Protestos na Europa contagiam mercados. Euro, bolsas e dívida sob pressão

Os protestos violentos pela Europa, particularmente em França, estão a passar das ruas para os mercados financeiros. O cenário de preocupação, não só político e orçamental, mas também relativo a maior contestação social pressionou as obrigações soberanas francesas, gerou perdas nas bolsas e penalizou a moeda única europeia.
Os juros da dívida francesa a dez anos seguem assim a agravar-se e aproximam-se dos 5%, ao mesmo tempo que o spread, ou seja, o prémio de risco que os investidores pedem para deter obrigações francesas face às congéneres alemãs com a mesma maturidade, de referência para o bloco europeu, alargaram-se para 146 pontos base, o valor mais elevado desde 2012. Também o spread face à yield das obrigações italianas atingiu um novo recorde.
Mas os efeitos chegaram também ao mercado acionista e cambial. O euro cai 0,3% para 1,12 dólares, enquanto as bolsas europeias negociaram com perdas. O Stoxx 600 desvalorizou 0,9%, com o parisiense CAC-40 a registar uma queda de 1,11%. Nos últimos anos, este índice tem registado um desempenho significativamente inferior ao dos seus homólogos europeus, à medida que a instabilidade política tem vindo a aumentar. Isto mesmo apesar de apenas 15% das receitas de cotadas do índice serem geradas no mercado doméstico.
O mercado acionista francês é particularmente sensível a um alargamento do spread entre os juros da dívida francesa e alemã, devido ao peso da banca no principal índice no país. Na manhã desta sexta-feira, as duas yields, na maturidade de referência, chegaram a negociar em sentido contrário, um sinal de que os investidores podem estar a procurar maior segurança na dívida alemã. O movimento penalizou os maiores bancos do país, BNP Paribas e Société Générale, que desvalorizaram mais de 3%. Também a retalhista Carrefour perdeu quase 2%, após ter revelado que os danos causados pelos protestos geraram prejuízos de dezenas de milhões de euros.
Além do CAC-40, o efeito de contágio fez-se sentir noutras bolsas europeias, cujas cidades também viveram os seus próprios protestos. Em Frankfurt, o alemão DAX caiu 1,24%, em Madrid, o espanhol Ibex desvalorizou 1,49%, enquanto, em Milão, o italiano FTSEMIB cedeu 1,55%. A bolsa de Lisboa não ficou imune a este efeito e perdeu 0,78%, pressionada pelo grupo EDP, com as duas empresas a registarem perdas superiores a 3%.
“Embora os protestos violentos não sejam representativos da grande maioria da população, os acontecimentos do fim de semana sublinham, ainda assim, o delicado equilíbrio que o governo tem de manter entre apaziguar a população e os mercados“, explicou à Bloomberg Erik Liem, estratega do Commerzbank. Além disso, o receio dos investidores é que o atual clima de contestação social venha a ter um impacto nas contas públicas. A dívida pública francesa está em torno dos 119% do PIB e o saldo orçamental deverá terminar 2026 num défice de 5,4%.
O efeito também chegou à moeda única europeia, que chegou mesmo a negociar em mínimos de 17 meses face à libra, com a moeda britânica a ascender a 1,188 euros. O analista Francisco Pesole, do ING, escreve mesmo que os protestos em França podem impedir maiores valorizações do euro face ao dólar, neste momento.
“O equilíbrio de riscos para o par eurodólar está bastante equilibrado nesta fase. A pressão negativa continua a vir de França, embora tenha diminuído ligeiramente nos últimos tempos, enquanto o potencial de subida decorre de novas preocupações relacionadas com a IA que afetam as expectativas quanto às taxas de juro da Reserva Federal”, explicou.
No domingo, o Presidente francês, Emmanuel Macron, condenou a “violência desenfreada”, expressando a “raiva” e a “vergonha” da população francesa perante os atos ocorridos à margem das manifestações contra o aumento do custo de vida e as condições do ensino. Macron prometeu responsabilizar quem “tentou derrubar a República”.



