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Literacia em emergência leva formação prática a cerca de 1300 pessoas

VTM

O objetivo é reforçar a literacia em emergência, levando para a comunidade conhecimentos que podem fazer a diferença nos primeiros minutos de uma situação de paragem cardiorrespiratória.

Daniel Bernardo, presidente da associação, e Ricardo Ribeiro, vice-presidente, são ambos enfermeiros e trabalham no serviço de urgência do hospital flaviense. Foi precisamente a experiência profissional e a constatação das dificuldades sentidas perante situações de emergência fora do hospital que esteve na origem do projeto.

“Muitas das vezes estas pessoas já nos chegam num contexto onde não há praticamente nada a fazer”, explica Daniel Bernardo, referindo-se sobretudo às situações de paragem cardiorrespiratória. A intervenção dos meios de emergência é fundamental, mas o tempo que decorre até à chegada de uma equipa diferenciada pode ser determinante.

Foi dessa preocupação que nasceu a vontade de “passar um bocadinho de dentro para fora” e mostrar à população que “um pequeno gesto realmente pode salvar”. A associação foi formalizada em março de 2024, com 19 fundadores, e conta atualmente com cerca de 95 associados, entre enfermeiros, médicos, bombeiros, psicólogos, auxiliares e outros profissionais.

Ao longo deste período, foram realizadas 57 ações de formação certificadas pelo INEM e outras iniciativas dirigidas à comunidade. Os responsáveis contabilizam 1300 participações, destacando que, na maioria dos casos, houve contacto direto com manequins e treino das técnicas. “Não é só ouvir falar. São cerca de 1300 pessoas com prática”, sublinha Ricardo Ribeiro.

A metodologia passa por combinar uma componente teórica com a prática. “É fazer a junção daquilo que é a teoria e com o que é a prática”, resume Daniel Bernardo. A intenção é que a pessoa não fique apenas com uma informação, mas adquira ferramentas que possa utilizar perante uma situação real.

Suplemento Saude Formacao da APUEAF Daniel Bernanrdo Chaves PAM

“Um idoso de 70, 75 ou 80 anos que é perfeitamente autónomo, tem que ter o direito a ser salvo”
DANIEL BERNARDO
PRESIDENTE APUEAF

Um dos principais focos tem sido a comunidade escolar, envolvendo alunos, professores, funcionários e encarregados de educação, mas também as populações do interior mais afastadas dos centros urbanos. Para Daniel Bernardo e Ricardo Ribeiro, a instalação dos equipamentos não deve ficar limitada às zonas com maior concentração populacional. “Um idoso de 70, 75 ou 80 anos que é perfeitamente autónomo, tem que ter o direito a ser salvo”, defende Daniel Bernardo

“Se nós perguntarmos, no fim, se alguma vez tinha feito isto na vida, a resposta é não”, relata Daniel Bernardo, a propósito das ações.

“Não podemos só contar com a ajuda externa”, afirma Daniel Bernardo, defendendo uma maior consciencialização da população para a necessidade de intervir nos primeiros minutos. O objetivo passa por criar uma verdadeira cultura de emergência, começando pelas escolas e estendendo-se às famílias, empresas, instituições e forças de segurança.

Nesse âmbito, a associação tem também apostado na formação em suporte básico de vida com desfibrilhador automático externo (DAE). A formação certificada tem sete horas, inclui componentes teóricas e práticas e termina com uma avaliação prática. Os formadores passaram por formação específica e a própria associação está acreditada enquanto entidade formadora.

O DAEé considerado pelos responsáveis como um passo importante na cadeia de sobrevivência. O equipamento analisa o ritmo cardíaco e, quando deteta uma situação compatível com desfibrilhação, permite administrar um choque elétrico para tentar reverter a arritmia.

A associação esteve na origem de uma proposta no âmbito do Orçamento Participativo Municipal de Chaves para a instalação de desfibrilhadores em diferentes pontos do concelho. Está agora em fase de implementação pelo município, que decidirá a localização dos equipamentos.

“O importante não é só chegar à comunidade”, explica Ricardo Ribeiro. “Queremos informação, queremos partilhar, queremos ferramentas no local e queremos que aquelas pessoas que foram formadas possam dar continuidade a isto.”

Saber reconhecer uma situação, ligar para o 112, iniciar compressões e utilizar um desfibrilhador quando disponível são, defendem, conhecimentos que deveriam fazer parte da cultura da população. “Hoje soueu que posso estar a ajudar a salvar, mas amanhã posso precisar de ser salvo”, resume Ricardo Ribeiro.

 

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Pesquisa aponta queda no interesse pela escola e alta da violência

Entre o 4º e o 7º ano do ensino fundamental, a escola perde parte do encanto que tem para os estudantes, indica a 3ª edição do relatório anual de Saúde Mental & Bem-Estar Escolar, da Great Place to Study Brasil. A parcela de alunos entrevistados que afirma se sentir feliz e empolgada ao ir para a escola cai de 79,9% para 50,8%. No mesmo período, a parcela que relata exposição à violência mais que dobra, de 16,6% para 39%.

O levantamento ouviu 89.744 pessoas, entre 41.958 estudantes, 9.347 educadores e 38.439 familiares no país por meio de questionários digitais específicos para cada público. As respostas foram coletadas de agosto de 2025 a agosto de 2026, e a base de famílias foi acompanhada de março de 2025 a outubro de 2026. Segundo a organização, a análise adotou nível de confiança de 95%, além de testes de correlação e consistência dos índices.

Vínculo com a escola diminui ao longo dos anos

Foi identificada uma mudança no vínculo com a escola ao longo da trajetória. Entre os alunos do 8º ano e do 3º ano do ensino médio, 57% citam bullying frequente ou violência física normalizada no dia a dia.

Outros dados mostram a diminuição do vínculo: 40,6% não se sentem valorizados pela escola, 40,1% dizem que professores não se importam com seus sentimentos e 44% das vítimas de bullying não creem em ação da escola.

Em ambientes de baixa violência, 27% dos estudantes dizem frequentar a escola apenas por obrigação. Em locais de violência muito alta, o índice chega a 60%.

João Hoeppner, diretor da Great Place to Study Brasil, afirma que a relação com a escola tende a diminuir à medida que o estudante avança e o foco no conteúdo e no vestibular ganha espaço. “O coletivo e a convivência tendem a ficar mais frios e a escola se envolver cada vez menos.”

Segundo o diretor, quem estuda apenas para evitar consequências negativas relata mais sobrecarga. “Mesmo no melhor cenário, 1 a cada 4 estuda ali por medo. Quando a gente está falando do fundamental, é mais ou menos 1 a cada 3”, afirma.

Violência e bullying afetam a convivência

Violência e bullying dentro da escola | Foto: Freepik

A violência é um dos fatores que atravessam esse processo, segundo indicam as respostas. Dos 57% que relatam bullying frequente ou violência física normalizada, 1 em cada 5 se declara alvo direto de agressões.

Hoeppner chama atenção para o papel dos colegas que presenciam os episódios e afirma que a escola precisa trabalhar também a consciência de quem assiste. “O principal trabalho que as escolas precisam fazer é um despertar, uma provocação em relação à consciência da plateia. Se não tem plateia, não tem show.”

Para ele, campanhas contra o bullying também podem partir dos próprios estudantes. “As campanhas de bullying mais efetivas que a gente vêpartem dos estudantes mais do que somente da escola.”

Marina Ribeiro, diretora de comunidade da Great Place to Study Brasil, afirma que a participação dos pares pode favorecer essa reflexão. “É um processo de entender como esse adolescente funciona e ir buscando essas estratégias mesmo para fomentar a consciência.”

Foco em avaliações pode reduzir o sentido da escola

Para Maria Amélia Santoro Franco, doutora em educação pela USP e organizadora do livro “Pedagogias Emergentes: Princípios e Práticas”, a queda no entusiasmo ao longo da escolarização, não pode ser explicada apenas pela idade. Na passagem para os anos finais do fundamental, aumenta o número de professores e disciplinas, enquanto a convivência com os colegas ganha importância.

Segundo Maria Amélia, quando o conhecimento fica restrito ao que será cobrado nas avaliações, o aluno pode cumprir tarefas, mas deixa de se reconhecer nelas. “À medida que a transmissão de conteúdos, as metas e os rankings de desempenho passam a organizar a vida escolar, a escola pode perder sentido para os estudantes.”

A professora afirma que a violência compromete a aprendizagem. Um estudante que teme ser ridicularizado pode deixar de perguntar ou participar das atividades. “O sentimento de pertencimento se rompe quando o aluno passa a pensar: como me percebem aqui?”.

Professores também enfrentam desgaste emocional

Uma professora com sinais de desgaste emocional severo | Foto: Shutterstock

No entanto, o sofrimento não se restringe aos alunos, segundo o relatório. Um em cada sete professores ouvidos relata sofrimento constante, com sinais de desgaste emocional severo, falta de alegria e incapacidade de descansar. Entre eles, 66,3% dizem que gostariam de ter escolhido outra profissão.

Além disso, 24,4% apontam cobranças excessivas e questionamentos à autoridade como principal desgaste mental. Para Hoeppner, o conflito pesa na rotina, mesmo envolvendo poucas famílias.

Famílias confiam na escola, mas diálogo é limitado

As famílias, por sua vez, demonstram confiança na escola. Mais de 95% dizem confiar na proposta pedagógica, considerar o ambiente seguro e avaliar que os filhos recebem uma boa educação. Porém, o vínculo não se traduz na mesma proporção em diálogo: são 54,6% os que dizem concordar plenamente que se comunicam com a escola para pensar em conjunto sobre a educação dos filhos.

Maria Amélia afirma que reconstruir esse vínculo passa por criar relações de confiança e não apenas por reforçar regras. Segundo a professora, o estudante precisa saber que situações de violência serão levadas a sério e que haverá adultos responsáveis por cuidar delas.

“Temos um costume de falar muito que a escola tem três funções: ser a vida de um estudante, preparar esse estudante para o futuro e para o mundo que ele vai encontrar, mas também trazer competências para que ele de fato consiga construir um mundo diferente, um futuro diferente.” (Lucas Leite/FOLHAPRESS)

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