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Fusões e aquisições no sul da Europa mobilizam mais 37% de capital no primeiro semestre

22 October 2026 at 11:15

O valor movimentado em fusões e aquisições (M&A) do sul da Europa cresceu 37% no primeiro semestre, para um total de 147,7 mil milhões de euros, de acordo uma análise da auditora internacional Forvis Mazars divulgada esta quinta-feira. Apesar de uma ligeira descida de 6% no número de operações, o mercado transacional nesta região do Velho Continente mobilizou mais capital.

As grandes transações – os chamados megadeals – e o contínuo interesse dos investidores internacionais contribuíram para impulsionar a atividade nesta zona da Europa, onde se insere Portugal. No entanto, o mercado português prossegue em contraciclo, com um total de 800 milhões de euros entre janeiro e junho, abaixo dos 6,3 mil milhões de euros registados no período homólogo.

Segundo o grupo de auditoria, fiscalidade e consultoria, o número de operações de M&A em Portugal caiu 37%, para 82, embora nesta contabilização apenas entrem transações de valor mais alto, porque a Forvis Mazars baseou-se nos dados da Mergermarket – que só olha para negócios acima de cinco milhões – em Itália, Espanha, Suíça, Turquia, Portugal e Grécia.

Os investimentos em destaque no radar da Forvis Mazars foram o do grupo Sabseg, de mediação de seguros e gestão de risco, na gestora de investimento Miura Partners (600 milhões de euros) e o aumento da participação da Schroders na empresa de 2% para 20%. Segue-se a compra do hotel de cinco estrelas Caesar Park, um resort de golfe em Sintra, por 140 milhões de euros, por parte do Catterton Management e da Cedar Capital Partners.

“As três maiores operações anunciadas em Portugal no primeiro semestre de 2026 foram lideradas por compradores internacionais – do Reino Unido, de Espanha e dos Países Baixos – o que confirma o interesse dos investidores estrangeiros no mercado português de fusões e aquisições”, lê-se no estudo “Investing in Southern Europe: M&A and Private Equity Activity in 2026”.

Embora o mercado português de M&A registe um número de transações menor, a verdade é que existem muitas oportunidades. A atividade subjacente em operações de menor e média dimensão continua presente, embora seja menos visível nos dados de transações com valores divulgados.

Filipa Matias

Senior Manager de Transaction and Advisory Services da Forvis Mazars em Portugal

A Forvis Mazars considera que as perspetivas para a atividade de M&A no sul da Europa continuam positivas, porque as condições de financiamento mantêm-se globalmente favoráveis, existe um volume significativo de empresas disponíveis para venda devido a processos de sucessão e as empresas continuam a reavaliar e a ajustar os seus portefólios de negócios. Ademais, a digitalização, a transição energética, a inovação na saúde e a transformação da indústria deverão continuar a impulsionar os negócios a longo prazo, apesar das tensões geopolíticas e da subida dos preços da energia e das taxas de juro.

O fluxo de potenciais operações aponta também para um segundo semestre e um período subsequente potencialmente ativos. Das 608 notícias sobre empresas do sul da Europa disponíveis para venda identificadas pela Mergermarket no primeiro semestre, 126 diziam respeito a empresas de bens de consumo e 114 aos setores industrial e químico. Itália concentrou 237 destas notícias, seguida de Espanha, com 177. Por outro lado, em Portugal foram identificadas apenas 33 oportunidades de M&A em 12 diferentes setores.

“A perspetiva positiva é sustentada por algumas operações com o apoio de fundos de capital de risco, pelo interesse contínuo de investidores estrangeiros e pela consolidação em setores fragmentados. A atividade é particularmente visível em áreas como a tecnologia, os serviços empresariais, a indústria e os ativos imobiliários e hoteleiros”, defende a consultora Filipa Matias.

Quem paga a destruição? A contabilidade dos protestos e o preço da iliteracia financeira

22 October 2026 at 09:30

Há um paradoxo económico nas imagens de destruição que recentemente chegaram de França. Num momento de crescente contestação social, marcado por reivindicações de melhores condições de vida, mais investimento público e maior proteção social, alguns episódios de violência acabam por destruir precisamente os recursos que pertencem à comunidade e dos quais depende o seu bem-estar.

Em Portugal, as recentes manifestações pela habitação e contra o aumento do custo de vida refletem preocupações igualmente relevantes, embora não devam ser confundidas com os episódios de destruição registados em França. O direito de manifestação constitui um pilar da democracia. Mas quando a contestação dá lugar ao vandalismo, surge uma contradição económica que merece reflexão: como exigir mais recursos públicos enquanto se contribui para destruir os que já existem?

A resposta começa numa disciplina frequentemente reduzida à linguagem das empresas e dos impostos: a contabilidade.

A relação entre contabilidade e destruição não é nova. A investigação histórica mostra como os conflitos armados obrigaram os Estados a desenvolver mecanismos para identificar perdas patrimoniais, controlar recursos escassos e organizar a recuperação económica.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética introduziu uma secção específica nos balanços das empresas para identificar ativos destruídos, danificados, saqueados ou perdidos durante o conflito. Como documentam Djatej e Sarikas (2009), esta adaptação contabilística permitiu tornar mais visível a dimensão das perdas patrimoniais e contribuiu para o apuramento dos danos materiais provocados pela guerra. Este exercício permitia quantificar a destruição de património e servia de base para reorganizar os recursos económicos disponíveis para a recuperação.

A história também demonstra que a ausência de controlo contabilístico tem consequências económicas profundas. Como evidencia Warwick Funnell (2006), as deficiências dos sistemas contabilísticos britânicos durante a Guerra dos Bóeres (1899–1902) estiveram associadas a graves falhas administrativas e custos elevados para o erário público, impulsionando reformas na administração militar e na formação financeira dos seus responsáveis. O que contribuiu para a valorização da contabilidade e do controlo de custos na gestão dos recursos públicos.

Mais de um século depois, a lição mantém-se atual: não basta contabilizar as perdas; é fundamental investir na literacia financeira de profissionais e cidadãos, capacitando-os para reconhecer o valor dos recursos, compreender os custos da sua destruição e perceber que cada perda representa não apenas um prejuízo imediato, mas também oportunidades de investimento e desenvolvimento que deixam de se concretizar.

O paradoxo dos protestos torna-se evidente quando, ao mesmo tempo que se reivindicam legitimamente melhores condições de vida e maior investimento público, se assiste à destruição de património coletivo. Num contexto de recursos limitados, cada euro destinado à reparação de danos evitáveis representa uma oportunidade perdida de investimento em habitação, saúde, transporte ou educação. Este é o princípio do custo de oportunidade: destruir não significa apenas perder o que já existe, mas também comprometer investimentos futuros.

Será este paradoxo um sinal de falta de literacia financeira? Não podemos concluir que os responsáveis por atos de vandalismo agem necessariamente por desconhecimento financeiro. Mas é importante levar o debate sobre a literacia financeira além da esfera das finanças pessoais.

Precisamos de ensinar não apenas a gerir o orçamento familiar, mas também a compreender o orçamento coletivo. Investir em literacia financeira significa capacitar os cidadãos para formular reivindicações mais informadas, avaliar políticas públicas, questionar prioridades orçamentais e exigir maior transparência na utilização dos recursos.

Uma sociedade financeiramente mais esclarecida tem melhores condições para distinguir despesa de investimento, financiamento de criação de riqueza e benefícios imediatos de custos futuros. Tem também mais instrumentos para compreender que os recursos públicos não são abstratos: representam impostos, endividamento, trabalho, património e escolhas coletivas.

A história da contabilidade em períodos de guerra recorda-nos que, perante a destruição, é necessário identificar perdas, preservar recursos e planear a reconstrução. O desafio contemporâneo é conseguir aplicar essa consciência económica antes de destruir, e não apenas depois. Porque a verdadeira literacia financeira não consiste apenas em saber contar dinheiro.

Consiste em compreender o valor dos recursos que partilhamos, as consequências das nossas escolhas e a responsabilidade de preservar aquilo que pertence a todos. O direito de exigir melhores condições de vida é fundamental. Mas destruir o património que sustenta essas condições tem um preço. E a fatura, mais cedo ou mais tarde, chega sempre a alguém.

Resultado do concurso para 390 gestores e inspetores na AT conhecido “nas próximas semanas”

By: Lusa
21 October 2026 at 14:03

Os resultados do concurso para a admissão de 390 gestores e inspetores na Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) serão divulgados “nas próximas semanas”, avançou à agência Lusa o Ministério das Finanças.

“De acordo com a informação prestada pela AT, a lista de ordenação final deste concurso encontra-se a ser finalizada, prevendo-se que seja homologada nas próximas semanas, na sequência do que os candidatos serão devidamente informados da data previsível para o início das suas novas funções na AT”, indicou a tutela numa resposta escrita a questões colocadas pela agência Lusa.

Segundo o ministério, os mais de dois anos decorridos desde a abertura do procedimento concursal para a carreira de Gestão e Inspeção Tributária e Aduaneira (GITA) da AT “justifica-se pelo elevado número de candidatos e da necessidade de cumprimento escrupuloso de todas as obrigações e formalidades legalmente previstas, nomeadamente do direito de audiência prévia e de reclamação”.

O concurso para a carreira de GITA – uma das carreiras especiais da AT, cujos profissionais são genericamente designados como gestores tributários e aduaneiros – foi aberto em junho de 2024, para o preenchimento de 390 postos de trabalho.

A lista provisória de ordenação final dos candidatos foi publicada em 29 de julho passado, tendo sido aberto o correspondente período de audiência prévia, mas não foi até agora publicada a lista final homologada nem era conhecido qualquer calendário oficial para a conclusão do procedimento.

Segundo fonte ligada ao processo, “o concurso mantém-se oficialmente com o estado de ‘a decorrer'”.

“Segundo a lista provisória divulgada pela AT, cerca de 1.239 candidatos encontram-se ordenados, permanecendo numa situação de incerteza quanto ao seu futuro profissional”, indica a fonte, salientando que “esta demora se torna ainda mais difícil de compreender quando a própria AT e a tutela têm vindo a reconhecer problemas estruturais de recursos humanos”.

Recentemente, o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos (STI) manifestou “profunda preocupação com os sucessivos atrasos” do concurso GITA, exigindo esclarecimentos à AT e defendendo que os procedimentos para a carreira GITA e IATA (Inspeção e Auditoria Tributária e Aduaneira) devem decorrer de forma autónoma.

O sindicato considera igualmente indispensável a renovação dos quadros e o reforço dos recursos humanos da AT.

Segundo um balanço feito pela fonte, tendo por base dados apresentados como “oficiais”, em 31 de dezembro de 2025 a carreira GITA contava com 3.101 trabalhadores para um mapa de pessoal de 4.107 postos, estando em falta 1.006 candidatos, tendo-se nesse ano registado 826 aposentações na AT.

“Trata-se de uma questão que ultrapassa o interesse individual dos candidatos. Está em causa a gestão dos recursos humanos de uma das mais importantes entidades da Administração Pública portuguesa, responsável pela cobrança da receita fiscal do Estado e pelo controlo aduaneiro nacional”, enfatiza.

Miranda Sarmento admite “olhar para o tema das derramas estaduais” em 2028

21 October 2026 at 12:23

O ministro de Estado e das Finanças disse esta quarta-feira que o Governo terá de “olhar” em 2028 para as derramas estaduais, as taxas adicionais cobradas às empresas com mais lucros.

“A redução de IRC é bastante importante e a seguir, em 2028, teremos de olhar para o tema das derramas estaduais”, afirmou Joaquim Miranda Sarmento, numa conferência dedicada ao Orçamento do Estado para 2027 (OE2027), organizada pela consultora EY e pelo Jornal Económico.

As declarações surgem após, no ano passado, o ministro das Finanças ter admitido baixar gradualmente a derrama estadual do IRC que incide sobre empresas com lucros superiores a 1,5 milhões de euros, embora tivesse remetido a decisão para “mais tarde” e com “prudência” e “responsabilidade” para manter as contas públicas equilibradas.

Na intervenção desta manhã, no Centro Cultural de Belém, o ministro de Estado e das Finanças não apresentou mais detalhes sobre o plano do Executivo. Contudo, garantiu que o facto de a economia ter superávites e a dívida pública estar a descer “mais rápido do que o plano orçamental” coloca Portugal “numa posição bastante confortável”.

No que diz respeito à proposta de Orçamento do Estado para 2027, entregue há duas semanas no Parlamento, Joaquim Miranda Sarmento disse que “este é um Orçamento sem medidas avulsas” e “expurgado de cavaleiros orçamentais”. E destacou a redução da carga fiscal de impostos em percentagem do PIB até aos 23,8%.

“O crescimento de emprego e salários é muito significativo e faz-nos questionar se o INE não fará uma grande revisão do PIB em março do próximo ano, por este efeito e o do IVA, e também por teremos mais 800 mil pessoas do que as estatísticas oficiais”, reiterou.

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"Tem havido muita propaganda de descontrolo das contas públicas, com esta manipulação relativamente da despesa total nominal. Quando olhamos para o que é fundamental na despesa, ela está perfeitamente controlada e tem crescido ao PIB nominal.”

Joaquim Miranda Sarmento

Ministro de Estado e das Finanças

Joaquim Miranda Sarmento respondeu ainda a uma “análise bastante superficial” de que constam no OE2027 mais 6,2 mil milhões de euros de despesa do que estava inscrito para este ano. Ou seja, a diferença entre o documento apresentado em outubro de 2025 e em outubro de 2026, que o ex-ministro das Finanças Mário Centeno assinalou como “desvio” numa recente entrevista ao Jornal de Notícias.

“Esta diferença é despesa de capital (investimento) e teve a ver com o PRR – porque acabou por ser executada em 2026 – e toda a recuperação das tempestades”, retorquiu o governante, dando como exemplo a isenção de TSU dos empregadores da região Centro que é registada nas contas nacionais como despesa, apesar de ser perda de receita.

Numa retrospetiva aos últimos anos de Governos da AD, Joaquim Miranda Sarmento fez referência não só aos excedentes orçamentais como à redução da dívida pública, de cerca de 93% em 2024 para 87% este ano e 84,5% em 2027.

“O investimento total público e privado estabilizou em percentagem do PIB e as exportações recuperaram. A quebra de 2025 está muito marcada por um primeiro trimestre com incerteza da política comercial da nova administração americana e das tarifas e de uma paragem significativa da refinaria de Sines”, recordou ainda.

“Sobretudo em 2025-2026 invertemos a destruição de capital público. Em 2027, mesmo com o fim do PRR, manteremos um nível de investimento público acima da depreciação do stock do capital público”, referiu sobre as previsões que constam no OE2027.

“Foi um ano bastante difícil – ainda não acabou, portanto rezemos todos para que não aconteçam mais tragédias ou eventos externos de impacto negativo – mas temos uma economia que cresce e com menos impostos e equilíbrio das contas públicas”, concluiu o ministro das Finanças.

A verdade das contas e a mentira das narrativas

21 October 2026 at 09:30

Quando se fala em contabilidade, um termo frequentemente alvo de interpretações redutoras e de alguns mitos urbanos, importa recordar que a contabilidade se distingue de quase todas as demais formas de narrativa organizacional, por possuir uma característica que a distingue de quase todas as outras formas de relato: assenta em factos documentados, registados, reconciliados e sujeitos a princípios técnicos. Uma opinião pode ser discutida.

Uma narrativa pode ser interpretada. Mas um lançamento contabilístico, uma demonstração financeira aprovada ou um parecer de auditoria possuem uma objetividade que dificilmente pode ser ignorada. Porém, existe uma forma subtil de distorcer a realidade sem alterar uma única linha das contas: controlar a narrativa através da omissão.

Na vida empresarial, institucional e até associativa, raramente as maiores deturpações resultam da falsificação dos números. Na maioria dos casos, resultam da seleção dos números que são apresentados, do contexto que é omitido ou dos factos que deixam de ser referidos. As demonstrações financeiras completam conta uma história. Uma citação isolada conta apenas um capítulo.

Existe um velho princípio na análise financeira: uma meia-verdade pode ser mais enganadora do que uma mentira completa.

Imagine-se uma entidade que divulga com destaque um crescimento de receitas de 20% num determinado exercício. A afirmação pode estar rigorosamente verdadeira, mas se omitir que os gastos cresceram 35%, e que os resultados operacionais diminuíram ou que o aumento da receita resultou de um evento extraordinário não recorrente, a perceção criada junto dos destinatários da informação financeira poderá ser substancialmente diferente daquela realidade económica.

O mesmo sucede quando uma organização destaca o valor dos seus ativos mas omite os passivos, evidencia os excedentes operacionais, mas ignora os compromissos futuros, ou anuncia investimentos sem referir a origem do respetivo financiamento. Ou até mesmo quando é alvo de processos judiciais em curso com impacto económico e financeiro, porque tem “o entendimento” que irá ganhar a contenda em tribunal.

Nada do que foi dito é falso, mas o conjunto da informação transmitida deixa de representar fielmente a realidade.

Em jeito simples, imaginemos uma notícia, só com parte dos factos e que omite informação relevante. Um exemplo comum e sucessivo ao longo dos anos: quando é noticiada uma descida na taxa de desemprego, não nos sendo transmitido que os cidadãos desempregados que naquele período estão a tirar formações ou cursos do IEFP, não são contabilizados para esta estatística, embora, na realidade, continuem desempregados.

É por estas razões que os referenciais contabilísticos insistem nos princípios da relevância, da materialidade, da consistência e, sobretudo, da representação fiel. O objetivo das demonstrações financeiras nunca foi servir estratégias de comunicação institucional. O objetivo é permitir que os utilizadores compreendam a verdadeira situação patrimonial, financeira e económica da entidade.

Os registos contabilísticos produzem informação, e as organizações produzem narrativas. As duas realidades podem não ser necessariamente coincidentes. Há diferenças entre informação e narrativa.

A informação contabilística resulta da aplicação de normas, documentos de suporte, critérios de reconhecimento e mensuração. A narrativa resulta de escolhas.

Que indicadores serão destacados? Que período será utilizado para comparação? Que factos serão referidos? Quais serão omitidos?

É neste espaço que frequentemente surgem as maiores distorções. Uma narrativa pode transformar um resultado negativo numa alegada vitória estratégica. Pode apresentar uma redução de custos como sinal de eficiência sem explicar que foi obtida à custa da diminuição da atividade. Pode celebrar um aumento de tesouraria sem referir que o mesmo resultou de endividamento adicional. A contabilidade continua correta. A interpretação transmitida é que pode deixar de o ser.

No domínio da comunicação financeira existe um fenómeno conhecido como disclosure bias que na prática, não consiste em divulgar informação falsa, mas sim em divulgar apenas a informação favorável.

O problema torna-se particularmente relevante quando estamos perante entidades que exercem funções de interesse público, organizações sem fins lucrativos, associações profissionais, fundações ou organismos dotados de especiais deveres de transparência.

Nestes contextos, a mera conformidade formal com as obrigações legais pode revelar-se insuficiente. A responsabilidade institucional exige mais do que publicar contas. Exige explicar essas mesmas contas, contextualizar os resultados, e permitir que os interessados compreendam os factos na sua globalidade.

Uma entidade transparente não é aquela que publica milhares de páginas de documentos, mas sim aquela que não esconde informação material atrás da abundância documental.

É precisamente aqui que os profissionais da contabilidade, da auditoria e da revisão legal de contas assumem uma função essencial. A sua responsabilidade não se limita ao registo dos factos patrimoniais, uma vez que são também agentes de credibilização da informação financeira.

Sempre que contribuem para que as demonstrações financeiras representem adequadamente a substância económica das operações, estão a proteger não apenas os acionistas ou associados, mas todos os utilizadores da informação financeira. A confiança dos mercados, das instituições e dos cidadãos depende dessa credibilidade.

Quando as narrativas divergem excessivamente da realidade financeira documentada, a confiança deteriora-se. E quando a confiança desaparece, nem os melhores relatórios de comunicação conseguem substituí-la. Mas, há aqui uma diferenciação. Nem todas as omissões são ilegais, mas muitas podem ser eticamente questionáveis.

Uma organização pode cumprir integralmente as exigências formais de divulgação e, simultaneamente, induzir interpretações erradas através da forma como seleciona e apresenta a informação.

Hoje vou dar exemplos por analogia. Imaginemos uma notícia, de investigação, omitindo parte substancial da informação que inibe o leitor de compreender toda a realidade (podemos voltar ao exemplo da taxa de desemprego ou acrescentar as notícias sobre os valores do cabaz alimentar onde se verifica uma inflação sem precedentes sem que o leitor compreenda exatamente as causas dos tais precedentes, ou até mesmos os ditos “casos de polícia”).

A verdadeira transparência não se mede apenas pela quantidade de informação disponibilizada, mas pela capacidade de proporcionar uma representação equilibrada da realidade.
Uma informação é verdadeiramente transparente quando permite compreender tanto os sucessos como as dificuldades, tanto os resultados positivos como os riscos, tanto os ativos como os passivos.

Num tempo em que a comunicação é instantânea e as narrativas circulam mais rapidamente do que os documentos que as sustentam, torna-se particularmente importante ter presente os fundamentos.

Os factos contabilísticos continuam a ter uma vantagem decisiva sobre qualquer discurso. Pois podem ser verificados, reconciliados, auditados. Podem ser confrontados com a documentação de suporte.

As narrativas, pelo contrário, vivem frequentemente da interpretação e na maioria, da má interpretação.

Por isso, perante qualquer controvérsia institucional, empresarial ou associativa ou até mesmo mediática, o ponto de partida deve ser sempre o mesmo: analisar os registos, ler as notas às demonstrações financeiras, compreender os critérios utilizados e avaliar o conjunto da informação disponível. Porque a verdade financeira raramente se encontra nos comunicados. Encontra-se nas contas. E os números não mentem.

Seguro promulga diploma que altera código do IRS

By: Lusa
20 October 2026 at 20:38

O Presidente da República, António José Seguro, promulgou o diploma que altera o código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (IRS) e que reduz as taxas aplicáveis aos primeiros seis escalões de rendimento.

“O Presidente da República promulgou como Lei o Decreto da Assembleia da República n.º 113/XVII, que autoriza o Governo a alterar o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares, procedendo à redução das taxas gerais aplicáveis aos primeiros seis escalões de rendimento coletável”, segundo uma nota hoje publicada.

A proposta do Governo para baixar o IRS em 2026 através da redução das taxas dos primeiros seis escalões de rendimento, entre 0,3 e 0,5 pontos percentuais, foi aprovada no parlamento, no início do mês.

Cultura também conta para o IRS: uma nova dedução em 2026

20 October 2026 at 10:00

O fim do verão pode ser um convite para regressar às salas de espetáculo, assistir a uma peça de teatro, visitar um museu ou simplesmente ficar em casa a ler um bom livro. A partir de 2026, estas escolhas culturais passam também a ter reflexos fiscais, através de uma nova possibilidade de dedução à coleta do IRS do IVA suportado em determinadas aquisições de bens e serviços deste setor.

A medida procura incentivar o consumo cultural, tornando o acesso à cultura fiscalmente mais vantajoso para as famílias. Simultaneamente, pretende reforçar o combate à evasão fiscal, incentivando os consumidores a solicitar faturas com número de identificação fiscal (NIF) e promovendo uma maior transparência nas operações realizadas.

A novidade foi introduzida no âmbito do Orçamento do Estado para 2026, através do alargamento do regime previsto no artigo 78.º-F do Código do IRS, relativo à dedução pela exigência de fatura.

Este mecanismo permite deduzir à coleta uma percentagem do IVA suportado em determinadas despesas, desde que as faturas sejam comunicadas à Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) e emitidas por entidades enquadradas nos setores de atividade legalmente previstos.

Embora o regime já abrangesse despesas como as realizadas em restaurantes, cabeleireiros, oficinas automóveis e atividades veterinárias, entre outras, 2026 é o primeiro ano em que as despesas de natureza cultural passam a beneficiar desta dedução.

O alargamento abrange a aquisição de livros em estabelecimentos especializados, os serviços relacionados com atividades de teatro, música, dança e outras atividades artísticas e literárias, a exploração de salas de espetáculos, bem como as atividades de bibliotecas, arquivos, museus, sítios e monumentos históricos.

Para este efeito, é necessário que as entidades emitentes das faturas estejam enquadradas nos códigos de atividade económica (CAE) especificamente previstos na lei ou em atividades equivalentes constantes da tabela a que se refere o artigo 151.º do Código do IRS.

Quanto pode ser deduzido? A dedução corresponde a 15% do IVA suportado nas despesas elegíveis, com um limite global de 250 euros por agregado familiar. Importa salientar que este limite não é exclusivo das despesas culturais. É partilhado com as restantes despesas abrangidas pela dedução por exigência de fatura.

O benefício incide sobre o IVA suportado, e não sobre o valor total da despesa. Assim, o montante efetivamente dedutível dependerá do IVA incluído no preço dos bens ou serviços adquiridos e da taxa aplicável.

Para beneficiar desta dedução, o contribuinte deve solicitar fatura com o seu NIF e confirmar que a despesa se encontra corretamente registada no e-Fatura. A comunicação da fatura à AT e o correto enquadramento da atividade do emitente são condições essenciais para o reconhecimento do benefício.

A validação das faturas assume, por isso, particular importância. Caso alguma despesa não esteja devidamente classificada, deverá ser verificada e corrigida no Portal das Finanças, de acordo com os procedimentos e prazos aplicáveis.

As despesas realizadas a partir de 1 de janeiro de 2026 poderão ser consideradas no IRS relativo a esse ano, cuja declaração será entregue em 2027.

A nova dedução constitui um incentivo adicional à participação cultural das famílias, devendo apenas atender-se a alguns procedimentos fiscais: pedir fatura com NIF e acompanhar a sua classificação no e-Fatura são gestos simples que podem fazer a diferença no apuramento final do IRS.

Startup portuguesa usa inteligência artificial para ler faturas linha a linha

20 October 2026 at 07:08

Quatro portugueses e a vontade de desenvolver uma solução que facilitasse o trabalho dos contabilistas certificados. Foi esta a receita para a criação do Kangaroo Files. Uma startup que, mais do que um arquivo digital legal, usa a inteligência artificial (IA) para ler as faturas linha a linha, sejam elas carregadas diretamente na plataforma ou enviadas por Whatsapp, preparando o seu lançamento e libertando estes profissionais de tarefas rotineiras que retiram tempo para exercerem a sua verdadeira função: serem parceiros estratégicos das empresas.

Foi há três anos que o Kangaroo Files foi criado. No início, o objetivo era resolver um problema de comunicação. “Os contabilistas trabalhavam muito e os clientes achavam que só mexiam em papeis, tratavam das faturas, e não percebiam porque é que a avença era tão elevada”, começa por explicar ao EContas Leonardo Domingues, CEO da startup e também um dos quatro fundadores: dois formados em Finanças pela Universidade Politécnica do Cávado e do Ave (UPCA) e dois em Ciências pela Universidade do Minho.

Leonardo Domingues, CEO do Kangaroo Files

“Resolvemos atacar esse problema com a criação de uma área de cliente onde os clientes podiam disponibilizar a documentação diretamente para o contabilista, poupando telefonemas e emails, e o contabilista ao longo do ano vai preenchendo a área de cliente com o que anda a fazer. O cliente acaba por ver em tempo real o trabalho que o contabilista está a fazer. Desenvolvemos isto e tivemos um enorme sucesso. Tínhamos clientes em Lisboa, Porto, Algarve, Évora”, continua o responsável. Acabaram por ir mais longe.

“A área de cliente trata de toda a documentação da empresa que não é faturação. Mas depois existe na lei portuguesa o arquivo digital legal para as faturas que permite desmaterializá-las. E pensámos: a IA está cá para ajudar neste tipo de situações. Acabámos por desenvolver um arquivo digital legal em que a IA ajuda a extrair informação dos documentos e com essa informação começámos a automatizar processos da contabilidade”, detalha Leonardo Domingues. Este é o produto atual desta empresa que tem os contabilistas certificados como clientes e que, por sua vez, a incorporam nas empresas com que trabalham.

Existe na lei portuguesa o arquivo digital legal para as faturas que permite desmaterializá-las. E pensámos: a IA está cá para ajudar neste tipo de situações. Acabámos por desenvolver um arquivo digital legal em que a IA ajuda a extrair informação dos documentos e com essa informação começámos a automatizar processos da contabilidade.

Leonardo Domingues

CEO do Kangaroo Files

Do contabilista para as empresas

“O contabilista tem a sua carteira de clientes e começa a instalar a solução dentro do gabinete. Aquele processo de digitalização de cada cliente é feito dependendo do ritmo que o contabilista quiser e da vontade de digitalização de cada um dos clientes”, diz o CEO do Kangaroo Files, revelando que alguns destes profissionais têm carteiras com mais de 1.000 clientes.

De acordo com o responsável, o que difere esta solução de outras no mercado é o facto de a IA ajudar a ler as faturas linha a linha, classificando automaticamente cada uma das despesas. Quando há dúvidas, recorre sempre ao contabilista certificado, aprendendo e evoluindo de acordo com as suas indicações.

“Um contabilista quando está a fazer um lançamento contabilístico está – simplificando – a pegar numa despesa e a classificá-la. A forma como a maior parte dos softwares de contabilidade funciona é que permitem dizer assim: tudo o que vier deste fornecedor vamos assumir uma classificação. Por exemplo, somos um restaurante. Vou assumir que tudo o que vem da Makro é matéria-prima. Já dá uma ajuda aos contabilistas porque 99% das faturas da Makro vão ser matéria-prima. Onde perdem tempo é com a possibilidade de uma dessas faturas ter lá, por exemplo, um forno ou uma panela. Se em mil faturas pode haver uma que tenha um forno, os contabilistas vão ter de ver as mil”, refere.

Onde é que esta solução entra? “Ao ler linha a linha e ter uma IA que percebe a atividade da empresa, vai avisar o contabilista. O contabilista chega ao programa, vê 999 faturas a verde e uma amarela. Só tem de ir ver essa e poupa tempo. Além de termos a IA a avisar, também sugere uma classificação”, continua Leonardo Domingues.

Esta plataforma, que tem um fee mensal de 59,90 euros a que se soma um valor adicional por cada cliente dependendo do número de documentos que passa pelo programa, permite ainda tirar uma fotografia às faturas e enviar diretamente por Whatsapp. De acordo com o responsável, “há um número de telefone do Kangaroo. Os empresários tiram uma fotografia à fatura e enviam para o Kangaroo como se fosse uma mensagem. Vai diretamente para o programa, que identifica a informação da fatura, extrai a documentação toda, prepara o lançamento e o contabilista chega lá e já tem o documento e o lançamento prontos. Basta clicar para aprovar. Os empresários conseguem usar a plataforma sem terem de entrar nela”.

Ao ler linha a linha e ter uma IA que percebe a atividade da empresa, vai avisar o contabilista. O contabilista chega ao programa, vê 999 faturas a verde e uma amarela. Só tem de ir ver essa e poupa tempo. Além de termos a IA a avisar, também sugere uma classificação.

Leonardo Domingues

CEO da Kangaroo Files

Crescer para alcançar até 1.500 empresas

A maior procura de novos clientes por esta solução, bem como a integração gradual de clientes já existentes, está a fazer com que a startup esteja a dar passos para desenvolver o software, aumentando a sua capacidade para analisar mais documentos. “Estamos a preparar-nos informaticamente para quando chegar a dezembro termos cerca de 250 mil documentos por mês a passar pela IA. Atualmente, diria que estamos com 100 mil documentos por mês”, detalha Leonardo Domingues.

Esta evolução acontece numa altura em que o “Kangaroo já é utilizado por gabinetes de contabilidade no tratamento da documentação de mais de 600 empresas” e tem como objetivo “alcançar as 1.000 a 1.500 empresas até ao final do ano”, com o CEO a apontar mais para o topo do intervalo. “A maior parte das empresas já reconhece que não devia ser a norma guardar capas, tanto do lado do contabilista como do lado dos empresários”, realça, notando também uma maior abertura por parte dos contabilistas certificados para adotar este tipo de solução criada tendo em conta os riscos associados à utilização das novas tecnologias.

O Kangaroo já é utilizado por gabinetes de contabilidade no tratamento da documentação de mais de 600 empresas e temos como objetivo alcançar as 1.000 a 1.500 empresas até ao final do ano.

Leonardo Domingues

CEO do Kangaroo Files

“A IA é sempre utilizada dentro de uma estrutura de revisão. Vai ser tudo feito de forma determinística e a IA vai rever e dar a sua opinião e chamar, ou não, a atenção ao contabilista. Não podemos dar-nos ao luxo de termos um falso positivo, que é dizer que está tudo bem e não está. Temos de criar um equilíbrio entre a natureza probabilística da IA e um sistema determinístico. E conseguimos esse equilíbrio”, garante, revelando que é também com a ajuda das novas tecnologias que estão a desenvolver um software para as empresas que recebe faturas, extrai as informações e coloca-as no programa de faturação.

“As empresas também sentem necessidade de reduzir o trabalho manual no que se refere a colocar as faturas dentro do software. É um trabalho manual que ainda se faz e nós estamos na posição para o automatizar”, conclui.

PwC alcança receitas globais de 60,2 mil milhões, mas crescimento fica aquém das rivais

19 October 2026 at 12:43

As receitas globais da PwC cresceram 3,5% para 60,2 mil milhões de dólares (cerca de 53,6 mil milhões de euros) no ano terminado a 30 de junho. Um crescimento que, apesar de traduzir uma aceleração face ao período homólogo, fica aquém daquele que foi apresentado por outras big four, nomeadamente a Deloitte e a EY.

“Alcançámos um crescimento robusto, mesmo perante a incerteza económica e geopolítica”, afirma Mohamed Kande, presidente global da PwC, citado pelo Financial Times. O resultado foi influenciado pelo desempenho da PwC na região da Europa, Médio Oriente e África, que cresceu apenas 0,7%, num período que tem sido marcado pelo conflito no Médio Oriente e por um abrandamento na prestação de serviços de consultoria para o governo da Arábia Saudita.

A região da Ásia-Pacífico — a menor da PwC — registou o crescimento mais célere, de 7,7%, à medida que começou a recuperar de escândalos na China e na Austrália que afetaram os seus negócios nesses mercados. Os números para Portugal ainda não são conhecidos.

O desempenho nas várias regiões levou a PwC a alcançar um crescimento das receitas globais de 3,5%, acima do aumento de 2,7% no período homólogo, mas atrás da subida de 3,8% da Deloitte e de 4,7% da EY, refere o Financial Times.

A PwC no Reino Unido já tinha anunciado que as receitas tinham caído pela primeira vez em mais de uma década, penalizadas por um abrandamento do negócio de consultoria no Médio Oriente. A consultora britânica descreveu este período como um “ano desafiante [para o Médio Oriente]” que “reflete o impacto do conflito regional, maior disrupção do mercado e oscilações cambiais”.

Além da incerteza geopolítica, a PwC global está também, assim como as outras big four, a lidar com o impacto da inteligência artificial (IA) no seu negócio, reestruturando as suas operações para usar esta tecnologia e desenvolvendo um conjunto de novos serviços para os seus clientes, nomeadamente consultoria para a implementação de IA.

No entanto, a incerteza sobre como esta tecnologia se integra na infraestrutura tecnológica já existente tem travado o setor de consultoria. O crescimento das receitas de Advisory da PwC — a sua maior divisão — desacelerou para 3% no último ano, face a 4,5% anteriormente, totalizando 25,8 mil milhões de dólares.

Já os segmentos de auditoria e de fiscal registaram crescimentos de 2,6% e de 6,3%, respetivamente, para 20,5 mil milhões e 13,9 mil milhões de dólares.

A PwC adianta ainda que continuou a aumentar a sua equipa, tendo alcançado quase 370 mil colaboradores no final de junho, em comparação com 364 mil no mesmo período anterior.

“É urgente criar a opção de consentimento na Carteira Digital da Empresa”, diz Paula Franco

19 October 2026 at 07:12

Os empresários já conseguem consultar vários documentos oficiais através da Carteira Digital da Empresa, uma ferramenta desenvolvida pelo Governo para eliminar burocracias. Falta, porém, ainda dar um passo que Paula Franco, bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, considera ser urgente: criar a opção de consentimento para que outros profissionais, nomeadamente os contabilistas certificados, possam aceder a estes documentos.

“A carteira digital é um princípio importantíssimo que vai andar ao lado do Contabilista 3.0, que é a centralização dos dados das empresas”, diz Paula Franco, em entrevista ao ECO/EContas. Uma ferramenta integrada na reforma do Estado levada a cabo pelo ministro da tutela, Gonçalo Matias.

Mas “falta ainda ir mais além” e “criar a opção de consentimento para os empresários, para “permitir que os profissionais que estão a trabalhar na empresa ou em conjunto com a empresa possam também corresponder àquilo que lhes é exigido, precisamente na mesma centralização de documentos”, atirou a responsável.

Para a bastonária da OCC, “é urgente” dar este passo para que funcionários da empresa, advogados ou os contabilistas certificados possam aceder aos mesmos documentos que já podem ser consultados nesta plataforma que a responsável diz ainda ser desconhecida para muitos empresários.

"O que é que eu acho que ainda falta na carteira digital e que é muito importante? Para além de associar muitos outros documentos e muitas outras interligações desta interoperabilidade que está a ser feita, é criar a opção de consentimento para os empresários.”

Paula Franco

Bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados

“A carteira digital é um passo muitíssimo importante”, mas a “maior parte dos empresários não a conhece”, refere, notando que “muitos de nós já temos a aplicação do ID.gov que acedemos com a nossa chave móvel digital, onde já acedemos ao nosso cartão de cidadão e à carta de condição, e hoje já podemos associar, por exemplo, os cartões das ordens e muitos outros cartões”.

“Mas o que muitos empresários não sabem é que podem naquela mesma aplicação associar empresas nas quais estão como gerentes ou administradores e passam a ter acesso a uma série de documentação da empresa”, diz a bastonária da OCC, naquele que é um esforço de centralização de dados das empresas.

A Carteira Digital da Empresa começou a funcionar em janeiro com quatro documentos: o Cartão de Empresa, o Registo Central do Beneficiário Efetivo, o Documento de Não Dívida à Segurança Social e a Situação Tributária.

Desde então, a plataforma tem vindo a ser alargada a novos documentos e funcionalidades, passando a incluir a Certidão de Não Dívida, o cartão para Empresários em Nome Individual (ENI), a Certificação PME, os contratos das empresas com o Estado e alertas relativos à Segurança Social, impostos e concursos públicos. Mais recentemente foram adicionadas outros documentos, nomeadamente o Registo Nacional de Alojamento Local ou as apólices de seguro automóvel.

Paula Franco, bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC), em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Como adiantou o ECO, em setembro, estão registadas na plataforma cerca de 15 mil empresas, que têm associados aproximadamente 60 mil documento. As novas funcionalidades têm vindo a ser comunicadas pela Agência para a Reforma Tecnológica do Estado (ARTE) através dos seus canais nas redes sociais.

O Governo chegou a admitir, no início do ano, a possibilidade de cobrar por funcionalidades mais avançadas da Carteira Digital da Empresa, mas acabou por mudar a estratégia e não introduzir, para já, custos associados ao serviço.

Na entrevista ao ECO/EContas, Paula Franco diz ainda ser “muito defensora das políticas do ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias”, esperando que “tenham muito sucesso a nível da interoperabilidade, da questão do uma só vez, porque tudo isto é que prejudica imenso o país no seu crescimento, do lado das empresas e do lado do Estado”.

Um esforço de simplificação administrativa e fiscal que a bastonária teme que esbarre nos “pequenos poderes”, nomeadamente da Autoridade Tributária. “Neste momento, naquilo que lidamos mais diretamente, os pequenos poderes da Autoridade Tributária estão a impactar muito nas empresas e na complexidade”, refere, acusando o Fisco de ser “muitíssimo pouco humilde”.

“Mesmo a relação que tem muitas vezes com a Ordem. Temos uma boa relação nalguns pontos e noutra uma relação inexistente, precisamente quando entendem que o caminho é aquele e não querem ouvir ninguém”, conclui.

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