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Fusões e aquisições no sul da Europa mobilizam mais 37% de capital no primeiro semestre

22 October 2026 at 11:15

O valor movimentado em fusões e aquisições (M&A) do sul da Europa cresceu 37% no primeiro semestre, para um total de 147,7 mil milhões de euros, de acordo uma análise da auditora internacional Forvis Mazars divulgada esta quinta-feira. Apesar de uma ligeira descida de 6% no número de operações, o mercado transacional nesta região do Velho Continente mobilizou mais capital.

As grandes transações – os chamados megadeals – e o contínuo interesse dos investidores internacionais contribuíram para impulsionar a atividade nesta zona da Europa, onde se insere Portugal. No entanto, o mercado português prossegue em contraciclo, com um total de 800 milhões de euros entre janeiro e junho, abaixo dos 6,3 mil milhões de euros registados no período homólogo.

Segundo o grupo de auditoria, fiscalidade e consultoria, o número de operações de M&A em Portugal caiu 37%, para 82, embora nesta contabilização apenas entrem transações de valor mais alto, porque a Forvis Mazars baseou-se nos dados da Mergermarket – que só olha para negócios acima de cinco milhões – em Itália, Espanha, Suíça, Turquia, Portugal e Grécia.

Os investimentos em destaque no radar da Forvis Mazars foram o do grupo Sabseg, de mediação de seguros e gestão de risco, na gestora de investimento Miura Partners (600 milhões de euros) e o aumento da participação da Schroders na empresa de 2% para 20%. Segue-se a compra do hotel de cinco estrelas Caesar Park, um resort de golfe em Sintra, por 140 milhões de euros, por parte do Catterton Management e da Cedar Capital Partners.

“As três maiores operações anunciadas em Portugal no primeiro semestre de 2026 foram lideradas por compradores internacionais – do Reino Unido, de Espanha e dos Países Baixos – o que confirma o interesse dos investidores estrangeiros no mercado português de fusões e aquisições”, lê-se no estudo “Investing in Southern Europe: M&A and Private Equity Activity in 2026”.

Embora o mercado português de M&A registe um número de transações menor, a verdade é que existem muitas oportunidades. A atividade subjacente em operações de menor e média dimensão continua presente, embora seja menos visível nos dados de transações com valores divulgados.

Filipa Matias

Senior Manager de Transaction and Advisory Services da Forvis Mazars em Portugal

A Forvis Mazars considera que as perspetivas para a atividade de M&A no sul da Europa continuam positivas, porque as condições de financiamento mantêm-se globalmente favoráveis, existe um volume significativo de empresas disponíveis para venda devido a processos de sucessão e as empresas continuam a reavaliar e a ajustar os seus portefólios de negócios. Ademais, a digitalização, a transição energética, a inovação na saúde e a transformação da indústria deverão continuar a impulsionar os negócios a longo prazo, apesar das tensões geopolíticas e da subida dos preços da energia e das taxas de juro.

O fluxo de potenciais operações aponta também para um segundo semestre e um período subsequente potencialmente ativos. Das 608 notícias sobre empresas do sul da Europa disponíveis para venda identificadas pela Mergermarket no primeiro semestre, 126 diziam respeito a empresas de bens de consumo e 114 aos setores industrial e químico. Itália concentrou 237 destas notícias, seguida de Espanha, com 177. Por outro lado, em Portugal foram identificadas apenas 33 oportunidades de M&A em 12 diferentes setores.

“A perspetiva positiva é sustentada por algumas operações com o apoio de fundos de capital de risco, pelo interesse contínuo de investidores estrangeiros e pela consolidação em setores fragmentados. A atividade é particularmente visível em áreas como a tecnologia, os serviços empresariais, a indústria e os ativos imobiliários e hoteleiros”, defende a consultora Filipa Matias.

Quem paga a destruição? A contabilidade dos protestos e o preço da iliteracia financeira

22 October 2026 at 09:30

Há um paradoxo económico nas imagens de destruição que recentemente chegaram de França. Num momento de crescente contestação social, marcado por reivindicações de melhores condições de vida, mais investimento público e maior proteção social, alguns episódios de violência acabam por destruir precisamente os recursos que pertencem à comunidade e dos quais depende o seu bem-estar.

Em Portugal, as recentes manifestações pela habitação e contra o aumento do custo de vida refletem preocupações igualmente relevantes, embora não devam ser confundidas com os episódios de destruição registados em França. O direito de manifestação constitui um pilar da democracia. Mas quando a contestação dá lugar ao vandalismo, surge uma contradição económica que merece reflexão: como exigir mais recursos públicos enquanto se contribui para destruir os que já existem?

A resposta começa numa disciplina frequentemente reduzida à linguagem das empresas e dos impostos: a contabilidade.

A relação entre contabilidade e destruição não é nova. A investigação histórica mostra como os conflitos armados obrigaram os Estados a desenvolver mecanismos para identificar perdas patrimoniais, controlar recursos escassos e organizar a recuperação económica.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética introduziu uma secção específica nos balanços das empresas para identificar ativos destruídos, danificados, saqueados ou perdidos durante o conflito. Como documentam Djatej e Sarikas (2009), esta adaptação contabilística permitiu tornar mais visível a dimensão das perdas patrimoniais e contribuiu para o apuramento dos danos materiais provocados pela guerra. Este exercício permitia quantificar a destruição de património e servia de base para reorganizar os recursos económicos disponíveis para a recuperação.

A história também demonstra que a ausência de controlo contabilístico tem consequências económicas profundas. Como evidencia Warwick Funnell (2006), as deficiências dos sistemas contabilísticos britânicos durante a Guerra dos Bóeres (1899–1902) estiveram associadas a graves falhas administrativas e custos elevados para o erário público, impulsionando reformas na administração militar e na formação financeira dos seus responsáveis. O que contribuiu para a valorização da contabilidade e do controlo de custos na gestão dos recursos públicos.

Mais de um século depois, a lição mantém-se atual: não basta contabilizar as perdas; é fundamental investir na literacia financeira de profissionais e cidadãos, capacitando-os para reconhecer o valor dos recursos, compreender os custos da sua destruição e perceber que cada perda representa não apenas um prejuízo imediato, mas também oportunidades de investimento e desenvolvimento que deixam de se concretizar.

O paradoxo dos protestos torna-se evidente quando, ao mesmo tempo que se reivindicam legitimamente melhores condições de vida e maior investimento público, se assiste à destruição de património coletivo. Num contexto de recursos limitados, cada euro destinado à reparação de danos evitáveis representa uma oportunidade perdida de investimento em habitação, saúde, transporte ou educação. Este é o princípio do custo de oportunidade: destruir não significa apenas perder o que já existe, mas também comprometer investimentos futuros.

Será este paradoxo um sinal de falta de literacia financeira? Não podemos concluir que os responsáveis por atos de vandalismo agem necessariamente por desconhecimento financeiro. Mas é importante levar o debate sobre a literacia financeira além da esfera das finanças pessoais.

Precisamos de ensinar não apenas a gerir o orçamento familiar, mas também a compreender o orçamento coletivo. Investir em literacia financeira significa capacitar os cidadãos para formular reivindicações mais informadas, avaliar políticas públicas, questionar prioridades orçamentais e exigir maior transparência na utilização dos recursos.

Uma sociedade financeiramente mais esclarecida tem melhores condições para distinguir despesa de investimento, financiamento de criação de riqueza e benefícios imediatos de custos futuros. Tem também mais instrumentos para compreender que os recursos públicos não são abstratos: representam impostos, endividamento, trabalho, património e escolhas coletivas.

A história da contabilidade em períodos de guerra recorda-nos que, perante a destruição, é necessário identificar perdas, preservar recursos e planear a reconstrução. O desafio contemporâneo é conseguir aplicar essa consciência económica antes de destruir, e não apenas depois. Porque a verdadeira literacia financeira não consiste apenas em saber contar dinheiro.

Consiste em compreender o valor dos recursos que partilhamos, as consequências das nossas escolhas e a responsabilidade de preservar aquilo que pertence a todos. O direito de exigir melhores condições de vida é fundamental. Mas destruir o património que sustenta essas condições tem um preço. E a fatura, mais cedo ou mais tarde, chega sempre a alguém.

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