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Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

18 October 2026 at 13:03

Há um mês, uma pesquisa do instituto Datafolha mostrou que mais entrevistados acreditavam que o escândalo do Banco Master envolvia mais políticos de esquerda (34%) do que de direita (27%). Naquele retrato da opinião nacional, divulgado em 18 de setembro, havia ainda 13% do velho “tá todo mundo envolvido”. A dúvida não parece ser a mesma quando quem fala é o próprio dono do Master, Daniel Vorcaro, ao trocar mensagens com um amigo pessoal: “apoiamos a direita”, escreveu o banqueiro em conversas de WhatsApp interceptadas pela Polícia Federal (PF) às quais a Agência Pública teve acesso.

Em uma conversa com o pastor e líder da Igreja Batista da Lagoinha, André Valadão, Vorcaro afirmou apoiar a direita brasileira. A declaração foi feita após o empresário demonstrar irritação com uma publicação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL), em 27 de abril de 2024.

Daniel Vorcaro, que mantém uma relação próxima com André Valadão, encaminhou um link ao pastor e demonstrou insatisfação com uma publicação do deputado. A postagem compartilhada pelo parlamentar trazia a seguinte mensagem: “Ministro do STF, STJ e TSE silenciam sobre quem pagou suas despesas em Londres”. Na legenda, Nikolas classificou a reportagem como “interessante”.

“Nikolas repostou a Malu [Gaspar]. Loucura isso. Aliás, narrativa ruim pra ele mesmo”, escreveu o empresário. “Quem me mandou foi um blog de esquerda, que sabe que apoiamos a direita. Olha a bola de neve que pode virar”, disse.

“Eu apoio diversos eventos e debates, e nesse caso o apoio foi com a palestra do Tony Blair com quem tive um debate de altíssimo nível. No evento, várias pessoas de direita, apoiadores do evento inclusive vários que apoiaram ele [Nikolas], como nós. Acaba ficando ruim ele incentivar e propagar um ataque a mim, como fez agora. Só preciso saber se estamos do mesmo lado ou agora estamos um contra o outro”, finalizou o banqueiro.

Horas depois de afirmar ao amigo que conversaria com Nikolas Ferreira, André Valadão retomou o diálogo e informou que o deputado desconhecia que o evento mencionado na reportagem da jornalista Malu Gaspar havia sido organizado pelo Banco Master.

“Resumindo, ele [Nikolas] nem sabia sobre o banco e você, “palavras dele né“, e daí pediu perdão demais e vai contornar tudo. Deve te chamar também, ele me disse. Disse da gratidão com você e por aí vai.”

Mensagens no Whatsapp de André Valadão com Nikolas Ferreira sobre 'Dani', Daniel Vorcardo do Banco Master
publicação de Nikolas Ferreira no X com o comentário “Interessante.”, ao compartilhar uma publicação da jornalista Malu Gaspar sobre o silêncio de ministros do STF, STJ e TSE a respeito de quem pagou suas despesas em um evento em Londres, relacionado ao Banco Master.
Publicação de Nikolas Ferreira no X em que afirma que solicitará, via Lei de Acesso à Informação, os gastos de ministros do STF, STJ e TSE e de integrantes do governo Lula em viagem a Londres para um evento jurídico.

Em março de 2025, antes de pedir ajuda de Vorcaro, Nikolas encaminha áudio ao banqueiro, retoma o assunto e pede desculpa pelas publicações com críticas ao evento organizado pelo Master. “Troquei ideia lá com o pastor Valadão naquela época, lá naquela postagem. Eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o banco do Dani etc. e tudo, senão, obviamente, eu não teria postado, já teria conversado anteriormente’, mas, enfim, acabou que a palavra dita não tem como voltar, né? Mas espero que tenha sido esclarecido, enfim, depois vamos marcar de a gente se encontrar também, tá bem?”, disse Nikolas.

Apoio e reciprocidade

A relação do Banco Master vai além de críticas pontuais de um ou outro deputado e passa também por manobras no exercício de seus mandatos. Quando diz que “apoiamos a direita”, Vorcaro entende o ecossistema que se formou em torno de sua empresa (e família) e tem rastro de uso de seus recursos para isso.

Em 2022, por exemplo, Fabiano Campos Zettel, pastor da igreja Lagoinha em Belo Horizonte, casado com a irmã de Vorcaro e que muitas vezes atuava para resolver as missões financeiras do empresário, foi oficialmente o sexto maior doador das Eleições 2022. Em nome dele, como já registrou a Pública, foram destinados R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) ao governo de São Paulo e outros R$ 3 milhões para a campanha à presidência de Jair Bolsonaro, derrotado nas urnas.

Zettel segue preso, na mesma investigação de fraude nas operações do Master que investiga Vorcaro. As 54 empresas do grupo seguem sendo controladas por Natália Vorcaro Zettel, irmã de Daniel e esposa de Fabiano, com quem se uniu em regime de separação de bens, como também apontou a Pública.

Do outro lado do balcão, o apoio se mostra mútuo, especialmente em momentos delicados de crise. No início das suspeitas de fraude de suas operações de crédito, a saída para o Banco Master foi a compra pelo Banco de Brasília (BRB), uma operação que envolveu o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o dirigente partidário Antônio Rueda (União Brasil-RJ) e o então governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB-DF).

Nogueira ainda foi defensor, no Congresso Nacional, da ampliação da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Ao mesmo tempo, ainda foi avaliado por deputados e senadores um projeto de lei, proposto por Cláudio Cajado (PP-BA) para permitir que o Congresso destituísse presidentes e diretores do Banco Central em regime de urgência.

A Pública procurou Daniel Vorcaro para comentar a divulgação das mensagens e a declaração de apoio. A assessoria de imprensa do empresário informou que se manifestaria a partir de segunda-feira (19).

Os Bolsonaros

Entre setembro e novembro de 2025, quem fez contatos recorrentes com Vorcaro foi o candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro. Ele cobrou mais de 60 milhões de dólares prometidos pelo banqueiro, que oficialmente seriam utilizados na produção do filme Dark Horse, ainda sem previsão de estreia e sem prestação pública de contas que comprove o destino dos valores.

Flávio Bolsonaro negou o contato. Classificou a denúncia original, do Intercept Brasil, como uma mentira de militante. Depois voltou atrás. Uma, duas, várias vezes. Meses depois, com as eleições, próximas da conclusão, passou de “nem conhecer a figura” para a pessoa que diz que “quem tem que explicar é o PT”, porque ele, um senador da República, estaria apenas fazendo uma “captação privada para um filme privado”.

Não apenas o presidenciável estava no radar do banqueiro Vorcaro. Quando ainda estava em liberdade, o pai de Flávio, Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de estado e outros quatro crimes, fez uma postagem na rede social X “de negócio que ele sabe nem o que é”, reclamou Vorcaro a André Valadão.

Ao menos 16 deputados federais negros foram eleitos com o apoio de George Soros no Brasil

By: A A
18 October 2026 at 15:00

16 deputados federais negros eleitos com apoio da Coalizão Negra por Direitos, financiada por George Soros via Open Society Foundations.

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A Coalizão Negra por Direitos, organização que reúne centenas de entidades que se reivindicam da causa negra, comemorou a eleição de 42 candidaturas nas eleições legislativas no Brasil. Dessas, 26 são regionais e 16 federais.

Dos 16 deputados federais eleitos com a promoção da Coalizão, oito são do PT (Anielle Franco, Dandara Tontzin, Carol Dartora, Renato Freitas, Jack Rocha, Ana Elisa, Rosa Amorim e Walmir Assunção), cinco são do PSOL (Jones Manoel, Erika Hilton, Fábio Felix, Henrique Vieira e Talíria Petrone) e três são do PCdoB (Daiana Santos, Olivia Santana e Perpétua Almeida).

“Esse é o resultado da mobilização do Quilombo nos Parlamentos nas eleições de 2026”, publicou a Coalizão em suas redes sociais. “Essa conquista é fruto da organização política negra quando decide ocupar os espaços de poder. Cada candidatura eleita leva consigo o compromisso firmado no nosso Manifesto e a responsabilidade de fortalecer, dentro dos Parlamentos, as agendas construídas pelo movimento negro.”

O Quilombo nos Parlamentos é uma iniciativa da Coalizão Negra por Direitos com o objetivo explicitado em sua própria denominação: eleger candidatos negros para o Poder Legislativo. Isso fortaleceria a chamada “representatividade” dos negros brasileiros nas instituições, tornando-as mais favoráveis aos seus direitos.

Assim como todo movimento identitário, é uma iniciativa de caráter reformista rebaixado, que prega a farsa do “empoderamento” coletivo através de conquistas individuais. Um negro eleito deputado é apenas e tão somente um feito pessoal que beneficia o indivíduo em questão, não o conjunto dos negros. Beneficia, como fica claro ao ver quem são os negros eleitos pela Coalizão, uma aristocracia negra de classe média, que alcança um cargo no Estado capitalista para fazer carreira contra o restante da população negra.

Se não fosse isso, esses candidatos não seriam apoiados pelos banqueiros e grandes empresários nacionais e internacionais.

A Coalizão Negra por Direitos foi criada em 2019 e reúne centenas de ONGs, coletivos e entidades. Parte central de sua estratégia é a “incidência política”, ou seja, precisamente o lobby sobre as instituições brasileiras e os órgãos internacionais. Essa é justamente a estratégia delineada pela Open Society Foundations, do especulador multibilionário George Soros, que financia ONGs mundo afora para, como indica o próprio nome da organização, abrir as sociedades à penetração total do capital financeiro com o apoio de seus agentes dentro das instituições. Os deputados são alguns desses agentes.

E a OSF financia a Coalizão Negra por Direitos.

A entidade que recebeu a maior quantidade de fundos da OSF até 2024 havia sido a Conectas Direitos Humanos (R$ 34 milhões). O Instituto Clima e Sociedade (iCS) recebeu R$ 23,8 milhões da Open Society entre 2017 e 2023. Quem cruzar os dados do compilado feito pelo Instituto Monte Castelo sobre as ONGs financiadas pela OSF com a lista de organizações que fazem parte da Coalizão também encontrará, entre outros: o Instituto de Referência Negra Peregum (R$ 6,9 milhões), a Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas (R$ 6,9 mi), o Geledés – Instituto da Mulher Negra (R$ 6,1 mi), a Associação Marielle Franco (R$ 4,8 mi), a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (R$ 4,3 mi), o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (R$ 4,2 mi), a Justiça Global (R$ 3 mi), o Instituto AMMA Psique e Negritude (R$ 2,5 mi), o Instituto de Defesa da População Negra (R$ 2,3 mi), o Instituto Afrolatinas (R$ 2 mi), a Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (R$ 1,8 mi), a Associação Elas Existem (R$ 1 mi), a Casa Sueli Carneiro (R$ 900 mil), o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (R$ 515 mil), o PerifaConnection (R$ 92.700).

Todas essas organizações fazem parte da Coalizão Negra por Direitos e parte delas tem atuação que vai muito além do movimento negro identitário, como a Conectas e a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong).

A Associação Marielle Franco parece ser um erro no levantamento da própria OSF, porque não existe uma entidade com esse nome. Trata-se na verdade do Instituto Marielle Franco, criado formalmente em julho de 2018 para se beneficiar da imagem da vereadora assassinada em março daquele ano, o que gerou forte comoção e ampla divulgação nos noticiários. O instituto só foi se estruturar definitivamente em 2020. Mas no mês seguinte ao assassinato de Marielle Franco, a Open Society anunciou a criação de uma iniciativa “destinada a incentivar o protagonismo político de mulheres negras no Brasil”, inspirada em Marielle Franco.

A iniciativa contou com uma doação inicial de 10 milhões de dólares, dividida com a Fundação Ford e outras organizações.

“Marielle representava a possibilidade de uma mulher negra, da favela, bissexual chegar em espaços de poder. Seu assassinato brutal foi uma tentativa de dizer que essa possibilidade não existe. É fundamental que anunciemos para o mundo que o Brasil produzirá novas Marielles. Que mulheres negras das periferias ocuparão espaços de poder e que esse caminho não tem volta”, anunciou à época Pedro Abramovay, diretor da OSF para a América Latina.

A fundadora do Instituto Marielle Franco é sua irmã, Anielle Franco. Não por coincidência, ela trabalhou como consultora da OSF para a América Latina a partir de 2019. Em 2023, assumiu o cargo de ministra da Igualdade Racial do governo Lula e agora foi eleita deputada federal com o apoio da Coalizão Negra por Direitos.

Estudantes voltam às ruas para evitar retrocesso, diz dirigente da UNE Gutemberg Rodrigues

18 October 2026 at 08:00

Desde o dia 5 de outubro, universitários têm organizado assembleias e manifestações em apoio à reeleição de Lula em diferentes cidades brasileiras. Uma das entidades que organiza e articula esses atos públicos, com a chamada “brigada de vira-voto”, é a União Nacional dos Estudantes (UNE), principal entidade dos estudantes brasileiros que representa cerca de seis milhões de universitários de todos os 26 Estados e do Distrito Federal.

No Pauta Pública desta semana, Andrea Dip recebe Gutemberg Rodrigues, estudante de História da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e vice-presidente da UNE. Ele analisa as manifestações que mobilizam a juventude dentro e fora das universidades e relembra o papel histórico do movimento estudantil na resistência a retrocessos, na defesa da educação pública e na formação de novas lideranças políticas.

“O movimento estudantil provoca e ajuda a formar novas lideranças, mas, acima de tudo, ajuda a mobilizar e organizar a luta no nosso país. […] Por isso, o grande grito de ordem dessas manifestações é: ‘ô trabalhador, olha para cá, estou na rua para o seu filho estudar’, destaca.

Em relação aos protestos de jovens em outras partes do mundo, como na França, que começou em meados de setembro deste ano e continuam ativos, incluindo pais e professores, ele reforça que para discutir o futuro é preciso buscar as raízes dos atuais problemas. “É  importante que [as manifestações] estejam sempre norteadas e muito bem organizadas para apontar, de fato, quem são os verdadeiros culpados por essa crise mundial que vivemos”, avalia Rodrigues.

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 238 Por que os estudantes voltaram às ruas? – com Gutemberg Rodrigues

16 de outubro de 2026 · Vice-presidente da UNE analisa as manifestações que tem mobilizado a juventude e os desafios para além das universidades

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Na semana passada, enquanto os estudantes estavam falando sobre proteger a atual democracia, o Flávio Bolsonaro falou sobre querer mudar a Constituição. O que significa para o movimento estudantil, nos próximos anos, uma possível vitória de Flávio Bolsonaro nessas eleições? Como o movimento estudantil e a UNE pretendem atuar e que desafios vão encontrar pela frente caso esse seja o cenário?

É um total descompromisso do Flávio Bolsonaro com a nossa Constituição, com a nossa democracia, e a resposta para ele já está dada. Primeiro, acreditamos que essas mobilizações são capazes de vencer as eleições, reverter o cenário e reeleger o presidente Lula. Mas o Flávio Bolsonaro que nos escute aqui, não vai ter vida fácil se ele for eleito. No dia seguinte, já vamos organizar manifestações em defesa da nossa Constituição, do nosso Estado Democrático, e das nossas instituições de ensino. E não vai ser fácil, porque ele já está falando em usar, se possível e se necessário, a força para passar por cima, por exemplo, do STF [Supremo Tribunal Federal]. É com esse cenário que a gente está lidando.

Assim como o movimento estudantil resistiu e lutou contra a ditadura militar, seguiremos e a resistência vai ser firme. Os atos já mostram nossa capacidade de mobilização nas ruas e nós vamos lutar para que não tenhamos nenhum retrocesso em tudo aquilo que se conquistou [de] avanços e em tudo aquilo que ainda precisamos conquistar para garantir o direito pleno à educação pública para todos os jovens, o direito de ter acesso à cidade. Para que os jovens de [cidades do] interior também, tenham acesso a uma educação de qualidade, que tenham acesso ao mercado de trabalho.

A gente vai estar na rua para lutar por isso. Não vai ter moleza. Sabemos que é muito mais difícil lutar quando se tem no poder um presidente que não tem apreço pela democracia, mas já tivemos em outros momentos da nossa história, e os estudantes resistiram. Infelizmente, durante a ditadura militar, tivemos a perda de diversas figuras históricas, como, por exemplo, o Honestino, que foi morto pela ditadura militar, e o Edson Luís, aqui no Rio de Janeiro. Mas sabemos que, sem a luta e sem a resistência do movimento estudantil, não será possível, se por um acaso o Flávio Bolsonaro ganhar as eleições, a gente manter o nosso Estado, a nossa democracia e os nossos direitos. Então, ao Flávio Bolsonaro: terá muita luta se você for eleito para que a gente não tenha nenhum retrocesso na nossa educação e, para a juventude no nosso país.

Em São Paulo, as deputadas federais Erika Hilton e Sâmia Bomfim, do PSOL, foram reeleitas com as maiores votações entre as mulheres para o cargo no estado. Assim como outras figuras da nova geração da esquerda, elas começaram e se encontraram na política a partir da participação em movimentos estudantis e universitários. Qual é o papel das organizações estudantis na formação política dos jovens?

São só elas, eu acho que elas são quadros hoje nacionais. A Erika é um fenômeno no país inteiro, tem uma representatividade, é uma figura que tem ajudado, e muito, na disputa das redes sociais a favor da democracia, dos direitos da população, com uma representatividade absurda, em especial entre os jovens, que vieram do movimento estudantil. Hoje são diversos parlamentares oriundos, assim como os que já foram eleitos há muitos anos, que foram de outra quadra histórica do movimento estudantil, como, por exemplo, o [deputado federal reeleito] Lindbergh Farias [PT-RJ], que liderou o movimento de caras pintadas.

Eu acho que o movimento estudantil cumpriu e cumpre, durante toda a história do nosso país, um papel fundamental de resistência, de vanguarda contra os retrocessos e na luta por melhores condições para a educação, para a juventude, por menores igualdades sociais no nosso país. Com denúncias sobre a influência e interferência do capital externo, em especial dos Estados Unidos, em nossos processos democráticos. Então, cumpre esse papel de mobilizador, de organizador das lutas, mas também cumpre o papel de formar novos quadros políticos, e isso tem ficado cada vez mais nítido nos processos eleitorais.

Nisso, a frase do presidente Lula é muito assertiva, [quando ele diz]: ‘Jovem, você que é rebelde, que acha que ninguém na política presta, você é o próximo político honesto. É o próximo político que vai mudar esse país’. Acho que esse sentimento também tem tomado conta das pessoas que estão indo para as ruas e temos muito claro o que nos leva às ruas. Todo mundo hoje pega o celular, grava um vídeo, faz uma fala num ato, chama uma mobilização. Tem muitas mobilizações que estão sendo convocadas de forma espontânea. O movimento estudantil provoca e ajuda a formar novas lideranças, mas, acima de tudo, ajuda a mobilizar e organizar a luta no nosso país.

E existe um respeito muito grande dessa juventude que está indo às ruas com relação a quem está conduzindo as mobilizações com o entendimento de que a gente não pode cair em qualquer armadilha da extrema direita. A gente não representa o que eles querem nos impor, [nos taxando] como baderneiros ou algo do tipo. Nós estamos ali para defender nossos direitos e, por isso, o grande grito de ordem dessas manifestações é: “ô trabalhador, olha para cá, eu estou na rua para o seu filho estudar”. Isso vai ficar marcado na nossa história como o grande grito de ordem dessas mobilizações em defesa da reeleição do presidente Lula.

Há mais de três semanas estão acontecendo manifestações estudantis na França. Começam nos subúrbios de Paris e se espalham por todo o país, e também já inspiraram manifestações em outros países. Existem contatos entre Brasil e França, ou entre movimento estudantil em outros países, e há possibilidade dos movimentos estudantis crescerem mesmo por todo o mundo? Também em resposta às múltiplas crises que temos vivido hoje.

Nós temos acompanhado muito as manifestações que têm acontecido na França, assim como a UNE tem um arco de relação com organizações dos estudantes em diversas regiões do mundo, com foco nos países ibero-americanos e maior ainda na América Latina, por meio da [Organização Continental Latino-Americana e Caribenha de Estudantes] OCLAE, que é uma organização que corresponde aos estudantes da América Latina. A nossa avaliação é que essas manifestações dos estudantes, dos jovens, são fruto de um momento histórico que estamos vivendo, em que a crise do capitalismo está cada vez mais severa e mais impactante no nosso cotidiano.

Isso reflete, seja em relação à infraestrutura da educação pública, mas também e, principalmente, nas questões climáticas. São os jovens que são os mais atingidos em relação às questões climáticas, em especial os jovens que são oriundos das periferias e dos territórios, onde a política pública não chega com tanta eficácia. Então, é importante que essas mobilizações aconteçam. Agora, é importante que elas estejam sempre norteadas e muito bem organizadas para apontar, de fato, quem são os verdadeiros culpados por essa crise mundial que vivemos.

Seja a crise do capitalismo, seja a crise climática, que é fruto do capitalismo feroz, que se torna ainda mais devastador quando entra em crise. Ou, principalmente, as guerras que são fruto de uma falta de orientação no mundo, em que um presidente [Donald Trump] se acha imperador do mundo, que influencia no processo eleitoral de diversos países e fica por isso mesmo. Então, o que tem acontecido nas eleições do Brasil, a nítida influência dos Estados Unidos no nosso processo de eleição, seja por meio da Meta ou até mesmo pelo dinheiro que possivelmente o Trump está investindo na campanha do Flávio Bolsonaro, é uma eleição que vai ditar também um pouco dos rumos da democracia no mundo.

Se o Lula for reeleito, o Lula representa uma figura unânime, uma figura que representa a luta dos países do Sul global para que a gente tenha um mundo multipolar, que a gente não tenha um mundo centrado nas desigualdades, que a gente não tenha um mundo onde poucos podem mandar sobre diversas nações, que é o que tem acontecido com os Estados Unidos, que sequestra o presidente de outro país e julga a partir das leis do seu país. Essas pessoas  não escutam o processo democrático. As eleições do Brasil não estão deslocadas desse processo, que tem acontecido no mundo inteiro, de avanço do imperialismo americano, e a influência, principalmente hoje, das redes sociais que elas têm sobre o nosso cotidiano. O Brasil é uma ponta de resistência no mundo para que esses países do Sul Global possam ter a sua soberania e a democracia preservadas.

À beira da catástrofe a França intensifica a repressão contra o dissenso político

By: A A
17 October 2026 at 19:26

Macron, com 15% de aprovação, prepara guerra com Rússia e dissolve associação Egalité et Réconciliation de Alain Soral por “extremismo político”.

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Macron é, hoje, muito possivelmente, o presidente mais impopular do planeta, contando com apenas 15% de aprovação, segundo uma enquete Ipsos BVA-Cesi. Sob seu comando, a França se depara com a estagnação econômica (crescimento de 0,6% em 2025) e com o endividamento (120% do PIB). Sob Macron, a França viu também a desindustrialização acelerada do país, com as indústrias correspondendo a apenas 9% do PIB, menor patamar da União Europeia, e não surpreendentemente, o poder de compra despencou, com metade dos franceses dizendo que sua renda dá apenas para o essencial e apenas 70% dos cidadãos em idade ativa ocupando um posto de trabalho, atualmente.

Como se isso já não fosse o bastante, em aproximadamente 10 anos de governo Macron, aproximadamente 4 milhões de imigrantes entraram no país (muitos dos quais não trabalham, mas recebem benefícios sociais); quantia que torna impossível a absorção econômica bem como a assimilação etnocultural dos recém-chegados. Naturalmente, ao descontrole imigratório estão vinculadas taxas de criminalidade, favelização de centros urbanos e aumento das tensões sociais. Muitos franceses étnicos sentem-se demograficamente substituídos em sua terra natal, e não por acaso, tudo indica que Marine Le Pen ganhará (finalmente) as eleições presidenciais francesas em 2027.

Não sabemos quais seriam os resultados de uma presidência Le Pen e é razoável ser cético a respeito, mas claramente o atual curso da França é perigosíssimo, inclusive em sua política externa.

Gradualmente, nos últimos 2 anos, começaram a aparecer inúmeros sinais de que Macron estaria preparando o país para uma guerra com a Rússia. O governo francês criou um serviço militar voluntário e aprovou a expansão das forças armadas permanentes a 275 mil homens, bem como um aumento orçamentário para a defesa. O general Fabien Mandon, do Estado-Maior, afirmou em 2025 que a França deveria se preparar para um conflito de alta intensidade com a Rússia no prazo de três a quatro anos, e agora em setembro de 2026 Macron declarou que a França “poderia” se tornar alvo de drones explosivos. Constantemente, também, se ouve discursos sobre a necessidade de transformar a economia francesa numa “economia de guerra”.

Por isso, talvez seja surpreendente para muitos (mas não para nós) que em meio a tudo isso que tem acontecido no país, o governo Macron ainda encontre tempo para a implementação de um aparato de censura e repressão de níveis totalitários.

Sua nova vítima é a associação Egalité et Réconciliation (Igualdade e Reconciliação), criada pelo sociólogo e escritor Alain Soral. A associação se identifica como “nacionalista de esquerda” e tem como principal slogan “esquerda do trabalho, direita dos valores”, apelando a uma superação da falsa dicotomia entre esquerda e direita e, ainda mais importantemente, por uma reconciliação nacional entre todos os setores sociais; em anos recentes, ela esteve envolvida nas manifestações dos Coletes Amarelos, em algumas atividades ligadas ao partido Reagrupamento Nacional (apesar de, simultaneamente, manter uma postura de “crítica construtiva” contra certas tendências sionistas e liberais presentes no partido) e à militância pró-Palestina.

Ocorre que, no dia 9 de outubro, o Ministro do Interior do governo de Macron, Laurent Nuñez, anunciou a abertura de um procedimento de dissolução contra a associação Egalité et Réconciliation, sob a acusação de “extremismo político”. A sua equipe jurídica recebeu um prazo de 1 semana para se defender, e a decisão a respeito deve ocorrer, ainda, em outubro.

O próprio Alain Soral é uma figura de elevado espírito inconformista, razão pela qual já foi vítima de incontáveis perseguições judiciais – dezenas de fato – majoritariamente por “delitos de opinião”, ou seja, por comentários críticos contra pessoas específicas ou “minorias protegidas”. Em condenações, Soral já acumulou milhões de euros a serem pagos em indenização para ONGs globalistas diversas, soma obviamente impagável, bem como já foi encarcerado algumas vezes, também pelos mesmos motivos. A perseguição judicial foi tão intensa que Soral teve que se exilar de sua pátria, primeiro na Suíça e depois na Rússia.

Agora, para além das justificativas oficiais, por qual motivo o Estado francês baniria uma organização relativamente pequena e de poucos recursos financeiros?

É possível analisar o “ângulo” da presença de Alain Soral na Rússia, em mais de um sentido. Primeiro, porque ao estar na Rússia Soral finalmente tornou-se imune à constante perseguição judicial e às ameaças de prisão que ele sofria na França, ao mesmo tempo em que seguia tomando parte ativa no debate político e cultural francês, mesmo à distância. Nisso, ele era capaz de exercer e expandir a sua influência, “sob a proteção dos russos”, o que certamente alimenta as típicas paranoias atuais da elite francesa sobre uma “guerra informacional” russa.

Existe, porém, também um aspecto interno. Recentemente, Alain Soral voltou a ser bastante comentado pela mídia francesa por dois motivos. Um é o “caso Bardella”, o qual diz respeito à descoberta de supostos escritos “politicamente incorretos” de Jordan Bardella, presidente do partido Reagrupamento Nacional, e à informação de que em sua juventude a principal influência intelectual de Bardella era Alain Soral. O segundo é uma pesquisa de opinião indicando que 15% dos homens franceses com menos de 35 anos de idade se identificam com as ideias de Soral.

Isso às vésperas das eleições presidenciais representa um risco significativo para Macron e para o establishment francês. Ainda que, aparentemente, não haja chance de vitória para qualquer candidato contra Le Pen, não podemos duvidar da possibilidade de manipulação do processo eleitoral, tal como aconteceu na Romênia.

Esse silenciamento é ainda mais preocupante pelo fato de que Soral e o E&R serem praticamente os únicos personagens socialmente e culturalmente relevantes na França hoje que defendem a reconciliação nacional e que evitam a incitação do tensionamento interno, promovido pelos elementos mais islamofóbicos do RN e pela própria liderança do LFI de Mélenchon com seu “exército” de antifas e imigrantes.

Quando a esperança pode faltar justo na minha vez

17 October 2026 at 08:00

Toda semana, num escritório pequeno, falo de política com a minha terapeuta. Comecei a terapia no ano passado, depois do diagnóstico de ansiedade generalizada e depressão, e a eleição foi entrando nas sessões sem pedir licença. Aos 27 anos, descubro que estou de luto. Talvez porque, para mim, pensar em política é pensar no futuro. E, na minha família, o futuro sempre foi construído devagar, uma geração de cada vez.

Meus avós vieram do Nordeste para São Paulo em busca do que, nos anos 1960 e 1970, se chamava de vida melhor: um trabalho e comida no prato. Minha mãe quis mais. Não para ela, para mim. Criou-me sozinha na zona leste e só terminaria o ensino médio depois dos 50 anos. Mas, nos anos 2000, bateu de porta em porta até me conseguir vaga na melhor escola do bairro. Depois me inscreveu no vestibular da ETEC. Depois me convenceu a tentar uma bolsa para a faculdade. Foi abrindo as portas, uma a uma, como quem cumpre uma promessa.

Durante a semana, eu a via à noite, pouco antes de dormir. A gente se encontrava mesmo aos domingos.

Em 2019, entrei na faculdade, uma das poucas da família a chegar lá. Em 2022, me formei em jornalismo com uma bolsa integral do ProUni, criado no primeiro governo Lula. A mensalidade à época beirava os R$ 2 mil. Sem a bolsa, não sei se teria me formado, nem se estaria aqui, escrevendo este texto. Não sou exceção: segundo o Ministério da Educação, cerca de 1,6 milhão de estudantes já se formaram pelo programa. Em 2023, já repórter, contei aqui na Agência Pública como ele abriu a universidade, sobretudo, para mulheres negras.

Quando olho para trás, vejo uma corrente. Meus avós quiseram que os filhos não passassem fome. Minha mãe quis que eu estudasse. Agora sou eu quem segura a ponta. Quero sair do aluguel, quem sabe pelo Minha Casa, Minha Vida. Quero que meus filhos, que ainda nem existem, não precisem trabalhar cedo para ajudar em casa. Que me vejam mais do que eu vi minha mãe. Mas há dias em que a desesperança chega antes do sol, e eu me pergunto se a corrente vai se partir justamente na minha vez.

É desse lugar que olho para esta eleição. Vejo gente que acorda antes do sol nascer, atravessa a cidade, espremida como sardinha em lata, e trabalha de segunda a sábado, muitos de segunda a segunda, para ganhar um único dia de descanso. Conheço bem o tamanho desse dia. Era o domingo da minha mãe. Vejo a seca numa ponta do país e as enchentes na outra, riquezas brasileiras leiloadas para empresas estrangeiras, governantes de fora se metendo na nossa soberania, enquanto parte de nós parece ansiosa para trocar o verde e amarelo por outra bandeira.

Por isso me assusta olhar para quem pode governar o Brasil nos próximos quatro anos. Flávio Bolsonaro chega a esta eleição sem resposta a nenhum desses medos. Em quatro mandatos como deputado estadual, não teve um único projeto de lei de sua autoria aprovado. A Pública mostrou como ele defende a mineração sem colocar no centro a proteção da Amazônia e revelou sua influência sobre os hospitais federais do Rio durante a pandemia, enquanto eram sucateados. Há ainda a relação com Daniel Vorcaro, do Banco Master. E, em 24 anos de vida pública, apenas três propostas de lei sobre a segurança das mulheres, que são metade da população. Procuro ali alguma promessa para a geração dos meus filhos, mas não encontro.

Quando penso nesta eleição, vejo minha avó chegando a São Paulo, minha mãe batendo de porta em porta, eu segurando um diploma que não estava nos planos de ninguém. E filhos que ainda nem nasceram. Não quero que apenas sobrevivam; quero que tenham tempo para viver. Que estudem, trabalhem com dignidade e tenham onde morar.

Meu receio não é só o resultado de uma votação. É ser, depois de três gerações, a primeira da família a olhar para a frente sem acreditar que os filhos terão mais do que eu tive.

Clubes de tiro fazem anúncios proibidos de descontos em armas para apoiar Flávio Bolsonaro

16 October 2026 at 23:00

O número de urna de Flávio Bolsonaro (PL) está sendo usado por clubes de tiro em promoções e ofertas de armas, munições e outros serviços no Instagram como forma de apoio ao presidenciável, apesar de a legislação eleitoral proibir que pessoas jurídicas façam campanha para candidatos. A sanção pode ser uma multa que varia de R$ 5 mil a R$ 30 mil, além da remoção do conteúdo.

O Clube de Tiro, Caça e Colecionismo Bala de Prata, do procurador do Pará Flavio Luiz Rabelo Mansos Neto, passou a impulsionar, em 13.out.2026, um anúncio oferecendo 22% de desconto no valor de filiação ao clube e na concessão do certificado de registro (CR), que é a licença emitida pelo Exército que autoriza uma pessoa a ser colecionar, atirador desportivo ou caçador (CAC) e que precisa ser vinculada a um clube de tiro.

A promoção, com cores vibrantes em verde e amarelo no número acompanhada da frase “Brasil acima de tudo!”, indica ser válida até 25.out., data do segundo turno da eleição.

Publicação com promoção de 22% de desconto do CT Bala de Prata que também foi impulsionada no Instragram

A página já tinha postado, dois dias antes, um aviso de que a rede social estaria “reservada” para realizar “propaganda eleitoral gratuita” para Flávio Bolsonaro. Na imagem, constam as logomarcas de mais outros dois clubes de tiro: Ranger Master e Clube de Tiro Esportivo do Grão Pará (CTEGP), em que o procurador é, respectivamente, sócio e presidente. A legenda informa que o estabelecimento não está recebendo pix para fazer campanha e que não esconde a sua posição.

Aviso de “propaganda eleitoral gratuita” postada no perfil da Bala de Prata no Instagram

Os três clubes também haviam parabenizado publicamente a reeleição dos deputados federais Delegado Caveira e Joaquim Passarinho, a eleição de JK do Povão na Assembleia Legislativa do Pará, todos do PL, e de Dr. Daniel (Podemos) como governador do estado.

Por que isso importa?

  • A pauta armamentista é um dos principais motes de bolsonaristas, tendo sido a facilitação do acesso e da aquisição uma das principais políticas da gestão Jair Bolsonaro (2019-2022), cujo filho e presidenciável, além de parlamentares aliados, tentam retomar.

Em nota, a assessoria da Procuradoria-Geral do Estado Pará disse que o procurador “já requereu aposentadoria e está aguardando a conclusão do processo e que as atividades privadas mencionadas não possuem vínculo institucional com a PGE”.

O Redneck, clube que também vende armas e munições, localizado em Saltinho (SP), promoveu a campanha “22 na cabeça”. Primeiro, com desconto de 50% em munições de calibre .22, publicado em 2.out., que se encerrou em uma semana. Depois, devido ao “sucesso”, postou em 9.out. um novo vídeo oferecendo 22% desconto em dois modelos de rifles do mesmo calibre somente no final de semana passado.

Em ambas as publicações, o sócio e presidente da Associação Nacional Rifle (ANR), Rafael Buscariol Zampaulo, aparece mostrando os produtos: “Vai ter que digitar, escrever na postagem, ’22 na cabeça’ ou ‘é 22’, ‘Redneck é 22’, mas tem que ter o 22 escrito lá. [Você] vai ter que compartilhar no seu story. Feito isso, vocês fazem o print e aí fica guardadinho na mão ou já manda para a Carly [consultora] e a Carly faz o pedido das suas maquininhas [armas]”, instrui.

Além desses, o Núcleo localizou outros clubes de tiro em diferentes regiões do país que fizeram postagens com promoções vinculando o número 22. “Juntar o incentivo à compra de arma com propaganda eleitoral é uma ilegalidade explícita”, explica Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz.

Apesar de em parte das postagens não haver uma menção direta ao nome de Bolsonaro, o contexto indica a propaganda irregular, aponta Isabela Damasceno, advogada e membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP).

“O TSE não exige mais aquele trinômio, que é o candidato pedido o voto, mais o cargo. A alusão, mesmo que de forma indireta e dissimulada, sobre a candidatura e o pleito é reconhecida como um elemento eleitoral. Por se tratar de uma temática que esse candidato defende, que esse candidato colocou enquanto plano de governo, eu acho que fica muito tipificado que é um apoio de forma direta e ilegal para esse candidato. Então, entendo que sim, inclusive por algumas jurisprudências do tribunal, pode ser considerado um ilícito eleitoral essas propagandas”, afirma.

No caso do Redneck, o apoio a bolsonaristas tem mais um fundamento. Segundo o site Metrópoles, a ANR recebeu R$920 mil em emendas parlamentares dos deputados federais Mario Frias e Luiz Philippe de Orleans e Bragança, ambos do PL de São Paulo, que foram direcionadas a empresas de Zampaulo, sendo uma delas o Redneck.

O repasse seria irregular por ferir o princípio da impessoalidade, ou seja, a associação não poderia contratar empresas do mesmo grupo econômico ou que tivesse conflito de interesse. O caso está sendo apurado pelo Ministério do Esporte uma vez que os repasses teriam como objetivo viabilizar um projeto para incentivar o esporte de tiro ao prato em Saltinho.

Procurada pelo WhatsApp, uma atendente encaminhou o contato do outro proprietário do clube, André Teixeira. Ele solicitou comprovações de que se tratava de um contato de uma repórter e parou de responder depois que o Núcleo enviou link do site e contato de e-mail institucional. Os dois vídeos promocionais foram apagados.

Qualquer cidadão ou cidadã pode fazer uma denúncia de irregularidade eleitoral por meio do aplicativo Pardal, do Tribunal Superior Eleitoral, disponível tanto para Android quanto iOS. Você precisa se identificar por meio de autenticação pelo e-Título ou pelo Gov.br. A denúncia deverá conter informações que permitam a identificação e a apuração da possível irregularidade e poderá ser acompanhada de fotos, vídeos ou áudios que contribuam para demonstrar a ocorrência relatada.

Além disso, a advogada ressalta que se o candidato em questão tiver participação direta ou conhecimento do apoio e não fizer nada, ele pode ser enquadrado na infração de abuso do poder econômico, o que pode levar à cassação.

O Núcleo identificou que, em uma das publicações de propaganda eleitoral do clube de tiro Bala de Prata, havia curtida do deputado federal Delegado Caveira. Além disso, ele mesmo segue a página no Instagram.

Publicação de apoio a candidatos pela página do CT Bala de Prata com curtida do deputado federal reeleito Delegado Caveira

Em Carapicuíba (SP), o clube SPGuns também foi explícito: “promoção fora Lula: 22% de desconto em todos os serviços de despachante” para “colocar a documentação em dia”. A publicação, de 8.out., destaca que a promoção vale até 25.out. A empresa tem como sócios Renato Portante Soares e Lindemberg Araújo e apagou a publicação após o Núcleo entrar em contato para pedir posicionamento.

O IAT Clube de Tiro, em São Pedro da Aldeia (RJ), foi na mesma linha. A foto de capa indicava em letras garrafais com os dizeres “promoção de eleição” e “filiação anual com 22% de desconto”. No vídeo postado em 30.set., o instrutor e sócio Marcelo Pinto alertava que a oferta era limitada até 2.out. “Aproveita essa promoção porque, depois que o Flávio ganhar, depois que tudo acontecer, os preços vão subir, né, galera? A gente vai estar muito valorizado”, diz.

Uso da função pública

No caso do Rearmy Clube de Tiro, do empresário Walter Alves de Oliveira Junior, a publicação oferece um curso gratuito de atendimento pré-hospitalar em ambientes táticos para 20 participantes caso “os nove dedos” não vença a eleição. A imagem é acompanhada de uma foto do instrutor Weslei Leonardo Lopes, que é comandante da Guarda Civil Municipal de Tanguá (RJ), usando um uniforme semelhante ao da corporação, empunhando um fuzil, e na braçadeira está escrita a sigla “GCM”.

O post, de 6.out., aponta que a promoção vale até o dia 31 do mês e foi apagado após a reportagem contatar o clube.

Reprodução da promoção em que o comandante da GCM de Tanguá aparece

Para as especialistas entrevistadas, Lopes também está infringindo a legislação eleitoral por se utilizar da função pública para promover apoio político. “Ele, enquanto pessoa física, pode manifestar a predileção dele no candidato que ele entender, mas utilizar qualquer estrutura da coisa pública, do cargo que ele exerce para fazer essa manifestação, isso é uma conduta vedada”, sinaliza Isabela Damasceno, da ABRADEP.

Carolina Ricardo, do Sou da Paz, ainda aponta possível conflito de interesse. “Você trabalha pela segurança pública, mas trabalha no clube de tiro e faz propaganda de um clube de tiro. Ou seja, incentiva as pessoas a usar arma e atirar. Se você quer melhorar a segurança pública, você precisa promover a segurança pública e não incentivar a autodefesa”, avalia.

Em Araguaína (TO), a Delta Armas, que tem clube de tiro e loja de armas e equipamentos táticos, tem como sócios o servidor público federal Diego de Lana Acácio, lotado desde 2012 no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e a dentista Fagna Araújo de Lana. O Núcleo não localizou postagens que vinculem a função dele às propagandas, apesar de ele fazer publicações em “collab” com a página da empresa.

Esse clube publicou, dois dias após o primeiro turno, uma promoção “em homenagem ao 22” com desconto para a compra de rifle calibre .22 até 24.out.2026. O clube já tinha feito outra oferta, às vésperas da votação, em 3.out., de duas filiações gratuitas caso Lula não fosse reeleito e Bolsonaro ganhasse. A página também já fez outras publicações com Diego Acácio vestindo camisetas com a frase “fora Lula”, mostrando uma arma com a frase “em outubro será PT”, que significa pistola Taurus, e divulgando evento de adesivaço pró-Bolsonaro organizado pelo clube.

À reportagem, a Delta Armas disse que, antes de dar um posicionamento, está “realizando as verificações necessárias para que qualquer esclarecimento seja feito com responsabilidade e precisão”.

Além disso, a reportagem também encontrou publicações de clubes de tiros realizando apenas campanha política, sem a oferta de descontos ou promoções. Um exemplo é o Artire Clube, em Rio Claro (SP), do empresário Euclides Emanuel Fernandes Speranza Dias. Ele gravou vídeo, em 9.set. ao lado do deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP) e do vereador Coronel João Arraes (PL) que disputavam, respectivamente, a reeleição e o cargo de deputado estadual, e afirmou que Lula acabaria com os clubes de tiro se conseguisse um quarto mandato.

A página da empresa também continha um vídeo do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro incentivando o voto em Arraes e um post com os números de candidatos “para acabar com o PT”. Além dos dois parlamentares citados, o apoio foi para Ricardo Salles (que desistiu) e Guilherme Derrite (que se elegeu) para o Senado, Tarcísio de Freitas para governador de São Paulo (eleito) e Flávio Bolsonaro para presidente.

Em contato com o Núcleo via WhatsApp, a esposa de Euclides Dias e sócia da loja de armas, Gislaine Speranza Cordebelli Dias, disse que o posicionamento dele é enquanto pessoa física e que “nada tem haver com pessoa jurídica”, apesar de as publicações terem sido realizadas na página institucional do clube de tiro. Ela encaminhou o contato direto dele, mas não houve retorno.

Bilynskyj, que conseguiu se reeleger, já tinha feito declarações prometendo um “revogaço” dos decretos assinados pelo presidente Lula que freavam o acesso a armas para a população. De acordo com levantamento da Agência Pública, o partido dele, o PL, liderou o volume de doações por empresários do ramo armamentista, com R$ 420 mil injetados nas campanhas de candidatos.

O Núcleo procurou todos os clubes citados, os deputados Delegado Caveira e Paulo Bilynskyj, além da Prefeitura de Tanguá, mas não houve retorno.

Locais de votação alterados e abstenção: estigma afasta eleitores da Maré das urnas

16 October 2026 at 20:10

No primeiro turno das eleições de 2026, a alteração de locais de votação pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio Janeiro (TRE-RJ) impactou mais da metade dos eleitores do Complexo da Maré, na zona norte da capital fluminense. A justificativa do tribunal é que as comunidades da Maré são uma “área de risco” pela dominação de facções e do tráfico de drogas.

“O Estado reconhece que aqui [na Maré] não é seguro para votar e coloca os moradores para votar do lado de fora. Qual o impacto disso? [Que a] gente está sempre no antagonismo”, afirma Tainá Alvarenga, coordenadora da organização Redes da Maré, no eixo direito à segurança pública e acesso à Justiça.

Para Alvarenga, várias instâncias do poder público utilizam a falta de segurança como argumento, mas acabam interferindo no acesso a direitos fundamentais dos moradores das comunidades como transporte, saúde, investigações de crimes e, entre eles, o de “não ter os espaços de votação mudados com o discurso da segurança pública”, declara à Agência Pública. 

“A escola oferece menos dias de aula por causa da segurança, a defensoria não pode vir sem uma autorização por causa da segurança, o Ministério Público não pode vir porque é um território conflagrado, não pode ter perícia [pelo mesmo motivo]”, afirma a coordenadora.

Em um artigo publicado no Jornal O Globo, a diretora fundadora da organização Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, explica que a Zona Eleitoral (ZE) 161ª é a mais representativa para a Maré porque cerca de 60% de suas seções estão localizadas dentro do território ou em seu entorno.

Um levantamento feito pelo Consultor Jurídico mostra que as nove zonas eleitorais do Rio de Janeiro com locais de votação alterados apresentaram um índice maior de abstenção. Nelas, a média de abstenção foi de 25,83% enquanto o índice nacional ficou em 21,08%. A 161ª ZE foi justamente a que teve o maior número de endereços trocados, segundo a pesquisa, e alcançou o maior índice de abstenção, 28,46%.

No total, 72 locais de votação do Rio de Janeiro foram alterados pelo TRE-RJ, atingindo 20 municípios do Estado e cerca de 200 mil eleitores, segundo Eliana Sousa Silva. No Complexo da Maré, eleitores foram remanejados para locais com até 7 quilômetros de distância do local original.

A fundadora da Redes Maré também aponta em seu artigo que na 161ª ZE, Lula venceu Flávio Bolsonaro por uma diferença de 14 pontos percentuais, alcançando quase 10 pontos a mais do que obteve na cidade do Rio. E, para governador, Eduardo Paes teve 8 pontos percentuais a mais do que a sua média no restante da capital. “Falta transparência sobre quais critérios justificam a retirada de algumas seções e a manutenção de outras na mesma região” avalia Silva.

“Os locais transferidos funcionam em escolas municipais. Se esses prédios recebem crianças diariamente, por que seriam inadequados para adultos votarem por algumas horas? Sem critérios transparentes, a decisão reforça o estigma da favela como território perigoso e desconsidera a sua organização comunitária”, complementa.

Não é a primeira vez que o TRE-RJ transfere eleitores para outros lugares. Em 2024, a Redes da Maré calculou que 50,6% dos eleitores aptos do local foram impactados pelas mudanças de locais de votação. O estudo “Como vota a Maré”, realizado pela organização, ressalta que o alerta sobre o risco de abstenção em função das constantes alterações de endereço feitas pela Justiça eleitoral do estado já era feito na votação anterior.

Segundo a análise, os moradores da Maré que antes votavam dentro do território foram os que mais sofreram com as dificuldades de acessibilidade e mobilidade urbana. “A transferência pode significar aumento do tempo de caminhada, necessidade de atravessar grandes vias como a Avenida Brasil e Linha Amarela, ausência ou inadequação de transporte público, […] o que impacta desproporcionalmente jovens, mulheres chefes de família, pessoas com deficiência e pessoas idosas que vivem na Maré”, detalha.

A pesquisa ainda destaca que, por mais que o transporte público gratuito nos dias de votação seja “fundamental para reduzir barreiras econômicas ao voto”, não é o suficiente para garantir o direito ao voto. “Gratuidade não significa, por si só, acessibilidade territorial. Essa distinção é especialmente importante na Maré, onde o transporte coletivo se concentra nas grandes vias que margeiam o território”, avalia.

A Justiça Eleitoral, neste ano, incluiu a Maré no projeto “Seu Voto Importa”, destinado a auxiliar pessoas com mobilidade reduzida e pessoas com deficiência para se locomover até suas áreas de votação, em Bonsucesso.

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

16 October 2026 at 17:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Imagine de uma noite para a outra você ficar sem o seu WhatsApp, Instagram e sem seu número de telefone? Foi o que aconteceu com a arquiteta e urbanista Carolina Martins, 43 anos, moradora de Brasília. Ela coordena uma comunidade no WhatsApp de mobilização para “virar voto” em prol da candidatura de Lula. A comunidade tem um grupo de bate-papo e ambos foram suspensos pela Meta (dona do WhatsApp, Instagram e Facebook) sob a alegação de “atividade relacionada a organizações terroristas”. 

A suspensão ocorreu no último dia 8 de outubro e o grupo ficou paralisado por pelo menos três dias. Martins adoeceu. Teve uma crise de fibromialgia e ficou acamada boa parte do tempo. Até agora ela conta que está sem seu número, que foi bloqueado, e só está conseguindo voltar aos aplicativos e à gestão do grupo pois adquiriu outro chip de telefone. 

“Eu tenho fibromialgia, então assim, fiquei tão estressada, sem andar. Para além das outras coisas, dos atentados à soberania, nossa liberdade de reunião e de expressão, teve toda essa parte da minha saúde emocional”, contou a arquiteta à Agência Pùblica. 

Comunidade e grupo de bate-papo pró-Lula foram suspensos por atividade relacionada a organizações terroristas
Comunidade e grupo de bate-papo pró-Lula foram suspensos por atividade relacionada a organizações terroristas

Martins já está com o Instagram ativo novamente e com a comunidade, que tem agora 895 participantes. Antes do bloqueio, a comunidade tinha atingido o limite de mil membros. Por intermédio de uma amiga ela conseguiu contato com a Meta e apurou que o bloqueio teria se dado por uma suposta “falha de tradução” de um monitoramento da comunidade que apontou “disruptive behaviour” (comportamento perturbador), o que teria sido interpretado como terrorismo. 

Meta bloqueia vídeo crítico a Flávio por “nudez infantil” 

Já o professor e artesão Karl Hadzic Júnior, 47 anos, morador de São Paulo, republicou em sua timeline o vídeo viral “como mãe de menina, meu voto jamais será dessa família”, postado originalmente pela professora paraense Vanessa Silva, no dia 7 de outubro, e que teve quase 45 mil compartilhamentos e 115 mil curtidas. O vídeo foi bloqueado pela Meta também no dia 8 de outubro, sob a acusação de ter ferido padrões de comunidade sobre nudez infantil. 

O vídeo começa com uma foto de Silva abraçada com a filha, sem expor nenhuma região sensível da garota. A publicação utiliza um vídeo de Flávio Bolsonaro que ficou conhecido em 2023 no qual ele aparece sem camisa, supostamente imitando o irmão Jair Renan, dizendo: “sou filho do presidente, quer me dar?”. 

Vídeo que viralizou no Instagram e foi marcado pela Meta como conteúdo sensível

O vídeo de Silva segue no ar, mas foi sinalizado com um filtro do Instagram que aparece antes da reprodução, informando sobre “conteúdo sensível”. A professora contou à Pública que várias pessoas que publicaram o vídeo nos stories disseram a ela que a publicação foi suspensa ou até mesmo tiveram as contas bloqueadas. 

A Pública procurou a Meta para ouvir a companhia sobre casos relatados nessa reportagem, mas não houve resposta.

Professor compartilhou vídeo crítico a Flávio Bolsonaro, mas foi bloqueado pela Meta por nudez infantil
Professor compartilhou vídeo crítico a Flávio Bolsonaro, mas foi bloqueado pela Meta por nudez infantil

MPF pede esclarecimentos à Meta após levantamento indicar parcialidade nos bloqueios

Tanto o caso de Marins, quanto de Júnior foram compilados pela organização social brasileira Ctrl+Z, voltada ao enfrentamento dos abusos e do modelo de operação das grandes empresas de tecnologia, que reuniu mais de mil denúncias de usuários de produtos da Meta e do X que relatam casos de bloqueio ou suspensão de contas e postagens relacionados às eleições.

A Pública mostrou como esse levantamento indica que a Meta tem barrado mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio. Reportagem da Folha mostrou que funcionários da Meta admitiram em mensagens internas que a “conta de Lula estava ‘limitada’ em comparação à de Flávio, e que isso seria negativo pela “alta chance” de haver ação jurídica”.

O levantamento da Ctrl+Z ganhou apoio das organizações de direitos humanos Conectas, Artigo 19 e Sleeping Giants Brasil e transformou-se em uma representação à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal (MPF) que abriu uma investigação no último dia 13 e pediu, no dia seguinte, uma série de esclarecimentos à Meta. 

A reportagem da Pública teve acesso ao ofício do MPF, à representação e a um anexo contendo 74 relatos de casos envolvendo suspensões e bloqueios de posts e perfis de usuários do Instagram e do WhatsApp. Dos 74 relatos, recolhidos entre 25 de setembro e 9 de outubro, 33 (44,5%) aconteceram no dia 8 de outubro. 

O levantamento foi iniciado pela CTRL+Z em 25 de setembro, dois dias após a Meta ter suspendido o perfil no Instagram do projeto Revelando Brasil, que postou no YouTube o vídeo viral sobre as ligações entre a igreja Batista da Lagoinha e o escândalo do Banco Master. Devido à repercussão do caso, a Meta liberou o perfil novamente. 

Meta é investigada por violação da liberdade de expressão

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) apura na investigação a regularidade e a legalidade das práticas de moderação de conteúdo adotadas pelo X e pela Meta, e verifica se a companhia está violando a liberdade de expressão dos usuários. 

Segundo as organizações, os atingidos formam um conjunto heterogêneo de perfis orgânicos, sem vínculo direto com candidaturas, partidos, federações ou coligações. A denúncia narra que a maioria dos afetados são cidadãos comuns, mas há dezenas de influenciadores, comunicadores, pesquisadores e movimentos estudantis e sociais. 

“Ao que tudo indica, há falhas graves na moderação e aplicação irregular da lei, com conteúdos políticos classificados erroneamente como exploração sexual infantil ou terrorismo”, afirmam os autores da denúncia ao MPF.

O procedimento da PFDC apura como se dá a moderação automatizada de conteúdo e restrições desproporcionais ou injustificadas aplicadas a perfis, publicações e funcionalidades de cidadãos, jornalistas, veículos independentes de imprensa, entidades estudantis e movimentos sociais nas plataformas controladas pela Meta. 

A PFDC remeteu cópia integral do procedimento ao coordenador-Geral de fiscalização da ANPD, Fabrício Madruga, pois as organizações autoras da denúncia relatam a aplicação de sanções recorrentes por sistemas automatizados/algorítmicos sem notificação adequada, a ausência de motivação individualizada e a falta de canais efetivos de revisão aos donos dos perfis, o que fere deveres de transparência das plataformas digitais e a forma como tratam os dados dos clientes. 

À Meta e ao X, o MPF indaga se as medidas de moderação noticiadas foram promovidas, indicando a conta ou publicação atingida, as plataformas em que foram aplicadas, a data e o horário de sua adoção e sua duração; a natureza exata da medida adotada e seus fundamentos fáticos e jurídicos; se a medida permanece em vigor ou foi revertida, indicando, neste último caso, a data da reversão e as suas razões; os procedimentos adotados para garantir a notificação prévia, a motivação individualizada e o canal de recurso ao usuário e se há mecanismos internos de auditoria e correção de erros de moderação em massa. 

O MPF deu cinco dias para a Meta e para o X responderem ao ofício e quer uma explicação para cada medida de moderação tomada contra cada perfil listado na representação feita pelas ONGs. Esse prazo vence no início da última semana antes da votação do segundo turno.

Ainda em relação a cada uma dessas medidas, devem ser esclarecidos seus fundamentos jurídicos ou contratuais. Deve ser informado, para cada caso, se a medida de moderação foi adotada espontaneamente pela empresa, se foi a Meta quem identificou a irregularidade ou se houve denúncia, notificação ou reclamação apresentada por terceiros ou se a Meta cumpria ordem judicial.

A reportagem questionou a Meta sobre as denúncias e o procedimento do MPF, que ainda não respondeu.

Ministério Público Federal deu prazo para Meta e X responderem sobre critérios de moderação de contas durante o período eleitoral

Bloqueios em série de perfis progressistas

Em conjunto, os casos compilados pela CTRL+Z descrevem restrições à liberdade de expressão no ambiente digital em diferentes níveis: perda do perfil inteiro, retirada de uma publicação, bloqueio apenas para quem acessa do Brasil, restrição de mensagens e dificuldade de publicar ou republicar conteúdo. Em alguns relatos, houve recuperação posterior; em outros, o acesso continuava indisponível na data da manifestação. Vários denunciantes relataram não ter recebido explicação individualizada ou não ter conseguido recorrer.

Uma categoria importante de contas que sofreram restrições são aquelas vinculadas a coletivos ou organizações. Por exemplo, a União Paranaense dos Estudantes — UPE Paraná (@upeparana) relatou a derrubada de seu antigo perfil quando este se aproximava de 600 mil visualizações.

O coordenador do Diretório Acadêmico Alfredo Balena, da UFMG, informou que a conta da entidade foi apagada um dia depois de uma postagem de apoio a um dos candidatos à Presidência da República e a candidaturas em Minas Gerais. Houve restrição também ao perfil do DCE da UFMG, cuja suspensão ocorreu durante uma mobilização estudantil.

O perfil do Movimento Sem Terra no Pará teria sido desativado desde a noite de 2 de outubro, mesmo após o setor de comunicação ter realizado os procedimentos de autenticação solicitados pela plataforma.

A representação também relata o bloqueio de perfis de jornalistas como Eduardo Moreira, dono do ICL, de postagens da Mídia Ninja, Folha de S. Paulo e Amado Mundo. 

Trump vai voltar a colocar a Europa em seu devido lugar?

By: A A
16 October 2026 at 15:00

Depois de pressionar Washington a manter o apoio a Zelensky, as lideranças europeias enfrentam um novo desafio: convencer Trump a abandonar as oportunidades de aproximação com Moscou em favor dos interesses de Bruxelas.

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Desde o encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin em Anchorage, em agosto de 2025, os governos europeus têm trabalhado para impedir uma mudança significativa na política americana em relação à Rússia. Para as lideranças da União Europeia, qualquer entendimento entre Washington e Moscou representa um risco à estratégia adotada desde o início do conflito ucraniano. Por isso, seus representantes intensificaram os esforços para convencer Trump de que as propostas russas não merecem confiança e de que o apoio militar a Vladimir Zelensky deve continuar.

Essa campanha conseguiu preservar importantes elementos da política ocidental de confronto com Moscou. Entretanto, a situação no campo de batalha continua desfavorável para a Ucrânia, enquanto os governos europeus demonstram dificuldades para apresentar uma perspectiva realista de vitória. A insistência em prolongar o conflito tem um custo crescente para os próprios países europeus, que precisam conciliar suas ambições geopolíticas com problemas econômicos e sociais internos.

A questão fundamental é saber até quando Trump estará disposto a acompanhar essa estratégia.

O presidente americano tem demonstrado que suas decisões dependem de uma combinação de interesses econômicos, objetivos políticos internos e cálculos de poder. Sua relação com a Europa é marcada por desconfiança em relação às elites tradicionais, que frequentemente tentam apresentar suas próprias prioridades como obrigações comuns do Ocidente. Trump, por sua vez, prefere negociar diretamente e cobrar contrapartidas concretas de seus parceiros.

Essa postura explica por que a aproximação com Moscou continua sendo uma possibilidade relevante. A Rússia possui recursos naturais, capacidade industrial e importância estratégica suficientes para tornar a cooperação bilateral atraente para setores econômicos americanos. Mesmo em um ambiente de rivalidade política, existem oportunidades que um empresário experiente como Trump dificilmente ignoraria sem uma razão convincente.

O recente acordo de comércio de diesel, com a Rússia exportando toneladas de combustível para Washington para aliviar o aumento nos preços, foi um exemplo muito interessante das possibilidades de negócios estratégicos e lucrativos entre ambos os países. O levantamento parcial de algumas sanções econômicas americanas foi, no mesmo sentido, uma sinalização de que esta parceria pode progredir ainda mais no futuro próximo.

Em acréscimo, o comércio de energia é apenas uma das áreas em que os interesses americanos podem divergir das preferências europeias. A normalização de determinadas relações econômicas com a Rússia poderia beneficiar empresas dos Estados Unidos e ampliar a margem de negociação de Washington. Para Trump, a possibilidade de obter vantagens concretas constitui um argumento importante em favor de uma diplomacia mais flexível.

A União Europeia, contudo, tem interesse em deteriorar as relações russo-americnas o máximo possível. Sem o envolvimento dos Estados Unidos na guerra, os governos europeus teriam maiores dificuldades para sustentar militarmente a Ucrânia e manter a pressão sobre Moscou. A proclamada autonomia estratégica europeia continua limitada pela dependência de capacidades militares, inteligência e recursos americanos.

Por essa razão, Bruxelas precisa manter Trump comprometido com uma política que em nada corresponde às suas próprias prioridades. Seus representantes podem recorrer à pressão diplomática, à retórica sobre a segurança europeia e aos vínculos históricos da aliança atlântica. Resta saber se esses instrumentos serão suficientes para impedir que o presidente americano explore alternativas mais vantajosas para Washington.

A Rússia, nesse cenário, tem motivos para acompanhar com atenção as divergências entre os dois lados do Atlântico. Moscou pode defender seus interesses nacionais por meio de negociações diretas com os Estados Unidos, sem aceitar que a União Europeia determine previamente os limites de qualquer entendimento. Uma relação bilateral mais pragmática também poderia reduzir o espaço de atuação daqueles que apostam na continuidade indefinida do conflito.

Naturalmente, Trump não oferece garantias de uma aproximação duradoura. Sua política externa é imprevisível, e os setores americanos favoráveis à confrontação com a Rússia continuam exercendo influência. Os europeus ainda dispõem de instrumentos para tentar condicionar as decisões de Washington.

Entretanto, a margem de manobra de Trump permanece considerável. Ele não chegou à Casa Branca para preservar os interesses de uma elite europeia que frequentemente critica e tampouco precisa aceitar todas as suas avaliações sobre a Rússia.

A verdadeira disputa será pela definição dos interesses que orientarão a política americana. Se Trump concluir que a negociação com Moscou oferece benefícios superiores aos custos da confrontação, a pressão europeia poderá perder força.

Para Moscou, essa possibilidade representa uma oportunidade diplomática. Para as lideranças europeias, constitui um alerta sobre os limites de sua influência. E para Trump, é a chance de demonstrar que a relação transatlântica não lhe impõe uma obrigação permanente de seguir as prioridades políticas da Europa.

Quando a notícia vira politicagem e a politicagem vira notícia

16 October 2026 at 14:30

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Na manhã seguinte à histórica conquista dos trabalhadores brasileiros — o fim da jornada 6×1 —, a manchete do UOL me pega de susto: “Oposição tenta revidar fim da 6×1 com redução da maioridade penal”. Na Folha, o destaque foi o mesmo.

Ver as propostas de duas mudanças constitucionais de grande impacto social colocadas lado a lado apenas como bandeiras de candidatos que se contrapõem, soou, para mim, como nova demonstração da distância entre a imprensa noticiosa e a sociedade brasileira.

Sim, a aprovação do fim da jornada de 44 horas semanais é também uma vitória de Lula, que encampou a bandeira de uma campanha que nasceu no final de 2023, quando um vídeo no TikTok feito por um balconista de farmácia sobre a vida dos que trabalham duro com um dia de descanso viralizou na internet.

Mas, como reconheceu o presidente, essa é uma campanha “que veio da rua”, “uma conquista histórica do povo trabalhador”. E que para emplacar terá que contar com a vigilância implacável da sociedade e das instituições, incluindo, claro, a própria imprensa.

Desde que o desabafo do ex-balconista Rick Azevedo, eleito vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro no ano seguinte – 2024 —, invadiu as redes, a luta pelo fim da 6×1 ganhou as ruas como legítima aspiração popular. E as manifestações só cresceram depois que a reivindicação se tornou uma PEC, em fevereiro de 2025, por iniciativa da deputada federal Erika Hilton (PSOL) e do deputado Reginaldo Lopes (PT).

Os três políticos — Rick, Erika e Lopes — venceram as últimas eleições para deputado federal e são aliados do presidente Lula, ou seja, é esperado do candidato do PT assumir a proposta, que também ganhou força com a adesão dos sindicatos. Aproveitar o momento eleitoral para emplacar mudanças é uma antiga e eficiente estratégia dos movimentos sociais, agora trazendo o apoio decisivo de Lula e obrigando os partidos de direita e extrema direita — desde o início contrários ao projeto — a aprová-la.

Não faz sentido equiparar essa “conquista histórica do povo trabalhador”, “que veio da rua”, como reconheceu o presidente Lula, a ações “populistas”, como fez o Globo, ao encaixá-la entre outras medidas do governo lançadas durante a campanha, que realmente podem ser consideradas “eleitoreiras”, ainda que, no mérito, tenham valor para a população.

O jornalismo tem que se guiar pelo interesse público e isso inclui reconhecer as vitórias da sociedade e denunciar os riscos que determinadas propostas implicam para a democracia e os direitos constitucionais dos cidadãos, como a redução da maioridade penal, assunto grave demais para ser tratado apenas como um “revide” eleitoral.

Até porque, enquanto a primeira proposta nasceu da mobilização popular, a segunda é fruto de um sentimento de insegurança, ressentimento e também de desinformação da população, explorado por políticos e pela própria imprensa de modo a se tornar majoritário na opinião pública, o que, de fato, dificulta o debate.

Mas, como jornalistas, temos que encarar a missão de mostrar o que significa na prática encarcerar adolescentes em cadeias superlotadas onde a revolta e a necessidade de sobrevivência favorecem o recrutamento de jovens pelas facções. Também temos que explicar como essa proposta, além de cruel, é inócua para a segurança pública, onde a esmagadora maioria dos adolescentes é antes vítima do que autora da violência.

Onde está a discussão de interesse público, para além da campanha eleitoral, apontando o risco que isso representa para a Constituição brasileira e para a sociedade, que a imprensa conhece tão bem?

Não sou eu que estou dizendo que reduzir a maioridade penal não reduz crimes — são os especialistas em segurança pública, diversas vezes entrevistados pelos jornais. Não é equilibrado publicar críticas substantivas de estudiosos como opinião e retratar um debate tão complexo como se fosse contraposição de dois lados representados como caricaturas: os “linha-dura” e o “povo dos direitos humanos”. Como o debate vai evoluir partindo de ponto equivocado?

Aliás, a imprensa deveria estar mais preocupada com ética do que nunca, quando sua credibilidade foi colocada em xeque pelas últimas revelações sobre Daniel Vorcaro, que atingem alguns veículos em cheio – e sabe-se lá quantas mais virão.

Além de sites de empresários amigos, como o Platô BR, o banqueiro fraudador montou uma rede de veículos que dependiam de publicidade do Master, como IstoÉ, Brazil Journal, Carta Capital e DCM. Antes disso já havia indícios de compra de influência através de patrocínio do banqueiro no site O Bastidor.

Mas também tem peixe grande na rede de Vorcaro – que parece ter penetrado a imprensa como fez com o Congresso e o STF. O grupo Globo teve que demitir um diretor com 29 anos de casa, flagrado em mensagens com Vorcaro, comprometendo-se a pressionar jornalistas que incomodam os interesses do banqueiro; o portal Metrópoles, de propriedade do empresário Luiz Estevão, chegou a se rebaixar a ponto de liberar a edição de textos ao banqueiro fraudador. Isso sem falar das suspeitas que envolvem a revista Veja, com a publicação às vésperas do primeiro turno do áudio de Vorcaro contra Lula, que, segundo hipótese da PF, teria sido gravado na prisão, a pedido de Flávio Bolsonaro.

Sem credibilidade nem sintonia com a sua função social, esse setor da imprensa, que se declara acima do bem e do mal, ameaça afundar o próprio jornalismo. Talvez seja a hora de os defensores da democracia e dos direitos constitucionais apoiarem com firmeza a imprensa independente — como a Pública, a Ponte, a Alma Preta, o Intercept e tantos outros — que não depende de anúncios nem de favores de poderosos, mas apenas da valorização do jornalismo pela sociedade.

Parabéns aos trabalhadores brasileiros e a todos que se mobilizaram pela conquista da jornada 5×2. Estaremos juntos na cobrança ao cumprimento dessa tão esperada mudança na prática, seja quem for que vencer a eleição.

Um jumento na filarmônica

16 October 2026 at 08:00

De orelhas sempre de pé e com uma zurra que ecoa por mais de 3 km entre a vegetação, talvez o jumento não seja a associação mais óbvia que se pense em relação ao universo da música. E, no entanto, aos 33 anos, Antonino Tertulino está mais do que habituado a preencher as caixas mais improváveis.

“Eu me considero um jumento. E eu tenho essa visão, pois nunca penso em ser uma peça de destaque. Aqueles que são muito presenteados, muito exigidos, e como o jumento é subestimado, passa despercebido, sabe?”, conta o jovem magro de cabelos rareando, cujo talento diante de um contrabaixo acústico, já exibido perante ao menos três presidentes e dois papas, há muito, não o deixa passar tão despercebido quanto tenta se enxergar.

No dia 19 de julho, Antonino deixou a Áustria, onde integrava a Orquestra Filarmônica de Salzburgo, para uma semana de passeio pela memória, no Recife, onde nasceu, um compromisso que se tornou regular em seu calendário anual.

Entre as paredes do Teatro de Santa Isabel, templo cultural que, desde a metade do século 19, se fez palco nobre da sociedade pernambucana, ele foi um dos músicos a capitanear uma sequência de apresentações da Orquestra Criança Cidadã, formada por estudantes de 6 a 21 anos, na qual ele mesmo, vinte anos antes, teve sua iniciação no mundo da música. O trote silencioso de Antonino ecoa. O zurro é de gratidão, mas os olhares ao redor são mesmo aspiracionais. O contrabaixista tirou tempo para estar junto das crianças, conceder entrevistas e reencontrar amigos.

O ritual se deu antes dos preparativos para mudar de casa mais uma vez, agora para desbravar a Alemanha, onde acaba de assinar com a Niederbayerische Philharmonie, de Landshut. “Uma das dezessete melhores do mundo”, diz uma das vozes contemplativas no interior do teatro, fazendo jus à megalomania pernambucana, sempre disposta a um ranking que nem sequer carece de fontes. 

A impressão dos que o acompanham é que a carreira de Antonino não tem um limite claro de até onde pode chegar e que segue em rota ascendente, sempre em frente, sem desvios. Quem é do interior, sabe: jumentos têm excelente senso de direção.

Antonino em 7 notas

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DOis coelhos com uma cajadada

Fugir das aulas de física e química. Essa foi a primeira intenção de um Antonino de 13 anos, ainda em 2006, admite o hoje músico, em retrospecto. Aos alunos da Escola Nossa Senhora do Carmo, logo após a apresentação de um quinteto de cordas, foi oferecida a oportunidade de concorrer a uma das vagas do projeto Orquestra Criança Cidadã.

A escolha da unidade de ensino no Coque não foi por acaso. A região do bairro Joana Bezerra carecia de infraestrutura básica e tinha uma pobreza hostil que, muitas vezes, era retratada apenas pela face da violência. Não por menos, o discurso padrão era o de resgate, oferecendo atividades para que os alunos jovens não tivessem tempo de serem capturados pelo trabalho infantil ou cooptados pelo tráfico – e, entre os atrativos, estavam acompanhamento médico e odontológico, bem como refeições regulares.  

As aulas de música seriam no contraturno do calendário escolar, nas dependências do 7º Depósito de Suprimentos do Exército. Como incentivo, a atividade representaria horas de aula – o que, para o garoto, seria uma chance de se livrar das matérias que, àquela altura, já lhe causavam dor de cabeça. O impulso inicial, no entanto, deu lugar à admiração pelo novo mundo.

“Algo que me deixou bem curioso foi a comunicação entre os músicos, sem nenhuma comunicação verbal, sabe? Hoje, com colegas, eu faço isso no dia a dia, na orquestra, essa comunicação de gesto, de olhar, tudo. Mas aquilo teve um efeito “uau” pra mim, de como eles agiam como um time.”

As crianças da região, a partir dos seis anos, foram convidadas a realizar testes de aptidão musical facilitados. O desafio consistia em uma melodia de solfejo e em um método rítmico simplificado. Aprovados, eles seriam divididos entre os instrumentos – e as atenções se voltaram todas ao violino. 

“E eu dizia: ‘aquele ali, rapaz, pelo tamanho, vai ser difícil de controlar’. Se o violino é difícil, aquele ali é ainda mais difícil, pelo tamanho.’ E eu sempre fui franzino, assim, magrinho, né?”, lembra Antonino. Desde então, a relação com o instrumento se fez como complemento de si mesmo e da própria imagem que tentava projetar.

Do Recife para a Alemanha: músico acaba de assinar com a Niederbayerische Philharmonie, de Landshut

“Não é sobre volume, não é sobre show-off, sobre se exibir. É sobre criar o piso, a base para que tudo aconteça. Por isso, sempre pensei ‘aquele ali é o instrumento’. E eu sempre fui muito tímido, porém, com o contrabaixo não tenho timidez. E ele tem essa virtude também, de não ser um instrumento exibicionista. É como se fosse [também] um jumento. Muitas vezes subestimado, porém ali, forte e necessitado, sabe? Pode ser veloz e bonito.”

E assim tem sido, há 20 anos.

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REcife e Carpina, a conexão que não se perde

Voltar para casa pode ser agridoce. O pai de Antonino, Antônio Tertuliano, mora em Carpina, na Mata Norte de Pernambuco. Comerciante, com ensino fundamental incompleto, vêm dele os costumes mais fortes que o músico mantém até hoje. “Meu pai brincava que, no dia em que desse 6h da manhã e ele ainda não tivesse acordado, não acordaria mais. Uma figura”, lembra. As visitas rápidas ao Recife nem sempre permitem vivenciar o estilo de vida do interior ou curtir a família vencendo a distância que se mantém ao longo de todo o ano.

No Recife, por outro lado, as diferenças gritam. Uma delas, que perpassa toda a cidade, o músico descreve apenas como “o barulho”. A poluição sonora, que os ouvidos locais normalizam e praticamente não sentem, salta aos sentidos de quem hoje vive outra realidade. 

Andar pelas ruas da comunidade onde cresceu também pode ser desafiador, até mesmo para a própria memória. No Coque, Antonino descreve ver, a cada visita, um processo de “desfavelamento”, com a remoção de barracos e a mudança da dinâmica da própria região, onde, conta, convivia com colegas de orquestra ao máximo durante as aulas porque, fora dela, os espaços possíveis de trânsito eram delimitados pela área onde cada um morava, em que cada trecho era reclamado por grupos diferentes ligados ao crime local.

A segurança acaba sendo um tema recorrente das reflexões inevitáveis ao comparar a realidade atual com as alternativas, caso suas escolhas fossem diferentes. E, ainda que o contexto de Israel envolva até mesmo a guerra, ele diz que regressar ao Recife “é outro tipo de terror”. 

“Ontem estávamos jantando a um quilômetro do hotel e ‘vamos pegar um Uber por segurança’. Isso é tirar a sua individualidade e sua independência. Apesar das guerras, eu digo que me sentia muito mais seguro em Tel Aviv do que na minha cidade. Isso é muito triste. De você poder fazer uma chamada de vídeo, uma, duas da manhã, caminhando na rua, e, no máximo, vai chegar alguém pedindo informação ou pedindo ajuda pra empurrar um carro, sabe? Mas a sensação de que alguém iria me roubar, ou fazer algo contra mim, nunca existiu. Eu falo que em Israel também eu aprendi a valorizar a vida. Porque aqui no Recife o perigo acontece, mas, de certa forma, também temos que viver com isso”, lamenta.

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MInha vez

Enquanto milhões de brasileiros se encaminham às urnas para as eleições de 2026, os jovens da Orquestra Criança Cidadã estarão completando o primeiro aniversário de sua última incursão do outro lado do mundo, que começou no Parque Memorial da Paz, em Hiroshima, no Japão, um dos Concertos pela Paz. 

A cidade, assolada por uma bomba nuclear norte-americana durante a Segunda Guerra Mundial, foi uma das paradas da turnê promovida pelo projeto social do Recife, que abrangeu três países. A iniciativa reuniu músicos de áreas de conflito para tocarem junto com as crianças e envolveu, por exemplo, encontro da música clássica de artistas da Rússia e da Ucrânia no mesmo palco, um recado que excede qualquer limite imposto pelas guerras.

Após passarem pela Coreia do Sul, as crianças do projeto encerraram a sequência de shows no Vaticano, com uma performance na Praça de São Pedro, diante do Papa Leão 14. Não foi o primeiro Papa para quem o projeto se apresentou. Desde 2011, quando estava prestes a ser encerrado, após um apelo feito diretamente ao presidente Lula, o projeto recebeu patrocínio de um banco estatal, o que permitiu a estruturação da iniciativa e passou a viabilizar voos mais altos. 

Evento do 5º Aniversário da Orquestra Criança Cidadã (OCC) com a presença de Lula

Ao longo desse período, os jovens se apresentaram para três presidentes, dois papas e tiveram comitivas tocando em países como Argentina, Itália, Japão, Estados Unidos e Portugal. Em 2010, foi reconhecida como boa prática de inclusão social pela Organização das Nações Unidas (ONU) e, em 2015, foi a segunda escola de música do mundo a integrar o Programa de Escolas Associadas da Unesco.

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FÁbulas e farpas

Cerca de 400 crianças e adolescentes, entre 6 e 21 anos, são atendidos pela Orquestra Criança Cidadã, sendo 250 no Coque, primeira sede do projeto, além de 120 em Camela (Ipojuca) e 30 em Chã de Cruz (Igarassu), ambos na Região Metropolitana do Recife. Além das aulas de música, o projeto previa a alimentação dos integrantes e, em geral, foi bem recebido pela comunidade.

A iniciativa não passa ilibada de críticas de organizações sociais que atuam no Coque, devido ao discurso de salvamento que sempre associou, na ponta contrária da atuação das crianças na música, à criminalidade. À época, a região foi escolhida para sediar a intervenção por ser uma das de menores índices de desenvolvimento humano na capital pernambucana e por ser frequentemente associada, na imprensa, a casos de violência urbana.

“Eu conheci o Coque quando fui assaltado nas suas imediações […] Tive sorte de não levar uma bala no crânio”. Com essa frase, um dos três idealizadores do projeto, e primeiro maestro da orquestra, Cussy de Almeida, apresentava a comunidade em rede nacional, durante a apresentação da OCC no antigo Domingão do Faustão, em 2008, à época, com 103 integrantes. 

Além de Almeida, também fizeram parte da concepção do projeto o desembargador Nildo Nery dos Santos, falecido, e o juiz João Rocha Targino, que também participou do projeto à época conclamando figuras políticas a escolherem “se quer[em] formar cidadãos como esses, ou se quer[em] formar presidiários”.

Apresentação da Orquestra Cidadã no Domingão do Faustão em 2008
Apresentação da Orquestra Cidadã no Domingão do Faustão em 2008

Frases ditas por Cussy na ocasião, como “Eles eram pequenos índios”, “estão arrodeados do crime”, “Eles sabem comer com o garfo na mão esquerda, a faca na mão direita, ele sabe escovar dente, passar fio dental, tem asseio, sabe entrar no banheiro sem deixar rastro” e “hoje em dia são meninos que você pode levar pra sua casa e passar um fim de semana” são, ainda hoje, citadas para criticar o discurso dos idealizadores quanto à manutenção de estigmas enfrentados pela comunidade. Na ocasião, o programa chegou a apresentar-se como uma iniciativa “que tira crianças da rua” e Fausto Silva chegou a usar a expressão “essa gente do Coque”. O maestro faleceu dois anos depois, aos 74 anos.

Questionado sobre o papel do discurso intervencionista da direção da Orquestra na manutenção de estereótipos que afetam a comunidade, o idealizador ainda à frente da OCC, o juiz João Rocha Targino, responde que acredita que “somos todos irmãos” e que o Coque “sempre foi visto” como palco de “marginalidade e prostituição, não igual a outros bairros do Recife”, mas que acredita que a promoção de oportunidades e que a região tem pessoas “pobres de bens materiais, mas ricas de talento”.

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SOL sem céu

Antonino deixou o Coque para tocar na Orquestra Sinfônica de Goiânia, onde permaneceu por dois anos até dar início a um bacharelado em música em Tel Aviv. Foi quando a distância exigiu um preço maior. Com a mãe, Maria Denise, falava nas madrugadas, por videochamada. E lembra do desejo de apresentar o mundo da música que passou a desbravar.

“Antes era uma coisa muito simplória, muito singela. Depois, tudo se otimizou, cenário internacional, sabe? […] Se antes ela já ficava orgulhosa só de ir assistir às apresentações…”, conta.

Ao longo de cinco anos, Antonino estudava e se dedicava a um objetivo: integrar a Orquestra Filarmônica de Israel, uma das mais reconhecidas do mundo, dirigida pelo maestro indiano Zubin Mehta desde 1969. Foram cinco tentativas fracassadas. Em algumas, ninguém sequer chegou a ocupar a vaga oferecida. A filosofia era a de que apenas os mais preparados podiam integrar o grupo. 

O jogo virou em 2021, quando o contrato do posto de contrabaixista lhe foi oferecido. “Eu me lembro da primeira ligação após a audição. Foi pra minha mãe. Mesmo sem saber o que era a Filarmônica de Israel, ou quem era Zubin Mehta. Mas ela via a euforia na minha fala e então só dizia: ‘Poxa, estou tão orgulhosa de ti, quero muito te ver [se apresentando]’, lembra. Não viu.

Algumas semanas depois, no Recife, a doméstica Denise faleceu aos 64 anos, vítima de um mal súbito, e não chegou a testemunhar o filho em carreira internacional. “Foi muito precoce o falecimento da minha mãe. Foi algo muito súbito. Não teve um processo, não teve um… E foi quando eu tinha acabado de girar a chave pro profissionalismo, sabe? Foi algo assim que, ou eu desmorono com tudo aquilo que eu vinha construindo, ou utilizo isso como nutriente, pra minha música, pra minha trajetória”, avalia.

Eu vejo que as simplicidades que minha mãe tinha, a limitação que ela tinha para se expressar, sabe? Essa dificuldade que ela tinha de se expressar, de fazer o que ela sonhava, mas não era por ela não saber, era totalmente falta de conhecimento, falta de oportunidade, que ela não teve. Eu não tenho dúvida de que a mamãe estaria muito orgulhosa de ver esse momento.”
Antonino Tertulino
Contrabaixista
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LÁ pro lado das Europas

O macarrão estava cozendo na água fervente quando o som de uma sirene tomou conta da vizinhança. Mais uma. Era o sistema antiaéreo de defesa antimísseis que alertava sobre possíveis ataques na área urbana de Tel Aviv. O ano era 2023, início do conflito com o Hamas, mas duas semanas já eram tempo suficiente para Antonino entender: “Eu não vim aqui pra isso. Essa não é a minha guerra”, resume o pensamento.

Foi assim, meio que às pressas e se recusando a normalizar a convivência com sirenes de guerra, que um plano engavetado do contrabaixista ganhou nova luz: aplicou para um mestrado na Mozarteum University Salzburg, na Áustria, foi aprovado e conseguiu antecipar o início das aulas. Assinou então com a Orquestra Filarmônica de Salzburgo até 2026, logo após voltar do reencontro com as crianças da OCC, quando se mudou para o norte da Alemanha, para um novo desafio: a Niederbayerische Philharmonie. 

“Eu ainda acredito que foi tudo muito precoce. As coisas, as oportunidades vieram, eu abracei as que pude, as que digo, as portas que eu abri, sabe? E eu continuo com fome de continuar essa caminhada.”

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SInfonia da gratidão

Mais de 700 crianças e adolescentes já passaram pelo projeto Orquestra Criança Cidadã – e ao menos 360 delas se revezaram no palco do Teatro de Santa Isabel, no Recife, no fim das férias de julho, para a apresentação dos 20 anos do projeto. Orquestras infantis, infantojuvenis e jovens revisitaram da música clássica aos sucessos regionais, com releituras próprias, algumas vezes acompanhadas de um coro infantil. 

Antonino, convidado de honra, se apresentou em destaque como a principal referência de sucesso da proposta, iniciada ainda em 2006. Repetiu o ritual de sempre: pouca salada, muita água e várias sessões de meditação ao longo do dia até subir ao palco. Dividiu os holofotes com colegas músicos, que convidou das orquestras europeias das quais participou, com o mesmo empenho e ares de showman que exibiu ao estar à frente dos pequenos talentos recifenses por duas noites consecutivas.

  • Apresentações da Orquestra Criança Cidadã no Teatro de Santa Isabel
  • Apresentações da Orquestra Criança Cidadã no Teatro de Santa Isabel
  • Apresentações da Orquestra Criança Cidadã no Teatro de Santa Isabel
  • Apresentações da Orquestra Criança Cidadã no Teatro de Santa Isabel
  • Apresentações da Orquestra Criança Cidadã no Teatro de Santa Isabel

Em frente a um público de 570 espectadores, com movimentos precisos, ele claramente se transportava a outro lugar, onde se encontrava em pleno conforto. Como se, de suas mãos, dependesse o mundo. Carrega ali arte, fardo, história e um tanto mais de expectativas ainda não alcançadas, que não divide.

Perguntado sobre estacionar e fazer carreira em uma única orquestra, em que possa ascender e encontrar zona de conforto, Antonino ri: “Não sou mustang, não sou manga larga [raças de cavalo]. Quero sempre ser a base, estar aprendendo, participar de algo que seja muito maior que eu”, resume o contrabaixista que faz questão de descobrir os maiores verdes pastos que o mundo que anda desbravando ainda lhe possa ofertar. Você sabe, coisa de quem se diz jumento.

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

15 October 2026 at 23:00

Na noite de quarta-feira (14), empresários conservadores, influenciadores digitais e autoridades do governo dos Estados Unidos se reuniram no Andrew W. Mellon Auditorium, na capital Washington, D.C., para a festa de gala da Hispanic Heritage, organizado pela plataforma financeira Latino Wall Street.

O homenageado do evento foi Javier Milei, presidente da Argentina. Seu principal aliado no Brasil, Eduardo Bolsonaro, foi um dos convidados de honra.  

Na entrada, convidados trajados com roupas brilhantes e smokings cercaram Eduardo para tirar selfies e apertos de mão. Muitos perguntavam sobre o pai, Jair Bolsonaro, que cumpre em casa a pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Outros demonstravam entusiasmo com a liderança do irmão Flávio Bolsonaro no primeiro turno da disputa presidencial contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Eduardo conversou com veículos de comunicação identificados com o movimento MAGA (“Make America Great Again”, um dos slogans de Donald Trump), como a ex-boxeadora Cara Castronuova, uma das correspondentes da Casa Branca alinhadas ao governo. Ele também posou ao lado de Javier Negre, comunicador espanhol apelidado de “Rei Midas da viralidade”. Negre é sócio de Fernando Cerimedo, marqueteiro argentino de extrema direita, detido em agosto na Bolívia, acusado de envolvimento em ataque a tiros contra a ex-companheira.    

Em determinado momento, na entrada do evento, uma mulher que parecia ser uma das convidadas segurou o braço de Eduardo e ambos olharam para baixo, compenetrados. Eles rezavam pelo Brasil. Quem também tietava Eduardo Bolsonaro era a autointitulada diplomata espiritual, consultora de direitos humanos e empresária gaúcha Luciana Pananos, que mora nos EUA. 

Do lado de dentro, iniciada a cerimônia, os oradores no palco falavam sobre acabar com a criminalidade e derrotar o socialismo na América Latina. Na plateia, os convidados, que pagaram entre US$ 3 mil e US$ 10 mil para participar do evento, saboreavam almôndegas de wagyu (carne bovina de origem japonesa), pato defumado com amoras, abacate recheado grelhado e filé-mignon bovino defumado. 

“Vamos expulsar o ditador comunista do Brasil”, bradou o homenageado da noite, Javier Milei, após abraçar calorosamente Eduardo, que deu chutes no ar como se estivesse expulsando Lula do posto. O presidente da Argentina disse ainda que os conservadores “não podem ceder um centímetro em nossa reconquista do hemisfério”. 

“Um discurso inspirador”

Após a fala de Milei, Eduardo discursou. Ele ponderou que o resultado da eleição ainda não estava definido. Mas o tom era abertamente comemorativo. “Quando confirmarmos a vitória do meu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, como presidente do Brasil, vamos entrar em uma nova era, que eu chamo de Era de Ouro da América Latina!”

O deputado cassado adotava um dos slogans de Donald Trump, que costuma dizer que o país vive uma nova “era de ouro” sob sua batuta. “Temos tudo para ser iguais aos Estados Unidos”, completou Eduardo.

Durante o discurso, ele também louvou outros presidentes de extrema direita na América Latina, como Nayib Bukele, de El Salvador, e o colombiano Abelardo de la Espriella.

“Amamos todos aqueles que dificultam a vida dos criminosos”, declarou, acrescentando que “pela primeira vez veremos todos os países [da América Latina] combatendo o narcoterrorismo”. O público aprovou e aplaudiu entusiasmado. Um empresário do setor imobiliário que atua em Honduras disse à reportagem que considerou o discurso “inspirador” e que o Brasil deveria adotar o “modelo Bukele”. 

Flávio e Eduardo já visitaram o CECOT, o megacomplexo penitenciário para onde o governo Trump enviou imigrantes que, segundo relatos, foram torturados. Se a vitória de Flávio Bolsonaro se concretizar, o Brasil pode integrar a coalizão Escudo das Américas, formada por 19 países da região e liderada pelos EUA.  

“O melhor ainda está por vir”, declarou Eduardo Bolsonaro, prometendo libertar o Brasil, começando por seu pai.

Mais que entusiasta da candidatura do irmão à Presidência, Eduardo é um dos nomes mais cotados para se tornar o próximo ministro das Relações Exteriores do Brasil em um eventual governo de Flávio. Desde que se mudou para os EUA, no início de 2025, o filho 03 de Bolsonaro perdeu o mandato de deputado federal por faltar a mais de 80% das sessões e também foi despojado do emprego como investigador da Polícia Federal por abandono de posto. 

No início de outubro, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes expediu um mandado de prisão contra ele, após sua condenação a mais de quatro anos de prisão por fazer lobby junto ao governo Trump contra o Judiciário brasileiro. Mas, no universo MAGA, Eduardo é uma estrela e a eleição de seu irmão é tratada como um fato consumado.

Obra de arte autografada por Eduardo Bolsonaro mostra a América Latina sob a bandeira dos EUA

Em conversa com jornalistas antes do evento, Eduardo descartou as preocupações com a ingerência dos EUA nas eleições brasileiras e voltou a repetir alegações sem fundamento que já foram contestadas: segundo ele, durante o governo de Joe Biden, a agência oficial de ajuda humanitária USAID, fechada por Trump em 2025, financiou ONGs e veículos de comunicação sob o pretexto de combater a desinformação, com o objetivo de impedir a reeleição de Jair Bolsonaro em 2022.

“O Brasil já sofreu uma interferência internacional. O que eu vejo agora é justamente o oposto”, afirmou. A primeira medida de um eventual governo de seu irmão seria “expurgar esse câncer chamado Alexandre de Moraes” do STF, disse ele, referindo-se ao ministro como um “tirano”. Caso contrário, seu irmão não conseguiria governar, na opinião do deputado cassado. Perguntado se voltaria para o Brasil mesmo com o pedido de prisão, Eduardo negou. “Eu não vou puxar uma cadeia sendo inocente, não”, afirmou.

Eduardo circulava pelo salão de baile acompanhado de perto pelo blogueiro de extrema direita Allan dos Santos. Foragido nos EUA desde 2021, quando teve prisão decretada pelo Supremo, o blogueiro é investigado em dois inquéritos sobre a criação de milícias digitais e propagação de fake news.

Eduardo Bolsonaro cercado pelo blogueiro foragido por Allan do Santos e por membros da Revista Timeline

Presença frequente em eventos conservadores nos EUA, Eduardo também conversou informalmente com Matt Schlapp, presidente da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), e sua mulher, Mercedes, que mencionou os Bolsonaro em seu discurso e previu que Flávio será eleito presidente do Brasil. “Colocamos a América Latina de volta nos trilhos”, afirmou ela.

Já no fim da noite, enquanto os convidados dançavam ao som de La Bamba, Conga e Macarena, a reportagem conversou com Lena Ruseva, que vestia um longo vestido vermelho estampado com o rosto de Trump e a frase “Drill, baby, drill” (“Perfure, baby, perfure”, slogan de Trump em alusão à exploração de petróleo).

Autodenominada artista America First, Ruseva contou que Milei havia gostado tanto do retrato que ela fez dele especialmente para a ocasião que quis ficar com a obra. Ela também demonstrou orgulho do quadro que teria dado de presente a Trump em um de seus aniversários.

A artista trumpista Lena Ruseva em entrevista na chegada à festa

Algumas de suas obras estavam expostas no salão e seriam leiloadas, com lances iniciais de US$ 10 mil. Entre elas, havia uma representação da bandeira americana com o contorno da América Latina. Eduardo Bolsonaro assinou a obra com letras douradas.

“Disse a ele que ficaria com o quadro até que se tornasse o próximo presidente do Brasil”, contou ela.

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

15 October 2026 at 20:53

Com a boca vermelha e a pele totalmente pintada de verde, Deborah Secco adentrou o Baile da Vogue de 2024, no Copacabana Palace, alternando entre sorrisos fartos e carão carregado nos olhares sensuais, um combo recorrente que já virou tradição no evento, no qual é convidada de destaque. A atriz encarnava um ser extraterrestre de roupas curtas, brancas, com direito a um bebê alien a tiracolo, no estilo carnavalesco típico da celebração, uma das grandes apostas publicitárias da Vogue Brasil e da Editora Globo nas semanas que antecedem o Carnaval.

Mas enquanto posava para os fotógrafos de dezenas de publicações e curtia a festa com sua tradicional animação, Deborah, que dividia o espaço com a nata executiva do Grupo Globo, estava desavisada do julgamento de alguns dos presentes mais relevantes do evento. “Eu só olhava pra bunda dela rs”. As palavras são do então diretor-geral de mídias impressas e rádios da Editora Globo, Frederic Kachar, para o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, horas depois. “Mas tava muito feia kkk”, rebateu o banqueiro. “Concordo que a fantasia era broxante”, completou Kachar. “Tá doido, mulher não pode fazer isso”, disparou Vorcaro.

Os diálogos fazem parte de um conjunto de mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF), entre outubro de 2023 e julho de 2025, cujo vazamento ganhou força nesta semana e levou à demissão do executivo de mídia nesta quinta-feira (15). Em nota, o Grupo Globo não menciona o conteúdo misógino das mensagens como um dos motivos da demissão, mas sim a preservação da independência editorial da Editora Globo.

Nota na íntegra

Grupo Globo comunica desligamento de Frederic Kachar e reforça independência editorial de seus veículos.

O Grupo Globo comunicou hoje o desligamento do diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, Frederic Kachar. O conteúdo das conversas privadas mantidas com Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025, às quais a empresa teve acesso ontem, revela uma relação inadequada do executivo com um anunciante.

A Editora Globo reforça seu compromisso com a ética e a transparência e reafirma a absoluta independência editorial do jornalismo de seus veículos, premissa essencial de sua atuação. O protagonismo da cobertura crítica, isenta e independente que tem feito do caso Master é a demonstração concreta do compromisso inegociável de seus veículos com os Princípios Editoriais do Grupo Globo.

A empresa reconhece os 29 anos de dedicação de Kachar ao desenvolvimento de seus negócios de mídia e informa que o nome de seu substituto à frente da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio será divulgado em breve.

Comunicação Globo
Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2026
Mais informações: https://imprensa.globo.com/

Além de comentários objetificando atrizes ligadas ao próprio Grupo Globo, o conteúdo revela comentários machistas e convites mútuos para festas com mulheres, discrição “sem celular” e encontros descritos como idas à “Ucrânia”.

Um baile de machismo

“Muita mulher pro crime e só gay. Elas tavam dando em cima mesmo acompanhado”, foi assim que Fred Kachar descreveu o ambiente do evento da revista até então sob sua responsabilidade. E completou: “Me fodi. Minha ex foi e marcou em cima”. Ele fazia menção à atriz Monique Alfradique, que também chegou a se envolver com Daniel Vorcaro meses depois. De acordo com a assessoria de imprensa da atriz, no entanto, o relacionamento dos dois não chegou a ser um namoro e o título de “ex”, usado por Kachar, não seria apropriado. 

Em seguida, o ex-diretor-geral passou a comentar sobre convidadas que trabalham no Grupo Globo. “Deborah secco tava pra jogo”, escreveu Kachar. O executivo da Globo ainda relata que a atriz seria madrinha do camarote do Grupo no Carnaval do Rio de Janeiro e teria dito querer “curtir solteira” nos festejos. “Relação aberta. Preciso de uma dessas”, escreveu Kachar. “Todos nós”, respondeu Vorcaro.

A assessoria de Déborah Secco repudiou a associação indevida do nome da atriz a comentários de teor machista, desrespeitoso e irresponsável, disse que a atriz não conhece Daniel Vorcaro e que sua relação com Fred Kachar sempre foi estritamente profissional. “Tiveram encontros em trabalhos, onde foram fotografados, sem qualquer vínculo entre eles”. A equipe da atriz também destacou que os comentários que se tornaram públicos diz respeito a um evento “onde ambas estavam trabalhando”.

“É inadmissível expor a imagem e a reputação de uma mulher com base em uma narrativa que não corresponde à sua realidade. Também é lamentável a forma como mulheres foram mencionadas, em comentários que não devem ser tratados com naturalidade nem usados para alimentar especulações”, diz a nota.

Leia a nota na íntegra

Diante das informações divulgadas, a assessoria de Déborah Secco repudia a associação indevida do nome da atriz a comentários de teor machista, desrespeitoso e irresponsável.

Déborah Secco não conhece Daniel Vorcaro. Sua relação com Fred Kachar sempre foi estritamente profissional, tiveram encontros em trabalhos, onde foram fotografados, sem qualquer vínculo entre eles.

É inadmissível expor a imagem e a reputação de uma mulher com base em uma narrativa que não corresponde à sua realidade. Também é lamentável a forma como mulheres foram mencionadas, em comentários que não devem ser tratados com naturalidade nem usados para alimentar especulações.

A assessoria repudia qualquer tentativa de envolver a atriz Déborah Secco nesses acontecimentos. Sua trajetória, construída ao longo de anos de trabalho, merece ser tratada com responsabilidade e respeito.

Também é importante esclarecer que o comentário de teor machista e misógino surgiu a partir da presença de Sabrina Sato e Deborah Secco no Baile da Vogue 2024, onde ambas estavam trabalhando. Algumas publicações, no entanto, vêm apresentando os fatos de forma descontextualizada, dando a entender que elas estariam em uma festa com Daniel Vorcaro e Fred Kachar, o que não corresponde à realidade. Daniel Vorcaro, inclusive, não estava
presente no evento.

O banqueiro reagia às impressões do amigo, cuja relação seria uma “amizade que supera negócios”, mas não esteve presente no evento de 2024, em que suas empresas figuravam como patrocinadoras. A tabela com o orçamento para patrocínio em 2025, compartilhada no WhatsApp, considerava reajuste sobre os valores do ano anterior, que supostamente somaram R$ 1,7 milhão no Baile da Vogue e no Carnaval em 2024.

Outra artista citada no contexto da festa e de que estaria “pra jogo” foi a apresentadora Sabrina Sato. “Sabrina [Sato] também. Aniversário dela.”, disse Fred Kachar em relato para o banqueiro Vorcaro. “Soltinha”, resumiu o executivo sobre a profissional que estava em uma festa carnavalesca.

Sabrina Sato disse nunca ter tido contato com Daniel Vorcaro e relata que encontrou Kachar apenas em uma premiação de revista, quando foram fotografados, mas nega qualquer vínculo entre eles. “É inadmissível expor a imagem e a reputação de uma mulher com base em uma narrativa alheia à sua realidade. O respeito à dignidade das mulheres não é uma concessão. É um direito. E comentários desta natureza não podem ser tratados com naturalidade, reproduzidos ou utilizados para alimentar especulações”, afirmou em nota à Pública.

Nota na íntegra

Diante das informações divulgadas, a assessoria de Sabrina Sato repudia a associação indevida do nome da apresentadora a um comentário de teor machista, desrespeitoso e irresponsável.

Sabrina nunca teve qualquer contato com Daniel Vorcaro e encontrou Fred Kachar apenas em uma premiação de revista, ocasião em que foram fotografados, sem qualquer vínculo entre eles.

É inadmissível expor a imagem e a reputação de uma mulher com base em uma narrativa alheia à sua realidade.

O respeito à dignidade das mulheres não é uma concessão. É um direito. E comentários desta natureza não podem ser tratados com naturalidade, reproduzidos ou utilizados para alimentar especulações.

Qualquer tentativa de envolver Sabrina nesses acontecimentos é repudiada. Sua trajetória, construída ao longo de anos de trabalho, merece ser tratada com responsabilidade e respeito.

Não é sobre fama, nem sobre desejo

A Agência Pública questionou o grupo Globo se denúncias foram feitas ao compliance da companhia quanto à relação de atrizes e outras artistas e sua relação com figuras de poder como Kachar na dinâmica corporativa da empresa, mas não obteve resposta até o momento.

“O que mais me chama a atenção nesse episódio, para além da gravidade do conteúdo das conversas divulgadas, é a relação entre poder, comportamento e silêncio. Quando alguém ocupa uma posição de influência, suas atitudes têm consequências que ultrapassam as relações individuais”, resume a psicóloga organizacional e fundadora do Instituto Internacional em Segurança Psicológica (IISP), Patrícia Ansarah. O IISP atua na prevenção de riscos psicossociais, de assédio, de sobrecarga e de violência organizacional.

Segundo Ansarah, quando comportamentos machistas e misóginos são naturalizados, minimizados ou protegidos por relações de poder, perpetuamos uma cultura patriarcal que legitima a desigualdade e a reação da sociedade a esse tipo de episódio vivenciado pelas atrizes do Grupo Globo ajuda a definir o que é tolerado, o que pode ser questionado e quais são as consequências para quem decide reagir.

“Em uma sociedade marcada por profundas assimetrias de poder, discordar, impor limites ou denunciar comportamentos abusivos pode ter um custo muito alto. E isso se torna ainda mais grave para as mulheres, que, historicamente, enfrentam barreiras para serem ouvidas, levadas a sério e protegidas quando decidem denunciar. A escolha entre expor publicamente uma violência e se preservar, neste contexto, é fácil: o silêncio predomina.”

A manifestação do economista Fred Kachar a respeito de mulheres, no entanto, não se limitava a famosas de seu convívio no Grupo Globo. Em 19 de janeiro de 2024, semanas antes do Baile da Vogue sobre os quais os comentários machistas foram feitos, o executivo e o banqueiro discutiam a proposta de patrocínio do Banco Master para o período carnavalesco quando Kachar perguntou se Vorcaro iria à Sapucaí. Vorcaro disse que precisava “fugir esse ano” e brincou que só Kachar conseguia “passar ileso tanto tempo” no Carnaval. Ao que o ex-diretor-geral da Globo respondeu: “Ileso nada. Três ex minhas nesse ano. Vou pôr um tatame na pista. Só vou ligar o foda-se. Todas achando que estão comigo. E eu vou fingir demência.”

Preocupação apenas com “indiscrições”

As mensagens vazadas entre Kachar e Vorcaro registram ainda convites do banqueiro para eventos restritos. Em 7 de fevereiro de 2024, o banqueiro disparou: “Bora hoje, que vai ser animado. Tem dois oligarcas russos indo e plantel [equipe]”. Vorcaro continuou descrevendo que seria no bairro dos Jardins, em São Paulo, em “lugar fechado, só convidado”. Kachar não teria comparecido. Dois dias depois, o banqueiro escreveu: “Seu bolo tá anotado. Perdeu”.

Os encontros do gênero passam a ser mencionados com expressões de guerra nas semanas seguintes. Em 12 março de 2024, Vorcaro disse que o plano da noite seria um “ataque soviético”. Mais tarde, Kachar perguntou se ele já estava “na Ucrânia”. Dias depois, o executivo quis saber se haveria “guerra na Ucrânia nessa semana”. “Tem hoje. Bora?”, respondeu o banqueiro, informando que começaria às 23h. Em maio, Vorcaro disse que as festas aconteciam “toda terça”.

Em 15 de maio de 2024, em Nova York, na semana do prêmio Personalidade do Ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, Vorcaro disse que não iria a outro evento da programação e escreveu: “Fechei um lugar. Sem celular. E sem risco. Pra verdadeira festa rsrs”. Kachar respondeu: “É nessa que eu vou! Posso, né?”. “Óbvio. Convidado de honra”, disse o banqueiro. O executivo da Globo chegou ao local perto da meia-noite.

No dia seguinte, Kachar agradeceu o convite: “Será que alguém anotou a placa do caminhão que me atropelou rs?” e disse ter ido embora às 0h45. Vorcaro contou que chegou às 4h e acordou às 7h. “Ídolo. Se eu faço isso saio de ambulância do quarto”, escreveu Kachar. O banqueiro completou: “Só que fiz isso 3 dias seguidos. Ainda com a Fabíola me esperando no hotel kkkk”. O executivo respondeu: “Não acredito. Ela veio? Ídolo máximo, então. Isso eu jamais consegui” e depois conclui: “Eh um accomplishment [realização marcante]”.

Kachar e Vorcaro foram procurados pela Pública, mas até o momento não se pronunciaram sobre o caso. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

COP propõe intervenção em 22 matérias para modernizar o desporto português

15 October 2026 at 20:19

O Comité Olímpico de Portugal (COP) já apresentou ao Governo os seus contributos para a revisão da Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto e de outros diplomas estruturantes do setor, defendendo uma atualização do enquadramento legal do desporto português, quase duas décadas depois da aprovação da atual Lei de Bases. A proposta […]

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

15 October 2026 at 19:39

Enquanto governistas discursavam a favor do projeto que estabelecia o fim da escala de trabalho 6×1, parlamentares da oposição se reuniam para debater estratégias e discursos da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. A reunião durou mais de três horas e aconteceu no gabinete do líder do PL no Senado Federal e chefe da campanha de Flávio, Rogério Marinho (RN), que não compareceu ao plenário nem participou da votação da proposta — aprovada na noite de quarta-feira (14), como mostrou a Agência Pública. Procurado pela reportagem, Marinho não retornou até a publicação. 

Discussão e votação, em primeiro turno, da proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1
Discussão e votação, em primeiro turno, da proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6×1

Outros dois aliados de Flávio também não votaram: os senadores Sérgio Moro (PL-PR) e Marcio Bittar (PL-AC). O presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União-AP), que presidiu a sessão, não votou. Pelas regras do regimento interno do Senado, o presidente não vota. Entretanto, a norma permite que o parlamentar entregue o comando da Casa a outro senador para que este participe da votação. O texto foi aprovado em dois turnos por 75 votos a favor e um voto contrário: o do ex-vice-presidente da República, Hamilton Mourão (Republicanos-RS). 

Painel de votação do Senado sobre a PEC do fim da escala 6x1
O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) foi o único parlamentar a votar contra a PEC que acaba com a escala de trabalho 6×1 no Senado

Rogério Marinho é autor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC), apresentada em maio deste ano, que prevê uma jornada por regime de horas trabalhadas — alternativa da oposição à PEC que estabeleceu o fim da escala 6×1. Flávio Bolsonaro e seus aliados sempre se posicionaram contra a redução da jornada de trabalho sem impacto nos salários, por considerarem que isso representaria prejuízos econômicos à indústria. No entanto, diante da campanha governista e da mobilização popular em favor da proposta, Flávio recuou e afirmou que votaria a favor da aprovação do texto. A mudança foi anunciada na terça-feira (13), após ele visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. 

Flávio Bolsonaro durante evento de campanha em Porto Alegre
Flávio Bolsonaro trocou a votação sobre o fim da escala 6×1 no Senado por um ato de campanha em Porto Alegre

O novo discurso foi reforçado durante a reunião no gabinete de Rogério Marinho. Além dele, três correligionários do PL estavam no encontro: os senadores Magno Malta (ES), Carlos Portinho (RJ) e o eleito José Medeiros (MT). Também estavam presentes três congressistas do PP: a senadora e ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro, Tereza Cristina (MS); o senador eleito e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (AL); e o deputado federal Ricardo Barros (PR), ministro da Saúde na gestão de Michel Temer. 

“A gente não pode deixar a narrativa nas mãos do adversário”, declarou à Pública, sob reserva, um dos membros da reunião a respeito da mudança no discurso da campanha a menos de duas semanas para o segundo turno das eleições. “Foi uma decisão do presidente [Flávio] e o Lira também concordou”, completou o parlamentar. 

Questionado pela Pública após sair da reunião, Lira afirmou que não foi ao gabinete para tratar da PEC em votação.

Flávio Bolsonaro votou à distância enquanto participava de um ato político em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Ele subiu ao palanque ao lado dos governadores eleitos Luciano Zucco (PL-RS) e Sérgio Moro (PL-PR); e dos governadores reeleitos Jorginho Mello (PL-SC) e Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Na ocasião, afirmou aos apoiadores que o governo terá que “pagar a conta” do novo modelo de trabalho para compensar empresários que, segundo ele, estariam “quebrados”.

Senado conservador: “não teremos medo de realizar todas as mudanças necessárias”

Aliados de Flávio confirmaram à Pública que a campanha se reuniu, ao longo do último mês, com empresários para discutir as possíveis consequências da implantação da nova jornada de trabalho. A transição de 44 para 40 horas semanais será gradual e começará a valer dois meses após a promulgação da PEC —  função do presidente do Congresso. Durante o primeiro ano da nova regra, a jornada terá um limite de 42 horas. Após esse período, o limite passará a ser oficialmente de 40 horas. 

Diante disso, Flávio sinalizou ao setor empresarial que, caso eleito, pretende aplicar medidas “compensatórias”; entre elas, propostas legislativas que revertam os efeitos do fim da escala 6×1. As ações seriam possíveis com o apoio dos parlamentares do PL no Congresso Nacional. Em 2027, a legenda terá a maior bancada das duas casas: 28 senadores e 121 deputados. “Com um Senado conservador, não teremos medo de realizar todas as mudanças necessárias”, disse uma parlamentar da extrema-direita à reportagem, sob condição de anonimato. 

Após a imprensa revelar a articulação com representantes da indústria, contudo, o discurso da campanha tornou-se mais cauteloso. O senador Carlos Portinho (PL-RJ) declarou que a medida estudada por uma possível nova gestão bolsonarista é a desoneração da folha de pagamento. O benefício já é garantido a 17 setores da economia. Com ele, há uma diminuição expressiva no percentual de impostos pagos pelas empresas, decorrente de uma tributação baseada na receita bruta total, em vez de uma taxa fixa sobre o salário dos funcionários. 

“Como a gente não tem os dados [de possíveis prejuízos com a aprovação], não pode avaliar, a gente entende que a proposta para o trabalhador é um benefício. Para o setor produtivo, a gente terá instrumentos no futuro para tentar mitigar, o que só empiricamente a gente vai poder comprovar se houve dano ou não. A única coisa que falei aqui é que isso vai ser avaliado durante a execução da lei e vai ter impactos, é lógico. E, para mitigar o setor produtivo, pode voltar a desoneração da folha para tentar equilibrar essa relação”, declarou Portinho. 

Na Câmara dos Deputados, a oposição se manifestou de forma mais incisiva contra o novo modelo de trabalho. Durante a discussão do texto no Senado, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), frisou que o partido defende a aprovação, no ano que vem, de uma PEC sobre jornada de trabalho por horas trabalhadas. Conforme o parlamentar, a proposta dará a opção de escolha entre a contratação baseada na Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) ou por meio do modelo de Microempreendedor Individual (MEI). 

Mesmo com os votos favoráveis da oposição em meio a pressão eleitoral, o plenário do Senado foi tomado pela base governista. Uma semana antes da votação, parlamentares do PL ainda acreditavam que a pauta poderia ser adiada com uma possível reavaliação por parte de Davi Alcolumbre, em meio a negociações para se reeleger presidente do Congresso. 

A proposta estava parada no Senado desde maio de 2026, quando foi aprovada na Câmara dos Deputados. Desde então, Alcolumbre fez várias declarações afirmando que não se renderia às “pressões” para votar em pleno ano eleitoral. A postura mudou após negociações com a campanha de Lula, sobretudo com a intensificação da disputa pelo Planalto e os resultados desfavoráveis a Alcolumbre no primeiro turno das eleições. Os dois candidatos apoiados por ele no Amapá foram derrotados: o governador Clécio Luís (União) e o senador Randolfe Rodrigues (PT).

Um dia antes da sessão, parlamentares do PT discutiam nos bastidores a possibilidade de o presidente Lula comparecer ao Congresso para comemorar o resultado. O presidente, por sua vez, comemorou por meio de um vídeo publicado nas redes sociais. “Quero parabenizar o povo que foi para a rua, quero parabenizar os senadores e senadoras que votaram favorável porque o povo merece respeito e conquistou esse respeito”.

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

15 October 2026 at 18:28

Um ano antes de se tornar “radioativo”, na tarde de uma quarta-feira de abril de 2024, Daniel Vorcaro recebeu uma oferta de Frederic Kachar, até então CEO da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio: “Quer que a gente o entreviste no Valor?”. A mensagem se referia a Alexandre Afrange, CEO da Veste – antiga Restoque, que detém marcas como Dudalina, John John e Le Lis Blanc –, empresa da qual o banqueiro do Master tinha controle acionário desde 2022. “Não sabia que a Veste tinha esse ceo”, escreveu Kachar, para então oferecer espaço editorial a Vorcaro no jornal de economia do grupo. 

O diálogo faz parte das mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF) a partir do celular de Daniel Vorcaro e apontam que a relação dos dois, nas palavras do próprio banqueiro, em julho do mesmo ano, seria uma “amizade que supera negócios”. Os diálogos mostram que o ex-controlador do Banco Master, preso desde março deste ano como principal investigado pela Operação Compliance Zero, tinha acesso direto ao executivo, onde fazia solicitações diretas e reclamava sobre a linha editorial dos jornais do grupo Globo.

O vazamento das mensagens ganhou força nesta quarta-feira (14), momento delicado para a própria Globo. Isso porque no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, a Rede Globo promovia um de seus eventos publicitários mais importantes do ano, o Upfront Globo. Na ocasião, os executivos mais influentes do Grupo Globo, a exemplo de Fred Kachar, como é conhecido, se reúnem com vários dos artistas mais famosos do conglomerado junto a representantes do mercado publicitário para detalhar os planos das empresas Globo para o ano seguinte. Talvez por isso, a reação ao vazamento, já conhecido nos bastidores da empresa, não tenha sido mais imediato. Nesta quinta (15), Kachar foi desligado, segundo nota oficial do Grupo.

Nota Grupo Globo

Grupo Globo comunica desligamento de Frederic Kachar e reforça independência editorial de seus veículos
O Grupo Globo comunicou hoje o desligamento do diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, Frederic Kachar. O conteúdo das conversas privadas mantidas com Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025, às quais a empresa teve acesso ontem, revela uma relação inadequada do executivo com um anunciante.

A Editora Globo reforça seu compromisso com a ética e a transparência e reafirma a absoluta independência editorial do jornalismo de seus veículos, premissa essencial de sua atuação. O protagonismo da cobertura crítica, isenta e independente que tem feito do caso Master é a demonstração concreta do compromisso inegociável de seus veículos com os Princípios Editoriais do Grupo Globo.

A empresa reconhece os 29 anos de dedicação de Kachar ao desenvolvimento de seus negócios de mídia e informa que o nome de seu substituto à frente da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio será divulgado em breve.

Comunicação Globo
Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2026
Mais informações https://imprensa.globo.com/

Relação delicada

Vorcaro chegou a solicitar, no dia 12 de outubro de 2024, a capa da revista Vogue Brasil para a então namorada, Martha Graeff, que acabara de lançar a Happy Aging, empresa de suplementos voltada à longevidade feminina, lançada nos Estados Unidos à época. “De presente pra ela”, justificou. 

O pedido não foi plenamente atendido por Kachar, que alegou inviabilidade da agenda de produção da revista. Cinco dias depois, no entanto, as versões online de Vogue Brasil, Marie Claire e Ela destacavam Graeff, cujos links foram enviados pelo ex-diretor-geral a Vorcaro: “Depois me diz se faltou algo”. O banqueiro agradeceu: “ficaram ótimas”, disse, antes de fazer a ressalva: “só a Marie Claire deu uma batidinha no final rsrs esses repórteres são uma bênção”, concluiu o banqueiro. Kachar apenas assentiu: “o próximo passo é capa na Ela ou Marie Claire, só precisamos de um fato novo”.  

  • Versões online de Vogue Brasil, Marie Claire e Ela destacaram Martha Graeff, namorada de Vorcaro, após pedido do banqueiro ao executivo
  • Versões online de Vogue Brasil, Marie Claire e Ela destacaram Martha Graeff, namorada de Vorcaro, após pedido do banqueiro ao executivo
  • Versões online de Vogue Brasil, Marie Claire e Ela destacaram Martha Graeff, namorada de Vorcaro, após pedido do banqueiro ao executivo

A disponibilidade de Fred Kachar não era exatamente em vão. No dia 6 de fevereiro de 2025, o orçamento para as empresas controladas por Vorcaro foi feito pelo WhatsApp mesmo, após sucessivas tentativas de contato sem êxito. Para a presença das marcas Master, Desincha, Veste, Be Fly e Happy Aging, Kachar propôs participação de R$ 1,79 milhão e outros R$ 4,92 milhões para a presença em camarote carnavalesco na Sapucaí, no Rio de Janeiro. 

Durante 15 dias, o então CEO da Editora Globo buscou Vorcaro 62 vezes até a realização do Baile da Vogue, usando mensagens de tom pessoal – “Vamos poder curtir juntos amanhã?” –, passando pela insistência típica de representantes de negócios – “Querido, me dá um sinal de vida pra eu não ir e dar com a cara na porta rs?” – e chegando a flexibilidade de negociação: “Para não te deixar na mão, te bonifico um branded content [conteúdo patrocinado, ou, em bom português, matéria paga] da marca na Glamour e na Vogue [Brasil], mas desatrelados do Baile [da Vogue]”. No fim, o banqueiro do Master concordou em pagar R$ 1,3 milhão pelos dois eventos e se ausentou do Baile. A conversa só foi retomada na terça-feira, 25 de fevereiro, com a frase “fez falta no sábado”, seguida de outra mensagem: “Estou no voo com Lauro [Jardim], que vai conhecer sua sede nova antes de mim. Desnecessário dizer que estou com ciúmes.”

As mensagens entre Vorcaro e Kochar sugerem que havia uma porta aberta no editorial do Grupo Globo para as demandas e insatisfações do banqueiro. Em 31 de maio de 2024, por exemplo, o grupo noticiou, pelo portal G1, a suposta entrada do banco no ramo de supermercados, o que Kachar se apressou a comentar: “Entrou em supermercados também? Estás incontrolável rs!”. A resposta do banqueiro veio de pronto, um minuto depois, às 19h04: “Info totalmente errada”. Diante do retorno, o executivo do Grupo Globo se prontificou: “Quer que eu peça pra corrigir?”. 

A resposta de Vorcaro foi curta e enfática: “Deve!”. Às 19h27, exatamente 23 minutos após o primeiro alerta de erro, o G1 atualizou a reportagem, retirando a afirmação de compra pelo Banco Master e precisando o papel da gestora como prestadora de serviços ao fundo de terceiros. “Agora ficou certo”, assentiu o banqueiro. 

A Agência Pública procurou Fred Kachar, que não retornou até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto à sua manifestação.

BRB: uma relação que também azeda

Segundo a PF, o Banco de Brasília (BRB) comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025. Foi o colunista Lauro Jardim de O Globo, uma das publicações sob o comando de Fred Kachar, que primeiro questionou o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, pouco antes de Vorcaro, Costa e o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha, se reunirem em Zurique, na Suíça para discutir a relação entre os dois bancos. 

Em março de 2025, 58% das ações do Banco Master foram compradas pelo BRB em uma operação de R$ 2 bilhões, aprovada tanto por maioria da Câmara Distrital, pelo governo do Distrito Federal, sob a gestão de Ibaneis Rocha e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). 

Fachada do prédio do banco de Brasília (BRB)
Ações do Banco Master foram compradas pelo BRB em uma operação de R$ 2 bilhões

Ao longo de um ano e nove meses de mensagens trocadas entre Kachar e Vorcaro, os registros de festas juntos, comentários sobre mulheres, e pedidos para se encontrarem ou se falarem por telefone ou videochamadas foram muito mais numerosos que reclamações pontuais de Vorcaro, às quais o CEO da Editora Globo buscava responder de forma diplomática e quase sempre dizendo concordar em parte com a avaliação do parceiro, inclusive tecendo críticas aos próprios jornalistas de sua equipe. Mas uma publicação acelerou o desgaste da relação entre os dois executivos.

Assinada por Álvaro Campos, a análise “Mercado vê com ressalvas operação entre BRB e Master, mas acordo desarma uma bomba”, publicada em 29 de março do ano passado no Valor Econômico, fez o dono do Master perder a cordialidade. Kachar tentava contato há semanas com Vorcaro, dizendo precisar falar urgentemente, mas apenas após a publicação de análise e reportagem envolvendo o Master, o banqueiro deu sinal de vida em tom de profundo descontentamento.

“Matéria maldosa, malfeita. Isso é porque seu grupo deu o furo da operação. Parceria, como sempre, de uma via apenas”, resumiu antes de completar: “Com toda liberdade de desabafo, me sinto por varias vezes um bobo focando na parceria aí”, disse, ao encaminhar uma lista de 63 publicações das quais, segundo Vorcaro, apenas a Valor teria sido “negativa” e faria “referência a rumor”, em suas palavras.

“As fontes eu não posso te abrir porque seria deselegante, mas não são um ou dois banqueiros”, respondeu, sobre um dos princípios fundamentais do jornalismo de preservação da fonte – que pouco tem a ver com elegância. Kachar respondeu: “O que concordo com você é que não poderia fazer análise sem sua visão do ‘deal’[acordo] e já reclamei”, completou, antes de sacramentar: “Meu amigo, claro que não é pra ficar como está. Se a gente discorda em algumas coisas, temos de conversar”. Pouco mais de duas horas depois, enviou: “O Álvaro [Campos] incluiu aspas suas nessa análise. Vamos falar amanhã?”.

“Não vale a pena pra mim falar. Vira (sic) o caso Malu [Gaspar]. Tudo que eu falo usam contra mim. Deixa correr aí como sempre estão fazendo”, encerra Daniel Vorcaro. Por várias vezes, o banqueiro se queixava a Kachar do que ele questionava ser uma “campanha corporativa” contra ele, que tinha na colunista de O Globo e comentarista da GloboNews e CBN Malu Gaspar seu alvo mais recorrente. “Temos que resolver”, chegou a dizer Vorcaro ao diretor-geral.

Foi justamente nessa época, entre março e abril de 2025, que mensagens encontradas pela PF no celular do banqueiro, desta vez com o publicitário Thiago Miranda, em que ele dizia que precisavam “encontrar algo dessa mulher [Malu] no pessoal”, ao que Miranda respondeu não ter encontrado “nem uma multa na CNH”. O caso foi revelado pela Fatos Online.

A Pública entrou em contato com Campos e Gaspar, mas ambos preferiram não comentar sobre o assunto até o momento. Em caso de manifestações, este espaço será atualizado. A defesa de Vorcaro também foi acionada e informou que se manifestaria ao longo do dia, após depoimento do banqueiro marcado para hoje.

Incômodo de longa data e ameaças agora conhecidas

O trabalho de Lauro Jardim incomodava Daniel Vorcaro desde 2023, bem antes de o nome do colunista aparecer nas mensagens interceptadas pela PF, sobretudo quando da publicação da reportagem “Os cuidados de um banqueiro com a festa de 15 anos da filha”, de 4 de agosto de 2023. Ao longo de 2025, a coluna do jornalista acompanhou de perto a tentativa de venda do Banco Master ao BRB, o banco estatal do Distrito Federal, e mostrou regularmente o que sustentava a operação.

Em 4 de setembro de 2025, logo depois de o Banco Central vetar o negócio, Jardim escreveu que a principal aposta de Vorcaro nunca tinha sido o balanço do Master, e sim suas conexões políticas. Segundo a coluna, o diretor do Banco Central Renato Gomes, responsável por avaliar a saúde financeira do banco, sofreu pressões intensas nas semanas anteriores, quase todas por parte de políticos do Centrão. Executivos do mercado relataram, inclusive, ameaças. A nota informava ainda que o Master tinha passado agosto tentando renovar, sem sucesso, uma linha de crédito de cerca de R$ 10 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para honrar vencimentos de linhas de investimento do tipo CDB.

Segundo a investigação da PF, foi esse tipo de cobertura que levou o ex-banqueiro a planejar uma agressão contra o Jardim. Em mensagens reveladas em 2026, Vorcaro pede a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, uma espécie de capanga de Vorcaro, que espancasse Jardim em um assalto forjado. Nas palavras do próprio Vorcaro, a ideia era “quebrar todos os dentes” do colunista. A defesa de Vorcaro disse à época que as mensagens foram tiradas de contexto e que ele jamais determinou qualquer ato de violência.

Daniel Vorcaro na prisão
A cobertura do jornalista Lauro Jardim sobre os negócios de Vorcaro teria levado o ex-banqueiro a planejar uma agressão contra Jardim

Ao falar de Malu Gaspar e Lauro Jardim, parte das mensagens de Kachar indicam uma relação entre o jornalista com a fonte, o que é praxe no trabalho de qualquer profissional de imprensa. Kachar se gaba a Vorcaro no mês de julho de 2024 sobre encontros dos jornalistas com o banqueiro nessa condição — encontros que, segundo as mensagens, teriam sido acompanhados por Kachar, superior hierárquico de ambos no Grupo Globo. “Não foi bom?”, disse Kachar a Vorcaro, em referência a Lauro Jardim. “Virou até fonte”, reagiu o CEO em mensagens posteriores.

A insatisfação de Vorcaro com os colunistas, no entanto, era anterior. Ainda em abril de 2024, Malu publicou na rede de microblogs X: “Ministros do STF, STJ e TSE silenciam sobre quem pagou suas despesas em eventos de Londres. Segundo o Poder 360, o Banco Master patrocinou o evento, mas não quis aparecer. O banco tem uma ação no STF. O relator é Gilmar Mendes, que falou no painel ‘Estabilidade Institucional e Segurança Jurídica para Atração de Investimentos Internacionais’”. 

Nas mensagens apreendidas pela PF, datadas de 29 de abril de 2024, este foi o primeiro grande embate e desgaste registrado entre o banqueiro e Kachar. “Chega a ser inacreditável”, disse Vorcaro, seguido de um grande texto que incluía uma ameaça velada a retirar patrocínio a um evento do Valor. 

A postura do então diretor-geral da Editora Globo variava conforme a reclamação, numa tentativa de equilibrar as insatisfações do “amigo” sem fragilizar a credibilidade de sua equipe. Em um dos retornos ao banqueiro, diz que ninguém “escala” Malu, reforçando sua independência editorial: “Mas a Malu é livre. Ninguém a escala”. Em outro, diz não gostar do estilo da jornalista e classifica comentários pontuais dela como “ilações”: “Não estou entendendo esse seu tom comigo. Sempre tivemos uma relação de harmonia e respeito. Se tiver algum erro na coluna da Malu [Gaspar], peço a correção imediata. […] Eu não gosto do que ela postou, por isso reforcei que a cobertura do Globo é a que está no site, onde não há essas ilações”, respondeu.

Nos comentários de Fred Kachar, as críticas à imprensa não se limitavam aos próprios veículos da Globo. Em conversas com Vorcaro, ele diz conhecer “os mecenas” do Poder 360 e rejeita o momento da revista piauí: “virou denuncista”.

Não há, no entanto, nenhuma frase do executivo da Globo que caracterize uma reflexão sobre a relação com o banqueiro que os próprios jornais que dirigia apontavam como suspeitos. Após ser implicado pelas investigações da PF e com o negócio do BRB sendo escrutinado, Vorcaro deixou de receber mensagens da “amizade que supera negócios” e passou três meses sem qualquer contato. A última mensagem disponível nos relatórios da PF, em julho de 2025, não tem resposta disponível. Em novembro, Vorcaro foi preso pela primeira vez e solto pouco depois, voltando a ser detido em março deste ano. O banqueiro segue detido no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha. 

Povos da floresta e do mar contra a extrema direita

15 October 2026 at 16:00

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Em 1987, quando o Brasil acabava de sair das sinistras décadas de ditadura militar, surgiu uma união de forças sociais que até então pareciam distantes. Comunidades extrativistas e indígenas da Amazônia, vítimas históricas dos grileiros, criaram a Aliança dos Povos da Floresta. O momento não poderia ter sido mais propício pois, deste grupo, que contava com lideranças como Chico Mendes e Ailton Krenak, saíram propostas que influenciaram a nova Constituição, promulgada em 1988.

O impacto político daquele encontro não pode ser esquecido neste momento em que a extrema direita, representada pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), busca privatizar o patrimônio natural brasileiro. Se na década de 1980 a suposta direita conciliatória cedia terras públicas a empreendimentos agropecuários, hoje a direita quer privatizar as praias e abrir as terras indígenas para a mineração. 

A partir da união de seringueiros e indígenas, a luta dos povos da Amazônia foi projetada para o mundo, levando preocupação aos chefes dos bancos de desenvolvimento internacionais. O Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estavam liberando empréstimos para a criação de pólos de produção pecuária e financiando a abertura de estradas que cortavam os territórios tradicionais. Chico Mendes, em uma viagem emblemática a Washington, em 1987, conseguiu congelar alguns destes financiamentos e, como sabemos, pagou com a vida por sua coragem.

Mas sua luta sobreviveu: da profusão de ideias e da resistência criada surgiram outras lideranças, entre elas Marina Silva, a mais jovem senadora a ser eleita pelo Acre, na década de 1990, e depois a ministra de Meio Ambiente nas gestões de Lula. Ela levou a política ambiental para o coração do governo e conseguiu, com o apoio dos melhores cientistas e gestores, provar que é possível conter o desmatamento.

No momento em que escrevo estas linhas, saem notícias mostrando que, em 2025, as taxas de derrubadas no Brasil atingiram nova baixa histórica. E o melhor, estes resultados já não estão se restringindo à Amazônia. Os dados do Deter, o sistema de alertas de desmatamento do INPE, mostraram uma redução de 30% em setembro no Cerrado. Uma notícia fantástica, uma vez que este é o bioma sob maior pressão, onde a ilegalidade e invasão de terras prosperaram nos últimos anos. 

Um dos alicerces da política de Lula e Marina para barrar a sanha destruidora é exatamente o combate à grilagem de terras e a promoção da regularização fundiária. Estudos de renomadas organizações não governamentais como o Instituto de Pesquisas da Amazônia (IPAM) têm mostrado que, nos últimos anos, com os embargos e a repressão ao desmatamento em propriedades privadas, os criminosos passaram a fazer mais queimadas e derrubadas em unidades de conservação e terras indígenas.

A grilagem de terras e a invasão de territórios indígenas definem muito o que é o Brasil. Nossa história colonial foi brutal contra os povos da floresta e seus efeitos sobre o nosso cotidiano perduram até hoje, como a persistência da violência no campo e as ameaças constantes sofridas por comunidades rurais. Nesta polarização tremenda que vive o país, temos falado muito do interior e como a cultura do agro tem ajudado a definir os votos. Mas somos um país atlântico, com identidade litorânea e com uma conexão muito forte com as praias. Por isso, enquanto alertamos para o que está ocorrendo na floresta, não podemos deixar de apontar a especulação imobiliária que pode vir a transformar a costa brasileira.

A Proposta de Emenda Constitucional para regularizar a venda dos terrenos da Marinha gerou enorme polêmica em 2024. E agora, nesta eleição, voltou ao debate, pois ninguém menos do que Flávio Bolsonaro é o relator da proposta, que ficou conhecida como a PEC da Privatização das Praias. A ideia é permitir a venda de terras que ficam numa faixa que começa a 33 metros dos pontos mais altos de maré e que pertencem historicamente à União. O argumento dos defensores da proposta é de que isso levaria mais investimentos, em forma de condomínios e resorts, ao nosso litoral. Na prática, isso pode se tornar uma forma de fechar acessos e criar praias exclusivas para os donos do dinheiro.

Diante desta ameaça, fiquei imaginando se não seria o momento da Aliança dos Povos da Floresta voltar ao cenário nacional incorporando também os povos do mar. Assim como os extrativistas se tornaram guardiões de algumas das mais importantes reservas florestais do país, os pescadores artesanais, as marisqueiras e os catadores de caranguejo são os guardiões da nossa costa. 

O tema da proteção aos oceanos é especialmente importante. No ano que vem, o Brasil vai ser sede do encontro das Nações Unidas para a Década do Oceano, que ocorrerá em abril no Rio de Janeiro. E não é difícil imaginar que, como seu pai, Flávio Bolsonaro – se eleito – vai banir as conferências da ONU sobre meio ambiente que estão marcadas para acontecerem no Brasil. Em 2019, um dos primeiros desmandos de Bolsonaro foi cancelar a realização da Cúpula de Mudanças Climáticas em solo brasileiro. Apenas em 2025 a conferência voltou ao Brasil, na icônica COP30 em Belém. 

Agora me parece que seria o momento de ampliar essa aliança: floresta e oceano unidos contra a política da morte. E a aliança pelo mar não será apenas importante para um governo de extrema direita. Os impactos da exploração de petróleo, a concessão de novos blocos em alto-mar e as mudanças climáticas farão da nossa costa um ponto central para qualquer o futuro do país.

O decolonialismo atrapalha o estudo da História

By: A A
15 October 2026 at 15:00

Decolonialismo impede estudo sério da História: mestiçagem não é só estupro, Inquisição freou senhores todo-poderosos e índios tinham escravos.

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No mês passado, o Brasil viu a historiadora Mary Del Priore pedir uma escolta policial para lançar História das Mestiçagens no Brasil, uma coletânea de ensaios organizada por ela junto com Gian Melo. Pelo simples fato de ser sério, o livro contradiz a o dogma do movimento negro brasileiro de que a mestiçagem deve ser lastimada, pois decorre exclusivamente do estupro perpetrado por senhores de escravos. Esse amável segmento da nossa sociedade não tem escrúpulos em fazer ameaças de violência física, e os hooligans de uma Federal recentemente espancaram um estudante de história por usar uma camisa da banda “Death in June” sem que ninguém fosse punido. Depois de se esclarecer que era uma camisa de banda e não uma homenagem nazista, os estudantes justificam a agressão alegando que o estudante era racista e xingou o colega de macaco.

Tudo isso é muito cansativo, pois já faz 13 anos que o sociólogo Demétrio Magnoli foi fisicamente impedido de falar num evento literário pelo crime de ser contra as cotas raciais – como o leitor pode ler aqui, neste veículo financiado pela abominável Fundação Ford que elogia a ação dos vândalos e chama Magnoli de racista. A essa altura, a gente suspira e pergunta: Quousque tandem? Até quando?

Na História tal como na Ciência

No artigo anterior, apontei que a partir do século XIX o establishment científico aboliu a ideia do Criador versado em matemática do cristianismo e instituiu, tacitamente, o materialismo, que é compatível tanto com o deísmo de alguns iluministas quanto com o ateísmo dos darwinistas. O problema é que admissões tácitas não são combatidas, pois para refutar é preciso enunciar. Quando há uma instituição por detrás de tal enunciado, a crítica tem um alvo claro.

No caso das ciências naturais, a instituição que ocupou a posição de vidraça era a Igreja Católica. Depois do caso Galileu, porém, a Igreja conseguiu recompor suas relações com a ciência e entregou cientistas do quilate do Pe. Lemaître. E mais: participar do processo de uma canonização atestando milagres não destrói a reputação de cientista nenhum, mesmo que suas conclusões contrariem os pressupostos do materialismo. Quando canonizações acontecem, porém, nenhum destaque é dado ao lado científico – e o divórcio entre religião e ciência permanece no público. Do lato materialista, não temos nenhuma autoridade científica de peso enunciando e provando o materialismo – temos apenas propagandistas aparentemente avulsos como Sagan e Dawkins que apenas pressupõem o materialismo e são apresentados como arquétipos de cientistas. E a mesma mídia fica promovendo cristais, horóscopo e outras bobagens New Age.

Ocorreu-me que algo similar se dá com a disciplina de História, trocando a Igreja pelo Estado. É fácil atacar uma historiografia oficial; no entanto, os críticos raramente oferecem uma contra-história coesa, que possa ser atacada. A Fundação Ford financia gente de toda qualidade: desde Florestan Fernandes (1920 – 1995), que tinha formação demais para dizer que mestiçagem é consequência de estupro, até ONGs de militantes acerebrados que fazem o papel de hooligans e difamadores. Há uma institucionalidade, mas é oculta e não oferece uma visão do todo – só tece críticas à visão positiva que o Estado ou estudiosos importantes como Gilberto Freyre ofereçam. As consequências disso para a educação nacional são esse adestramento à Paulo Freire, no qual a criança tem que aprender a ser “crítica” porque o “conteudismo” é ruim.

O acriticismo decolonial

O resultado é essa prepotência arrogante que tanto caracteriza os wokes: eles objetivamente não sabem de nada – pois não há um currículo “conteudista” –, mas se sentem a palmatória do mundo porque são “críticos”. A postura arrogante é um fim em si mesmo, e o próprio conceito de estudo é difícil de captar por uma mente criada nestes moldes. Quanto à objetividade, ela é abertamente criticada.

Porém, é evidente que também é possível aderir acriticamente ao decolonialismo pregado pela Fundação Ford e similares, segundo o qual o Brasil jamais deveria ter sido descoberto pelos portugueses e o povo brasileiro jamais deveria ter se formado. Segundo essa cartilha, a descoberta do México pela Espanha é o pior dos crimes… mas o verdadeiro genocídio indígena, perpetrado pelos anglófonos no território tomado do México, é tratado como uma nota de rodapé pela História. Pouco importam os sacrifícios humanos aos quais os astecas submetiam os demais ameríndios; o certo é que as Américas jamais deveriam ter sido descobertas pelas coroas ibéricas. Não é nem descoberta, é “invasão”. O Brasil é o país mais racista do mundo porque teve escravidão; já os EUA, que tiveram escravidão sem alforria e chegaram à II Guerra Mundial discriminando negros, são um modelo em que o Brasil tem que se inspirar para ser melhor.

Adesão por um bom historiador

É possível aderir a esse credo tácito de maneira irrefletida sem ser uma pessoa burra ou incompetente – muito pelo contrário. Tomemos como exemplo a obra A heresia dos índios (1995), do historiador Ronaldo Vainfas. No caso em tela, a hercúlea tarefa do historiador é, munido de conhecimentos antropológicos conquistados no século XX, consultar aos arquivos da Inquisição Portuguesa para reconstruir um pouco da realidade brasileira quinhentista a partir de uma história maluca que consta num processo.

A história maluca é a do português Fernão Cabral, senhor de escravos de Jaguaripe, Bahia, que em 1585 se tornou Tupã ou Deus para os índios rebeldes que queriam escravizar os portugueses e viver cultuando Tupã-Açu (Deus Grande) sob a sua própria Igreja. Esta tinha o seu próprio Papa, um certo índio Antônio que fora batizado e fugira para o mato. Em sua igreja, os índios cultuavam uma pedra antropomórfica à qual chamavam de Tupã-Açu (Deus Grande) e faziam festas em que todos fumavam tabaco, bebiam álcool e bailavam. Os índios fugiam das outras propriedades e das reduções jesuíticas para as terras de Fernão Cabral, onde podiam ter várias mulheres e comer carne nas sextas-feiras, conforme os costumes antigos. Diante da insatisfação dos outros proprietários, o governo acaba destruindo a Igreja dos índios e tudo volta ao normal.

Tudo poderia ter sido esquecido, se a primeira Visitação do Santo Ofício não tivesse ocorrido em 1591. Aí, uma montanha de gente correu para denunciar Fernão Cabral; e o visitador do Santo Ofício, preparado para lidar com cristãos novos judaizantes, falsos padres, bígamos e sodomitas, viu-se metido com a indecifrável cosmovisão tupi compartilhada por mestiços e até por brancos. Nisso, acabou achando que os maiores crimes dos homens tatuados era comer carne às sextas-feiras, sem saber que as tais tatuagens eram feitas em rituais antropofágicos.

Moralização sem lastro

Sem dúvida, é um trabalho de fôlego e que não está ao alcance do militante woke. No entanto, chama a atenção a moralização não-argumentada por parte do autor. A epígrafe já dá o tom: “Povos e povos indígenas desapareceram da face da terra como consequência do que hoje se chama, num eufemismo envergonhado, o encontro de sociedades do antigo e do novo mundo.” Uma epígrafe curiosa para uma obra que não versa sobre extermínio de índios, mas sim sobre sua aculturação forçada. É muito fácil encontrarmos no Brasil obras – quase sempre lacrimosas – sobre a aculturação de índios, mas não tanto sobre real genocídio. As palavras perdem o sentido.

A despeito de toda a qualidade da pesquisa, a tônica do livro é a de que o Brasil não deveria ter sido descoberto, que o “colonialismo” é mau e que a religião pré-cabralina dos índios, dotada de “conteúdo anticristão e antiescravista [sic!]”, era boa. Os tupis viviam procurando a Terra Sem Mal – por isso eram nômades – e os portugueses transformaram o Brasil na “Terra dos Males Sem Fim”. No fim do livro, chega a dizer: “É com algum constrangimento que devo reconhecer esta máxima vitória do sistema colonial, capaz de invadir a própria mitologia tupi, colonizando-lhe o imaginário: a Terra Sem Mal dos tupinambás se converteria numa utopia escravocrata.” (p. 277) Pelo que Vainfas escreve de maneira mais livre, fica parecendo que os tupis não tinham escravos. A Terra Sem Mal original não tinha escravos porque se parecia com a Cocanha, onde a comida vem sem esforço e o trabalho é desnecessário. Se a nova Terra Sem Mal tem escravos brancos, isso é apenas sinal de um humaníssimo desejo de vingança.

Após passar páginas e páginas criticando a demonização dos índios pelos inquisidores (mesmo frisando que os portugueses não fossem afeitos a tal coisa), Vainfas escreve: “Não resta dúvida de que [o visitador] Heitor Furtado derrotou, no teatro da Inquisição, o arrogante senhor de Jaguaripe, apesar de jamais ter entendido, realmente, o que fora a santidade [dos índios]. Bastava-lhe, porém, rotulá-la como idolatria e, por conseguinte, como heresia; bastava-lhe obrigar Fernão Cabral a curvar-se perante ele, visitador, com súplicas de misericórdia. No teatro barroco da Inquisição, mais valia a representação da heresia, creio eu, do que a vitória da fé” (p. 238, ênfase minha). Ou seja, os inquisidores agiam por puro sadismo, em vez de ter alguma intenção nobre.

Na verdade, porém, a rotulação de heresia é uma obsessão de Vainfas, já que não aparece em momento nenhum na pluma de Heitor Furtado para aplicar aos índios. Os pagãos eram idólatras sem serem hereges, pois só pode ser herege o batizado que alega crer em Cristo. Se uma pessoa abandona o cristianismo após o batismo, ela é apóstata, não herege. Essa obsessão custou nada menos que o título do livro, que anuncia uma coisa cuja existência não se prova. Por tudo quanto Vainfas descreve, depreende-se que os índios criaram uma nova religião sincrética que misturou a devoção mariana dos jesuítas com os ritos pré-cabralinos em torno de uma maraca antropomórfica. Não há menção a Cristo; só a Deus Grande (a pedra), Deus (o próprio Fernão Cabral), Mãe de Deus (uma índia) e Santinho (um índio).

Mas vamos ao que me parece mais prejudicial: toda essa moralização não tem anúncio, nem justificativa. Por tudo quanto o próprio Vainfas escreveu, o leitor pode concluir que a vida tupi anterior à chegada dos portugueses era infernal. Os tupis tinham grande honra em tomar vários nomes e fazer várias tatuagens de jenipapo. Cada nome e cada tatuagem valia para um guerreiro morto e devorado por eles num ritual. Seu horizonte de vida era seguir os conselhos de um pajé (um feiticeiro, um sacerdote avulso) que se comunicava com espíritos e dizia para onde eles deviam seguir. Tudo isso – os deslocamentos e as guerras – para chegar à Terra Sem Mal, que, antes de os portugueses chegarem, eles acreditavam estar no litoral. Como o litoral não estava inabitado, é claro que isso envolveu fazer guerra, ganhando nomes, tatuagens e escravos. Você queria viver assim, numa eterna peça “Esperando Godot” adaptada por Tarantino?

É digno viver desse jeito? Vainfas não gosta da escravidão. Eu tampouco. Acrescento que não gosto de guerras vãs, nem de canibalismo ou morte na flor da idade. A sociedade tupi tinha alguma perspectiva de acabar com todos esses males? A Terra Sem Mal, onde as flechas caçam sozinhas, estava ao seu alcance?

De minha parte, acho engraçado que a frase “é a cultura deles” só serve para os ditos ocidentais (isto é, europeus e seus descendentes não-miscigenados na América e na África). Ninguém diz que matar judeus é da cultura dos alemães e que o auto de fé é uma tradição da cultura espanhola. Dos europeus, exige-se elevação moral. Aos índios, o relativismo moral e a angustiosa vida sangrenta que sua cultura acarretava.

Avaliação com os dados disponíveis

Um dado relevante, que já abordei noutra ocasião aqui na SCF, é que o modelo espanhol de ocupação ultramarina é muito mais institucional e estatizante do que o Português – e o português, a seu turno, muito mais institucional e estatizante do que o holandês. Enquanto a Inquisição Espanhola tinha tribunais na América, a Inquisição Portuguesa, mesmo sob os Filipes, não tinha nenhum. Por isso as pessoas precisavam esperar a Inquisição vir para poder denunciar senhores de terra que viviam no Brasil oprimindo os outros, sem nenhuma restrição.

Chamou-me a atenção, na pesquisa de Vainfas, que a recepção aos índios apóstatas era um dos dois malfeitos de Fernão Cabral que chocaram a população baiana: a outra era o assassinato cruel de uma índia grávida. Por desgostar do mexerico da índia Isabel com a sua esposa, ele ordenou que fosse lançada viva à fornalha, e que quem tentasse impedir tivesse semelhante sorte. As súplicas da índia à Virgem Maria não surtiram efeito. O fato, passado em Jaguaripe, foi bem conhecido pela Cidade da Bahia (de que dista cerca de 100 km em linha reta). Ainda que os maus tratos aos serviçais não fosse do escopo da Inquisição, já houve até denunciante dando piruetas hermenêuticas para tentar fazer do tratamento pouco cristão um assunto inquisitorial, como revelou o historiador Luiz Mott em “Tortura de escravos e heresias na Casa da Torre”.

Querendo ou não, Vainfas mostra muito bem que o típico senhor de terras luso-brasileiro se considerava um Deus em suas terras, e só a Inquisição poderia colocar-lhe freios. Fernão Cabral passou quase um ano preso e foi condenado a dois anos de degredo, bem como a pagar uma pesada multa equivalente ao preço de 20 escravos africanos. Certamente merecia mais, e talvez só tenha escapado de arder na fogueira por ser cristão velho. Mas já é alguma coisa. A moral da história, para mim, é que a Inquisição Portuguesa foi um importante contrapeso aos senhores todo-poderosos da iniciativa privada – figuras encontradiças no Brasil, mas não na América Espanhola. A caracterização da Inquisição como essencialmente malvada dificulta a percepção do real equilíbrio de poder no Brasil, e pinta os déspotas desta terra de iniciativa privada como vítimas de um sadismo maniqueísta, como se o inquisidor não pudesse ter nenhuma preocupação política e social. Visão pobre que em nada ajuda a compreensão histórica.

A avaliação da história deveria se dar em termos de valores positivos, tais como a dignidade das pessoas que vivem numa dada conjuntura, ou a distribuição do poder na sociedade estudada. É isso permite a construção de uma agenda positiva para o país e a compreensão da realidade.

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

15 October 2026 at 08:00

A Meta, responsável por Instagram, Facebook, Threads e WhatsApp, foi parar no centro do debate sobre as eleições após restrições atingirem conteúdos pró-Lula e levantarem acusações de tratamento desigual entre grupos que disputam a presidência do Brasil.

Um levantamento da CTRL+Z ao qual a Agência Pública teve acesso documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas da empresa na primeira quinzena de outubro, dos quais 22% envolvem contas ou publicações censuradas sem explicação.

Dentre esses conteúdos, a maior parte (54%) foi classificada como de posição política indeterminada, isto é, não era possível identificar se eram favoráveis a um candidato específico. Porém, dentre as postagens que foram restritas pela Meta e puderam ser classificadas, nove em cada dez eram pró-Lula ou conteúdos progressistas.

Segundo o documento, a Meta tem removido publicações, desativado contas e limitado o alcance de conteúdos sem apresentar justificativas claras ou oferecer mecanismos acessíveis de contestação.

O tipo mais frequente é a perda de alcance, com 356 ocorrências, seguida por restrições de repostagem (163), restrições de conta (125), banimentos de publicações (119) e banimentos de contas (116). O levantamento também identificou 101 casos classificados como indeterminados, além de bloqueios de conta (40), redução de visibilidade nas buscas (38), restrições de comentários (36), banimentos relacionados a comentários (22), restrições de impulsionamento (14) e comentários ocultados (13).

  • Postagens afetadas pela moderação da Meta
  • Postagens afetadas pela moderação da Meta

Para Yasmin Curzi, professora e pesquisadora de direito digital na FGV Rio, as denúncias indicam uma possível assimetria no tratamento de diferentes setores políticos. “Estamos vendo que essas suspensões não afetam todos os espectros políticos igualmente, mas sim setores progressistas, imprensa independente, movimentos sociais e políticos de esquerda”, afirma.

A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) denunciou, ainda em junho, a derrubada de perfis ligados à mídia independente às vésperas do período eleitoral. Em outro episódio, em 23 de setembro, a Meta desativou a conta de anúncios da campanha de reeleição do presidente Lula, sem explicar publicamente os motivos da decisão.

Durante o primeiro turno, a empresa afirmou ter removido publicações de ministros, jornalistas e militantes para cumprir decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo as denúncias reunidas pelo levantamento, porém, as remoções ocorreram sem aviso prévio, justificativas individualizadas ou canais acessíveis de recurso. A campanha do PT também denunciou ao TSE restrições na distribuição de publicações de Lula e de perfis aliados, que, segundo a campanha, poderiam comprometer a paridade da disputa com o senador Flávio Bolsonaro.

Curzi avalia que a falta de explicações e de mecanismos efetivos de contestação amplia o poder das plataformas sobre o debate público. “Sem explicação e sem chance real de recurso, a empresa acaba decidindo, na prática, quem pode participar e quem é mais ouvido no debate público”, diz.

A pesquisadora também questiona a ideia de que a desigualdade de alcance entre grupos políticos decorra apenas da capacidade de comunicação de cada campo. Para ela, é necessário considerar o funcionamento das próprias plataformas e seus interesses comerciais, analisando que a Meta tem silenciado sistematicamente atores que contrariam seu modelo de negócio, em um movimento que, segundo sua avaliação, ficou mais evidente após a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, em 2024.

Denúncia: IA da Meta gera imagens favoráveis a Flávio, mas não a Lula

As críticas contra a Meta ganharam ainda mais repercussão nesta quarta-feira, 14 de outubro, quando usuários da internet identificaram diferenças na geração de imagens pela Meta AI.

Em vários testes, o programa de inteligência artificial produziu imagens com material de propaganda de Flávio Bolsonaro, mas não de Lula. A coligação Brasil Pronto Pra Mais, que apoia a candidatura de Lula, acionou novamente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para questionar o funcionamento da ferramenta. O pedido aponta tratamento desigual e também denuncia restrições ao alcance de publicações da campanha petista. Diante das suspeitas de interferência da empresa nas eleições, Lula determinou ainda que sua campanha apresente uma denúncia à Organização dos Estados Americanos (OEA) contra a Meta.

Programa de inteligência artificial da Meta montou imagens de propaganda de Flávio Bolsonaro, mas não de Lula

À Folha, a Meta respondeu ter proibido “temporariamente a recomendação de candidatos ou a geração de imagens deles”, em cumprimento com as regras eleitorais do Brasil. “Tomamos medidas adicionais para que comandos usando apenas o primeiro nome dos candidatos e seu número nas urnas também não produzam imagens”.

Segundo a BBC, a Meta prometeu alterar sua IA após as acusações de favorecimento a Flávio Bolsonaro.

Enquanto derruba postagens, Meta deixa rede de robôs atuar nas eleições

As denúncias compiladas pela CTRL + Z também mostram um contexto controverso: a circulação de conteúdos políticos produzidos com inteligência artificial e automatizados tem passado despercebida pela moderação da plataforma e não foram derrubadas. Um levantamento do Instituto Democracia em Xeque obtido pelo Aos Fatos revelou que uma rede de 255 perfis automatizados teria alcançado 58 milhões de visualizações em um único mês, simulando apoio à família Bolsonaro e ao ministro André Mendonça, além de ataques ao Lula e ao STF.

De acordo com o projeto VigIA, da Agência Lupa, dos 64 conteúdos sintéticos identificados entre 1º e 5 de outubro, 61 continuavam disponíveis em 7 de outubro.

Outra pesquisa da Anistia Internacional apontou falhas da Meta na identificação de anúncios de desinformação eleitoral no Brasil, questionando a capacidade da empresa de detectar conteúdos que prejudicam o debate público, enquanto publicações legítimas são removidas ou restringidas.

Para Curzi, as restrições denunciadas podem afetar diretamente a igualdade de condições entre as candidaturas. Ela cita, entre os exemplos, dificuldades na produção de materiais de campanha do PT para ferramentas de inteligência artificial, a redução do alcance de publicações favoráveis ao partido e restrições ao impulsionamento de conteúdos progressistas. Na avaliação da pesquisadora, esses episódios interferem na isonomia eleitoral.

Meta é acusada de não bloquear conteúdos produzidos com IA e impulsionado por contas automatizadas

Falta de transparência e responsabilidade das plataformas

As denúncias de restrições e banimentos na Meta levantam dúvidas sobre qual dispositivo legal poderia ser acionado no Brasil contra a plataforma. André Fernandes, diretor do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), afirma que a atuação da Meta deve ser analisada à luz do Marco Civil da Internet (MCI), da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o artigo 19 do MCI e das resoluções eleitorais.

O Marco Civil da Internet estabelece princípios como a liberdade de expressão e a proteção dos direitos dos usuários, enquanto a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) prevê garantias relacionadas à transparência, à não discriminação e à revisão de determinadas decisões automatizadas. A decisão do STF sobre o artigo 19 do Marco Civil redefiniu parâmetros de responsabilização das plataformas por conteúdos de terceiros. 

Já o Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão de junho de 2025, declarou parcialmente inconstitucional o regime do artigo 19 do MCI e estabeleceu novos parâmetros para a responsabilização civil das plataformas por conteúdos de terceiros, incluindo hipóteses de responsabilização após notificação extrajudicial e situações em que há dever de atuação proativa. A decisão, contudo, não criou um regime geral para banimentos de contas ou redução de alcance. 

No âmbito eleitoral, a Resolução TSE nº 23.610/2019, atualizada para as eleições de 2026, estabelece regras para a propaganda na internet e impõe às plataformas deveres de prevenção e mitigação da desinformação que possa comprometer a integridade do pleito. A norma também exige planos de conformidade que detalhem medidas adotadas pelas empresas, enquanto a Portaria TSE nº 463/2026 prevê informações sobre políticas de moderação, canais de denúncia e contestação e mecanismos de transparência na publicidade política. As regras não proíbem toda remoção ou restrição de conteúdo, mas permitem questionar se as medidas adotadas seguem critérios compatíveis com a legislação eleitoral e se eventuais diferenças de tratamento comprometem a igualdade entre candidaturas e o direito à informação.

Fernandes observa que as normas eleitorais estabelecem obrigações específicas para as plataformas, inclusive em relação à circulação de conteúdos e à recomendação de publicações. O problema, segundo ele, surge quando medidas de moderação são aplicadas sem informações suficientes para que os usuários compreendam e contestem as decisões.

“A liberdade de expressão, que pode ser legitimamente restrita por uma regra de legalidade, emanada de autoridade competente, começa a ruir quando essas ações e decisões são tomadas sem devido processo informacional, sem informe detalhado de qual postagem, qual parte, o motivo da suspensão”, afirma.

Para Fernandes, a ausência de transparência compromete o escrutínio público e o direito à informação. Ele também aponta que os algoritmos de recomendação podem reforçar bolhas de conteúdo e câmaras de eco, priorizando a viralização em detrimento da qualidade informativa. Esse funcionamento, avalia, contribui para a disseminação de desinformação e para o enfraquecimento do debate democrático.

Curzi também defende uma investigação mais direta sobre a atuação da Meta. Na avaliação da pesquisadora, o Ministério Público Federal (MPF) e a Advocacia-Geral da União (AGU) deveriam apurar as denúncias de tratamento desigual entre as candidaturas, considerando as evidências reunidas pela CTRL+Z.

A pesquisadora afirma ainda que declarações de representantes de grandes empresas de tecnologia e de autoridades norte-americanas levantam questionamentos sobre possíveis interesses políticos envolvidos na atuação das plataformas. Ela avalia que a Meta pode ter interesses convergentes com setores que defendem a revogação ou o bloqueio de regulações sobre as big techs no Brasil. Trata-se, segundo Curzi, de uma hipótese que demanda investigação sobre as decisões e seus efeitos concretos.

Meta reconhece falhas técnicas, mas diz que algoritmo não tem viés ideológico

Em 10 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, deu prazo de 48 horas para que a Meta prestasse esclarecimentos sobre as restrições denunciadas pelo levantamento. A cobrança incluiu os registros de moderação e as justificativas específicas para cada bloqueio. 

Em manifestação apresentada ao TSE, a Meta reconheceu falhas técnicas relacionadas a anúncios e publicações da campanha de Lula, mas negou que seus algoritmos tenham viés ideológico ou sejam usados para favorecer candidaturas. A empresa afirmou que os problemas não afetaram exclusivamente o Brasil ou contas específicas e sustentou que seus sistemas seguem critérios objetivos, públicos e auditáveis pela Justiça Eleitoral. Também declarou cumprir as normas eleitorais e estar comprometida com a isonomia no uso de suas plataformas, rejeitando as acusações de interferência na disputa. 

A empresa também assinou um memorando com o TSE e apresentou um plano de ação para lidar com questões relacionadas à moderação de conteúdos eleitorais.

A petição feita pela CTRL + Z, no entanto, considera insuficientes os compromissos assumidos sem a divulgação de dados, critérios de decisão, justificativas e mecanismos efetivos de revisão.

Grupo responsável por levantamento pediu ao presidente do TSE, Kássio Nunes Marques, que a Meta adote medidas urgentes para enfrentar as denúncias

O documento solicita que o presidente do TSE, Kássio Nunes Marques, determine à Meta a adoção de medidas imediatas para enfrentar as denúncias. Entre os pedidos estão a restauração de conteúdos e contas removidos por manifestações políticas legítimas, a proteção de perfis de jornalistas, veículos de comunicação e movimentos sociais e o fim de restrições de alcance aplicadas sem notificação ou possibilidade de recurso, prática conhecida como shadowban.

O documento também pede que a empresa informe ao tribunal e ao público quantas contas foram banidas e quantas publicações foram removidas no Brasil desde o início do período eleitoral de 2026. Os dados deverão ser discriminados por plataforma, categoria de infração e tipo de medida, incluindo remoções, suspensões temporárias e desativações definitivas.

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