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Entre o Mistério e a Provocação: Visita ao Museu Banksy em Lisboa

2 October 2026 at 16:17
Créditos: MDC Media Group

Lisboa é uma cidade onde a arte urbana ganha vida a cada esquina, mas há um espaço no coração da capital onde o graffiti, a crítica política e o humor britânico encontram-se de forma única: o Museu Banksy. Ao visitarmos esta exposição imersiva, somos convidados a mergulhar no universo de um dos artistas mais enigmáticos e influentes dos nossos dias. No espírito da célebre máxima atribuída ao próprio artista “Os direitos de autor são para falhados”, a exposição apresenta-se de forma aberta e orgulhosamente “100% não autorizada”, tendo sido organizada sem o envolvimento direto do criador. Ainda assim, ao longo de mais de 100 reproduções, instalações de vídeo, murais e projeções, a experiência proporciona um olhar profundo sobre a mente e as causas que movem o lendário artista de rua. 

Uma das primeiras perguntas que surgem durante a visita é inevitável: afinal, sabe-se quem é Banksy? A resposta continua a ser simples… não. O mistério que envolve a sua identidade real é parte integrante do seu mito. Enquanto alguns visitantes gostariam de desvendar a pessoa por detrás da assinatura, muitos preferem que a sua identidade permaneça oculta, preservando a aura de mistério que envolve cada nova intervenção. O que a história documenta é que Banksy começou a deixar a sua marca nas paredes de Bristol, no Reino Unido, por volta de 1993 ou 1994. Entre 1996 e 1997, integrou uma crew de graffiti e viajou até à região de Chiapas, no México, onde pintou em contexto social associado ao movimento zapatista. Esse contacto inicial moldou o seu compromisso artístico com as causas sociais e políticas. Ao longo dos anos, o seu trabalho expandiu-se da Grã-Bretanha para França, Itália, Estados Unidos e Médio Oriente. Além dos murais clandestinos, Banksy realizou intervenções em espaços públicos, criou esculturas e chegou a ser nomeado para um Óscar pelo documentário Exit Through the Gift Shop. Ao percorrer as salas do museu em Lisboa, fica evidente que a arte de Banksy funciona como uma cebola: cheia de camadas de significado que exigem tempo e reflexão para serem descascadas. A figura infantil é recorrente. As crianças surgem como símbolos interligados de esperança, imaginação e da ideia de que o futuro pertence às novas gerações. Exemplo disso é a emblemática obra Rapariga com Balão (2002). A imagem da menina que deixa fugir, ou tenta alcançar, um balão em forma de coração tornou-se um ícone universal sobre a fragilidade e a persistência dos afetos humanos. 

Créditos: MDC Media Group

O estilo de Banksy é frequentemente comparado ao humor ácido dos Monty Python. Na obra Valentine’s Day Mascara (2023), o artista aborda o tema severo da violência doméstica: uma dona de casa dos anos 50, com um olho negro e um dente partido, sorri satisfeita enquanto “esconde” o seu agressor dentro de um frigorífico real abandonado no lixo. 

O sorriso reflete a libertação de uma relação abusiva, desconstruindo a imagem romantizada da vida doméstica. A ironia estende-se ao próprio sistema das belas-artes e ao consumismo. Em Art Buff, Banksy brinca com o termo usado no graffiti para a remoção de pinturas, desenhando uma mulher a contemplar um pedestal cuja estátua foi apagada. Já em Show Me the Monet, o artista recria o famoso lago de lírios de Claude Monet, mas acrescenta-lhe dois carrinhos de compras e um cone de trânsito a flutuar na água, denunciando o impacto do consumo desenfreado no meio ambiente. Banksy é também um opositor das guerras e do autoritarismo. Num dos murais criados na Ucrânia, A Luta de Judo, uma criança pequena projeta ao chão um homem adulto praticante da modalidade, numa alusão direta a Vladimir Putin. A figura infantil volta a surgir como a força capaz de derrubar regimes opressores. Outro ponto alto da sua intervenção política foi a fundação do The Walled Off Hotel, na Palestina, junto ao muro que separa a Cisjordânia de Israel. 

Créditos: MDC Media Group

Anunciado ironicamente como o hotel com “a pior vista do mundo”, o espaço acolhe obras como o mural da Guerra de Almofadas, onde um soldado e um civil lutam com almofadas em vez de armas, ridicularizando a violência militar. A visita ao Museu Banksy em Lisboa termina, inevitavelmente, com uma piscadela de olho à famosa expressão Exit Through the Gift Shop (Saída pela Loja de Souvenirs). Mesmo na despedida, o espírito do artista lembra-nos de questionar a mercantilização da própria arte. Sair desta exposição é passar a olhar para as paredes da cidade com outros olhos. Mais do que uma galeria de imagens provocatórias, o museu oferece uma experiência imersiva que nos desafia a pensar sobre o poder do graffiti como voz de resistência e transformação social.

Paulo Perdiz/MS

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