Alimentação pobre em frutas, vegetais e fibras, e o consumo persistente de alimentos processados estão entre os fatores de risco associados ao câncer de intestino. Por outro lado, a ingestão de produtos mais saudáveis e a prática de atividades físicas são vistas como forma de prevenção da doença.
Conhecido também como colorretal, o câncer de intestino causou a morte da atriz Lua Blanco, no último dia 18. O falecimento da artista de apenas 39 anos reacendeu o alerta sobre a importância do diagnóstico precoce e de manter uma vida mais saudável.
Segundo o Ministério da Saúde, o consumo de carnes processadas, comumente conhecidas como embutidos (salsicha, mortadela, linguiça, presunto, bacon, blanquet de peru, peito de peru, salame, entre outras) e a ingestão excessiva de carne vermelha (acima de 500 gramas de carne cozida por semana) aumentam o risco para este tipo de câncer.
Outros fatores relacionados à maior chance de desenvolvimento da doença são: doenças inflamatórias do intestino, histórico familiar de câncer, tabagismo e consumo de bebidas alcoólicas.
Câncer está aumentando entre os mais jovens
Apesar do maior público-alvo de câncer ter mais de 50 anos, outros fatores podem contribuir para o aumento desse diagnóstico entre os mais jovens. Um relatório publicado na última semana pela World Cancer Research Fund identificou um aumento no número de casos de diversos tipos da doença entre pessoas com menos de 50 anos.
Segundo a análise, a mudança comportamental, como a baixa atividade física, consumo de fast food e bebidas açucaradas das novas gerações podem contribuir para o sobrepeso e a obesidade – identificado como o maior fator de risco para o câncer.
Outra hipótese também foi levantada. Segundo a WCRF, por associarem o câncer aos mais velhos, os mais jovens não costumam conhecer os sinais de alerta e demoram para procurar atendimento médico, o que pode influenciar no diagnóstico.
Apesar do aumento, isso não significa que o câncer tenha se tornado “comum” entre os jovens. A idade segue como o principal fator de risco. O que houve foi uma mudança comportamento e que, entre os menores de 50, alguns tipos antes considerados raros nessa faixa etária estão se tornando mais frequentes.
O que é o câncer de intestino?
Segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer), o câncer de intestino é uma doença heterogênea e multifatorial, que se desenvolve predominantemente a partir de mutações genéticas no pólipos, lesões benignas. Na colonoscopia, os médicos podem identificar e retirá-los, impedindo que a doença avance.
O instituto calcula 53.810 casos por ano entre 2026 e 2028, sendo 26.270 em homens e 27.540 em mulheres. O número representa um aumento de 18% em relação ao triênio 2023-2025.
Diagnóstico e tratamento
Quando detectado de forma precoce, o câncer apresenta mais chances de cura. O diagnóstico é feito por meio de biópsia, mas também existe exames de rastreamento para identificar a possibilidade de desenvolver a doença.
Já o tratamento depende do estágio do tumor e de sua localização. Podem ser utilizados:
Radioterapia (uso de radiação)
Quimioterapia (uso de medicamentos).
A retirada (ressecção) de parte do intestino que contém o tumor pode implicar na realização de um estoma (colostomia ou ileostomia) – procedimento que cria uma abertura no intestino e faz com que o paciente tenha que utilizar uma bolsa coletora externa
Quando a doença está espalhada, com comprometimento de outros órgãos (metástases), como o fígado ou pulmão, as chances de cura são menores.
Cochilar frequentemente, passar por dificuldades financeiras, ter problemas emocionais e respirar um ar poluído são fatores, além do tabagismo e álcool, que podem estar associados ao risco de desenvolvimento do Alzheimer.
A associação está presente em um estudo desenvolvido por pesquisadores da Harvard, publicado na revista Alzheimer’s & Dementia, da Alzheimer’s Association, na edição de outubro. Os cientistas avaliaram cerca de 500 mil britânicos, entre 40 e 69 anos, do banco de dados UK Biobank, acompanhados por mais de 10 anos.
Ao todo, foram analisados 193 tipos de exposição divididos em cinco grupos (social, estilo de vida, químico, físico e ecossistema). Durante o período, 8.881 participantes, cerca de 1,77%, desenvolveram Alzheimer ou outro tipo de demência relacionada.
Dos fatores analisados, 76 apresentaram associação com a doença. Destes, 45 apresentaram risco e 31 apresentaram proteção.
Veja o índice:
Entre as condições destacadas como predispostas, estão:
Cochilar frequentemente: altera os padrões do sono e compromete a eficiência do sistema glinfático – via responsável por eliminar e limpar metabólitos e proteínas neurotóxicas do cérebro durante o descanso profundo.
Dificuldades financeiras: gera estresse contínuo, piora a qualidade de vida e limita o acesso a cuidados preventivos de saúde.
Polifarmácia: o número de remédios utilizados foi o preditor individual mais forte do modelo do estudo. O fator reflete a uma carga elevada de múltiplas doenças crônicas simultâneas (que podem contribuir), e não aos efeitos diretos dos medicamentos.
Problemas emocionais: depressão, ansiedade, solidão e oscilações do humor ativam respostas de estresse biológicas e sustentam um estado de neuroinflamação que acelera a degradação neurológica.
Ar poluído: a inalação de dióxido de nitrogênio e partículas finas está associada a maior risco e é apontada como agente neurotóxico, que pode causar inflamação no sistema nervoso central.
Cigarro e álcool: fumar atualmente, a exposição à fumaça de tabaco dentro de casa e o consumo inadequado de álcool também aparecem entre os fatores de risco.
Por outro lado, 31 fatores apareceram como associados à redução do risco de desenvolvimento das doenças.
Veja a seguir alguns dos fatores:
Exercícios físicos regulares, atividades manuais e caminhadas: atuam por meio de mecanismos neuroprotetores diretos que podem preservar a idade do cérebro.
Convivência a dois: diminui o isolamento social, a solidão e o estresse, ajudando a promover o estímulo cognitivo. Quem mora com um parceiro teve risco 22% menor em relação a quem mora com outras pessoas.
Renda e segurança financeira: diminui a carga de estresse ligada à degradação do cérebro.
Consumo de ovos: pessoas que nunca comeram ovos apresentaram um risco 76% maior de desenvolver a doença.
Tecnologias digitais: o uso de computador e de celular foi associado a menor risco, o que reflete na estimulação cognitiva e na saúde do cérebro.
O estudo é observacional, ou seja, mostra associações e não comprova os fatores que causam a doença.
A doença de Alzheimer (DA) é um transtorno neurodegenerativo que ataca a memória e a capacidade cognitiva, comprometendo as atividades diárias e o comportamento do paciente.
Segundo a Febraz (Federação Brasileira das Associações de Alzheimer), cerca de 2 milhões de brasileiros vivem com demência, número que pode triplicar até 2030. No mundo, o índice chega a mais de 50 milhões de pessoas convivendo com a doença.
O Alzheimer é uma doença sem cura e não se sabe qual é a sua causa. Apesar disso, existem diversos estudos que tentam identificar fatores de risco que não são atribuídos apenas à genética, como no caso da pesquisa feita pelos cientistas de Harvard.
Quarenta anos depois da primeira cirurgia de reconstrução peniana após o câncer, médicos desenvolveram o primeiro procedimento de reconstrução do clitóris. De forma inédita, o objetivo da técnica é devolver às pacientes o prazer sexual, perdido após a vulvectomia, cirurgia para remover um tumor na vulva, conhecido como “câncer de vulva”.
Ao todo, 23 mulheres já passaram pelo procedimento de reconstrução no centro médico Radboudumc, na Holanda. Cerca de 90% das participantes conseguiram voltar a ter orgasmos após a cirurgia. As sensações costumam acontecer entre três e seis meses após a operação, segundo explica o cirurgião plástico Tim Nijhuis, desenvolvedor da técnica.
Inicialmente, o clitóris pode ficar excessivamente sensível ou, inversamente, menos sensível. No entanto, a recuperação geralmente é ótima após um ano. Na maioria das mulheres, a sensação retorna a um nível comparável ao de antes da cirurgia.
Tim Nijhuis, cirurgião plástico do Radboudumc
O câncer de vulva é um tipo raro de câncer ginecológico que afeta a região externa dosistema reprodutor feminino, incluindo os pequenos e grandes lábios, o clitóris e a região do períneo. Esse tipo de câncer é mais comum em mulheres na pós-menopausa e pode estar associado à infecção pelo HPV (papilomavírus humano), além de outras condições, como doenças dermatológicas crônicas e imunossupressão.
A vulvectomia é a principal maneira de remover a lesão e pode incluir a remoção parcial ou total da vulva, influenciando no prazer sexual feminino, segundo explica a oncologista ginecológica Mieke ten Eikelder, do Radboudumc.
“Quando o tumor está localizado dentro ou ao redor do clitóris, às vezes precisamos remover parte dele. Até agora, a ferida era simplesmente fechada depois, e o clitóris desaparecia sob uma camada de pele, com pouca atenção à qualidade de vida ou à possibilidade de o orgasmo ainda ser possível.”
Mieke ten Eikelder, oncologista ginecológica do Radboudumc
Como acontece o procedimento?
A técnica é realizada após a retirada da lesão, ainda durante a cirurgia, e leva cerca de quinze minutos a mais do que a o procedimento tradicional.
Como a maior parte do clitóris fica localizada abaixo da pele, o cirurgião solta o ligamento que prende essa parte e a puxa para a superfície, com cuidado para manter intactos os nervos e vasos sanguíneos (feixe vasculonervoso dorsal) que geram o prazer.
O tecido é fixado na posição e coberto com um pedaço de mucosa bucal (retirado do interior da bochecha) ou vaginal, por ser um tecido macio e parecido com o revestimento natural da vulva.
A pele ao redor é dobrada sobre a ponta do clitóris e forma um “capuz”, evitando que o atrito direto cause dor no dia a dia.
Uma vez removido o tumor, os feixes nervosos são liberados e reposicionados para criar uma nova ponta clitoriana. Em seguida, cobrimos com um pequeno enxerto de mucosa bucal. Esse tipo de tecido se assemelha muito ao tecido encontrado ao redor da vulva. Essa abordagem ajuda a preservar a sensação clitoriana.
Tim Nijhuis, cirurgião plástico do Radboudumc
Expansão da técnica
O procedimento surge como uma opção para as pacientes com câncer de vulva e que sofreram mutilação genital. Aproximadamente 450 mulheres na Holanda são diagnosticadas com a doença a cada ano.
A técnica de reconstrução clitoriana está sendo introduzida em todo o país como parte de um programa de pesquisa científica. Além do Radboudumc, outros oito hospitais holandeses tratam câncer de vulva. Todos participam de um projeto de acompanhamento no qual oncologistas ginecológicos e cirurgiões plásticos serão treinados pelos desenvolvedores da técnica.
Segundo o Radboudumc, os próximos passos incluem realizar novos estudos para comprovar a efetividade do proceddimento e, assim, expandi-lo para outros centros da Holanda e de outros países.
Duas mulheres de 45 anos procuram atendimento médico para saber quando devem realizar a próxima mamografia. A primeira não apresenta histórico familiar de câncer de mama nem outros fatores relevantes de risco. A segunda tem mãe e irmã diagnosticadas com a doença antes dos 50 anos. Embora tenham a mesma idade, suas necessidades de acompanhamento podem ser bastante diferentes.
Esse exemplo ilustra uma questão fundamental na medicina contemporânea: não basta perguntar quando uma mulher deve começar a fazer mamografia. É igualmente importante compreender qual é o seu risco individual de desenvolver câncer de mama.
A idade continua sendo um dos principais fatores de risco, mas não é o único. Histórico familiar, predisposição genética, antecedentes pessoais, densidade mamária e determinados tratamentos realizados no passado podem modificar as recomendações de acompanhamento.
Isso não significa abandonar as diretrizes de rastreamento. Significa reconhecer que elas são o ponto de partida para um cuidado mais individualizado.
Por que a idade não conta toda a história?
O rastreamento do câncer de mama é uma estratégia de saúde pública destinada a identificar a doença em mulheres sem sintomas, preferencialmente em fases iniciais, quando existem maiores possibilidades de tratamento eficaz.
No Brasil, o Ministério da Saúde atualizou, em 2025, suas orientações para o rastreamento mamográfico no Sistema Único de Saúde (SUS), estabelecendo como faixa prioritária a de mulheres entre 50 e 74 anos, com exames a cada dois anos. Para mulheres entre 40 e 49 anos, a realização da mamografia também deve ser considerada mediante informação sobre seus benefícios e possíveis riscos.
As recomendações internacionais não são inteiramente uniformes. Nos Estados Unidos, a US Preventive Services Task Force recomenda mamografia bienal dos 40 aos 74 anos, enquanto outras sociedades científicas adotam intervalos diferentes.
Essa diversidade de orientações não representa necessariamente uma contradição científica. Reflete diferentes interpretações sobre o equilíbrio entre benefícios, riscos e características das populações avaliadas.
A mamografia é um exame essencial para a detecção precoce, mas apresenta limitações. Pode produzir resultados falso-positivos, gerar investigações adicionais e identificar lesões que talvez nunca causassem manifestações clínicas, fenômeno conhecido como sobrediagnóstico.
Por outro lado, algumas mulheres apresentam risco elevado o suficiente para justificar acompanhamento mais intensivo, eventualmente iniciado antes da idade habitual de rastreamento. É nesse contexto que a avaliação individual ganha importância.
O que realmente modifica o risco de câncer de mama?
O histórico familiar é um dos primeiros aspectos a serem investigados. Ter mãe, irmã ou filha diagnosticada com câncer de mama, especialmente em idade jovem, merece atenção. Também são relevantes os antecedentes de câncer de ovário, os casos em múltiplos familiares e a ocorrência de câncer de mama em homens da família. É importante considerar tanto os parentes maternos quanto os paternos.
Entretanto, existe um equívoco frequente: acreditar que a ausência de histórico familiar significa ausência de risco. A maioria dos diagnósticos de câncer de mama ocorre em mulheres sem histórico familiar significativo da doença.
Alterações hereditárias em genes como BRCA1 e BRCA2 podem aumentar expressivamente a probabilidade de desenvolver determinados tipos de câncer. Quando há suspeita de predisposição hereditária, a avaliação especializada pode indicar aconselhamento genético e, em situações específicas, testes moleculares.
Outros fatores também merecem atenção, como radioterapia prévia na região do tórax em idade jovem e determinadas alterações identificadas em biópsias mamárias anteriores.
A densidade mamária é outra característica relevante. Mamas densas podem dificultar a identificação de lesões pela mamografia e estão associadas a maior risco de câncer de mama.
Isso, entretanto, não significa que toda mulher com mamas densas precise realizar automaticamente ultrassonografia ou ressonância magnética complementar. A decisão deve considerar o risco global e as evidências disponíveis.
O objetivo não é transformar cada fator de risco em um novo exame, mas reunir informações para orientar decisões mais adequadas.
Mais exames nem sempre significam mais proteção
É compreensível associar prevenção à realização frequente de exames. Entretanto, a qualidade do acompanhamento não deve ser medida apenas pela quantidade de procedimentos realizados.
Para mulheres com risco habitual, o rastreamento deve seguir recomendações fundamentadas em evidências, considerando idade, periodicidade e equilíbrio entre benefícios e possíveis danos. Já mulheres classificadas como de alto risco podem necessitar de estratégias específicas.
A American Cancer Society, por exemplo, recomenda mamografia e ressonância magnética anuais, geralmente a partir dos 30 anos, para determinados grupos de alto risco, incluindo mulheres com predisposição genética conhecida ou risco estimado ao longo da vida de aproximadamente 20% a 25% ou mais, conforme modelos apropriados.
Essa classificação precisa ser criteriosa. Ter uma familiar com câncer não determina, isoladamente, a necessidade de ressonância magnética, assim como não apresentar histórico familiar não elimina a importância do rastreamento.
Também é fundamental distinguir o rastreamento da investigação de sintomas. Uma mulher que percebe um nódulo persistente, secreção espontânea pelo mamilo (especialmente com sangue), retração recente da pele ou do mamilo, ou alterações suspeitas na mama deve procurar avaliação médica, independentemente da idade ou da data prevista para o próximo exame.
A presença de sintomas exige investigação diagnóstica, e não simplesmente aguardar o calendário de rastreamento.
Prevenir também significa cuidar dos fatores que podemos modificar
Nem todos os fatores de risco estão sob nosso controle. Não podemos modificar a idade, a herança genética ou os antecedentes familiares. Entretanto, algumas escolhas e condições de saúde podem influenciar o risco de desenvolver câncer de mama.
A prática regular de atividade física, a manutenção de um peso saudável, especialmente após a menopausa, e a redução do consumo de bebidas alcoólicas ou, preferencialmente, a abstinência delas são medidas relevantes. O acompanhamento médico também permite avaliar individualmente os riscos e benefícios de determinadas terapias hormonais.
É importante, contudo, distinguir prevenção de detecção precoce. Hábitos saudáveis podem contribuir para reduzir a probabilidade de adoecimento, mas não garantem proteção absoluta. Da mesma forma, a mamografia não impede o aparecimento do câncer: sua principal finalidade é identificar alterações antes do surgimento de sintomas, aumentando as possibilidades de tratamento oportuno.
Outubro Rosa: informação, acesso e cuidado individualizado
O Outubro Rosa representa uma oportunidade de ampliar o debate sobre a saúde da mulher para além da realização de exames. Precisamos falar sobre informação de qualidade, identificação de fatores de risco, acesso aos serviços de saúde e continuidade do cuidado.
A avaliação individualizada não deve ser entendida como um privilégio restrito a determinados grupos. Ela precisa fazer parte de uma assistência médica acessível, responsável e centrada nas necessidades de cada pessoa.
Duas mulheres podem ter a mesma idade e necessitar de estratégias diferentes de acompanhamento. O que não pode ser diferente é o direito à informação, à avaliação adequada e à investigação oportuna de qualquer alteração suspeita.
A melhor estratégia não é necessariamente realizar mais exames, mas oferecer o cuidado certo, no momento adequado, considerando o risco e a realidade de cada mulher.
*Texto escrito por Dr. Alexandre Pimenta, médico e responsável Técnico Nacional da AmorSaúde |CRM-MG 51971Médico