O Banco de Portugal e o Banco de Espanha assinaram um Memorando de Entendimento, no qual se comprometem a desenvolver um Programa de Cooperação sobre Criptografia Pós-Quântica. Em comunicado, revelam que o objetivo é responder de forma “mais eficaz” aos riscos emergentes para a cibersegurança e a estabilidade financeira colocados pelo desenvolvimento da computação quântica.
“Ambos os bancos centrais consideram que a ausência de uma migração coordenada para tecnologias resistentes à computação quântica pode gerar riscos sistémicos, que aconselham uma coordenação estreita entre as instituições financeiras e as autoridades de supervisão”, referem em comunicado.
O Banco de Portugal sublinha ainda que os riscos decorrentes da existência de fornecedores de serviços e infraestruturas de mercado comuns, bem como das atuais dependências de interoperabilidade, poderão ser “enfrentados de forma mais eficiente através de uma ação coordenada”.
Assim, e através deste memorando, ambos os bancos vão desenvolver um programa em três fases. A primeira passará pela troca de informação, de boas práticas e de metodologias comuns. Já na segunda fase, poderão ser analisadas as “dependências partilhadas, o grau de preparação do ecossistema e as prioridades de migração”.
“Na terceira fase, poderão ser realizados testes, avaliações de interoperabilidade e análises de tecnologias emergentes”, acrescentam, avançando que para impulsionar os progressos nas segunda e terceira fases está prevista a “constituição de um grupo de trabalho com a indústria”.
As instituições financeiras de Portugal e Espanha estiveram reunidas entre quinta-feira e sexta-feira, sendo esta a terceira reunião realizada este ano com o objetivo de reforçar a colaboração entre ambas.
Para além da assinatura deste acordo, foi realizado um encontro com a gestão de topo de algumas das principais instituições financeiras dos dois países. “Na sessão foi apresentado o programa de cooperação em criptografia pós-quântica e foram igualmente debatidas questões relacionadas com a competitividade do setor financeiro, bem como os riscos e oportunidades associados aos mais recentes desenvolvimentos da Inteligência Artificial”, explicam.
Os avanços na inteligência artificial revelaram uma série de novas vulnerabilidades de software. Elas quase certamente provocarão mais interrupções semelhantes às que afetaram sites governamentais em todo o mundo esta semana, de acordo com sete profissionais de segurança cibernética que falaram à Reuters.
A inteligência artificial contribuiu para a duplicação do número de falhas digitais descobertas ano após ano, de acordo com uma pesquisa que será publicada nos próximos dias pela VulnCheck, uma empresa de inteligência de ameaças sediada em Massachusetts.
Matthew Prince, diretor executivo da empresa de infraestrutura digital Cloudflare, disse que estava ciente de “uma série de vulnerabilidades graves adicionais presentes em outros softwares críticos” e previu meses agitados pela frente, à medida que a IA revelasse fragilidades há muito ocultas na estrutura da internet.
“Acho que teremos alguns anos em que, a cada semana, teremos a sensação de que o mundo está acabando”, disse Prince em uma entrevista na quinta-feira.
As interrupções que se espalharam por sites governamentais na Europa e em outros lugares a partir de quarta-feira ocorreram após a descoberta de vulnerabilidades no PHP, uma linguagem de programação consagrada que alimenta grande parte da internet.
Os operadores correram para corrigir seus softwares em antecipação a uma exploração em massa e, como alguns acharam que não conseguiriam aplicar as correções antes que os hackers atacassem, um grupo simplesmente tirou seus sites do ar até que pudessem torná-los seguros.
O pesquisador da VulnCheck, Patrick Garrity, afirmou que a corrida para corrigir o PHP ocorreu durante uma semana já bastante movimentada no setor de segurança cibernética.
A semana também trouxe a divulgação de vulnerabilidades no Node.js, uma alternativa ao PHP, e no programa de streaming Plex, além de violações relacionadas ao gateway de IA LiteLLM e à plataforma de desenvolvimento Railway, e a revelação de que a autoridade certificadora indiana eMudhra havia usado uma chave criptográfica extremamente frágil que potencialmente colocava usuários em risco em toda a internet.
“Se vimos apenas quatro ou cinco casos como esses esta semana, eu esperaria ver muito mais”, disse Garrity. “Acho que haverá muito mais simulações de incêndio para qualquer coisa que esteja exposta na internet”.
Redução de prazos
Os códigos-fonte que executam programas modernos são extensos e erros, ou “bugs”, que abrem potenciais brechas de segurança, frequentemente surgem em locais inesperados.
Anteriormente, encontrar falhas de segurança exigia um nível básico de habilidade, e aproveitar essas falhas para criar ferramentas digitais de abertura de fechaduras – chamadas de “exploits” – poderia levar semanas ou meses de trabalho de um profissional experiente.
Isso, no passado, teria dado aos defensores um pouco de tempo para corrigir erros e implementar atualizações de software gradualmente.
A IA praticamente descartou essas suposições. Os modelos conseguem encontrar um bug após o outro, submetendo as bases de código a uma análise ininterrupta, e podem corrigir vulnerabilidades em questão de horas.
Shane Fry, diretor de tecnologia da RunSafe Security, empresa sediada na Virgínia, afirmou que o desempenho demonstrado pelos modelos de IA nos últimos meses dissipou quaisquer dúvidas sobre se eles transformariam o setor.
“O que está mudando fundamentalmente e inquestionavelmente é o tempo necessário não apenas para encontrar vulnerabilidades, mas também a rapidez com que os adversários podem transformá-las em armas”, disse Fry.
IA será positiva para cibersegurança?
Embora todos os especialistas com quem a Reuters conversou concordassem que os prazos para os defensores estavam ficando mais curtos, eles divergiam sobre se a IA levaria a uma guerra aberta entre hackers.
Daniel Stenberg, o desenvolvedor principal da ferramenta de transferência de arquivos curl, argumentou que as vulnerabilidades encontradas por modelos de IA tendem a ser bugs exóticos, difíceis de serem explorados por agentes maliciosos. Ramy Rahman, engenheiro sênior de soluções da empresa de cibersegurança ArmorCode, afirmou que “mais vulnerabilidades divulgadas não significam automaticamente mais ataques bem-sucedidos”.
Havia indícios preliminares disso em relação à vulnerabilidade do PHP que gerou preocupação mundial esta semana. A empresa de inteligência de ameaças Hunt.io afirmou que – assim como a Amazon e a Cloudflare – a empresa havia observado tentativas agressivas de explorar a vulnerabilidade. Mas o chefe de pesquisa da empresa, Esteban Borges, afirmou que os cibercriminosos que ele monitorava pareciam ter fracassado em improvisar uma ferramenta funcional para tirar proveito disso.
Prince, da Cloudflare, disse à Reuters que havia visto relatos de comprometimentos relacionados à vulnerabilidade do PHP.
A avalanche de descobertas impulsionadas pela IA pode abalar o setor, mas, no final, será um saldo positivo, disse ele, comparando-a a derrotar os monstros de uma casa mal-assombrada.
O confronto pode ser assustador, disse ele, mas deixar os monstros à espreita, silenciosamente, atrás de portas fechadas, é muito pior.
“A realidade é que vamos conseguir limpar muita coisa”, disse ele.
O Governo norte-americano propôs novas restrições ao investimento de empresas dos Estados Unidos em setores tecnológicos sensíveis na China, incluindo inteligência artificial, armamento hipersónico e biotecnologia.
O departamento do Tesouro norte-americano divulgou na quinta-feira um conjunto de propostas regulamentares para aplicar a Lei de Segurança Nacional sobre Investimentos no Exterior, aprovada pelo parlamento em 2025.
A legislação pretende reforçar o controlo dos investimentos norte-americanos na China e noutros países considerados adversários, incluindo a Rússia e o Irão, com o objetivo de proteger a segurança nacional dos Estados Unidos.
As novas regras abrangem investimentos em semicondutores avançados, inteligência artificial e tecnologias de utilização militar, bem como determinados compostos e materiais biotecnológicos e interfaces cérebro – computador.
As propostas serão sujeitas a consulta pública antes da aprovação definitiva e constituem mais uma tentativa de Washington de limitar o acesso da China a tecnologias com aplicações civis e militares. “As regras propostas reforçariam o atual programa de segurança dos investimentos no exterior, para impedir que os nossos adversários utilizem investimentos norte-americanos no desenvolvimento de tecnologias críticas que ameaçam a segurança nacional dos Estados Unidos”, afirmou o secretário do Tesouro, Scott Bessent. O responsável acrescentou que as medidas pretendem também promover um “ambiente de investimento aberto”, ao proporcionar maior clareza aos investidores norte-americanos e estrangeiros.
A iniciativa surge um mês depois de o Presidente norte-americano, Donald Trump, ter recebido em Washington o homólogo chinês, Xi Jinping, numa cimeira em que ambos acordaram prolongar por dois meses, até janeiro, a trégua na guerra comercial entre as duas maiores economias mundiais.
Segundo Craig Singleton, investigador da Fundação para a Defesa das Democracias, um centro de estudos norte-americano, as restrições à biotecnologia constituem o elemento mais significativo das novas propostas. “A biotecnologia é importante tanto para Wall Street como para a população em geral”, afirmou, citado pelo jornal britânico Financial Times.
“Determina o futuro dos medicamentos e das terapias, mas algumas das mesmas tecnologias também podem reforçar as capacidades militares da China ou aprofundar a dependência dos Estados Unidos das cadeias de abastecimento chinesas”, acrescentou. Segundo Singleton, o Tesouro está a alertar os investidores para as consequências dos fluxos de capital destinados a determinados segmentos da indústria biotecnológica chinesa.
O projeto regulamentar considera que algumas biotecnologias avançadas ou sensíveis representam um “risco elevado” de proliferação de armas biológicas e de desenvolvimento de interfaces cérebro — computador.
As autoridades norte-americanas manifestaram também preocupações com tecnologias que possam ser utilizadas em operações militares, atividades de informações e vigilância em massa. Entre as atividades abrangidas pelas restrições propostas encontram-se determinados tratamentos que modificam células ou genes dos pacientes, bem como imunoterapias.
As medidas deverão desencadear uma disputa entre a administração Trump e a indústria biotecnológica norte-americana, que tem recorrido cada vez mais à China nas fases iniciais do desenvolvimento de novos medicamentos.
A Biotechnology Innovation Organization, principal associação representativa do setor nos Estados Unidos, manifestou reservas quanto ao alcance das propostas. “Precisamos de garantir que não adotamos uma abordagem excessivamente abrangente, que crie incerteza para os inovadores e investidores e que possa, involuntariamente, enfraquecer a competitividade da biotecnologia norte-americana”, afirmou a organização.
No entanto, as regras propostas excluem determinados acordos comerciais já utilizados pelas grandes farmacêuticas norte-americanas na China. Empresas como a Eli Lilly, Pfizer e Bristol Myers Squibb investiram milhares de milhões de euros em acordos de licenciamento de medicamentos desenvolvidos por empresas chinesas.
Segundo Will Humphrey, vice-presidente da consultora Capstone, estes contratos não serão abrangidos pelas novas restrições quando os pagamentos forem efetuados em dinheiro, sem aquisição de participações no capital das empresas chinesas.
Vários sites governamentais na Europa e noutras regiões do mundo ficaram temporariamente fora de serviço esta quarta-feira, depois de terem sido divulgados duas vulnerabilidades críticas na linguagem de programação PHP. A divulgação levou operadores de serviços digitais a adotar medidas urgentes para proteger os seus sistemas. As vulnerabilidades foram identificadas com a ajuda de ferramentas de inteligência artificial (IA), incluindo modelos desenvolvidos pela OpenAI e pela Google. A gravidade das falhas e a utilização generalizada do PHP levantaram preocupações quanto ao número de servidores potencialmente expostos a ataques informáticos. A Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) alertou para os
Empresas que utilizam o Windows Server 2016 têm um prazo crucial para atualizar suas estruturas tecnológicas. Em 12 de janeiro de 2027, a Microsoft encerrará o suporte oficial ao sistema operacional. A partir desta data, a plataforma deixará de receber correções de segurança e assistência técnica, elevando os riscos de vazamento de informações, paralisações operacionais e prejuízos financeiros — um cenário que afeta desde grandes corporações até pequenas e médias empresas.
Embora o sistema continue operacional após a data-limite, a ausência de atualizações contínuas expõe os servidores a invasões automatizadas e a ataques de ransomware, nos quais criminosos criptografam dados e exigem resgate. A vulnerabilidade do ambiente também atrai a atenção para o cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), já que manter infraestruturas desprotegidas pode evidenciar falhas na segurança de dados pessoais.
Segundo Wagner Medeiros Melo, cientista da computação e diretor de Tecnologia e Inovação da Surfix Cloud & Data Center, o impacto é direto na continuidade do negócio. “O servidor não deixa de funcionar no dia 12 de janeiro, mas passa a operar sem a proteção das atualizações regulares da Microsoft. Isso significa que novas vulnerabilidades poderão permanecer sem correção, ampliando as possibilidades de ataques. Muitas empresas concentram nesses servidores informações financeiras, dados de clientes, sistemas de gestão e documentos estratégicos. Uma falha pode comprometer toda a operação”, explica.
Além do risco de brechas no sistema principal, os criminosos costumam visar as cópias de segurança. Para conter essa ameaça, a adoção de estratégias como o backup imutável — que impede a alteração ou exclusão dos dados por um período determinado — surge como medida indispensável. “Hoje, não basta apenas fazer backup. É necessário garantir que as cópias estejam protegidas contra alterações e exclusões indevidas. O backup imutável permite preservar os dados durante um período determinado, mesmo diante de tentativas de comprometimento das credenciais administrativas. Essa proteção, associada ao monitoramento contínuo de vulnerabilidades, é fundamental para reduzir os impactos de um ataque”, destaca Wagner.
Para mitigar os riscos, os especialistas recomendam que o primeiro passo seja a realização de um inventário tecnológico para mapear sistemas legados e máquinas esquecidas em ampliações passadas. A partir daí, as empresas podem avaliar alternativas de modernização, que variam entre a atualização dos servidores locais, a adoção de ambientes híbridos e a migração para a nuvem.
Wagner ressalta que o momento exige visão estratégica. “Muitas empresas acabam investindo continuamente na manutenção de equipamentos antigos, que já apresentam limitações de desempenho e segurança. A migração para a nuvem pode ser uma alternativa para reduzir a dependência dessa estrutura, mas a decisão precisa considerar os sistemas utilizados, os custos e as necessidades de cada negócio. O importante é aproveitar esse momento para modernizar a operação com planejamento".
A orientação é iniciar o diagnóstico imediatamente, testar a compatibilidade de softwares e realizar a transição de maneira gradual para evitar interrupções nos serviços. “Uma migração bem planejada começa pelo diagnóstico. É preciso conhecer as dependências entre os sistemas, testar a compatibilidade das aplicações e estabelecer um plano de retorno caso alguma etapa apresente problemas. O ideal é realizar a transição de forma gradual, começando pelos serviços menos críticos, para reduzir os riscos de paralisação”, orienta o executivo.
Para quem não concluir a transição a tempo, a Microsoft oferece Atualizações de Segurança Estendidas (ESU) sob contratação específica, mas a alternativa é temporária. “O maior erro é esperar o sistema apresentar uma falha ou sofrer um ataque para tomar uma decisão. A empresa precisa avaliar quanto tempo consegue permanecer sem acesso aos próprios dados e quanto isso representa em prejuízo financeiro. Investir preventivamente em segurança e atualização tecnológica é também uma forma de proteger a continuidade do negócio”, diz Wagner Medeiros Melo.