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Ana Rita Arruda a magia da lã entre a tradição e a arte contemporânea

16 October 2026 at 18:38
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Da herança têxtil da Covilhã à criação de esculturas tridimensionais, Ana Rita Arruda transforma fibras de lã em peças que desafiam os limites do artesanato e da arte contemporânea. Depois de uma carreira na tradução, encontrou na feltragem a sua verdadeira vocação, dedicando-se à exploração das formas orgânicas, à experimentação artística e à formação de novas gerações.

A ligação de Ana Rita Arruda aos têxteis nasceu entre memórias familiares, tradições artesanais e o fascínio pelas cores e texturas dos tecidos. Natural da Covilhã, cidade profundamente marcada pela indústria têxtil, cresceu num ambiente onde o saber-fazer manual ocupava um lugar especial. A avó materna, professora de trabalhos manuais no antigo liceu de meninas da cidade, dominava técnicas como o bordado, o croché, o tricô e a costura, transmitindo-lhe, desde cedo, a proximidade com este universo criativo. Em criança, Ana Rita sonhava ser estilista. Fascinava-a a diversidade de tecidos e a possibilidade de transformar materiais em peças únicas. O percurso profissional, porém, começou longe das artes têxteis. Formou-se em Línguas e trabalhou durante vários anos como tradutora e intérprete de neerlandês, alemão e inglês, sem nunca abandonar por completo o interesse pelos trabalhos manuais. A mudança decisiva surgiu através do encontro com uma artista têxtil neerlandesa que, ao conhecer os trabalhos que Ana Rita desenvolvia nos tempos livres, reconheceu o seu potencial e a convidou a aprender uma nova técnica de feltragem. A experiência revelou-se determinante: em apenas três anos, deixou a tradução para se dedicar a tempo inteiro à criação artística. Hoje, a feltragem é a base de um trabalho que transforma fibras de lã soltas em esculturas sólidas e formas tridimensionais.

Sem necessidade de tecnologia complexa, o processo depende sobretudo das mãos, da água, do sabão e de um trabalho físico persistente. Através da fricção, as fibras entrelaçam-se e compactam-se, dando origem a materiais resistentes e a formas surpreendentes. Trata-se de uma técnica ancestral, preservada em diferentes tradições artesanais, nomeadamente na Mongólia, em Marrocos e na Turquia, que Ana Rita reinventa através de uma linguagem artística contemporânea. No seu ateliê, no Porto, encontra o espaço ideal para experimentar materiais, desenvolver ideias e explorar novas possibilidades. As suas criações inspiram-se frequentemente nas estruturas e formas da natureza: intestinos, ondas de água, moluscos e líquenes são algumas das referências que alimentam o seu imaginário. O resultado são peças de forte expressão orgânica, onde o contraste entre materiais, texturas e acabamentos assume um papel central. 

A lã, de aparência baça e suave, pode combinar-se com superfícies brilhantes ou elementos de maior rigidez, criando esculturas que oscilam entre o acolhedor e o inquietante, o familiar e o misterioso. Algumas parecem quase vivas, evocando formas animais ou organismos que poderiam existir num universo desconhecido. Por detrás da aparente delicadeza destas obras está um processo exigente, que requer tempo, experimentação e capacidade de superar obstáculos. Para Ana Rita, criar implica investigar, inventar e aceitar que o erro faz parte do caminho até à concretização de uma peça.

Os desafios variam consoante a dimensão e a complexidade do trabalho. Se as peças mais pequenas exigem precisão e atenção ao detalhe, as esculturas de grandes dimensões colocam dificuldades físicas consideráveis. Quando molhada, a lã pode tornar-se extremamente pesada, chegando uma única peça a atingir os 15 quilos. Dobrar, movimentar e organizar o material exige, por isso, técnicas específicas e, em determinados projetos, a colaboração de assistentes.

Entre os trabalhos que marcaram o seu percurso está O Caos e a Diva, criado para o New Hand Lab, na Covilhã. Instalado numa antiga fábrica, este espaço conjuga património industrial têxtil, criação artística e colaboração entre profissionais. A obra de Ana Rita explora o conceito matemático do caos através de uma forma entrelaçada que evoca uma borboleta, cruzando a feltragem tradicional com o tufting, técnica que permite inserir fios numa superfície com recurso a ferramentas específicas. A criação artística não esgota a atividade de Ana Rita Arruda. 

A formação e a partilha de conhecimento ocupam também um lugar importante no seu percurso. Ao longo dos anos, colaborou com instituições como a Escola Secundária Soares dos Reis e a Escola Secundária António Arroio, contribuindo para aproximar os estudantes das possibilidades expressivas das artes têxteis. Quando começou a trabalhar com feltragem, a oferta formativa nesta área em Portugal era praticamente inexistente. Perante essa realidade, assumiu o compromisso de divulgar a técnica, promover a aprendizagem e contribuir para a criação de uma comunidade em torno desta prática artística, levando-a a escolas e universidades. O seu trabalho demonstra que as técnicas tradicionais não têm de permanecer confinadas ao passado. Pelo contrário, podem constituir um ponto de partida para novas linguagens, cruzamentos disciplinares e formas de expressão. O futuro de Ana Rita Arruda passa pela participação em exposições, novos projetos e residências artísticas, incluindo uma experiência prevista na Estónia. Entre as áreas que pretende continuar a explorar está a ligação entre o têxtil e a tecnologia, nomeadamente através da soft robotics, ou robótica suave, procurando novas possibilidades de integração com a feltragem. Entre formações, encomendas personalizadas para arquitetos e colaborações multidisciplinares, a artista continua a alargar os horizontes de uma matéria-prima tão antiga quanto versátil. Na sua obra, a lã deixa de ser apenas um material associado à tradição para assumir novas formas, volumes e significados. O percurso de Ana Rita Arruda mostra como a memória artesanal pode alimentar a inovação e como, através da experimentação e da persistência, uma fibra natural se pode transformar numa expressão singular da arte contemporânea.

Paulo Perdiz/MS

Maricopa County, Arizona: The ‘main epicenter’ of gun trafficking from the US to Mexico

16 October 2026 at 13:53

Maricopa County, in Arizona, has emerged as the “main epicenter” of illegal arms trafficking into Mexico, according to John Lindsay-Poland, coordinator of Stop US Arms to Mexico, an initiative that studies the illicit flow of weapons between the two countries.

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© Ross D. Franklin (AP)

View of Tempe, in Maricopa County, in a file image.

Miguel Gameiro & Pólo Norte As canções que cruzam gerações

9 October 2026 at 16:21
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Há canções que deixam de pertencer apenas a quem as escreveu e passam a fazer parte da vida de quem as ouve. Acompanham histórias de amor, momentos marcantes e atravessam gerações. Os Pólo Norte são um dos exemplos mais marcantes desse fenómeno na música portuguesa. Liderada por Miguel Gameiro, a banda marcou a década de 90 e, décadas depois, continua presente na memória e no coração de muitos portugueses. 

O Milénio Stadium esteve à conversa com o músico, que recordou o percurso dos Pólo Norte, a ligação emocional com o público, as mudanças na indústria da música e a nova digressão em formato acústico, que leva a banda a salas e auditórios de todo o país. Quando se fala dos Pólo Norte, é inevitável recordar temas como Grito, Aprender a Ser Feliz, O Teu Nome ou Lisboa. Canções com décadas de existência que continuam a ser cantadas por várias gerações. Qual será, afinal, o segredo para criar músicas capazes de resistir ao tempo? Miguel Gameiro admite não ter uma resposta concreta. Fala, antes, da forma como a banda sempre encarou a música: escrever com amor, compor com verdade, cantar com honestidade e tocar com entrega. É nessa autenticidade que, para o músico, reside a verdadeira magia: quando uma canção ultrapassa o estúdio, chega ao coração de alguém e passa a fazer parte da sua história. 

Saber que uma música esteve presente num casamento, numa história de amor ou num momento importante da vida de alguém é, para qualquer artista, motivo de orgulho. Esse vínculo torna-se particularmente evidente nos concertos, onde não é raro ver pais e filhos a cantar juntos os mesmos refrões. Apesar de os mais jovens terem hoje acesso a uma multiplicidade de novos estilos e tendências, a música transmitida em casa continua a manter vivos os clássicos do pop-rock português. É também essa ligação que ganha uma nova dimensão na atual digressão dos Pólo Norte, num formato mais acústico e intimista. Longe da dimensão dos festivais e das festas populares, os teatros e auditórios permitem uma relação mais próxima entre músicos e público. Há silêncio, escuta e atenção a cada nota. Para Miguel Gameiro, este formato coloca maiores desafios aos músicos, mas proporciona uma troca emocional única. 

Numa sala fechada, cada acorde, cada respiração e cada palavra ganham outra intensidade. É um palco que pode trazer uma maior sensação de vulnerabilidade, sobretudo no início, mas onde a resposta do público acaba por transformar cada concerto numa experiência especial. Muitas vezes, basta ouvir os primeiros acordes para surgirem os aplausos. Ao longo de três décadas de carreira, Miguel Gameiro teve ainda oportunidade de partilhar experiências com alguns dos grandes nomes da música portuguesa, como Jorge Palma e Luís Represas. Dessas relações, guarda aprendizagens que vão muito além da música: a humildade, o respeito pela profissão, o amor pela arte e, sobretudo, a importância de manter a verdade em palco. 

O músico recorda momentos em estúdio e conversas que contribuíram para moldar a sua visão sobre a profissão. Uma certeza permanece: a entrega e o respeito pela música devem estar sempre acima de qualquer sucesso passageiro. Também o panorama atual da indústria é muito diferente daquele que os Pólo Norte encontraram quando começaram, em meados dos anos 90. Naquela época, um álbum tinha tempo para crescer. Havia vários singles, apresentações, concertos e espaço para que as músicas conquistassem gradualmente o público e as rádios.

Hoje, a realidade é marcada pela velocidade das plataformas digitais e das redes sociais. Miguel Gameiro identifica ainda uma maior aposta em projetos a solo, num contexto em que manter uma banda exige tempo, ensaios, cumplicidade e maturidade elementos que nem sempre encontram espaço na indústria atual.

Ainda assim, o músico reconhece e valoriza os projetos da nova geração que continuam a apostar no conceito de banda e na criação coletiva. Afinal, a cumplicidade entre músicos é, para si, uma parte insubstituível daquilo que torna uma banda especial. E quanto ao futuro dos Pólo Norte? Miguel Gameiro garante que já não existe a preocupação de corresponder às exigências do mercado ou da rádio convencional. Se surgirem novas canções, serão feitas sobretudo a pensar em quem acompanha a banda há décadas. Depois de tantos anos de estrada, aquilo que continua a levar Miguel Gameiro ao palco é, afinal, algo simples: uma sala cheia, a energia do público e a possibilidade de deixar uma boa memória em quem está do outro lado. Que cada pessoa saia de um concerto com uma recordação feliz, uma reflexão ou simplesmente um sentimento positivo. É essa a ambição. E assim, entre canções que resistem ao tempo e novas histórias que continuam a nascer em cada concerto, Miguel Gameiro mantém-se fiel à música e ao público. Porque, tal como diz uma das canções mais emblemáticas dos Pólo Norte, a vida é também um caminho contínuo onde todos continuamos a aprender a ser felizes.

Paulo Perdiz/MS

Entre o Mistério e a Provocação: Visita ao Museu Banksy em Lisboa

2 October 2026 at 16:17
Créditos: MDC Media Group

Lisboa é uma cidade onde a arte urbana ganha vida a cada esquina, mas há um espaço no coração da capital onde o graffiti, a crítica política e o humor britânico encontram-se de forma única: o Museu Banksy. Ao visitarmos esta exposição imersiva, somos convidados a mergulhar no universo de um dos artistas mais enigmáticos e influentes dos nossos dias. No espírito da célebre máxima atribuída ao próprio artista “Os direitos de autor são para falhados”, a exposição apresenta-se de forma aberta e orgulhosamente “100% não autorizada”, tendo sido organizada sem o envolvimento direto do criador. Ainda assim, ao longo de mais de 100 reproduções, instalações de vídeo, murais e projeções, a experiência proporciona um olhar profundo sobre a mente e as causas que movem o lendário artista de rua. 

Uma das primeiras perguntas que surgem durante a visita é inevitável: afinal, sabe-se quem é Banksy? A resposta continua a ser simples… não. O mistério que envolve a sua identidade real é parte integrante do seu mito. Enquanto alguns visitantes gostariam de desvendar a pessoa por detrás da assinatura, muitos preferem que a sua identidade permaneça oculta, preservando a aura de mistério que envolve cada nova intervenção. O que a história documenta é que Banksy começou a deixar a sua marca nas paredes de Bristol, no Reino Unido, por volta de 1993 ou 1994. Entre 1996 e 1997, integrou uma crew de graffiti e viajou até à região de Chiapas, no México, onde pintou em contexto social associado ao movimento zapatista. Esse contacto inicial moldou o seu compromisso artístico com as causas sociais e políticas. Ao longo dos anos, o seu trabalho expandiu-se da Grã-Bretanha para França, Itália, Estados Unidos e Médio Oriente. Além dos murais clandestinos, Banksy realizou intervenções em espaços públicos, criou esculturas e chegou a ser nomeado para um Óscar pelo documentário Exit Through the Gift Shop. Ao percorrer as salas do museu em Lisboa, fica evidente que a arte de Banksy funciona como uma cebola: cheia de camadas de significado que exigem tempo e reflexão para serem descascadas. A figura infantil é recorrente. As crianças surgem como símbolos interligados de esperança, imaginação e da ideia de que o futuro pertence às novas gerações. Exemplo disso é a emblemática obra Rapariga com Balão (2002). A imagem da menina que deixa fugir, ou tenta alcançar, um balão em forma de coração tornou-se um ícone universal sobre a fragilidade e a persistência dos afetos humanos. 

Créditos: MDC Media Group

O estilo de Banksy é frequentemente comparado ao humor ácido dos Monty Python. Na obra Valentine’s Day Mascara (2023), o artista aborda o tema severo da violência doméstica: uma dona de casa dos anos 50, com um olho negro e um dente partido, sorri satisfeita enquanto “esconde” o seu agressor dentro de um frigorífico real abandonado no lixo. 

O sorriso reflete a libertação de uma relação abusiva, desconstruindo a imagem romantizada da vida doméstica. A ironia estende-se ao próprio sistema das belas-artes e ao consumismo. Em Art Buff, Banksy brinca com o termo usado no graffiti para a remoção de pinturas, desenhando uma mulher a contemplar um pedestal cuja estátua foi apagada. Já em Show Me the Monet, o artista recria o famoso lago de lírios de Claude Monet, mas acrescenta-lhe dois carrinhos de compras e um cone de trânsito a flutuar na água, denunciando o impacto do consumo desenfreado no meio ambiente. Banksy é também um opositor das guerras e do autoritarismo. Num dos murais criados na Ucrânia, A Luta de Judo, uma criança pequena projeta ao chão um homem adulto praticante da modalidade, numa alusão direta a Vladimir Putin. A figura infantil volta a surgir como a força capaz de derrubar regimes opressores. Outro ponto alto da sua intervenção política foi a fundação do The Walled Off Hotel, na Palestina, junto ao muro que separa a Cisjordânia de Israel. 

Créditos: MDC Media Group

Anunciado ironicamente como o hotel com “a pior vista do mundo”, o espaço acolhe obras como o mural da Guerra de Almofadas, onde um soldado e um civil lutam com almofadas em vez de armas, ridicularizando a violência militar. A visita ao Museu Banksy em Lisboa termina, inevitavelmente, com uma piscadela de olho à famosa expressão Exit Through the Gift Shop (Saída pela Loja de Souvenirs). Mesmo na despedida, o espírito do artista lembra-nos de questionar a mercantilização da própria arte. Sair desta exposição é passar a olhar para as paredes da cidade com outros olhos. Mais do que uma galeria de imagens provocatórias, o museu oferece uma experiência imersiva que nos desafia a pensar sobre o poder do graffiti como voz de resistência e transformação social.

Paulo Perdiz/MS

Parar o Tempo: A História de António Santos, o Pioneiro das Estátuas Vivas

18 September 2026 at 16:42
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Quem passa por um festival de estátuas vivas facilmente se deixa fascinar por figuras imóveis que parecem desafiar o próprio tempo. Mas, por detrás de cada gesto suspenso, existe uma exigente preparação física, mental e artística. Em Portugal, uma das grandes referências desta arte é António Santos, conhecido internacionalmente como Staticman.

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Com quase quatro décadas de carreira, António Santos é considerado um dos pioneiros das estátuas vivas a nível mundial, tendo alcançado vários recordes de imobilidade. Hoje, continua a atuar, mas também se dedica a formar novos talentos, promover esta arte e organizar eventos que aproximam o público desta forma de expressão.

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A sua carreira começou em 1987, nas Ramblas de Barcelona, onde apresentou a sua primeira personagem: um robô que parecia ficar gradualmente “sem carga”. Inspirado pela meditação e pela autodisciplina, António apostou numa ideia que, na época, era praticamente revolucionária: uma estátua viva humana baseada no silêncio e na imobilidade absoluta.

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Quando começou a atuar em Portugal, a arte de rua ainda era pouco compreendida. As autoridades nem sempre sabiam como reagir e o público oscilava entre a curiosidade e a incompreensão. António recorda esses primeiros tempos com humor: enquanto algumas pessoas gritavam para “ir trabalhar”, centenas permaneciam durante horas a assistir à sua atuação.

Porém, aquilo que parece simples para quem observa exige um enorme controlo físico e mental. Permanecer imóvel implica controlar cada movimento do corpo, a respiração e até reações involuntárias, suportando simultaneamente frio, calor, desconforto e pequenas distrações, como insetos ou comichões. Tudo isto sem quebrar a personagem.

Essa resistência levou António Santos a ultrapassar limites e a conquistar vários recordes mundiais. Entre os mais exigentes, esteve 15 horas seguidas completamente imóvel num centro comercial em Oeiras. Noutra demonstração, percorreu apenas 150 metros em cerca de oito horas, através de uma marcha olímpica em extrema lentidão. O artista explica que, nestes desafios, a mente está constantemente a questionar quanto tempo mais será possível resistir. Ainda assim, existem regras de segurança rigorosas: um recorde só é válido se o próprio participante conseguir terminar a prova sem colocar em risco a sua integridade física.

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Ao longo das décadas, as estátuas vivas deixaram também de ser apenas uma atração de rua, transformando-se numa verdadeira linguagem artística. António Santos criou mais de 500 personagens, muitas inspiradas na história, literatura e cultura portuguesas, como Luís de Camões e Fernando Pessoa, além de figuras do universo fantástico e da banda desenhada.

Entre as suas principais inovações está o conceito de personagens em “levitação” — ilusões óticas em que o artista parece flutuar, apoiado numa parede ou apenas num cajado. Uma técnica que viria a ser reproduzida por artistas em vários países.

Atualmente, António Santos continua a trabalhar como performer e a promover a profissionalização da modalidade. Através da Staticman e do STATUA – Museu Internacional de Estátuas Vivas, procura preservar a memória e a evolução desta arte. O museu funciona no edifício da antiga escola primária onde fez a quarta classe, na sua terra natal, no concelho de Alcobaça, recuperando um espaço que estava desativado e transformando-o num centro dedicado às estátuas vivas.

Mais recentemente, assumiu também a coordenação artística do Festival de Estátuas Vivas do Luso, reunindo profissionais do teatro, dança, mímica e belas-artes. Durante o evento, as ruas transformam-se numa galeria de arte ao ar livre, com personagens inspiradas na história, no património e na natureza da vila.

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Para quem quer entrar neste mundo, António Santos deixa uma mensagem simples: é preciso experimentar e testar os próprios limites. A arte de parar, diz, está ao alcance de qualquer pessoa disposta a treinar e a concentrar-se.

Para o artista, esta profissão é também uma procura constante pelo equilíbrio interior: não existe luz sem sombra, nem cheio sem vazio. E, muitas vezes, quanto mais energia existe no quotidiano, maior pode ser a capacidade de concentração e de imobilidade quando a mente encontra um objetivo.

Paulo Perdiz/MS

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