Portugal não pode ficar apenas a fabricar a defesa dos outros
A discussão sobre o reforço da defesa europeia concentra-se nos grandes contratos, nas empresas estabelecidas e nos montantes anunciados. Segundo o relatório The State of Defence Tech 2026, da Dealroom e da Resilience Media, as startups europeias de defesa tinham captado o equivalente a cerca de 6,5 mil milhões de euros em capital de risco até setembro de 2026. Mas há outra pergunta, determinante para Portugal: quantas das nossas empresas poderão passar de fornecedoras de componentes a criadoras de produtos e tecnologias que respondam a novas necessidades? Temos exemplos em Portugal, de empresas tecnológicas que conquistaram mercados exigentes – o desafio é alargar essa capacidade a uma indústria que investiu, durante décadas, em conhecimento, equipamentos e competitividade internacional.
Podemos desperdiçar esta oportunidade se ficarmos apenas a produzir segundo especificações definidas por outros, longe de quem concebe os sistemas, detém a propriedade intelectual e conhece o cliente final. A subcontratação é essencial às cadeias de fornecimento, mas não deve ser o nosso limite de ambição. Precisamos de participar também nas decisões tecnológicas, no desenvolvimento e na comercialização, se quisermos colher os frutos do que semeamos.
Os têxteis técnicos, os polímeros, os compósitos, os moldes, a metalomecânica, os componentes automóveis e a eletrónica são bons exemplos. Quem domina materiais de elevada resistência pode contribuir para proteção individual ou equipamentos de emergência. Um fabricante habituado a reduzir peso e assegurar repetibilidade na produção pode adaptar processos a estruturas para plataformas especializadas. Isto não significa que qualquer componente civil passe a ser um produto de defesa. O Dual-use implica identificar uma necessidade concreta, adaptar a tecnologia, demonstrar desempenho e responder a exigências muito específicas.
Algumas oportunidades poderão ser exploradas dentro da empresa existente. Outras justificarão uma estrutura autónoma. Uma PME industrial com uma aplicação promissora pode criar uma spin-off, com equipa, capital e estratégia comercial próprios, mantendo uma ligação à empresa de origem através de participação, licenciamento ou produção. Evita subordinar o novo negócio às prioridades dos mercados tradicionais e ganha condições para atrair parceiros e investimento. Acima de tudo, pode capturar valor para além da venda de horas de engenharia ou peças fabricadas.
Uma spin-off, porém, não deve nascer apenas porque existe financiamento disponível. É indispensável definir quem detém a tecnologia, quem suporta a industrialização, como se partilha o risco, que problema o produto resolve e quem o poderá comprar. Transferir uma tecnologia para outra sociedade não significa, por si só, criar um negócio.
Portugal não precisa de apostar em todos os segmentos. Pode diferenciar-se onde já possui competências: proteção humana, materiais multifuncionais, estruturas leves, sensores, monitorização, dispositivos médicos, apoio a emergências e resiliência. A proximidade entre engenharia e ciências da saúde abre possibilidades especialmente interessantes. Soluções úteis em ambientes operacionais exigentes podem também servir bombeiros, proteção civil ou profissionais de saúde.
Há também o caminho inverso: uma startup que nasce da investigação, de uma ideia ou de uma necessidade identificada no terreno. A prova de conceito e o financiamento são passos importantes, mas a distância até ao produto comercial continua a ser enorme. Quem valida a solução com utilizadores? Quem fabrica as primeiras unidades? Quem garante qualidade, manutenção e integração num sistema maior? Muitas startups não precisam apenas de capital – precisam de acesso à indústria e aos primeiros clientes no seu caminho. E muitas empresas industriais precisam da capacidade de experimentação e da agilidade das startups. É nesta complementaridade que podemos ganhar escala, desde que a propriedade intelectual e a partilha de valor, e risco, sejam discutidas desde o início.
Esta ligação exige também financiamento adequado à passagem do protótipo à produção. Equipamentos, primeiras séries e fundo de maneio têm necessidades distintas das da investigação, pelo que o capital para desenvolver tecnologia deve ser acompanhado por instrumentos que permitam fabricar e cumprir as primeiras encomendas.
Há obstáculos que não desaparecem com um bom protótipo. A defesa tem exigências de fiabilidade, rastreabilidade, segurança e certificação. Consoante a tecnologia e a atividade, podem aplicar-se licenças, regras de transferência e exportação ou restrições no acesso a ambientes de ensaio. São requisitos legítimos, mas precisam de ser conhecidos cedo. Descobrir as condições de teste e comercialização quando o produto está quase pronto pode consumir os recursos de uma startup antes da primeira encomenda.
Os instrumentos europeus de financiamento abrem oportunidades, mas uma candidatura aprovada não comprova que existe mercado. Um demonstrador concluído também não garante capacidade de fornecimento. Temos de avaliar em conjunto a maturidade tecnológica, industrial, regulamentar e comercial. E integrar utilizadores, compradores e empresas capazes de industrializar e distribuir as soluções enquanto ainda há margem para as adaptar.
O Estado pode também assumir um papel mais ativo como primeiro comprador. Pode criar oportunidades de ensaio com utilizadores, projetos-piloto pagos e percursos claros entre a validação e a aquisição, com critérios de desempenho definidos desde o início. Uma primeira aquisição pode dar à empresa uma referência operacional, reduzir a incerteza para investidores e abrir portas a outros clientes. Para uma startup, compreender o caminho até à contratação é tão importante como conhecer os instrumentos que financiam o desenvolvimento.
Nem todas as empresas portuguesas terão tecnologia, vocação ou dimensão para desenvolver produtos de proteção e defesa. Nem é desejável que todas o tentem. Mas seria um desperdício que empresas com capacidade não chegassem a explorar esta possibilidade por falta de informação, parceiros ou acesso ao mercado.
Portugal não precisa de apostar em todos os segmentos. Pode diferenciar-se onde já possui competências: proteção humana, materiais multifuncionais, estruturas leves, sensores, monitorização, dispositivos médicos, apoio a emergências e resiliência. A proximidade entre engenharia e ciências da saúde abre possibilidades especialmente interessantes. Soluções úteis em ambientes operacionais exigentes podem também servir bombeiros, proteção civil ou profissionais de saúde. A dupla utilização é uma forma de diversificar mercados, não apenas uma categoria tecnológica.
É com esta perspetiva que estamos a consolidar o Hub de Proteção e Defesa, envolvendo a Fibrenamics, outros Grupos e Centros de Tecnologia e Inovação do ecossistema da Universidade do Minho. Queremos acrescentar capacidade concreta: aproximar necessidades operacionais de competências industriais, apoiar desenvolvimento e ensaios, estruturar novos veículos empresariais e criar ligações a integradores, investimento e clientes. O resultado deve medir-se por produtos vendidos, contratos firmados, fornecedores qualificados e empresas que crescem, e nunca somente pelo número de iniciativas lançadas.
Nem todas as empresas portuguesas terão tecnologia, vocação ou dimensão para desenvolver produtos de proteção e defesa. Nem é desejável que todas o tentem. Mas seria um desperdício que empresas com capacidade não chegassem a explorar esta possibilidade por falta de informação, parceiros ou acesso ao mercado. O objetivo é criar condições para que mais empresas transformem competências existentes em produtos próprios e mais startups ultrapassem a distância entre a ideia e a primeira encomenda. Não apenas para responder à procura nacional, mas para disputar oportunidades e integrar cadeias de valor à escala europeia.
Há uma história que ilustra bem o risco. Um filho chega a casa entusiasmado e diz ao pai: «Pai, pão com queijo é que é bom!» O pai pergunta: «Mas comeste?» E o filho responde: «Não, vi comer.» O entusiasmo com as oportunidades da defesa europeia merece a mesma pergunta. Precisamos de criar condições para que mais empresas portuguesas desenvolvam produtos próprios, conquistem clientes e façam crescer os seus negócios. Quando dissermos que esta oportunidade é boa, devemos poder dizê-lo porque a soubemos aproveitar e criar algo estruturante.
O sucesso não estará em ter todas as empresas na defesa, mas em permitir que mais empresas portuguesas tenham condições reais para competir nesse mercado.
