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Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

18 September 2026 at 08:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Maio de 2021. A média diária de mortos pela covid estava perto de dois mil. Na imprensa, circulavam notícias de que o governo federal havia deixado sem resposta as ofertas de venda de milhões de doses da vacina do Instituto Butantan e da Pfizer. Em dezenas de países pelo mundo, a imunização estava a pleno vapor – por aqui, estávamos imunizando idosos com mais de 60 anos e pessoas com comorbidades, já que o governo não adquirira imunizantes o bastante para atender a população. O então presidente Bolsonaro, por sua vez, havia esbravejado dois meses antes: “Tem idiota nas redes sociais, na imprensa [dizendo] ‘vai comprar vacina’. Só se for na casa da tua mãe!”

Também naquele mês transcorria no Senado a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, que visava investigar os possíveis culpados pela tragédia que, naquele momento, havia ceifado mais de 450 mil vidas no país. Como resultado da CPI, foi produzido um relatório que recomendou o indiciamento de diversas pessoas, muitas delas integrantes do governo à época. Cinco anos depois, nas eleições deste ano, alguns destes investigados pela CPI da Covid querem o seu voto.

Um levantamento realizado pela Pública identificou que, dos 81 nomes que constam no relatório final da CPI com pedido de indiciamento, 13 são candidatos nas eleições deste ano.

Um deles é o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à presidência da República. Cinco miram o Senado: Wilson Lima (União-AM), Marcelo Queiroga (PB), Carlos Jordy (RJ), Bia Kicis (DF) e Carlos Bolsonaro (SC), filiados ao PL. Cinco tentam a vaga de deputado federal: Eduardo Pazuello (RJ), Nise Yamaguchi (SP) e Osmar Terra (RS), todos pelo PL, e Onyx Lorenzoni (RS) e Ricardo Barros (PR), pelo PP. E outros dois concorrem às assembleias estaduais: Mayra Pinheiro (PL-CE) e Marcellus Campêlo (União-AM).

Eduardo Pazuello comandou o Ministério da Saúde até março de 2021, auge da crise da falta de oxigênio em Manaus e do “kit covid” com cloroquina. Ele foi substituído por Marcelo Queiroga no cargo, enquanto Mayra Pinheiro – a “capitã cloroquina” – seguia na Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde defendendo o tratamento precoce. 

No Amazonas, o então governador Wilson Lima administrava o estado quando aconteceu o colapso sanitário com falta de oxigênio em Manaus, com apoio de seu secretário de Saúde, Marcellus Campêlo. Nise Yamaguchi não tinha cargo formal no governo Bolsonaro, mas se uniu ao deputado Osmar Terra como principais vozes do “tratamento precoce” perante Bolsonaro e a opinião pública.

Área onde estão enterradas as vítimas da Covid !9 deste ano de 2021 no cemitério público Nossa Senhora Aparecida no bairro do Tarumã em Manaus AM
Cemitério de Manaus onde estão enterradas vítimas da covid

No Congresso e no núcleo político, Onyx Lorenzoni (então ministro do Trabalho/Previdência) geria o auxílio emergencial, e Ricardo Barros, líder do governo na Câmara, foi investigado pela CPI por causa das negociações da vacina indiana Covaxin – negociadas por 15 dólares a dose, sendo que o valor estimado era de pouco mais de um dólar. Já Bia Kicis, Carlos Jordy e Carlos Bolsonaro não tinham funções executivas na resposta sanitária, mas atuaram nas redes, divulgando negacionismo e críticas a medidas de isolamento e vacinação. O mesmo motivo fez com que a CPI da Covid investigasse o então senador Flávio Bolsonaro.

Apesar do pedido da CPI para que o Ministério Público (MP) investigasse essas pessoas, a Procuradoria-Geral da República (órgão máximo dos MPs), comandada à época por indicados por Jair Bolsonaro, pediu o arquivamento de todas as denúncias.

127 mil mortes que não foram evitadas

De todos os investigados, Pazuello é o dono da mais extensa ficha corrida de possíveis crimes. Segundo os senadores, há indícios de que Pazuello tenha incorrido em emprego irregular de verbas públicas, prevaricação (quando um agente público deixa de cumprir seu dever para satisfazer interesses escusos), comunicação falsa de crime, crimes contra a humanidade (nas modalidades extermínio, perseguição e outros atos desumanos) e em epidemia com resultado de morte.

Ao serem confrontados com essa lista de possíveis crimes, um dos argumentos mais comuns dos membros do então governo Bolsonaro era de que a culpa recairia exclusivamente no vírus e que não havia muito o que fazer. No relatório da CPI, os senadores demonstraram que não foi bem assim.

Não fosse a demora da gestão Bolsonaro em adquirir as vacinas, ao menos 127 mil óbitos poderiam ter sido evitados só em 2021, segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, do Instituto Butantan e da London School. O Brasil terminou a pandemia com mais de 700 mil mortos e com o título de vice-campeão no número absoluto de vítimas, atrás apenas dos Estados Unidos.

Os senadores lembraram então que, no período mais fatal da pandemia, Bolsonaro e Pazuello realizaram eventos públicos com aglomeração de apoiadores, ignoraram repetidos avisos dos corpos técnicos dos ministérios, desincentivaram o uso de máscaras e o distanciamento social e promoveram falsas curas para a doença. A CPI concluiu: “as normas [editadas pelo governo federal] apontam para uma estratégia de propagação do vírus conduzida de forma sistemática.”

Em meio à pandemia, Pazuello participou de evento com Bolsonaro – ambos sem máscara

Outra discussão que a CPI enfrentou é a do dolo – isto é, da vontade consciente de praticar um crime – que caberia a Pazuello e a alguns dos demais indiciados. “O governo federal criou uma situação de risco não permitido, expôs vidas a perigo concreto e não tomou medidas eficazes para minimizar o resultado, podendo fazê-lo”, concluiu o relatório.

Assim como Pazuello, foram recomendados os indiciamentos pelo crime de epidemia com resultado de morte da candidata a deputada estadual Mayra Pinheiro, da também médica Nise Yamaguchi, do deputado federal Osmar Terra, do ex-governador do Amazonas Wilson Lima, assim como de outro ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, o médico Marcelo Queiroga.

Além do crime de pandemia com resultado de morte, Pazuello, Lorenzoni e Mayra Pinheiro foram apontados pelos senadores como possíveis autores de crimes contra a humanidade “pelo foco no tratamento precoce e por terem feito de Manaus um laboratório humano”.

A afirmação decorre das provas de que o “kit covid”, composto por drogas sem efeito contra a doença, foi largamente distribuído no Amazonas por orientação do Ministério da Saúde, ao invés de incentivar que as pessoas ficassem em casa.

Incitação ao crime

Por estimular a população “a se aglomerar, a não usar máscara e a não se vacinar”, a CPI concluiu que Flávio Bolsonaro, que já era senador à época, “incitou as pessoas a infringirem determinação do poder público destinada a impedir a propagação de doença contagiosa”. Por essa razão, o atual candidato à presidência também teve seu indiciamento solicitado pelo conjunto dos senadores.

Em outubro de 2021, Flávio Bolsonaro rebateu as acusações em um vídeo em suas redes. “Isso aqui é uma vingança. E na parte que cabe a mim, ele [o senador Renan Calheiros, relator da CPI] está querendo que eu seja indiciado por incitação ao crime por causa de algumas postagens nas minhas redes sociais”.

A CPI apresentou provas de que Flávio Bolsonaro e seu irmão Carlos, bem como Osmar Terra, Onyx Lorenzoni, Ricardo Barros, Carlos Jordy e Bia Kicis publicaram em suas redes digitais “verdadeiras campanhas (…) com conteúdos claramente contrários às evidências científicas, tais como ataques inverídicos condenando o uso de máscaras e o distanciamento social, inverdades sobre uma suposta vantagem em se alcançar a imunidade de rebanho pela contaminação natural e afirmações falsas sobre as vacinas”.

Corrupção, prevaricação e formação de organização criminosa

Parte do ineditismo da CPI da Covid residiu nos tipos penais em que foram enquadrados os suspeitos – afinal, não é todo dia que vemos políticos acusados de crimes contra a humanidade e de epidemia com resultado de morte.

Houve também pedido de indiciamento de membros do governo Bolsonaro por delitos menos “inéditos”. É o caso de Mayra Pinheiro, Marcellus Campêlo, Wilson Lima, Queiroga e, uma vez mais, Pazuello. Todos tiveram seus indiciamentos sugeridos pelo Senado por prevaricação, enquanto Pazuello acumulou ainda a acusação de emprego irregular de verbas públicas.

Senadores fazem coletiva para apresentar relatório final da CPI da Covid

A prevaricação diz respeito, em parte, ao caso Covaxin, descrito na CPI por Luis Ricardo Miranda, chefe da coordenação-geral de logística do Ministério da Saúde na época, como “um esquema de corrupção pesado na aquisição das vacinas.” Miranda afirmou ainda que Bolsonaro estava a par das negociações acima do preço de 20 milhões de doses, assim como Pazuello.

Por supostamente ter integrado esse esquema corrupto de compra da Covaxin, o deputado Ricardo Barros é suspeito de formação de organização criminosa e improbidade administrativa – quando um agente público comete atos ilegais ou antiéticos.

Já os demais indicados por prevaricação citados nesta reportagem são suspeitos de, mesmo conscientes do iminente colapso do sistema de saúde de Manaus no início de 2021, quando internados morreram por falta de tubos de oxigênio nos hospitais, nada terem feito.

O julgamento que (ainda) não veio

Se, sob o governo Bolsonaro, a PGR não quis investigar os envolvidos, quatro anos depois, em setembro de 2025, aconteceu uma reviravolta: uma semana após condenar o ex-presidente Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, o Supremo Tribunal Federal, por ordem do ministro Flávio Dino, determinou a abertura de inquéritos policiais para investigar parte dos indiciados pela CPI da Covid.

Por ora, entre os citados nesta reportagem, escaparam dos inquéritos Mayra Pinheiro, Marcellus Campêlo, Pazuello, Yamaguchi, Queiroga e Wilson Lima.

Todos os candidatos foram procurados pela Pública, que quis saber como eles respondem às acusações e se acreditam que as suspeitas do passado recente influenciarão nas escolhas dos eleitores.

Apenas o deputado federal Ricardo Barros respondeu aos contatos. Ele afirmou ter “absoluta tranquilidade” em relação às acusações. “Todo o material produzido pela CPI foi analisado pela Procuradoria-Geral da República, que concluiu não haver indícios mínimos da minha participação em qualquer crime e pediu o arquivamento da apuração”, afirma. Barros duvida também de que as suspeitas serão um entrave às suas pretensões eleitorais.

Depois da publicação da reportagem, o candidato a deputado estadual Marcellus Campêlo afirmou que não há processo, investigação ou condenação que atribua a ele responsabilidade por irregularidades na condução das ações de enfrentamento à pandemia. Afirmou ainda que “dentro das condições enfrentadas na ocasião excepcional, ele e os servidores da Saúde fizeram tudo o que estava ao alcance para combater o avanço do vírus, ampliar a assistência e salvar vidas”, como a abertura de leitos, garantia de insumos hospitalares, de medicamentos e de recursos humanos.

De toda forma, não haverá tempo hábil para que, antes das eleições, os candidatos investigados pela CPI sejam julgados pela Justiça pelos crimes supostamente cometidos durante a pandemia. Caberá então aos eleitores, em 4 de outubro deste ano, decidir se estes candidatos merecem ou não ocupar um cargo público eletivo.

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

17 September 2026 at 12:00

A candidata a deputada federal Rebeca Ramagem (PL-RJ) usou verba de campanha para contratar associados de seu marido, o ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado e foragido por participação na trama golpista de 8 de janeiro de 2023. Rebeca é candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro e está auto-exilada nos EUA desde 2025 junto ao marido, o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem, condenado a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023.

Segundo levantamento feito pela Agência Pública junto à plataforma DivulgaCand Contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a campanha repassou mais de R$ 150 mil a ex-assessores e colegas de trabalho do marido.

Os recursos são provenientes de verba pública, a partir do fundo partidário do PL, que repassou R$1,5 milhão à campanha de Rebeca. 

Desses, R$ 10 mil foram para Aline Laudelina Lopes dos Santos Pires, contratada como coordenadora de equipe. A empresária é irmã do blogueiro Allan dos Santos, condenado por calúnia e indiciado no âmbito dos inquéritos das Fake News e dos atos antidemocráticos no STF, sob acusação de lavagem de dinheiro, organização criminosa e incitação ao crime. Diferente do irmão, Aline não é investigada em nenhum procedimento judicial.

Rebeca Ramagem contratou irmã de Allan dos Santos como coordenadora de equipe de sua campanha à deputada federal

Allan dos Santos, que também vive nos Estados Unidos e também é foragido da Justiça brasileira, é parceiro de Alexandre Ramagem. Os dois apresentam juntos o canal Revista TimeLine, onde comentam sobre política brasileira sob a ótica bolsonarista. O canal funciona no YouTube e tem mais de 440 mil inscritos. Em 2025, o canal foi bloqueado no Brasil por ordem judicial e, desde então, só pode ser acessado por VPN. Allan dos Santos e Ramagem compartilham também o endereço de suas empresas nos Estados Unidos. Timeline US Corporation e ARBN Villa Corporation são registradas no mesmo escritório na Flórida.

Aline, que mora no Brasil, também presta serviços para o canal. Em agosto, ela realizou a cobertura da TimeLine do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência em Copacabana, enquanto seu irmão e Ramagem acompanhavam do estúdio na Flórida. Na ocasião, a campanha de Rebeca enviou bonecos de papelão dela e do marido para representá-los no ato.

Contratada pela equipe de Rebeca Ramagem, Aline dos Santos participa do canal de seu irmão Allan dos Santos e de Alexandre Ramagem

Outros R$ 80 mil da campanha de Rebeca Ramagem foram repassados para a empresa Farol Comunicação Integrada Ltda, para “serviços de marketing”. A empresa pertence a Elisa Brom de Freitas, influenciadora com mais de 580 mil seguidores no X, e também presta serviços para a campanha de Carlos Bolsonaro (PL) ao Senado em Santa Catarina.

Em 2022, Brom foi alvo de ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por publicar desinformação contra Luís Inácio Lula da Silva (PT). Na ocasião, seu perfil foi um dos responsáveis por disseminar o boato de que o petista teria desviado presentes dados por chefes de Estado à Presidência durante seus primeiros mandatos.

Rebeca Ramagem contratou empresa de ex-assessora de seu marido acusada de desinformação em 2022

Na época, ela era secretária parlamentar de Alexandre Ramagem, cargo que ocupou até dezembro do ano passado, quando foi exonerada após a cassação do então deputado federal. Além de Brom, outros seis ex-funcionários do gabinete foram contratados pela campanha de Rebeca Ramagem, com repasses entre R$ 10 e R$ 15 mil cada, totalizando R$ 150 mil.

Os contratados operam a campanha de Rebeca do Brasil enquanto ela e o marido estão nos Estados Unidos. A família saiu do país clandestinamente no final de 2025 e se estabeleceu na Flórida, onde aguardam pedido de asilo político. Lá, mesmo com as contas bloqueadas no Brasil, moram em uma casa de alto padrão e abriram empresa para venda de cursos.

Em abril, Ramagem chegou a ser detido pelo Serviço de Imigração dos EUA (ICE, na sigla em inglês) por questões migratórias, mas foi solto dias depois. Em junho, depois de 150 dias sem trabalhar, Rebeca pediu licença de seu cargo de procuradora do Estado de Roraima para se candidatar a deputada federal.

A candidatura está sob análise do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro. Para o relator do processo, Paulo César Salomão Filho, aceitar a candidatura de Rebeca seria um “tapa na cara no Poder Judiciário”, devido à ligação com o marido condenado. Outros três ministros, no entanto, já votaram pela manutenção da candidatura, formando maioria. O julgamento foi adiado na última segunda-feira (15/09) após pedido de vistas da desembargadora Tathiana de Carvalho Costa.

A Pública questionou a assessoria de Rebeca sobre as contratações de acusados por desinformação, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestação.

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

17 September 2026 at 08:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Noite na Marginal Pinheiros, uma das principais artérias de São Paulo: dois jovens negros são abordados por três policiais militares numa viatura. Motivo? Eles caminhavam de forma suspeita, segundo a equipe. A abordagem é seguida por revista, interrogatório e xingamentos por parte dos PMs. “Tu é todo ladrãozão, né”, comentou um dos policiais.

Nada ilegal ou suspeito foi identificado na dupla. Mesmo assim, a ação foi exaltada em um vídeo publicado no YouTube pelo Diretor Elias Junior, candidato a deputado estadual pelo MDB. “O tamanho do viaduto ficou pequeno quando viram a ROTA”, diz o título da publicação. Um formato sensacionalista que se repete entre outros youtubers que disputam as eleições de 2026 e integram a lista dos que mais monetizaram explorando operações policiais. Alguns dos vídeos contêm deboche, humilhação e truculência, expondo, além dos próprios policiais, moradores e suspeitos, sobretudo em regiões periféricas de grandes cidades.

Apuração exclusiva da Agência Pública, em parceria com a plataforma Zeeng, mostra que um candidato com muitos seguidores pode ganhar até R$ 8 mil por mês no YouTube com vídeos sobre operações e abordagens das polícias. O levantamento considerou os 15 candidatos influencers com maior monetização sobre ocorrências policiais em 2026: eles podem ter ganhado até R$ 64,6 mil na soma dos vídeos (entre shorts e vídeos longos) postados no YouTube de 1º de janeiro a 25 de agosto deste ano.

Os valores podem ser ainda maiores, pois o levantamento considera o pagamento estimado por views do YouTube, o que não leva em conta outras redes sociais e possíveis patrocínios negociados diretamente pelos candidatos, a exemplo de divulgação de cursos e produtos.

Ao todo, sete partidos de direita e centro-direita compõem o levantamento: Podemos, MDB, PP, PL, Avante, União Brasil e Republicanos. Os nomes analisados possuem vínculo direto com a Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e Guarda Civil Metropolitana de São Paulo. A exceção é Elias Junior, que é diretor cinematográfico, mas acompanha operações e explora a estética policial.

Por que isso importa?

  • As Polícias costumam ter normas de como seus agentes devem usar as redes sociais – muitas delas vedam o uso de palavras depreciativas ou de fardas e dispositivos.
  • Cerca de 6% de todos os candidatos destas eleições são ligados a forças de segurança.
  • Partidos de direita e extrema direita têm defendido medidas inconstitucionais de endurecimento da punição a crimes.

Dos 15 youtubers listados pela reportagem, 14 utilizam ocorrências policiais para divulgar a própria imagem, a maioria em condutas que não são condizentes com as normas das Polícias Civil e Militar de São Paulo sobre uso das redes sociais. Além disso, parlamentares licenciados dos cargos não têm prerrogativa para se apresentarem como autoridades policiais – e nem usarem distintivo ou equipamentos da corporação, conforme confirmado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

O líder na estimativa de arrecadação é o deputado federal e candidato à reeleição, delegado Palumbo (PODE-SP), que pode ter faturado cerca de R$ 64,6 mil desde o início do ano, acumulando mais de 26 milhões de visualizações no período analisado. Mesmo licenciado do cargo de Policial Civil, Palumbo aparece nos vídeos participando de operações, sobretudo relacionadas ao tráfico de drogas.

Na maioria das ocorrências, ele caminha ao lado dos agentes, auxilia e até mesmo protagoniza interrogatórios. Os títulos utilizados nos conteúdos são majoritariamente chamativos e com palavras fortes. “São duas opções, c4deia ou caixão – dessa vez ele foi parar na c4deia”, descreve uma publicação de 20 de julho de 2026, que começa com policiais imobilizando de forma agressiva um homem na rua. “Não estamos te esculachando não, você está sendo tratado como tem que ser tratado”, diz um dos agentes. Depois de ter sido procurado pela reportagem, Palumbo retirou o vídeo do ar, mas não respondeu aos questionamentos.

Print retirado de vídeo de um dos policiais candidatos, o deputado federal Delegado Palumpo, em operação com dois políciais
Mesmo licenciado do cargo de Policial Civil, o deputado federal Delegado Palumbo (de marrom) participa de operações e posta no YouTube – este vídeo foi retirado após contato da reportagem

Delegado licenciado usa distintivo e participa de operações

O canal com maior número de inscritos pertence ao deputado federal delegado Da Cunha (União-SP), com 3,53 milhões de inscritos, embora tenha ficado em 10º lugar no ranking de visualizações. Ele publicou 237 vídeos num período de quase oito meses, podendo ter monetizado cerca de R$ 3,4 mil desde janeiro.

Da Cunha está licenciado do cargo de delegado da Polícia Civil, mas participa de operações policiais e se apresenta nas ocorrências como “deputado e delegado”. Em um dos vídeos, postado em 8 de julho deste ano, ele interrogou um homem linchado por populares após uma tentativa frustrada de assalto a uma loja de produtos importados, em Osasco (SP).

O deputado aparece no vídeo atendendo a ocorrência junto à Guarda Municipal de Osasco. Usando distintivo de delegado, o deputado também foi até o hospital onde o suspeito ficou internado após o espancamento. Com o homem com a cabeça enfaixada e deitado numa maca, o parlamentar é filmado dando sermão e ainda faz propaganda de um projeto de lei de autoria dele e dos deputados Kim Kataguiri (Missão-SP) e Marcos Pollon (PL-MS): “Sabia que aumentou a pena do 157 [crime de roubo]? Sabia que a lei é minha? Agora é dez anos a pena mínima. Vai ficar uma cotinha na cadeia, meu tio. Agradecer à polícia que salvou sua vida né, se não ‘tava’ com o CPF cancelado já”.

Em print de vídeo de um dos policiais candidatos, o deputado federal Delegado Da Cunha, aparece em vídeo falando com um suspeito de roubo
Da Cunha, que é deputado federal e candidato à reeleição, é filmado no hospital dando bronca em um suspeito de roubo que foi vítima de espancamento

Por lei, é considerada contravenção um policial civil usar publicamente distintivo de função que não exerce. Além disso, uma portaria editada em 2020 regulou, em São Paulo, o uso de redes por policiais civis. A norma proíbe, entre outros pontos, a publicação de fotos e vídeos com vítimas, suspeitos ou investigados; veda comportamento que busque “reconhecimento social” ou “promoção pessoal” e exige “decoro e discrição na linguagem”.

A Polícia Militar de São Paulo tem norma parecida desde 2021, que proíbe publicar ou compartilhar qualquer conteúdo que se relacione, direta ou indiretamente, com a PM, bem como divulgar operações ou investigações.

Ainda que o servidor esteja licenciado, um órgão de segurança pública pode adotar medidas administrativas pelo descumprimento de normas institucionais, explicou o professor de direito eleitoral da Faculdade de Direito de Sorocaba, Pedro Marques Neto. “Tem regras que evitam o uso de fardas, por exemplo, mas muitas vezes elas não são aplicadas”.

No Brasil, quase 30% dos órgãos de polícia não têm norma específica para o uso de redes sociais por parte dos agentes, conforme levantamento do Instituto Sou da Paz. Para a entidade, é preciso garantir a liberdade de expressão, “mas também vedar o uso da autoridade policial para autopromoção e engajamento político”.

O problema é que as normativas em geral não estabelecem o setor responsável e as formas de fiscalização dos agentes no ambiente virtual, frisou a diretora-executiva do instituto, Carolina Ricardo. “Falta em algumas normativas ter um fluxo claro de quem é o dono disso dentro das instituições, da função de fiscalizar. E isso torna muito mais difusa a implementação [das normas]”, comentou.

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo informou que o parlamentar licenciado por conta do mandato não tem a prerrogativa para usar distintivo e nem se apresentar como autoridade policial. “Não há, portanto, autorização para ações como as descritas pela reportagem”, disse, em nota, quando questionada sobre parlamentares licenciados e também sobre o caso do Elias Junior, que não é policial.

Sobre o uso de redes sociais, a Secretaria reforçou que portarias das Polícias Civil e Militar proíbem a criação de perfil vinculado ao trabalho policial, bem como a publicação de fotos e vídeos com vítimas, e que não compactua com desvios de conduta. “Casos identificados são apurados pelas corregedorias das corporações, mediante procedimento próprio, podendo resultar em medidas administrativas, disciplinares, civis e criminais”, diz a nota. A SSP, no entanto, não confirmou se os casos enviados pela reportagem serão apurados.

A Pública procurou também todos os 15 candidatos do levantamento. A Capitã Rebeca, em 12º lugar no ranking, respondeu que não monetiza com os vídeos. Porém, não comentou sobre os objetivos do canal e nem como se posiciona sobre as críticas de espetacularização da violência.

O Coronel Telhada, 14º no ranking, disse que nenhuma das suas redes sociais ganha dinheiro com monetização. “O YouTube com frequência manda mensagem para monetizarmos, mas nunca concordamos e nem aceitamos, nunca fizemos inscrição no programa de monetização de nenhuma rede social e nem faremos”, afirmou em nota.

O deputado federal Sargento Fahur e candidato à reeleição, disse que a gestão do seu canal é feita por uma empresa. “Os valores obtidos com monetização não são suficientes sequer para custear integralmente a operação”, afirmou, pois há custos com funcionários, edição de vídeos, aluguel de espaço e compra de equipamentos. “Não se trata de autopromoção, mas de divulgar aquilo que penso”, conclui nota enviada pelo policial militar reformado que está na 6ª posição no ranking (leia na íntegra).

Este espaço será atualizado em caso de manifestação dos demais.

Distintivo confiscado – e devolvido

Em julho de 2021, Da Cunha chegou a ter o distintivo e a arma confiscados após a abertura de uma sindicância contra ele por ter simulado operações policiais. Os objetos foram devolvidos em 2023, numa decisão do delegado-geral da Polícia Civil de SP, Artur José Dian. À época, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que a competência sobre o processo era exclusiva da Polícia Civil e que não iria se manifestar sobre o tema.

Em print de tela retirado de vídeo do canal de um dos policiais candidatos, o Da Cunha aparece em ação policial enquadrando suspeitos
O vídeo “Lincharam o ladrão em Osasco”, no canal de Da Cunha, foi publicado há dois meses e tem 51 mil visualizações

Os processos administrativos foram abertos após o deputado virar réu na Justiça por abuso de autoridade e constrangimento ilegal. Em julho de 2020, ele teria constrangido uma vítima de sequestro e o próprio sequestrador a simularem um resgate para que a cena pudesse ser gravada e repercutida nas redes sociais. Ele também é alvo da Justiça, após denúncia do Ministério Público, por violência doméstica contra a ex-companheira, em outubro de 2023. Ela acusou o parlamentar de ameaça de morte, lesão corporal, dano material e de bater sua cabeça contra a parede, além de tentar sufocá-la em um apartamento em Santos.

Em 3 de setembro deste ano, o processo por abuso de autoridade teve mais uma reviravolta: o anúncio da demissão de Da Cunha do cargo de delegado por parte do Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atendendo a uma recomendação feita pela Polícia Civil em 2022. No mesmo dia em que a demissão foi anunciada, no entanto, a Justiça de São Paulo concedeu uma liminar, a pedido do deputado, impedindo que a decisão fosse formalizada.

Monetizando a estética policial

Com 1,3 milhão de inscritos, o canal do Diretor Elias Junior teria arrecadado, em média, mais de R$ 40,8 mil na monetização dos vídeos só este ano. Na página inicial do perfil no YouTube, ele aparece com um colete à prova de balas marrom e uma roupa camuflada, nas características da farda do Exército brasileiro. Em alguns dos vídeos, ele usa boina e uniforme semelhantes aos usados pela PM de São Paulo.

Em vídeo postado neste ano, Elias Junior participa de operação policial usando o que aparenta ser uma boina da ROTA – mas ele não tem ligação formal com a instituição

Elias Junior vai às ocorrências dentro das viaturas, usa o discurso punitivista e expõe as abordagens policiais, ainda que nenhum crime tenha sido identificado. Entre outros formatos, os títulos sensacionalistas criticam o sistema legal brasileiro. Um deles foi intitulado “Mulher bandida teve o benefício da mãe cárcere”. No vídeo, publicado em 16 de junho de 2026, ele conversa com uma mulher que cumpria pena por tráfico de drogas em casa por conta de um benefício legal concedido a mães de crianças com menos de 12 anos.

Em outra publicação, em 23 de junho de 2026, o candidato acompanha o patrulhamento realizado por dois tenentes da Polícia Militar que decidem abordar dois homens que estariam andando com um “jeito malandro”, na Zona Leste de São Paulo. Os homens eram dependentes químicos e foram interrogados pelos militares sobre o consumo de drogas e crimes que teriam cometido; posteriormente, foram liberados. Mas o vídeo foi postado.

O diretor Elias Junior não respondeu aos questionamentos da Pública. A Polícia Militar não comentou o caso.

O tribunal midiático e o ‘policial herói’

Jurisprudências do Tribunal Superior do Trabalho (TST) reconhecem o vínculo de integrantes da segurança pública com a iniciativa privada, desde que compatíveis com os horários e não conflitantes com a função exercida. O famoso “bico” de segurança particular, por exemplo, é proibido.

Em relação à figura do “policial youtuber”, há regras institucionais que deveriam limitar a atuação dos servidores na internet. Em São Paulo, por exemplo, é vedado o uso de qualquer elemento que se remeta à corporação em perfis pessoais, com exceção de solenidades, formaturas e eventos excepcionais. O que acontece na prática, no entanto, é a teatralização da atividade do agente de segurança, com discursos violentos que tendem a construir a imagem de “policial herói”, assim como na maioria dos programas policiais — explicou o pesquisador Dannilo Duarte, autor do livro Jornalismo Policial na Televisão Brasileira: Gênero e Modo de Endereçamento.

O autor destaca que a internet amplificou a exploração audiovisual das operações, principalmente em ações envolvendo populações mais vulneráveis. “Há um posicionamento de quem é a vítima e de quem vai ser o bandido. Recorrentemente esse bandido vai ser preto ou pardo, vai estar em regiões periféricas. Se constrói uma ideia de que está sempre vinculado ao tráfico e que são pessoas com o estereótipo do malandro, do espertalhão, que não cumpre as leis”.

Além disso, esse tipo de abordagem, conforme o autor, alimenta a ideia de “justiceiro” que, em meio a estímulos à violência e descredibilização do sistema judiciário, faz “justiça com as próprias mãos”, a exemplo do assassinato de Claudio Rafael Landeiro, em 12 de agosto, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. A vítima tinha 37 anos e foi espancada até a morte por cinco homens após ser acusada injustamente de roubar uma bicicleta.

“É um comportamento de certa forma estimulado, o ‘bandido bom é bandido morto’. Mas você não verá isso acontecer num condomínio de classe média, mesmo que o infrator tenha cometido uma infração grave. Jovens brancos de classe média, média alta, não são espancados na praia ou nos becos. A integridade física não é respeitada. Há um lixamento virtual e físico”, pontuou Duarte.

O policial rodoviário federal, Breno Faria, também candidato, não explora a estética policial, mas tem canal em que ataca leis de combate à violência contra a mulher

Dos 15 perfis analisados, há uma exceção para a estética policial. Trata-se do policial rodoviário federal, Breno Faria, candidato a deputado federal pelo PL no Rio de Janeiro. Dono do canal Café com teu Pai, perfil também popularizado no Instagram, ele aproveita o espaço na internet para a defesa de ideias misóginas e ataques a leis de combate à violência contra a mulher. Em um dos vídeos, afirma: “as leis feministas não protegeram a mulher em nada” e defende o “aconselhamento familiar” como mais eficiente do que a atual legislação.

Numa outra publicação, Breno Faria faz comentários pejorativos sobre as roupas da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). “Mulher trans negra ou patricinha de Beverly Hills?”, publicou em 15 de junho. Estima-se que Faria tenha monetizado em torno de R$ 3,8 mil só no YouTube desde janeiro, somando mais de 1,9 milhão de visualizações em 401 vídeos.

METODOLOGIA

A Agência Pública começou o levantamento considerando os 100 youtubers e perfis no YouTube que têm maior número de inscritos na plataforma. Em seguida, cruzamos com os que são candidatos neste ano, usando a base de dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Para estimar os valores monetizados pelos candidatos, foi considerada a soma de visualizações dos vídeos publicados em cada um dos 15 canais do YouTube entre 1.º de janeiro e 25 de agosto deste ano, separadas entre shorts e vídeos longos. Com isso, foi aplicado um modelo de receita bruta de anúncios que combina um parâmetro oficial do YouTube – a partir da divisão de 55% da receita publicitária com o criador e as estimativas de CPM (custo por mil impressões) e de RPM (receita por mil visualizações).

Eduardo Prange, pesquisador e CEO da Zeeng, afirma que os valores calculados são uma estimativa “moderada”, já que foi feito também um cenário otimista e conservador para as possíveis arrecadações. Prange destaca que a única forma de ter dados precisos de monetização seria com acesso ao YouTube Analytics de cada canal – que só o titular possui.

Os valores publicados não consideram outras redes sociais e também possíveis patrocínios negociados diretamente com o titular do canal, como divulgação de cursos ou de produtos.

Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula

16 September 2026 at 13:00

Enquanto a sessão histórica para apurar a conduta do ministro Alexandre de Moraes ocorria no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira, 15 de setembro, a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República montou uma força-tarefa para tentar associar as acusações contra o magistrado ao presidente Lula (PT), candidato à reeleição. Manifestos, audiências públicas e até ameaças de obstrução do Congresso Nacional fizeram parte das ações. O fato do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nome central das investigações da Polícia Federal no caso Master, ter realizado pagamentos a Flávio Bolsonaro para patrocinar o filme ‘Dark Horse’, no entanto, foi ignorado. 

Membros da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal acompanham sessão do STF sobre ligação do ministro do STF Alexandre de Moraes e o caso Master
Membros da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal acompanham sessão do STF sobre ligação do ministro do STF Alexandre de Moraes e o caso Master

Na tarde de segunda-feira (14), o senador Rogério Marinho (PL-RN) se reuniu com colegas da oposição no gabinete de uma das principais aliadas, a senadora Tereza Cristina (PP-MS). No mesmo dia, os parlamentares deram uma coletiva de imprensa para reforçar apoio irrestrito às ações do ministro André Mendonça, o “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro em 2021. Ele é o responsável pela quebra de sigilo das mensagens entre Daniel Vorcaro, dono do banco Master, e Alexandre de Moraes.

Na terça-feira, dia da sessão no STF, a oposição se reuniu na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado para assistir e reagir à transmissão ao vivo da TV Justiça. Os parlamentares refutaram as falas dos ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes. Eles defenderam uma votação em conjunto com o caso de André Mendonça sobre possíveis irregularidades à frente da relatoria do Caso Master. 

Nada ficou decidido na sessão porque o ministro Flávio Dino pediu vistas do processo, após bate-boca entre os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça. Com isso, os ministros da Corte terão mais tempo para analisar o caso. Antes do encerramento, Cármen Lúcia, a única mulher integrante da Corte, manifestou voto favorável ao julgamento de Moraes de forma isolada, pediu desculpas ao povo brasileiro por não ter ajudado a resolver a crise institucional antes e ainda classificou como “espetacularização” as discussões protagonizadas pelos magistrados. 

Os milhares de reais de Vorcaro a Alexandre de Moraes e a Flávio Bolsonaro

Segundo a suspeita apresentada ao plenário do STF pelo ministro André Mendonça, Daniel Vorcaro teria enviado 52 mensagens a Moraes, incluindo questionamentos sobre iminentes operações policiais e a respeito de possíveis mandados de busca, apreensão e bloqueio de bens. Moraes também supostamente atuou na edição de um contrato de R$ 130 milhões firmado entre Daniel Vorcaro e o escritório advocatício da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. O valor se aproxima dos R$ 134 milhões pedidos ao ex-banqueiro por Flávio Bolsonaro para financiar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso em regime domiciliar, condenado por tentativa de golpe de Estado. 

Rogério Marinho conversou com a imprensa após o encerramento da sessão no STF. Inicialmente, tentou não associar a campanha eleitoral às ações no parlamento – em recesso eleitoral, para que os senadores deem atenção às bases eleitorais nos respectivos estados. Porém, após ser confrontado por jornalistas, Marinho disse que o desgaste de Lula com o julgamento de Moraes seria uma “consequência” dos acontecimentos. Ele ainda fez referência às ações de Moraes contra os presos pela tentativa de golpe de Estado, em 8 de janeiro de 2023, para dizer, sem provas, que o ministro e o presidente Lula mantêm relação de amizade. 

Senador Rogério Marinho em coletiva de imprensa sobre o julgamento no STF de Alexandre de Moraes
Senador Rogério Marinho repete em coletiva discurso de Flávio Bolsonaro sobre pagamentos de Daniel Vorcaro recebidos pelo filho do ex-presidente

O senador reforçou o discurso de Flávio Bolsonaro sobre a relação com o empresário Daniel Vorcaro, do banco Master. Segundo ele, tudo não passou de uma relação contratual privada. As investigações da PF apontam, entretanto, para uma interlocução direta entre o filho 01 de Jair Bolsonaro e o ex-banqueiro para a obtenção de um patrocínio velado, sem qualquer divulgação no filme. Além disso, o candidato ao Planalto admitiu ter visitado Vorcaro no final de 2025, após a primeira prisão de Vorcaro, que já cumpria medidas cautelares e utilizava tornozeleira eletrônica. 

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

16 September 2026 at 12:00

Propor o uso de inteligência artificial e a integração de bases de dados com imagens em tempo real para lidar com problemas de segurança pública virou uma bandeira comum entre os candidatos ao governo dos estados, independentemente do espectro político. “Centros de comando e controle”, “cercamento eletrônico” e “videomonitoramento” aparecem como solução nas propostas de candidatos de esquerda, direita e extrema direita, ainda que as tecnologias (muitas já utilizadas pelas forças de segurança) não tenham sido capazes de frear a violência em meio ao aumento da letalidade policial no país.

Em 2025, ações de agentes de segurança resultaram em 6.602 homicídios em todo o país, o maior número absoluto da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública desde 2016. Produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o anuário aponta Amapá, Bahia, Sergipe, Pará, Goiás, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Norte, Mato Grosso e Alagoas como os 10 estados com as forças de segurança mais letais no ano passado, com índices superiores à média nacional (de 3,1 mortes a cada 100 mil habitantes).

Para o professor de ciência política da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Bruno Konder Comparato, os dados reforçam que só investir em tecnologia e integração não impede a violência policial. “A tecnologia não faz mágica, sobretudo quando falamos de letalidade policial: quem mata não é o computador ou um sistema, é o policial com uma arma na mão. Se queremos fazer investimentos para diminuir a violência policial, deve-se investir no treinamento de pessoas, no aprendizado e uso de técnicas não-letais”, afirmou Comparato à Agência Pública.

Todos os 10 estados com maior letalidade policial utilizam regularmente tecnologias de integração de dados sensíveis – com acesso em tempo real a informações sigilosas dos cidadãos, como RG, CPF e cadastro do Sistema Único de Saúde (SUS), entre outros – para monitoramento da população. Um exemplo que salta aos olhos é o Amapá: em 2025, o estado foi a unidade da federação com a maior taxa de letalidade policial do país pelo 7º ano consecutivo e, desde 2024, simultaneamente, concentra também o maior índice de homicídios em geral no Brasil. Há anos, a polícia local dispõe de iniciativas próprias de integração de dados e produção de inteligência, o que não foi suficiente para mudar essa realidade.

Polícia militar do Amapá
Policiais militares do Amapá, estado que lidera o ranking nacional de letalidade policial desde 2019

O governador Clécio Luiz (União), candidato à reeleição com apoio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anunciou em junho deste ano a criação de um novo sistema de inteligência estadual, agregando o Centro Integrado de Inteligência em Segurança Pública do estado a outros órgãos de segurança e agências federais, como a Polícia Federal (PF) e o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

O plano de governo de Clécio Luiz defende ainda a “instalação de câmeras inteligentes” nas “entradas e saídas dos municípios, áreas de maior incidência criminal, rodovias e equipamentos públicos”, com um sistema de “reconhecimento de placas, identificação de veículos com restrição, videomonitoramento em tempo real e inteligência artificial, conectado ao Centro Integrado de Operações de Segurança Pública”. A proposta, no entanto, não menciona ou propõe medidas para diminuir os índices de letalidade policial.

O principal adversário do governador, o ex-prefeito de Macapá Dr. Antônio Furlan (PSD), também promete “implantar e expandir o uso de videomonitoramento, inteligência artificial, análise de dados”, com “um sistema integrado de monitoramento eletrônico nas principais rotas logísticas e áreas estratégicas”, integrando “informações sobre criminalidade, apreensões de drogas e armas, atuação de organizações criminosas e disputas territoriais”. Furlan também ignorou a questão das mortes provocadas por agentes de segurança em sua proposta.

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal do Amapá e da Universidade de Lisboa sugere que as mortes causadas por intervenção policial no estado teriam relação direta com o avanço do narcotráfico. A conclusão segue a mesma linha de artigo de 2024 da pesquisadora associada ao Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP) Ariadne Natal, que descreve como o Amapá se tornou “uma espécie de entreposto para rotas nacionais e internacionais do tráfico de drogas”. 

“Embora pareça haver um contexto de crescimento de ações do crime organizado, as respostas e soluções apresentadas pelas instituições de segurança do estado estão em descompasso com as ameaças registradas”, aponta Natal no artigo, destacando ainda que “o uso da força letal tem sido empregado de maneira excessiva e desproporcional” pelos agentes de segurança no Amapá – que, entre 2015 e 2023, teve uma média de 80 civis mortos para cada policial vitimado.

Câmeras Smart Sampa
Câmeras de vigilância são usadas para monitoramento e integração de dados na segurança pública

Promessas comuns sobre segurança unem direita e esquerda

O caso do Amapá passa longe de isolado. Dois governos de campos políticos opostos também na lista dos estados com os maiores índices de letalidade policial mostram como o uso da tecnologia na segurança não resolve, por si só, a violência: Bahia e Goiás – 2º e 5º lugares no ranking das maiores taxas de mortes praticadas por agentes de segurança, segundo o Anuário de Segurança Pública.

Nos últimos oito anos, a política de segurança pública em Goiás seguiu uma abordagem repressiva. O candidato que representa a continuidade da atual política da administração goiana, Daniel Vilela (MDB), insiste nessa abordagem, que inclui o uso extensivo de inteligência artificial sobre grandes bases de dados.

Polícia Militar de Goiás, onde ações de agentes de segurança mataram 362 pessoas em 2025

Até então, o governo de Goiás apostou pesadamente na área de inteligência, omitindo gastos com empresas envolvidas em escândalos recentes – como a israelense Cognyte, fabricante do programa cujo uso ilegal pelo governo Bolsonaro veio à tona por meio do caso conhecido como Abin Paralela. A compra do programa espião sequer foi avaliada pelo Tribunal de Contas de Goiás, como revelado pela Pública.

Em seu plano de governo, Vilela promete a “expansão do videomonitoramento inteligente”, com “análise de dados” e até mesmo “reconhecimento de padrões para antecipar crimes”, algo que ele apelida como “IA Contra o Crime”. Por um lado, o estado alega que a letalidade policial caiu mais de 40% desde 2020. Por outro, os índices seguem altos, com a polícia sendo responsável por 362 mortes em 2025 e sob suspeita de atuação de grupos de extermínio formados por PMs no estado.

Já o caso da Bahia mostra como o problema da letalidade policial também impacta administrações de esquerda, dado que o estado é um dos principais redutos do Partido dos Trabalhadores (PT) no país.

Na reta final do atual governo de Jerônimo Rodrigues (PT), que concorre à reeleição, o estado anunciou um plano de redução da letalidade policial que foi celebrado por órgãos de controle como o Ministério Público. Ainda assim, 1.570 pessoas foram mortas graças à ação das forças de segurança da Bahia – quase 25% do total de casos no país em 2025.

Polícia Militar realiza blitz e rondas no bairros de Salvador
Polícia Militar da Bahia matou 1.570 pessoas em ações de segurança em 2025, segundo o Anuário de Segurança Pública

Em seu plano de governo, Rodrigues promete expandir “as câmeras corporais, o videomonitoramento inteligente, o reconhecimento facial, a leitura automática de placas e a integração de câmeras públicas e privadas”, “ampliando o compartilhamento técnico” com o governo federal por meio do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). A campanha do petista é uma das poucas a admitir que não basta adquirir mais tecnologia, prometendo “expandir o plano estadual de redução da letalidade policial”.

Para o cientista político Bruno Comparato, exemplos como os de Amapá, Bahia ou Goiás mostram que “sistemas tecnológicos e investimento podem ajudar, especialmente em locais sensíveis onde há maior frequência de crimes, fornecendo horários e dias que demandam atenção”. 

O drama é que, em geral, quando a polícia intervém, muitas vezes ela intervém matando. A letalidade policial pode dar uma sensação de segurança para parte da sociedade, mas isso apenas normaliza a violência e não resolve o problema de fato”
Bruno Comparato
Professor de ciência política da Unifesp
Abertura da Cúpula Regional de Segurança e Justiça Sistemas Penitenciários Inteligentes contra o crime organizado
Ministério da Justiça e Segurança Pública coordena a integração de dados entre forças de segurança estaduais e federais

Inteligência, espionagem e integração: os desafios nacionais na segurança

A repressão policial tornou-se uma bandeira da gestão do ex-governador de Goiás e hoje candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD). Fundador da antiga União Democrática Ruralista (UDR), ele propõe criar um “sistema nacional de inteligência criminal” caso vença as eleições deste ano e planeja “utilizar inteligência artificial para cruzar dados, identificar redes criminosas, orientar operações e acompanhar a movimentação interestadual de suspeitos e presos” a partir da unificação das informações contidas nos “bancos de dados da União, dos estados, do Distrito Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário”.

Essa unificação também encontra respaldo nas propostas do atual presidente Lula (PT), cuja gestão priorizou a integração de dados usados pelas forças policiais, com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), concentrando os esforços de reunir informações de estados e municípios via Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) e de instaurar mecanismos de controle na área, após um período de “libera geral” quanto ao uso de ferramentas de vigilância durante o governo Jair Bolsonaro.

A proposta de governo do petista, candidato à reeleição, inclui “a construção de um Sistema Nacional de Segurança Pública mais articulado” e promete que “fortalecerá a integração entre os entes federados” e “a inteligência estatal”.

Em alta no pleito de 2026, a participação da União na gestão da segurança pública, no entanto, se dá num campo mais estratégico e menos executivo. O titular da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), Chico Lucas, defende o avanço da integração de dados, mas faz a ressalva de que cabe aos estados o uso das ferramentas oferecidas, como o Infoseg e o Córtex – um sistema de vigilância cujos problemas e abusos já foram detalhados em uma série de reportagens da Pública.

“Não concorremos com os estados. Não produzimos os dados [policiais], nós os integramos: o estado emite a carteira de identidade, nós a integramos. O estado produz o B.O. [boletim de ocorrência], produz relatórios de inteligência e nós integramos esses materiais. Nosso papel é esse: fornecer tecnologia e dar a logística para os estados, respeitando o pacto federativo”, disse Lucas, ressaltando que a pasta “nunca ‘desce’ para o nível da execução”, disse o secretário à Pública.

Candidatas cobram proteção frente às violências e ameaças que se espalham pelo Brasil

14 September 2026 at 21:16

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Os órgãos que deveriam amparar as candidatas vítimas de violência política de gênero como a Justiça Eleitoral e a Polícia Federal não estão preparados para enfrentar o problema, denuncia a deputada estadual Bella Gonçalves (PT-MG), que disputa uma vaga a deputada federal nestas eleições. Ela é uma das mulheres candidatas que alertou ter recebido ameaças de morte e estupro nos primeiros dias de setembro.

Minas Gerais é o segundo Estado que mais mata mulheres do Brasil [em números absolutos]. A violência política acompanha a violência de gênero, por isso que eu acho que, em Minas Gerais, é tão comum a violência política contra as mulheres”, diz Bella Gonçalves.

Ela não foi a única. Na noite do último sábado, 12 de setembro, a suplente ao Senado e advogada, Fernanda Klitzke (PT) foi agredida, chutada e alvejada por balas de borracha por policiais militares em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. As agressões ocorreram após uma denúncia de som alto.

Também no sábado, em Minas Gerais, a deputada estadual pelo PT, Andréia de Jesus, candidata à reeleição, também divulgou em suas redes sociais o recebimento de ameaças. Segundo uma matéria do site Alma Preta, Jesus foi ameaçada de morte, com conteúdo racista e de violência física, via uma mensagem eletrônica.

A candidata pelo PT, a deputada federal por Minas Gerais, Ana Elisa Santos Silva, também fez um Boletim de Ocorrência após receber mensagens com conteúdo de ódio racista e ameaças de morte e violência sexual em setembro. “A violência no Brasil [contra as mulheres] nunca parou; na verdade, ela está em crescimento”, afirma.

No dia 4 de setembro, a deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG), candidata à reeleição, usou suas redes sociais para denunciar agressões sofridas quando fiscalizava uma mineração ilegal na divisa de Belo Horizonte com o município de Nova Lima, que foram seguidas por uma tentativa de homicídio.

Para Silva, que está concorrendo pela primeira vez em uma eleição, a sensação de insegurança continua. “Eu fui ameaçada de morte, não tenho segurança, não tenho medida protetiva, não tenho absolutamente nada e não tenho dinheiro”, relata. Mesmo denunciando aos órgãos competentes e levando ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas (TRE-MG), Ana Elisa ainda se sente insegura.

Gonçalves também chama a atenção para o fato que as candidatas que estão entrando na política “seguem muito desprotegidas para enfrentar a violência política de gênero”. Mesmo contando com a presença de uma policial militar por ser deputada estadual, Bella Gonçalves critica a falta de regulamentação das leis que protegem as mulheres que atuam na política institucional, tanto no âmbito dos tribunais eleitorais, já que se trata de crime eleitoral, como na legislação de enfrentamento à violência política de gênero, aprovada em Minas Gerais.

Ironizando uma fala do ex-governador de Minas e candidato à Presidência pelo Novo, Romeu Zema, em entrevista à TV Globo, Bella Gonçalves diz que Minas tem, de fato, políticas contra mulheres. “A não-regulamentação e o não-funcionamento do Conselho de Proteção à Mulher do Estado, o não-investimento na rede de proteção, entre tantas outras ações que vão resultar na ponta em morte de mulheres”, exemplifica.

Por que isso importa?

  • A reserva de candidaturas femininas nos partidos política existe há 30 anos (desde 1996), porém nas últimas eleições, em 2022, apenas 17,7% das vagas da Câmara Federal foram ocupadas por mulheres.
  • Uma legislação específica de combate à violência política contra mulheres surgiu há apenas cinco anos, com a Lei nº 14.192/2021.

Entre as medidas tomadas após o recebimento das ameaças, a deputada estadual formalizou um pedido de providências na Gerência-Geral de Polícia Legislativa (GPOL) na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e na Justiça Eleitoral. Além disso, afirma estar cobrando investigação das forças de inteligência da polícia e a segurança dela e de seus familiares. Gonçalves ainda pretende entregar uma carta ao Partido dos Trabalhadores solicitando a utilização do fundo partidário para combate à violência política de gênero e garantia da segurança das candidatas.

Objetivo é intimidar e expulsar mulheres dos espaços de poder

Gestora de mobilização, Maíra Baracho defende que a violência é um instrumento usado contra mulheres que ocupam espaços que não foram pensados para elas

A percepção de que a violência política de gênero está aumentando no Brasil ocorre, segundo a gestora de mobilização da plataforma Bonde (antiga Nossas), Maíra Baracho, porque a presença de mulheres em espaços de poder incomoda. “A violência, infelizmente, nos acompanha por onde a gente circula”, diz Baracho ao explicar que a violência política é uma das facetas das diversas violências sofridas pelas mulheres no âmbito doméstico, íntimo ou profissional.

“Quando a gente olha para a política institucional, esse instrumento que é a violência se intensifica. E a função que ele ocupa nesse lugar é a de expulsão. É expulsar as mulheres que ousaram ocupar esse lugar, que não foi desenhado para elas”, analisa.

Baracho cita a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) ao lembrar que na Assembleia Constituinte que produziria a Constituição de 1988, a Câmara Federal não contava com banheiro feminino. No Senado, a situação foi pior. O primeiro banheiro feminino foi construído apenas dez anos atrás, em 2016. “Isso ilustra muito bem, e a violência vem com esse lembrete, de que esse lugar não é [pensado] para a gente”, complementa.

Benedita da Silva foi a única mulher negra entre os 487 deputados constituintes que assinaram a Constituição Federal de 1988

A deputada Bella Gonçalves concorda. “Acho que [a violência] é uma tentativa de clara intimidação das mulheres, em um contexto eleitoral muito acirrado, em que o debate de enfrentamento à violência contra a mulher está muito acendido, e com a tentativa de nos desestabilizar”, avalia.

Ana Elisa Silva segue no mesmo pensamento ao considerar as ameaças, tanto a ela como às outras candidatas mineiras, fazem parte de um ataque coordenado para enfraquecer as candidaturas progressistas no estado, tanto em cargos proporcionais como nos cargos majoritários. “A gente sabe que nunca um [candidato a] presidente da República ganhou [a eleição] sem ganhar em Minas”, argumenta.

As intimidações mostram, segundo Baracho, como é importante que as mulheres continuem ocupando espaços de poder. “Se esse espaço não fosse relevante para a gente, os homens, o patriarcado, essa estrutura de poder, não estaria exatamente se preocupando com a nossa participação, com a nossa presença nele. Isso faz a gente refletir o quanto é importante ter mulheres na sua diversidade, negras, indígenas, trans, e muitas outras possibilidades do que é ser mulher, dentro desse espaço da política institucional”.

Suporte às candidatas e outras medidas de combate à violência política

Além da responsabilização dos agressores, Maíra Baracho aponta o suporte às mulheres candidatas vítimas de violência política como uma importante ferramenta para mantê-las atuando na política. E, nesse caso especificamente, o suporte [se dá] pela continuidade, para que [a violência] de fato não signifique o desencorajamento de outras mulheres a estarem nesse lugar [de poder].

Bella Gonçalves, por exemplo, já havia sofrido outros ataques e ameaças antes dos ocorridos neste mês. Ela conta que em 2024, várias parlamentares estaduais e municipais, na maioria mulheres lésbicas, receberam ameaças de estupro corretivo e violência de gênero. Na época, elas se juntaram para aprovar a Lei nº 24.466/2023, que cria a política de enfrentamento à violência política contra a mulher.

Também foi realizada a Operação Di@na, uma parceria entre o Ministério Público de Minas Gerais e as polícias Civil e Militar do estado. Foram descobertos fóruns e grupos na internet, conhecidos como chans, onde participantes incitavam a violência, pedofilia e necrofilia. Um dos autores das ameaças às parlamentares chegou a ser preso em 2025.

Entretanto, na visão da deputada, a prisão não foi suficiente considerando que as mensagens recebidas agora traziam características muito parecidas àquelas que recebeu em 2024, com descrições de brutalidade contra ela e contendo informações de caráter privado. “É uma violência sem rosto”, diz Gonçalves. Ela ainda ressalta que “não só as candidatas são ameaçadas, mas também toda sua família”.

Ela defende, entre as ações de combate à violência política, a criação de espaços, tanto da Justiça Eleitoral quanto das polícias Civil e Militar, de recebimento de denúncias e de rápido encaminhamento para apuração. A responsabilização pelo Estado brasileiro das empresas de tecnologia pelas violências que ocorrem no âmbito da internet, também é defendida por Gonçalves.

A gestora da plataforma Bonde também defende que o Estado deve regularizar as redes sociais e pressionar as empresas para participarem da solução do problema. “Se a gente tem um universo de redes sociais, de big techs, alinhadas ao mesmo pensamento, à mesma lógica de sociedade, que está compondo boa parte do Estado brasileiro, é claro que essas pessoas não vão fazer esse enfrentamento [da violência], não é do interesse delas fazer esse enfrentamento”, argumenta.

Para que todas essas transformações ocorram, Baracho acredita que o caminho é a mobilização social. Tanto para defender as mulheres que irão “topar esse desafio e assumir essa tarefa coletiva”, como na elaboração das pautas desses mandatos.

Segundo ela, “quando a gente fala de violência no lugar da política institucional, não é só o corpo [que está em risco]. É o corpo também, mas é o que aquele corpo representa, o que aquele corpo está pautando. Então, avançar com determinadas agendas também é uma resposta, também é uma forma de proteger esses corpos, e avançar com a ideia de justiça social, que para a gente é fundamental”, conclui.

Financiamento de grupo ligado a J. D. Vance pode ser maior escândalo da eleição

14 September 2026 at 19:00

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A denúncia vem de fonte suspeita: Renan Santos. O candidato do Missão está bradando aos quatro ventos que a campanha de Flávio Bolsonaro recebeu dinheiro do Rockbridge Network, uma rede de financiadores da extrema direita ligados ao Vale do Silício e que foi fundada pelo vice-presidente dos EUA, J. D. Vance. O principal interesse do grupo é organizar uma infraestrutura mundial para a evolução da IA, incluindo terras raras e data centers.  

Segundo Renan, dois empresários, chamados Tallis Gomes e Pedro Sang, são representantes da Rockbridge no Brasil e intermediariam os fundos. “Esses caras vieram para o Brasil e saíram oferecendo apoio a várias candidaturas: Flávio, antes tentaram o Tarcísio, e fecharam com o Flávio. Esses caras trabalham com muitas coisas, entre elas terras raras. Eles entraram na campanha do Flávio, naturalmente e ilegalmente”, afirmou Renan Santos.

Se fato, Renan está desesperado por atenção desde que viu a ascensão de Augusto Cury (Avante).

Mas graças ao site Amado Mundo, do jornalista Guilherme Amado, sabemos que pelo menos parte das acusações é verdade. E elas são graves, porque financiamento externo de campanha é proibido pela lei eleitoral. 

Segundo o site, o carioca Pedro Sang atua de fato dentro do comitê da campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, em um casarão perto do parque Ibirapuera, na zona sul, onde despacha de uma sala no segundo andar. Pedro teria providenciado imóveis e infraestrutura ao local. A quem pergunta, ele se apresenta, segundo o Amado Mundo, como “Pedro da Rockbridge”. Pedro Sang reconheceu que é ligado ao Rockbridge, mas negou ser intermediador de fundos. 

Flávio mudou seu QG de campanha de Brasília para São Paulo no começo de julho. O objetivo propalado era facilitar viagens para Minas, Rio e Paraná e estar mais perto da Faria Lima.  

O especialista em direito eleitoral, advogado Fernando Neisser, afirma que “a entrada de recursos internacionais em campanha eleitoral no Brasil é absolutamente proibida, seja oriundos de pessoas físicas, cidadãos não brasileiros, seja por meio de empresas, de pessoas jurídicas”.

“É uma grave irregularidade, constitui abuso de poder econômico, que, se for comprovado, levaria à instauração de uma ação de investigação judicial eleitoral perante o TSE e, caso haja, como disse, prova suficiente, a condenação levaria à cassação do registro, do diploma ou do mandato, caso seja vencedor e isso aconteça depois das eleições, e a necessidade de convocação de novas eleições, além de acarretar a inelegibilidade de oito anos das pessoas consideradas responsáveis por esse ato de abuso de poder econômico”.

Para ele, “não faz diferença se esse pagamento é em dinheiro, se esse pagamento é em bens, como aluguéis, enfim, fornecimento de material, de insumos, ou no pagamento de serviços”. 

Ele alerta ainda para outra hipótese. Caso o trabalho de algum colaborador ou serviço seja pago por fora da campanha, isso poderia constituir Caixa 2.

Fundado em 2019 por J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, e o empresário Chris Buskirk, o Rockbridge Network é tido como responsável pelo impulsionamento do vice para o círculo de Trump. O objetivo declarado de Buskirk é “transformar” o Partido Republicano. Editor do site American Greatness, ele diz ser a “voz da nova geração de conservadorismo americano” e que os conservadores dos EUA “perderam seu caminho”. Além dele, manteve durante anos um Podcast com as tais “novas vozes” do conservadorismo, entre elas Darren Beattie, que hoje é o principal aliado de Eduardo Bolsonaro no Departamento de Estado.  

Chris é um velho conhecido de Eduardo Bolsonaro. Em 17 de março de 2019, ambos estiveram presentes no jantar oferecido a Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro em Washington, às vésperas da primeira reunião do ex-presidente com Donald Trump. No jantar oferecido pelo embaixador Sérgio Amaral na residência oficial, Olavo de Carvalho, ainda vivo, foi o centro das atenções, recepcionado junto a estrelas hoje caídas do bolsonarismo, como general Heleno, o general Rego Barros e Filipe Martins. Mas, segundo relevou O Globo, Eduardo Bolsonaro deu atenção a Chris Buskirk e Steve Bannon, ao lado do ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. 

O Amado Mundo descobriu outras ligações diretas entre a turma do Rockbridge e a campanha de Flávio Bolsonaro. 

Um memorando chamado “Prosperity Partnership” elaborado por André Marinho, candidato do Partido Novo a governador do Rio de Janeiro e filho do suplente de Flávio Bolsonaro ao Senado, inclui diretrizes em inglês de como seria uma parceria do potencial governo de Flávio Bolsonaro com os Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras. Em suma, ele propõe o afastamento da China e um completo alinhamento com os EUA, notando que o tema destes minerais é considerado um tema de “segurança nacional” para os EUA. 

Os termos da apresentação são idênticos ao discurso feito por Flávio Bolsonaro no CPAC deste ano, que já tinham um tom de “pitch” de vendas para investidores, como apontei nesta coluna. O discurso aconteceu nove dias depois da elaboração do documento.     

André Marinho admitiu ser autor do documento mas nega que ele tenha sido apresentado a qualquer estrangeiro. Mas o Amado Mundo descobriu que, três semanas depois de elaborar o documento, Marinho esteve nos EUA com J. D. Vance. 

Marinho é irmão de Giulia Be, que é casada com Conor Kennedy, filho do secretário de Saúde do governo Donald Trump, Robert Kennedy Jr. O encontro com J. D. Vance teria sido articulado pelo cunhado. 

Procurado, Flávio não respondeu aos questionamentos do site Amado Mundo. 

Em meio a tantas revelações nas últimas semanas, todas elas tingidas de interferência nas eleições, é importante mantermos o foco no que de fato importa. Como já argumentei aqui nesta coluna algumas vezes, os EUA já interferiram de pelo menos 5 maneiras nas eleições brasileiras. Mas até agora nunca apareceu uma transferência de verbas ou bens diretamente para a campanha de Flávio Bolsonaro por grupos ou potências estrangeiras. 

Embora ainda não haja provas de que isso tenha de fato acontecido, a aliança com Rockbridge Network pode levar ao elo que falta para entendermos se o candidato do PL cometeu crime eleitoral na sanha de vencer a corrida para a presidência do país – e o que ele estava disposto a dar em troca.  

STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições

14 September 2026 at 18:22

Em mais uma semana com o Supremo Tribunal Federal (STF) no centro da disputa política em torno do caso Master e capturando os olhares antes do primeiro turno das eleições, o plenário da Corte volta a realizar sessão extraordinária na terça-feira (15), às 10h. Os ministros devem analisar o relatório da Polícia Federal (PF) sobre as conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Na ocasião, eles devem discutir se há elementos para abrir uma investigação sobre o ministro.

A sessão foi convocada pelo presidente do STF, Edson Fachin, em meio à disputa entre Moraes e o ministro André Mendonça, e a ideia é focar na condução das investigações relacionadas ao Banco Master. Na última quinta-feira (10), Mendonça retirou o sigilo de parte dos processos relacionados ao caso, incluindo documentos sobre as relações entre Vorcaro e Moraes.

As definições do STF devem repercutir nas agendas dos presidenciáveis. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estará em Pernambuco na quarta-feira (16), ao lado do candidato ao Senado Mendonça Filho (PL-PE). Na quinta (17), o candidato segue para Vitória da Conquista (BA), onde participa de uma carreata do aeroporto até o Estádio Lomanto Júnior, o Lomantão, em apoio ao candidato ao Senado João Roma (PL-BA). As agendas estão previstas poucos dias após novos desdobramentos das investigações relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O presidente Lula (PT), candidato à reeleição, também deve ser cobrado sobre o caso Master durante seus compromissos da semana. Ele defendeu abertura total dos sigilos relacionados à investigação visando transparência e que irregularidades sejam apuradas, independentemente dos envolvidos.

Já na segunda (14), os candidatos Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) organizam um “debate paralelo” com outros adversários, depois do cancelamento do encontro do consórcio de veículos de imprensa “O momento da decisão”, após Lula e Flávio Bolsonaro não confirmarem presença. Caiado, que estava internado para tratar uma infecção bacteriana, tenta manter o encontro paralelo após receber alta. A dupla prometeu que convidaria Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury para a iniciativa, que ainda não tem data ou hora definidas. 

Ao menos 50 pesquisas estão registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para serem realizadas até as eleições do primeiro turno, dia 4 de outubro. Institutos como o Datatrends devem fazer coleta de campo entre os dias 12 e 14 de setembro, mas ainda não há data para divulgação das próximas apurações de intenção de voto. Na semana passada, AtlasIntel/Bloomberg, Datafolha, Veritá e Futura/100% Cidades divulgaram resultados entre quinta e sexta-feira, o que pode se repetir.

Estão na agenda da semana de 14 a 19 de setembro:

TSE

  • Registros de candidatura (14/9): Prazo de julgamento dos pedidos de registro de candidaturas, inclusive os impugnados e respectivos recursos, pelas instâncias ordinárias e com as decisões publicadas. A data também marca o fim do prazo para partidos e federações comunicarem à Justiça Eleitoral eventuais anulações de deliberações de convenções e para a substituição de candidatas e candidatos, salvo exceções legais.
  • Auditoria das urnas (14/9): Tribunais Regionais Eleitorais devem divulgar os locais onde serão realizadas as auditorias de funcionamento das urnas no primeiro turno. Na mesma data, a Comissão de Auditoria da Votação Eletrônica deve informar aos partidos, federações e coligações o horário e o local do sorteio ou escolha das seções que terão as urnas auditadas.
  • Sistemas eleitorais (14/9): O TSE realiza a cerimônia de assinatura digital e lacração dos sistemas e programas que serão utilizados nas Eleições 2026. A partir do encerramento da cerimônia, entidades fiscalizadoras terão cinco dias para apresentar eventuais impugnações aos programas.
  • Prestação parcial de contas (15/9): A Justiça Eleitoral divulga a prestação parcial de contas das campanhas de candidatas, candidatos e partidos, com informações sobre doadores e os valores doados.
  • Prisão de candidatos (19/9): Candidatas e candidatos não poderão ser detidos ou presos, salvo em caso de flagrante delito. A regra vale até 6 de outubro, dois dias após o primeiro turno.
  • Transporte de eleitores (19/9): Fim do prazo para a Justiça Eleitoral requisitar servidores e instalações de órgãos públicos para a execução do transporte de eleitores no primeiro e eventual segundo turno. Também deverá ser divulgado o quadro geral com os percursos e horários programados para o transporte.

DIREITOS HUMANOS

  • STF
    • Planos de saúde e reajuste por idade (16/9): O plenário do STF retoma o julgamento de ação que discute regras sobre reajustes de planos de saúde por faixa etária. O processo está pautado para quarta-feira (16), e teve o julgamento interrompido após pedido de vista.

ECONOMIA

  • Taxa Selic (16/9, 19h30): O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anuncia a nova taxa básica de juros da economia. A decisão ocorre após a reunião do colegiado, que começa na terça-feira (15), e será acompanhada pelo mercado.

Agenda da semana da Pública é um serviço apresentado aos leitores, concebido com base nas informações dos portais da Câmara, Senado e STF.

O site da Amazônia que deixou de cobrir eleições por medo de morrer

14 September 2026 at 12:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

A redação do Tapajós de Fato passou parte deste ano definindo a pauta e buscando financiamento para cobrir as eleições de 2026. Mas ameaças e episódios de violência levaram o site de Santarém, no oeste do Pará, a abandonar o projeto antes da primeira reportagem. 

Criado em 2020 durante a onda de negacionismo da pandemia, o Tapajós de Fato é um veículo independente, membro da Rede Cidadã InfoAmazonia, que se tornou referência no jornalismo feito na Amazônia, denunciando violações sociais e ambientais. Mas, na campanha deste ano, a redação não vai abordar os problemas, propor soluções para a região, nem investigar vínculos de candidatos com o garimpo, o agronegócio e as grandes obras. 

‘Quando é melhor não falar, por uma questão de sobrevivência, na verdade, quem perde é a sociedade”, afirma o coordenador de projetos João Paulo Serra, de 27 anos.

A decisão de não cobrir as eleições deste ano foi tomada após uma série de ameaças que mostraram não haver segurança para trabalhar. Na eleição presidencial de 2022, a cabeça decapitada de um gato apareceu no terreno baldio onde a equipe estacionava a caminhonete de reportagem. Ao lado, um bilhete trazia o nome de Marcos Wesley Pedroso, o fundador do Tapajós de Fato, e avisava que ele seria a próxima vítima. Dias antes, os quatro pneus do veículo haviam sido rasgados.

Em outro episódio, uma comunicadora foi atacada com uma faca e conseguiu se desviar de vários golpes. O agressor não foi identificado, e o Tapajós de Fato não conseguiu determinar se o objetivo era matá-la, intimidar a redação ou se o episódio não tinha relação com o trabalho jornalístico. 

A violência não impediu a cobertura daquela eleição. Em 2022, o Tapajós de Fato entrevistou candidatos progressistas com atuação no oeste do Pará e debateu assuntos da região, como garimpo, desmatamento, mudanças climáticas e direitos dos povos tradicionais. 

Acompanhou também um encontro no qual movimentos sociais cobraram compromissos com a agroecologia e a agricultura familiar. Depois da votação, analisou quem o Pará havia eleito e a relação dos novos representantes com as pautas amazônicas. A equipe ainda foi às ruas para cobrir os atos bolsonaristas diante de uma unidade do Exército. 

Em 2024, porém, a insegurança levou o site a suspender a cobertura das eleições municipais. “A gente decidiu recuar de novo em 2026”, lamenta Marcos.

“Eu tenho medo de pessoas aleatórias na rua, no supermercado”, conta. “Chegou um tempo que eu dormia e, se escutasse um cachorro latindo de madrugada, acordava com taquicardia”, detalha. Marcos deixou Santarém devido às ameaças e após um diagnóstico de depressão.

Os casos foram denunciados à Polícia Civil e ao Ministério Público, mas, até o momento, não há nenhuma informação conclusiva e, por isso, não há autores identificados nem provas de que os atos estejam relacionados entre si. Ainda assim, jornalistas da equipe decidiram deixar suas casas e passaram a morar em hotéis durante os períodos mais tensos. Marcos já trocou de endereço seis vezes nos últimos três anos. E João Paulo precisou ficar um ano sem visitar a mãe.

Marcos Wesley Pedroso fundador do site Tapajós de Fato
Marcos Wesley Pedroso fundou o site para trazer novos olhares à cobertura jornalística do Oeste do Pará

Tapajós de Fato: origem popular e formação de jovens comunicadores

A ideia de fundar o Tapajós de Fato surgiu num encontro de comunicadores rurais, em 2019, quando Marcos atuava na comunicação do sindicato rural de Santarém. Em julho de 2020, em plena pandemia de Covid-19, ele e mais uma jornalista criaram as redes sociais do veículo. Depois lançaram o site.

Foi em casa que Marcos aprendeu a cobrar direitos e a se organizar para defendê-los, experiência que mais tarde orientaria o jornalismo do Tapajós de Fato. Os avós dirigiram o sindicato dos trabalhadores rurais de Belterra, cidade a 50 quilômetros de Santarém.

Marcos viveu com os avós em Aramanaí, comunidade de Belterra às margens do rio Tapajós. Desde os anos 2000, a pavimentação da BR-163 e a abertura do terminal da Cargill, em Santarém, transformaram o oeste do Pará em corredor de exportação de grãos e fronteira agrícola na Amazônia. As lavouras avançaram pelo Planalto Santareno até as vizinhanças da comunidade. Ali ele ouviu que o mamão deixara de vingar e que a produção de mel e de andiroba diminuíram com os agrotóxicos. 

O Planalto Santareno abrange Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos e reúne agricultores familiares, quilombolas e indígenas. Entre 2014 e 2023, a área de soja e milho nos três municípios saltou de 66 mil para 217 mil hectares, segundo o IBGE. Comunidades viraram ilhas entre lavouras. 

Gay e pai de santo do candomblé, Marcos já pensou em seguir o sacerdócio católico e chegou a ser seminarista. Depois, estudou publicidade e entrou na comunicação pela porta da mídia comercial: trabalhou no setor de marketing da TV Tapajós, afiliada da Globo em Santarém, e escreveu para o G1.

Mas seu desejo era fazer um jornalismo voltado às comunidades da região, com liberdade para investigar quem concentra dinheiro e poder. Ao criar o Tapajós de Fato, escolheu um modelo que não dependesse do financiamento de empresas que, cedo ou tarde, poderiam aparecer em suas reportagens.

Durante a pandemia, o site denunciou o negacionismo e os problemas do Baixo Amazonas, como o desabastecimento de oxigênio. Depois, ampliou a pauta para conflitos fundiários, mineração, soja, clima e direitos dos povos tradicionais.

Entre as coberturas de destaque está a que tratou dos impactos no PAE (Projeto de Assentamento Agroextrativista) Lago Grande, quando o site produziu reportagens, podcasts e a campanha “Não Abra Mão da Sua Terra”. Entre os rios Amazonas e Arapiuns, a área é uma terra pública de uso coletivo. Seus lotes não podem ser vendidos individualmente, mas sofrem pressões fundiárias e da extração ilegal de madeira e de minérios.

As pesquisadoras Maria Cleidejane Esperidião e Thayane Guimarães, coordenadora de redes da InfoAmazonia, acompanharam a redação por uma semana, em junho de 2024, para um estudo do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, na sigla em inglês), que investigou estratégias inovadoras do jornalismo brasileiro para enfrentar a desinformação. 

A pesquisa destacou o método de “escuta profunda”, em que repórteres do Tapajós de Fato passaram dias imersos no cotidiano de comunidades tradicionais da região. Em rodas de 5 a 15 pessoas, os repórteres ouviram falar de temperaturas mais altas, açaí secando mais cedo e árvores produzindo menos óleo. Os relatos viravam cartilhas. Sem internet, áudios em pen drives seguiam de barco para serem tocados em alto-falantes.

Outra iniciativa do site é a formação de jovens comunicadores. O ICFJ destacou que o Tapajós de Fato ajudou o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns a estruturar um departamento de comunicação e um movimento quilombola a criar seu próprio núcleo. 

Formação de jovens comunicadores promovida pelo veículo Tapajós de Fatos na Amazônia
Além de publicar reportagens, o Tapajós de Fato ajuda organizações locais a criar seus próprios departamentos de comunicação e forma jovens comunicadores

As ameaças ocorrem na região com o menor número de meios de comunicação do país. São 1.264 veículos jornalísticos no Norte (9,2% do país), segundo dados do Atlas da Notícia de 2025. Dos 450 municípios, 193 não tinham nenhum meio de comunicação e 144 possuíam um ou dois. Santarém não é considerado um deserto de notícias, mas Marcos diz que a imprensa tradicional não aborda o território com pontos de vista diversificados.

Reportagens sobre terras abriram sequência de ameaças

As intimidações ao Tapajós de Fato aumentaram em 2021, durante as reportagens sobre a venda ilegal de terras do projeto de assentamento Lago Grande. Depois, vieram ameaças de morte por telefone e por mensagem. À época, o Sindicato dos Jornalistas do Pará, a Ordem dos Advogados do Brasil e organizações sociais divulgaram uma nota de apoio.

A antiga redação ficava em uma casa sem ar-condicionado e, por isso, precisava ficar com a janela aberta para a rua durante o expediente. Certa tarde, um homem parou do lado de fora e simulou uma conversa ao celular. Por cinco minutos, gritou que era preciso matar quem falasse mal dos garimpeiros. João também notou carros desconhecidos em frente à sede. “Era muito estranho ter sempre um carro parado ali na frente.”

A tensão atingiu o auge em 2022. Primeiro, um comunicador que chegava do interior teve o celular roubado. Naquela noite, depois de a equipe jogar vôlei, uma jornalista voltava para casa com a namorada e um amigo quando os três foram assaltados por homens que estavam em um carro. A polícia localizou os suspeitos e recuperou os pertences dos dois acompanhantes, mas não os da comunicadora.

Na tarde seguinte ocorreu a tentativa de ataque a faca, a 30 metros da sede. Um boletim de ocorrência por ameaça foi registrado, mas o caso não teve andamento. Naquela noite, quando a equipe deixou a redação, por volta das 20h, percebeu que era seguida por um carro. Cerca de cinco integrantes passaram as semanas seguintes em hotéis, por não se sentirem seguros em casa.

Depois das eleições, enquanto o Tapajós de Fato cobria os acampamentos bolsonaristas diante dos quartéis, João recebeu uma ligação que interpretou como intimidação. Naquela manhã, o site havia publicado a imagem de um idoso vestido com uniforme do Exército e o apresentado como um falso militar. 

Horas depois, uma mulher telefonou e exigiu que a publicação fosse apagada, sob o argumento de que o pai dela estava passando mal. Antes de explicar o motivo da ligação, porém, recitou o nome completo do jornalista e avisou: “Peguei seu contato com uma pessoa de confiança”. 

João ofereceu o e-mail da redação para um pedido de correção ou direito de resposta, mas, segundo ele, a mulher ignorou a proposta. “Me deu a sensação de que essas pessoas sabiam muito mais sobre a minha vida do que eu podia imaginar”, afirmou. 

Parceiros ajudaram a instalar câmeras e cerca elétrica na redação e a alugar uma caminhonete, para que os repórteres pudessem se deslocar com mais segurança e sem depender de transporte de terceiros. Como o automóvel não entrava na vila onde Marcos morava, ficava estacionado num terreno em frente. Foi ali que apareceram os pneus danificados e a cabeça do gato com o bilhete.

Marcos mudou-se em 2023 e iniciou o mestrado. Na nova cidade, diz já ter recebido mensagens sobre sua roupa e sua localização no campus. 

Carro de Marcos Pedroso foi atingido durante a madrugada, após homens rondarem sua casa
Carro de Marcos Pedroso foi atingido durante a madrugada, após homens rondarem sua casa

Antes de viajar à COP28, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, Marcos publicou uma foto vestindo uma camiseta com frases da sindicalista Margarida Maria Alves: “Da luta não fujo” e “É melhor morrer na luta do que morrer de fome”. Um número com prefixo do Acre ligou para ele: “A publicação que tu fez no Instagram pode ser uma profecia pra tua vida”, disse a voz do outro lado da linha.

O episódio ocorreu logo após o site ser homenageado no Prêmio Chico Mendes de Resistência, no Acre. Criada pelo Comitê Chico Mendes, a premiação reconhece ativistas, organizações e movimentos que defendem os povos da floresta, a justiça ambiental e os direitos humanos. Seu nome homenageia o seringueiro e sindicalista assassinado em 1988, em Xapuri, no Acre, depois de enfrentar fazendeiros e lutar contra a destruição da floresta. 

Marcos procurou a Terra de Direitos, uma organização de assessoria jurídica popular em Santarém. A entidade o apoia judicialmente e oferece suporte psicológico desde as primeiras ameaças. Advogados e assessores viraram amigos. “Isso ajudou muito a gente”, afirma. 

Em 2025, patas de cachorro decepadas apareceram em frente à sua casa. Ele não sabe se havia relação com os demais episódios. 

A equipe do Tapajós de Fato chegou a ter 20 profissionais em 2022, mas hoje conta com sete jornalistas

O caso mais recente ocorreu em junho deste ano, quando Marcos encontrou seu carro destruído diante de casa e pensou se tratar de um acidente. Quatro dias depois, recuperou as imagens das câmeras e viu que, de madrugada, dois ciclistas davam voltas no quarteirão. Antes da batida, um deles apontou o celular para filmar a casa e o veículo. Às 4h28, um automóvel entrou na contramão, atingiu um carro estacionado e fugiu. Marcos suspeita que a colisão era uma isca para ele sair de casa e cair numa emboscada. 

A hipótese, segundo ele, é que o “acidente” tenha sido motivado por denúncias do site contra o uso indevido de agrotóxicos. Nos últimos anos, o Tapajós de Fato publicou diversos episódios de contaminação envolvendo alunos e professores. As intoxicações no oeste do Pará aumentaram em 545% em cinco anos. Em maio, o site e outras 19 organizações entregaram à deputada Maria do Carmo (PT) uma proposta para limitar pulverizações próximas a comunidades, escolas e rios. 

Ataques fizeram João Paulo deixar de visitar a própria mãe

João Paulo entrou no site em 2021, quando estudava Letras na Universidade Federal do Oeste do Pará. Ali aprendeu a fazer reportagens sobre clima, agronegócio e, sobretudo, sobre a Ferrogrão.

A ferrovia de 933 quilômetros está prevista para ligar Sinop, em Mato Grosso, a Miritituba, distrito portuário de Itaituba, no Pará. Integrará o Arco Norte, do qual o corredor de soja e milho pela BR-163 e pelo rio Tapajós é uma das principais rotas de escoamento. De Miritituba, os grãos seguem em barcaças até terminais como o da Cargill, em Santarém, na confluência com o Amazonas.

Num vídeo, João perguntou aos moradores o que sabiam sobre a ferrovia. Segundo ele, perfis de direita adulteraram o vídeo por inteligência artificial e distorceram as entrevistas. Sua conta pessoal também foi revelada. “Diziam: ‘Esse aqui é o perfil dele, vão lá’. Era a galera vindo para cima de mim”, recorda.

João fechou o perfil e deixou de visitar a mãe, por medo de revelar aos perseguidores onde ela morava. “O principal dano é a forma como a gente vive com a nossa família”, lamenta João Paulo.

Matérias deixaram de ser publicadas; repórteres reduziram as aparições e fecharam seus perfis pessoais. Marcos virou o “para-raios” dos ataques. A equipe, com mais de 20 pessoas em 2022, hoje conta com sete. A falta de financiamento também explica a redução.

Sem o Tapajós de Fato na cobertura eleitoral, João Paulo sabe quem ocupará o espaço. “Quando a gente deixa de falar sobre um tema, o outro vai falar, do seu jeito”, avalia. Para ele, uma redação não poder acompanhar as eleições por segurança revela “uma falha enorme do Estado, em todos os seus níveis e em todas as suas instâncias”.

Querida leitora e eleitora, como você está nesta campanha?

11 September 2026 at 16:00

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Não tive muitas discussões profundas sobre política, Brasil e futuro com as pessoas ao meu redor depois de a campanha começar. Com tanto ruído parece impossível ter uma conversa séria, com a atenção tomada pelo complicado enredo da crise do STF, que ocupa também a arena eleitoral, em um bombardeio de notícias, minúcias e opiniões.

Demorei pra entender quando uma amiga disse que a campanha estava “chata”, o oposto exato do que eu sinto, imersa no trabalho cotidiano como jornalista e que nunca pareceu mais desafiador – nem mais urgente. Mas ouvindo outras pessoas, igualmente informadas e politizadas, que não estão dispostas a se engajar nessas eleições, entendi como o espetáculo grotesco no STF e a exploração eleitoral da crise afastam os eleitores desse mar de lama. Não é nada motivador acompanhar diálogos indecorosos, nem autoridades que parecem movidas por uma ganância injustificável por parte de quem ganha mais do que 99% da população brasileira, e tem um enorme poder, que deveria ser no mínimo retribuído com responsabilidade e compromisso com a Constituição. 

E se Alexandre de Moraes tem muito a explicar sobre suas relações com Vorcaro, envolvendo mais de 50 mensagens comprometedoras – inclusive no dia em que acabou preso pela Polícia Federal – e tendo como pano de fundo um contrato de 130 milhões com o escritório de sua esposa, ele não é o único ministro a contribuir para a desmoralização da cúpula da Justiça, essencial ao regime democrático. 

Em fevereiro, um acordo feito a portas fechadas pela Corte, presidida pelo mesmo ministro Edson Fachin, o ministro Dias Tóffoli deixou a relatoria do Caso Master, mantendo a toga e a imunidade com uma declaração de “apoio pessoal” e de “inexistência de suspeição ou impedimento” em nota pública assinada pelos dez ministros do STF. Isso depois de ter trocado mensagens com o banqueiro fraudador, de quem era sócio no resort Tayayá, como revelado um mês antes pela imprensa. 

Também pesam suspeitas sobre o ministro André Mendonça, como antecipei na coluna passada, de uso político dos inquéritos sob sua relatoria – o do INSS, do Dark Horse e do Master. Vazamentos seletivos com impactos no eleitorado do presidente Lula – o caso “Lulinha”, errônea e propositalmente misturado às fraudes contra os aposentados – ocuparam as manchetes no início da campanha. Enquanto isso, o caso Dark Horse, revelado pelo Intercept em maio, com áudios de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro, ficou trancado na mesa de Mendonça. 

Até hoje Flávio sequer depôs no inquérito que também investiga o destino real dos recursos enviados através de um fundo com sede nos Estados Unidos e administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, que desde a derrota do pai, Jair, faz lobby pela interferência do governo Trump na soberania brasileira. Também não se sabe o quanto de dinheiro público (além daquele furtado por Vorcaro da previdência de servidores de diversos estados) consumiu a empreitada, como mostra a investigação da PF a pedido do ministro Flávio Dino sobre o possível desvio de 2 milhões de reais de emendas parlamentares para ONGs ligadas a produtoras do filme, que já resultou em buscas policiais na casa de Mário Frias, ex-ministro da Cultura de Jair Bolsonaro. 

Igualmente suspeito foi o momento escolhido por Mendonça, também ex-ministro de Jair Bolsonaro, para incendiar o STF. O relatório da PF sobre Moraes, com citações a Paulo Gonet (PGR) e Andrei Rodrigues (PF) foi encomendado a toque de caixa a 35 dias das eleições; e vazado e depois liberado para imprensa a uma semana do 7 de setembro, quando Mendonça se tornou “mártir” para os eleitores religiosos de Jair (que também estavam distantes da campanha), com sua figura exaltada em bonecos e cartazes na manifestação de Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista. 

Como cidadã e como jornalista acredito que todos os segredos de interesse público devem ser revelados na sua totalidade e todos os suspeitos investigados. O perigo está exatamente nos vazamentos parciais e interessados que levam a distorções de informação e de processos legais com impactos de todo o tipo, inviabilizando inclusive as próprias investigações como aconteceu no caso Lava Jato. Mas não esqueço o óbvio: até agora Flávio Bolsonaro é o único candidato a presidente que pediu e recebeu dinheiro de Vorcaro. 

Fica difícil acreditar que o ministro Edson Fachin, que demonstrou tão pouco apetite por Justiça no caso Toffoli e demora a reagir agora, vai ter a vontade e energia necessárias para encarar até o fim as suspeitas que pesam sobre a corte – de A a Z. Duas condições são essenciais para que a população acredite que há pelo menos a intenção de recolocar o STF nos trilhos: que a sessão extraordinária marcada para o dia 15 no plenário para esclarecer as denúncias envolvendo o Caso Master seja pública; e que o material sobre o caso seja liberado em sua totalidade para evitar vazamentos seletivos. 

Quanto a nós, eleitores, talvez valha a pena fazer um exercício de distanciamento, já que as querelas dos poderosos frequentemente nos excluem, colocando na balança também os projetos políticos dos candidatos sob o risco de despertar em uma ditadura como a de El Salvador. Que está sendo vendida como projeto para o Brasil por vários candidatos, apesar de o regime de Bukele manter 1 a cada 50 cidadãos na cadeia, sem processos nem garantias legais, e um país no escuro, com a expulsão de jornalistas e da imprensa livre, como contou o multi premiado e jornalista exilado, Carlos Dada, em visita recente ao Brasil. 

Torço para que a gente consiga sacudir os respingos desse mar de lama e apoiar políticos que privilegiam o diálogo para construir alternativas para um futuro ameaçado por guerras, ditaduras, injustiças, e pelo próprio desequilíbrio do planeta. E que sejam capazes de aprofundar o debate e defender nossos direitos, inclusive o de ter acesso às informações de interesse público e à Justiça, julgando e punindo os que dela se desviaram. Sempre preservando nossas conquistas, como o julgamento e a prisão dos golpistas e do próprio Vorcaro, além da legitimidade e segurança de nossas eleições.

Ao contrário dos que têm por dever guardar a Constituição, que custou tantas vidas pela redemocratização do país para se construir como consenso e base democrática, talvez seja a hora de a gente reafirmar o parágrafo único do artigo que abre a Carta Magna: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

Na urna com o ex: Rivais históricos se unem por espaço e poder nas eleições 2026

11 September 2026 at 08:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Em 22 de julho, os brasileiros presenciaram a oficialização de uma das alianças mais improváveis na corrida eleitoral deste ano. Ciro Gomes (PSDB) publicou nas redes sociais um vídeo em que agradece ao Partido Liberal (PL), sigla do ex-presidente Jair Bolsonaro, pela aliança firmada em torno de sua candidatura ao governo do Ceará. Partiu do Partido Democrático Trabalhista (PDT), antiga sigla de Ciro, a ação que tornou Bolsonaro inelegível por oito anos.

Crítico ferrenho do ex-presidente, Ciro construiu trajetória recente em oposição ao bolsonarismo. Em entrevistas, chamava o ex-presidente de “corrupto”, “fascista”, “incompetente”, “imitador de Trump” e “ladrão de galinhas”. Em 2026, no entanto, mudou o tom da fala e passou a liderar uma frente que reúne candidatos de diferentes campos da política estadual, incluindo bolsonaristas que ele próprio criticava duramente.

Entre os integrantes do novo palanque de Ciro estão André Fernandes (PL) – deputado federal e uma das principais lideranças bolsonaristas, e Capitão Wagner (União Brasil), ambos antigos opositores a Ciro e seus aliados no Ceará. 

Ciro Gomes durante lançamento da candidatura 2026
Ciro Gomes e antigos adversários se unem no Ceará para disputar as eleições de 2026

A aliança rendeu críticas dentro do próprio PL. A ex-primeira dama e candidata ao Senado pelo Distrito Federal Michelle Bolsonaro (PL) se mostrou insatisfeita com a parceria por considerar Ciro “o principal responsável” pelo processo que resultou na inelegibilidade do marido, além de lembrar das ofensas de corrupção feitas não apenas ao ex-capitão do Exército, mas também a seus filhos.

Contra Elmano de Freitas (PT), que disputa a reeleição ao governo do estado, Ciro se juntou ao PL para a disputa e divulgou como mote: “É hora de união para mudar os rumos do Ceará”.

Por meio de nota, Wagner disse que a história dos recém aliados “é pública” e que “não foge dela”: “Eu e Ciro estivemos em lados opostos e tivemos embates muito duros. Em alguns momentos, o calor da disputa levou os dois a excessos. O próprio Ciro reconheceu publicamente que personalizou críticas, que foi injusto em algumas acusações e me pediu desculpa”. O candidato ao Senado resumiu a aliança da dupla como: “compreensão de que nenhum interesse pessoal, vaidade ou mágoa poderia ficar acima do Ceará”. Ciro Gomes e André Fernandes foram procurados por email e por telefone, mas não responderam à reportagem.

Para o advogado e analista político Melillo Dinis, os partidos políticos não se articulam necessariamente com base em afinidades ideológicas, mas em torno dos interesses e das vantagens de suas lideranças. “Não é uma conta de chegada. É um acordo de partida”, começou.

[Essas] movimentações políticas são reflexo do fenômeno que acaba por ser explicado pelas expectativas de resultado, antes das urnas apuradas. É um ciclo em que o rabo abana o cachorro e o comanda, sem a menor preocupação com a coerência.”
Melillo Dinis
Analista político em Brasília

A aliança política firmada entre os ex-rivais no Ceará não é evento isolado. Políticos que outrora trocaram acusações contra opositores e que, em alguns casos, chegaram a transformar a rivalidade em marca eleitoral mudaram de lugar nas trincheiras e passaram a dividir partido, chapa ou palanque com antigos inimigos. Alguns exemplos elencados pela Agência Pública chamam a atenção e confirmam como Relembrar é votar.

A candidatura à reeleição do governador Antonio Anastasia recebeu nesta segunda-feira (26/07) manifesto de apoio dos presidentes dos clubes de futebol mineiros e dirigentes das torcidas. América, Atlético e Cruzeiro se uniram, fora de campo, para abraçar a candidatura do governador Antonio Anastasia à reeleição. O encontro aconteceu no Comitê Central da coligação “Somos Minas Gerais”, em Belo Horizonte, e contou com a presença do ex-governador Aécio Neves, candidato ao Senado. Estiveram presentes também presidentes e diretores dos três clubes, Alexandre Kalli, Zezé Perrela e Marcos Salum, além de representantes de torcidas organizadas.
Kalil e Aécio já trocaram críticas duras. Agora, antigos rivais dividem a mesma chapa em Minas

De instinto “matador” a amizade eterna ao sabor mineiro

A aproximação do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) e do deputado federal Aécio Neves (PSDB) tem como antecedente uma das disputas mais incisivas da política mineira recente.

Em 2016, Kalil concorreu à prefeitura de Belo Horizonte contra João Leite (PSDB) –  candidato apoiado pelo grupo político de Aécio. À época, Kalil declarou ter tido “vontade de matar” Aécio quando o tucano se aliou a partidos contra ele, criticou duramente o deputado e, em uma das ocasiões, disse que não adiantava “quererem” que ele “lambesse o saco de Aécio”. Naquele ano, Kalil saiu vencedor.

Dez anos depois, a história é outra. Kalil se lançou candidato ao governo do estado e o PSDB passou a integrar a chapa, após articulação de Aécio. A aliança incluiu o anúncio do ex-deputado federal Carlos Mosconi (PSDB) como seu candidato a vice-governador. 

Presidente nacional do partido, Aécio chegou a ser cogitado para disputar o Senado na composição com Kalil, mas anunciou, em 4 de agosto, que não concorrerá a cargos em 2026.

Na sabatina realizada por Folha e UOL, Kalil reconheceu a mudança de relação. Disse que havia atacado Aécio em 2016 e afirmou: “Eu agredi o Aécio, mas ele nunca respondeu”. Também declarou que não guardava mágoa do tucano e classificou a aproximação como uma decisão política. 

Alexandre Kalil informou que não comentará a questão. O deputado federal Aécio Neves foi procurado por meio do email oficial de seu gabinete na Câmara dos Deputados e pela assessoria que o representa, mas não respondeu aos questionamentos. Este espaço será atualizado em caso de manifestação.

José Roberto Arruda (PSD) e Maria de Lourdes Abadia (PSD)
Rivais na eleição de 2006, Arruda e Abadia voltam a dividir o mesmo palanque no Distrito Federal

Um reencontro no planalto central

No Distrito Federal, a origem da ex-rivalidade entre José Roberto Arruda (PSD) e Maria de Lourdes Abadia (PSD) está na eleição de 2006. Abadia era governadora e disputava a reeleição, mas foi derrotada por Arruda. Os adversários permaneceram distantes politicamente por quase 20 anos até voltarem a dividir espaço neste pleito. 

A reaproximação passou pela mudança partidária de Abadia. Em março, a ex-governadora anunciou sua filiação ao PSD, partido que abriga o projeto de Arruda para voltar ao Palácio do Buriti. Abadia passou a participar das articulações do grupo de Arruda para 2026 e esteve ao lado do ex-governador em encontros partidários e na convenção que confirmou a candidatura dele ao governo. 

São duas trajetórias antes opostas que voltam a se encontrar no mesmo palanque em 2026.

Em resposta à Pública, Arruda declarou que “diferente dos tempos de hoje, onde as pessoas não são adversárias, mas sim inimigas”, ele e Abadia “nunca fizeram política assim”. “Nós mesmos já fomos aliados, muito aliados, e também já fomos adversários. No entanto, no tempo em que estávamos em caminhos diferentes, nunca deixamos de nos respeitar e isso nunca afetou a nossa relação de amizade pessoal”, disse o ex-governador do DF. Abadia não disponibiliza contato público,foi procurada por mensagem ao perfil oficial que mantém nas redes sociais Instagram, mas não respondeu aos questionamentos.

Débora Régis e Antônio Rosalvo
Após uma disputa acirrada em 2024, Débora Régis e Antônio Rosalvo agora são aliados na Bahia

Briga com tempero baiano

Em apenas dois anos, uma relação marcada por acusações de misoginia e suspeita de violência física e política evoluiu para parceria inabalável, em Lauro de Freitas (BA). Nas eleições de 2024, Débora Régis (União Brasil) derrotou por 60% a 40% o candidato Antônio Rosalvo (PT). Em 2026, eles são aliados.

Durante a campanha, os dois trocaram críticas públicas e acusações sobre a administração do município e o período foi marcado por episódios de tensão. Em maio daquele ano, Rosalvo afirmou, durante ato político, que iria “tapar a boca” de Débora ao responder a críticas feitas por ela sobre problemas da cidade. Ela o acusou de se valer do fato de ela ser mulher na política. 

Depois, ele afirmou à imprensa local que um apoiador de Débora teria sido responsável por um tiro que atingiu um de seus aliados, pediu calma e que a disputa não fosse marcada pela violência. 

Mas Rosalvo mudou de grupo político. Em 2026, deixou a base do PT, filiou-se ao PSDB e passou a integrar o campo político de ACM Neto – vice-presidente nacional do União Brasil. Agora, o ex-candidato a prefeito concorre a uma vaga de deputado estadual e recebe apoio público de Débora Régis para que integre a Assembleia Legislativa da Bahia.

Em agosto, Débora defendeu a candidatura de Rosalvo durante evento político em Lauro de Freitas: “Temos que colocar Rosalvo como deputado estadual para defender Lauro de Freitas.”

À Pública, Rosalvo explicou que “nenhum momento” afirmou que taparia a boca de Débora Régis “no sentido literal”, que o termo seria “uma figura de linguagem relacionada à disputa política e à resposta administrativa”: “Qualquer interpretação de que eu estivesse defendendo agressão, violência ou que pretendesse literalmente “tapar a boca” de uma mulher não corresponde ao que quis dizer”, pontuou. “Não pretendo apagar ou negar os embates ocorridos em 2024. Foi uma eleição extremamente disputada, com momentos de muita tensão e divergências profundas entre os grupos políticos”, concluiu em nota.

Régis foi procurada por meio do email oficial de seu gabinete, pelo telefone da prefeitura e pelo perfil oficial dela nas redes sociais, mas não respondeu.

Posse do Governador Wilson Witzel no Palácio Guanabara.
Anthony Garotinho
Witzel (à esq) desistiu da disputa pelo governo do Rio e declarou apoio ao antigo adversário, Garotinho (à dir)

Disputa pelo governo do Rio é samba para poucos

Dois ex-governadores do Rio de Janeiro estariam em embate direto nas urnas nas eleições 2026, mas os adversários agora estão no mesmo lado. Wilson Witzel (Democrata) desistiu de disputar o governo para apoiar Anthony Garotinho (Republicanos). 

Witzel havia lançado sua pré-candidatura ao Palácio Guanabara em julho. Menos de um mês depois, em 1º de agosto, retirou o nome da disputa e declarou apoio a Garotinho. A decisão foi oficializada durante a convenção estadual do Democrata.

A justificativa apresentada por Witzel foi eleitoral. Segundo ele, o objetivo era criar uma frente para levar Garotinho ao segundo turno. A aproximação ocorre entre dois políticos que já estiveram em lados opostos e tiveram trajetórias marcadas por confrontos. 

O ex-juiz usava sua trajetória na magistratura para questionar o adversário, enquanto Garotinho respondia atacando Witzel ao dizer que ele tinha “problemas de corrupção”.

Agora, ao justificar o apoio, Witzel também faz referência à trajetória jurídica de ambos e aponta que os dois tinham “uma história de injustiças” e destacou que processos que levaram Garotinho à prisão haviam sido posteriormente anulados pela Justiça.

A reportagem tentou contatar Wilson Witzel e Anthony Garotinho por email, telefone e rede social, mas não obteve retorno. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

Ministério Público Eleitoral impugna 15 candidatos em SP ligados a crimes, dois ao PCC

10 September 2026 at 16:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Ligações com o PCC, assalto, tráfico de drogas, incêndio, estelionato, uso de documento falso, sumiço de documentos públicos, sonegação de contribuição previdenciária, denunciação caluniosa, violação de medida protetiva da Lei Maria da Penha, coação no curso do processo, crime eleitoral… A lista é longa.

Estes são alguns dos crimes que fazem parte da vida pregressa de 15 dos 18 candidatos a deputados federal e estadual que tiveram as candidaturas contestadas com pedidos de inelegibilidade pelo Ministério Público Eleitoral (MPE) em São Paulo. Os outros três também foram condenados, mas em processos cíveis ou administrativos. No total, foram impugnados (contestados) 557 registros de candidaturas pelo MPE paulista, no último mês de agosto. As demais 539 candidaturas impugnadas não envolvem questões de elegibilidade. São contestações mais simples que não envolvem o direito de votar e ser votado.

Desse total, 18 ações podem resultar em inelegibilidade e atingiram partidos de direita, centro e esquerda, atingindo nove candidatos a deputado estadual e nove candidatos a deputado federal. 

Nove das candidaturas questionadas são de partidos de direita e centro-direita que apoiam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) à reeleição. Dois são dos Republicanos, dois do MDB e com um cada, Podemos, PSD (partido de Ronaldo Caiado, candidato a presidente), PSDB, Novo (que disputa a presidência da República com Romeu Zema) e PP. 

Outras cinco candidaturas são de candidatos de partidos de esquerda que apoiam a reeleição de Lula para presidente, e a eleição de Fernando Haddad para governador de São Paulo: quatro são do PSB e um do PSOL. Além deles, três candidatos são do Mobiliza (não apoia candidatos a cargos majoritários) e um do DC (partido da candidata à presidência da República, Clariana Barão). 

Ligações com o PCC

Dois dos 18 candidatos foram impugnados por ligações com a organização criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC, e o MP Eleitoral está usando pela primeira vez no Tribunal Regional Eleitoral em São Paulo uma nova jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Os candidatos supostamente vinculados ao “partido do crime” são Ney Santos (Republicanos), ex-prefeito de Embu das Artes, na Grande São Paulo, que tenta uma vaga de deputado federal, e Emerson Rocha (Podemos), que renunciou à candidatura a deputado estadual após ser preso. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) acusa ambos de serem membros do PCC. 

Ex-vereador em Franco da Rocha (SP), Emerson Rocha
Ex-vereador em Franco da Rocha (SP), Emerson Rocha foi preso no dia 20 de agosto na operação Cátaros por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC

Rocha foi preso preventivamente dia 20 de agosto na Operação Cátaros do MP-SP. Ele é acusado de participar de uma rede de lavagem de dinheiro do PCC que teria o apoio de três vereadores de Cotia, na Grande São Paulo. Cinco dias depois, advogados do Podemos apresentaram a renúncia dele no dia 25 de agosto, e a desistência foi confirmada pela Justiça Eleitoral de São Paulo.

Já a presença de Ney Santos na política é tão longeva quanto seu suposto envolvimento com o PCC. Ele foi eleito e reeleito prefeito de Embu das Artes, ocupando o cargo entre 2017 e 2024, pelo então PRB (atual Republicanos), partido controlado pela Igreja Universal do Reino de Deus.

Porém, em 1999, Ney Santos foi preso sob acusação de assalto a um carro forte, portando uma metralhadora. Depois de passar pelo CDP de Itapecerica da Serra, onde esteve preso entre 2003 e 2006, Santos teria ganhado projeção muito rapidamente dentro do PCC, e passou a lavar dinheiro do crime organizado em uma rede de 15 postos de combustíveis, segundo investigações da Polícia Civil (2010). 

Ney Santos (Republicanos), ex-prefeito de Embu das Artes
Ney Santos teve sua candidatura a deputado federal impugnada pelo MP Eleitoral por uma suposta ligação com o PCC

A investigação da Polícia Civil ocorreu quando Santos tentava uma vaga de deputado federal pelo PSC. Na época, 34 kg de maconha teriam sido apreendidos pela PM com um pedreiro. Em depoimento, o homem disse que a droga seria distribuída em um evento do candidato. Dois anos depois, livre das acusações por uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, Santos candidatou-se e foi eleito vereador em Embu das Artes pelo mesmo partido. 

A lei da Ficha Limpa prevê que são inelegíveis os candidatos que possuem condenação por decisão de segundo grau emitida ao menos oito anos antes da eleição. Ou seja, para concorrer em outubro de 2026 uma pessoa que possua uma condenação em segunda instância pode concorrer desde que a condenação tenha sido cumprida até outubro de 2018. A lei impede a participação de condenados por diversos tipos de crimes e também por improbidade administrativa (um ilícito cível) e para candidatos cujas contas foram rejeitadas por tribunais de contas e depois condenados pelo poder legislativo.  

Por que isso importa?

  • A Lei da Ficha Limpa nasceu de iniciativa popular em 1993 e entrou em vigor em junho de 2010.
  • Nas últimas eleições, em 2024, a lei ajudou a barrar quase 2 mil candidatos que tinham ficha suja, segundo o portal da Câmara dos Deputados.

Teste jurídico em São Paulo

O combate às organizações criminosas nas eleições começou a mudar quando a Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro testou nas eleições passadas um novo argumento: a lei da Ficha Limpa não protege a sociedade o suficiente em caso de envolvimento do crime organizado. 

Os casos em que esse argumento foi usado chegaram ao TSE que não a aceitou, mas mesmo assim indeferiu todas as candidaturas usando uma arma que ninguém havia pensado antes: a Constituição, mais especificamente o parágrafo 4º do artigo 17, que veda a utilização de organização paramilitar pelos partidos políticos. 

“Segundo o TSE esse artigo tem eficácia plena, portanto, imediata, e não depende de edição de lei regulamentando”, explica o Procurador Regional Eleitoral de São Paulo, Paulo Taubemblatt, procurador regional da República que ocupa a função há seis anos. 

“O TSE construiu a tese de que candidatos ligados a organizações criminosas que fazem uso de armamento, como o PCC e o Comando Vermelho, por exemplo, fazem com que o partido indiretamente estivesse se valendo de organização paramilitar”, afirma Taubemblatt. E essa tese será testada pela primeira vez no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) no caso de Ney Santos. 

Além da nova jurisprudência, o Procurador Geral da República, Paulo Gonet, que comanda o MP eleitoral, ao lado do Vice-Procurador Geral Eleitoral, Alexandre Espinosa, estabeleceu que o combate ao crime organizado nas eleições deveria ser uma prioridade dos procuradores eleitorais. 

O procurador regional de São Paulo sabe que a batalha jurídica será dura. “O Ney Santos já pode ser considerado um político tradicional, foi prefeito duas vezes. E sim, ele vai insistir. Vai se defender. É um direito dele. E se [o TRE-SP] permitir essa candidatura aqui, certamente eu vou recorrer”, afirma.  

Já a defesa de Santos contestou a impugnação numa petição de 24 páginas e diz que a acusação não passa de “factóides requentados”. 

Além da petição, a defesa juntou ao processo dezenas de documentos, entre eles notícias e estatísticas da Guarda Civil de Embu das Artes durante a administração de Santos na cidade. Segundo os advogados do ex-prefeito, liderados pelo advogado Joel de Matos Pereira, a guarda municipal realizou mais de 900 flagrantes de tráfico de drogas nos 8 anos em que ele esteve à frente da prefeitura. 

O julgamento da legalidade da candidatura de Santos está marcado para hoje (10), a partir das 14h, no TRE de São Paulo.  

Crimes no passado e falta de documentos

Entre as outras 16 candidaturas impugnadas, em 14 delas, os candidatos apresentaram registros criminais no passado, mas a maioria deles não juntou documentos que provassem cabalmente a absolvição ou se passaram oito anos desde a condenação.

Era o caso da única mulher da lista, a advogada Ana Paula Rocha Teixeira, do Novo, condenada por crime eleitoral pelo TRE-MG. Ela provou que a condenação era de 2015 e que, portanto, poderia concorrer desde 2023. O MP concordou com a tese e a Justiça deferiu a candidatura dela. 

Foi o que aconteceu também com Fernando Gurjão Lopes, o Fernando Red Dog (MDB). Preso no passado por estelionato, ele não havia provado o pagamento da pena de multa. Após juntar documentos provando que não devia mais à Justiça, a candidatura foi deferida pela Justiça Eleitoral de São Paulo. 

Mas este não foi o caso de Samuel Pitbull, também do MDB. Preso em 2009 por tráfico de drogas, ele teve a pena confirmada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) e já cumpriu a pena de prisão, mas a pena de multa, confirmada pelo TJ, em 2019, segue em vigor e ele, portanto, inelegível até o ano que vem, na avaliação do MP Eleitoral. A Justiça Eleitoral de São Paulo concordou com a tese do MP e indeferiu, em primeira instância, o registro do candidato.

Há casos como o do ex-prefeito de São Sebastião, Felipe Augusto, do PSDB, impugnado por ter as contas de sua gestão rejeitadas, em 2022, pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, decisão ratificada pela Câmara Municipal da cidade do litoral norte de São Paulo. Felipe Augusto também é réu sob as acusações de desvio de munição da Guarda Municipal da cidade e de recursos da pandemia de Covid-19, mas estes dois casos não podem ser usados para impugná-lo porque ele ainda não foi condenado. 

A defesa do ex-prefeito alegou ao TRE que a condenação de Augusto no TCE é fruto de irregularidades formais e, no máximo, má gestão, mas que não houve prejuízo ao erário de São Sebastião ou enriquecimento ilícito do candidato.

Agentes de Segurança Pública e veteranos também são impugnados

As ações do MP Eleitoral não perdoaram os membros das forças policiais que se aventuraram nas eleições deste ano. O ex-prefeito de Embu Guaçu, André George Neres de Farias, o sargento Neres, candidato a deputado federal pelo PP, teve a candidatura impugnada após ter sido condenado, em segunda instância, por violar medida protetiva da Lei Maria da Penha, em processo que transitou em julgado em setembro de 2024, o que já havia lhe custado o mandato de prefeito em 2025. 

Postulante também a deputado federal, o candidato delegado Adolpho Henrique (PSB), ex-prefeito de Arapeí (SP), não juntou documentos obrigatórios para provar que está apto para disputar as eleições. Ele possui ao menos uma condenação por improbidade administrativa, mas não comprovou ter cumprido com todas as obrigações referentes à pena.

Colega de partido do delegado, o ex-vereador Chamel, de Fernandópolis (SP) renunciou à candidatura para deputado federal. Ele foi enquadrado na lei da Ficha Limpa pelo MP Eleitoral, pois foi condenado em segunda instância, em 2022, pelo crime de coação no curso do processo e ainda não se passaram os oito anos exigidos pela legislação para que possa concorrer. 

Genésio Gente da Gente, que se candidatou a deputado estadual pelo PSOL, foi condenado por estelionato em processo que transitou em julgado em 2022. Em 2024, no fim do ano, Genésio recebeu o indulto de Natal e a pena foi extinta. Pela jurisprudência do TSE, o candidato do PSOL pode até votar, mas não pode se candidatar, o que poderá ocorrer somente em 2030, segundo o entendimento do MP Eleitoral. 

Na lista de candidaturas contestadas, há, inclusive, veteranos como Barros Munhoz (PSD). Aos 81 anos, o ex-prefeito de Itapira por 3 vezes, ex-ministro da Agricultura, ex-secretário estadual e ex-presidente da Alesp, tenta o oitavo mandato de deputado estadual. Acusado do delito cível de improbidade administrativa na Justiça Federal e Estadual, sua candidatura não apresentou até o momento documentos suficientes para demonstrar que ele está elegível. A favor de Munhoz está a idade dele. Por ser maior de 70 anos, o político já foi beneficiado anteriormente pela prescrição de processos em virtude da idade.  

Violência no campo e na cidade estão conectadas

10 September 2026 at 16:00

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Nos últimos dois anos, a segurança pública passou a ocupar o topo entre os problemas que mais preocupam os brasileiros. Historicamente, a economia e o desemprego surgiam como os temas que mais afligiam a população. Houve momentos em que a corrupção estava em primeiro lugar e, logo após a pandemia, em 2022, foi a vez da saúde pública ser a questão número um. Mas agora várias pesquisas de opinião pública convergem para a falta de segurança. Seis entre 10 brasileiros dizem se sentirem inseguros, segundo levantamento da Quaest divulgado em novembro de 2025.

Não à toa a segurança pública é um dos temas mais presentes nas eleições deste ano, seja nas disputas estaduais ou nacionais. O candidato à presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado, por exemplo, fez desta a principal bandeira de campanha e promete criar um Ministério de Segurança Pública. Outros, entre eles Flávio Bolsonaro, do PL, afirmam que é possível aumentar a população carcerária no Brasil com a construção de presídios de segurança máxima ao estilo de El Salvador.

Propostas como estas buscam claramente conquistar a população dos grandes centros urbanos, onde a preocupação com a falta de segurança é mais aguda. A mesma pesquisa Quaest do ano passado revelou que são nas regiões mais populosas do país, Sudeste e Nordeste, onde se concentra a parcela da população que mais cita a violência como problema principal.

Há, no entanto, a necessidade de se discutir a segurança pública em conexão com o que acontece fora dos grandes centros urbanos. Um dos fenômenos apontados por entidades especializadas, como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é a consistente interiorização da criminalidade no país. As duas maiores facções — o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, expandiram sua atuação para todo o país e disputam entre elas territórios e o tráfico de drogas.

O reflexo deste crescente domínio pode ser visto na Região Norte, onde em pouco tempo algumas de suas capitais se tornaram, proporcionalmente, algumas das campeãs nas taxas de homicídio. Os últimos dados do Atlas da Violência, produzido pelo IPEA, mostraram que entre as 10 primeiras capitais com mais mortes, quatro estão no Norte. A mais violenta entre elas é Macapá, a terceira no ranking nacional, com 45,6 homicídios por 100 mil habitantes, atrás de Salvador e Maceió. Na lista também estão Manaus, Porto Velho e Belém. Entre os estados, o Amapá é, segundo as cifras de 2024, considerado o mais violento do país.

Crime organizado na Amazônia

Uma das razões para a crescente violência em municípios da Amazônia é a atuação do crime organizado fora do espaço urbano. Os analistas do tema de segurança são unânimes em apontar mudanças no conflito armado na Colômbia como um dos detonadores desta expansão das facções na região Norte. Em 2016, a desmobilização das FARC, guerrilha colombiana que dominou por décadas as rotas de tráfico de cocaína, criou uma disputa entre o PCC e CV por este negócio tão lucrativo.

Uma das rotas que passou a ser valorizada é a calha do rio Solimões. Eu vi isso com meus próprios olhos em uma viagem ao Amazonas em 2017. Durante uma saída com pescadores locais para visitar suas áreas de captura em meio ao igapós e várzeas do grande rio, passou uma lancha a toda velocidade com homens portando fuzis. Eu perguntei aos meus guias se aqueles eram policiais ou se a lancha era do Exército. Nenhum dos dois, me disseram os pescadores. Eram traficantes e transitavam em plena luz do dia sem serem incomodados.

Junto a esta interiorização do crime organizado há uma sofisticação dos mecanismos de lavagem de dinheiro. Por sofisticação entenda-se também diversificação de negócios. Enquanto na famosa operação Carbono Oculto se revelaram operações do PCC em fundos de investimento da Faria Lima (avenida que concentra o mercado financeiro e empresas de tecnologia em São Paulo), nas áreas protegidas e territórios indígenas, as facções passaram a lucrar com a exploração de garimpos ilegais e com a grilagem de terra.

Cito os trabalhos de alguns colegas jornalistas que têm revelado estas conexões entre o crime ambiental e a falta de segurança. O projeto Amazon Underworld, por exemplo, revela as ramificações do crime na Amazônia. Foi fundado pelo criminologista e repórter Bram Ebus, com quem trabalhei há seis anos em uma investigação sobre o tráfico de mercúrio para os garimpos. Ele e sua equipe têm feito um mapeamento da presença do PCC e do CV nos municípios da Amazônia Legal. Os resultados, colhidos de inquéritos policiais e processos na justiça, mostram uma presença na quase totalidade da região.

O mapa abaixo ilustra o domínio do Comando Vermelho na região enquanto podemos ver que o PCC é especialmente forte nas fronteiras. Notem que já em alguns municípios fronteiriços do Peru, a presença do CV foi registrada.

Mas o que significa na prática a presença destas facções na Amazônia? Em uma investigação recente, feita em parceria com a InfoAmazonia e Amazon Underworld, o repórter Bruno Abbud visitou a Terra Indígena Sararé no Mato Grosso. Ali, a Polícia Federal comprovou a existência de um garimpo ilegal de ouro comandado pelo CV. Os relatos ouvidos por Bruno dos indígenas são aterradores. Assemelham-se muito aos de moradores de comunidades dominadas por milícias no Rio de Janeiro. Ou seja, coação com integrantes armados e conquista de partes do território.

Portanto, é justo dizer que não são apenas as populações das grandes cidades que estão amedrontadas. O Brasil sempre foi um campeão de conflitos no campo, como mostra a longa série histórica da Comissão Pastoral da Terra. Muitos destes conflitos também atingem diretamente os povos indígenas. Mas agora alguns indicadores mostram que a violência nas terras indígenas já têm origem na presença do crime organizado. Foi isso o que registrou o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em seu último relatório em que mostrou que no ano passado houve um aumento de 22% de indígenas assassinados.

É dado que choca considerando os recentes esforços do governo Lula de retomar a demarcação de território indígenas, territórios quilombolas e reservas extrativistas. Revela que mesmo uma política que reverteu o completo abandono promovido nos quatro anos de Bolsonaro não foi suficiente para barrar o aumento da violência em terras protegidas.

Por isso, nestas poucas semanas que restam antes do primeiro turno das eleições, será essencial olhar as políticas de segurança pública não apenas com o viés policial, mas também com ações de combate ao crime ambiental e o crescimento do crime organizado na Amazônia.

Para saber mais:
Ouro, escavadeiras e fuzis: facções e milícias dominam garimpos na Terra Indígena Sararé (por Bruno Abbud)

O amigo do Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis

9 September 2026 at 20:24

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Era uma presença discreta no palco montado na Avenida Paulista, em São Paulo, no feriado de 7 de Setembro. Posou para fotos com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Abraçou os candidatos ao Congresso Lucas Pavanato (PL-SP) e Guilherme Derrite (PP-SP), gravou vídeos para suas redes com o aspirante a vice-presidente Alfredo Gaspar (PL-AL) e estava sempre perto da vedete mais disputada da tarde, o senador, presidenciável e seu “amigo-irmão”, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Para as 28 mil pessoas presentes no ato da direita, era um completo desconhecido. 

Renato Araújo, empresário de 40 anos nascido em Angra dos Reis, tem provocado ciúmes no entorno de Flávio pela proximidade entre eles. “Agora ele só quer saber desse Renato. Com os amigos das antigas, ele nem responde mensagem, deve achar que já está eleito e não precisa mais da gente”, disse à Agência Pública um amigo da família. Nesta eleição, aproximaram-se ainda mais. Tanto que, há pouco mais de uma semana, no dia 29 de agosto, Araújo organizou em Angra uma motociata e uma carreata de barcos em apoio a campanha de Flávio – e para alavancar sua própria candidatura a deputado federal, embora a bênção dos Bolsonaro tenha sido em vão há dois anos, quando foi derrotado ao tentar ser prefeito de sua terra natal. 

Publicação de Renato Araújo durante o ato de Flávio Bolsonaro na Av. Paulista, em SP, no dia 7 de setembro
Publicação de Renato Araújo durante o ato de Flávio Bolsonaro na Av. Paulista, em SP, no dia 7 de setembro

Coordenador regional do Partido Liberal na região da Costa Verde desde maio de 2025, escolhido por Jair Bolsonaro e pelo presidente da sigla, Valdemar da Costa Neto, Renato Araújo passou a figurar nas páginas policiais do noticiário fluminense nas últimas semanas. Em agosto, a Operação Sarasvati, da Polícia Civil, cumpriu 20 mandados de busca e apreensão em sete cidades do estado do Rio, entre elas Angra dos Reis. Os agentes da Delegacia Fazendária bateram na porta da Bravo Construções, empreiteira fundada por Araújo em 2011 e atualmente no nome de sua esposa, Tainá Nóbrega de Souza. Até o ano passado, ele seguia assinando como diretor-geral da construtora.

A investigação revelou um esquema de fraudes na execução de obras em escolas públicas montado na Secretaria Estadual de Educação, que direcionava reformas milionárias na rede de ensino para um grupo de empresas selecionadas – a maioria com pouco tempo de experiência, donos em comum e 13 delas com a mesma contadora. Depoimentos de diretores das unidades escolares indicam que a secretaria os obrigava a contratar essas empreiteiras sob pena de não realização das obras caso houvesse questionamento. Além disso, as intervenções aprovadas não costumavam ter nenhuma relação com o que era solicitado.

Um escândalo de R$ 16 milhões em telhados de escolas

Segundo o deputado estadual Flávio Serafini (PSOL-RJ), presidente da comissão de servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e responsável pela denúncia que embasou as duas investigações ainda em andamento – da Polícia Civil e uma outra da Polícia Federal –, “há fortes indícios de que a finalidade das obras era lavagem de dinheiro”, disse o deputado à Agência Pública. 

A Bravo Construções recebeu R$16 milhões do erário estadual para realizar reparos em quinze escolas. O gabinete de Serafini visitou três delas entre outubro de 2025 e janeiro de 2026. Em um relatório produzido pelo gabinete e entregue em janeiro de 2026 às autoridades, entre elas o Tribunal de Contas do Estado, constam todas irregularidades encontradas.

Deputado Flávio Serafini, autor da denúncia sobre obras em escolas do RJ, aponta indícios de superfaturamento e lavagem de dinheiro
Deputado Flávio Serafini, autor da denúncia sobre obras em escolas do RJ, aponta indícios de superfaturamento e lavagem de dinheiro

A Pública teve acesso ao documento e conversou com o assessor parlamentar que fez as visitas. No Colégio Estadual Antonio da Silva, em Nova Iguaçu, havia necessidade de reforma hidráulica estrutural para evitar os alagamentos constantes decorrentes da proximidade com o Rio Botas, que fica ao lado da unidade e costuma encher em dias de chuva. No início de 2024, a instituição precisou adiar o início do ano letivo por causa desse problema. Apesar disso, a vistoria promovida pela secretaria desviou-se da demanda apontada pela direção e determinou como prioridade a “substituição de telhas e madeiramento” do telhado. 

As telhas foram retiradas, lavadas e devolvidas, sem sequer serem trocadas, ao custo de R$ 800 mil. O valor causa ainda mais estranheza por se tratar de uma construção pequena, com apenas 12 salas de aula. Outras intervenções na unidade – que não resolveram o problema inicial apresentado pela direção – elevaram o custo para R$ 2,2 milhões. De acordo com o assessor parlamentar que realizou a visita, “não precisava nem ser engenheiro para ver que fizeram uma maquiagem. O negócio foi tão mal feito que a comunidade ficou indignada”.

O segundo colégio visitado – entre os 15 reformados pela Bravo – foi o Embaixador Raul Fernandes, em Niterói. A diretora havia pedido o conserto de uma parede no banheiro, uma solicitação que já havia sido feita anteriormente. O então diretor da regional Baixadas Litorâneas, da Secretaria Estadual de Educação, chamado Jorge Paes, mandou para a diretora a cotação da Bravo por WhatsApp. Contratada pela escola, a Bravo terceirizou a reforma, o que não é permitido pela legislação estadual nos casos em que não há edital de licitação. Mas a vistoria feita pela própria secretaria apontou que a obra a ser feita deveria ser a mesma da unidade de Nova Iguaçu: reforma do telhado, com substituição de telhas, limpeza das calhas e substituição dos rufos. O custo total foi de R$ 1,6 milhão, sendo que esta unidade é ainda menor do que a primeira, com nove salas de aula e 155 alunos.

A terceira unidade visitada pelo assessor legislativo foi um dos maiores colégios do estado, o Albert Sabin, no bairro de Campo Grande, Rio de Janeiro, onde estudam dois mil alunos. Havia uma determinação do Ministério Público Estadual para que o governo ampliasse o refeitório. Apesar disso, a obra indicada, novamente após vistoria da secretaria, foi a reforma da cozinha e dos banheiros – trocaram quatro portas e pintaram duas paredes, segundo o assessor que esteve duas vezes na unidade. O valor da intervenção, feita em apenas um mês – entre setembro e outubro de 2025 –, foi fixado pela secretaria em R$ 377,8 mil. 

O esquema se aproveitava da descentralização de recursos da secretaria via Associações de Apoio à Escola (AAEs), um mecanismo criado para permitir que pequenos reparos emergenciais e de manutenção predial sejam resolvidos com menos burocracia, sem licitação. Entre 2018 e 2020, os valores anuais ficaram entre R$ 58,6 milhões e R$ 102,8 milhões, segundo informações do Sistema Integrado de Gestão Orçamentária, Financeira e Contábil (SiafeRio) levantadas pelo gabinete de Serafini. Nos últimos dois anos contabilizados, 2024 e 2025, já no governo do bolsonarista Cláudio Castro (PL-RJ), os valores subiram para R$ 630,2 milhões e R$ 513,3 milhões, respectivamente. 

“O que encontramos foi muito grave: havia indícios de burla à legislação de licitações, com empresas previamente escolhidas e colégios coagidos a contratá-las. As obras tinham valores superdimensionados e os serviços sequer correspondiam ao que estava previsto nos contratos. Uma obra que poderia custar R$ 80 mil era contratada por quase dez vezes mais. Essa diferença, segundo as apurações que motivaram as denúncias, alimentava um esquema criminoso articulado por interesses políticos e empresariais ligados à direita do Rio de Janeiro”, afirma Serafini. 

“As denúncias que fizemos sobre a máfia das obras permitiram estancar um esquema que movimentou mais de R$ 1 bilhão nos últimos dois anos. Em um estado que paga um dos piores salários do país aos seus educadores e que ocupa posições preocupantes no Ideb, é um verdadeiro descalabro imaginar que recursos públicos destinados às escolas tenham sido drenados dessa maneira.”

Serafini cita Renato Araújo ao lembrar que ele chegou a contratar influenciadores para debochar das acusações nas redes sociais e dizer que se tratavam de fake news. “Hoje esse mesmo empresário é apresentado pela família Bolsonaro como aposta do PL para a Câmara dos Deputados. Isso mostra a dimensão política do problema e um saldo estarrecedor desse modelo de gestão bolsonarista no Rio.”

Uma indicação a dedo por Cláudio Castro

O valor dos repasses via AAEs explodiu quando a secretária estadual de educação era Roberta Barreto. Segundo as investigações, ela foi indicada ao cargo pelo então presidente da Alerj, o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar, do União Brasil-RJ, aliado de Cláudio Castro. Bacellar está preso desde março de 2026, acusado de vazar informações de operações para o Comando Vermelho, mas já havia sido preso em dezembro do ano anterior pelo vazamento de informações sigilosas de operação da Polícia Federal para o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (MDB-RJ), o TH Joias, ourives de facções criminosas no Rio – e que também está preso sob suspeita de negociar armas para o Comando Vermelho. 

É um caso paralelo, mas dentro do guarda-chuva da operação Unha e Carne, da Polícia Federal, que prendeu este ano mais um deputado estadual: Thiago Rangel (Avante-RJ), envolvido diretamente no esquema das escolas públicas. Nessa mesma fase da operação da PF, foi expedido novo mandado de prisão contra Rodrigo Bacellar (que já estava no cárcere) e também contra Rui Bulhões, seu ex-chefe de gabinete. As duas prisões, de Bacellar e Rangel, foram expedidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. 

As irregularidades na Secretaria Estadual de Educação levaram o Tribunal de Contas do Estado a determinar em abril o fim dos pagamentos às empresas envolvidas. A secretaria prometeu à época uma revisão administrativa dos procedimentos relacionados às obras e citou a Lei de Licitações 14.133 como novo parâmetro, transferindo intervenções mais vultosas para a Empresa de Obras Públicas do Estado (EMOP). À Pública, o governo estadual disse que o contrato referente à execução de obras em colégios já foi encerrado. “A pasta esclarece ainda que, ao longo de 2026, não realizou qualquer repasse de recursos para obras escolares” às empreiteiras investigadas. Existe um processo em curso no Ministério Público Estadual, também motivado pelas denúncias do gabinete do deputado estadual Flávio Serafini, e a Operação Sarasvati foi consequência dele. As investigações da Polícia Civil e da Polícia Federal continuam.

O candidato da família Bolsonaro

Não tivesse sido preso, Bacellar seria o candidato apoiado pela família Bolsonaro ao governo do Rio de Janeiro. Ele foi levado à casa de Bolsonaro em Angra dos Reis pelo próprio Renato Araújo, que passava muito tempo com o ex-presidente – Bolsonaro chegou a ir ao aniversário de seis anos do filho caçula de Araújo, e também passaram juntos uma véspera de Natal, além dos passeios de lancha ou jet ski no mar esmeralda da Costa Verde. Só após a prisão de Bacellar foi lançado o nome de Douglas Ruas, do PL-RJ, que também estava no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista. O amigo da família Bolsonaro ouvido pela Pública confirmou o que já é sabido por muitas pessoas no Rio: já estava definido pelo ex-presidente que Renato Araújo seria candidato a vice-governador na chapa de Bacellar. 

“Em pouco tempo ele virou amigo do Bolsonaro, mas eles só se aproximaram depois da reforma na casa de Angra, que ele fez questão de fazer”, diz essa pessoa próxima da família, informação que foi confirmada pela Pública com outras fontes. A casa em questão fica à beira-mar na Vila Histórica de Mambucaba e foi construída por Bolsonaro nos anos 1990. Nas eleições de 2024, antes de endossar Araújo na corrida para a prefeitura de Angra, o ex-presidente prometeu apoio ao ex-vice-prefeito da cidade, Christiano Alvernaz (PP), mas algo o fez mudar de posição e ele decidiu lançar Araújo nas urnas pela primeira vez. 

O próprio Renato Araújo admitiu, em entrevista ao Metrópoles, que emprestou funcionários da Bravo para a obra, embora tenha afirmado que apenas supervisionou o trabalho e atuou como amigo.. Não se sabe exatamente quanto a obra custou, mas a PF encontrou na sede do PL um contrato não assinado da reforma, no valor de R$ 900 mil, que mencionava trocas de piso e esquadrias, abertura de paredes, reconstrução de um muro, pintura do imóvel por dentro e por fora e conserto do telhado. Em suas redes, o ex-presidente garantiu ter pago tudo no Pix com seu dinheiro. 

Renato Araújo também é sócio-administrador da Bellavista Portogalo Empreendimentos, projeto de condomínio de luxo com 31 mansões planejado para Angra dos Reis em um terreno de 320 mil metros quadrados, o equivalente a 20% do tamanho do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Dessa área total, 8 mil metros quadrados ficam em terreno de marinha, a menos de 33 metros do mar medidos em linha horizontal — exatamente a categoria de imóvel que a PEC das Praias, sob relatoria de Flávio Bolsonaro no Senado Federal, propõe transferir a estados, municípios e particulares, eliminando cobrança de foro, taxa de ocupação e laudêmio (tributo pago à União quando o imóvel é vendido). 

Em agosto de 2024, a revista piauí revelou que o empreendimento acumula problemas como denúncias de degradação ambiental, embargo da prefeitura, laudo da Defesa Civil que aponta risco de deslizamento e uma mudança não autorizada no regime de ocupação de parte do terreno, sem comunicação à Secretaria de Patrimônio da União. Um inquérito criminal sobre o caso foi arquivado em 2023 sem indício de crime; outro, cível e ambiental, seguia em aberto no Ministério Público. Questionado pela revista, Araújo negou qualquer ligação de Flávio – um dos principais defensores da Proposta de Emenda à Constituição em questão – com o empreendimento. Aprovada na Câmara em 2022, a PEC das Praias segue parada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado desde dezembro de 2024, quando um pedido de vista suspendeu a votação.

Renato Araújo: da infância pobre aos jet-skis em Angra

Mergulhador experiente, Araújo costuma dizer que teve uma infância pobre e que sua família passava necessidade. Hoje o cenário é bem diferente. Ele declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) possuir R$ 3,5 milhões em bens, entre eles dois apartamentos de R$ 400 mil cada, dois automóveis no valor de R$ 250 mil e R$ 330 mil, e dois jet-skis de R$ 40 mil e R$ 100 mil – um deles ele costumava emprestar para Bolsonaro, que lhe deu uma medalha em janeiro de 2024 com os dizeres “imorrível, imbrochável e incomível”. Araújo costuma se locomover de helicóptero em pequenas viagens, como quando participou de um pequeno trecho da “Caminhada pela Liberdade”, em janeiro deste ano, liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira. No seu instagram, há inúmeras fotos com a família Bolsonaro. No último aniversário de Flávio, no dia 30 de abril, ele postou um vídeo em seu Instagram com inúmeras imagens dos dois juntos e um agradecimento: “Aqui você tem um amigo querido, um irmão. Obrigado pela oportunidade que você me deu de entrar na sua vida”. É uma relação tão próxima que, em uma de suas lives, Jair Bolsonaro chegou a dizer que adotaria Araújo.

Na véspera das carreatas de moto e de barco em Angra dos Reis, que se tornaram um grande evento do PL na cidade, Renato Araújo divulgou uma mensagem na qual disse aos seus seguidores: “Não se surpreendam se, na véspera de recebermos nosso próximo presidente, apareça (sic) novamente a covardia dessa política que acha que vai calar aqueles que escolheram o lado do bem”. Ele temia uma nova operação da Polícia Civil, que acabou não acontecendo. Procurado pela Pública, Araújo não respondeu ao pedido de entrevista, assim como Flávio Bolsonaro – o espaço segue aberto para manifestações. Embora não tenha discursado no Dia da Independência para os presentes na Avenida Paulista, Araújo gravou um vídeo em cima do palco para suas redes. Disse que “vivemos um momento de guerra” no país, que “está muito fácil escolher um lado” e que seu lado é “o lado do bem, que defende a família, a liberdade e quem é a favor do crescimento do Brasil”.

Inflation in Greece rises to 3.8% in August from 3.4% in July

9 September 2026 at 14:12

Inflation in Greece rose to 3.8% in August from 3.4% in the previous month, compared with an increase of 2.9% in August 2025, Greek Statistics Authority ELSTAT announced on Wednesday, September 9, 2026. According to ELSTAT, the development was largely driven by energy prices, as well as increases across a range of services. Price increases […]

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Prevenção a violências contra crianças passa batida em propostas de presidenciáveis

8 September 2026 at 20:51

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Pouco antes da oficialização da corrida eleitoral, uma série de indignações coletivas tomou conta da imprensa e das redes sociais. Em São Paulo, um ator da Rede Globo foi preso por estupro de um menino de 5 anos durante uma festa de aniversário em Pindamonhangaba. Em Franca, uma influenciadora esfaqueou o padrinho de sua filha, também de 5 anos, por suspeita de abusos. Já em Pernambuco, cinco adolescentes foram apreendidos pelo estupro coletivo de uma colega dentro de um escola no Cabo de Santo Agostinho. No Rio de Janeiro, um alerta da polícia nos Estados Unidos levou à prisão de um homem que mantinha materiais de exploração sexual infantil, incluindo três cenas de estupros.

As notícias, todas de agosto de 2026, atormentaram pais em todas as regiões, ganharam projeção nacional e, de quebra, inflamaram discursos políticos extremados e eleitoreiros quase de imediato, às vésperas do início da campanha eleitoral. A indignação, no entanto, pouco se traduz em compromissos de um potencial governo.

Violência pública é o assunto mais recorrente nas propostas dos 13 candidatos à presidência em 2026. Mas quando o assunto é a vitimização de crianças e adolescentes ou, ainda mais urgente, a prevenção para que esses crimes não venham a ocorrer, os programas dos presidenciáveis passam longe de contemplar esses cidadãos, que, vale lembrar, não representam “votos” até ao menos os 16 anos.

Nas duas pontas da questão, há um vácuo de propostas, seja no combate ou na construção de um ambiente mais seguro e favorável ao crescimento. Tanto o enfrentamento à exploração sexual quanto o termo “primeira infância” são invisibilizados nos compromissos de campanha de mais da metade dos candidatos, incluindo os mais progressistas.

O levantamento feito pela Agência Pública identificou que, com exceção do candidato Rui Costa Pimentel (PCO), todos os programas de presidenciáveis fizeram menções a crianças e/ou adolescentes em seu corpo de propostas, o que não encontra necessariamente correspondência a propostas efetivas para essa parcela da população.

O foco coletivo dos presidenciáveis se deu até três vezes mais na discussão sobre a questão da redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, do que na prevenção à morte infantil por crimes violentos ou durante intervenções policiais. Esse foi, aliás, o único compromisso de governo assumido pelos candidatos que contempla, exclusivamente, adolescentes na área de segurança pública. Caiado, Zema e Bolsonaro defendem a proposta, enquanto Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU) e Samara Martins (UP) fazem oposição. O tópico não foi contemplado no programa do atual presidente Lula.

No caso das mortes de crianças indígenas, apenas Martins faz uma menção à questão, ignorada pelos candidatos posicionados mais à frente nas pesquisas de intenção de votos. Ou seja, há uma preocupação mais evidente com a punição de crianças e adolescentes enquanto indutores de violações penais do que propriamente na proteção desse mesmo público enquanto vítimas de crimes de qualquer natureza.

Por que isso importa?

  • Registros de maus tratos contra crianças e adolescentes cresceram 14,6% em 2025 na comparação com o ano anterior segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
  • Entre as vítimas de estupro de vulnerável, 60,3% têm até 13 anos e 27,1% entre 0 e 9 anos. Os dados são de 2025 divulgados pelo FBSP.

Uma análise realizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) nas propostas de cinco candidatos, que a 45 dias das eleições apresentavam maior intenção de votos nas pesquisas eleitorais, evidencia a busca clara por respostas quanto à segurança de crianças e adolescentes ao mesmo tempo em que há negligência quanto à prevenção do problema.

Os programas de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) mencionam crianças e adolescentes 178 vezes. No entanto, Zema, Bolsonaro e Santos se concentraram em tratar desse público mais pela ótica da educação. A maior parte das menções feitas por Lula e Caiado tratam do enfrentamento da violência que afeta a infância, tema que sequer foi citado explicitamente por Santos.

Infográfico mostra as preocupações dos candidatos à presidência quanto às infâncias

“Não se trata de escolher entre prevenção ou repressão. É preciso, sim, investigar e responsabilizar os autores da violência. Mas, para proteger crianças e adolescentes, é fundamental também agir antes que a violência aconteça, por meio de políticas de Educação e oportunidades para jovens, da Assistência Social, da Saúde, do fortalecimento das famílias e de sistemas que identifiquem e referenciem situações de violência”, avalia o representante da Unicef no Brasil, Joaquin Gonzalez-Aleman.

Além das propostas, um segundo levantamento da Unicef e da Autoridades Brasil, identificou que nas duas primeiras semanas de campanha, entre 16 e 30 de agosto, 1.652 conteúdos foram publicados por Bolsonaro, Caiado, Cury, Lula, Santos e Zema, mas apenas 26 (2%) abordavam crianças e adolescentes. Sendo a maior parte (8 postagens) sobre violência ou segurança pública. Nesse cenário, Cury foi o candidato que teve maior proporção de publicações sobre a infância (4%) e Santos a menor (0,5%).

Crianças e adolescentes representam quase um quarto da população brasileira, mas continuam ocupando um espaço muito pequeno no debate eleitoral. A eleição presidencial é uma oportunidade única para discutir soluções para os desafios que afetam milhões de meninas e meninos, em especial a proteção contra as violências”
Joaquin Gonzalez-Aleman
Representante da Unicef no Brasil

Uma carta do órgão endereçada aos presidenciáveis foi publicada em junho deste ano, dois meses antes da publicação dos planos de governo, tentando sensibilizá-los por meio de um manifesto quanto à necessidade de um compromisso público para combater as violências que ocorrem dentro e fora de casa, incluindo tanto a formação de agentes públicos quanto a orientação de pais e educadores, bem como o combate aos fatores de risco associados à violência, a exemplo do abandono escolar, a pobreza, o racismo e da falta de oportunidades.

A recorrente saída pela punição

O punitivismo é o recurso mais explorado nas propostas de governo dos presidenciáveis, mas vão além da redução da maioridade penal em três dos cinco programas de candidatos melhor posicionados nas pesquisas de intenção de voto. Há, normalmente atrelada à essa ideia, o reforço de uma suposta necessidade de intensificação das medidas socioeducativas, bem como a elevação de penas – nesse ponto, não restrito apenas a adolescentes, mas a transgressões em gerais.

O que não é mencionado, muito menos refletido, nas propostas dos presidenciáveis quanto à questão é a queda significativa registrada justamente quando o assunto são adolescentes em conflito com a lei. Numa análise de uma década, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que o número de adolescentes em medidas de internação, a exemplo das Fundações Casa, caiu em quase 54% em 2025, quando compara-se à realidade de 2016.

Infográfico mostra o número de internações de adolescentes em conflitos com a lei e 20 anos

Além disso, a taxa de reincidência dos egressos de medidas socioeducativas chega a 20% frente aos 40% registrados no sistema carcerário tradicional para adultos no país. Vale a pena destacar ainda que, segundo o Unicef, o Brasil é o país sulamericano com a menor idade de responsabilização penal (12 anos) entre os vizinhos mais desenvolvidos do continente Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai, ou seja, a idade em que adolescentes já respondem por seus atos na Justiça, mas em um sistema separado.

Para a coordenadora de projetos do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), Sofia Rebehy, a questão da maioridade penal acaba sendo recorrente num embalo de discurso punitivista que encontra eco em parte das famílias. “São pautas eleitoreiras, de uma parcela importante da sociedade, que é bastante conservadora. Mas a redução não é uma estratégia que traz bons resultados no futuro, como as evidências de outros países vêm mostrando”, opina.

Infográfico mostra a diferença entre as idades para responsabilidade penal e maioridade penal entre o Brasil e países da América do Sul

Rebehy explica que a proteção contra violências deve se dar numa perspectiva de saúde quando o assunto são crianças e adolescentes, com foco em prevenção: “O Brasil já tem uma enorme capilaridade com o Sistema Único de Saúde (SUS), os esforços de atenção primária à saúde e vacinação, há todo um acompanhamento que faz desse tipo de equipamento nos territórios um espaço privilegiado para a prevenção e identificação precoce de casos. Todo governo deveria considerar esse trabalho intersetorial, que não dá para dividir entre pastas, mas que, no caso da infância, normalmente não é sublinhado nos planos.”

Primeira Infância apagada das prioridades

Evidências da neurociência já são mais do que aceitas ao identificar que a maior parte da base do desenvolvimento dos seres humanos se dá nos seis primeiros anos de vida, a chamada primeira infância. Nessa fase, os estímulos, as vivências e até o desenvolvimento cerebral providenciam um alicerce para nossa trajetória na vida adulta. A lógica encontra respaldo na economia, em que a relação entre acesso a um complexo de direitos básicos – que vão além de segurança, educação e saúde e passam até mesmo pelo direito de brincar e ser acolhido – significam menos gastos para o Estado em aprendizagem, tratamento de doenças evitáveis ou ressocialização, para citar alguns.

Pareceria evidente, portanto, que políticas visando o estímulo e a proteção das violências que atingem essa faixa etária pudessem ser prioridade daqueles que buscam ocupar o mais alto posto executivo do país – o que não poderia estar mais distante da realidade. Apenas os candidatos à presidência Clariana Barão (DC), Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Pablo Marçal (PRTB) mencionam, em vários contextos, o termo “Primeira infância” em suas propostas de governo. Ainda assim, os programas não aprofundam diretrizes ou colocam a criança no centro da política pública, o que defendem organizações da sociedade civil que trabalham com o tema ouvidas pela Pública.

Talvez haja um motivo claro para isso: além de não representarem seres votantes, muitos pais não têm a dimensão dessa fase da vida de seus filhos. Essa realidade foi mensurada há um ano por uma pesquisa da Datafolha, em agosto de 2025, que revelou que 4 entre cada 5 brasileiros não compreendem que o período até os seis anos concentra o maior desenvolvimento físico, emocional e de aprendizagem humana e 42% sequer sabe o significado de “primeira infância”.

Porto Alegre, RS - 15/08/2018  SMS. Monitores do programa "Pim Piá Prisional" realiza visita domiciliar Local: Lomba do Pinheiro
Foto: Cristine Rochol/PMPA
Segundo Datafolha, maioria dos brasileiros não compreende importância dos primeiros anos de vida para o desenvolvimento infantil

De acordo com a diretora de políticas públicas da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV), que se dedica à promoção de políticas públicas de estímulo à primeira infância, Marina Fragata, os planos de governo carregam uma lógica “adultocêntrica” por considerarem, assim como a visão comum entre as famílias, que as infâncias seriam uma “preparação para ser adulto”, o que dificulta o reconhecimento desse sujeito de direitos a ser protegido.

Fragata critica a abordagem de políticas que “fatiam” a criança entre pastas – saúde, educação, etc – o que representa um desafio maior para protegê-las. “As violências contra as infâncias são complexas, invisibilizadas e silenciadas até pela subnotificação e exigem estratégias específicas. A violência doméstica é diferente da violência de rua, armada. Esse é um problema gigantesco do Estado, que precisa de uma forma realista de enfrentá-lo.”

Especialmente porque as políticas que envolvem infâncias estão todas fragmentadas, incluindo a própria visão quanto à criança. Quando a gente não põe a criança no centro, e no centro está o arranjo da política administrativa setorial, ninguém sai de uma grande zona cinzenta”
Marina Fragata
Diretora de políticas públicas da FMCSV

Com 2,5 milhões de nascidos anualmente no Brasil, Fragata reforça o quanto, para a sociedade civil, é importante deixar de ver a criança como uma esperança de futuro, para preservar seu desenvolvimento no agora:

“Das 18 milhões de crianças brasileiras, 11 milhões, ou seja, 63%, estão inscritas no CADÚnico, vulneráveis a uma pobreza monetária, que está sempre acompanhada de outros tipos de pobreza. Quando colocamos as crianças como prioridade, deixamos de ‘cortá-la’ em vários pedaços, de várias ‘pastas’ – da saúde, da educação, do bolsa [família], etc –. Com ela no centro, é possível reconhecer as primeiras infâncias, e prover uma jornada de direitos, uma atenção integral não só a ela, mas a sua família, seus cuidadores e seus contextos de vida.”

O desafio de uma dura realidade cotidiana

Aproximadamente a cada quatro horas, uma criança ou adolescente morre vítima de crimes violentos no país – são quase seis assassinatos de brasileiros não adultos por dia, 2.029 apenas em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Mais de dois terços deles eram negros e 240 vítimas tinham, no máximo, 11 anos de idade.

A cada 9 minutos, uma criança ou adolescente foi vítima de violência sexual no Brasil em 2025. Foram 61.076 vítimas. No ano anterior, 65.395. Por mais incômodo que essa marca possa soar, a realidade pode ser muito pior. Desde 2023, as autoridades brasileiras trabalham com a estimativa de que apenas 8,5% dos casos cheguem, de fato, aos registros policiais, um cálculo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Os motivos variam e contemplam até mesmo a dificuldade ou vergonha em denunciar. Em outras palavras, a violência pode ter uma incidência quase 12 vezes maior.

Infográfico mostra a violência contra crianças e adolescentes no Brasil fora de casa
Infográfico mostra a violência contra crianças e adolescentes no Brasil dentro de casa
Infográfico mostra o número de casos de estupro de vulnerável no Brasil

Mudar essa realidade exige um compromisso que não é apenas do Estado. É necessário que todos os atores dessa equação estejam em acordo com objetivo de proteção à infância. Mas a nomeação de crianças e adolescentes em planos dos candidatos à presidência faz diferença na medida em que considerá-los incluídos em políticas maiores dificulta a execução e cobrança do representante eleito.

“Crianças e adolescentes não votam, mas deveriam ser sujeitos explícitos desses planos e eles vêm sendo olhados de modo transversal e superficial. Não nomear deixa tudo de uma forma muito fragmentada e impacta o que vai ser executado pelo governo eleito. O trabalho necessário é de quase sensibilização para esse olhar conjunto”, destaca Sofia Rebehy.

O olhar conjunto citado passa por um trabalho que envolve também as famílias e que não se inicia ou encerra no pleito eleitoral. “A violência contra crianças e adolescentes não pode se tornar normal, nem parte da cultura. O ‘eu também apanhei na minha infância’, que relativiza, também precisa mudar, bem como a lógica dos adultos de uma parentalidade punitiva para uma positiva, que apoie o desenvolvimento, o que ainda é um grande gargalo”, resume Rebehy.

É urgente que façamos valer o artigo 227 da Constituição Federal, colocando crianças e adolescentes como prioridade absoluta. E é preciso fazer com que planos de governo façam jus a esse artigo. Se as cidades, a política e os serviços são bons para a criança, eles serão bons para a sociedade como um todo. Colocá-la no centro gera uma sociedade melhor”
Sofia Rebehy
Coordenadora de projetos da Infinis

Quem são os “coaches” de Michelle Bolsonaro

10 September 2026 at 08:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Michelle Bolsonaro não compareceu aos atos de 7 de Setembro com a justificativa de que precisava cuidar do marido, Jair Bolsonaro.  Mas a ex-primeira dama não ficou fora do clima de “guerra santa” que cercou o palanque do enteado Flávio nas manifestações em São Paulo. No  Instagram, prestou uma homenagem ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), o ícone do 7 de setembro na Paulista, a quem chamou de “ungido” e “escolhido por Deus”. Também reproduziu uma mensagem em conjunto com o bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, pedindo oração para que “o Brasil experimente um verdadeiro despertamento espiritual”. 

As mensagens têm um componente simbólico: representam que ela e seus aliados – como o próprio Mendonça, de quem foi fiadora em 2021 – estão no “lado do bem”, o “lado de Deus”, ao contrário de seus adversários. Pastores e especialistas em religião ouvidos pela Agência Pública dizem que a postura pode ter sido influenciada por pessoas de quem ela se cercou: lideranças evangélicas que acreditam que os cristãos devem participar – se não dominar – todas as esferas da sociedade, incluindo o governo, para subordinar o Estado aos valores bíblicos – a chamada teologia do domínio.

A imagem de Michelle migrou de uma primeira-dama tímida e apagada para uma das lideranças políticas mais influentes do país – mesmo disputando seu primeiro cargo eletivo só agora, aos 44 anos, ao Senado. E isso coincide com sua aproximação cada vez maior com esses grupos, que consideram ser dever do cristão ocupar cargos de poder para “libertar” os espaços da influência do diabo. Vale para política, educação, família, religião, mídia, entretenimento e negócios – considerados os “sete montes de influência”. Esse entendimento alcança várias das lideranças evangélicas mais conhecidas do Brasil hoje. Boa parte delas é do círculo pessoal de Michelle, consideradas por ela seus conselheiros espirituais, e que moldaram a sua maneira de ver o mundo.

Ex-primeira dama Michelle Bolsonaro olha para o marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro
De primeira-dama discreta a liderança política: Michelle Bolsonaro se cercou de líderes ligados à teologia do domínio atual

Três episódios ocorridos entre as eleições de 2018 e 2026 ajudam a ilustrar como ela passou a transitar entre esses dois polos – religião e política – e cravar o seu espaço no pólo conservador com apoio dos adeptos mais ferrenhos da teologia do domínio, e que podem ter peso para a candidatura de Flávio Bolsonaro. 

Pouco antes das eleições de 2018, o pastor José Wellington Bezerra, um dos principais líderes da Assembleia de Deus no Brasil, visitou a casa de Bolsonaro, então postulante à Presidência. “De todos os candidatos, o único que fala o idioma do evangélico é Bolsonaro”, ele disse, na época. A frase costuma ser lembrada por incutir uma certa contradição: apesar de receber apoio massivo do público evangélico, Bolsonaro se declara católico. Ainda pouco conhecida do público, Michelle não apareceu nas fotos divulgadas do dia.

Na campanha de 2022, a equipe de Bolsonaro percebeu que ela poderia ser uma peça-chave para acessar mulheres evangélicas, um dos públicos mais reticentes com o bolsonarismo. A partir de agosto daquele ano, ela se tornou quase onipresente nos eventos da campanha. Em longas falas parecidas com sermões de igreja, ela declarava que o marido era um “escolhido de Deus” e que a sua reeleição tinha um “propósito de libertação” da nação. 

Foi o ponto decisivo para a entrada de Michelle na política, galgando espaço para o seu projeto mais ambicioso: o PL Mulher, ala do partido que promove encontros entre mulheres conservadoras – onde se discute política ao mesmo tempo em que se fala de religião, família, cuidado e outros assuntos considerados femininos (não feministas). Sob a batuta de Michelle, o PL Mulher se espalhou por todos os estados como uma versão brasileira dos encontros de mulheres republicanas dos Estados Unidos.

Michelle e Jair Bolsonaro durante evento em Pelotas (RS)
Desde 2022, Michelle Bolsonaro se tornou uma das principais pontes entre o bolsonarismo e o eleitorado evangélico

Dois dias depois do primeiro turno, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já demonstrava vantagem sobre Bolsonaro, o casal Bolsonaro retribuiu a visita de José Wellington na eleição anterior no megatemplo que ele preside, em São Paulo. O pastor pediu abertamente votos para o capitão. Mas, desta vez, Michelle estava no púlpito, e discursou enquanto o marido chorava. A primeira-dama comparou a disputa eleitoral a uma batalha da “luz contra as trevas” e cobrou a igreja a ter uma posição no segundo turno. “A gente precisa se voltar ao Senhor. A igreja precisa se posicionar, a igreja precisa aprender”, disse ela.

Já em 2026, com Bolsonaro em prisão domiciliar, seu filho Flávio foi o escolhido pelo patriarca para disputar a presidência. Com dificuldades para ter o mesmo apoio recebido pelo pai entre os evangélicos, o filho 01 decidiu fazer um tour por várias denominações – e começou justamente pela igreja do pastor José Wellington, que lhe ofereceu a mesma simpatia. “Que o Senhor o leve para ser presidente da nossa nação” disse na ocasião, enquanto ungia o senador. 

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante encontro com lideranças evangélicas na Assembleia de Deus, Ministério de Belém
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante encontro com lideranças evangélicas na Assembleia de Deus, Ministério de Belém

Ele não contava, porém, que o estopim de uma das maiores crises de sua pré-campanha viria do núcleo familiar daquele líder religioso. Priscila Costa – deputada federal, sobrinha neta de José Wellington, vice-presidente do PL Mulher e aliada de primeira hora de Michelle – foi preterida por Flávio nas negociações do PL no Ceará.

O episódio foi a gota d’água para que Michelle gravasse um vídeo com críticas diretas ao enteado, divulgado poucas semanas depois do pedido de dinheiro de Flávio para o banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master ter se tornado público. Tanto o áudio da conversa como o vídeo de Michelle impactaram a imagem do candidato, que caiu 10 pontos percentuais entre o eleitorado feminino e oito pontos entre os que se denominam evangélicos, segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg do final de junho.

Para remediar, Flávio gravou vídeos pedindo desculpas à Michelle e até cogitou indicar Priscila para compor sua vice-presidência – o que não foi concretizado. A ex-primeira-dama respondeu que o perdoava, sem ter abaixado a cabeça. Para muitos, foi uma queda de braço vencida por Michelle, que consolidou sua imagem de influência no campo evangélico, especialmente entre os nomes mais fortes da teologia do domínio.

Uma pesquisa recente do Instituto de Estudos da Religião (Iser) mostra que Michelle é frequentemente associada a valores positivos por mulheres evangélicas – ela é considerada “exemplar”, “cristã virtuosa”, “elegante” e “forte”. “Sua trajetória pessoal, sua forma de se apresentar como mulher, mãe, esposa e cristã e gestos como ajoelhar-se em eventos públicos aproximam sua atuação política de uma linguagem religiosa reconhecível pelas entrevistadas. O testemunho funciona, assim, como uma técnica política: transforma a experiência pessoal em exemplo e torna valores como família e nação legíveis a partir de uma gramática cristã”, diz o relatório.

Teologia do domínio: de Malafaia aos radicais

No Rio de Janeiro, Michelle frequentava a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia – que celebrou o casamento dela com Bolsonaro em 2015. Em 2016, após um dos vários desentendimentos entre o pastor e seu marido, ela migrou para a Igreja Batista Atitude, do pastor Josué Valandro Júnior. Ela era a intérprete de libras dos cultos de domingo e a sua casa chegou a abrigar uma célula para crianças surdas – exceto no período em que Bolsonaro se recuperava da facada. Com a mudança de volta a Brasília por causa da posse presidencial, Michelle chegou a levar o pastor a vários eventos oficiais no Palácio do Planalto.

Mas, com a distância geográfica, a proximidade entre os dois diminuiu, e Michelle passou a frequentar outras congregações, como a Comunidade das Nações, do pastor JB Carvalho, e a Sara Nossa Terra, do bispo Robson Rodovalho, que já foi deputado federal. Entre as melhores amigas de Michelle estão a senadora Damares Alves – as duas se conhecem há mais de uma década, quando ainda eram assessoras parlamentares – e a bispa Dirce Carvalho, esposa de JB. Dirce, inclusive, organiza conferências de liderança para mulheres cristãs, sob o mote de “governar todas as áreas da vida”. Os encontros, que já reuniram mais de 15 mil mulheres, também já tiveram a presença de Michelle.

Michelle Bolsonaro e Damares Alves durante evento
A amizade entre Michelle Bolsonaro e Damares Alves se fortaleceu ainda antes da política e ganhou peso no campo conservador

Michelle e Bolsonaro também são próximos de outros nomes mais radicais do movimento, como os pastores Renê Terra Nova e Valnice Milhomens. Terra Nova, do Ministério Internacional da Restauração, é o líder da filial brasileira da International Coalition of Apostolic Leaders (Ical), fundada em 1999 nos Estados Unidos por John P. Kelly sob a presidência de C. Peter Wagner, os nomes centrais que popularizaram a teologia do domínio entre igrejas neopentecostais no mundo. Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, recentemente gravou um vídeo dizendo que os evangélicos devem “tomar o poder no Brasil”.

São esses os nomes dos principais representantes do dominionismo no Brasil hoje, de acordo com os especialistas ouvidos pela Pública. “A convivência da Michelle, onde ela frequenta, como a Igreja Atitude da Barra da Tijuca, são igrejas que migraram para uma radicalização do discurso que incorpora o desejo de assumir poder político. Não sei se o pastor Valandro leu o material da teologia do domínio, mas é o que ele defende”, diz Sérgio Dusilek, pastor batista e doutor em Ciência da Religião. “Quando uma pessoa frequenta esses espaços, ela acaba fazendo parte e incorporando aquele ideário, o que pra mim foi o caso da Michelle. As pessoas com quem ela anda, como a Damares, são propagadoras da teologia.”

“O principal conselheiro de Michelle costumava ser o Silas Malafaia, agora afastado da família Bolsonaro. O bispo Robson Rodovalho tem assumido esse papel e já chegou a defender Michelle como uma ‘grande líder’. Houve também encontros com a coach Obii Pax-Harry, ligada a uma corrente teológica internacional associada à teologia do domínio e à Brazil Apostolic Conference do apóstolo Renê Terra Nova, que difunde conceitos como guerra espiritual, restauração apostólica e atuação ativa de cristãos na esfera pública”, afirma a pesquisadora Pietra Cretella, mestranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que pesquisa  a interface entre religião e política. 

Nós procuramos todos os citados nesta reportagem, mas, até a sua publicação, apenas Damares Alves e a pastora nigeriana Obii Pax-Harry responderam. A senadora disse que “não defende qualquer forma de domínio religioso sobre o Estado”, mas sim a “participação democrática, proativa e consciente de todos os cidadãos na vida pública, inclusive dos cristãos”. “Sua atuação no Senado parte da defesa da dignidade humana e da construção de leis e políticas públicas que protejam direitos e criem condições para que todas as pessoas possam exercê-los, independentemente de sua religião. A senadora defende o Estado laico, compreendido como garantia da liberdade religiosa e de consciência de todos, e não como exclusão das pessoas de fé da esfera pública”, disse, em nota enviada pela assessoria de imprensa.

Damares também afirmou que Michelle Bolsonaro “conquistou, por sua própria atuação, um espaço relevante no movimento conservador brasileiro, especialmente entre as mulheres” e “vê de forma positiva o surgimento e a consolidação de lideranças femininas que defendam publicamente seus valores e estimulem outras mulheres a participar da vida política.”

A pastora nigeriana Obii Pax-Harry, uma das principais vozes globais da Ical, a organização que reúne denominações dominionistas, também respondeu à Publica. Ela tem vindo ao Brasil com frequência em conferências neopentecostais e passou uma semana ao lado de Michelle, pouco antes da ex-primeira dama publicar o vídeo contra Flávio Bolsonaro. “Eu te amo tanto, minha querida irmã e amiga, melhor primeira-dama do mundo inteiro!”, a pastora postou, em inglês, em uma seleção de fotos abraçadas com Michelle e Dirce Carvalho.

Em entrevista à Pública, Obii afirma que tem contato com o Brasil há 15 anos, quando vendeu os direitos de um livro a uma editora brasileira. Desde então, passou a receber “pedidos de assistência de Escolas de Profetas brasileiras que usavam meu livro para treinar seus alunos.” A pastora fundou uma escola de “Governo e Política” em Abuja, capital da Nigéria, e faz treinamentos de líderes cristãos para atuar em igrejas, negócios e governos. No Brasil, Obii tem um “grupo informal” a quem dá mentoria, junto com a pastora Débora Guillen, líder da Action Church, uma dissidência da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte.

“Conheci Michelle Bolsonaro como uma mulher cristã em uma igreja e fui particularmente atraída pelo coração que ela tem por seus irmãos na fé, independentemente do status social deles — algo que acho raro, vindo do Reino Unido, EUA e Nigéria”, disse. 

Mas ela frisa que Michelle não é uma de suas mentoradas, como se cogitou à época da publicação do vídeo. “Não tenho nenhuma relação de trabalho formal com Michelle ou com qualquer outra pessoa no Brasil como mentora, conselheira ou instrutora. Agradeço seu interesse nisso, mas não é o que acontece. Talvez você possa me recomendar para esse trabalho (risos)”, disse.

Gramática de dominação 

Para Christina Vital, professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia e coordenadora do laboratório de estudos em Política, Arte e Religião da Universidade Federal Fluminense (LePar), a teologia do domínio não é “um conjunto de orientações que os indivíduos seguem de maneira irrefletida e automática”, e nem “a única motivação para a atuação de evangélicos na política”. 

“A teologia do domínio não inaugura a noção de evangelização, mas oferece uma gramática e estratégias de ocupação e dominação de espaços públicos. Ela ocupa um lugar importante entre grupos religiosos e econômicos que mobilizam o repertório para fazer valer interesses institucionais – apresentados como interesses sociais e religiosos – e também interesses de conglomerados econômicos”, afirma a pesquisadora, que estuda a participação de mulheres na extrema direita brasileira.

Vital pondera, porém, que é importante considerar outros aspectos para além da teologia do domínio para analisar Michelle – como os seus interesses pessoais, econômicos, políticos e partidários. “Fazer a leitura exclusivamente pelo viés religioso é, de certa maneira, limpar essas outras dimensões, acentuando o valor espiritual das ações e encobrindo motivações que poderiam ser vistas como mundanas pelos próprios segmentos sociais reunidos em torno da fé”, afirma. 

Ela acredita que Michelle “não é simplesmente uma porta-voz de outras lideranças”, mas tem força política própria. “Ela costuma dizer que Bolsonaro é ‘um leão em público e um gatinho em casa’. Vamos acompanhar os próximos acontecimentos, mas ela vem se mostrando uma espécie de ‘leoa de direita’, tanto em casa quanto na política, para continuar nas metáforas felinas.”

Pesquisadores ouvidos concordam, porém, que o discurso de Michelle, sua arma mais importante como política, ganha densidade ao se articular com a teologia do domínio, como explica Fábio Py, doutor em Teologia que lidera o Grupo de Estudos Religião e Cidades da PUC de São Paulo. Ela articula textos bíblicos com inserção política atual, e faz isso muito bem, com tranquilidade. É natural para ela. Ela tem uma caminhada religiosa, coisa que muitos outros bolsonaristas não têm. Fez formações, estudou, compreende bem os elementos religiosos”, diz.

A pesquisadora Cretella, que estuda os discursos político-religiosos de Michelle, diz que ela costuma repetir elementos ligados à teologia do domínio, como falar em nome de Deus, da divisão entre o bem e o mal, atribuir-se um caráter divino e se vitimizar, o que também pode ser observado no vídeo contra o enteado. “Ela se colocou como vítima, citou Deus e valores cristãos para reforçar sua autoridade moral, enquanto se apresentava como ‘guardiã do bolsonarismo raiz’”, afirma a pesquisadora. 

Os elementos da teologia de domínio, ficam “escondidos” dentro das falas, explica Cretella. A narrativa de Michelle trata em uma primeira camada de lealdade, doação, cuidado, perseguição e retorno do líder. Mas, como mensagem subliminar, haveria um apelo à guerra espiritual, que funciona como um “apito de cachorro” para o núcleo mais fervoroso.

Se antes Jair Bolsonaro era a “voz dos evangélicos”, agora Michelle parece ter se tornado a favorita na política, usando a força do marido a seu favor. “Eu não diria que ela herdou o papel unificador de Bolsonaro, mas ela tem a pretensão de continuar a narrativa de que ele é o salvador, acenando ao público evangélico como um todo”, diz Cretella.

Semana tem presidenciáveis no 7 de setembro e STF na apuração sobre denúncias de ministros

7 September 2026 at 08:00

Nesta segunda-feira, 7 de setembro, candidatos à Presidência da República cumprem agendas voltadas para as comemorações pelo Dia da Independência do Brasil. Na avenida Paulista, em São Paulo, um ato foi convocado pelo candidato e senador, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O presidente Lula, candidato à reeleição, estará presente ao tradicional Desfile Cívico-militar na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Os temas deste ano abrangem a luta contra a violência à mulher, a soberania nacional e a Copa do Mundo Feminina, que o Brasil sediará entre os dias 24 de junho e 27 de julho de 2027.

No Rio de Janeiro, o candidato do partido Avante, Augusto Cury, participa da “Caminhada da Independência Cury Brasil”. Com o trajeto entre o Posto 6 em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, até o Posto 5, a concentração irá começar às 9 horas.

Em Brasília, o Partido Novo convoca seus aliados para participar de uma manifestação no feriado contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O ato está marcado para às 9h, em frente ao Banco Central, local próximo de onde estará ocorrendo o desfile oficial. O candidato do Novo à presidência, Romeu Zema, não confirmou presença e é esperado no mesmo evento de Flávio Bolsonaro em São Paulo.

Atenção segue voltada para o Supremo

As denúncias trocadas entre os ministros do STF André Mendonça e Alexandre de Moraes, que devem ser tema nos eventos eleitorais desta segunda-feira, também mobilizam a Corte nesta semana. O presidente Edson Fachin deve ouvir manifestações do ministro André Mendonça e da Procuradoria-Geral da República (PGR) a respeito do pedido de investigação sobre abuso de poder e improbidade administrativa supostamente praticados por Mendonça feito pelo ministro Alexandre de Moraes na última quinta-feira, 3 de setembro.

Por sua vez, Mendonça tirou o sigilo do relatório da Polícia Federal (PF) das conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. Ele solicitou que o plenário do STF avaliasse o material para decidir se Moraes deveria ser investigado.

TSE julga pedidos de intervenção federal no Piauí e no Maranhão

Com menos de um mês para o primeiro turno das eleições, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julga nesta semana as requisições dos Tribunais Regionais Eleitorais do Piauí e do Maranhão, de uso da Força Federal, composta por militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. O objetivo é assegurar o livre exercício do voto nas eleições de 2026. As capitais, Rio de Janeiro (RJ), Fortaleza (CE), municípios distantes e aldeias indígenas de Rio Branco, capital do Acre, fizeram a mesma solicitação e já tiveram os pedidos aceitos pelo TSE.

Estão na agenda da semana de 7 a 11 de setembro:

  • TSE
    • Prestações de Contas (09/9): Partidos e candidatos devem enviar à Justiça Eleitoral a prestação parcial das contas das movimentações financeiras e estimativa para campanha desde o início da campanha até 8 de setembro.
  • STF
    • Marco Civil da Internet (ADC 91, 09/9, 14h): Ministros voltam a debater sobre o parágrafo 1° do artigo 10 do Marco Civil da Internet, que permite o compartilhamento de registros de conexão e de acessos na internet apenas com autorização judicial prévia.
    • Investigações feitas por delegados (ADI 5073, 09/9, 14h): Ministros discutem sobre a Lei 12.830/2013, que aborda investigações criminais conduzidas por delegados policiais. A Confederação Brasileira de Trabalhadores Policiais Civis (Cobrapol), que ajuizou o caso, argumenta que a lei retoma privilégios já extintos na Constituição Federal de 1998.
    • Dados pelos delegados da polícia (ADI 5059, 09/9, 14h): Julgamento em conjunto com as ADI 5073 e a ADC 91, ministros julgam a constitucionalidade do parágrafo 2° do artigo 2 da Lei 12.830/2013, que possibilita aos delegados requisitarem dados, informações, documentos e perícia sem autorização judicial.
    • Ministério Público do Amazonas (ADI 7512, 09/9, 14h): Ministros vão julgar se a lei do Amazonas nº 3.147/2007, que estabelece que 10% dos cargos comissionados devem ser reservados para efetivos do MPAM, viola regra do concurso público, os princípios da moralidade, da impessoalidade e da eficiência.
    • Créditos do ICMS (RE 835818, 09/9, 14h): Recurso Extraordinário avalia se os créditos presumidos de Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) podem ou não compor cálculo do PIS e da Cofins.
    • Proibição de divisão de lucros (ADI 5161, 09/9, 14h): Ação, ajuizada pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (CFOAB), questiona se o artigo 32 da Lei nº 4.357/1964, que proíbe empresas com dívidas ativas na União a distribuir lucro, com multa de 50% dos lucros distribuídos.

Como uso da violência para responder problemas de segurança virou aposta para ganhar votos

6 September 2026 at 08:00

No dia 11 de agosto, Cláudio Rafael Landeiro, 37, foi linchado nas ruas de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ele parou em um estabelecimento comercial com a bicicleta da irmã, quando seguranças particulares e alguns entregadores, que estavam por perto, o acusaram de ter roubado a bicicleta que conduzia. Cláudio foi atacado com socos, chutes e pauladas, não resistiu aos ferimentos e morreu.

O caso expõe uma prática que não é nova no Brasil, mas tem ganhado força nos discursos políticos às vésperas das eleições: o uso da violência como resposta aos problemas de segurança pública. Para discutir o tema, o Pauta Pública recebe o jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso, autor de A República das Milícias e A Fé e o Fuzil. Na entrevista a Andrea Dip, ele comenta o caso do ciclista e reflete sobre os discursos que associam violência à produção de ordem.

“Essa ideia de que a violência tem um aspecto pedagógico, que a violência produz ordem, está muito arraigada na crença e no cotidiano do brasileiro, e gera tragédias. A violência, em vez de produzir ordem, produz covardia e desordem.”

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 232 A violência como promessa em ano eleitoral – com Bruno Paes Manso

4 de setembro de 2026 · Jornalista e pesquisador fala sobre o avanço do discurso de violência e seus efeitos no Brasil

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O Brasil registrou 227 casos de linchamento em 2025 e nesse ano, até maio, já eram 88 casos. Como você vê o episódio com esse ciclista e como ele se conecta com o que parece ser um crescimento desse “justiçamento”? 

Eu acho que faz parte da linguagem das redes sociais hoje, o linchamento. Faz parte desse universo em que você, de repente, identifica um bode expiatório e vai todo mundo contra ele com força e junto, porque é muito covarde. Normalmente o linchamento tem esse componente de covardia. 

E, nesse caso, acaba, de alguma maneira, indo para as ruas porque, principalmente no cotidiano das cidades, essa criminalidade ligada ao roubo e furto de celulares é muito presente. Isso acumulando um ranço, um ódio e uma tentativa de controlar o problema. E você começa a ter uma articulação entre pessoas que se oferecem como dispostas a solucionar esse problema. 

Parece que foi justamente o que aconteceu neste grupo. Rapidamente eles se articularam e, de alguma maneira, tentaram usar a violência como forma de dar uma lição e a gente vê isso fazer parte da história do Brasil, de uma forma geral. 

Essa ideia de que a violência tem um aspecto pedagógico, que a violência produz ordem, está muito arraigada na crença e no cotidiano do brasileiro e gera tragédias. A violência, em vez de produzir ordem, produz covardia e desordem.

Em 2025 aconteceu o massacre da Penha-Alemão, a Operação Contenção, com imagens terríveis de corpos enfileirados nas ruas, mais de 120 mortos. Depois, uma pesquisa da Genial/Quaest saiu dizendo que mais de 67% dos brasileiros aprovavam a operação. Você acha que o Rio tem um componente especial nessa violência? E o que essa aprovação representa? 

O Rio tem um aspecto bem próprio da história do crime na cidade e do que isso acabou gerando, porque, em primeiro lugar, você tem o aspecto que a governança criminal está muito ligada ao controle territorial armado dos territórios. Desde a época do jogo do bicho. Mas quando chegou o tráfico de drogas, esse controle territorial armado significava que o mercado da droga era conquistado a partir do controle do bairro vizinho, o que acabava gerando muitos conflitos.

Então, você tem um caldeirão de medo, ressentimento e ódio muito grande. Ao mesmo tempo, nos morros, onde esses grupos controlam e tiranizam os territórios, dependendo do grupo, você tem as incursões da polícia cotidiana. Então, sete da manhã as mães estão indo trabalhar, os filhos estão indo para a escola e começam aqueles tiroteios por causa das operações policiais.

Ao mesmo tempo tem os proibidões, os bailes funk e toda essa cena de droga que de alguma maneira acaba sendo associada ao descontrole, à irracionalidade, ao prazer em excesso e as mães morrem de medo que seus filhos sejam seduzidos por isso e se tornem viciados ou trabalhando para o crime, a tensão é muito grande nesses lugares. 

E, por causa disso, uma operação como aquela, que causou 122 mortes, muitas vezes é usada como uma forma de manipular esse medo pelos governantes. Era uma coisa que o Cláudio Castro vinha fazendo quando a candidatura dele estava fragilizada, para atiçar e manipular esses medos, para continuar no poder com suas conexões com o crime e com as facções, enganando a população, porque, mais uma vez, as pessoas acreditam que violência produz ordem e produz efeitos pedagógicos. Então, ele continua apostando na desordem para que as pessoas tenham medo e ele possa manipular esse medo, ganhar dinheiro e poder com a guerra.

Agora, Bruno, existe também um componente racial nessa ideia de quem é o bandido que precisa morrer…

Com certeza. Isso faz parte da nossa história. A gente não consegue entender o que está acontecendo hoje, no fundo, sem pensar nos nossos mais de 500 anos de história. Então, você tem 450 anos de um Brasil rural, 350 anos de escravidão. As pessoas vivem nas cidades de 50 em diante. Até então, viviam num ambiente rural e nos latifúndios com coronelismo muito presente. 

Laços de vizinhança e religiosos, muito próprios do ambiente rural, migram para as cidades, começam a despertar o medo das pessoas que vivem nas cidades, que começam a usar a violência policial como forma de tentar produzir algum tipo de ordem. Isso começa a gerar ciclos viciosos, mas sempre com o negro, com o preto e com o pardo, visto como aquele que ameaça, visto como cidadão perigoso, que mora num lugar que tem uma idade específica, que tem um gênero específico.

Então, o homem jovem, morador de periferia, negro, é visto como essa ameaça e a guerra se volta contra eles. Ao mesmo tempo, o aprisionamento passa de 90 mil para 900 mil. Quem vai para as prisões são essas pessoas que vivem nesses bairros considerados perigosos, que são presos em flagrante. E aí, começa uma articulação dentro das prisões voltada para gerir o crime. Mas é uma questão muito focada na raça e focada na nossa história de injustiças, colonização e industrialização – e como é que isso é reinventado nas cidades, como as polícias passam a lidar com isso, como a justiça passa a lidar com isso? E os efeitos colaterais que isso provoca, os ressentimentos, os ódios.

Entregadores de iFood estavam falando que era bom, por exemplo, se pôr em risco ou fazer sacrifícios no seu trabalho, porque isso era ‘ser homem’, era ser ‘macho’. O transbordamento da violência, do punitivismo, do “justiçamento” se relacionam com essa exacerbação de um masculinismo?

Sem dúvida. Como escrevo sobre homicídios, eu acabo sendo um pesquisador de comportamentos relacionados ao gênero masculino, porque 95% dos homicídios são feitos por homens, isso independente da idade, independente da classe, independente do país, independente do tempo na história. Poucos comportamentos são tão vinculados a gênero como a violência. Então, é algo que se faz pensar a respeito das masculinidades. 

Eu acho que a gente vive justamente esse momento de crise, de transformações históricas muito profundas, e uma das mudanças mais importantes e mais fundamentais e estruturais tem a ver com o gênero, com o feminismo e com o papel que as mulheres passam a ter na sociedade na cidade. 

Depois de mais de 5 mil anos com o homem mandando e controlando e estabelecendo o cotidiano e a estrutura da rua e da casa, de alguma maneira essa mudança da presença das mulheres no dia a dia, no trabalho, na política e tudo mais, causa uma insegurança muito grande, e aí a violência e guerra surgem como o último artifício da masculinidade em crise.

O uso da força é a única forma de você restituir uma autoridade perdida. É uma maneira de você tentar voltar para o passado, ao que era antigamente, você impor sua autoridade e ser obedecido porque você é violento, porque você é mais forte fisicamente. É um ato meio desesperado de uma masculinidade em crise com essa transformação dos tempos.

Hoje em dia, a sensação é que os gêneros nunca estiveram tão descolados, tem uma dificuldade de diálogo e a sensação é, um pouco, que os homens estão indo para um caminho e as mulheres estão indo para outro. Então, esses interregnos são sempre muito complicados. A gente não sabe para onde vai com uma disputa permanente acontecendo.

Art lovers’ event gives public a chance to see some of UK’s best artists

4 September 2026 at 09:00

It’s one of the most anticipated arts events in the UK and the starting pistol is set to sound on Herefordshire Art Week.

h.Art 2026, as it is affectionately called, runs from 5 to 13 September and is hailed as a “celebration of local creativity”.

The event takes place right across Herefordshire and its neighbouring borders where hundreds of artists will open their doors to share their work. 

h.Art is widely seen as being special for art lovers,offering personal encounters with some of the UK’s finest artists and makers in the intimacy of their own homes and studios. 

It is a chance to discover new work and buy or commission artwork, all direct with the artists.

h.Art was founded in 2002 as part of Herefordshire Council’s ‘Creative Industry’ programme, with the vision to offer “personal life enhancing experiences through art, whilst stimulating a vibrant local economy.”

It celebrates its 25th anniversary next year and has recently been taken over by a new organiser.

A spokesman said, “It’s a chance to gain a rare insight into the creative lives of our artists and craft-makers. You’ll uncover amazing art in atmospheric and unexpected locations as well as learn new skills through hands-on workshops and demos.”

Among those taking part for this year’s edition are Canwood Gallery and Eastnor Pottery.

Eastnor Pottery and “the Flying Potter”, located near Ledbury, is recognised as one of the country’s leading studios for potter’s wheel courses, classes and educational experiences.

Jon Williams shares Eastnor Pottery with his wife and fellow potter, Sarah Monk.

In an interview with the event organisers, Jon, who makes ceramic sculpture and decorative items, explained, “Although our ceramic work is very different to each other (chalk and cheese!) we collaborate on our courses, classes and experiences, taking it in turns to lead and support the sessions.”

Asked to describe his work, he added, “Through skilful facilitation and a love of clay and people in equal measure, I travel all over the West Midlands and beyond exploring and developing creativity in others.

“I regularly work in early year’s settings, schools, libraries, art galleries and museums, encouraging people to play and express themselves in clay.

“My approach has its roots in Reggio Emilia philosophy. Reggio is a pedagogy based upon self-directed, experiential learning.

“Children, young people and adults are offered a range of tools, materials and environments and encouraged to develop their own, totally unique way of working. When I get opportunity to produce my own ceramics, I approach my making in a similar fashion to my social engagement work. The concept of play is at the centre of everything. Nearly all my work starts its life on the potter’s wheel.”

He says it means “everything” to be an artist, adding, “It is being independent, resourceful, resilient and creative whilst having a shed load of fun. I enjoy partnership working with individuals and organisations and am always up for a collaboration.”

Eastnor also gives the public a chance to take part in various pottery workshops and experiences, including beginner’s classes, day courses, and weekend courses. It is a chance to learn to use a potter’s wheel under expert guidance, with all materials included. They also offer clay modelling sessions and a ‘Flying Potter’ service that can take the workshop to an individual’s own location.

Jon adds, “It’s always really hard to describe what I do, as my creative practice is so varied and wide-ranging. I am The Flying Potter, I am a maker, a studio potter, a ceramic artist, educationalist and facilitator.”

Artist Andrew Findlay, also taking part in the week-long event, is based at The Forge Eastnor, just 100m from the pottery.

Another participating in Art Week is Canwood Gallery which is nestled in the serene Herefordshire countryside.

It is a contemporary art gallery and sculpture park dedicated to providing an “art oasis.”

Set across ten acres of landscape, the site includes two indoor gallery spaces and an expansive sculpture park, alongside an on site café.

It showcases a diverse range of work by internationally recognised alongside emerging and local artists, offering a great opportunity to experience and purchase art in a tranquil rural setting.  The gallery is free to enter, with free on site parking.

Also participating are Old Chapel Gallery, Wobage and Sorrel & Sage (full details available via the  links below).

The Art Week is expected to attract people from both the UK and abroad and one excellent way of finding out more about the event and much else in the county is via the Eat Sleep Live Herefordshire, the leading independent destination marketing company for the county.

Its supports not only Herefordshire’s food and drink businesses, accommodation providers, activities, leisure venues and pursuits and events but promotes the county’s crafts, creatives and artisans.

You can discover more about Herefordshire via www.eatsleepliveherefordshire.co.uk

Further info:

Old Chapel Gallery – Home
https://eastnorpottery.co.uk
https://www.wobage.co.uk
https://sorrelandsage.square.site
https://www.h-art.org.uk
www.eatsleepliveherefordshire.co.uk

Photo credit: Herefordshire Art Week

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