais. Estamos a falar de qualidade de vida.

Sabemos hoje que a anemia associada à Mielofibrose não é apenas um sintoma incómodo. Está associada a um pior prognóstico da doença e constitui um dos fatores considerados na avaliação do risco destes doentes. Além disso, pode aumentar a necessidade de cuidados médicos e condicionar profundamente o bem-estar físico, emocional e social.

Recentemente, um grupo de hematologistas portugueses, do qual faço parte, reuniu a evidência científica disponível e a experiência da prática clínica nacional para desenvolver recomendações destinadas a melhorar a abordagem das alterações sanguíneas que afetam os doentes com Mielofibrose. O objetivo é simples: contribuir para cuidados mais uniformes, mais eficazes e mais centrados nas necessidades reais das pessoas que vivem com esta doença. Mas os profissionais de saúde não conseguem mudar esta realidade sozinhos. A consciencialização da sociedade continua a ser uma peça fundamental.

Nenhuma campanha de sensibilização eliminará uma doença rara. Mas pode ajudar a reduzir o desconhecimento que frequentemente a acompanha. Pode fazer com que mais pessoas valorizem sintomas persistentes. Pode levar alguém a procurar ajuda mais cedo. Pode diminuir o isolamento que muitas vezes acompanha os doentes com patologias pouco conhecidas.

Por isso, deixo um convite simples. Valorizemos os sinais que o nosso corpo nos dá. Nem todo o cansaço esconde uma doença grave. Felizmente, a esmagadora maioria das vezes não esconde. Mas quando o cansaço é persistente, inexplicável e acompanhado por sinais como perda de peso involuntária, anemia, febre, suores noturnos ou aumento abdominal, merece ser investigado. Porque, por vezes, a diferença entre ignorar um sintoma e procurar uma explicação pode mudar o rumo de uma vida. Porque nenhuma doença rara deveria permanecer invisível apenas porque afeta poucos doentes. A cada uma dessas pessoas, a sua doença não parece rara. Parece apenas a coisa mais importante do mundo.

* Hematologista – ULS de Santa Maria, Coautora da publicação ‘Gestão prática das citopenias no doente com mielofibrose adaptada à realidade em Portugal’

Até ao fim, ninguém é dispensável

9 October 2026 at 20:09

Alexandre Guedes da Silva defende cuidados paliativos acessíveis em todo o Algarve e uma resposta que preserve a dignidade dos doentes e das famílias.

O conteúdo Até ao fim, ninguém é dispensável aparece primeiro em Barlavento.

Dia Mundial do Coração: não perca o ritmo

24 September 2026 at 15:03
Artigo de opinião de César Lourenço, do Núcleo de Estudos de Insuficiência Cardíaca da SPMI As doenças cardiovasculares continuam a representar a principal causa de morte em todo o mundo e em Portugal. Todos os anos, mais de 20 milhões de pessoas perdem a vida devido a problemas no coração e na circulação. No entanto, […]

Colangite biliar primária – conhecer, diagnosticar e tratar uma doença rara

8 September 2026 at 22:37
Artigo escrito por Joana Carvalho e Branco, médica gastrenterologista e vogal da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) O que é a colangite biliar primária? A colangite biliar primária (CBP) é uma doença crónica e autoimune do fígado, em que o sistema imunitário começa a atacar as pequenas vias biliares localizadas dentro do fígado. A bílis […]

Colangite Biliar Primária: a importância do diagnóstico precoce e do tratamento atempado

3 September 2026 at 14:37
Artigo de Opinião de João Madaleno, Assistente Hospitalar Graduado de Medicina Interna, Serviço de Medicina Interna e Unidade de Transplantação Hepática de Adultos da Unidade Local de Saúde de Coimbra, membro da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF) Assinalado a 13 de setembro, o Dia Internacional da Consciencialização para a Colangite Biliar Primária […]

Da sensibilização à ação: prevenir e reconhecer as lesões da coluna pode mudar uma vida

3 September 2026 at 09:22
Artigo de opinião de Lino Vieira da Fonseca, neurocirurgião, Hospital CUF Descobertas – Lisboa, CRI Coluna ULS São José, membro da Direção da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral No Dia Internacional da Lesão da Coluna Vertebral, o desafio é transformar conhecimento em ação. Prevenir os traumatismos, reconhecer precocemente os sinais de alerta e […]

LUÍS NEVES: QUANDO AS EXPLICAÇÕES JÁ NÃO CHEGAM

2 September 2026 at 22:37

Há crises políticas que resultam de uma única decisão errada. Outras resultam de um conjunto de acontecimentos que, isoladamente, poderiam eventualmente ser explicados, mas que, acumulados, criam uma realidade politicamente insustentável. O caso Luís Neves pertence claramente à segunda categoria.
O que verdadeiramente distingue esta crise não é apenas a gravidade de cada episódio. É a sucessão de factos, contradições, relações pessoais, decisões administrativas e explicações posteriores que foram surgindo ao longo das últimas semanas. E é precisamente essa acumulação que levanta uma pergunta inevitável: até quando pode Luís Montenegro manter no Governo um ministro cuja permanência se tornou, ela própria, um problema político para o Executivo?
Tudo começou com as obras numa propriedade em São Teotónio, no concelho de Odemira. O empreiteiro responsável, João dos Santos Carvalho, da Construbarcelos, não era um desconhecido de Luís Neves. A empresa tinha realizado trabalhos para a Polícia Judiciária durante o período em que Luís Neves dirigiu aquela instituição. Posteriormente, foi o mesmo empreiteiro a realizar obras na propriedade privada do atual ministro da Administração Interna.
A questão não é afirmar que uma relação pessoal ou profissional constitui, por si só, um crime. Não constitui. Mas a proximidade entre quem dirigia a Polícia Judiciária e um empresário cuja empresa recebeu contratos daquela instituição exige um escrutínio particularmente rigoroso. Quando essa mesma empresa passa depois a realizar obras na propriedade pessoal do antigo diretor nacional da PJ, a exigência de transparência torna-se ainda maior.
As obras no Alentejo levantaram outras dúvidas. Foram divulgadas informações relativas a 108 faturas, emitidas por 13 empresas, num valor superior a 23 mil euros. Durante algum tempo, uma das principais questões foi precisamente a ausência pública dos comprovativos de pagamento. Luís Neves afirmou ter pago cinco mil euros ao empreiteiro, mas a forma como determinados pagamentos foram realizados e a documentação disponível tornou-se objeto de escrutínio público.
Também a própria legalidade urbanística das obras foi questionada. A Câmara Municipal de Odemira confirmou que estava a averiguar a situação e que não existia processo de licenciamento ou comunicação prévia para as obras referidas. Luís Neves acabaria por admitir a necessidade de regularizar a situação.
Mas foi o episódio do atrelado que transformou uma polémica numa verdadeira crise política.
Um atrelado apreendido no âmbito da Operação Pacoba, relacionada com tráfico de droga, foi encontrado nas instalações da empresa Construbarcelos, pertencente precisamente ao empreiteiro amigo do ministro. A Polícia Judiciária abriu um inquérito para apurar as circunstâncias da situação.
Importa ser rigoroso: a PJ esclareceu que os produtos encontrados no interior do atrelado não eram estupefacientes. Contudo, o atrelado tinha sido apreendido numa investigação de combate ao tráfico de droga e continha materiais e produtos químicos associados à operação que levou à sua apreensão. A questão central não é, portanto, insinuar que o empreiteiro ou o ministro traficavam droga. Não há qualquer fundamento para essa afirmação. A questão é outra e é suficientemente grave: como chegou um bem apreendido pela Polícia Judiciária às instalações privadas de um empresário próximo do então diretor nacional da PJ?
Há ainda uma questão adicional, relacionada com a segurança do próprio atrelado e do seu conteúdo. Segundo foi noticiado, a Marinha não queria que o atrelado permanecesse nas suas instalações por razões de segurança. Perante essa preocupação, o atrelado acabou por ser transportado ao longo de vários quilómetros e armazenado nas instalações do empreiteiro, aparentemente sem condições adequadas de segurança ou de custódia.
Esta circunstância torna a decisão ainda mais difícil de compreender. Se existiam preocupações de segurança suficientemente sérias para levar a Marinha a recusar a permanência do atrelado nas suas instalações, como se considerou aceitável transportá-lo para um espaço privado, sem condições comparáveis e pertencente a um empresário com uma relação de proximidade com o então diretor nacional da PJ?
Luís Neves assumiu posteriormente ter autorizado a deslocação do atrelado, defendendo que a decisão permitiu poupar dinheiro ao Estado e afirmando que não existia qualquer problema com o atrelado enquanto este esteve na posse do empreiteiro. Mas essa explicação levanta uma pergunta inevitável: se estava tudo bem com o atrelado e com o seu conteúdo, por que razão a Polícia Judiciária foi imediatamente apreendê-lo quando soube que se encontrava nas instalações do empreiteiro?
A apreensão posterior não prova, por si só, que tenha existido qualquer irregularidade criminal. Mas demonstra que a situação era suficientemente sensível para justificar uma intervenção imediata das autoridades. E essa intervenção contradiz, pelo menos politicamente, a ideia de que se tratava de uma solução normal, segura e sem qualquer risco.
A explicação, contudo, não encerrou a polémica. Pelo contrário, colocou no centro do debate a relação entre a decisão administrativa, a entidade que beneficiou da guarda do bem, as condições de segurança do armazenamento e a amizade existente entre o então diretor nacional da PJ e o proprietário da empresa.
Quando um cidadão comum olha para este caso, é legítimo que pergunte se o mesmo tratamento teria sido dado a qualquer empresário sem qualquer ligação pessoal ao responsável máximo da Polícia Judiciária.
E as dúvidas não terminaram aí.
Surgiu depois a questão de uma viatura apreendida pela PJ e utilizada por Luís Neves. O ministro tinha afirmado, numa conferência de imprensa, possuir apenas um automóvel familiar com cerca de quinze anos. Posteriormente, tornou-se público que tinha outra viatura pessoal e utilizava ainda um automóvel que tinha sido apreendido pela Polícia Judiciária e posteriormente cedido ao Ministério da Administração Interna.
A questão deixou, assim, de ser apenas a utilização de uma viatura. Passou também a ser uma questão de credibilidade. Quando um governante presta esclarecimentos públicos e a informação posteriormente conhecida demonstra que a realidade é mais complexa do que aquela inicialmente apresentada, é inevitável que a confiança nas suas explicações seja afetada.
Também foram levantadas questões públicas sobre outros bens apreendidos e sobre a gestão e utilização de património proveniente de processos sob tutela da PJ. Todas estas matérias devem ser investigadas com rigor, sem julgamentos antecipados e sem condenações mediáticas. Mas há uma diferença fundamental entre respeitar a presunção de inocência e exigir responsabilidade política.
Um ministro não precisa de ser condenado por um tribunal para deixar de reunir condições políticas para permanecer no Governo.
É precisamente aqui que a responsabilidade passa diretamente para Luís Montenegro.
Porque mantém o primeiro-ministro Luís Neves no Governo?
Essa é hoje uma das perguntas mais importantes desta crise. Montenegro continua a manifestar confiança no ministro, apesar da sucessão de episódios, das investigações e do desgaste evidente da imagem do Governo.
A explicação poderá ser política: afastar Luís Neves poderia ser entendido como admitir que a escolha foi errada. Mas mantê-lo tem igualmente um preço. Cada nova revelação prolonga a crise. Cada nova contradição transforma o problema de um ministro num problema do próprio primeiro-ministro.
E é também impossível ignorar o comportamento da restante oposição.
O silêncio ou a contenção de alguns partidos perante uma crise desta dimensão merece reflexão. O Partido Socialista, em particular, não demonstrou a mesma intensidade política que tantas vezes manifesta perante casos de menor dimensão quando os protagonistas pertencem a outros quadrantes políticos.
É legítimo perguntar porquê.
Não significa afirmar que existe qualquer acordo oculto, comprometimento ou cumplicidade. Não existem elementos públicos que permitam fazer essa acusação. Mas politicamente é legítimo questionar se determinados silêncios resultam de uma estratégia de prudência ou do receio de que uma escalada do escrutínio sobre relações entre poder político, empresas e instituições possa trazer novamente à superfície outros casos do passado.
É neste contexto que o CHEGA decidiu assumir uma posição clara.
André Ventura exigiu a demissão de Luís Neves e alertou para o risco de perda de confiança dos portugueses nas instituições. O partido apresentou uma moção de censura e procurou colocar o caso no centro do debate parlamentar.
A comissão de inquérito proposta pelo CHEGA tem igualmente uma importância política fundamental. O Parlamento não pode limitar-se a assistir às revelações e esperar que o tempo resolva aquilo que a política tem obrigação de esclarecer. Uma comissão parlamentar de inquérito permitiria chamar responsáveis, analisar decisões, conhecer documentos e perceber como foi possível que um bem apreendido pela PJ fosse parar às instalações de um empresário próximo do seu então diretor nacional, em condições de segurança aparentemente inadequadas.
Mais do que uma iniciativa contra uma pessoa, trata-se de defender uma regra essencial: ninguém pode estar acima do escrutínio democrático.
O Presidente da República também deixou claro, através das intervenções e alertas dirigidos ao funcionamento das instituições e à necessidade de responsabilidade política, que Portugal não pode normalizar crises permanentes no Governo. A estabilidade não pode significar silêncio. A estabilidade não pode significar tolerar indefinidamente situações que fragilizam a confiança dos cidadãos.
A moção de censura apresentada pelo CHEGA deve, por isso, ser analisada para além do seu resultado aritmético.
Mesmo que não tenha condições para derrubar o Governo, tem um significado político inequívoco: o CHEGA recusou ser cúmplice, recusou fechar os olhos e posicionou-se claramente contra um Governo que prometeu rigor, transparência e exigência, mas que hoje mantém no seu interior um ministro envolvido numa sucessão de casos que continuam por esclarecer.
O CHEGA fez uma escolha política clara, não proteger o Governo apenas porque algumas das suas posições podem coincidir pontualmente com propostas defendidas pelo partido.
O Governo de Luís Montenegro deve ser avaliado pelos seus atos. E, neste caso, o ato mais relevante do primeiro-ministro é precisamente aquilo que ainda não fez.
Ainda não retirou Luís Neves do Governo.
E enquanto isso não acontecer, a crise continuará a ter dois protagonistas, Luís Neves, por tudo aquilo que ainda precisa de explicar, e Luís Montenegro, por continuar a decidir que essas explicações são suficientes.
Talvez sejam suficientes para o primeiro-ministro.
Mas a pergunta verdadeiramente importante é outra: serão suficientes para os portugueses?
Acho que não.

The post LUÍS NEVES: QUANDO AS EXPLICAÇÕES JÁ NÃO CHEGAM appeared first on Jornal O DIABO.

Olhão apela à contribuição da população para estratégia de mobilidade urbana sustentável

23 August 2026 at 07:02

O  Município de Olhão associa-se à AMAL no âmbito do Inquérito Temático sobre Transporte Individual e Estacionamento, integrado no desenvolvimento do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável do Algarve 2.0.

A iniciativa pretende recolher a opinião e a perceção da população relativamente a questões relacionadas com o transporte individual e o estacionamento.

Os contributos da população vão ajudar a definir a estratégia e as medidas a desenvolver no âmbito do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável do Algarve 2.0, que tem como objetivo “promover uma mobilidade mais eficiente, sustentável e adequada às necessidades do
território”.

O inquérito está disponível até ao dia 2 de setembro, aqui.

SIRP, PS, Maçonaria, Coimbra, Macau – A escolha do novo diretor do SIS

14 August 2026 at 22:10

Há mais de um mês que venho sendo fortemente pressionado a escrever sobre este tema. Faço-o hoje conforme me dita a consciência, e não segundo a vontade de alguns, tendo sempre como prioridade maior o reforço da segurança nacional e da capacidade do Estado para obstar a qualquer intrusão, venha ela de onde vier, seja de origem amiga ou inimiga.

No decurso da minha intervenção no 43.º Congresso Nacional do PPD/PSD, fiz referência à permanência, por mais de uma década, de Neiva da Cruz como diretor-geral do SIS. Cerca de duas semanas depois, acabou por se reformar. Deixo-lhe os meus sinceros votos de uma boa reforma e o meu agradecimento pelo serviço prestado ao país, independentemente da sua proximidade ao Partido Socialista, à maçonaria e ao círculo associado ao chamado grupo de Júlio Pereira, Graça Mira Gomes ou Vítor Sereno, que nos remete para outro elemento de um mesmo padrão: Macau.
Já tive oportunidade de manifestar, de forma aberta e em sede própria, a minha falta de confiança política e pessoal, enquanto dirigente político e enquanto cidadão, em Vítor Sereno para o cargo de Secretário-Geral do SIRP, incluindo a equipa próxima que nomeou para o seu gabinete político, atendendo a que o cargo é equiparado ao de Secretário de Estado. Mais uma péssima escolha.
Pelas mesmas razões que muitos levam a desconfiar de Luís Neves, também muitos desconfiam de Sereno. Ambas são escolhas legítimas do Primeiro-Ministro, dentro da sua mundividência e aconselhamentos próximos não haveriam resultados diferentes, é verdade, mas, fosse eu a escolher um diplomata para o cargo, teria considerado outros nomes com maior bagagem e percurso profissional invejável, como o embaixador Vizeu Pinheiro ou Fezas Vital ou até em alternativa, poderia ter sido ponderado alguém vindo da própria casa, com carreira feita no Sistema de Informações da República Portuguesa, o que seria a solução mais natural, ou ainda alguém oriundo das Forças Armadas.
O mundo tornou-se substancialmente mais perigoso. As comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, em especial as que vivem em zonas de tensão, encontram-se em permanente sobressalto e só nos últimos dois anos já fizemos várias evacuações de portugueses em zonas diferentes do globo. Também no plano interno adensam-se desafios graves, desde a criminalidade organizada e transnacional — que, em muitos casos, já se cruzam e se fundem com organizações terroristas, ao contrário da separação que Luís Neves insiste em manter — até as mesmas estruturas com pendor ideológico que, por detrás, são apoiadas por Estados que o próprio Governo português já classificou como ameaças sistémicas à segurança nacional de Portugal, dos Estados-membros da União Europeia e da NATO.
Perante este cenário de dúvidas sistemáticas e de perigos complexos, intrincados, difusos e assimétricos, o Primeiro-Ministro de Portugal tem agora uma decisão de particular relevância a tomar: a escolha e a nomeação do próximo diretor-geral do SIS, cargo para o qual o Secretário-Geral do SIRP poderá propor alguém da sua confiança, mas porque não una escolha directa do Primeiro-Ministro, da sua confiança e já agora também da confiança do Presidente da República e do principal líder da oposição? Recordo que o grande e último Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira, foi uma nomeação do Presidente da República, na altura Mário Soares, mas com o consenso do então Primeiro-Ministro Aníbal Cavaco Silva, e funcionou muito bem, pois estes cargos são para a defesa do Estado e não para preservação de bandos. Enquanto cidadão sentir-me-ia mais seguro e confiante? Certamente, apesar de nunca me ter enredado na entourage dos “não socialistas por Seguro”.
Enquanto ator político que desejo o bem da nação e da pátria portuguesas, não ficaria de consciência tranquila se não deixasse este alerta: para o bem de Portugal, o próximo diretor-geral do SIS deverá representar um corte claro e asséptico com o legado de Júlio Pereira, Graça Mira Gomes, Vítor Sereno, Rui Pereira, Antero Luís, Horácio Pereira e Neiva da Cruz e seus respectivos Directores-Gerais Adjuntos, para uma verdadeira renovação geracional e de quadros dentro do SIS.
Há quem recorde que existem países da União Europeia com diretores em funções há mais de uma década. É verdade. Porém, são também países com menor exposição internacional e com interesses globais menos extensos do que Portugal, burocraticamente muito menos porosos que Portugal a influências externas, ao contrário de Portugal que deve contar não apenas com a presença dos seus interesses nacionais no mundo, mas também temos as nossas comunidades portuguesas espalhadas por diversos países e com a influência que esses Estados de acolhimento podem também exercer sobre o nosso próprio país.
Que perfil não deverá ter o próximo diretor-geral? Não deverá ser próximo de nenhum dos nomes anteriormente referidos, precisamente para assegurar uma renovação geracional e quebrar a dinâmica do grupo de sempre. Não deverá ter estado debaixo de chefias cujas lideranças do SIS não provinham da própria casa-mãe e que tenham servido em governos estrangeiros, muito menos a sua ascenção na carreira deverá remontar a esse período, não deverá ter forte proximidade ao Partido Socialista, ao chamado grupo de Coimbra que se estende até Macau e muito menos à maçonaria. Deverá, pelo contrário, possuir um perfil ético e patriótico reconhecido pela maioria dos quadros da Presidência do Conselho de Ministros, e não apenas por círculos afetos a lojas maçónicas ou dos seus irmãos dos think tanks e demais publicações associadas aos pedreiros livres ou do templo.
Esta é uma decisão muito importante que o Senhor Primeiro-Ministro tem já sobre a sua mesa. A escolha que fizer marcará, de forma decisiva, o curso da segurança interna de Portugal, com imediatas implicações na segurança externa de Portugal e na preservação do nosso superior interesse nacional do Estado, de Portugal e dos Portugueses. O nome escolhido passará por audição na Assembleia da República, e todos sabemos que o escrutínio político já se encontra hoje elevado ao mais alto nível de rigor.
Há décadas que oiço políticos, com maiores ou menores responsabilidades, afirmarem o mesmo que “ninguém presta muita atenção aos serviços”, que “não servem para muito” ou que “estão para lá atirados”. Não poderia discordar mais. O Sistema de Informações da República Portuguesa, o SIS e o SIED constituem garantias essenciais — uma verdadeira linha da frente — como garante da Democracia, da segurança de Portugal e do apoio à tomada de decisões estratégicas por qualquer Primeiro-Ministro de Portugal, compostas por também muito e bons patriotas que não se deixam pressionar nem se deixam enredar ou instrumentalizar pelas preocupações dos interesses pessoais das chefias, mas apenas com o fito exclusivo de servir Portugal. Se enquanto Nação e Povo Português permitirmos que estas instituições se enfraqueçam, se degradem estaremos a permitir que Portugal se eroda até ao risco de colapso. “Que um fraco Rei faz fraca a forte gente”.
Não é vergonha tomarmos consciência das nossas vulnerabilidades ou fraquezas. Vergonhoso seria recusarmo-nos a ser fortes, como, noutro contexto sobre a dignidade nacional, teria respondido El-Rei D. Pedro ao Primeiro-Ministro Sá da Bandeira, descrito nas memórias do Embaixador Alberto Franco Nogueira em “As Crises e os Homens”.
Faço votos para que a Assembleia da República escolha um novo Conselho de Fiscalização do SIRP à altura das exigências do momento. A atual composição — integrando uma ex-ministra do Partido Socialista, um assumido iniciado do GOL e apenas um militante do PPD/PSD — não me inspira confiança quanto ao pleno cumprimento do seu papel fiscalizador necessário ao regular funcionamento das instituições.
Todos amamos Portugal. Na era em que vivemos, porém, a leviandade não pode ter lugar.

Vitório Rosário Cardoso
Conselheiro nacional do PPD/PSD

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Vencer eleições Não Basta

19 June 2026 at 14:57

Em 2025, durante as eleições autárquicas, tive a oportunidade, tão inesperada quanto reveladora, de entrar em contacto com o ideólogo de um recém-criado partido brasileiro, o Partido Missão. Desde esse encontro fiquei a conhecer uma nova direita: uma direita energética, uma direita com missão, uma direita que compreendeu o principalproblema do nosso campo político e ousou nomeá-lo.

Assistimos, nos últimos anos, à ascensão daquilo a que convencionalmente se chamam partidos extremistas em todo o mundo. Liderados por personalidades carismáticas, sustentados por forte apoio popular, prometeram rompercom as velhas práticas políticas e resolver os problemas criados pelas burocracias sem alma das suas nações. Mas o que acontece quando essas figuras chegam ao poder? Ficam paralisadas pelo mesmo sistema que disseramcombater, muitas vezes por falta de coragem ou doutrinária ou por aquilo de que ainda não se aperceberam.

Milei, Trump, Bolsonaro, o AfD, o Vox, o Chega, Meloni. Todos atingiram posições de destaque nas suas nações. Mas em que se traduziram essas vitórias? A Itália, descrita como “o maior governo à direita desde Mussolini”, nãoconsegue travar a imigração ilegal no Mediterrâneo, que continua a ser uma rota de dissolução civilizacional. Em 2022, os brasileiros elegeram aquele que foi chamado de o maior congresso conservador da história e prometeram uma oposição feroz ao presidente Lula. Na prática, não conseguiram impedir a aprovação de legislação progressista. A força eleitoral dissipou-se ao contacto com a máquina do Estado.

A direita mundial sofre do mesmo problema: chama-se democracia. Todos acreditam que conseguirão mudar osistema através das regras do próprio sistema, vencendo eleições de quatro em quatro anos e disputando batalhas eleitorais. Estão errados.

Julius Evola, em Orientações, escrito após 1945, propõe uma doutrina assente na Hierarquia, na Autoridade e na Ordem, rejeitando o apelo às massas e apostando numa minoria resoluta portadora de uma ideia de regeneração,uma aristocracia espiritual capaz de permanecer de pé num mundo em ruínas. O que Evola compreendeu, e que a direita contemporânea recusa aceitar, é que uma minoria com convicção e energia supera frequentemente uma maioria.

Vivemos num regime que se apresenta como democrático, mas que fecha a porta a ideias verdadeiramente diferentes. Mesmo a democracia tem donos: as elites que a controlam e das quais o regime existe para proteção. Curtis Yarvin propõe aquilo a que chama neocameralismo, um sistema em que o Estado é administrado como umacorporação com um CEO soberano, combatendo a ilusão democrática e defendendo um governo de elite adaptado à era tecnológica. O poder real nunca foi nem será democrático, e a ficção democrática serve para domesticar aqueles que poderiam desafiá-lo.

Para Yarvin, o problema de “eleger um ditador benevolente é um problema de engenharia”. O despotismo corporativo garantiria estabilidade e continuidade. O paralelo com o pensamento do jurista fascista Alfredo Rocco é notável.Rocco concebia a sociedade como uma entidade orgânica que abarca e dá sentido às suas partes individuais, sendo o indivíduo verdadeiramente livre apenas quando em harmonia com o todo.

É por isso que chegamos ao ponto em que, em Portugal, o regime de Abril precisa de morrer para que Portugalrenasça. A nível mundial, precisamos da coragem intelectual para reconhecer que a democracia liberal, tal como existe, não é um fim em si mesma, mas um instrumento ao serviço de interesses de elites burocráticas.

Chegamos ao que Yarvin chama monarquia. Não necessariamente a monarquia medieval, embora mantenha algumas semelhanças funcionais, mas um modelo de governo concentrado e eficaz, capaz de agir sem ficar bloqueado pelos mecanismos do sistema.

O exemplo mais vivo é El Salvador com Nayib Bukele. O país era dominado por criminosos e por um sistemaincapaz de garantir segurança. Bukele demonstrou que a decadência não era inevitável. Através de um exercício firme do poder, transformou profundamente a realidade nacional. Hoje, El Salvador é um dos países mais seguros da América Latina.

Aqui reside a lição que a direita contemporânea recusa aprender: não basta chegar ao poder, é necessário ter acoragem de exercê-lo e romper com o sistema. A direita do século XXI possui dimensão eleitoral, mas carece deenergia; tem votos, mas não a vontade de os utilizar para construir algo duradouro.

Em Portugal, observo esse fenómeno a começar a manifestar-se. O maior partido da direita portuguesa, aquele em que milito e onde lidero uma estrutura regional de jovens, enfrenta um problema grave: a falta de energia no combate pela vida. Só em 2025 foram realizados 17.807 abortos em Portugal por decisão pessoal. A direita não demonstraqualquer intenção séria de tentar revogar essa realidade.

Essa falta de energia esbarra na ideia de que o referendo de 2007 encerrou definitivamente a questão, como se a defesa daquilo que se considera verdadeiro dependesse sempre da vontade da maioria. Mas que maioria? A maioria formada pela televisão, pelas universidades e pelo aparelho cultural do regime, aquilo que Yarvin designapor Catedral: o complexo mediático e académico que molda o consenso posteriormente ratificado pela democracia liberal.

Este é talvez o exemplo mais evidente de como a direita interiorizou as regras do jogo do adversário e não compreende que as grandes transformações políticas nunca nasceram apenas das urnas. Continuará a ser aquiloque é hoje: uma oposição que, quando colocada em posição de governação, será fraca e triturada pela máquina chamada democracia.

A energia que falta não é eleitoral. É mudar as regras pelas quais jogamos e romper com a era liberal, recuperando a energia transformadora dos movimentos do século XX, interiorizando a cultura nacional e opondo-se à decadência.

Só assim conseguiremos vencer.

Leonardo Duarte

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Um plano de igualdade e respeito mútuo

15 May 2026 at 19:48

O dia da Mãe aproxima-se. Todas as Mães são, efetivamente, Mulheres.
Quando abordamos temas como a violência contra as mulheres e violência
doméstica, falamos daquilo que, não nos fazendo melhores que os homens,
nos torna diferentes, especiais, esta força que a natureza permitiu, entre
tantas outras coisas tão belas, gerar vida.
Mas, porque ainda subsistem violências direcionadas à mulher,
precisamente porque é mulher, entendida tantas vezes como mais fraca,
habitante em patamar inferior ao homem, e que, pasmemos pois, a este
deve ser submissa, e reduzir-se à sua insignificância histórica, foram
criados instrumentos legais, neste caso, internacionais, que visam, entre um
mundo que aqui não cabe, por razões óbvias, implementar a regra dos “três
P”, ou seja, Prevenir, Proteger, e Acusar (prossecution na língua inglesa).
Centrada nos direitos das vítimas, e na cooperação entre as instituições e
organizações, e nas autoridades competentes, é na sua génese que
encontramos a proteção imediata das vítimas, prevendo a possibilidade das
conhecidas decisões de emergência, aquelas que pretendem evitar o
“chegamos tarde demais, está morta”.
Falamos da Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o
Combate à violência contra as mulheres e a violência doméstica
(Convenção de Instambul), que, acertadamente aponta o reconhecimento da
igualdade entre mulheres e homens como fundamento para o estudo e
tratamento deste tipo de violência, que trata como uma verdadeira violação
de direitos humanos, quando mulheres são discriminadas, produzindo-se
sofrimento físico, sexual, psicológico, económico, e até privação da
liberdade.
Chega mesmo a apontar a erradicação de preconceitos, costumes, tradições,
e de todas as práticas assentes na ideia de inferioridade das mulheres ou nos
papeis estereotipadas destas e dos homens.
Esta Convenção acaba por mostrar uma vertente educativa, sugerindo
alterações profundas na nossa cultura, costumes, tradições ou religião,
sempre que estes sirvam para justificar a prática de atos de violência contra
mulheres.

Nela é desenhado um plano de igualdade e respeito mútuo, com vista ao
término da violência de género.
Chama à atenção ao Estado Português para a necessidade urgente da
formação de profissionais que recebem as vítimas num primeiro momento,
sendo necessária uma centralização de informação, para que a vítima possa
confiar no agente de autoridade, se sinta protegida, acompanhada e
orientada, sobretudo quando a vítima é uma criança.
As autoridades policiais gerem todo este flagelo, recebendo as vítimas,
realizando relatórios que avaliam o risco em que estas se encontram,
encaminhando-as para os serviços sociais competentes, quando há vagas.
Esta Convenção foi assinada por Portugal em 2011, e em 2024 surgiu a
Diretiva 2024/1385 do Parlamento Europeu, que alerta Portugal para o
cumprimento destas recomendações respeitantes à violência contra as
mulheres.
Também o relatório do GREVIO (Grupo de Peritos no Combate à
Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica) de 2025 tem vindo
a alertar o Estado Português para a falta de cumprimento de grande parte
destas “recomendações” do Conselho da Europa.
No passado dia 29 e 30 teve lugar o III Congresso internacional sobre
violência doméstica e Convenção de Istambul, no qual especialistas das
mais diversas áreas do saber debateram este tema.
Façamos todos a nossa parte, fiquemos vigilantes neste cumprimento, não
sejamos alienantes sociais.

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O vício de virar costas

12 May 2026 at 16:04

Há gestos que dispensam discurso. Virar costas é um deles — curto, seco, quase elegante na forma, mas brutal no conteúdo. É o equivalente corporal de dizer “não me interessa”, “não respondo”,” não assumo”, “não existes”. E, quando se repete, deixa de ser reação para passar a ser identidade.
Na vida comum, ainda se tolera: há dias em que ninguém tem paciência para o mundo. Mas na política, onde cada gesto é escrutinado, virar costas não é cansaço — é escolha. E, mais do que isso, é mensagem.
Quando, na Assembleia da República, um deputado decide deliberada e literalmente dar as costas, não está apenas a rejeitar quem fala. Está a rejeitar o próprio jogo democrático. Porque a democracia vive do incómodo, do confronto, do contraditório. Quem foge disso não está apenas a evitar uma conversa — está a desrespeitar e a expor a sua incapacidade de a sustentar.
No caso de Pedro Delgado Alves, o problema já não é o gesto. É a recorrência da supremacia arrogante. É o padrão quase coreografado de quem, perante o que não agrada, opta sempre pela mesma saída: virar costas, sair de cena, apagar o momento como se ele nunca tivesse existido. Recordemo-nos do fatídico episódio do atropelamento da cantoneira, por distração e negligência, e não por falha mecânica como foi relatado. O Ministério Público e o tribunal consideraram que o mesmo se deveu a desatenção, não se comprovando avaria. Pedro Delgado Alves foi condenado por crime de ofensa à integridade por negligência, porque dias depois o carro foi enviado para abate, supostamente por se encontrar bastante danificado, mas segundo a juiza, esta decisão inviabilizou a verificação técnica da viatura e impediu que se apurasse a eventual falha no carro. Uma clara tentativa de apagar evidências, de virar as costas à verdade dos factos e de se esquivar às responsabilidades.
É aqui que entramos no território onde a política se cruza com o caráter.
Porque há uma diferença entre errar e fugir. Entre explicar e desaparecer. Entre assumir e virar costas.
Quando a memória pública evoca episódios passados — alguns incómodos, outros controversos — não o faz apenas pelos factos em si, mas pelo fio que os une: a perceção de uma constante evasão. A imagem que se desenha é a de alguém que, perante o embate, não resiste — contorna. Não responde — esquiva-se. Não enfrenta — vira costas.
E isso não é estilo. É sintoma e esteriotipia. .
Sintoma de uma política que prefere a encenação à substância. Onde o gesto substitui o argumento e a fuga se disfarça de dignidade. Mas não há dignidade nenhuma em virar costas ao debate e às responsabilidades. Há apenas silêncio — e o silêncio, em política e na vida comum, raramente é inocente.
No fundo, virar costas é confortável. Evita o risco, protege o ego, poupa trabalho. Mas tem um preço: revela, sem margem para dúvidas, a medida e a pequenez ética de quem o faz.
E essa medida, quando repetida vezes suficientes, deixa de ser circunstancial.
Passa a ser caráter, ou falta dele.

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A Pressa de Ser Outro

23 April 2026 at 19:39

Há temas que pedem delicadeza. E há momentos em que a delicadeza, se levada ao extremo, se transforma em silêncio cúmplice. A mudança de género tornou-se um desses territórios onde a prudência parece, muitas vezes, proibida, como se questionar fosse sinónimo automático de hostilidade.

Vivemos sob a exaltação da autodeterminação. “Sê quem és”, passou de princípio humanista a imperativo imediato. Mas quando esse “ser” implica intervenções médicas profundas, irreversíveis e com impacto vitalício, a questão deixa de ser apenas identitária: torna-se também clínica, psicológica e ética. E aqui, a pressa não é um detalhe — é o problema.

O que se observa, em muitos contextos, é uma validação quase instantânea de decisões que exigiriam tempo, maturidade e acompanhamento rigoroso. Em especial entre jovens, onde a identidade ainda está em construção, a ideia de que qualquer desconforto com o próprio corpo pode, ou deve, ser resolvido através de uma transição, levanta sérias reservas. Nem todo o sofrimento é sinal de disforia. Nem toda a dúvida é uma certeza à espera de ser confirmada.

Mas o espaço para esta nuance tem vindo a encolher. O debate tornou-se binário: ou se apoia sem reservas, ou se é colocado no campo da rejeição. Esta simplificação é perigosa. Porque apaga uma realidade incómoda — a de pessoas que se arrependem, que revisitam decisões tomadas cedo demais, que enfrentam consequências físicas e psicológicas que não lhes foram plenamente explicadas.

O arrependimento não é apenas uma nota de rodapé. É um sinal de alerta. E, no entanto, tende a ser desvalorizado, quase invisível, porque contraria a narrativa dominante. As consequências a médio e longo prazo : dependência de terapias hormonais, infertilidade, cirurgias complexas, são frequentemente tratadas como detalhes técnicos, quando na verdade redefinem vidas inteiras.

Importa também perguntar: o que está por detrás deste aumento de pedidos de transição? Será sempre uma questão identitária clara, ou haverá, em alguns casos, fatores mais difusos, como fragilidade emocional, necessidade de pertença, influência de ambientes digitais altamente polarizados? Quando uma resposta complexa se transforma numa solução rápida, é legítimo desconfiar da própria simplicidade da resposta.

Paralelamente, assistimos a um relevo crescente do ativismo LGBT… no espaço público. Muito do que foi conquistado nesse percurso é inegavelmente positivo em termos de direitos e dignidade, mas há uma diferença entre visibilidade e omnipresença. Quando determinadas causas se tornam quase imunes à crítica, o debate democrático empobrece.

É neste enquadramento, que decisões políticas como a recusa de hastear bandeiras ideológicas em edifícios públicos ganham significado. Não se trata, necessariamente, de rejeitar direitos ou identidades, mas de afirmar um princípio: o Estado não deve alinhar simbolicamente com uma causa específica, por mais legítima que seja, sob pena de perder a sua neutralidade. O espaço público não deve ser apropriado por nenhuma agenda, deve permanecer comum.

No fundo, a questão central não é a identidade de género em si, mas a forma como a sociedade a está a tratar: com urgência, com simplificação, com leviandade e, por vezes, com uma certa intolerância ao questionamento. E talvez o verdadeiro risco não esteja na liberdade de mudar — mas na ausência de espaço para pensar antes de o fazer.

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O Lado Invisível do SNS: Quando uma Cama Vazia Decide Quem Vive e Quem Espera

16 April 2026 at 16:36

Um problema ético

RUI LEAL
Aluno do Mestrado Executivo em Administração Hospitalar
Faculdade de Economia da Universidade do Porto

Nos hospitais portugueses, a escassez de camas deixou de ser uma exceção. Tornou-se estrutural. E, como em qualquer sistema sob pressão constante, essa escassez não se limita a criar ineficiências — cria desigualdades.

Nas especialidades cirúrgicas, o problema é particularmente evidente. A capacidade de internamento passou a ser o verdadeiro fator limitativo da atividade. Quando alegadamente, não faltam equipas, nem blocos operatórios, nem competência clínica, falta, muitas vezes, uma cama.

O resultado é conhecido — e cada vez mais frequente: cirurgias canceladas à última hora. Não por decisão médica, mas por incapacidade organizacional. O doente está preparado, a equipa está pronta, os recursos estão mobilizados. E, ainda assim, a cirurgia não acontece.

Para quem espera, o impacto é real: mais ansiedade, mais tempo, mais risco. Para o hospital, é um desperdício evidente de recursos altamente diferenciados. Mas há uma dimensão mais profunda que raramente entra no debate público. Estamos, na prática, perante um problema de justiça distributiva.

Num sistema público como o Serviço Nacional de Saúde, a escassez não pode ser evitada — mas a forma como é gerida pode, e deve, ser questionada. Quando o acesso aos cuidados deixa de depender exclusivamente da necessidade clínica e passa a ser condicionado por limitações operacionais, a equidade fica comprometida. E isso não é um detalhe técnico. É uma escolha implícita sobre quem é tratado — e quem espera.

A duração do internamento pós-operatório é um dos principais determinantes desta pressão. Bastam alguns casos acima do esperado para desestabilizar todo o sistema. Há, porém, um fator frequentemente subestimado neste contexto: os casos sociais. Quando a alta clínica existe, mas a saída do hospital não ocorre por ausência de resposta social adequada, o internamento deixa de refletir apenas necessidade assistencial e passa a incorporar uma incerteza estrutural. Nos modelos preditivos de gestão de camas, estes casos funcionam como uma fonte relevante de entropia operacional — aumentam a variabilidade, reduzem a precisão das previsões e fragilizam o planeamento cirúrgico. Ignorá-los não é apenas uma limitação técnica; é aceitar modelos incompletos e, consequentemente, decisões potencialmente menos equitativas. A sua incorporação explícita nos modelos, através de variáveis sociais e de contexto, é essencial para aumentar a validade preditiva e evitar decisões sistematicamente enviesadas.

Ainda assim, muitos hospitais continuam a planear a sua atividade com base sobretudo na experiência, e não em análise estruturada de dados. É aqui que a mudança se impõe.

Hoje, existe informação suficiente para prever padrões de internamento, antecipar riscos e ajustar o planeamento cirúrgico. Ignorar essa capacidade analítica já não é uma limitação — é uma decisão. Mas antecipar não chega.

Sem mecanismos robustos de auditoria interna, o sistema permanece opaco. Não se compreende, com rigor, onde estão os desvios, por que razão se prolongam internamentos ou onde se perdem oportunidades de otimização. E sem essa compreensão, não há verdadeira melhoria.

A auditoria interna não deve ser vista como um instrumento de controlo burocrático, mas como uma ferramenta de gestão crítica. Permite tornar visível o que hoje é difuso, responsabilizar processos e alinhar a utilização dos recursos com os princípios que o sistema afirma defender. Eficiência e equidade não são objetivos concorrentes. São, neste contexto, inseparáveis.

Num sistema permanentemente pressionado, melhorar a utilização das camas não é apenas uma questão de gestão. É uma condição para garantir que o acesso aos cuidados não depende do acaso organizacional. E é aqui que recai uma das maiores responsabilidades dos administradores hospitalares. Gerir capacidade não é apenas otimizar fluxos. É tomar decisões que têm impacto direto sobre vidas concretas. Decidir quem espera. Decidir quem entra. Decidir quando.

Por isso, reduzir a gestão de camas a um problema operacional é um erro. Trata-se, na verdade, de um problema ético, organizacional e político. Porque, no limite, cada cama disponível representa mais do que um recurso. Representa uma escolha. E gerir escolhas, em contexto de escassez, é — inevitavelmente — gerir justiça. ■

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Concentrar para Salvar : A Nova Geografia da Neonatologia

16 April 2026 at 16:26

Há decisões que, à primeira vista, parecem duras, insensíveis e quase incompreensíveis. O encerramento de algumas unidades de neonatologia é uma delas. Num país onde cada nascimento carrega esperança, futuro e continuidade, falar em fechar portas onde a vida começa pode soar a contrassenso. Mas nem sempre mais significa melhor — e é precisamente aqui que a reflexão se impõe.
A neonatologia é uma das áreas mais exigentes da medicina. Não basta existir um espaço físico com incubadoras: é necessário um ecossistema altamente especializado, com equipas treinadas, tecnologia de ponta e capacidade de resposta imediata a situações críticas. Um recém-nascido prematuro ou em risco não pode esperar por recursos que não existem nem depender de estruturas subdimensionadas. Nestes casos, a diferença entre a vida e a morte mede-se em minutos — e em qualidade de cuidados.
Manter muitas unidades abertas, mas sem condições adequadas, pode criar uma falsa sensação de segurança. A dispersão de recursos humanos — médicos neonatologistas, enfermeiros especializados — fragiliza o sistema. Equipas reduzidas, horários sobrecarregados e falta de experiência acumulada diminuem a capacidade de resposta. Pelo contrário, a concentração em unidades de excelência permite equipas mais robustas, com maior prática clínica, melhor articulação e acesso a equipamentos modernos.
Em Portugal, algumas reestruturações recentes ilustram esta lógica. O reforço de unidades em hospitais como o Hospital de Santa Maria ou o Hospital de São João demonstra a aposta em centros altamente diferenciados, capazes de responder aos casos mais complexos. Ao mesmo tempo, o encerramento ou suspensão de unidades com menor capacidade tem sido alvo de debate público, mas também de uma tentativa de reorganização mais racional dos cuidados.
Não se trata apenas de uma questão clínica — há também uma dimensão económica inevitável. Os recursos do sistema de saúde são finitos. Investir em múltiplas unidades subequipadas pode significar desperdiçar verbas que poderiam garantir excelência em menos locais. A gestão eficiente implica escolhas difíceis: concentrar investimento onde ele produz melhores resultados, evitando redundâncias e estruturas que não conseguem cumprir plenamente a sua missão, ou que não justificam permanecerem em funcionamento pelo número reduzido de serviços específicos que prestam.
Naturalmente, esta reorganização deve ser acompanhada de uma rede eficaz de transporte neonatal e de apoio às famílias, para que a distância não se transforme em obstáculo. A centralização só faz sentido se for acompanhada de acessibilidade e humanização.
No fundo, a questão não é quantas unidades existem, mas que qualidade oferecem. Porque quando falamos de recém-nascidos — especialmente os mais frágeis — não há margem para compromissos. As parturientes e os bebés não precisam de proximidade ilusória; precisam de segurança real, de competência e de excelência.
E isso, por vezes, exige coragem para fechar portas, para garantir que outras, mais preparadas, permaneçam abertas e altamente funcionais.

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Política Migratória: Do Facilitismo à Correção

10 April 2026 at 18:39

Durante oito anos, construiu-se em Portugal uma narrativa confortável: a de que abrir portas sem critério era sinónimo de humanidade, progresso e modernidade. Soava bem. Ficava bem nas conferências, nos discursos e nas redes sociais. Mas, como tantas vezes acontece, a realidade,essa entidade teimosa, acabou por pedir contas.

A chamada “manifestação de interesse” transformou-se, na prática, num iman e num convite implícito à entrada sem planeamento. Um sistema que, sob o pretexto de regularizar, passou a incentivar fluxos desordenados, criando uma espécie de fila invisível onde tudo era permitido… desde que se esperasse o suficiente. O resultado? Serviços públicos pressionados, respostas lentas, e um Estado a correr atrás do prejuízo que ele próprio ajudou a criar.

Entretanto, nas ruas, começou a emergir um desconforto que durante demasiado tempo foi varrido para debaixo do tapete e ocultado pela Comunicação Social. Não, não se trata de generalizações fáceis ou de demonizar quem chega, há de tudo, e isso seria intelectualmente desonesto. Mas também não se pode ignorar o aumento de episódios de criminalidade associados a contextos de exclusão, ausência de integração eficaz e falta de controlo. Fingir que não existe é tão irresponsável quanto explorá-lo de forma populista.

E depois há a questão da subsídio-dependência, esse elefante na sala que poucos quiseram nomear e admitir. Um sistema que, em vez de integrar rapidamente no mercado de trabalho, foi permitindo que muitos ficassem presos a apoios sociais, não por escolha individual apenas, mas por um modelo que falhou em criar pontes reais para a autonomia. A boa intenção, quando mal executada, transforma-se numa armadilha, quer para quem chega, e perigosamente para quem já cá está.

Durante anos, qualquer tentativa de questionar este modelo era imediatamente catalogada: ou se estava “do lado certo” ou se era rotulado com todos os epítetos possíveis. O debate foi pobre, emocional e, muitas vezes, intelectualmente preguiçoso e desonesto. E assim se prolongou um problema que exigia, desde o início, seriedade, equilíbrio, bom senso e, sobretudo, responsabilidade.

Mas a política, apesar de tudo, ainda tem momentos de correção. A recente alteração à lei, aprovada por uma maioria qualificada de dois terços na Assembleia da República, não é apenas um detalhe legislativo — é um sinal. Um sinal de que, finalmente, se reconheceu que a gestão da imigração não pode ser feita ao sabor de slogans ou boas intenções, mas sim com regras claras, capacidade de integração e respeito por quem chega… e, especialmente por quem já cá vive.

Por isso, no meio de tanta hesitação passada, resta reconhecer o momento presente: uma vénia à lucidez tardia e um aplauso, firme e sem ironia, à coragem de, finalmente, pôr ordem onde durante demasiado tempo reinou a ilusão.
Se hoje há dois terços a corrigir o rumo, é porque durante demasiado tempo houve um governo incapaz de reconhecer que o tinha perdido.

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A coreografia do medo e a engenharia da obediência

1 April 2026 at 19:12

Durante anos, venderam-nos certeza com a arrogância de quem não admite réplica. O governo de António Costa não governou apenas uma crise sanitária, encenou uma narrativa onde o Estado nunca duvida, nunca hesita, nunca erra. E quem ousasse levantar a sobrancelha era imediatamente promovido a herege cívico.
A Direção Geral de Saúde transformou-se num púlpito. Não de ciência, mas de autoridade. E há uma diferença abissal entre as duas. A ciência questiona, ajusta, corrige-se. A autoridade impõe. E foi isso que se viu: um discurso fechado, impermeável, blindado contra qualquer interrogação que não viesse com selo de aprovação oficial.
O país foi conduzido, não informado. Empurrado, coagido, não convencido. Entre campanhas emocionalmente carregadas e medidas sucessivas, instalou-se um ambiente onde a liberdade era formal, mas a escolha já vinha pré-formatada. Não foi uma ordem direta. Foi mais eficaz do que isso: foi uma pressão difusa, constante, socialmente validada. Uma pedagogia do medo, uma engenharia da obediência.
E agora? Agora surgem notícias incómodas, perguntas tardias, investigações que deveriam ter começado quando ainda havia tempo para respostas claras. Durante meses, anos até, garantiu-se ao país que não havia nada a questionar. Nada. Zero. A dúvida era tratada como desinformação antes sequer de ser analisada. Os questionistas foram perseguidos, ameaçados, cancelados e alvos de perseguição discriminatória, sem apelo nem agravo, só porque duvidaram da solução milagrosa, que surgiu, inacreditavelmente em tempo record, quando se sabe que um processo de desenvolvimento e aprovação de uma vacina, para estar formalmente disponível para a população, em segurança, demora na totalidade, dez a quinze anos, ou até mais, depois de passar formalmente por todas as fases.
Hoje, já não é possível sustentar essa pose autoritária, sem fissuras.
Hoje em dia apercebemo-nos de que, o mais grave não é apenas o que pode ou não vir a confirmar-se. O mais grave é o ambiente que foi criado: um espaço público onde a crítica foi desencorajada, onde o debate foi empobrecido e onde a prudência — essa mesma prudência que a ciência exige — foi substituída por uma certeza quase dogmática.
Governar em crise não dá carta branca para moldar a realidade à conveniência política nacional ou europeia. E muito menos para transformar cidadãos em figurantes de uma narrativa oficial, ditatorial e punitiva, que não admite contraditório.
A fatura não é apenas sanitária. É institucional. É moral. É democrática.
Porque quando um governo decide que a verdade pode ser simplificada até à obediência, arrisca-se a algo muito mais perigoso do que a contestação: arrisca-se a perder, de forma duradoura, a confiança de quem governa.
E essa, ao contrário de qualquer campanha, não se recupera com slogans.

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