❌

Normal view

Sexo depois dos 40 e 50: o desejo diminuiu ou apenas mudou?

24 October 2026 at 07:30

Existe uma ideia bastante disseminada de que o desejo sexual diminui naturalmente com a idade e que, depois dos 40 ou 50 anos, resta apenas aceitar essa mudança. A realidade é muito mais complexa.

A sexualidade pode se modificar ao longo da vida, mas não existe uma idade a partir da qual desejo e prazer devam necessariamente desaparecer. Algumas mulheres percebem redução importante da libido durante a transição para a menopausa. Outras praticamente não observam mudança. Há ainda aquelas que passam a viver a sexualidade de maneira mais satisfatória nessa fase.

Por isso, quando uma paciente me diz que perdeu o desejo, a pergunta não deveria ser apenas “como estão seus hormônios?”. Precisamos entender o que está acontecendo com aquela mulher.

Sono ruim, estresse, ansiedade, depressão, doenças crônicas, alguns medicamentos, alterações da imagem corporal, sobrecarga de trabalho, rotina familiar e a qualidade do relacionamento podem interferir na libido. Muitas vezes, vários desses fatores estão presentes ao mesmo tempo.

Nem todo desejo começa espontaneamente

Existe ainda uma questão pouco discutida. Nem sempre o desejo sexual surge antes da aproximação ou do estímulo. Em relacionamentos mais longos, especialmente, algumas mulheres apresentam aquilo que chamamos de desejo responsivo. A vontade pode aparecer depois do início da intimidade, do toque, da proximidade emocional ou da excitação, e não necessariamente como um impulso espontâneo que surge durante o dia.

Isso não significa que exista algum problema. Esperar que a sexualidade aos 50 funcione exatamente como aos 20 pode criar uma sensação de inadequação que não corresponde necessariamente a uma disfunção. O que merece investigação é uma mudança persistente que provoque incômodo, sofrimento ou repercussão na vida da mulher ou do casal.

Quando o corpo muda, o sexo também pode precisar mudar

A transição para a menopausa produz alterações hormonais reais. A redução do estrogênio pode modificar os tecidos da vulva e da vagina, diminuir a lubrificação e favorecer ressecamento, ardor e dor durante a relação.

Esse conjunto de alterações faz parte da síndrome geniturinária da menopausa. A consequência pode criar um círculo difícil de romper. Se a relação começa a doer, é natural que a mulher passe a antecipar o desconforto. A excitação pode diminuir, a musculatura do assoalho pélvico pode ficar mais tensa e o sexo passa a ser associado a uma experiência desagradável. O que inicialmente era uma alteração física acaba repercutindo também sobre o desejo. Por isso, dizer simplesmente que a mulher “perdeu a libido” pode esconder o verdadeiro problema.

Há diferentes possibilidades de tratamento para os sintomas geniturinários, desde hidratantes e lubrificantes até terapias hormonais locais, laser e outras estratégias, escolhidas de acordo com os sintomas, histórico clínico e características de cada paciente.

Também pode ser necessário adaptar a própria experiência sexual. Mais tempo para excitação, mudança de posições, comunicação sobre desconforto e abandono da ideia de que toda relação sexual precisa seguir o mesmo roteiro podem fazer diferença.

Hormônio não explica tudo — e não resolve tudo

A menopausa tornou-se um assunto muito mais discutido nos últimos anos, o que é positivo. Mas isso também pode produzir a impressão de que qualquer mudança na sexualidade depois dos 40 ou 50 anos é consequência hormonal e pode ser resolvida com reposição. Não é tão simples.

A terapia hormonal da menopausa pode melhorar sintomas que interferem indiretamente na vida sexual, como ondas de calor, alterações do sono e sintomas geniturinários, quando existe indicação adequada. Mas ela não deve ser apresentada como um tratamento universal para recuperar desejo.

A testosterona também ganhou espaço nessa discussão. Há evidência para seu uso em situações específicas, principalmente em mulheres na pós-menopausa com transtorno do desejo sexual hipoativo adequadamente diagnosticado. Isso é muito diferente de prescrever testosterona para qualquer mulher que relate redução da libido. Antes de tratar, precisamos descobrir o que estamos tratando.

Saúde sexual também deveria entrar na consulta

Talvez uma das maiores barreiras continue sendo o silêncio. Muitas mulheres não falam sobre dor, ausência de desejo ou dificuldade para chegar ao orgasmo porque imaginam que isso seja normal da idade. E muitos médicos ainda não perguntam.

Saúde sexual não é um detalhe separado da saúde. Uma mudança nessa área pode revelar sintomas da menopausa, efeitos de medicamentos, alterações emocionais, doenças, dificuldades no relacionamento ou simplesmente a necessidade de adaptar a sexualidade a uma nova fase da vida.

Também não existe obrigação de manter determinada frequência sexual. Algumas pessoas vivem bem com menos atividade sexual ou sem ela. O problema existe quando a situação é diferente do que aquela mulher deseja e provoca sofrimento.

Envelhecer modifica o corpo, as relações e as prioridades. É natural que a sexualidade também possa mudar. O que não deveríamos considerar natural é uma mulher conviver durante anos com dor, desconforto ou uma perda de desejo que a incomoda simplesmente porque acredita que, depois dos 40 ou 50, não há nada a fazer.

Desejo não tem prazo de validade. Mas talvez precisemos abandonar a expectativa de que ele permaneça exatamente igual durante toda a vida para compreender melhor as formas que a sexualidade pode assumir com o passar dos anos.

*Artigo escrito por Dra. Ana Horovitz – CRM/SP 111739 | RQE 130806 Ginecologista Membro da Brazil Health

❌