❌

Normal view

Acampadas violências | Por José Figueiredo Santos

18 October 2026 at 12:18

Há violências que irrompem nas ruas, de punho erguido e rosto descoberto, e outras que preferem a penumbra dos gabinetes, a respeitabilidade das instituições e a linguagem asséptica dos regulamentos. Umas empunham armas; outras manejam despachos, multiplicam procedimentos e invocam, com a fleuma dos irrepreensíveis, as inevitabilidades do sistema. Umas ameaçam pela força; outras exercem-na sem levantar a voz. Todas, porém, se tornam perigosas quando a razão capitula, o medo se instala e a força, perdida a vergonha, reclama para si o direito de governar.

O século XX, com a sua indústria triunfante, a massificação dos desejos e a burocratização da existência, deixou-nos uma lição que o nosso otimismo tecnológico parece obstinado em esquecer: o progresso das máquinas não obriga ao progresso dos homens. Aperfeiçoámos os instrumentos, multiplicámos as necessidades, catalogámos a vida em repartições cada vez mais minuciosas e construímos, em nome da eficiência, prodigiosas maquinarias estatais para administrar pessoas. Mas, nem por isso, aprendemos a viver melhor uns com os outros. A sociedade cresceu em organização e perdeu em comunidade; o indivíduo ganhou em informação, mas ficou-se pelo anonimato e pelo emudecimento da voz, e descobriu que entre o direito de participar e o poder efetivo de decidir se espraia, tantas vezes, um abismo regulamentado com todo o cuidado.

Não admira, pois, que os apelos à não violência sejam hoje recebidos, em certos círculos, como uma ingenuidade de salão, própria de quem nunca teve de enfrentar a brutalidade do mundo. Discute-se, com a desenvoltura de quem não arrisca a pele no argumento, a legitimidade dos meios violentos de resistência à opressão, como se a nobreza dos fins pudesse lavar a infâmia dos meios. Em tempos de violências acampadas à porta da razão, insistir na distinção entre poder e violência parece, por vezes, uma excentricidade académica. E, no entanto, é precisamente quando essa distinção começa a ser tratada como um luxo que mais importa defendê-la — sem confundir o poder político com o monopólio estatal da violência legítima, na formulação clássica de Max Weber.

Convém, a este propósito, regressar a Hannah Arendt. Para a pensadora, o poder nasce quando os homens agem em conjunto, sustentados pelo consentimento e pela capacidade de construir um espaço público comum. A violência, pelo contrário, é instrumental: precisa de armas, de máquinas, de dispositivos de coerção; carece, em suma, de meios que substituam aquilo que já não consegue obter pela adesão. Onde o poder vacila, a violência oferece-se como sucedâneo. Promete restaurar a autoridade, mas corrói-lhe os fundamentos; impõe obediência, mas não fabrica legitimidade. É capaz de calar uma praça D. João I ou um concentrado de Rossio, não de conquistar a confiança de quem nelas é calado. E pode destruir o poder com uma eficácia que nunca conseguirá reproduzir na sua construção.

Curem-se da ilusão, pois, os devotos do tacão, que tentam mascarar a fragilidade do poder elevando o tom da ameaça e a vulgaridade da coação, seja apelidando os outros de arruaceiros, seja ordenando que os encostem à parede. Repete-se à exaustão, entre o senso comum e certas teorias políticas, que o poder nasce do fuzil. Trata-se de um chavão de fácil encanto para quantos preferem a obediência cega ao acordo mútuo e o medo ao trabalho paciente do convencimento.

Uma arma pode impor silêncio, produzir submissão e espalhar terror. Mas o silêncio não é consentimento, a submissão não é adesão e o terror não é poder político. Quando uma autoridade precisa de recorrer incessantemente à força para provar que ainda manda, talvez já tenha perdido aquilo que a legitimava: a capacidade de ser reconhecida sem ter de se impor a cada instante.

De Paris ao Porto, de Lisboa a Moscovo, esta verdade não deveria carecer de demonstração. E, contudo, continuamos a comportar-nos como se a violência pudesse resolver aquilo que a política deixou por dirimir. Como se o estrondo dispensasse o argumento, a confrontação poupasse o trabalho de diálogo e a destruição fosse uma expedita forma de construção. Como se a cólera, pelo simples facto de ter uma causa por base, adquirisse o privilégio de todas as razões. A indignação pode ser justa; os seus instrumentos, porém, não ficam por isso absolvidos. Há causas legítimas defendidas por meios que acabam por as desfigurar — e há revoltas que, de tanto combaterem a opressão, começam a aprender-lhe os métodos.

A História oferece-nos um inventário eloquente destas frustrações. Da guerra do Vietname aos movimentos estudantis de maio de 1968, dos protestos contra a burocracia estatal às revoltas juvenis em França, reaparece, sob circunstâncias diversas, uma inquietação comum: a de cidadãos que se sentem afastados dos lugares onde o seu destino coletivo é decidido. A juventude protesta, por vezes com desordem e violência, contra sistemas que lhe exigem paciência, mas lhe recusam influência; que lhe prometem participação, mas que apenas lhe entregam formulários; que a convocam para a democracia e depois se espantam quando ela pretende exercer o direito de intervir. As instituições, entretanto, recomendam serenidade, abrem um processo, nomeiam uma comissão e aguardam que a indignação, por cansaço ou falta de expediente, acabe por desaparecer.

Já em 1981, Pierre Rosanvallon chamava a atenção para o facto de a crise do Estado social não se esgotar nas contas públicas nem no equilíbrio financeiro. Era também uma crise cultural e de legitimidade. A questão não consistia apenas em saber quanto custava o Estado, mas em compreender por que razão tantos cidadãos deixavam de reconhecer nele um instrumento da sua vontade coletiva. Quando a palavra parece inútil, a participação se converte em ritual e a ação política se reduz à escolha periódica de representantes, a violência insinua-se como atalho para a mudança. Promete chegar depressa onde o diálogo parece não chegar nunca. Esquece-se, porém, de que os atalhos também conduzem a becos sem saída — e de que o caminho de regresso é, muitas vezes, mais penoso do que aquele que nos levou até lá.

A violência possui, sem dúvida, uma racionalidade instrumental: escolhe meios, calcula efeitos, procura alcançar fins imediatos. O seu perigo começa quando os meios se emancipam dos fins, quando a destruição deixa de ser uma exceção e se transforma em linguagem, quando a brutalidade, de tanto se repetir, adquire a enganadora aparência da normalidade. Nesse momento, já não é apenas a ordem pública que está ameaçada. É a própria capacidade de uma sociedade se reconhecer como comunidade política, isto é, como lugar onde as diferenças podem coexistir sem que cada divergência se converta numa batalha.

É então que a política fica suspensa — e com ela a suspensão da possibilidade de resolver o conflito sem o entregar à brutalidade da força. Na sua expressão mais nobre, a política transforma antagonismos em debate, interesses em negociação e conflitos em decisões partilhadas. Não elimina a divergência, nem promete a harmonia fácil dos discursos oficiais; impede, isso sim, que a divergência tenha de acabar no esmagamento do adversário. A violência dispensa o argumento e exige a submissão. Uma vez aceite como método habitual, alimenta-se de si própria: cada golpe reclama uma resposta, cada resposta legitima um novo golpe, cada vítima descobre no sofrimento a justificação para a represália. No fim, todos se declaram ofendidos, todos reclamam justiça e quase ninguém se reconhece responsável pelo incêndio.

Talvez resida aqui uma das contradições mais inquietantes do nosso tempo: queremos viver em democracia, mas nem sempre aceitamos a disciplina interior que ela exige. Reclamamos autoridade, desde que não nos contrarie; exigimos liberdade, desde que não nos incomode; defendemos o diálogo, até ao instante em que o outro começa a falar. Somos tolerantes enquanto não somos contrariados, democratas enquanto a decisão nos favorece, pacifistas enquanto a indignação alheia não perturba a nossa tranquilidade. Depois, surpreendemo-nos com a violência, como se ela tivesse chegado de um mundo estranho e não fosse também, por vezes, o resultado das nossas renúncias, das nossas cumplicidades e da nossa incapacidade de escutar.

E assim vamos acampando violências, nas ruas e nas consciências, diante das instituições e dentro delas, convencidos de que a força poderá realizar aquilo que a razão, a justiça e a política não conseguiram. Esquecemo-nos de que a violência pode conquistar um espaço, impor uma vontade, derrubar uma porta ou silenciar uma multidão. O que não consegue, por si só, é construir uma casa comum. Para isso são precisos outros instrumentos, menos espetaculares e mais exigentes: confiança, responsabilidade, justiça, liderança e a difícil disposição de reconhecer no adversário alguém com quem teremos, a inevitabilidade de continuar a viver.

O confronto físico até pode ditar quem sai vitorioso, mas nunca definirá quem tem razão ou quem tem legitimidade. Afinal, a violência destrói, mas não tem a competência para reconstruir uma vida digna nos dias que se lhe seguirão.

E talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer antes de cada confronto, antes de cada palavra incendiária e de cada gesto que se julga irreversível: quando a violência toma o lugar da política, quem ganha verdadeiramente o poder — e quem fica, afinal, sem ele?

Leia também: Lideranças políticas que temos | Por José Figueiredo Santos

Lideranças políticas que temos | Por José Figueiredo Santos

17 October 2026 at 16:10

Não me seduz o hábito, tão português como a sardinha assada e a indignação de café, de distribuir qualificações às personalidades políticas como quem distribui cartas num serão de província. Também não é de dar crédito à ideia de que a simples ocupação de um cargo transforme um cidadão numa figura providencial. Se a cadeira ministerial tem a vantagem de permitir que uma pessoa se sente, não consta que lhe acrescente inteligência, carácter ou visão.

Ainda assim, seria razoável exigir de quem aspira a governar os outros algumas qualidades que o distingam dos demais. Chamam-lhes líderes. A palavra, outrora associada à autoridade, à visão e à capacidade de mobilização, parece hoje designar, por vezes, um campeão da resistência passiva, aquele que chegou ao lugar e conseguiu permanecer nele sem que ninguém o desalojasse.

A oposição é, por natureza, um terreno propício ao surgimento de líderes. Quando o poder hesita, pode propor; quando o Governo falha, pode apresentar alternativas; quando o país se inquieta, pode demonstrar que existe outro caminho. É, pois, desconcertante olhar para um dos partidos fundadores da democracia portuguesa e encontrar tamanha dificuldade em fazer emergir uma figura capaz de lhe devolver ambição, entusiasmo e sentido de futuro.

O espetáculo é, por vezes, confrangedor. De um lado, um espanto burocrático; do outro, uma espécie de fofura política, tão embalada na sua moderação que até as críticas parecem pedir licença antes de sair. Uma política de pantufas, sem arestas, sem sobressaltos e sem o inconveniente de acordar alguém.

Sobre a Administração Interna, os protagonistas e as polémicas ocupam o seu espaço. Sobre a TAP, foi Pedro Santos quem veio esclarecer. Sobre a Economia, Centeno continua a ser uma referência incontornável no confronto e na clarificação. Quando chega a vez da liderança da oposição, instala-se uma mornice de discursos redondos, declarações prudentes e ideias previamente submetidas a uma comissão de segurança.

Fala-se de alternativa, mas nem sempre se percebe qual; fala-se de futuro, mas o caminho permanece envolto em neblina; fala-se de liderança, mas pratica-se uma cautelosa administração das expectativas. O país pede um rumo e recebe uma intenção, pede uma ideia e recebe uma promessa de reflexão.

Ora, ser líder não consiste em comparecer com pontualidade, apertar mãos com urbanidade e pronunciar frases convenientemente vagas para que todos possam concordar.

Um líder precisa de comunicar com clareza, estabelecer prioridades, inspirar confiança e assumir responsabilidades. Precisa de empatia genuína, de capacidade para agregar vontades e, sobretudo, de coragem. Não se exige um incendiário, mas alguém que tenha a ousadia de defender uma ideia, a firmeza de tomar decisões.

A moderação é uma virtude quando nasce do discernimento. Quando nasce do medo de desagradar, não passa de uma apagada prudência eleitoral de gravata bem ajustada.

Também a apresentação conta. Não porque a política deva transformar-se num concurso de elegância, embora alguns pareçam acreditar que um fato bem cortado constitui meia reforma do Estado, mas porque a postura e a expressão devem transmitir confiança e autoridade. O problema surge quando a embalagem se transforma no principal argumento de venda e o conteúdo fica adiado para a próxima legislatura.

Há pessoas que entram numa sala e mexem com o ambiente. Outras entram, sentam-se e deixam tudo exatamente como estava. Ambas podem ser excelentes pessoas; nenhuma se torna líder apenas por isso.

Entretanto, a sociedade portuguesa parece bloqueada num estranho impasse. À esquerda, à direita ou ao centro, multiplicam-se as hesitações e os cálculos. Os problemas acumulam-se, os cidadãos tornam-se mais exigentes, mas uma parte da classe política continua a comportar-se como se cumprir o ritual democrático bastasse para merecer confiança.

Não basta. O eleitor já não procura apenas alguém que saiba falar; procura alguém que tenha alguma coisa para dizer. Há discursos pronunciados de forma tão impecável que não deixam vestígios na memória, nem vincos no espaço público: entram pelo ouvido, atravessam a expectativa e desaparecem sem produzir sequer a perturbação de uma ideia.

É certo que a liderança se aprende e aperfeiçoa. Mas uma coisa é aprender a liderar; outra é passar anos no lugar à espera de que a competência se manifeste, como um milagre administrativo.

E o entusiasmo? Onde está ele?

Não falo da agitação artificial dos comícios, mas daquela energia capaz de transformar uma ideia numa vontade coletiva. Quando ela falta, sobra a gestão do quotidiano: uma declaração num canal de TV, uma reunião acolá, uma promessa embrulhada com cuidado e a esperança de que a conjuntura resolva aquilo que a personalidade não consegue resolver.

E assim chegamos ao nosso moderado: bem-comportado, gravata impecável, voz serena e uma louvável preocupação de não partir um prato. É possível que venha a ser um bom ministro, competente na gestão de dossiers e prudente na decisão. Não seria justo negar-lhe essas virtudes. Mas há uma diferença entre administrar uma pasta e conduzir um partido, entre gerir uma estrutura e inspirar uma comunidade.

Nas aldeias, costuma dizer-se que as pessoas são para aquilo para o que nascem. Não será uma sentença definitiva, pois há capacidades que se conquistam com trabalho. Mas a política parece ter esquecido uma verdade elementar: nem todos os lugares servem a todas as pessoas, e nem todos os que chegam ao topo estão preparados para ocupá-lo.

Talvez o drama da nossa classe política resida justamente na facilidade com que confunde a ausência de escândalo com a presença de mérito, a prudência com a visão e a sobrevivência partidária com a capacidade de mobilização.

Continuamos, assim, a assistir ao desfile dos que bem dominam a arte de não desagradar a ninguém. Falam sem se comprometer, prometem sem se expor e permanecem sem transformar. Uma qualidade preciosa para quem pretende passar despercebido.

Para quem pretende liderar o país, já é outra história.

Leia também: Salas cheias de futuros vazios? | Por José Figueiredo Santos

Que República? | Por José Figueiredo Santos

4 October 2026 at 16:00

Diz-se que a palavra república significa “coisa pública” e que tem parentesco com a ideia de serviço público. É curioso como certas palavras, depois de muito usadas, começam a perder o significado e a desbotar. A expressão “serviço público”, por exemplo, parece ter encontrado uma segunda vocação: em demasiadas ocasiões, serve para designar uma espécie de agência de colocação de amigos, companheiros de viagem e fiéis servidores dos partidos que, neste país, aprenderam a andar de braço dado com a governação — sempre em nome do interesse público, naturalmente.

Não se pede competência. Pede-se confiança.

Não interessa tanto aquilo que uma pessoa sabe. Interessa mais quem sabe dela.

E assim se vai erguendo uma aristocracia sem sangue azul, embora com gasolina paga pelo Estado. Uma nobreza sem títulos, mas com motorista. Sem castelo, mas com gabinete. Sem espada, mas com cartão de crédito institucional. Sem brasão, mas com assessores encarregados de explicar ao povo a elevada dignidade de quem, por uma dessas coincidências democráticas, nasceu para servir a pátria a partir de uma cadeira bem confortável.

A velha aristocracia tinha o cuidado de nascer com privilégios.

A nova descobriu que também se pode ser eleita para eles.

Eis uma das ironias mais persistentes da História: combatemos durante séculos os privilégios hereditários e acabámos por reinventá-los sob a forma de privilégios partidários.

Trocámos os laços do sangue pelo cartão de militante, os brasões pelas siglas partidárias e, em alguns casos, a árvore genealógica pelo organograma do partido.

A Revolução prometeu cidadãos. Aparentemente, trazia também um pequeno anexo sobre clientelas.

O voto deveria ser uma ferramenta de vigilância, uma espécie de olho que o povo empresta ao poder para garantir que este não adormece.

Todavia, de quatro em quatro anos, esse olho parece transformar-se numa procuração.

E lá vamos nós, boletim na mão, autorizando outros a repartir aquilo que é de todos — com a esperança, sempre enternecedora, de que se lembrem de nós quando chegar a hora de repartir.

Os parlamentos deveriam ser escolas de virtude cívica.

Às vezes parecem escolas, sim. Só não é evidente, a olho nu, qual é a disciplina lecionada.

Há quem aprenda rapidamente a garantir um lugar antes de aprender a servir o país. Há quem descubra que a política também oferece excelentes oportunidades de formação profissional. E há quem consiga transformar uma passagem pela juventude partidária numa verdadeira carreira de longa duração.

Que o digam os jotinhas — essa extraordinária espécie política que parece nascer já com experiência profissional, contactos e uma familiaridade desconcertante com os corredores certos.

Enquanto isso, o cidadão comum vai estudando uma ciência que não consta dos currículos: a ciência de sobreviver sem padrinhos.

Aprende que o mérito é uma criatura admirável, mas pouco recomendável quando insiste em andar sozinha.

O currículo universitário, ou outro que seja, pode ser extenso, brilhante, até luminoso. Ainda assim, poderá valer menos do que uma folha A4 com os contactos certos, uma fotografia ao lado da pessoa certa e, sobretudo, uma impressionante capacidade para estar disponível quando for necessário.

Um jantar pode pesar mais do que uma licenciatura. Uma amizade cultivada durante vinte anos pode render mais frutos do que vinte anos de trabalho.

Há árvores que dão sombra. Outras dão nomeações. E algumas, felizmente para quem sabe cultivá-las, dão ambas as coisas.

Talvez por isso tantas inteligências se prestem a abandonar o país. Não fogem apenas dos magros salários. Também fogem de uma humilhação mais funda: a de viver num lugar onde o talento precisa, demasiadas vezes, de pedir licença à influência para poder entrar.

E a influência, essa senhora bem relacionada, raramente espera na fila.

Na verdade, parece ter cartão de acesso prioritário.

E ainda há quem tenha o arrojo de criminalizar o milagroso poder da cunha. Então, queremos o país todo numa penitenciária?

Enquanto isso, multiplicam-se os discursos sobre transparência, ética, rigor, renovação e responsabilidade.

São palavras muito bonitas. Tão jeitosas que, depois de polidas, já quase não se consegue ver aquilo que escondem.

Pronunciam-se nos ecrãs, colocam gravata, sentam-se atrás de púlpitos, recebem aplausos e, terminada a cerimónia, regressam ao armário das palavras, onde aguardam, com toda a paciência deste mundo, a próxima ocasião solene para voltarem a sair.

A transparência, essa, deve ser particularmente difícil de encontrar, porque parece estar sempre a ser anunciada e raramente localizada.

Mas a realidade tem um defeito imperdoável: não respeita discursos.

Insiste em continuar ali.

E o cidadão, que talvez não saiba explicar a Constituição, percebe perfeitamente quando alguma coisa cheira a privilégio.

Os povos raramente são enganados apenas pelas palavras. Também são adormecidos pelos hábitos, pela cultura.

E talvez esta seja uma das formas mais perigosas da corrupção: aquela que deixa de escandalizar.

Primeiro, alguém favorece um amigo. Depois, outro faz o mesmo. Avoluma-se e multiplica-se, como bola de neve, a cultura da cunha e, perante ela, surge a pergunta inevitável: quem vou eu agora incriminar?

Finalmente, alguém explica, com o ar mais inocente do mundo, que sempre foi assim.

E quando o injusto se torna habitual, passa a vestir-se de normalidade.

É o rés-do-chão da cidadania: ninguém gosta particularmente da decoração, mas todos parecem resignados a viver lá.

O privilégio deixa então de parecer privilégio. Torna-se apenas mais um elemento da paisagem do país, como o café da esquina, a repartição pública que não atende telefones ou o trânsito infernal das manhãs.

A democracia, nessa altura, corre o risco de conservar as suas cerimónias abrilistas enquanto vai perdendo o espírito. Arrisca-se a tornar-se um rito vazio, sem substância, a ficar com a casca de abril e perder o miolo.

O eleitor comum deposita o voto na urna e regressa à vida.

O eleitor influente deposita pessoas.

E há depósitos que rendem convenientes juros durante décadas.

Continuamos a votar, a contar votos, a afirmar que este é um “poder democrático”.

E é. Pelo menos no calendário, nos boletins e nas cerimónias. Valha-nos isso.

Porque uma democracia pode conservar o calendário e perder a consciência.

As instituições não morrem apenas quando alguém lhes aponta uma arma.

Às vezes morrem, embora mais devagar, quando ninguém já se incomoda.

É uma morte resignada, sem sirenes, sem tanques nas ruas e sem majores-generais na televisão.

Há apenas cidadãos cansados, a encolher os ombros.

E talvez seja esse o mais silencioso dos golpes de Estado: aquele em que o cidadão deixa de acreditar que o Estado lhe pertence e começa a vê-lo como propriedade de quem conseguiu chegar primeiro ao pote.

As antigas cortes sustentavam-se sobre uma crença simples: alguns homens teriam nascido destinados a mandar.

A democracia nasceu para dizer precisamente o contrário: ninguém nasce dono do poder. Todo o poder é um empréstimo temporário feito pelo povo.

E todo aquele que recebe um empréstimo deveria, pelo menos, ter a delicadeza de não chamar propriedade privada àquilo que lhe foi confiado.

Nada disso deveria ser particularmente difícil de entender.

O problema é que, neste país, até o óbvio parece precisar de concurso público.

E, se houver concurso, convém naturalmente saber quem está no júri.

Porque o verdadeiro problema talvez esteja numa palavra aparentemente inocente e tantas vezes usada em nome de todos: o “nós”.

Há quem a pronuncie para falar do país. Há quem a use para falar do partido.

E há quem, por cá, tenha a firme convicção de que a primeira pessoa do plural é apenas uma maneira elegante de dizer:

“eu e os meus.”

Leia também: Experiência onírica de primeiro-ministro | Por José Figueiredo Santos

❌