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O prefeito Ricardo Nunes precisa se informar melhor sobre as pessoas que o cercam ou pode acabar se complicando. Ontem (17/09), o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), com sete mandatos na Câmara e seis vezes presidente da Casa, foi alvo de um mandado de prisão temporária em uma operação policial que apura a infiltração do PCC no sistema público de transporte de São Paulo. Não havia sido preso ainda porque a polícia não conseguiu localizá-lo.
O jornalista Leonardo Sakamoto escreveu em sua coluna que, nos bastidores da política municipal, Leite era tratado como “segundo prefeito”. Só não foi o vice de Nunes na chapa para a prefeitura porque a operação Fim da Linha, em abril de 2024, já havia apontado sua relação com a empresa de ônibus Transwolff, acusada de lavar dinheiro para o PCC. Nunes foi obrigado a cancelar o contrato depois da operação e a substituiu por outras duas, uma delas também na lista das 12 entre as 22 empresas de ônibus que prestam serviço à prefeitura acusadas pelo Ministério Público de fazer parte da rede da facção criminosa.
Nunes sempre disse que não sabia de nada, e que não tem nenhuma implicação com o caso. Mas manteve as relações com Leite, que levou o União Brasil, que presidia em São Paulo, a apoiar a eleição de Nunes em 2024. Além do poder acumulado na prefeitura, Leite domina boa parte do eleitorado na Zona Sul da capital, sua base política, onde também é conhecido como patrono da Escola de Samba Terceiro Milênio, no Grajaú.
Em fevereiro de 2025, portanto depois da revelação das relações de Leite com a alta cúpula da Transwolff, Nunes nomeou seu filho, Alexandre Leite, secretário de Relações Institucionais da prefeitura (ele deixou o cargo este ano para concorrer a deputado federal). Mas Nunes parece não conhecer os negócios nem mesmo de aliados de longa data: a nova operação apontou Leite como “dono oculto e de fato” da Transwolff, que continua operando para o crime organizado. O que levou aos mandados de prisão contra o ex-vereador, um candidato a deputado do PL, Danilo Morgado, acusado de ter a campanha financiada pelo PCC e de Levi Oliveira, ex-presidente da SPTrans.
Nunes reafirmou seu “respeito à história de Leite”, apesar de o desembargador Sérgio Antônio Ribas, que autorizou as investigações e os mandados de prisão, ter esclarecido que, além da Transwolff, “Milton Leite da Silva é citado nominalmente [nas investigações] por diversas vezes como responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas pelo PCC”. O MP ainda sustenta, com base em depoimentos de policiais militares, que a escolta da cúpula da Transwolff era feita pela PM, a cargo do governador.
Tarcísio de Freitas, outro aliado de Nunes que jura combater o crime organizado, também rasgou elogios a Leite, há menos de três semanas, ao comparecer ao lançamento da campanha de seus filhos, Alexandre e Milton Leite Filho, no reduto eleitoral na Zona Sul de São Paulo. E agradeceu à família Leite: “Assim que nós chegamos em São Paulo, nós fomos abraçados por eles, uma parceria enorme, e o tempo todo eu vi a preocupação com as pessoas. Gente que gosta da gente, gente que gosta de vocês”.
Nunes está encrencado também por conta de outro aliado político, o próprio senador Flávio Bolsonaro, a quem se dedica a ponto de ser alvo de uma representação feita ao Ministério Público Eleitoral por duas candidatas a deputada do PSOL que o acusam ter usado a estrutura da prefeitura em um ato de campanha do candidato a presidente do PL em São Miguel, na Zona Leste de São Paulo.
Flávio Bolsonaro, que é investigado pela PF desde julho por “possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros”, conta com o apoio de Nunes e do governador Tarcísio, que organizaram a vinda de mais de 300 prefeitos para o seu 7 de setembro. Nunes distribuiu camisetas com dizeres favoráveis a Mendonça, o “herói” da direita evangélica, no evento, e também está enrolado no caso Dark Horse. O ministro Flávio Dino incluiu nos inquéritos o contrato investigado pela Polícia Civil de São Paulo e pela Polícia Federal feito por Nunes com uma ONG da produtora do filme, Karina Gama.
Pelo contrato firmado com a prefeitura em junho de 2024, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), de Karina, receberia 108 milhões de reais para instalar Wi-Fi grátis em 5.000 pontos da periferia de São Paulo em dois anos. Além de nem o ICB nem Karina jamais terem prestado um serviço desse tipo anteriormente, foram entregues apenas 3.200 pontos até maio deste ano, por valores maiores que o previsto: 113,9 milhões de reais.
Mas Nunes é mesmo um sujeito distraído. Em dezembro de 2024, uma apuração da Folha de S. Paulo revelou que o prefeito e sua família moraram durante quatro meses em um imóvel de luxo de um empresário que tem mais de 600 milhões de reais em contratos sem licitação de obras com a prefeitura. Fernando Marsiarelli, que aparece nesta foto com Nunes e Tarcísio, também cedeu dois imóveis para o chefe de gabinete da Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras da prefeitura, Eduardo Lovatto, que vejam só, é irmão da mulher de Marcola, o conhecido chefe do PCC, assassinada em uma briga da facção.
Nunes diz que alugou o imóvel sem saber que pertencia a Marsiarelli e disse que Lovatto era funcionário de carreira, embora ele tenha sido nomeado para o cargo estratégico na contratação de obras na gestão do atual prefeito. Mas esperou a campanha acabar para exonerar o cunhado de Marcola, também seu cabo eleitoral – Lovatto também é investigado por pedir votos para Nunes no pátio da Potenza, outra construtora com contratos sem licitação com a prefeitura.
Além de compartilharem laços com suspeitos de formação de organização criminosa, Nunes e seu candidato a presidente parecem ter a mesma mania de usar imóveis alheios. No início da campanha, Flávio instalou seu comitê e gravou vídeos de campanha em um apartamento em um dos bairros mais caros de São Paulo que pertencia a Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, e foi vendido por Zettel pouco antes de ser ocupado por Flávio com prejuízo de 2 milhões de reais em relação ao valor que ele pagou na compra para o advogado Willer Tomaz, amigo do senador, em transação registrada dois meses depois de Zettel ter sido preso e seus bens, bloqueados. Procurado pela Piauí, Tomaz disse que não conhece Zettel nem Vorcaro, sem tocar no nome de Flávio Bolsonaro.
Não é à toa que a família Bolsonaro já foi chamada de “franquia política” por envolver tantos negócios e parceiros na obtenção de vantagens financeiras e da apropriação de recursos públicos – das rachadinhas às emendas parlamentares, da lojinha da Kopenhagen aos imóveis milionários comprados com dinheiro vivo, de aliança com milicianos a acusados de envolvimento com o CV indicados por Flávio Bolsonaro para cargos no governo do Rio.
Sabe o quê também funciona em sistema de franquia? Isso mesmo, as facções criminosas, cada vez mais infiltradas no Estado, como mostra um estudo realizado este ano por pesquisadores da Universidade do Amazonas. Boa sorte para quem aposta em Nunes, Tarcísio e Flávio Bolsonaro para combater o crime organizado.
Enquanto pedem para os Estados Unidos interferirem no país com o pretexto do “narcoterrorismo”, Flávio Bolsonaro e seus aliados paulistas não parecem ter credenciais para combater o crime organizado.
Com o pai, Henrique Vorcaro, o irmão, Daniel Vorcaro, um primo, Felipe Cançado Vorcaro, e o marido, Fabiano Zettel, todos presos sob suspeita de fraude no Banco Master, Natália Vorcaro Zettel se mantém ativa no mundo dos negócios, com 54 empresas ligadas a ela, que somam mais de R$ 796 milhões.
Deste total, 37 estão sem anotação judicial, ou seja, livres para realizar movimentações financeiras. Natália aparece como representante legal ou administradora em 33 delas, como diretora em outras 13 e como presidente em 8.
A principal atividade das empresas é a participação em outras empresas, além de holdings não financeiras, investimentos, gestão de negócios e o mercado imobiliário. Natália é casada com Fabiano Zettel em regime de separação total de bens. Além dela, seu pai, Henrique, aparece como participante em 22 das empresas. O irmão Daniel Vorcaro, ex-dono do liquidado Banco Master, não consta oficialmente das sociedades, e Fabiano é sócio em apenas uma delas.
Deste total de empresas, 35 funcionam oficialmente no mesmo endereço: uma sala comercial em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Outras sete estão registradas no mesmo andar de um prédio na capital mineira. Algumas delas aparecem como sócias de outras.
Outros empresários também aparecem como sócios ou dirigentes das empresas listadas, tais como Francisco Stehling Bisneto, Pedro Henrique Barbosa da Cruz, Fernando Alves Vieira e Thiago Assumpção Henriques. Eles já foram citados em investigações sobre irregularidades do Banco Master.
Henriques também teve seu nome levantado como possível depoente na CPI das Bets, como diretor da Viacap, uma empresa de capitalização, que faz rifas e contratou diversos influenciadores. Vieira apareceu como garantidor em negócios relacionados às Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs).
Representação criminal no MPF
Os negócios fizeram com que a pastora se tornasse alvo de uma representação criminal à Procuradoria Regional da República em São Paulo, proposta pelo deputado federal Kiko Celeguim (PT-SP) e por seu pai, o deputado estadual paulista Maurici (PT). Os parlamentares apontam indícios de lavagem de dinheiro e de ocultação de bens na atuação empresarial de Natália, com base na movimentação financeira e nos negócios imobiliários do conjunto de empresas a ela interligadas.
O Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo confirma que a representação foi protocolada e segue em andamento. Em resposta à solicitação da Agência Pública, a assessoria de imprensa da Procuradoria afirmou que não pode fornecer mais informações sobre a tramitação do caso, por se tratar de segredo de Justiça.
Os parlamentares apontam que as empresas realizaram uma série de operações, principalmente na área imobiliária, em São Paulo e, por isso, a investigação dos negócios pode ser conduzida pela regional paulista. Em uma apuração prévia, eles teriam identificado uma série de suspeitas de irregularidades. No total, analisaram a compra de 13 imóveis por Natália, sendo cinco em São Paulo e os demais na região metropolitana de Belo Horizonte, e de 15 imóveis da Ephesus, sendo um em São Paulo e os demais em Minas Gerais. A Ephesus Empreendimentos e Participações é uma peça importante na teia formada em torno de Natália Vorcaro. A pastora aparece como representante legal da empresa, que é, ao mesmo tempo, sócia de outras empresas do grupo e tem outras empresas ligadas à Natália como sócias.
Os parlamentares citam como exemplo quatro terrenos adquiridos em Sete Lagoas (MG), cujo valor de compra foi de R$ 2,5 milhões e que, posteriormente, alcançaram R$ 10 milhões no leilão. Eles foram negociados pela Mirante Fidalgo Empreendimentos Imobiliários, pertencente a Aroldo Rodrigues da Silva. O empresário já foi citado outras vezes no caso do Banco Master, como na utilização de terrenos superfaturados para a compra do banco por Vorcaro e também em movimentações financeiras antes da liquidação do banco, para dificultar o pagamento aos credores.
As aquisições foram realizadas pela Superávit Participações, representada por Natália, diretora da empresa. Posteriormente, a empresa passa a se chamar Athenas Participações e tem como único sócio Márcio Alexandre Saito. Ele também foi citado no caso Master como ex-administrador da Entre Investimentos, que foi liquidada pelo Banco Central.
No negócio também aparecem a Entre Investimentos e Participações como devedora fiduciária e o Banco Master como credor. A Entre é representada no negócio por Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”, cuja delação premiada foi recentemente homologada.
Freixo é citado em outros escândalos envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master, inclusive no envio de R$ 61 milhões a um fundo ligado a Eduardo Bolsonaro, para supostamente bancar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Foi o ministro André Mendonça quem homologou o acordo de delação premiada firmado entre Freixo e a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Procurada, a Polícia Federal (PF) não informou à reportagem se Natália Vorcaro Zettel é investigada. Natalia também não retornou os contatos da reportagem.
O que pesa contra a família de Natália Vorcaro Zettel
Daniel Vorcaro é investigado por crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção e fraudes financeiras. Ele já tentou algumas vezes, sem sucesso, negociar uma delação premiada. O banqueiro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, no aeroporto de Guarulhos, quando tentava deixar o país, após uma suposta tentativa de venda do banco, intermediada pelo Fictor no mesmo dia em que o Master foi liquidado. Em março último, ele foi preso sob a suspeita de tentar interferir nas investigações. Junto com ele, foi preso também Luiz Phillipi Machado de Morais Mourão, o Sicário, acusado de comandar o grupo de intimidação a serviço do banqueiro. Sicário se suicidou na prisão.
Fabiano Zettel foi preso na mesma fase das investigações, acusado de participação em fraudes financeiras e de efetuar pagamentos à milícia.
Henrique Vorcaro, pai de Daniel e Natália, foi preso em maio, acusado de fraude à execução, estelionato e lavagem de dinheiro. Ele é apontado como quem demanda serviços e efetua os pagamentos dos integrantes de uma estrutura paralela de vigilância e intimidação).
Primo do banqueiro, Felipe Cançado Vorcaro também foi preso em maio. Ele é acusado de ser o intermediário de pagamentos de Vorcaro a políticos, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Felipe chegou a ser alvo de um pedido de prisão em janeiro, mas conseguiu fugir em um carrinho de golfe do condomínio onde estava, em Trancoso (BA).
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Maio de 2021. A média diária de mortos pela covid estava perto de dois mil. Na imprensa, circulavam notícias de que o governo federal havia deixado sem resposta as ofertas de venda de milhões de doses da vacina do Instituto Butantan e da Pfizer. Em dezenas de países pelo mundo, a imunização estava a pleno vapor – por aqui, estávamos imunizando idosos com mais de 60 anos e pessoas com comorbidades, já que o governo não adquirira imunizantes o bastante para atender a população. O então presidente Bolsonaro, por sua vez, havia esbravejado dois meses antes: “Tem idiota nas redes sociais, na imprensa [dizendo] ‘vai comprar vacina’. Só se for na casa da tua mãe!”
Também naquele mês transcorria no Senado a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, que visava investigar os possíveis culpados pela tragédia que, naquele momento, havia ceifado mais de 450 mil vidas no país. Como resultado da CPI, foi produzido um relatório que recomendou o indiciamento de diversas pessoas, muitas delas integrantes do governo à época. Cinco anos depois, nas eleições deste ano, alguns destes investigados pela CPI da Covid querem o seu voto.
Um levantamento realizado pela Pública identificou que, dos 81 nomes que constam no relatório final da CPI com pedido de indiciamento, 13 são candidatos nas eleições deste ano.
Um deles é o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à presidência da República. Cinco miram o Senado: Wilson Lima (União-AM), Marcelo Queiroga (PB), Carlos Jordy (RJ), Bia Kicis (DF) e Carlos Bolsonaro (SC), filiados ao PL. Cinco tentam a vaga de deputado federal: Eduardo Pazuello (RJ), Nise Yamaguchi (SP) e Osmar Terra (RS), todos pelo PL, e Onyx Lorenzoni (RS) e Ricardo Barros (PR), pelo PP. E outros dois concorrem às assembleias estaduais: Mayra Pinheiro (PL-CE) e Marcellus Campêlo (União-AM).
Eduardo Pazuello comandou o Ministério da Saúde até março de 2021, auge da crise da falta de oxigênio em Manaus e do “kit covid” com cloroquina. Ele foi substituído por Marcelo Queiroga no cargo, enquanto Mayra Pinheiro – a “capitã cloroquina” – seguia na Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde defendendo o tratamento precoce.
No Amazonas, o então governador Wilson Lima administrava o estado quando aconteceu o colapso sanitário com falta de oxigênio em Manaus, com apoio de seu secretário de Saúde, Marcellus Campêlo. Nise Yamaguchi não tinha cargo formal no governo Bolsonaro, mas se uniu ao deputado Osmar Terra como principais vozes do “tratamento precoce” perante Bolsonaro e a opinião pública.
Cemitério de Manaus onde estão enterradas vítimas da covid
No Congresso e no núcleo político, Onyx Lorenzoni (então ministro do Trabalho/Previdência) geria o auxílio emergencial, e Ricardo Barros, líder do governo na Câmara, foi investigado pela CPI por causa das negociações da vacina indiana Covaxin – negociadas por 15 dólares a dose, sendo que o valor estimado era de pouco mais de um dólar. Já Bia Kicis, Carlos Jordy e Carlos Bolsonaro não tinham funções executivas na resposta sanitária, mas atuaram nas redes, divulgando negacionismo e críticas a medidas de isolamento e vacinação. O mesmo motivo fez com que a CPI da Covid investigasse o então senador Flávio Bolsonaro.
Apesar do pedido da CPI para que o Ministério Público (MP) investigasse essas pessoas, a Procuradoria-Geral da República (órgão máximo dos MPs), comandada à época por indicados por Jair Bolsonaro, pediu o arquivamento de todas as denúncias.
127 mil mortes que não foram evitadas
De todos os investigados, Pazuello é o dono da mais extensa ficha corrida de possíveis crimes. Segundo os senadores, há indícios de que Pazuello tenha incorrido em emprego irregular de verbas públicas, prevaricação (quando um agente público deixa de cumprir seu dever para satisfazer interesses escusos), comunicação falsa de crime, crimes contra a humanidade (nas modalidades extermínio, perseguição e outros atos desumanos) e em epidemia com resultado de morte.
Ao serem confrontados com essa lista de possíveis crimes, um dos argumentos mais comuns dos membros do então governo Bolsonaro era de que a culpa recairia exclusivamente no vírus e que não havia muito o que fazer. No relatório da CPI, os senadores demonstraram que não foi bem assim.
Não fosse a demora da gestão Bolsonaro em adquirir as vacinas, ao menos 127 mil óbitos poderiam ter sido evitados só em 2021, segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, do Instituto Butantan e da London School. O Brasil terminou a pandemia com mais de 700 mil mortos e com o título de vice-campeão no número absoluto de vítimas, atrás apenas dos Estados Unidos.
Os senadores lembraram então que, no período mais fatal da pandemia, Bolsonaro e Pazuello realizaram eventos públicos com aglomeração de apoiadores, ignoraram repetidos avisos dos corpos técnicos dos ministérios, desincentivaram o uso de máscaras e o distanciamento social e promoveram falsas curas para a doença. A CPI concluiu: “as normas [editadas pelo governo federal] apontam para uma estratégia de propagação do vírus conduzida de forma sistemática.”
Em meio à pandemia, Pazuello participou de evento com Bolsonaro – ambos sem máscara
Outra discussão que a CPI enfrentou é a do dolo – isto é, da vontade consciente de praticar um crime – que caberia a Pazuello e a alguns dos demais indiciados. “O governo federal criou uma situação de risco não permitido, expôs vidas a perigo concreto e não tomou medidas eficazes para minimizar o resultado, podendo fazê-lo”, concluiu o relatório.
Assim como Pazuello, foram recomendados os indiciamentos pelo crime de epidemia com resultado de morte da candidata a deputada estadual Mayra Pinheiro, da também médica Nise Yamaguchi, do deputado federal Osmar Terra, do ex-governador do Amazonas Wilson Lima, assim como de outro ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, o médico Marcelo Queiroga.
Além do crime de pandemia com resultado de morte, Pazuello, Lorenzoni e Mayra Pinheiro foram apontados pelos senadores como possíveis autores de crimes contra a humanidade “pelo foco no tratamento precoce e por terem feito de Manaus um laboratório humano”.
A afirmação decorre das provas de que o “kit covid”, composto por drogas sem efeito contra a doença, foi largamente distribuído no Amazonas por orientação do Ministério da Saúde, ao invés de incentivar que as pessoas ficassem em casa.
Incitação ao crime
Por estimular a população “a se aglomerar, a não usar máscara e a não se vacinar”, a CPI concluiu que Flávio Bolsonaro, que já era senador à época, “incitou as pessoas a infringirem determinação do poder público destinada a impedir a propagação de doença contagiosa”. Por essa razão, o atual candidato à presidência também teve seu indiciamento solicitado pelo conjunto dos senadores.
Em outubro de 2021, Flávio Bolsonaro rebateu as acusações em um vídeo em suas redes. “Isso aqui é uma vingança. E na parte que cabe a mim, ele [o senador Renan Calheiros, relator da CPI] está querendo que eu seja indiciado por incitação ao crime por causa de algumas postagens nas minhas redes sociais”.
A CPI apresentou provas de que Flávio Bolsonaro e seu irmão Carlos, bem como Osmar Terra, Onyx Lorenzoni, Ricardo Barros, Carlos Jordy e Bia Kicis publicaram em suas redes digitais “verdadeiras campanhas (…) com conteúdos claramente contrários às evidências científicas, tais como ataques inverídicos condenando o uso de máscaras e o distanciamento social, inverdades sobre uma suposta vantagem em se alcançar a imunidade de rebanho pela contaminação natural e afirmações falsas sobre as vacinas”.
Corrupção, prevaricação e formação de organização criminosa
Parte do ineditismo da CPI da Covid residiu nos tipos penais em que foram enquadrados os suspeitos – afinal, não é todo dia que vemos políticos acusados de crimes contra a humanidade e de epidemia com resultado de morte.
Houve também pedido de indiciamento de membros do governo Bolsonaro por delitos menos “inéditos”. É o caso de Mayra Pinheiro, Marcellus Campêlo, Wilson Lima, Queiroga e, uma vez mais, Pazuello. Todos tiveram seus indiciamentos sugeridos pelo Senado por prevaricação, enquanto Pazuello acumulou ainda a acusação de emprego irregular de verbas públicas.
Senadores fazem coletiva para apresentar relatório final da CPI da Covid
A prevaricação diz respeito, em parte, ao caso Covaxin, descrito na CPI por Luis Ricardo Miranda, chefe da coordenação-geral de logística do Ministério da Saúde na época, como “um esquema de corrupção pesado na aquisição das vacinas.” Miranda afirmou ainda que Bolsonaro estava a par das negociações acima do preço de 20 milhões de doses, assim como Pazuello.
Por supostamente ter integrado esse esquema corrupto de compra da Covaxin, o deputado Ricardo Barros é suspeito de formação de organização criminosa e improbidade administrativa – quando um agente público comete atos ilegais ou antiéticos.
Já os demais indicados por prevaricação citados nesta reportagem são suspeitos de, mesmo conscientes do iminente colapso do sistema de saúde de Manaus no início de 2021, quando internados morreram por falta de tubos de oxigênio nos hospitais, nada terem feito.
O julgamento que (ainda) não veio
Se, sob o governo Bolsonaro, a PGR não quis investigar os envolvidos, quatro anos depois, em setembro de 2025, aconteceu uma reviravolta: uma semana após condenar o ex-presidente Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, o Supremo Tribunal Federal, por ordem do ministro Flávio Dino, determinou a abertura de inquéritos policiais para investigar parte dos indiciados pela CPI da Covid.
Por ora, entre os citados nesta reportagem, escaparam dos inquéritos Mayra Pinheiro, Marcellus Campêlo, Pazuello, Yamaguchi, Queiroga e Wilson Lima.
Todos os candidatos foram procurados pela Pública, que quis saber como eles respondem às acusações e se acreditam que as suspeitas do passado recente influenciarão nas escolhas dos eleitores.
Apenas o deputado federal Ricardo Barros respondeu aos contatos. Ele afirmou ter “absoluta tranquilidade” em relação às acusações. “Todo o material produzido pela CPI foi analisado pela Procuradoria-Geral da República, que concluiu não haver indícios mínimos da minha participação em qualquer crime e pediu o arquivamento da apuração”, afirma. Barros duvida também de que as suspeitas serão um entrave às suas pretensões eleitorais.
Depois da publicação da reportagem, o candidato a deputado estadual Marcellus Campêlo afirmou que não há processo, investigação ou condenação que atribua a ele responsabilidade por irregularidades na condução das ações de enfrentamento à pandemia. Afirmou ainda que “dentro das condições enfrentadas na ocasião excepcional, ele e os servidores da Saúde fizeram tudo o que estava ao alcance para combater o avanço do vírus, ampliar a assistência e salvar vidas”, como a abertura de leitos, garantia de insumos hospitalares, de medicamentos e de recursos humanos.
De toda forma, não haverá tempo hábil para que, antes das eleições, os candidatos investigados pela CPI sejam julgados pela Justiça pelos crimes supostamente cometidos durante a pandemia. Caberá então aos eleitores, em 4 de outubro deste ano, decidir se estes candidatos merecem ou não ocupar um cargo público eletivo.
A cada R$ 10 gastos com prisões no ano passado, em 26 unidades federativas do país, R$ 6 foram dirigidos ao encarceramento de pessoas negras. Essa é uma das conclusões do estudo realizado pelo Centro de Pesquisa Justa sobre investimentos em segurança pública nos estados brasileiros. Segundo o levantamento, divulgado nesta quinta-feira, 17 de setembro, o investimento no sistema prisional dos estados chegou a R$ 22,3 bilhões, valor que não abrange apenas o Acre, que não forneceu os dados ao Justa. Desse total, R$ 13,7 bilhões foram gastos tendo como alvo pessoas pretas ou pardas.
“Cria-se uma falácia de que pessoas negras cometem mais crimes, por isso que estão presas. Mas isso é uma falácia. Na verdade, essas pessoas estão sendo selecionadas pela polícia e, depois, na frente do juiz, que poderia parar esse processo de seletividade penal, [e também frente ao] Ministério Público. [Essa] engrenagem vem sendo construída dessa forma, essas pessoas estão sendo o alvo dessa política de segurança”, explica a advogada do Justa, Sofia Fromer, doutora em saúde coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSC) de São Paulo. Para ela, o encarceramento da população negra confirma, mais uma vez, a existência de lógica punitivista e uma seletividade penal.
Egressos: um orçamento 5.423 vezes menor
Para a advogada, a medida mais eficiente para transformar a lógica do sistema carcerário seria investir em políticas públicas de reinserção para egressos do sistema prisional. Essa medida, entretanto, está longe de ser priorizada pelos estados brasileiros. Segundo o Justa, para cada R$ 5.423 gastos em 2025 com as polícias estaduais (militar, civil e técnico-científica), apenas R$ 1 é dirigido às políticas para egressos.
Na comparação com o ano anterior, o investimento permaneceu praticamente o mesmo, passando de R$ 18 milhões, para políticas exclusivas aos egressos em 2024, para R$ 19 milhões no ano passado. O valor corresponde, em média, a 0,001% de seus gastos totais levantados pelo estudo.
Entre as 26 unidades federativas avaliadas, 19 delas (72%) não investiram em políticas exclusivas para egressos. Tocantins teve dotação aprovada na Lei Orçamentária Anual, mas não utilizou os recursos. Rio Grande do Sul e Santa Catarina registraram investimentos pela primeira vez em 2025, com R$ 414 mil e R$ 177 mil, respectivamente. Alagoas e Tocantins deixaram de investir. São Paulo foi o estado que utilizou o maior recurso, R$ 13,3 milhões, seguido pelo Ceará, com R$ 3,8 milhões. Mato Grosso investiu R$ 781 mil, enquanto a Bahia despendeu R$ 482 mil.
Para Fromer, políticas para egressos são multissetoriais, envolvem saúde, educação, assistência social, além do campo do direito, “para que essas pessoas possam criar novas rotas e que não seja uma possibilidade que elas precisem voltar para as prisões”, salienta.
A advogada lembra que não existe pena perpétua no Brasil, portanto, o Estado precisa pensar como as pessoas egressas “vão conseguir um trabalho, renda, ter uma casa, ter os seus documentos. Ter o contato, por exemplo, [no caso] de mulheres presas, com os filhos que deixaram sob o cuidado de uma outra pessoa”, explica.
Policiamento ostensivo recebe a maior parcela do dinheiro
Polícias militares recebem a maior parte do orçamento em segurança pública dos estados analisados, 58,6% do total
O estudo também demonstra que se os recursos com a política para manter as pessoas fora das prisões são baixos, os gastos com a repressão são os mais altos. O total de investimentos envolvendo os 26 territórios foi de R$ 103,5 bilhões no ano passado, e a maior parte desses recursos foi para as Polícias Militares, R$ 60,7 bilhões, 58,6% do total, responsáveis pelo policiamento ostensivo da população. Já as Polícias Civis, que devem investigar os crimes, receberam R$ 22,2 bilhões (21,5%), e as Polícias Técnico-Científicas ficaram com a menor parcela, R$ 2,8 bilhões (2,7%), mesmo sendo responsáveis por atividades como perícia e produção de provas.
“Quando o investimento em policiamento ostensivo cresce sem que a investigação e produção de provas avancem na mesma proporção, o sistema amplia sua capacidade de prender sem necessariamente fortalecer sua eficiência para esclarecer os crimes. É uma lógica que ajuda a sustentar um modelo de encarceramento em massa, marcado por fragilidades na apuração da autoria e na produção de evidências”, avalia Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa.
Para Sofia Fromer, as prioridades político-orçamentárias dos estados em segurança pública não se dão ao acaso. “Realmente existe uma preferência dos estados em ter um orçamento para as polícias, em detrimento do sistema prisional e das políticas para egressos.” Segundo a advogada, o investimento maior nas polícias, em específico, nas polícias militares, cujo caráter é mais ostensivo nas prisões, aumenta o encarceramento, mas não muda a realidade.
Por que isso importa?
Em 2025, os gastos com polícias no Brasil ultrapassaram a marca dos R$ 100 bilhões, destaca o Centro de Pesquisa Justa.
Nos últimos três anos, os gastos com as polícias nos estados cresceu, em média, 9,7%, já o investimento no sistema prisional apenas 1,7% e 5,3% nas políticas exclusivas para egressos.
Ela explica que a pesquisa do Justa mostra que há um funil, onde a porta de entrada são os gastos com as polícias passando pelo investimento no sistema carcerário, até chegar aos gastos com as políticas para egressos. “[Temos] a ‘boca’ muito alargada do funil, ou seja, o orçamento ali é muito grande, e quando você vai afunilando, depois [estão] os gastos com o sistema prisional ainda menores, e com as políticas pregressas, quase inexistentes”.
Por outro lado, Fromer pensa em uma outra alternativa para mudar a dinâmica brasileira. Invertendo o funil, ou seja, investindo mais em políticas para egressos. Segundo ela, essa decisão criaria oportunidades para essas pessoas, diminuindo as chances de elas retornarem aos presídios.
“Quando o Estado destina bilhões à entrada e à permanência no sistema prisional, mas reserva valores residuais para a saída, limita as possibilidades de reinserção social e mantém condições que podem favorecer a reincidência”, complementa Luciana Zaffalon.
Modelo de El Salvador
Entre os atuais candidatos à presidência da República que concorrem este ano, pelo menos três deles, Renan Santos (Missão), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) já citaram concordar com o modelo de segurança pública propagandeado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, baseado, principalmente, na construção de mega-presídios. Questionada se essa inspiração poderia ser eficiente no Brasil, Sofia Fromer vê restrições.
“Existe, sim, uma falta de vagas nas unidades prisionais. Se você olhar uma foto de uma prisão, você vai ver que numa cela onde caberiam 12 pessoas, tem 24, às vezes até mais. [Vai ver] pessoas em uma condição de total insalubridade. […] Criar novas vagas não resolve o problema. Se resolvesse, não teríamos mais [o problema] porque as respostas para a segurança pública, para o sistema prisional, elas têm sido pautadas, muitas vezes, na construção de novas vagas”, explica a advogada.
“E aí a gente vê de novo isso aparecendo com os candidatos, muitos inspirados no Bukele, [citando] a construção de megas prisões. Isso não funciona aqui no Brasil, e, de outro ponto de vista, a gente não tem nem orçamento para fazer essas mega prisões”, acrescenta.
O Plano Pena Justa e sua eficácia
Em 2025, baseado na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 347 (ADPF 347), determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em outubro de 2023, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) junto com o Ministério da Justiça e da Segurança Pública (MJSP), elaborou o Plano Pena Justa, que consiste em enfrentar o estado de calamidade dos sistemas penitenciários brasileiros. O objetivo é melhorar a qualidade das prisões e dos serviços, além de controlar as superlotações nas penitenciárias, além de fortalecer a ressocialização dos indivíduos. O Plano Pena Justa propõe mais de 300 metas para serem cumpridas até 2027, e muitas são focadas em políticas para egressos.
O estudo do Justa mostra, entretanto, que a iniciativa, mesmo já tendo sido iniciada, ainda não apresentou resultados relevantes. Fromer entende que o Brasil começará a bater tais metas caso se debruce sobre a questão orçamentária. “Sem o orçamento, não é possível que todas essas metas do Plano se efetivem, os estados precisam ter o orçamento determinado para que, de fato, elas possam ser cumpridas”, pondera.
A Agência Pública lançou um e-book gratuito sobre desinformação na era digital, desenvolvido pela jornalista Natalia Viana, diretora executiva e cofundadora da Pública, e pelo tecnólogo Babak Fakhamzadeh. O material explica o que é desinformação, como funcionam as fake news e quais estratégias estão por trás da criação e circulação desses conteúdos. Também apresenta um guia prático com seis passos para identificar notícias falsas e aborda o método jornalístico, a inteligência artificial e os novos desafios para reconhecer informações na internet.
O e-book pode ser baixado gratuitamente. Basta se inscrever nas newsletters da Públicaneste link para receber o material diretamente no e-mail.
O guia apresenta diferentes tipos de desinformação, explica a estrutura de uma campanha para circular conteúdos falsos e os diferentes atores envolvidos em sua produção e distribuição, além de discutir os interesses que podem estar por trás disso.
O e-book é destinado para quem busca compreender melhor como a desinformação funciona e aprender a reconhecer conteúdos falsos ou enganosos. E pode ser utilizado por educadores, estudantes, organizações, jornalistas e outras pessoas interessadas em desenvolver ferramentas para reconhecer informações falsas e conteúdos manipulados.
O material foi desenvolvido a partir da oficina “Como diferenciar notícias falsas de verdadeiras”, ministrada pela jornalista Natalia Viana e pelo desenvolvedor Babak Fakhamzadeh. A atividade aconteceu no Centro de Pesquisa e Formação do SESC, dentro da programação comemorativa dos 15 anos da Agência Pública.
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No último sábado, em São Paulo, vi uma peça de teatro que me tocou profundamente. Se chama Mi Madre y El Diñero, do dramaturgo, ator e diretor mexicano Anacarsis Ramos e sua companhia Pornotráfico. A peça faz parte do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas Mirada e mostra de maneira contundente as dificuldades de uma mulher que, após 60 anos trabalhando, ainda sofre com a falta de dinheiro.
Esta “personagem” é Josefina Orlaneta e é a mãe do autor. Ela começou a trabalhar com apenas cinco anos de idade vendendo lanches na rua e, em seis décadas de vida, exerceu mais de 40 ofícios. O espetáculo é uma tragicomédia no qual, em hora e meia de duração, faz sentir que conhecemos como ninguém a protagonista. E de fato a encontramos em carne e osso pois é ela mesma, a senhora Josefina, que atua ao lado de seu filho. Seu último emprego, portanto, ela nos conta com muita graça, é ser atriz!
Esta peça vem na onda da autoficção, um gênero que na literatura tem conquistado espaço e corações. No palco, essa forma de narrar se mostrou extremamente eficiente para explicitar o contexto econômico em que a vida de uma trabalhadora pobre se desenrola na virada dos séculos XX e XXI. O texto torna palpável a desigualdade que marcou a trajetória de Josefina.
Quando ela, por exemplo no início dos anos 2000, consegue finalmente alguma estabilidade ao abrir um pequeno mercado, não demora muito para que as lojas do Oxxo acabem com seu sonho. Oxxo é a cadeia mexicana que agora domina muitos pontos de comércio em São Paulo, sufocando pequenos negócios.
O próprio autor e diretor, ao contracenar com a mãe, faz um comovente discurso em que diz (mais ou menos com estas palavras): se chegou aos 66 anos ainda sem dinheiro, a mãe não deveria considerar-se uma fracassada, mas sim uma vítima do sistema econômico. Anacarsis conta que decidiu fazer a peça (e assim conseguiu convencer Josefina a participar) para levar sua mãe a viajar pelo circuito internacional dos festivais de teatro. Quem sabe, ele diz, ganharão algum dinheiro. A considerar o sucesso entre o público, espero mesmo que estejam recebendo um bom dinheiro; terminamos todos aplaudindo de pé.
Mas por que afinal estou falando de uma peça de teatro em uma coluna que deveria falar de meio ambiente? Bem… a resposta está no final da peça, quando o diretor confessa que apesar de ter convencido a mãe pela promessa que poderiam embolsar algum din-din, sua maior intenção era mesmo denunciar o modelo econômico que exclui uma parcela da população. Um modelo que mantém países, estados e bairros sempre na periferia das oportunidades.
Ligando os pontos, a questão que logo me deixou inquieto foi a geografia em que a peça ou a vida de sua personagem principal se passa. Josefina e sua família quase sempre viveram em Campeche, um dos estados mais pobres e violentos do México. Suas cidades na costa do Golfo do México não têm o glamour de destinos turísticos próximos como Playa del Carmen e Cancun, que são parte da mundialmente conhecida Riviera Maia e promovem seus luxuosos resorts nas águas azuis do Caribe.
Em Campeche, nos anos 1970, foi encontrado o maior campo de petróleo em alto mar do México. Esta descoberta transformou a economia do país de maneira radical, tornando-o menos rural e um dos principais exportadores de petróleo. Naquele momento, o campo descoberto foi considerado a segunda maior reserva de hidrocarbonetos do mundo, apenas atrás de reservas na Arábia Saudita. Isso ajudou a consolidar a empresa nacional de petróleo, a Pemex, e atraiu as grandes do setor ao país: Chevron e ExxonMobil.
E vejam a ironia, o primeiro poço a ser explorado levou o nome de Cantarell, em homenagem do pescador que avistou uma mancha negra de petróleo saindo do mar, no local onde a Pemex tinha uma sonda de pesquisa. Esta homenagem a ele parou por aí, pois, como tantos outros pescadores, ele morreu na pobreza depois que a atividade petrolífera em alto mar acabou com a pesca em Campeche.
O Brasil também descobriu sua “mina de ouro” há cerca de duas décadas, quando a Petrobras iniciou a exploração do Pré-Sal. Os royalties fluíram para cidades e estados. O principal estado a se beneficiar foi o Rio de Janeiro. Pergunto: quantas Josefinas ainda existem no Rio que não viram a cor do dinheiro da exploração do petróleo? Mulheres que lutam em empregos mal pagos para manter as suas famílias.
Agora, estamos vendo o mesmo enredo a se descortinar na foz do rio Amazonas. Bem na frente dos nossos olhos uma corrida pelas riquezas que supostamente sairão da exploração em alto mar. Essa expectativa já alterou a vida do Oiapoque, cidade mais ao norte do país e que abrigará as bases para a extração do ouro negro. Reportagens da BBC e da Folha de São Paulo nos contam sobre um fluxo migratório que gera sobrecarga nos serviços públicos, além de invasões de terra e desmatamento para criação de novos bairros.
Eu poderia fazer uma peça de teatro listando todos os projetos de “desenvolvimento” do Brasil que não deixaram nada além de um legado de destruição e miséria. Mas acho que seria uma peça entediante, para não dizer deprimente. Vou deixar o teatro ao Anacarsis enquanto, inspirado por sua obra, levanto esta questão: o que acontecerá com a economia da costa amazônica se aqui, como no México, a exploração do petróleo causar vazamentos em alto mar? Basta lembrar que é na foz do rio Amazonas que está uma das maiores atividades pesqueiras de todo o Brasil.
Na minha coluna de estreia, eu falei da maldição dos recursos naturais e como ela está presente em muitos países que têm petróleo e minérios. Há muita riqueza, mas o povo vive na pobreza. Países em que, como Josefina, crianças começam a trabalhar muito cedo. Na peça, eu fiquei arrepiado ao ouvir a protagonista contar que sua primeira lembrança quando criança era aquela em que ela já trabalhava nas ruas.
Será que, daqui a 60 anos, vamos ter que contar as histórias de muitas Josefinas? As Josefinas brasileiras que neste momento não estão vendo a cor do dinheiro deste modelo de desenvolvimento feito apenas para os verdadeiros donos do dinheiro?
A candidata a deputada federal Rebeca Ramagem (PL-RJ) usou verba de campanha para contratar associados de seu marido, o ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado e foragido por participação na trama golpista de 8 de janeiro de 2023. Rebeca é candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro e está auto-exilada nos EUA desde 2025 junto ao marido, o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem, condenado a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023.
Segundo levantamento feito pela Agência Pública junto à plataforma DivulgaCand Contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a campanha repassou mais de R$ 150 mil a ex-assessores e colegas de trabalho do marido.
Os recursos são provenientes de verba pública, a partir do fundo partidário do PL, que repassou R$1,5 milhão à campanha de Rebeca.
Desses, R$ 10 mil foram para Aline Laudelina Lopes dos Santos Pires, contratada como coordenadora de equipe. A empresária é irmã do blogueiro Allan dos Santos, condenado por calúnia e indiciado no âmbito dos inquéritos das Fake News e dos atos antidemocráticos no STF, sob acusação de lavagem de dinheiro, organização criminosa e incitação ao crime. Diferente do irmão, Aline não é investigada em nenhum procedimento judicial.
Rebeca Ramagem contratou irmã de Allan dos Santos como coordenadora de equipe de sua campanha à deputada federal
Allan dos Santos, que também vive nos Estados Unidos e também é foragido da Justiça brasileira, é parceiro de Alexandre Ramagem. Os dois apresentam juntos o canal Revista TimeLine, onde comentam sobre política brasileira sob a ótica bolsonarista. O canal funciona no YouTube e tem mais de 440 mil inscritos. Em 2025, o canal foi bloqueado no Brasil por ordem judicial e, desde então, só pode ser acessado por VPN. Allan dos Santos e Ramagem compartilham também o endereço de suas empresas nos Estados Unidos. Timeline US Corporation e ARBN Villa Corporation são registradas no mesmo escritório na Flórida.
Aline, que mora no Brasil, também presta serviços para o canal. Em agosto, ela realizou a cobertura da TimeLine do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência em Copacabana, enquanto seu irmão e Ramagem acompanhavam do estúdio na Flórida. Na ocasião, a campanha de Rebeca enviou bonecos de papelão dela e do marido para representá-los no ato.
Contratada pela equipe de Rebeca Ramagem, Aline dos Santos participa do canal de seu irmão Allan dos Santos e de Alexandre Ramagem
Outros R$ 80 mil da campanha de Rebeca Ramagem foram repassados para a empresa Farol Comunicação Integrada Ltda, para “serviços de marketing”. A empresa pertence a Elisa Brom de Freitas, influenciadora com mais de 580 mil seguidores no X, e também presta serviços para a campanha de Carlos Bolsonaro (PL) ao Senado em Santa Catarina.
Em 2022, Brom foi alvo de ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por publicar desinformação contra Luís Inácio Lula da Silva (PT). Na ocasião, seu perfil foi um dos responsáveis por disseminar o boato de que o petista teria desviado presentes dados por chefes de Estado à Presidência durante seus primeiros mandatos.
Rebeca Ramagem contratou empresa de ex-assessora de seu marido acusada de desinformação em 2022
Na época, ela era secretária parlamentar de Alexandre Ramagem, cargo que ocupou até dezembro do ano passado, quando foi exonerada após a cassação do então deputado federal. Além de Brom, outros seis ex-funcionários do gabinete foram contratados pela campanha de Rebeca Ramagem, com repasses entre R$ 10 e R$ 15 mil cada, totalizando R$ 150 mil.
Os contratados operam a campanha de Rebeca do Brasil enquanto ela e o marido estão nos Estados Unidos. A família saiu do país clandestinamente no final de 2025 e se estabeleceu na Flórida, onde aguardam pedido de asilo político. Lá, mesmo com as contas bloqueadas no Brasil, moram em uma casa de alto padrão e abriram empresa para venda de cursos.
Em abril, Ramagem chegou a ser detido pelo Serviço de Imigração dos EUA (ICE, na sigla em inglês) por questões migratórias, mas foi solto dias depois. Em junho, depois de 150 dias sem trabalhar, Rebeca pediu licença de seu cargo de procuradora do Estado de Roraima para se candidatar a deputada federal.
A candidatura está sob análise do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro. Para o relator do processo, Paulo César Salomão Filho, aceitar a candidatura de Rebeca seria um “tapa na cara no Poder Judiciário”, devido à ligação com o marido condenado. Outros três ministros, no entanto, já votaram pela manutenção da candidatura, formando maioria. O julgamento foi adiado na última segunda-feira (15/09) após pedido de vistas da desembargadora Tathiana de Carvalho Costa.
A Pública questionou a assessoria de Rebeca sobre as contratações de acusados por desinformação, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestação.
Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.
Noite na Marginal Pinheiros, uma das principais artérias de São Paulo: dois jovens negros são abordados por três policiais militares numa viatura. Motivo? Eles caminhavam de forma suspeita, segundo a equipe. A abordagem é seguida por revista, interrogatório e xingamentos por parte dos PMs. “Tu é todo ladrãozão, né”, comentou um dos policiais.
Nada ilegal ou suspeito foi identificado na dupla. Mesmo assim, a ação foi exaltada em um vídeo publicado no YouTube pelo Diretor Elias Junior, candidato a deputado estadual pelo MDB. “O tamanho do viaduto ficou pequeno quando viram a ROTA”, diz o título da publicação. Um formato sensacionalista que se repete entre outros youtubers que disputam as eleições de 2026 e integram a lista dos que mais monetizaram explorando operações policiais. Alguns dos vídeos contêm deboche, humilhação e truculência, expondo, além dos próprios policiais, moradores e suspeitos, sobretudo em regiões periféricas de grandes cidades.
Apuração exclusiva da Agência Pública, em parceria com a plataforma Zeeng, mostra que um candidato com muitos seguidores pode ganhar até R$ 8 mil por mês no YouTube com vídeos sobre operações e abordagens das polícias. O levantamento considerou os 15 candidatos influencers com maior monetização sobre ocorrências policiais em 2026: eles podem ter ganhado até R$ 64,6 mil na soma dos vídeos (entre shorts e vídeos longos) postados no YouTube de 1º de janeiro a 25 de agosto deste ano.
Os valores podem ser ainda maiores, pois o levantamento considera o pagamento estimado por views do YouTube, o que não leva em conta outras redes sociais e possíveis patrocínios negociados diretamente pelos candidatos, a exemplo de divulgação de cursos e produtos.
Ao todo, sete partidos de direita e centro-direita compõem o levantamento: Podemos, MDB, PP, PL, Avante, União Brasil e Republicanos. Os nomes analisados possuem vínculo direto com a Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e Guarda Civil Metropolitana de São Paulo. A exceção é Elias Junior, que é diretor cinematográfico, mas acompanha operações e explora a estética policial.
Por que isso importa?
As Polícias costumam ter normas de como seus agentes devem usar as redes sociais – muitas delas vedam o uso de palavras depreciativas ou de fardas e dispositivos.
Cerca de 6% de todos os candidatos destas eleições são ligados a forças de segurança.
Partidos de direita e extrema direita têm defendido medidas inconstitucionais de endurecimento da punição a crimes.
Dos 15 youtubers listados pela reportagem, 14 utilizam ocorrências policiais para divulgar a própria imagem, a maioria em condutas que não são condizentes com as normas das Polícias Civil e Militar de São Paulo sobre uso das redes sociais. Além disso, parlamentares licenciados dos cargos não têm prerrogativa para se apresentarem como autoridades policiais – e nem usarem distintivo ou equipamentos da corporação, conforme confirmado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.
O líder na estimativa de arrecadação é o deputado federal e candidato à reeleição, delegado Palumbo (PODE-SP), que pode ter faturado cerca de R$ 64,6 mil desde o início do ano, acumulando mais de 26 milhões de visualizações no período analisado. Mesmo licenciado do cargo de Policial Civil, Palumbo aparece nos vídeos participando de operações, sobretudo relacionadas ao tráfico de drogas.
Na maioria das ocorrências, ele caminha ao lado dos agentes, auxilia e até mesmo protagoniza interrogatórios. Os títulos utilizados nos conteúdos são majoritariamente chamativos e com palavras fortes. “São duas opções, c4deia ou caixão – dessa vez ele foi parar na c4deia”, descreve uma publicação de 20 de julho de 2026, que começa com policiais imobilizando de forma agressiva um homem na rua. “Não estamos te esculachando não, você está sendo tratado como tem que ser tratado”, diz um dos agentes. Depois de ter sido procurado pela reportagem, Palumbo retirou o vídeo do ar, mas não respondeu aos questionamentos.
Mesmo licenciado do cargo de Policial Civil, o deputado federal Delegado Palumbo (de marrom) participa de operações e posta no YouTube –este vídeo foi retirado após contato da reportagem
Delegado licenciado usa distintivo e participa de operações
O canal com maior número de inscritos pertence ao deputado federal delegado Da Cunha (União-SP), com 3,53 milhões de inscritos, embora tenha ficado em 10º lugar no ranking de visualizações. Ele publicou 237 vídeos num período de quase oito meses, podendo ter monetizado cerca de R$ 3,4 mil desde janeiro.
Da Cunha está licenciado do cargo de delegado da Polícia Civil, mas participa de operações policiais e se apresenta nas ocorrências como “deputado e delegado”. Em um dos vídeos, postado em 8 de julho deste ano, ele interrogou um homem linchado por populares após uma tentativa frustrada de assalto a uma loja de produtos importados, em Osasco (SP).
O deputado aparece no vídeo atendendo a ocorrência junto à Guarda Municipal de Osasco. Usando distintivo de delegado, o deputado também foi até o hospital onde o suspeito ficou internado após o espancamento. Com o homem com a cabeça enfaixada e deitado numa maca, o parlamentar é filmado dando sermão e ainda faz propaganda de um projeto de lei de autoria dele e dos deputados Kim Kataguiri (Missão-SP) e Marcos Pollon (PL-MS): “Sabia que aumentou a pena do 157 [crime de roubo]? Sabia que a lei é minha? Agora é dez anos a pena mínima. Vai ficar uma cotinha na cadeia, meu tio. Agradecer à polícia que salvou sua vida né, se não ‘tava’ com o CPF cancelado já”.
Da Cunha, que é deputado federal e candidato à reeleição, é filmado no hospital dando bronca em um suspeito de roubo que foi vítima de espancamento
Por lei, é considerada contravenção um policial civil usar publicamente distintivo de função que não exerce. Além disso, uma portaria editada em 2020 regulou, em São Paulo, o uso de redes por policiais civis. A norma proíbe, entre outros pontos, a publicação de fotos e vídeos com vítimas, suspeitos ou investigados; veda comportamento que busque “reconhecimento social” ou “promoção pessoal” e exige “decoro e discrição na linguagem”.
A Polícia Militar de São Paulo tem norma parecida desde 2021, que proíbe publicar ou compartilhar qualquer conteúdo que se relacione, direta ou indiretamente, com a PM, bem como divulgar operações ou investigações.
Ainda que o servidor esteja licenciado, um órgão de segurança pública pode adotar medidas administrativas pelo descumprimento de normas institucionais, explicou o professor de direito eleitoral da Faculdade de Direito de Sorocaba, Pedro Marques Neto. “Tem regras que evitam o uso de fardas, por exemplo, mas muitas vezes elas não são aplicadas”.
No Brasil, quase 30% dos órgãos de polícia não têm norma específica para o uso de redes sociais por parte dos agentes, conforme levantamento do Instituto Sou da Paz. Para a entidade, é preciso garantir a liberdade de expressão, “mas também vedar o uso da autoridade policial para autopromoção e engajamento político”.
O problema é que as normativas em geral não estabelecem o setor responsável e as formas de fiscalização dos agentes no ambiente virtual, frisou a diretora-executiva do instituto, Carolina Ricardo. “Falta em algumas normativas ter um fluxo claro de quem é o dono disso dentro das instituições, da função de fiscalizar. E isso torna muito mais difusa a implementação [das normas]”, comentou.
Procurada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo informou que o parlamentar licenciado por conta do mandato não tem a prerrogativa para usar distintivo e nem se apresentar como autoridade policial. “Não há, portanto, autorização para ações como as descritas pela reportagem”, disse, em nota, quando questionada sobre parlamentares licenciados e também sobre o caso do Elias Junior, que não é policial.
Sobre o uso de redes sociais, a Secretaria reforçou que portarias das Polícias Civil e Militar proíbem a criação de perfil vinculado ao trabalho policial, bem como a publicação de fotos e vídeos com vítimas, e que não compactua com desvios de conduta. “Casos identificados são apurados pelas corregedorias das corporações, mediante procedimento próprio, podendo resultar em medidas administrativas, disciplinares, civis e criminais”, diz a nota. A SSP, no entanto, não confirmou se os casos enviados pela reportagem serão apurados.
A Pública procurou também todos os 15 candidatos do levantamento. A Capitã Rebeca, em 12º lugar no ranking, respondeu que não monetiza com os vídeos. Porém, não comentou sobre os objetivos do canal e nem como se posiciona sobre as críticas de espetacularização da violência.
O Coronel Telhada, 14º no ranking, disse que nenhuma das suas redes sociais ganha dinheiro com monetização. “O YouTube com frequência manda mensagem para monetizarmos, mas nunca concordamos e nem aceitamos, nunca fizemos inscrição no programa de monetização de nenhuma rede social e nem faremos”, afirmou em nota.
O deputado federal Sargento Fahur e candidato à reeleição, disse que a gestão do seu canal é feita por uma empresa. “Os valores obtidos com monetização não são suficientes sequer para custear integralmente a operação”, afirmou, pois há custos com funcionários, edição de vídeos, aluguel de espaço e compra de equipamentos. “Não se trata de autopromoção, mas de divulgar aquilo que penso”, conclui nota enviada pelo policial militar reformado que está na 6ª posição no ranking (leia na íntegra).
Este espaço será atualizado em caso de manifestação dos demais.
Distintivo confiscado – e devolvido
Em julho de 2021, Da Cunha chegou a ter o distintivo e a arma confiscados após a abertura de uma sindicância contra ele por ter simulado operações policiais. Os objetos foram devolvidos em 2023, numa decisão do delegado-geral da Polícia Civil de SP, Artur José Dian. À época, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que a competência sobre o processo era exclusiva da Polícia Civil e que não iria se manifestar sobre o tema.
O vídeo “Lincharam o ladrão em Osasco”, no canal de Da Cunha, foi publicado há dois meses e tem 51 mil visualizações
Os processos administrativos foram abertos após o deputado virar réu na Justiça por abuso de autoridade e constrangimento ilegal. Em julho de 2020, ele teria constrangido uma vítima de sequestro e o próprio sequestrador a simularem um resgate para que a cena pudesse ser gravada e repercutida nas redes sociais. Ele também é alvo da Justiça, após denúncia do Ministério Público, por violência doméstica contra a ex-companheira, em outubro de 2023. Ela acusou o parlamentar de ameaça de morte, lesão corporal, dano material e de bater sua cabeça contra a parede, além de tentar sufocá-la em um apartamento em Santos.
Em 3 de setembro deste ano, o processo por abuso de autoridade teve mais uma reviravolta: o anúncio da demissão de Da Cunha do cargo de delegado por parte do Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atendendo a uma recomendação feita pela Polícia Civil em 2022. No mesmo dia em que a demissão foi anunciada, no entanto, a Justiça de São Paulo concedeu uma liminar, a pedido do deputado, impedindo que a decisão fosse formalizada.
Monetizando a estética policial
Com 1,3 milhão de inscritos, o canal do Diretor Elias Junior teria arrecadado, em média, mais de R$ 40,8 mil na monetização dos vídeos só este ano. Na página inicial do perfil no YouTube, ele aparece com um colete à prova de balas marrom e uma roupa camuflada, nas características da farda do Exército brasileiro. Em alguns dos vídeos, ele usa boina e uniforme semelhantes aos usados pela PM de São Paulo.
Em vídeo postado neste ano, Elias Junior participa de operação policial usando o que aparenta ser uma boina da ROTA – mas ele não tem ligação formal com a instituição
Elias Junior vai às ocorrências dentro das viaturas, usa o discurso punitivista e expõe as abordagens policiais, ainda que nenhum crime tenha sido identificado. Entre outros formatos, os títulos sensacionalistas criticam o sistema legal brasileiro. Um deles foi intitulado “Mulher bandida teve o benefício da mãe cárcere”. No vídeo, publicado em 16 de junho de 2026, ele conversa com uma mulher que cumpria pena por tráfico de drogas em casa por conta de um benefício legal concedido a mães de crianças com menos de 12 anos.
Em outra publicação, em 23 de junho de 2026, o candidato acompanha o patrulhamento realizado por dois tenentes da Polícia Militar que decidem abordar dois homens que estariam andando com um “jeito malandro”, na Zona Leste de São Paulo. Os homens eram dependentes químicos e foram interrogados pelos militares sobre o consumo de drogas e crimes que teriam cometido; posteriormente, foram liberados. Mas o vídeo foi postado.
O diretor Elias Junior não respondeu aos questionamentos da Pública. A Polícia Militar não comentou o caso.
O tribunal midiático e o ‘policial herói’
Jurisprudências do Tribunal Superior do Trabalho (TST) reconhecem o vínculo de integrantes da segurança pública com a iniciativa privada, desde que compatíveis com os horários e não conflitantes com a função exercida. O famoso “bico” de segurança particular, por exemplo, é proibido.
Em relação à figura do “policial youtuber”, há regras institucionais que deveriam limitar a atuação dos servidores na internet. Em São Paulo, por exemplo, é vedado o uso de qualquer elemento que se remeta à corporação em perfis pessoais, com exceção de solenidades, formaturas e eventos excepcionais. O que acontece na prática, no entanto, é a teatralização da atividade do agente de segurança, com discursos violentos que tendem a construir a imagem de “policial herói”, assim como na maioria dos programas policiais — explicou o pesquisador Dannilo Duarte, autor do livro Jornalismo Policial na Televisão Brasileira: Gênero e Modo de Endereçamento.
O autor destaca que a internet amplificou a exploração audiovisual das operações, principalmente em ações envolvendo populações mais vulneráveis. “Há um posicionamento de quem é a vítima e de quem vai ser o bandido. Recorrentemente esse bandido vai ser preto ou pardo, vai estar em regiões periféricas. Se constrói uma ideia de que está sempre vinculado ao tráfico e que são pessoas com o estereótipo do malandro, do espertalhão, que não cumpre as leis”.
Além disso, esse tipo de abordagem, conforme o autor, alimenta a ideia de “justiceiro” que, em meio a estímulos à violência e descredibilização do sistema judiciário, faz “justiça com as próprias mãos”, a exemplo do assassinato de Claudio Rafael Landeiro, em 12 de agosto, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. A vítima tinha 37 anos e foi espancada até a morte por cinco homens após ser acusada injustamente de roubar uma bicicleta.
“É um comportamento de certa forma estimulado, o ‘bandido bom é bandido morto’. Mas você não verá isso acontecer num condomínio de classe média, mesmo que o infrator tenha cometido uma infração grave. Jovens brancos de classe média, média alta, não são espancados na praia ou nos becos. A integridade física não é respeitada. Há um lixamento virtual e físico”, pontuou Duarte.
O policial rodoviário federal, Breno Faria, também candidato, não explora a estética policial, mas tem canal em que ataca leis de combate à violência contra a mulher
Dos 15 perfis analisados, há uma exceção para a estética policial. Trata-se do policial rodoviário federal, Breno Faria, candidato a deputado federal pelo PL no Rio de Janeiro. Dono do canal Café com teu Pai, perfil também popularizado no Instagram, ele aproveita o espaço na internet para a defesa de ideias misóginas e ataques a leis de combate à violência contra a mulher. Em um dos vídeos, afirma: “as leis feministas não protegeram a mulher em nada” e defende o “aconselhamento familiar” como mais eficiente do que a atual legislação.
Numa outra publicação, Breno Faria faz comentários pejorativos sobre as roupas da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). “Mulher trans negra ou patricinha de Beverly Hills?”, publicou em 15 de junho. Estima-se que Faria tenha monetizado em torno de R$ 3,8 mil só no YouTube desde janeiro, somando mais de 1,9 milhão de visualizações em 401 vídeos.
METODOLOGIA
A Agência Pública começou o levantamento considerando os 100 youtubers e perfis no YouTube que têm maior número de inscritos na plataforma. Em seguida, cruzamos com os que são candidatos neste ano, usando a base de dados do Tribunal Superior Eleitoral.
Para estimar os valores monetizados pelos candidatos, foi considerada a soma de visualizações dos vídeos publicados em cada um dos 15 canais do YouTube entre 1.º de janeiro e 25 de agosto deste ano, separadas entre shorts e vídeos longos. Com isso, foi aplicado um modelo de receita bruta de anúncios que combina um parâmetro oficial do YouTube – a partir da divisão de 55% da receita publicitária com o criador e as estimativas de CPM (custo por mil impressões) e de RPM (receita por mil visualizações).
Eduardo Prange, pesquisador e CEO da Zeeng, afirma que os valores calculados são uma estimativa “moderada”, já que foi feito também um cenário otimista e conservador para as possíveis arrecadações. Prange destaca que a única forma de ter dados precisos de monetização seria com acesso ao YouTube Analytics de cada canal – que só o titular possui.
Os valores publicados não consideram outras redes sociais e também possíveis patrocínios negociados diretamente com o titular do canal, como divulgação de cursos ou de produtos.
Perfis no Instagram que promovem políticos bolsonaristas, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), passaram a atuar de forma articulada para impulsionar perfis dedicados ao ministro André Mendonça nas redes sociais em meio à crise no STF (Supremo Tribunal Federal) provocada pelo caso Master.
Um levantamento do Aos Fatos identificou na rede social da Meta ao menos 24 perfis dedicados ao magistrado e promovidos por meio de publicações colaborativas e convocações para que seguidores de contas políticas de extrema-direita passassem a acompanhá-los.
Há entre esses perfis aqueles que nem mesmo foram criados originalmente para enaltecer Mendonça: ao menos dois são contas preexistentes que trocaram de nome e passaram a se dedicar exclusivamente ao magistrado em setembro, após o estopim da crise.
Essa prática é conhecida como astroturfing, movimento que simula um apoio popular espontâneo, mas que é, na verdade, orquestrado por grupos de interesse.
Por que isso importa?
Redes bolsonaristas atuam de forma articulada para inflar apoio a Mendonça em meio à crise no STF
O maior perfil, com 1,9 milhão de seguidores, existe desde novembro de 2024, mudou de nome oito vezes desde então e recebeu o selo de verificação do Instagram em agosto. Antes de aderir de vez a Mendonça, o perfil já republicava posts religiosos, anti-LGBTQIA+ e sobre futebol.
Reposts do perfil @andremendoncas2 demonstram que página já existia e publicava conteúdo religioso
O segundo com maior engajamento, criado em abril, mudou de nome duas vezes e, assim como o primeiro, não exibe publicações anteriores a setembro. O Instagram não informa quais eram os nomes anteriores das contas.
A movimentação ocorre enquanto Mendonça é ungido como símbolo religioso nas redes. Entre 1º e 9 de setembro, 156 publicações analisadas pelo Aos Fatos que equiparam a atuação do ministro a uma jornada do herói evangélica, somaram 228 milhões de visualizações.
Em geral, esses conteúdos pedem orações pelo magistrado, o apresentam como um “servo de Deus” e retratam sua performance no STF como se fosse uma missão divina. No entanto, não é possível determinar em que medida esse engajamento é autêntico.
Cruzada nas redes
Desde que a crise transbordou no STF, no início de setembro, o Aos Fatos identificou ao menos 24 perfis dedicados a Mendonça no Instagram, que somavam 5,6 milhões de seguidores até quarta-feira (16). Destes, 12 já existiam antes da crise no STF e apenas trocaram de nome.
As contas @andremendoncas2 e @andremendoncas3, que, juntas, têm quase 3 milhões de seguidores, já existiam antes de setembro e passaram por mudanças de nome antes da identidade atual.
A @andremendoncas2, hoje com 1,9 milhão de seguidores, foi criada em novembro de 2024, mas não mantém nenhuma publicação anterior a setembro deste ano.
Apesar das mudanças, a plataforma não informa quais eram os nomes anteriores do perfil
O mesmo padrão aparece na @andremendoncas3. A conta foi criada em abril, mudou de nome duas vezes e também não exibe publicações anteriores a setembro.
Os primeiros posts atualmente disponíveis nesses perfis foram publicados em 5 e 7 de setembro. Desde então, os dois passaram a funcionar como perfis de apoio a Mendonça, compartilhando publicações quase idênticas, muitas das quais também distribuídas por outras contas identificadas no levantamento do Aos Fatos.
Diferentes contas publicam posts quase idênticos com o objetivo de angariar seguidores para os perfis de apoio a Mendonça
A identidade religiosa que impulsiona a mobilização aparece desde os primeiros posts disponíveis dos dois perfis. Ambos, inclusive, enganam ao associar uma pregação feita pelo ministro em fevereiro deste ano, durante uma conferência cristã de apoio a mães de pessoas atípicas, às discussões recentes no STF. Até esta quarta-feira (16), essas publicações acumulavam cerca de 2 milhões de visualizações.
Ministro é retratado em tom messiânico por perfis de apoio
As novas identidades das contas passaram a ser impulsionadas por perfis com audiências já consolidadas. O @nikolasferreiradms3, que usa o nome e a imagem do deputado federal mineiro, por exemplo, publicou uma chamada para que seu público seguisse a @andremendoncas2.
Contas pedem que audiência também siga perfil de apoio ao ministro
Aos Fatos identificou ainda um padrão que sinaliza a existência de uma articulação na rede social: o uso do recurso de collabs do Instagram entre esses perfis e outros dedicados a políticos bolsonaristas.
Em outros casos, diferentes perfis reproduziram imagens, vídeos e legendas idênticas e direcionaram seus seguidores para uma mesma página de apoio ao ministro.
Uma mesma postagem que anunciava que um perfil dedicado ao ministro havia superado 240 mil seguidores em 24 horas, por exemplo, foi distribuída por diferentes perfis bolsonaristas.
Ciclo de amplificação: perfis com audiências direcionam seguidores para contas de apoio a Mendonça e transformam crescimento em conteúdo
Servo de Deus
A escalada da disputa entre os ministros do Supremo foi acompanhada por uma explosão de conteúdos em defesa de Mendonça no Instagram em perfis religiosos, contas ditas noticiosas e políticos bolsonaristas.
A disputa institucional em torno das revelações do caso Master é apresentada como uma missão atribuída ao ministro por Deus ou como uma batalha entre o bem e o mal, formulação comumente utilizada pelo ex-presidente Bolsonaro ao longo de seu mandato.
Posts comparam ministros a figuras religiosas em busca por engajamento
A mobilização também foi incorporada ao discurso eleitoral. Das publicações analisadas, 20 foram feitas por candidatos ou políticos com mandato. Exemplo disso é o deputado federal Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), candidato a vice na chapa presidencial de Flávio, que associou a disputa envolvendo o magistrado à eleição de outubro.
Segundo ele, Moraes e o presidente Lula (PT) representariam um “sistema” que estaria tentando impedir Mendonça de avançar nas investigações sobre o Banco Master e as fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social): “que Deus abençoe o ministro André Mendonça”. Até esta quarta-feira (16), o vídeo acumulava 2,2 milhões de visualizações e 27 mil compartilhamentos.
Vice na chapa de Flávio Bolsonaro, Gaspar publicou vídeo relacionando Mendonça, Deus e as eleições
Segundo Marcos Jorge, coordenador jurídico do escritório Wilson Gomes Advogados e especialista em direito eleitoral, a legislação não proíbe que candidatos compartilhem declarações de autoridades, manifestem apoio ou utilizem falas de Mendonça durante a campanha.
A avaliação seria diferente caso as publicações atribuíssem ao ministro um apoio eleitoral inexistente, segundo o especialista. Gaspar, por exemplo, apesar de realizar uma associação explícita entre Mendonça e Flávio, não atribuiu ao ministro um apoio que ele não declarou.
Também haveria problema caso fosse demonstrada anuência ou articulação prévia de Mendonça para o uso eleitoral de suas manifestações, observa Jorge.
O advogado e mestre em Direito e Políticas Públicas Adriano Fonseca afirma que, neste caso, a conduta poderia suscitar questionamentos éticos e constitucionais. O Aos Fatos não encontrou evidências de que Mendonça autorizou ou participou da elaboração dessas publicações.
Outro lado
Aos Fatos entrou em contato com o gabinete de André Mendonça e com as assessorias de imprensa do deputado federal Nikolas Ferreira e do senador Flávio Bolsonaro para abrir espaço para comentários.
A reportagem tentou ligar para o gabinete de Alfredo Gaspar mas, como ninguém atendeu, enviou um e-mail com um resumo da citação feita no texto. Nenhum dos quatro citados havia respondido até a publicação desta reportagem.
Aos Fatos também enviou um pedido de posicionamento para a Meta questionando se a reutilização de uma conta com audiência preexistente, após sucessivas mudanças de nome e de temática, para promover uma figura pública, violaria regras da plataforma. A reportagem será atualizada em caso de resposta.
O caminho da apuração
Aos Fatos analisou 156 publicações no Instagram encontradas a partir dos termos “Mendonça” e “Deus”, classificando os conteúdos de acordo com os perfis responsáveis, o alcance e as principais narrativas utilizadas na defesa do magistrado.
A reportagem também mapeou 24 contas dedicadas a Mendonça e analisou informações disponibilizadas pela própria plataforma, como data de criação dos perfis e mudanças de nome, identificando uma rede de contas políticas que impulsionam perfis de apoio ao ministro.
Por fim, Aos Fatos entrevistou Guilherme Arduini, coordenador do LAR (Laboratório de Antropologia da Religião) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o especialista em direito eleitoral Marcos Jorge e o advogado e mestre em Direito e Políticas Públicas Adriano Fonseca sobre a mobilização religiosa em torno de Mendonça e os limites jurídicos dessa atuação.
Esta reportagem é parte de uma investigação especial da Agência Pública financiada pelos nossos Aliados, sem nenhum dinheiro de bet. Apoie mais reportagens como essa clicando aqui.
A professora Vânia de Souza Borges, de Uberlândia (MG), passou dois anos batendo em portas que não se abriam. Procurou a Polícia Civil, o Ministério Público de Minas Gerais e a CPI das Bets do Senado. As três tentativas não resultaram em nada. Neste mês, Vânia sentou-se diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, e fez um pedido: a proibição das casas de apostas online no país.
“Eu pedi ao Lula o fim das bets; eu disse que apenas regulamentar não basta. Pedi em meu nome e em nome das mães e famílias brasileiras que estão sofrendo com esse problema”, contou Vânia à Agência Pública. O encontro ocorreu no último domingo (12), em uma casa particular onde Lula gravava para sua campanha à reeleição.
Do luto à luta
Rafael Borges Amaral morreu em 23 de março de 2024, aos 26 anos, após oito meses em que a família acompanhou o avanço do vício em apostas. Ele trabalhava num lava-jato perto de casa, vendeu a moto, afastou-se dos parentes. À 1h48 daquela madrugada de março, no dia do aniversário das duas irmãs, transferiu R$ 30 para uma intermediadora de pagamentos usada por bets. Foi a última aposta.
A professora Vania durante encontro com o presidente Lula
A carta em que Vânia relatava a morte do filho ficou entre os milhares de documentos da CPI das Bets, cujo relatório foi rejeitado – o primeiro em dez anos no Senado –, sem o indiciamento de 16 responsáveis, entre empresas e influenciadores.
A reportagem da Pública localizou a carta de Vânia entre os documentos da CPI e fez uma reportagem sobre o caso, veiculada em 3 de julho deste ano no especial Jogo Perigoso: O Brasil das Bets, na qual a professora comparou influenciadores a traficantes: “Elas induzem as pessoas, levam a pessoa ao erro, induzem as pessoas até que elas percam tudo”.
Após a repercussão do caso, em 7 e 8 de julho, a deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG) protocolou dois projetos de lei inspirados no caso de Rafael. O PL 3.613/26, batizado de PL Rafael, prevê responsabilização solidária de influenciadores, afiliados e plataformas e proíbe o revshare, modelo em que o divulgador recebe comissão proporcional ao que seus seguidores perdem. A parlamentar também acionou o Ministério da Justiça.
Segundo Vânia, o presidente tomou conhecimento da história e, então, veio o convite para uma conversa sobre os danos causados pelas bets. Ela contou ter sido ouvida pelo presidente, junto a outras pessoas que seriam apostadores e desenvolveram dependência – “cada um com um drama diferente, mas todos com relação às bets”, relatou.
A professora relata que Lula perguntou ao grupo o que precisava ser feito. “Eu respondi que a única solução é cortar o mal pela raiz, proibindo-as definitivamente, e todas as pessoas do grupo concordaram” e que o presidente disse que essa também seria sua intenção. Vânia disse ainda que passou o número do processo da investigação no MPF aberta após a reportagem da Pública e que Lula teria dito que acompanharia o desfecho do caso. O depoimento da professora foi gravado e pode ser usado no horário eleitoral do candidato.
Lula e as bets
Desde o início de setembro, Lula tem intensificado o discurso contra as plataformas de apostas online. Em Brasília, no dia 1º, reuniu artistas, influenciadores, representantes de vários de seus ministérios e vozes expoentes contra as bets, a exemplo da produtora Paula Lavigne, para discutir o impacto do setor na saúde da população. Na ocasião, empresas legalizadas em atuação no país protestaram de não terem sido incluídas no debate, uma vez que atendem aos requisitos solicitados pelo próprio governo federal.
Em entrevista ao SBT, na quinta-feira (10), o presidente Lula declarou: “Chamei todas as pessoas que se queixam da bet, chamei a sociedade e ouvi. Agora já mapeamos tudo e já sistematizamos. Agora eu vou tomar uma decisão.”
No domingo (13), durante transmissão ao vivo nas redes sociais, o presidente relatou a reunião com Vânia ocorrida no mesmo dia. O presidente se referiu ao caso como o episódio da mãe que perdeu o filho de 26 anos, além de mencionar a história de um homem que fez 1400 transferências via Pix em três meses e uma mulher que chegou ao desespero por uma dívida que não conseguia pagar.
Em discurso no Palácio do Planalto, presidente Lula cita Vânia e a luta contra as bets
“Se depender da minha vontade, é fechar as bets”, afirmou Lula. Em seguida, ponderou: “Mas eu vou levar a sério todas as implicações que têm, porque é uma coisa incontrolável.” E resumiu: “Nós estamos passivos diante da sociedade que está se matando de dívida”.
Na segunda (14), no Palácio do Planalto, durante a sanção da lei do Move Brasil, que amplia o acesso a crédito para motoristas de aplicativo, taxistas e outros trabalhadores de transporte, o presidente voltou a abordar publicamente o assunto das bets e afirmou estar lidando com uma enfermidade coletiva que demanda atenção urgente.
Estamos tomando decisões e logo, logo, vamos anunciar a decisão que a gente vai tomar em relação a isso [Bets], porque é uma doença, não é um jogo. É a indução dos inocentes ao vício.”
Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República
Vânia espera que a conversa renda algo além da campanha. “Desejo sinceramente que esse encontro possa resultar em algo efetivo para a solução desse problema”, afirmou, ao voltar para casa, em Uberlândia, onde o quarto de Rafael continua do jeito que ele deixou.
Nos meus 16 anos de igreja evangélica, fui ensinada a toda vez que o mundo estivesse um caos, que eu não soubesse que caminho tomar, que houvesse barulho demais, ideias demais, eu recorresse à Deus como norte e à igreja como refúgio. Me lembro que tinha até uma pulseirinha, vendida na lojinha da igreja, com as letras OQJF? “O que Jesus faria?”. É claro que o Jesus que chutou os mercadores do templo, mencionado no Novo Testamento, não era muito a referência para as igrejas neopentecostais. A gente aprendia que questionar o pastor, a congregação, e as ideias que eram apresentadas ali pelo representante de Deus na Terra era “falta de fé” e, em última instância, rebelar-se contra o próprio Deus.
Uma outra doutrina pregada reiteradamente era a de que as guerras, os conflitos, as crises políticas, econômicas – micro e macro – eram materializações de batalhas que estavam sendo travadas nos céus por anjos e demônios: batalhas espirituais.
Graças a Deus (?) os muros da igreja não foram capazes de conter minha rebeldia adolescente por muito tempo. Logo conheci o feminismo, o punk, os movimentos sociais, Marx, Foucault, Judith Butler, Simone de Beauvoir, a comunidade queer, a psicanálise.
Mas décadas depois, voltei a mergulhar nesse universo evangélico como jornalista e pesquisadora, primeiro para uma reportagem da AgênciaPública sobre a bancada evangélica no Congresso Nacional e a força política dessa fatia de uma fatia da população que crescia aceleradamente. Essa matéria levou a outras, a especiais transnacionais, a um livro que está sendo traduzido para seu terceiro idioma, e nunca mais larguei o assunto.
Aprendi então que essas “batalhas espirituais” tinham um nome: Teologia do Domínio. A teologia do domínio basicamente defende que os cristãos devem governar e influenciar todas as esferas da sociedade, a partir de uma visão maniqueísta, na qual o poder político é visto como um instrumento legítimo de conquista espiritual e social. Ela surgiu ali no meio calvinista norte-americano entre as décadas de 1960 e 1970 e foi amplamente abraçada pelos pentecostais nos anos 1980.
No meu livro, citei uma fala do pastor RR Soares, líder fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus – que tem nada menos que cinco parentes concorrendo nestas eleições – que acho que ilustra bem: “não existe nada que esteja fora da ação demoníaca. No futebol, na política, nas artes e na religião, nada escapa ao cerco do Diabo […] Satanás tem milhares de agências no mundo […] Por trás da religião, do intelectualismo, da poesia, da arte, da música, da psicologia, do entendimento humano e de tudo com o que temos contato, Satanás se esconde”.
Nessa lógica, o crente está sempre sendo atacado por representantes do diabo que “vêm para matar, roubar e destruir” e no jogo político, quem não tem as bençãos do pastor, é parte do front inimigo.
A extrema direita, em especial o Bolsonarismo, foi espertamente se amalgamando a essas narrativas e colocando que a esquerda, o “comunismo”, as feministas, as universidades, os “professores doutrinadores”, a imprensa, a comunidade LGBT+, como inimigos a serem combatidos em nome de batalhas mais profundas, missionárias, messiânicas.
É daí que vem esse apoio crescente de grande parcela dos evangélicos à Flávio Bolsonaro e à André Mendonça, nesse momento de crise política em que ambos estão diretamente implicados e com os rabos mais presos que calango em boca de sapo no escândalo doBanco Master, por mais incoerente que pareça. Ele não surpreende quem cresceu dentro dessa doutrina.
Há alguns dias, o ministro André Mendonça, que é pastor evangélico, publicou um vídeo em suas redes sociais agradecendo as mensagens de “oração e carinho” de líderes religiosos e disse que essas “preces a Deus têm sido fundamentais” para o sustentar.Em seguida, Michelle Bolsonaro afirmou que Mendonça é “escolhido e ungido do Senhor” e que Mendonça permaneceu fiel aos princípios e se manteve forte e corajoso. “Você foi chamado para este tempo. A nossa maior alegria é saber que você é um grande e verdadeiro homem de Deus”, disse em suas redes sociais. Correntes de fiéis têm chamado às orações por Mendonça.
É a jornada do STF sendo transformada em cruzada, em missão, levada a cabo corajosamente por Mendonça, sobretudo contra Alexandre de Moraes, que encarna o mal.
Nessa cruzada, Flávio Bolsonaro, que tem rodado igrejas evangélicas pelo país e que não era exatamenteamado pelos evangélicosno início da campanha por conta da querela com Michelle, tem conseguido se inserir como opção divina pela proximidade a Mendonça, pela contraposição à figura de Alexandre de Moraes e pelos ataques ao STF. Arrisco dizer que é isso que tem levado a um crescimento nas pesquisas de intenção de votos dessa população.
A última pesquisa Quaest, por exemplo, mostra Flávio à frente de Lula no segundo turno, com 42% contra 40% do atual presidente.
Numa doutrina em que a política é entendida como batalha espiritual, nenhum escândalo vai pesar mais do que uma unção, porque duvidar do ungido segue sendo, para milhões de fiéis, duvidar do próprio Deus.
E como me disse uma vez o pastor presbiteriano Caio Fábio, que foi presidente e fundador da Associação Evangélica Brasileira (AEVB) e é alguém que conhece os bastidores da articulação política dos evangélicos: “enquanto o Diabo continuar a existir para os evangélicos da forma como existe, eles [os políticos que dizem representar a Deus] podem continuar roubando, porque o Diabo pagará a conta das acusações. Em nome de Deus, a canalhice é santificada.”
No centro do embate no Supremo Tribunal Federal (STF), a figura do ministro André Mendonça “furou a bolha” da militância radical e alcançou uma fatia expressiva do eleitorado evangélico moderado.Com uma narrativa quase bíblica, o ministro teria encarnado o “servo de Deus” que luta contra um sistema corrompido – em uma leitura simplificada de guerra espiritual.
O teólogo Ronilso Pacheco, diretor-executivo do Instituto de Estudos da Religião (Iser), analisa a construção da imagem de Mendonça como um novo “herói do Judiciário”, porém, diferente de outros que já foram apontados para esta categoria, como Sergio Moro e Joaquim Barbosa. Em entrevista à Agência Pública, Pacheco alerta para o avanço global do nacionalismo cristão e defende que o combate à instrumentalização religiosa não passa por calar as comunidades de fé. Para ele, o caminho para proteger a democracia e o Estado laico exige lideranças religiosas corajosas, capazes de inspirar a defesa dos direitos humanos.
Ronilso Pacheco, mestre em teologia pela Universidade Columbia e diretor do Iser (Instituto de Estudos da Religião)
O que a figura de Mendonça simboliza hoje, em especial para o eleitorado evangélico?
Mendonça chegou devagar e conquistou o seu espaço. O roteiro é perfeito para a ideia do chamado bíblico. Um pastor presbiteriano, servidor de carreira, que foi alçado ao STF. Um homem de Deus, discreto, que de repente herda um caso que se tornaria um dos mais importantes da República. Hostilizado e zombado pelos que escarneceram de seu momento de oração após o resultado de sua sabatina, ele é agora o “colocado por Deus”, como alguns dizem, no centro do poder, batendo de frente com um dos ministros mais poderosos da corte. Qualquer pastor pega essa história e transforma em uma campanha de oração poderosa por Mendonça. As lideranças evangélicas bolsonaristas tinham pouco a oferecer para motivar as pessoas a engajar na pauta política, e ele criou essa deixa. As pessoas não fazem a menor ideia do que são limites jurídicos, procedimentos, protocolos, qual o papel do plenário. As pessoas em geral, incluindo evangélicas, assimilam mais facilmente que o pastor presbiteriano, irmão em Cristo, expôs a relação indecente de um juiz com um banqueiro corrupto e por isso está sendo perseguido.
O apelo da figura de Mendonça consegue furar a bolha bolsonarista radical e engajar o eleitor evangélico moderado?
Sim, acho que isso já está acontecendo. Eu estou inserido nesse universo e já vejo em parentes, amigos, e até em pessoas aleatórias, que essa bolha foi furada. Saiu do circuito do bolsonarismo radical e chegou a uma ideia de indignação do campo evangélico. Já se criou uma espécie de capa de proteção para o Mendonça. O que a gente pode esperar ver nos próximos dias é uma saia-justa complicada, porque, a depender da decisão do plenário, se houver uma decisão que atinja o ministro, ela já está prontinha para ser vista como uma perseguição religiosa contra o único membro da corte que é um pastor.
O Brasil costuma ter “heróis do Judiciário” em diferentes momentos, como Joaquim Barbosa, Sergio Moro e Alexandre de Moraes. Mendonça agora pode ocupar esse papel? Qual é a diferença dele para os demais, considerando que é o mais associado a uma religião?
A manifestação de 7 de Setembro na Avenida Paulista, em São Paulo, com o boneco inflável do Mendonça, já mostrou que ele está sendo colocado nesse papel, sobretudo por bolsonaristas que querem inflar, com o perdão do trocadilho, a imagem dele como um contraponto ao Alexandre de Moraes. Ele está gradativamente ocupando esse lugar, mas com diferenciais significativos. Acho que Joaquim Barbosa e Sérgio Moro tiveram outro tipo de adesão, no sentido de ter sido uma movimentação ligada ao combate contra a corrupção. Moro tinha alguma proximidade com o universo evangélico, pela parceria dele com o [ex-procurador da Lava Jato] Deltan Dallagnol, que é evangélico, de uma igreja batista de Curitiba. O Dallagnol arregimentou o campo evangélico para a campanha contra a corrupção que tinha Moro à frente. Ele foi colocado nesse lugar heróico por uma parte da população, mas também por um campo evangélico significativo, que queria fazer parte de um momento de transformação do país. O Dallagnol fazia quase que turnê em igreja, já assisti a ele em pelo menos três para falar sobre corrupção e como a igreja pode se envolver. Agora é diferente, é mais uma disputa política. Uma das forças políticas quer tornar o André Mendonça uma espécie de herói. O Moro era herói de um movimento que queria passar o Brasil a limpo, e isso significava enfrentar a corrupção. O André Mendonça é o herói de uma disputa de forças políticas que querem decidir sobre o país.
Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu milhares de pessoas. A manifestação foi convocada e liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL)
Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu milhares de pessoas. A manifestação foi convocada e liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL)
Qual pode ser o impacto de naturalizar trâmites jurídicos e disputas políticas como “batalhas do bem contra o mal”, ou de “Deus contra o diabo”?
O pior possível. O Estado laico vai embora. A gente sabe que a laicidade do Estado é muito limitada no Brasil, temos uma cultura religiosa que serve como background da formação da sociedade brasileira. E com as narrativas religiosas, de uma disputa do bem contra o mal, o impacto pode ser o pior possível. Esse não é um movimento isolado, não é uma coisa do Brasil. É algo proposital, sobretudo por forças ultraconservadoras que usam a narrativa religiosa cristã. Isso aparece em praticamente todos os partidos de extrema-direita que ascenderam na Europa nos últimos anos, e mesmo nos governos de direita que têm ascendido na América Latina, principalmente no discurso de segurança pública e de combate ao narcoterrorismo, como diz Donald Trump, com a linguagem religiosa. Não é à toa que o [Nayib] Bukele [presidente de El Salvador] fala de guerra espiritual, o [Abelardo de la] Espriella [da Colômbia] também. O uso dessa linguagem religiosa para descrever política e embates políticos está alinhado com um movimento global onde a religião tem se tornado uma linguagem preferencial para criar vínculos, conexões e mobilizar o engajamento a partir da base popular.
Qual você acredita que deve ser o papel da política dentro das igrejas? É preciso ter um afastamento total ou é possível conciliar de um modo saudável?
É preciso ter uma aproximação equilibrada, saudável e justa. Recentemente o mundo ficou impactado com a votação da AfD (partido de extrema direita alemão) na Saxônia, um partido com ideias que flertam com o neonazismo. Semanas antes das eleições, várias igrejas protestantes da Saxônia se juntaram e fizeram cultos para mobilizar a sua membresia a não votar na AfD. Não conseguiram, a AfD foi eleita, mas essas igrejas tentaram evitar o pior. Precisamos de lideranças religiosas que inspirem suas comunidades de fé a defenderem a democracia, o Estado laico, os direitos humanos, que respeitem as diferenças e defendam um país justo, que saibam entender os sinais dos riscos de um governo autoritário e as armadilhas da instrumentalização da extrema direita. Não acho que as comunidades de fé devem ser caladas politicamente. Acho que é um risco que precisamos aprender a correr. As pessoas não vão para a igreja para ter um curso de ativismo político, nem para a esquerda nem para a direita. Elas vão pelo culto, a devoção, a cultura. Mas também precisamos entender que a igreja não é um lugar solto no mundo. Assim que a pessoa sai da igreja, vai ser impactada pelas decisões políticas, pela política pública, pela crise institucional que se instala no país.
Enquanto a sessão histórica para apurar a conduta do ministro Alexandre de Moraes ocorria no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira, 15 de setembro, a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República montou uma força-tarefa para tentar associar as acusações contra o magistrado ao presidente Lula (PT), candidato à reeleição. Manifestos, audiências públicas e até ameaças de obstrução do Congresso Nacional fizeram parte das ações. O fato do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nome central das investigações da Polícia Federal no caso Master, ter realizado pagamentos a Flávio Bolsonaro para patrocinar o filme ‘Dark Horse’, no entanto, foi ignorado.
Membros da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal acompanham sessão do STF sobre ligação do ministro do STF Alexandre de Moraes e o caso Master
Na tarde de segunda-feira (14), o senador Rogério Marinho (PL-RN) se reuniu com colegas da oposição no gabinete de uma das principais aliadas, a senadora Tereza Cristina (PP-MS). No mesmo dia, os parlamentares deram uma coletiva de imprensa para reforçar apoio irrestrito às ações do ministro André Mendonça, o “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro em 2021. Ele é o responsável pela quebra de sigilo das mensagens entre Daniel Vorcaro, dono do banco Master, e Alexandre de Moraes.
Na terça-feira, dia da sessão no STF, a oposição se reuniu na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado para assistir e reagir à transmissão ao vivo da TV Justiça. Os parlamentares refutaram as falas dos ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes. Eles defenderam uma votação em conjunto com o caso de André Mendonça sobre possíveis irregularidades à frente da relatoria do Caso Master.
Nada ficou decidido na sessão porque o ministro Flávio Dino pediu vistas do processo, após bate-boca entre os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça. Com isso, os ministros da Corte terão mais tempo para analisar o caso. Antes do encerramento, Cármen Lúcia, a única mulher integrante da Corte, manifestou voto favorável ao julgamento de Moraes de forma isolada, pediu desculpas ao povo brasileiro por não ter ajudado a resolver a crise institucional antes e ainda classificou como “espetacularização” as discussões protagonizadas pelos magistrados.
Os milhares de reais de Vorcaro a Alexandre de Moraes e a Flávio Bolsonaro
Segundo a suspeita apresentada ao plenário do STF pelo ministro André Mendonça, Daniel Vorcaro teria enviado 52 mensagens a Moraes, incluindo questionamentos sobre iminentes operações policiais e a respeito de possíveis mandados de busca, apreensão e bloqueio de bens. Moraes também supostamente atuou na edição de um contrato de R$ 130 milhões firmado entre Daniel Vorcaro e o escritório advocatício da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. O valor se aproxima dos R$ 134 milhões pedidos ao ex-banqueiro por Flávio Bolsonaro para financiar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso em regime domiciliar, condenado por tentativa de golpe de Estado.
Rogério Marinho conversou com a imprensa após o encerramento da sessão no STF. Inicialmente, tentou não associar a campanha eleitoral às ações no parlamento – em recesso eleitoral, para que os senadores deem atenção às bases eleitorais nos respectivos estados. Porém, após ser confrontado por jornalistas, Marinho disse que o desgaste de Lula com o julgamento de Moraes seria uma “consequência” dos acontecimentos. Ele ainda fez referência às ações de Moraes contra os presos pela tentativa de golpe de Estado, em 8 de janeiro de 2023, para dizer, sem provas, que o ministro e o presidente Lula mantêm relação de amizade.
Senador Rogério Marinho repete em coletiva discurso de Flávio Bolsonaro sobre pagamentos de Daniel Vorcaro recebidos pelo filho do ex-presidente
O senador reforçou o discurso de Flávio Bolsonaro sobre a relação com o empresário Daniel Vorcaro, do banco Master. Segundo ele, tudo não passou de uma relação contratual privada. As investigações da PF apontam, entretanto, para uma interlocução direta entre o filho 01 de Jair Bolsonaro e o ex-banqueiro para a obtenção de um patrocínio velado, sem qualquer divulgação no filme. Além disso, o candidato ao Planalto admitiu ter visitado Vorcaro no final de 2025, após a primeira prisão de Vorcaro, que já cumpria medidas cautelares e utilizava tornozeleira eletrônica.
Propor o uso de inteligência artificial e a integração de bases de dados com imagens em tempo real para lidar com problemas de segurança pública virou uma bandeira comum entre os candidatos ao governo dos estados, independentemente do espectro político. “Centros de comando e controle”, “cercamento eletrônico” e “videomonitoramento” aparecem como solução nas propostas de candidatos de esquerda, direita e extrema direita, ainda que as tecnologias (muitas já utilizadas pelas forças de segurança) não tenham sido capazes de frear a violência em meio ao aumento da letalidade policial no país.
Em 2025, ações de agentes de segurança resultaram em 6.602 homicídios em todo o país, o maior número absoluto da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública desde 2016. Produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o anuário aponta Amapá, Bahia, Sergipe, Pará, Goiás, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Norte, Mato Grosso e Alagoas como os 10 estados com as forças de segurança mais letais no ano passado, com índices superiores à média nacional (de 3,1 mortes a cada 100 mil habitantes).
Para o professor de ciência política da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Bruno Konder Comparato, os dados reforçam que só investir em tecnologia e integração não impede a violência policial. “A tecnologia não faz mágica, sobretudo quando falamos de letalidade policial: quem mata não é o computador ou um sistema, é o policial com uma arma na mão. Se queremos fazer investimentos para diminuir a violência policial, deve-se investir no treinamento de pessoas, no aprendizado e uso de técnicas não-letais”, afirmou Comparato à Agência Pública.
Todos os 10 estados com maior letalidade policial utilizam regularmente tecnologias de integração de dados sensíveis – com acesso em tempo real a informações sigilosas dos cidadãos, como RG, CPF e cadastro do Sistema Único de Saúde (SUS), entre outros – para monitoramento da população. Um exemplo que salta aos olhos é o Amapá: em 2025, o estado foi a unidade da federação com a maior taxa de letalidade policial do país pelo 7º ano consecutivo e, desde 2024, simultaneamente, concentra também o maior índice de homicídios em geral no Brasil. Há anos, a polícia local dispõe de iniciativas próprias de integração de dados e produção de inteligência, o que não foi suficiente para mudar essa realidade.
Policiais militares do Amapá, estado que lidera o ranking nacional de letalidade policial desde 2019
O governador Clécio Luiz (União), candidato à reeleição com apoio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anunciou em junho deste ano a criação de um novo sistema de inteligência estadual, agregando o Centro Integrado de Inteligência em Segurança Pública do estado a outros órgãos de segurança e agências federais, como a Polícia Federal (PF) e o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
O plano de governo de Clécio Luiz defende ainda a “instalação de câmeras inteligentes” nas “entradas e saídas dos municípios, áreas de maior incidência criminal, rodovias e equipamentos públicos”, com um sistema de “reconhecimento de placas, identificação de veículos com restrição, videomonitoramento em tempo real e inteligência artificial, conectado ao Centro Integrado de Operações de Segurança Pública”. A proposta, no entanto, não menciona ou propõe medidas para diminuir os índices de letalidade policial.
O principal adversário do governador, o ex-prefeito de Macapá Dr. Antônio Furlan (PSD), também promete “implantar e expandir o uso de videomonitoramento, inteligência artificial, análise de dados”, com “um sistema integrado de monitoramento eletrônico nas principais rotas logísticas e áreas estratégicas”, integrando “informações sobre criminalidade, apreensões de drogas e armas, atuação de organizações criminosas e disputas territoriais”. Furlan também ignorou a questão das mortes provocadas por agentes de segurança em sua proposta.
Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal do Amapá e da Universidade de Lisboa sugere que as mortes causadas por intervenção policial no estado teriam relação direta com o avanço do narcotráfico. A conclusão segue a mesma linha de artigo de 2024 da pesquisadora associada ao Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP) Ariadne Natal, que descreve como o Amapá se tornou “uma espécie de entreposto para rotas nacionais e internacionais do tráfico de drogas”.
“Embora pareça haver um contexto de crescimento de ações do crime organizado, as respostas e soluções apresentadas pelas instituições de segurança do estado estão em descompasso com as ameaças registradas”, aponta Natal no artigo, destacando ainda que “o uso da força letal tem sido empregado de maneira excessiva e desproporcional” pelos agentes de segurança no Amapá – que, entre 2015 e 2023, teve uma média de 80 civis mortos para cada policial vitimado.
Câmeras de vigilância são usadas para monitoramento e integração de dados na segurança pública
Promessas comuns sobre segurança unem direita e esquerda
O caso do Amapá passa longe de isolado. Dois governos de campos políticos opostos também na lista dos estados com os maiores índices de letalidade policial mostram como o uso da tecnologia na segurança não resolve, por si só, a violência: Bahia e Goiás – 2º e 5º lugares no ranking das maiores taxas de mortes praticadas por agentes de segurança, segundo o Anuário de Segurança Pública.
Nos últimos oito anos, a política de segurança pública em Goiás seguiu uma abordagem repressiva. O candidato que representa a continuidade da atual política da administração goiana, Daniel Vilela (MDB), insiste nessa abordagem, que inclui o uso extensivo de inteligência artificial sobre grandes bases de dados.
Polícia Militar de Goiás, onde ações de agentes de segurança mataram 362 pessoas em 2025
Até então, o governo de Goiás apostou pesadamente na área de inteligência, omitindo gastos com empresas envolvidas em escândalos recentes – como a israelense Cognyte, fabricante do programa cujo uso ilegal pelo governo Bolsonaro veio à tona por meio do caso conhecido como Abin Paralela. A compra do programa espião sequer foi avaliada pelo Tribunal de Contas de Goiás, como revelado pela Pública.
Em seu plano de governo, Vilela promete a “expansão do videomonitoramento inteligente”, com “análise de dados” e até mesmo “reconhecimento de padrões para antecipar crimes”, algo que ele apelida como “IA Contra o Crime”. Por um lado, o estado alega que a letalidade policial caiu mais de 40% desde 2020. Por outro, os índices seguem altos, com a polícia sendo responsável por 362 mortes em 2025 e sob suspeita de atuação de grupos de extermínio formados por PMs no estado.
Já o caso da Bahia mostra como o problema da letalidade policial também impacta administrações de esquerda, dado que o estado é um dos principais redutos do Partido dos Trabalhadores (PT) no país.
Na reta final do atual governo de Jerônimo Rodrigues (PT), que concorre à reeleição, o estado anunciou um plano de redução da letalidade policial que foi celebrado por órgãos de controle como o Ministério Público. Ainda assim, 1.570 pessoas foram mortas graças à ação das forças de segurança da Bahia – quase 25% do total de casos no país em 2025.
Polícia Militar da Bahia matou 1.570 pessoas em ações de segurança em 2025, segundo o Anuário de Segurança Pública
Em seu plano de governo, Rodrigues promete expandir “as câmeras corporais, o videomonitoramento inteligente, o reconhecimento facial, a leitura automática de placas e a integração de câmeras públicas e privadas”, “ampliando o compartilhamento técnico” com o governo federal por meio do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). A campanha do petista é uma das poucas a admitir que não basta adquirir mais tecnologia, prometendo “expandir o plano estadual de redução da letalidade policial”.
Para o cientista político Bruno Comparato, exemplos como os de Amapá, Bahia ou Goiás mostram que “sistemas tecnológicos e investimento podem ajudar, especialmente em locais sensíveis onde há maior frequência de crimes, fornecendo horários e dias que demandam atenção”.
O drama é que, em geral, quando a polícia intervém, muitas vezes ela intervém matando. A letalidade policial pode dar uma sensação de segurança para parte da sociedade, mas isso apenas normaliza a violência e não resolve o problema de fato”
Bruno Comparato
Professor de ciência política da Unifesp
Ministério da Justiça e Segurança Pública coordena a integração de dados entre forças de segurança estaduais e federais
Inteligência, espionagem e integração: os desafios nacionais na segurança
A repressão policial tornou-se uma bandeira da gestão do ex-governador de Goiás e hoje candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD). Fundador da antiga União Democrática Ruralista (UDR), ele propõe criar um “sistema nacional de inteligência criminal” caso vença as eleições deste ano e planeja “utilizar inteligência artificial para cruzar dados, identificar redes criminosas, orientar operações e acompanhar a movimentação interestadual de suspeitos e presos” a partir da unificação das informações contidas nos “bancos de dados da União, dos estados, do Distrito Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário”.
Essa unificação também encontra respaldo nas propostas do atual presidente Lula (PT), cuja gestão priorizou a integração de dados usados pelas forças policiais, com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), concentrando os esforços de reunir informações de estados e municípios via Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) e de instaurar mecanismos de controle na área, após um período de “libera geral” quanto ao uso de ferramentas de vigilância durante o governo Jair Bolsonaro.
A proposta de governo do petista, candidato à reeleição, inclui “a construção de um Sistema Nacional de Segurança Pública mais articulado” e promete que “fortalecerá a integração entre os entes federados” e “a inteligência estatal”.
Em alta no pleito de 2026, a participação da União na gestão da segurança pública, no entanto, se dá num campo mais estratégico e menos executivo. O titular da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), Chico Lucas, defende o avanço da integração de dados, mas faz a ressalva de que cabe aos estados o uso das ferramentas oferecidas, como o Infoseg e o Córtex – um sistema de vigilância cujos problemas e abusos já foram detalhados em uma série de reportagens da Pública.
“Não concorremos com os estados. Não produzimos os dados [policiais], nós os integramos: o estado emite a carteira de identidade, nós a integramos. O estado produz o B.O. [boletim de ocorrência], produz relatórios de inteligência e nós integramos esses materiais. Nosso papel é esse: fornecer tecnologia e dar a logística para os estados, respeitando o pacto federativo”, disse Lucas, ressaltando que a pasta “nunca ‘desce’ para o nível da execução”, disse o secretário à Pública.
A sessão do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) realizada nesta terça-feira, 15 de setembro, deixou um certo amargo no paladar dos brasileiros. O desafio de decidir se o ministro Alexandre de Moraes poderia ser investigado em função do relatório da Polícia Federal (PF) apresentado ao presidente da Corte, Edson Fachin, pelo ministro André Mendonça, mostrou-se um fracasso.
Depois de muita troca de acusações entre os colegas de corte e falas com tom alterado, a conclusão foi que as teses de defesa de Moraes não convencem a maioria dos ministros do Supremo. Isso, entretanto, não foi suficiente para dar seguimento à análise, tendo em vista que o ministro Flávio Dino, aliado de Moraes, usando uma discussão entre Mendonça e Mendes como pretexto, pediu vista do processo.
A crise do STF, que chegou ao seu ápice nessa reunião, não começou agora. Para o historiador e professor de História pela Universidade de São Paulo (FFLCH/FE-USP) Caio Rubini, o que veio à tona na Corte expõe tensões acumuladas ao longo da última década, período em que o Supremo passou a ocupar o centro de algumas das principais disputas políticas do país.
“O STF se tornou um dos grandes centros do embate político brasileiro nos últimos anos, que foi acentuado fortemente após o julgamento da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, conduzido por Alexandre de Moraes”, avalia Rubini.
Acusações, enfrentamentos e questionamentos entre integrantes do próprio tribunal reproduzem, segundo Rubini, parte da polarização que se aprofundou no Brasil. Conflitos que há anos atravessam o Legislativo e o Executivo chegaram também ao STF.
A crise, no entanto, não se resume à disputa política. A relação entre integrantes dos poderes do Estado e a elite econômica brasileira ocupa lugar central na análise do professor e ajuda, segundo ele, a compreender o atual desgaste institucional.
É também por essa perspectiva que Rubini enxerga no episódio uma questão de economia política. Interesses privados e poder econômico se misturam às disputas que chegaram ao Supremo, deslocando a discussão para além das condutas individuais de seus ministros.
“Testemunhamos um embate majoritariamente político e de economia política, pois envolve grandes nomes da economia nacional, dentro do Supremo Tribunal Federal. A sensação de ‘ideias fora do lugar’, como diria Roberto Schwarz, faz todo o sentido aqui”, explica o professor.
O próprio ambiente da Corte mudou. O enfrentamento público entre ministros e a sobreposição de argumentos jurídicos e políticos contrastam, na avaliação do historiador, com o rigor e o decoro exigidos de integrantes da mais alta instância do Judiciário brasileiro.
Caio Rubini é historiador e professor de História pela Universidade de São Paulo (FFLCH/FE-USP)
Há ainda um efeito que ultrapassa os limites do tribunal. O desgaste da imagem do STF pode ampliar a desconfiança da população nas instituições e reforçar a personificação da política — quando o debate público passa a se concentrar mais em determinados líderes do que nos projetos, interesses e estruturas que eles representam.
O professor salienta que “a população passa a desconfiar e desqualificar aquela que deveria ser a instituição salvaguarda da nossa democracia, que é o Supremo Tribunal Federal. Com a imagem da Corte manchada, aumenta, e muito, o perigo para a democracia brasileira”.
Para Rubini, recuperar a credibilidade do Supremo exigirá enfrentar questões que a crise colocou em evidência. Entre elas estão os conflitos de interesses, o alcance das decisões monocráticas, as relações entre autoridades e agentes econômicos e a transparência na atuação da Corte.
Nesta entrevista, Caio Rubini fala sobre as origens da crise, analisa os embates no Supremo e discute o que o atual episódio revela sobre as relações entre poder político, poder econômico e Judiciário no Brasil.
Leia os principais trechos:
Como avalia a sessão desta terça-feira no Supremo?
Acima de adjetivações exageradas e sensacionalistas, ocorridas principalmente pela manhã, a sessão é um reflexo do que a sociedade brasileira e suas instituições vêm construindo nos últimos anos: brigas, dedos em riste, acusações de todos os lados, desvio do assunto principal. Afirmações veementes que se colocam acima da dúvida, ausência de decoro, respeito e do rigor que o cargo de ministro do STF exige.
A Corte vive um momento de ‘hemorragia interna’. Dois de seus membros — [Alexandre de] Moraes e [André] Mendonça — podem ser investigados por envolvimentos com [o ex-banqueiro do Master, Daniel] Vorcaro e seu esquema de corrupção. Hoje podemos ver a abertura de uma investigação contra Moraes, algo sem precedentes. Porém, o que vimos até agora foi uma extensão das discussões e disputas políticas que se avolumam em Brasília há, pelo menos, dez anos.
Como o STF chegou a este ponto?
Não se chega a um caso tão caótico e inédito do dia para a noite. Há um histórico importante a ser considerado. O STF se tornou um dos grandes centros do embate político brasileiro nos últimos anos, que foi acentuado fortemente após o julgamento da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, conduzido por Alexandre de Moraes. O ministro, que ali cumpria seu papel enquanto defensor das instituições, do processo eleitoral legal e do julgamento de atos criminosos cometidos por alguns dos eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro, se colocou no meio da polarização política, cada vez mais extrema, que estamos testemunhando.
A partir disso, o Poder Legislativo, especialmente as bancadas de direita e centro, passou a atacar o ministro em todas as oportunidades. Por outro lado, os indícios de envolvimento entre Moraes e Vorcaro são fortes e foram produzidos pela Polícia Federal, órgão que, ao menos no atual governo, possui independência para investigar quem achar necessário.
Uma Corte cada vez mais política, cada vez mais envolvida com as questões do Legislativo e do Executivo, com ministros possivelmente envolvidos com esquemas duvidosos, em meio a uma década de acirramento das tensões entre as principais forças políticas do país. [Esse quadro] só poderia gerar um espelho dessa própria sociedade: Supremo dividido, que prefere acusar a ouvir, que toma suas decisões antes do julgamento, antes de ouvir as partes, e profundamente politizado, abandonando a própria honestidade intelectual, que seria tão necessária e urgente, tanto para este julgamento quanto para outros que virão.
Inclusive, na minha visão, honestidade intelectual é um conceito que deveria voltar a ser mais trabalhado. Nosso tempo tem abandonado esse conceito, cada vez mais relegado às ciências e esquecido pela sociedade, pelos poderes e pela comunicação de massa. Mas, ele é absolutamente essencial para o funcionamento saudável de uma democracia.
Retornando ao tópico, se compararmos a atual discussão entre ministros, como a que tivemos hoje entre Moraes e Mendonça, com argumentações de ministros do passado, já aposentados, podemos ver como o tom e a forma da retórica jurídica da Corte se alteraram profundamente. O Supremo é, hoje, um reflexo das disputas políticas decorrentes da polarização que vivemos.
Faz sentido a proposta de adiamento para o dia 23?
Acredito que sim, faz total sentido do ponto de vista institucional e jurídico. Como vimos nas movimentações da sessão, vários integrantes da Corte cobraram o acesso à íntegra dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, pois ainda há muito a ser estudado e descoberto.
Falando mais especificamente, este é um caso que pode resultar em medidas drásticas para os ministros e para o STF — como mencionei, não há precedentes para o acontecido. Assim, os demais magistrados precisam verificar demoradamente se houve quebra da cadeia de custódia das provas — como alega enfaticamente a defesa de Moraes — e se as diligências determinadas por André Mendonça foram inconstitucionais, se esse apelo de Mendonça tem fundamentação factual ou se é ataque político.
A proposta de adiamento se materializou por meio do pedido de vista do ministro Flávio Dino, o que suspendeu o julgamento. No momento dessa interrupção, o plenário discutia se a análise sobre Moraes deveria ser feita em conjunto ou separada da conduta de Mendonça, com um placar parcial de 4 a 3 para manter as questões separadas. Esse adiamento se justifica na necessidade de os ministros terem mais tempo para avaliar provas e os relatórios da PF, assim como julgar tanto as questões de ordem, como foi visto hoje, quanto o mérito central da questão a ser julgada.
O que o senhor destaca de relevante nas falas dos ministros?
O grande destaque ficou por conta das falas de Alexandre de Moraes, que sustentou uma incisiva linha de defesa, tentando desqualificar a apuração tanto na forma quanto no mérito. Ele argumentou que a investigação conduzida por André Mendonça é ‘absolutamente inconstitucional e ilegal’, por ter sido determinada de ofício em relação a um par da Corte, violando o sistema acusatório.
O tom político do discurso foi constante e Moraes, além de negar o envolvimento, atribuiu todo este episódio a uma “tentativa de vingança” contra ele, por ter sido o ministro que julgou o caso dos aliados de Jair Bolsonaro na tentativa de golpe de Estado em 2023.
Ou seja, Moraes politiza seu discurso para enfatizar que a presente sessão extraordinária e sua possível investigação só existem por conta de uma suposta perseguição política, que ele alega estar sofrendo desde o julgamento sobre o caso de 8 de janeiro de 2023. Neste ponto, fica cada vez mais difícil discernir onde começa e onde acaba o poder de uma instituição, pois elas se assemelham cada vez mais.
Na sua avaliação, o que levou a esta crise: a proximidade dos ministros com a elite econômica do Brasil — eventos, viagens, palestras — ou o compromisso político deles com os “padrinhos” que os colocaram no cargo?
Acredito que não é tanto uma relação de apadrinhamento entre políticos e juristas. Afinal, foi Michel Temer que colocou Alexandre de Moraes lá, e sob protestos de setores da esquerda e centro-esquerda.
Avalio que essa relação entre membros do Judiciário, Legislativo e Executivo com a elite econômica, ou melhor, com a burguesia brasileira, é a grande responsável pela crise dos três poderes, que não é de hoje. A independência de cada um dos três poderes é base de qualquer sociedade que pretenda se dividir dentro do molde pensado por Montesquieu [filósofo francês do séc. XVII] e adaptado às necessidades modernas.
Uma dessas adaptações parece ter sido esquecida: os poderes institucionais devem ser independentes, mas harmônicos. E essa harmonia não existe mais. E quem provocou essa desarmonia crescente foi a relação cada vez mais intrínseca entre a elite econômica e os poderes do Estado.
Ora, isso não é nada novo para a História. Poderia trazer vários exemplos de como essa relação é prejudicial para os interesses da sociedade como um todo. Entretanto, testemunhar isso ao vivo é diferente de apenas ler nos livros de história.
A política, o Supremo, a elite financeira e seus interesses privados colidiram dentro da Corte. Hoje [15 de setembro] testemunhamos um embate majoritariamente político e de economia política, pois envolve grandes nomes da economia nacional, dentro do Supremo Tribunal Federal. A sensação de “ideias fora do lugar”, como diria Roberto Schwarz, faz todo o sentido aqui.
Já dá para traçar algumas linhas gerais do que precisará ser analisado e corrigido para que a Corte recupere sua reputação institucional?
O STF precisará estabelecer balizas muito mais rígidas sobre conflito de interesses. Essa relação entre grandes nomes da política, da economia e do Supremo não pode ser tolerada, se o objetivo for criar uma relação independente, harmoniosa e de progresso real para nossas instituições.
Debates acerca do financiamento privado de campanha ou da relação entre empresas de parentes — de deputados, ministros, governadores etc. — com nomes como Vorcaro e outros da burguesia nacional acabam distorcendo a própria democracia e seus valores pétreos.
Assim, a população passa a desconfiar e desqualificar aquela que deveria ser a instituição salvaguarda da nossa democracia, que é o Supremo Tribunal Federal. Com a imagem da Corte manchada, aumenta, e muito, o perigo para a democracia brasileira. Se não é possível confiar nas instituições, nem nos ministros do STF, é possível que a população intensifique o processo de personificação da política, acreditando que tudo se resume a uma única figura — como a do presidente da República e do candidato de oposição —, como se essa figura estivesse isolada do todo.
O conteúdo é apagado em prol de uma forma superficial de debate. E hoje o STF protagonizou exatamente esse processo. Há muito trabalho a ser feito para reestruturar as instituições e recuperar a reputação do STF, mas vejo como algo a ser feito como um todo. Não apenas no Supremo, mas nos outros poderes, na comunicação social, na internet, na militância dos partidos, no discurso político. Essa reforma precisa ser feita na totalidade.
Questões como a definição de mandato para os ministros, a regulamentação mais rígida do que é cabível de decisão monocrática e outras estão sendo aventadas como importantes para a transparência do Supremo. O senhor concorda? Teria outras propostas?
Concordo. Há pelo menos dez anos vivemos de crise em crise, lembrando desde o golpe institucional — ou impeachment, se preferir — da presidenta Dilma Rousseff. Desde o caso de 8 de janeiro, a crise fez do Judiciário sua morada, sem deixar de aparecer semanalmente no Legislativo e no Executivo.
Mas, no que tange ao STF, a atual crise provou que decisões monocráticas podem ser usadas como armas políticas em disputas internas, esvaziando seu conteúdo jurídico, como seria o mérito do Supremo. Regulamentar e restringir o que um único ministro pode fazer sem o aval do plenário é uma reforma interessante para controlar os desmandos que testemunhamos.
A definição de mandatos com prazo fixo também é uma possibilidade, pois oxigena a Corte e impede o desgaste natural do acúmulo de poder por décadas. Porém, corre o risco de a Corte ser ainda mais usada politicamente: com mandatos mais curtos de ministros, seria mais fácil modificar os membros conforme o governo vigente.
Portanto, ao tentar impedir um acúmulo de poder e prestígio de ministros que permanecem no poder por décadas, como temos hoje, poderíamos cair numa variedade abundante de membros, mas que seriam colocados por motivos puramente políticos, alçados ao cargo de ministro para defenderem seus próprios lados políticos e de quem os colocou no poder.
Destacaria a necessidade de regras inegociáveis de impedimento automático em casos envolvendo, direta ou indiretamente, escritórios de parentes até terceiro grau.
Por fim, a transparência precisa ser real: cobertura massiva da imprensa, sem impedimentos; a possibilidade de a PF investigar qualquer ministro, político ou membro da elite financeira sem constrangimentos, ameaças ou demissões sumárias — como o ministro André Mendonça, que determinou erroneamente o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que foi logo restaurado ao cargo pelo ministro Flávio Dino.
Além disso, é urgente exigir mais transparência dos três poderes em relação à população brasileira, que fica à mercê dos nomes citados, sem muitas vezes nem entender o papel de cada um dentro de uma República. Presa cada vez mais a uma política personificada, voltada ao culto de um nome ou outro, sem que a real função da política seja transposta e estruturada, o que continua a ameaçar nossa jovem — e ainda frágil — democracia.
A sessão histórica do Supremo Tribunal Federal (STF), marcada para analisar as mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, estava marcada para começar às 10h. Já passava das 16h20 desta terça-feira, 15 de setembro, e a reunião ainda não tinha alcançado a discussão do mérito da pauta – nenhum dos nove integrantes da mais alta Corte do país havia se manifestado sobre a abertura de uma investigação sobre a conduta de Moraes, exposta por outro magistrado do grupo, ministro André Mendonça. O debate, naquele momento, envolvia uma Questão de Ordem apresentada pelo decano Gilmar Mendes, que tentou suspender a reunião extraordinária e marcá-la para o próximo dia 23.
Duas horas depois, a sessão foi finalizada, e o mérito continuou sem análise. Ao longo de todo o dia, os ministros deliberaram apenas se Moraes deveria ter seu julgamento conjunto com o de Mendonça. No turbilhão da crise que assolou o Supremo desde o dia 2 de setembro, Moraes havia pedido ao presidente do Corte, Edson Fachin, a inclusão de Mendonça no inquérito das Fake News. A decisão foi baseada em relatórios de inteligência fornecidos pela Polícia Federal (PF), em que a corporação aponta um desequilíbrio na condução de André Mendonça no caso Master contra políticos, com indícios de “enviesamento”.
Alexandre de Moraes conta com aliados como Gilmar Mendes e Flávio Dino para evitar uma investigação sobre sua suposta relação com o caso Master
Prevaleceu no plenário, por quatro votos a três, a recusa à Questão de Ordem apresentada por Gilmar, de unir os dois casos. Foram favoráveis os ministros Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Enquanto Fachin, André Mendonça e Luiz Fux e Cármen Lúcia foram contrários à união das duas análises. Houve, porém, o pedido de vista do ministro Flávio Dino. Isso significa que a sessão será interrompida por até 90 dias para que ele possa analisar melhor o caso e posteriormente devolver aos magistrados.
Com pedido de vistas de Flávio Dino, julgamento será interrompido por até 90 dias
Única mulher a integrar a Corte, Cármen Lúcia só tomou a palavra às 17h56, após mais de sete horas do início do julgamento, em que permaneceu em silêncio, diferentemente de seus pares do gênero masculino. Em sua fala, ela declarou estar “profundamente consternada e triste” com a crise institucional do STF. Apontou, ainda, que a Corte provocou “intranquilidade” no país, que está a menos de 20 dias do primeiro turno das eleições presidenciais. Em seguida, pediu “desculpa” ao “povo brasileiro”. “Eu peço desculpa ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura diferente. Mas acho que todos nós aqui queríamos a mesma coisa, que era tentar resolver, e as questões não foram resolvidas e foram crescendo demais”, afirmou.
A ministra ainda criticou o que chamou de “espetacularização” dos julgamentos do STF. “Nós não garantimos o rigor e seriedade que deveríamos. Peço desculpas aos colegas e ao povo por não ter conseguido resolver essas questões de melhor modo. Houve uma espetacularização desses casos, dessa sessão, que não faz mal apenas ao Supremo, mas ao país. O país espera uma tranquilidade do Supremo que não conseguimos dar.”
A declaração da ministra ocorreu após uma série de embates entre os ministros durante a reunião desta terça-feira. O primeiro deles foi protagonizado pelo ministro Flávio Dino e o próprio presidente da Corte, Edson Fachin, que abriu a sessão centralizando em seu discurso a necessidade de preservar “sensatez, decoro e serenidade”. Ainda na primeira hora, porém, o equilíbrio entre os magistrados pareceu se desfazer. Dino pediu um aparte a Toffoli, que também esteve no epicentro do inquérito do Master, mas teve seu caso arquivado após uma reunião a portas fechadas entre os ministros.
Interrompendo Dino, Fachin respondeu que a palavra deveria ser sempre solicitada à presidência. Último ministro a compor a Corte, Dino retrucou que seguiria o regimento interno do Supremo, que, segundo ele, tem o aparte “dirigido ao relator”. A troca de farpas continuou, com direito a citação por Dino dos filósofos Thomas Hobbes e Aristóteles, além do cantor e compositor Chico César.
Antes mesmo do início da sessão, o ministro encaminhou um requerimento ao decano Gilmar Mendes, para que ele, na sua condição de substituto legal do Presidente e do Vice-presidente da Corte, restabelecesse o cumprimento da Constituição Federal, da lei e do Regimento Interno do STF. De acordo com Dino, há irregularidades na condução do processo por Fachin, que teria avocado para si, sem base legal, as petições que, para Dino, deveriam ter passado por redistribuição de relator.
A crítica ao presidente da Corte continuou ao longo do julgamento. “Temos uma situação complexa, tão complexa, que a pauta que nós recebemos traz como relator o ministro André Mendonça. Não houve redistribuição. Não houve publicação de pauta com a redistribuição feita. Quero dizer, presidente, teria que ser ele. Esse é o meu ponto. Vossa Excelência avocou cinco processos. Um meu, três do André [Mendonça] e um do Alexandre [de Moraes]”, afirmou Dino. Ainda segundo o ministro, ao aceitar a suposta avocatória de Fachin, a Corte estaria “abrindo uma avenida de autoritarismo, de despotismo, de tirania, nos tribunais”.
Presidente do STF, Fachin recebeu críticas sobre a condução da crise envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça
Ao pedir vista, no fim da sessão, o ministro Flávio Dino subiu o tom contra Fachin novamente. “Nós estamos em termos que degradam a imagem deste tribunal. Vossa Excelência está assistindo isso há horas e está transformando o Supremo, nas próximas semanas, quiçá meses, neste debate. Se Vossa Excelência vai assistir a isto, eu não vou”, concluiu.
Impedidos
No início da sessão, o ministro Kassio Nunes Marques, também presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), se declarou impedido de julgar naquela situação porque, segundo ele, o TSE mantém uma “equidistância” do caso Master. Marques, no entanto, aproveitou a oportunidade de fala para citar indiretamente a conversa extraída do celular de Daniel Vorcaro, que mostraria que o advogado Kevin Marques, filho do ministro, teria recebido o valor de R$ 500 mil do ex-banqueiro. “Nunca prestou nenhum serviço”, afirmou o ministro sobre o filho durante seu pronunciamento.
Na sequência, Dias Toffoli também tomou a palavra e, “para manter a coerência”, já que desde que saiu da relatoria do caso Master, de forma voluntária — ressaltou —, não tem votado em assuntos referentes a esse inquérito. Diferente de Nunes Marques, que se retirou do plenário, Toffoli declarou que, mesmo sem votar, seguiria na sessão e se manifestaria, caso sentisse necessidade. O ministro já esteve no epicentro de acusações de envolvimento com Daniel Vorcaro quando foi relator do inquérito. Na época, declarou suspeição por motivo de foro íntimo e desde então não participa de julgamentos relacionados ao banco Master. Entre as suspeitas que recaem sobre Tóffoli estão negócios imobiliários e aportes financeiros ligados ao Master.
Como ministros votaram na questão de ordem
Flávio Dino votou para que Alexandre de Moraes e André Mendonça fossem julgados juntos no dia 23. Ele falou num “combate seletivo” à corrupção no Brasil e apontou a existência de um “inquérito” contra Alexandre de Moraes e uma “inadequação procedimental” na apreciação do caso. Luiz Fux, por sua vez, rebateu: “nós temos uma apuração, isso não é inquérito”.
Fachin foi questionado por Dino sobre os motivos pelos quais o ministro Alexandre de Moraes estava sendo julgado de forma isolada. “Por que Elon Musk não gostou, porque Trump não gostou, porque os autores do homicídio de Marielle não gostaram?”, indagou.
Já o ministro Cristiano Zanin fez uma defesa mais curta e também acompanhou a proposta de Gilmar Mendes para votar o caso de Alexandre de Moraes e André Mendonça em conjunto. O presidente Fachin argumentou sobre o posicionamento de Zanin, afirmando que não houve diferença no tratamento dos casos em relação às datas dos julgamentos.
Como previsto, André Mendonça acompanhou Edson Fachin para julgar Alexandre de Moraes na sessão à parte da sua. Ele ainda refutou a acusação de que estaria atuando com parcialidade sobre a seletividade de nomes nas investigações da PF. “Entendo não haver as mesmas bases fáticas, como foram referidas. O que há em relação a mim é um suposto relatório de inteligência que a própria imprensa encara como fake. (…) são situações jurídicas totalmente distintas”.
Em 2 de setembro deste ano, Mendonça confirmou ter se encontrado com Daniel Vorcaro em março de 2025. Entretanto, o magistrado disse não ter conversado em momento algum sobre o banco Master com o ex-banqueiro, mas sim a respeito do pagamento de precatórios decorrentes de prejuízos de uma usina do setor sucroalcooleiro.
Em manifestação no momento da defesa do voto de André Mendonça, Alexandre de Moraes disse ser vítima de um “dossiê criminoso” montado contra ele para ser vazado à imprensa. Moraes ainda acusou Mendonça de realizar uma “investigação de ofício”. Em contrapartida, André Mendonça negou qualquer “juízo de valor” enquanto relator do caso Master e afirmou ter seguido os precedentes constitucionais do STF. “Ninguém foi buscar informação, nós temos os autos e os documentos”.
Mesmo após Flávio Dino pedir vistas, a ministra Carmen Lúcia manifestou voto no sentido de manter os casos de Moraes e de Mendonça separados. Ela também rebateu as declarações de Flávio Dino sobre uma possível pressão externa para influenciar nas condutas no STF. “Não é por pressão de fora ou de dentro, é porque é a nossa compreensão de que é o nosso dever”, declarou a ministra, que lamentou, mais uma vez, a situação que estava sendo analisada. “Essa é uma sessão que não é das páginas mais festivas [da Corte] de jeito nenhum, longe disso”.
A crise no STF
O estopim da crise no STF ocorreu após o então relator do caso Master, ministro André Mendonça, retirar o sigilo de conversas que envolveriam Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Mensagens de celular obtidas pela Polícia Federal mostram que o empresário teria enviado 52 mensagens ao magistrado, incluindo questionamentos sobre iminentes operações policiais e pedidos de informações sobre possíveis mandados de busca e apreensão e bloqueio de bens.
Moraes também atuou na edição de um contrato de R$ 130 milhões firmado entre Vorcaro e o escritório advocatício da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. Após a revelação do acordo, o escritório Barci de Moraes divulgou uma nota alegando ter consultado o próprio ministro sobre a existência de impedimentos legais para a contratação, mas que nenhuma irregularidade teria sido identificada.
Uma possível seletividade intencional de André Mendonça na escolha dos documentos que teriam a quebra de sigilo divulgada deixou ainda mais à mostra a divisão interna no Supremo. Ao lado de Moraes: Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. Um outro aliado é o ministro Dias Toffoli, que contou com o apoio dos ministros quando foi o alvo das suspeitas como relator do caso Master.
Campanha de Flávio aproveita julgamento de Moraes
Numa ação atípica para o período de campanha eleitoral, parlamentares da oposição se reuniram no Congresso Nacional para declarar apoio irrestrito às ações de André Mendonça e pedir o afastamento de Alexandre de Moraes do cargo ocupado no STF. À frente do grupo no parlamento, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha do também senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
O senador Carlos Viana (PSD-MG), que abriu uma frente de ataque contra o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), chegou a afirmar que a oposição iria obstruir os trabalhos no parlamento caso Alexandre de Moraes não fosse afastado no julgamento do STF e nem fosse aberto um processo de impeachment contra o ministro no Senado – medida que depende do aval de Alcolumbre.
Apesar das muitas artimanhas, Donald Trump não está conseguindo aumentar sua popularidade, que permanece baixa e estagnada. A alta nos preços do petróleo — causada pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã, um conflito interminável e sem qualquer estratégia de saída — e as políticas tarifárias de Trump aumentaram significativamente os custos do dia a dia do cidadão comum, independentemente de suas inclinações políticas. Além disso, ele enfrenta a possibilidade real de perder o controle da Câmara dos Representantes nas eleições de 3 de novembro deste ano e, talvez, até mesmo do Senado.
Ainda assim, Trump segue em frente. Ele compreende que, sem seu nome na cédula nas próximas eleições, muitos de seus apoiadores menos fervorosos podem não se dar ao trabalho de votar. Por isso, o presidente dos EUA faz todo o possível para restringir o direito de voto daqueles setores da população com maior probabilidade de votar nos Democratas.
Sua iniciativa mais recente é tentar limitar o uso do voto pelo correio — modalidade utilizada por um terço de todos os eleitores aptos — sob o argumento de que imigrantes não cidadãos podem votar nas eleições dos EUA e de que o processo é vulnerável a fraudes. Nesta semana, a Suprema Corte dos EUA decidirá se Trump pode prosseguir com a tentativa de usar o Serviço Postal dos EUA para definir quem tem direito a receber a cédula de votação pelo correio. Ironicamente, os esforços de Trump podem acabar sendo contraproducentes, uma vez que, até pouco tempo atrás, os republicanos eram mais propensos a votar por correio do que os democratas e os eleitores independentes.
Para mobilizar sua base, Trump convocou uma convenção eleitoral na semana passada, no Texas, estado que tem sido um reduto republicano sólido há décadas. O presidente escolheu Dallas como palco de seu mais recente comício de mobilização em grande parte para fortalecer seu candidato ao Senado, escolhido a dedo: Ken Paxton, o Procurador-Geral do Texas. Em 2023, a Câmara dos Representantes do Texas, de maioria republicana, votou (por 121 votos a 23) a favor do impeachment de Paxton sob acusações de suborno, obstrução à justiça e abuso de confiança pública, embora o Senado do Texas o tenha absolvido das acusações.
Após derrotar de forma avassaladora seu rival John Cornyn — um poderoso senador que cumpre seu quarto mandato — nas primárias republicanas, ele agora enfrenta James Talarico, um jovem e carismático cristão progressista que lidera as pesquisas eleitorais com uma vantagem de vários pontos. Se esses números se confirmarem, uma vitória de Talarico poderá significar o controle democrata do Senado.
Os cheques “sem fundos” de Trump
Aparentemente em pânico com uma possível derrota eleitoral em nível nacional, Trump prometeu emitir um cheque de 5 mil dólares para cada cidadão adulto dos EUA após as eleições de novembro, caso os republicanos mantenham o controle da Câmara e do Senado. Economistas argumentam que isso custaria 1,2 trilhão de dólares e inevitavelmente alimentaria a inflação, além de aumentar o déficit federal.
Além disso, apesar de Trump afirmar que tem o direito legal de emitir os cheques, o Congresso precisaria aprová-los, e alguns políticos republicanos já sinalizam que a proposta poderia não obter votos suficientes no Senado para ser aprovada. Os democratas classificam a proposta como um suborno ilegal, embora decisões recentes da Suprema Corte possam invalidar essa alegação.
Apesar da promessa poder soar bem para apoiadores ingênuos de Trump, jornalistas o questionaram por que não envia o cheque antes das eleições, já que atualmente controla ambas as casas do Congresso, conta com uma Suprema Corte favorável e detém a caneta presidencial para transformar essa medida em lei.
A resposta de Trump tem sido um amontoado de justificativas e inverdades, variando desde a alegação de que os democratas iriam se opor à medida — apesar de os republicanos controlarem o Congresso — até a mentira de que o governo dos EUA recebeu “trilhões de dólares” de sua política tarifária, recursos que poderiam custear os cheques.
Ademais, Trump fez promessas grandiosas semelhantes no passado e jamais as cumpriu. No início de seu segundo mandato, enquanto Elon Musk desmantelava programas governamentais e eliminava empregos de 300 mil funcionários federais, o presidente prometeu distribuir 20% da economia do orçamento federal aos cidadãos americanos. Ele nunca o fez.
No final de 2025, Trump prometeu enviar 2 mil a cada pessoa — exceto àquelas de alta renda — com base nos supostos “trilhões de dólares” que o governo teria arrecadado com tarifas. Isso também nunca aconteceu.
Ao mesmo tempo, Trump continua a utilizar a tática de fazer declarações escandalosas, concebidas, em parte, para desviar a atenção pública de suas vulnerabilidades atuais. Isso envolve oferecer gestos simbólicos vazios, destinados a agradar à sua base de apoio MAGA (do inglês Make America Great Again, Tornar a América Grande Novamente), como renomear o Lago Ontário para Lago América e o estado do Novo México para Nova América. Trump calcula que esses gestos mobilizarão seus apoiadores leais, o que será essencial para evitar uma grande derrota eleitoral em novembro. A estratégia também desvia o foco da mídia de outras ações condenáveis de Trump.
A trajetória de um canalha e seu mentor
Como podemos compreender as manobras de Trump — que parecem tão irracionais e insensatas — senão insistindo que as capacidades mentais do presidente estão em declínio e que sua conexão com a realidade é cada vez mais precária? Na biografia recém-lançada, Canalha Americana: A trajetória sombria de Roy Cohn, de Joe McCarthy a Donald Trump (no inglês, American Scoundrel: Roy Cohn’s Dark Journey from Joe McCarthy to Donald Trump), o biógrafo vencedor do Prêmio Pulitzer, Kai Bird, oferece insights importantes sobre como e por que Trump age da maneira que age.
Roy Cohn (1927-1986) permanece uma figura controversa na história dos EUA. Homossexual que não assumia publicamente sua orientação sexual, ele se envolveu, ainda na casa dos vinte anos, no famoso caso Rosenberg, no qual Julius e Ethel Rosenberg — membros do Partido Comunista dos EUA — foram julgados, condenados e executados por repassar informações à União Soviética sobre o programa de bombas nucleares dos EUA. Posteriormente, ele apoiou as investigações televisadas de 1954 do senador de Minnesota, Joseph McCarthy, sobre a suposta influência comunista nas Forças Armadas dos EUA. Uma característica dessas audiências era o interrogatório agressivo — ou, como alguns diriam, intimidador — por parte de Cohn, o que acabou por desacreditar as ações dele e as de McCarthy.
Cohn tornou-se então advogado de clientes ricos de Nova York, de políticos e de chefes da Máfia. Simultaneamente, manteve laços com os presidentes republicanos Richard Nixon e Ronald Reagan. Ele também se tornou mentor e conselheiro informal de Trump, conversando regularmente com o empresário imobiliário nova-iorquino.
Sob a orientação de Cohn, Trump aprendeu a nunca admitir um erro e a sempre culpar seus adversários por qualquer problema ou irregularidade. Cohn ensinou Trump a evitar o pagamento de dívidas, a ignorar regras tradicionais, a negar a verdade quando fosse inconveniente e a nunca deixar rastros documentais. Ele também mostrou a Trump como manipular a mídia, um talento que Trump aperfeiçoou com os tabloides de Nova York.
Cohn desprezava o movimento LGBT e opunha-se à presença de gays e lésbicas no funcionalismo público e no governo federal. Ele morreu devido a complicações da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a AIDS. A premiada peça de 1991 de Tony Kushner, Anjos na América (Angels in America), incorpora Cohn à trama com maestria. Assombrado por Ethel Rosenberg, ele busca desesperadamente medicamentos para combater a doença.
As comparações entre Cohn e Trump são inúmeras e alarmantes, sugerindo que o atual presidente dos EUA, embora pareça errático, opera com uma estratégia política sofisticada.
Trump emulou a imoralidade e a falta de ética de Cohn, combinando-as com um talento para enganar as pessoas e tirar-lhes dinheiro. Nesse aspecto, ele personifica o vendedor de “elixires milagrosos” do Velho Oeste — figura do século 19 que viajava de cidade em cidade promovendo tônicos inúteis, supostamente capazes de curar todo tipo de enfermidade, do reumatismo à dor de dente. A comercialização, por parte de Trump, de produtos de marca com preços inflacionados — como carnes, vodca, água, gravatas, perfumes, relógios, Bíblias “God Bless the USA”, cards digitais e “Moedas da Vitória” de ouro maciço de uma onça — revela seu talento contínuo para ludibriar consumidores ingênuos.
Um aprendiz de maus hábitos
A sobrinha de Trump, Mary L. Trump — psicóloga clínica e autora do livro de 2020 Demais e Nunca o Suficiente: Como Minha Família Criou o Homem Mais Perigoso do Mundo (Too Much and Never Enough: How My Family Created the World’s Most Dangerous Man) —, oferece perspectivas adicionais sobre a personalidade de Trump que nos ajudam a compreender sua estrutura psicológica.
Segundo Mary Trump, o pai do presidente, Fred Trump Sr., era emocionalmente abusivo. Ele ensinou o filho a nunca demonstrar fraqueza, a mentir, a trapacear, a intimidar os oponentes e a roubar, desde que pudesse sair impune. Ela argumenta que o narcisismo extremo do presidente dos EUA reflete inseguranças profundas e não resolvidas que regem seu mundo emocional. O amor e a admiração que o presidente busca junto a líderes mundiais, segundo ela, servem para compensar a falta de afeto e o sentimento de indignidade, moldados pelos maus-tratos psicológicos impostos por seu pai.
A autopromoção de Trump, personificada por seu reality show de 15 temporadas, O Aprendiz (The Apprentice), criou uma figura imaginária que era, ao mesmo tempo, brilhante nos negócios e implacável nas decisões executivas. Isso também ocultou o fato de que muitos de seus empreendimentos financeiros fracassaram e de que ele declarou falência empresarial quatro vezes.
Para seus apoiadores leais, ele é um irreverente que quebra as regras para tornar o país grande novamente. Até mesmo seus fervorosos apoiadores cristãos evangélicos revelam infidelidades conjugais, relações com profissionais do sexo, fixação por mulheres menores de idade, longa e estreita amizade com Jeffrey Epstein e condenação por agressão sexual.
Eles aderiram ao seu culto e votam.
Resta saber se isso será suficiente para Trump manter o controle do Congresso. Enquanto isso, para a maioria dos residentes dos Estados Unidos que sofrem com o alto custo de vida, o melhor seria não gastar os 5 mil dólares na expectativa de um cheque que jamais chegará pelo correio.
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Os órgãos que deveriam amparar as candidatas vítimas de violência política de gênero como a Justiça Eleitoral e a Polícia Federal não estão preparados para enfrentar o problema, denuncia a deputada estadual Bella Gonçalves (PT-MG), que disputa uma vaga a deputada federal nestas eleições. Ela é uma das mulheres candidatas que alertou ter recebido ameaças de morte e estupro nos primeiros dias de setembro.
Minas Gerais é o segundo Estado que mais mata mulheres do Brasil [em números absolutos]. A violência política acompanha a violência de gênero, por isso que eu acho que, em Minas Gerais, é tão comum a violência política contra as mulheres”, diz Bella Gonçalves.
Ela não foi a única. Na noite do último sábado, 12 de setembro, a suplente ao Senado e advogada, Fernanda Klitzke (PT) foi agredida, chutada e alvejada por balas de borracha por policiais militares em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. As agressões ocorreram após uma denúncia de som alto.
Também no sábado, em Minas Gerais, a deputada estadual pelo PT, Andréia de Jesus, candidata à reeleição, também divulgou em suas redes sociais o recebimento de ameaças. Segundo uma matéria do site Alma Preta, Jesus foi ameaçada de morte, com conteúdo racista e de violência física, via uma mensagem eletrônica.
A candidata pelo PT, a deputada federal por Minas Gerais, Ana Elisa Santos Silva, também fez um Boletim de Ocorrência após receber mensagens com conteúdo de ódio racista e ameaças de morte e violência sexual em setembro. “A violência no Brasil [contra as mulheres] nunca parou; na verdade, ela está em crescimento”, afirma.
No dia 4 de setembro, a deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG), candidata à reeleição, usou suas redes sociais para denunciar agressões sofridas quando fiscalizava uma mineração ilegal na divisa de Belo Horizonte com o município de Nova Lima, que foram seguidas por uma tentativa de homicídio.
Para Silva, que está concorrendo pela primeira vez em uma eleição, a sensação de insegurança continua. “Eu fui ameaçada de morte, não tenho segurança, não tenho medida protetiva, não tenho absolutamente nada e não tenho dinheiro”, relata. Mesmo denunciando aos órgãos competentes e levando ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas (TRE-MG), Ana Elisa ainda se sente insegura.
Gonçalves também chama a atenção para o fato que as candidatas que estão entrando na política “seguem muito desprotegidas para enfrentar a violência política de gênero”. Mesmo contando com a presença de uma policial militar por ser deputada estadual, Bella Gonçalves critica a falta de regulamentação das leis que protegem as mulheres que atuam na política institucional, tanto no âmbito dos tribunais eleitorais, já que se trata de crime eleitoral, como na legislação de enfrentamento à violência política de gênero, aprovada em Minas Gerais.
Ironizando uma fala do ex-governador de Minas e candidato à Presidência pelo Novo, Romeu Zema, em entrevista à TV Globo, Bella Gonçalves diz que Minas tem, de fato, políticas contra mulheres. “A não-regulamentação e o não-funcionamento do Conselho de Proteção à Mulher do Estado, o não-investimento na rede de proteção, entre tantas outras ações que vão resultar na ponta em morte de mulheres”, exemplifica.
Por que isso importa?
A reserva de candidaturas femininas nos partidos política existe há 30 anos (desde 1996), porém nas últimas eleições, em 2022, apenas 17,7% das vagas da Câmara Federal foram ocupadas por mulheres.
Uma legislação específica de combate à violência política contra mulheres surgiu há apenas cinco anos, com a Lei nº 14.192/2021.
Entre as medidas tomadas após o recebimento das ameaças, a deputada estadual formalizou um pedido de providências na Gerência-Geral de Polícia Legislativa (GPOL) na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e na Justiça Eleitoral. Além disso, afirma estar cobrando investigação das forças de inteligência da polícia e a segurança dela e de seus familiares. Gonçalves ainda pretende entregar uma carta ao Partido dos Trabalhadores solicitando a utilização do fundo partidário para combate à violência política de gênero e garantia da segurança das candidatas.
Objetivo é intimidar e expulsar mulheres dos espaços de poder
Gestora de mobilização, Maíra Baracho defende que a violência é um instrumento usado contra mulheres que ocupam espaços que não foram pensados para elas
A percepção de que a violência política de gênero está aumentando no Brasil ocorre, segundo a gestora de mobilização da plataforma Bonde (antiga Nossas), Maíra Baracho, porque a presença de mulheres em espaços de poder incomoda. “A violência, infelizmente, nos acompanha por onde a gente circula”, diz Baracho ao explicar que a violência política é uma das facetas das diversas violências sofridas pelas mulheres no âmbito doméstico, íntimo ou profissional.
“Quando a gente olha para a política institucional, esse instrumento que é a violência se intensifica. E a função que ele ocupa nesse lugar é a de expulsão. É expulsar as mulheres que ousaram ocupar esse lugar, que não foi desenhado para elas”, analisa.
Baracho cita a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) ao lembrar que na Assembleia Constituinte que produziria a Constituição de 1988, a Câmara Federal não contava com banheiro feminino. No Senado, a situação foi pior. O primeiro banheiro feminino foi construído apenas dez anos atrás, em 2016. “Isso ilustra muito bem, e a violência vem com esse lembrete, de que esse lugar não é [pensado] para a gente”, complementa.
Benedita da Silva foi a única mulher negra entre os 487 deputados constituintes que assinaram a Constituição Federal de 1988
A deputada Bella Gonçalves concorda. “Acho que [a violência] é uma tentativa de clara intimidação das mulheres, em um contexto eleitoral muito acirrado, em que o debate de enfrentamento à violência contra a mulher está muito acendido, e com a tentativa de nos desestabilizar”, avalia.
Ana Elisa Silva segue no mesmo pensamento ao considerar as ameaças, tanto a ela como às outras candidatas mineiras, fazem parte de um ataque coordenado para enfraquecer as candidaturas progressistas no estado, tanto em cargos proporcionais como nos cargos majoritários. “A gente sabe que nunca um [candidato a] presidente da República ganhou [a eleição] sem ganhar em Minas”, argumenta.
As intimidações mostram, segundo Baracho, como é importante que as mulheres continuem ocupando espaços de poder. “Se esse espaço não fosse relevante para a gente, os homens, o patriarcado, essa estrutura de poder, não estaria exatamente se preocupando com a nossa participação, com a nossa presença nele. Isso faz a gente refletir o quanto é importante ter mulheres na sua diversidade, negras, indígenas, trans, e muitas outras possibilidades do que é ser mulher, dentro desse espaço da política institucional”.
Suporte às candidatas e outras medidas de combate à violência política
Além da responsabilização dos agressores, Maíra Baracho aponta o suporte às mulheres candidatas vítimas de violência política como uma importante ferramenta para mantê-las atuando na política. E, nesse caso especificamente, o suporte [se dá] pela continuidade, para que [a violência] de fato não signifique o desencorajamento de outras mulheres a estarem nesse lugar [de poder].
Bella Gonçalves, por exemplo, já havia sofrido outros ataques e ameaças antes dos ocorridos neste mês. Ela conta que em 2024, várias parlamentares estaduais e municipais, na maioria mulheres lésbicas, receberam ameaças de estupro corretivo e violência de gênero. Na época, elas se juntaram para aprovar a Lei nº 24.466/2023, que cria a política de enfrentamento à violência política contra a mulher.
Também foi realizada a Operação Di@na, uma parceria entre o Ministério Público de Minas Gerais e as polícias Civil e Militar do estado. Foram descobertos fóruns e grupos na internet, conhecidos como chans, onde participantes incitavam a violência, pedofilia e necrofilia. Um dos autores das ameaças às parlamentares chegou a ser preso em 2025.
Entretanto, na visão da deputada, a prisão não foi suficiente considerando que as mensagens recebidas agora traziam características muito parecidas àquelas que recebeu em 2024, com descrições de brutalidade contra ela e contendo informações de caráter privado. “É uma violência sem rosto”, diz Gonçalves. Ela ainda ressalta que “não só as candidatas são ameaçadas, mas também toda sua família”.
Ela defende, entre as ações de combate à violência política, a criação de espaços, tanto da Justiça Eleitoral quanto das polícias Civil e Militar, de recebimento de denúncias e de rápido encaminhamento para apuração. A responsabilização pelo Estado brasileiro das empresas de tecnologia pelas violências que ocorrem no âmbito da internet, também é defendida por Gonçalves.
A gestora da plataforma Bonde também defende que o Estado deve regularizar as redes sociais e pressionar as empresas para participarem da solução do problema. “Se a gente tem um universo de redes sociais, de big techs, alinhadas ao mesmo pensamento, à mesma lógica de sociedade, que está compondo boa parte do Estado brasileiro, é claro que essas pessoas não vão fazer esse enfrentamento [da violência], não é do interesse delas fazer esse enfrentamento”, argumenta.
Para que todas essas transformações ocorram, Baracho acredita que o caminho é a mobilização social. Tanto para defender as mulheres que irão “topar esse desafio e assumir essa tarefa coletiva”, como na elaboração das pautas desses mandatos.
Segundo ela, “quando a gente fala de violência no lugar da política institucional, não é só o corpo [que está em risco]. É o corpo também, mas é o que aquele corpo representa, o que aquele corpo está pautando. Então, avançar com determinadas agendas também é uma resposta, também é uma forma de proteger esses corpos, e avançar com a ideia de justiça social, que para a gente é fundamental”, conclui.
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A denúncia vem de fonte suspeita: Renan Santos. O candidato do Missão está bradando aos quatro ventos que a campanha de Flávio Bolsonaro recebeu dinheiro do Rockbridge Network, uma rede de financiadores da extrema direita ligados ao Vale do Silício e que foi fundada pelo vice-presidente dos EUA, J. D. Vance. O principal interesse do grupo é organizar uma infraestrutura mundial para a evolução da IA, incluindo terras raras e data centers.
Segundo Renan, dois empresários, chamados Tallis Gomes e Pedro Sang, são representantes da Rockbridge no Brasil e intermediariam os fundos. “Esses caras vieram para o Brasil e saíram oferecendo apoio a várias candidaturas: Flávio, antes tentaram o Tarcísio, e fecharam com o Flávio. Esses caras trabalham com muitas coisas, entre elas terras raras. Eles entraram na campanha do Flávio, naturalmente e ilegalmente”, afirmou Renan Santos.
Se fato, Renan está desesperado por atenção desde que viu a ascensão de Augusto Cury (Avante).
Mas graças ao site Amado Mundo, do jornalista Guilherme Amado, sabemos que pelo menos parte das acusações é verdade. E elas são graves, porque financiamento externo de campanha é proibido pela lei eleitoral.
Segundo o site, o carioca Pedro Sang atua de fato dentro do comitê da campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, em um casarão perto do parque Ibirapuera, na zona sul, onde despacha de uma sala no segundo andar. Pedro teria providenciado imóveis e infraestrutura ao local. A quem pergunta, ele se apresenta, segundo o Amado Mundo, como “Pedro da Rockbridge”. Pedro Sang reconheceu que é ligado ao Rockbridge, mas negou ser intermediador de fundos.
Flávio mudou seu QG de campanha de Brasília para São Paulo no começo de julho. O objetivo propalado era facilitar viagens para Minas, Rio e Paraná e estar mais perto da Faria Lima.
O especialista em direito eleitoral, advogado Fernando Neisser, afirma que “a entrada de recursos internacionais em campanha eleitoral no Brasil é absolutamente proibida, seja oriundos de pessoas físicas, cidadãos não brasileiros, seja por meio de empresas, de pessoas jurídicas”.
“É uma grave irregularidade, constitui abuso de poder econômico, que, se for comprovado, levaria à instauração de uma ação de investigação judicial eleitoral perante o TSE e, caso haja, como disse, prova suficiente, a condenação levaria à cassação do registro, do diploma ou do mandato, caso seja vencedor e isso aconteça depois das eleições, e a necessidade de convocação de novas eleições, além de acarretar a inelegibilidade de oito anos das pessoas consideradas responsáveis por esse ato de abuso de poder econômico”.
Para ele, “não faz diferença se esse pagamento é em dinheiro, se esse pagamento é em bens, como aluguéis, enfim, fornecimento de material, de insumos, ou no pagamento de serviços”.
Ele alerta ainda para outra hipótese. Caso o trabalho de algum colaborador ou serviço seja pago por fora da campanha, isso poderia constituir Caixa 2.
Fundado em 2019 por J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, e o empresário Chris Buskirk, o Rockbridge Network é tido como responsável pelo impulsionamento do vice para o círculo de Trump. O objetivo declarado de Buskirk é “transformar” o Partido Republicano. Editor do site American Greatness, ele diz ser a “voz da nova geração de conservadorismo americano” e que os conservadores dos EUA “perderam seu caminho”. Além dele, manteve durante anos um Podcast com as tais “novas vozes” do conservadorismo, entre elas Darren Beattie, que hoje é o principal aliado de Eduardo Bolsonaro no Departamento de Estado.
Chris é um velho conhecido de Eduardo Bolsonaro. Em 17 de março de 2019, ambos estiveram presentes no jantar oferecido a Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro em Washington, às vésperas da primeira reunião do ex-presidente com Donald Trump. No jantar oferecido pelo embaixador Sérgio Amaral na residência oficial, Olavo de Carvalho, ainda vivo, foi o centro das atenções, recepcionado junto a estrelas hoje caídas do bolsonarismo, como general Heleno, o general Rego Barros e Filipe Martins. Mas, segundo relevou O Globo, Eduardo Bolsonaro deu atenção a Chris Buskirk e Steve Bannon, ao lado do ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.
O Amado Mundo descobriu outras ligações diretas entre a turma do Rockbridge e a campanha de Flávio Bolsonaro.
Um memorando chamado “Prosperity Partnership” elaborado por André Marinho, candidato do Partido Novo a governador do Rio de Janeiro e filho do suplente de Flávio Bolsonaro ao Senado, inclui diretrizes em inglês de como seria uma parceria do potencial governo de Flávio Bolsonaro com os Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras. Em suma, ele propõe o afastamento da China e um completo alinhamento com os EUA, notando que o tema destes minerais é considerado um tema de “segurança nacional” para os EUA.
Os termos da apresentação são idênticos ao discurso feito por Flávio Bolsonaro no CPAC deste ano, que já tinham um tom de “pitch” de vendas para investidores, como apontei nesta coluna. O discurso aconteceu nove dias depois da elaboração do documento.
André Marinho admitiu ser autor do documento mas nega que ele tenha sido apresentado a qualquer estrangeiro. Mas o Amado Mundo descobriu que, três semanas depois de elaborar o documento, Marinho esteve nos EUA com J. D. Vance.
Marinho é irmão de Giulia Be, que é casada com Conor Kennedy, filho do secretário de Saúde do governo Donald Trump, Robert Kennedy Jr. O encontro com J. D. Vance teria sido articulado pelo cunhado.
Procurado, Flávio não respondeu aos questionamentos do site Amado Mundo.
Em meio a tantas revelações nas últimas semanas, todas elas tingidas de interferência nas eleições, é importante mantermos o foco no que de fato importa. Como já argumentei aqui nesta coluna algumas vezes, os EUA já interferiram de pelo menos 5 maneiras nas eleições brasileiras. Mas até agora nunca apareceu uma transferência de verbas ou bens diretamente para a campanha de Flávio Bolsonaro por grupos ou potências estrangeiras.
Embora ainda não haja provas de que isso tenha de fato acontecido, a aliança com Rockbridge Network pode levar ao elo que falta para entendermos se o candidato do PL cometeu crime eleitoral na sanha de vencer a corrida para a presidência do país – e o que ele estava disposto a dar em troca.
Em mais uma semana com o Supremo Tribunal Federal (STF) no centro da disputa política em torno do caso Master e capturando os olhares antes do primeiro turno das eleições, o plenário da Corte volta a realizar sessão extraordinária na terça-feira (15), às 10h. Os ministros devem analisar o relatório da Polícia Federal (PF) sobre as conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Na ocasião, eles devem discutir se há elementos para abrir uma investigação sobre o ministro.
A sessão foi convocada pelo presidente do STF, Edson Fachin, em meio à disputa entre Moraes e o ministro André Mendonça, e a ideia é focar na condução das investigações relacionadas ao Banco Master. Na última quinta-feira (10), Mendonça retirou o sigilo de parte dos processos relacionados ao caso, incluindo documentos sobre as relações entre Vorcaro e Moraes.
As definições do STF devem repercutir nas agendas dos presidenciáveis. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estará em Pernambuco na quarta-feira (16), ao lado do candidato ao Senado Mendonça Filho (PL-PE). Na quinta (17), o candidato segue para Vitória da Conquista (BA), onde participa de uma carreata do aeroporto até o Estádio Lomanto Júnior, o Lomantão, em apoio ao candidato ao Senado João Roma (PL-BA). As agendas estão previstas poucos dias após novos desdobramentos das investigações relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O presidente Lula (PT), candidato à reeleição, também deve ser cobrado sobre o caso Master durante seus compromissos da semana. Ele defendeu abertura total dos sigilos relacionados à investigação visando transparência e que irregularidades sejam apuradas, independentemente dos envolvidos.
Já na segunda (14), os candidatos Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) organizam um “debate paralelo” com outros adversários, depois do cancelamento do encontro do consórcio de veículos de imprensa “O momento da decisão”, após Lula e Flávio Bolsonaro não confirmarem presença. Caiado, que estava internado para tratar uma infecção bacteriana, tenta manter o encontro paralelo após receber alta. A dupla prometeu que convidaria Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury para a iniciativa, que ainda não tem data ou hora definidas.
Ao menos 50 pesquisas estão registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para serem realizadas até as eleições do primeiro turno, dia 4 de outubro. Institutos como o Datatrends devem fazer coleta de campo entre os dias 12 e 14 de setembro, mas ainda não há data para divulgação das próximas apurações de intenção de voto. Na semana passada, AtlasIntel/Bloomberg, Datafolha, Veritá e Futura/100% Cidades divulgaram resultados entre quinta e sexta-feira, o que pode se repetir.
Estão na agenda da semana de 14 a 19 de setembro:
TSE
Registros de candidatura (14/9): Prazo de julgamento dos pedidos de registro de candidaturas, inclusive os impugnados e respectivos recursos, pelas instâncias ordinárias e com as decisões publicadas. A data também marca o fim do prazo para partidos e federações comunicarem à Justiça Eleitoral eventuais anulações de deliberações de convenções e para a substituição de candidatas e candidatos, salvo exceções legais.
Auditoria das urnas (14/9): Tribunais Regionais Eleitorais devem divulgar os locais onde serão realizadas as auditorias de funcionamento das urnas no primeiro turno. Na mesma data, a Comissão de Auditoria da Votação Eletrônica deve informar aos partidos, federações e coligações o horário e o local do sorteio ou escolha das seções que terão as urnas auditadas.
Sistemas eleitorais (14/9): O TSE realiza a cerimônia de assinatura digital e lacração dos sistemas e programas que serão utilizados nas Eleições 2026. A partir do encerramento da cerimônia, entidades fiscalizadoras terão cinco dias para apresentar eventuais impugnações aos programas.
Prestação parcial de contas (15/9): A Justiça Eleitoral divulga a prestação parcial de contas das campanhas de candidatas, candidatos e partidos, com informações sobre doadores e os valores doados.
Prisão de candidatos (19/9): Candidatas e candidatos não poderão ser detidos ou presos, salvo em caso de flagrante delito. A regra vale até 6 de outubro, dois dias após o primeiro turno.
Transporte de eleitores (19/9): Fim do prazo para a Justiça Eleitoral requisitar servidores e instalações de órgãos públicos para a execução do transporte de eleitores no primeiro e eventual segundo turno. Também deverá ser divulgado o quadro geral com os percursos e horários programados para o transporte.
DIREITOS HUMANOS
STF
Planos de saúde e reajuste por idade (16/9): O plenário do STF retoma o julgamento de ação que discute regras sobre reajustes de planos de saúde por faixa etária. O processo está pautado para quarta-feira (16), e teve o julgamento interrompido após pedido de vista.
ECONOMIA
Taxa Selic (16/9, 19h30): O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anuncia a nova taxa básica de juros da economia. A decisão ocorre após a reunião do colegiado, que começa na terça-feira (15), e será acompanhada pelo mercado.
Agenda da semana daPúblicaé um serviço apresentado aos leitores, concebido com base nas informações dos portais da Câmara, Senado e STF.