A cada R$ 10 gastos com prisões no ano passado, em 26 unidades federativas do país, R$ 6 foram dirigidos ao encarceramento de pessoas negras. Essa é uma das conclusões do estudo realizado pelo Centro de Pesquisa Justa sobre investimentos em segurança pública nos estados brasileiros. Segundo o levantamento, divulgado nesta quinta-feira, 17 de setembro, o investimento no sistema prisional dos estados chegou a R$ 22,3 bilhões, valor que não abrange apenas o Acre, que não forneceu os dados ao Justa. Desse total, R$ 13,7 bilhões foram gastos tendo como alvo pessoas pretas ou pardas.
“Cria-se uma falácia de que pessoas negras cometem mais crimes, por isso que estão presas. Mas isso é uma falácia. Na verdade, essas pessoas estão sendo selecionadas pela polícia e, depois, na frente do juiz, que poderia parar esse processo de seletividade penal, [e também frente ao] Ministério Público. [Essa] engrenagem vem sendo construída dessa forma, essas pessoas estão sendo o alvo dessa política de segurança”, explica a advogada do Justa, Sofia Fromer, doutora em saúde coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSC) de São Paulo. Para ela, o encarceramento da população negra confirma, mais uma vez, a existência de lógica punitivista e uma seletividade penal.
Egressos: um orçamento 5.423 vezes menor
Para a advogada, a medida mais eficiente para transformar a lógica do sistema carcerário seria investir em políticas públicas de reinserção para egressos do sistema prisional. Essa medida, entretanto, está longe de ser priorizada pelos estados brasileiros. Segundo o Justa, para cada R$ 5.423 gastos em 2025 com as polícias estaduais (militar, civil e técnico-científica), apenas R$ 1 é dirigido às políticas para egressos.
Na comparação com o ano anterior, o investimento permaneceu praticamente o mesmo, passando de R$ 18 milhões, para políticas exclusivas aos egressos em 2024, para R$ 19 milhões no ano passado. O valor corresponde, em média, a 0,001% de seus gastos totais levantados pelo estudo.
Entre as 26 unidades federativas avaliadas, 19 delas (72%) não investiram em políticas exclusivas para egressos. Tocantins teve dotação aprovada na Lei Orçamentária Anual, mas não utilizou os recursos. Rio Grande do Sul e Santa Catarina registraram investimentos pela primeira vez em 2025, com R$ 414 mil e R$ 177 mil, respectivamente. Alagoas e Tocantins deixaram de investir. São Paulo foi o estado que utilizou o maior recurso, R$ 13,3 milhões, seguido pelo Ceará, com R$ 3,8 milhões. Mato Grosso investiu R$ 781 mil, enquanto a Bahia despendeu R$ 482 mil.
Para Fromer, políticas para egressos são multissetoriais, envolvem saúde, educação, assistência social, além do campo do direito, “para que essas pessoas possam criar novas rotas e que não seja uma possibilidade que elas precisem voltar para as prisões”, salienta.
A advogada lembra que não existe pena perpétua no Brasil, portanto, o Estado precisa pensar como as pessoas egressas “vão conseguir um trabalho, renda, ter uma casa, ter os seus documentos. Ter o contato, por exemplo, [no caso] de mulheres presas, com os filhos que deixaram sob o cuidado de uma outra pessoa”, explica.
Policiamento ostensivo recebe a maior parcela do dinheiro
Polícias militares recebem a maior parte do orçamento em segurança pública dos estados analisados, 58,6% do total
O estudo também demonstra que se os recursos com a política para manter as pessoas fora das prisões são baixos, os gastos com a repressão são os mais altos. O total de investimentos envolvendo os 26 territórios foi de R$ 103,5 bilhões no ano passado, e a maior parte desses recursos foi para as Polícias Militares, R$ 60,7 bilhões, 58,6% do total, responsáveis pelo policiamento ostensivo da população. Já as Polícias Civis, que devem investigar os crimes, receberam R$ 22,2 bilhões (21,5%), e as Polícias Técnico-Científicas ficaram com a menor parcela, R$ 2,8 bilhões (2,7%), mesmo sendo responsáveis por atividades como perícia e produção de provas.
“Quando o investimento em policiamento ostensivo cresce sem que a investigação e produção de provas avancem na mesma proporção, o sistema amplia sua capacidade de prender sem necessariamente fortalecer sua eficiência para esclarecer os crimes. É uma lógica que ajuda a sustentar um modelo de encarceramento em massa, marcado por fragilidades na apuração da autoria e na produção de evidências”, avalia Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa.
Para Sofia Fromer, as prioridades político-orçamentárias dos estados em segurança pública não se dão ao acaso. “Realmente existe uma preferência dos estados em ter um orçamento para as polícias, em detrimento do sistema prisional e das políticas para egressos.” Segundo a advogada, o investimento maior nas polícias, em específico, nas polícias militares, cujo caráter é mais ostensivo nas prisões, aumenta o encarceramento, mas não muda a realidade.
Por que isso importa?
Em 2025, os gastos com polícias no Brasil ultrapassaram a marca dos R$ 100 bilhões, destaca o Centro de Pesquisa Justa.
Nos últimos três anos, os gastos com as polícias nos estados cresceu, em média, 9,7%, já o investimento no sistema prisional apenas 1,7% e 5,3% nas políticas exclusivas para egressos.
Ela explica que a pesquisa do Justa mostra que há um funil, onde a porta de entrada são os gastos com as polícias passando pelo investimento no sistema carcerário, até chegar aos gastos com as políticas para egressos. “[Temos] a ‘boca’ muito alargada do funil, ou seja, o orçamento ali é muito grande, e quando você vai afunilando, depois [estão] os gastos com o sistema prisional ainda menores, e com as políticas pregressas, quase inexistentes”.
Por outro lado, Fromer pensa em uma outra alternativa para mudar a dinâmica brasileira. Invertendo o funil, ou seja, investindo mais em políticas para egressos. Segundo ela, essa decisão criaria oportunidades para essas pessoas, diminuindo as chances de elas retornarem aos presídios.
“Quando o Estado destina bilhões à entrada e à permanência no sistema prisional, mas reserva valores residuais para a saída, limita as possibilidades de reinserção social e mantém condições que podem favorecer a reincidência”, complementa Luciana Zaffalon.
Modelo de El Salvador
Entre os atuais candidatos à presidência da República que concorrem este ano, pelo menos três deles, Renan Santos (Missão), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) já citaram concordar com o modelo de segurança pública propagandeado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, baseado, principalmente, na construção de mega-presídios. Questionada se essa inspiração poderia ser eficiente no Brasil, Sofia Fromer vê restrições.
“Existe, sim, uma falta de vagas nas unidades prisionais. Se você olhar uma foto de uma prisão, você vai ver que numa cela onde caberiam 12 pessoas, tem 24, às vezes até mais. [Vai ver] pessoas em uma condição de total insalubridade. […] Criar novas vagas não resolve o problema. Se resolvesse, não teríamos mais [o problema] porque as respostas para a segurança pública, para o sistema prisional, elas têm sido pautadas, muitas vezes, na construção de novas vagas”, explica a advogada.
“E aí a gente vê de novo isso aparecendo com os candidatos, muitos inspirados no Bukele, [citando] a construção de megas prisões. Isso não funciona aqui no Brasil, e, de outro ponto de vista, a gente não tem nem orçamento para fazer essas mega prisões”, acrescenta.
O Plano Pena Justa e sua eficácia
Em 2025, baseado na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 347 (ADPF 347), determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em outubro de 2023, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) junto com o Ministério da Justiça e da Segurança Pública (MJSP), elaborou o Plano Pena Justa, que consiste em enfrentar o estado de calamidade dos sistemas penitenciários brasileiros. O objetivo é melhorar a qualidade das prisões e dos serviços, além de controlar as superlotações nas penitenciárias, além de fortalecer a ressocialização dos indivíduos. O Plano Pena Justa propõe mais de 300 metas para serem cumpridas até 2027, e muitas são focadas em políticas para egressos.
O estudo do Justa mostra, entretanto, que a iniciativa, mesmo já tendo sido iniciada, ainda não apresentou resultados relevantes. Fromer entende que o Brasil começará a bater tais metas caso se debruce sobre a questão orçamentária. “Sem o orçamento, não é possível que todas essas metas do Plano se efetivem, os estados precisam ter o orçamento determinado para que, de fato, elas possam ser cumpridas”, pondera.
Washington non sta facendo nulla per contrastare il deterioramento delle sue finanze perché non può fare nulla senza rischiare gravi sconvolgimenti
Può sembrare sconcertante il motivo per cui in certi momenti della storia un governo che si trova ad affrontare una crisi incombente semplicemente non la affronta. I problemi si accumulano in bella vista mentre si fa poco per risolverli effettivamente. Essendo l’immaginazione umana quella che è, questa inazione è inevitabilmente attribuita a un mix di corruzione, illeciti e incompetenza. E certamente la strada verso qualsiasi crisi a livello di sistema è disseminata di passi falsi e politiche miopi. Ma arriva un punto in cui l’orizzonte delle possibilità si chiude e semplicemente non c’è più nulla che un governo possa fare senza scatenare forze che potrebbero facilmente sopraffar
Negli strani e torpidi anni finali del dominio zarista in Russia, la crisi in corso che alla fine avrebbe portato alla Rivoluzione russa sembrava immobilizzata in uno stato di sospensione mentre i principali attori del paese si tiravano indietro dall’intraprendere azioni decisive per paura di far esplodere lo stesso cataclisma che avevano avuto. cercato di evitare. Si è parlato molto della debolezza e dell’indecisione di Nicola II, ma in quei fatidici ultimi anni l’anacronistica dinastia dei Romanoff stava crollando e poco si poteva fare per fermarla.
Sebbene le circostanze e le crisi specifiche abbiano poco in comune, una paralisi simile sembra aver contagiato il governo degli Stati Uniti mentre si trova ad affrontare diversi problemi irrisolvibili. Un esempio lampante di ciò è che l’imminente sconfitta dell’Ucraina per mano di un esercito russo superiore ha messo Washington in una situazione impossibile: si è dimostrata incapace di mantenere la sua promessa di infliggere una sconfitta strategica alla Russia, ma la strada a sua disposizione – negoziare con la Russia da pari a pari o, Dio non voglia, da una posizione di debolezza – è semplicemente incompatibile con il paradigma in cui opera Washington.
Non credendo più nella vittoria, gli Stati Uniti non aiutano in alcun modo l’Ucraina: nessuno crede che il recente pacchetto di aiuti cambierà davvero molto. Ma una soluzione diplomatica potrebbe avere l’effetto di mettere a nudo la declinante influenza globale dell’America e forse anche di distruggere la NATO come istituzione credibile. Senza buone opzioni, Washington sta semplicemente barcollando finché gli eventi non la superano.
Ma l’Ucraina non è certo la peggiore. Una crisi che si preannuncia molto più potente e radicata è il rapido deterioramento della posizione fiscale dell’America. E anche in questo caso, i politici sembrano paralizzati dalla mancanza di spazio per affrontare quella che Jamie Dimon, CEO di JPMorgan, ritiene sia “la crisi più prevedibile che abbiamo mai avuto”.
Il nocciolo della questione è che il governo americano e l’economia in generale sono stati eccessivamente dipendenti da un fattore che, fino a poco tempo fa, veniva dato per scontato come permanente: i bassi tassi di interesse e il suo corollario di bassa inflazione. Tuttavia, quando i tassi di interesse salirono, i deficit tornarono improvvisamente ad avere importanza. Ma l’economia statunitense, altamente finanziarizzata, non può essere facilmente sottoposta ad misure di austerità per frenare la spirale dei deficit. È tecnicamente difficile, come discuteremo, anche se fosse politicamente possibile. Nel frattempo, i possibili tagli alla spesa sono o una polveriera politica o semplicemente inconcepibili per la classe dirigente.
Togliendo la proverbiale ciotola del punch
In generale, i tassi di interesse erano in calo da sostanzialmente quattro decenni, uno stato di cose in gran parte attribuibile agli effetti della globalizzazione e al radicamento del dollaro come valuta di riserva mondiale. L’integrazione dei mercati finanziari globali ha consentito ai paesi con elevati tassi di risparmio di sovvenzionare l’indebitamento americano acquistando debito statunitense, esercitando così una pressione al ribasso sui tassi di interesse. Un altro modo di pensare a questo è che per lungo tempo gli Stati Uniti sono stati in grado di mantenere tassi bassi perché potevano esportare gran parte della propria inflazione attraverso l’uso globale del dollaro mentre altri paesi sterilizzavano i dollari appena stampati.
Nel frattempo, il mondo con tassi vicini allo zero prevalente dopo la crisi finanziaria del 2008-2009 era un ambiente ancora più esotico per l’economia. Non sorprende che i livelli del debito siano esplosi. Solo dal 2007, il debito federale detenuto dal pubblico è aumentato da 4,6 trilioni di dollari alla sorprendente cifra di 27,4 trilioni di dollari. Il debito pubblico complessivo ha ormai superato i 34mila miliardi di dollari. Eppure, nonostante l’aumento del debito, la calamità non si è verificata e il governo non ha avuto problemi a contrarre prestiti.
Ciò ha alimentato un certo disprezzo nei confronti del debito e dei deficit e ha aiutato a coalizzarsi a Washington un consenso bipartisan attorno all’aumento della spesa pubblica, mentre i vecchi falchi del bilancio al Congresso si sono estinti. E gli economisti erano ottimisti: solo nel 2018, l’economista premio Nobel Paul Krugman definiva il debito una preoccupazione “assolutamente banale” . Altri, come Larry Summers, Jason Furman e Olivier Blanchard, si sono mostrati eloquenti su come i tassi di interesse sarebbero rimasti storicamente bassi per un tempo indefinito.
Ma tutto è cambiato nel 2021, quando un fenomeno ritenuto quasi debellato dalle economie occidentali è tornato con una vendetta: l’inflazione. Per contenere la crescita dei prezzi, la Federal Reserve ha intrapreso una serie di rialzi dei tassi di interesse che hanno visto i rendimenti dei titoli del Tesoro a 10 anni – il tasso che il governo federale paga ai creditori – registrare il loro aumento più marcato in quattro decenni.
I tassi più alti hanno causato un aumento della spesa per interessi dovuta dal governo. E all’improvviso, gli Stati Uniti si sono ritrovati su un percorso fiscale del tutto insostenibile. Nonostante non vi sia stata una recessione, il deficit del bilancio federale è effettivamente raddoppiato raggiungendo l’incredibile cifra di 2mila miliardi di dollari nell’anno fiscale terminato lo scorso settembre. Si sarebbe perdonati se si pensasse che gli Stati Uniti si stessero trasformando in un’economia di guerra. E non si è fermata qui: il debito sta aumentando alla velocità sbalorditiva di 1.000 miliardi di dollari quasi ogni 100 giorni.
La spesa per interessi sul debito ha già superato la spesa per la difesa – un’impresa non da poco dato che gli Stati Uniti non sono esattamente parsimoniosi nel proteggere la propria egemonia – ed è destinata a crescere ad un ritmo vertiginoso del 30% su base annua quest’anno per raggiungere gli 870 dollari. miliardi.
Così quello che sembrava un appetitoso pranzo gratis si rivelò un miraggio. Gli Stati Uniti stanno ora imparando un punto fondamentale della teoria economica nel modo più duro: i deficit non contano finché i tassi di interesse sono bassi, perché il costo del mantenimento del debito è gestibile. E i tassi di interesse, a loro volta, possono essere bassi finché l’inflazione è sotto controllo. Ma quando l’inflazione sale, i tassi di interesse salgono e i deficit aumentano. Quindi, a parità di condizioni, un’inflazione più elevata significa tassi di interesse più elevati, il che significa deficit sempre più profondi.
Siamo ora arrivati al circolo vizioso di feedback che è emerso al centro dell’interazione tra tassi di interesse, inflazione e deficit. Mentre prima vedevamo un’inflazione bassa che consentiva tassi di interesse bassi e quindi deficit facili da sostenere, ora i deficit stessi diventano un driver significativo dell’inflazione.
Il motivo per cui ciò sta accadendo ha a che fare con l’enorme spesa per interessi. Tendiamo a pensare agli interessi solo come a una spesa per il governo. Ma per gli investitori che possiedono il debito americano, rappresenta un reddito. E poiché circa tre quarti del debito pubblico americano è detenuto a livello nazionale, la maggior parte del reddito da interessi resta in patria. Chiaramente una buona parte di esso non trova la sua strada nell’economia più ampia – la maggior parte degli investitori non porta i proventi da interessi generati dalle loro partecipazioni nel Tesoro al supermercato – ma una quantità sufficiente entra in circolazione per spostare l’ago.
Quindi, paradossalmente, tassi di interesse più elevati in un contesto di livelli di debito elevati possono effettivamente creare più inflazione, non meno. Un altro modo di vedere la situazione è che quando i deficit sono ampi, l’effetto di stimolo dal lato fiscale finisce per mettere in ombra l’effetto restrittivo sui prestiti del settore privato prodotto dai tassi di interesse più elevati.
Ciò che un’economia finanziarizzata non può tollerare
Se ora abbiamo a che fare con un’inflazione strutturalmente elevata – cosa che gli ultimi dati sull’inflazione sembrano confermare – ciò significherà tassi di interesse strutturalmente più elevati. Eppure, a parità di altre condizioni, tassi di interesse più elevati significano prezzi delle attività più bassi (azioni, obbligazioni, derivati, immobili, ecc.). Questo perché: in primo luogo, il tasso di rendimento più elevato sui risparmi privi di rischio offerti dalle banche tira fuori un po’ di denaro di beni; in secondo luogo, all’aumentare del tasso di rendimento privo di rischio, il rendimento corretto per il rischio derivante dall’investimento in un’attività diminuisce, abbassando così il prezzo che gli investitori sono disposti a pagare oggi per un’attività.
Ma la prospettiva di prezzi delle attività più bassi è un problema particolarmente acuto per l’economia statunitense, che ora è così finanziarizzata – il che significa che gran parte del reddito nel paese è legato ai prezzi delle attività – che un calo dei prezzi delle attività si ripercuoterà in lungo e in largo e innescare vari effetti a catena. Uno di questi effetti è la riduzione del gettito fiscale da parte del governo. In effetti, è emerso un modello interessante che sottolinea quanto la base imponibile statunitense dipenda dai prezzi degli asset.
La cosiddetta “bolla universale” del 2021 – quando sono state registrate valutazioni record in un’ampia gamma di classi di attività – ha portato a un forte aumento delle entrate fiscali l’anno successivo (in aumento del 21% su base annua), quando le tasse su il reddito generato è giunto a scadenza. Tuttavia, quando la Fed ha aumentato i tassi di interesse nel 2022, i mercati finanziari hanno risposto in modo molto negativo e i prezzi degli asset sono scesi. Come previsto, le entrate fiscali nel 2023 sono diminuite e il deficit è tornato a galla.
Stiamo vedendo questa dinamica manifestarsi proprio ora davanti ai nostri occhi: un’inflazione più elevata del previsto sta costringendo la Fed a ritardare i tagli dei tassi, il che ha smorzato i titoli azionari.
Pertanto, qualsiasi tentativo di austerità spingerà i prezzi degli asset più in basso e quindi sopprimerà le entrate fiscali – avendo quindi l’effetto perverso di esacerbare il deficit poiché sarà necessario prendere in prestito più denaro per coprire la differenza. Questo è un ciclo dal quale è molto difficile districare un’economia. E c’è un altro rischio nel cercare di frenare in qualche modo: un’economia altamente finanziarizzata, alimentata dal debito, non risponde all’austerità nello stesso modo di un’economia strutturata in modo più convenzionale, perché non si sa mai dove sia la leva finanziaria o quanto sia grande. È. Nel 2008 il bilancio di Lehman contava solo 680 miliardi di dollari in asset, eppure è riuscito a innescare un tracollo globale.
Quindi, per riassumere, il ritorno dell’inflazione ha sconvolto un equilibrio che si era evoluto nel corso di molti anni per cui gli Stati Uniti potevano accumulare debiti sempre più alti senza conseguenze. Ma gli alti tassi di interesse hanno fatto esplodere il deficit, il che ha significato più prestiti e, infine, più inflazione perché alti livelli di spesa in deficit sono intrinsecamente inflazionistici. La situazione difficile è che non sarà facile ridurre il deficit attraverso l’austerità o con il tipo di stretta finanziaria che ridurrebbe i prezzi degli asset – anche perché la base imponibile dipende fortemente dai prezzi degli asset.
Après moi, le déluge
Gli avvertimenti di una crisi fiscale imminente stanno arrivando rapidi e furiosi ora, e suonano molto diversi rispetto a prima. Se negli anni passati si fosse potuto sentire un appello alla responsabilità fiscale espresso in una retorica idealistica che esaltava la forza e la rettitudine dell’America: “La storia ti mostrerà che non c’è paese nella storia che sia stato forte, libero e in bancarotta”, un ex membro del Congresso della vecchia scuola del Tennessee , disse una volta John Tanner – gli avvertimenti di oggi sono crudi, immediati e specifici.
Sembrano più simili a ciò che Joao Gomes, vice preside della ricerca presso la Wharton Business School, ha dichiarato in marzo alla commissione Bilancio del Senato americano: “La prossima crisi fiscale sarà innescata da un’improvvisa perdita di fiducia da parte del pubblico in generale nelle scelte del governo federale”. finanze e su coloro che hanno il compito di gestirle”. “Le sue conseguenze saranno gravi e lasceranno cicatrici durature – probabilmente irreversibili – nella nostra economia e nella nostra società”, ha concluso.
Ma si sta facendo ben poco per evitare questo risultato perché c’è poco spazio di manovra. Un sistema enorme e complesso che si è evoluto nel corso di decenni in un mondo di bassi tassi di interesse non può essere trasferito su una nuova base da un giorno all’altro – e certamente non senza molta sofferenza e rischio politico. Finora l’approccio è stato semplicemente quello di continuare a spendere e gettare liquidità a tutto ciò che irrompe nel sistema finanziario a causa dei tassi di interesse più elevati.
La spesa, almeno superficialmente, funziona. L’economia viene pubblicizzata come forte – un’opinione, tra l’altro, secondo cui la maggior parte degli elettori non crede – e gli impressionanti dati di crescita dell’ultimo anno sembrano confermarlo. Ma gran parte di questa crescita è semplicemente alimentata dalla spesa in deficit (1,6 trilioni di dollari nell’anno fiscale 2024). Dammi un trilione e mezzo e ti farò divertire!
Nel frattempo, qualsiasi tentativo serio di affrontare i deficit alla fine si scontra con il muro dei programmi di diritti. “Se vuoi affrontare i deficit, dovrai affrontare i diritti. Ecco dove stanno le spese”, ha affermato qualche anno fa il deputato Tom Cole (R-Okla.), un membro anziano della Commissione per gli stanziamenti della Camera. In altre parole, non disturbarti a venire a parlare con la sua commissione.
E infatti il Congresso discute solo 28 centesimi per ogni dollaro speso; la stragrande maggioranza della spesa federale è imposta dalla legge e avviene al di fuori del processo di stanziamenti di bilancio. Questi sono principalmente legati ai principali programmi sanitari e di benefici.
Da decenni si è capito che i programmi di assistenza sociale sono insostenibili, e ora l’ondata di baby boomer in pensione non fa altro che aumentare la tensione. Ma il sistema è stato lasciato nel suo stato disfunzionale per un tempo indefinito perché finché il debito era a buon mercato il governo poteva farsi strada con i prestiti. Lo sporco e non così segreto dietro la previdenza sociale, ad esempio, è che le imposte sui salari riscosse in passato non venivano effettivamente investite o risparmiate per pagare obblighi futuri, ma venivano spese immediatamente per finanziare altre esigenze del governo. Ciò significa che in realtà non esiste un fondo fiduciario da attingere; c’è solo un libro mastro del governo a cui attingere per prendere in prestito.
Nessun politico è stato disposto a prendere in seria considerazione importanti riforme dei programmi di assistenza sociale. Una simile incursione colpirebbe troppo da vicino il cuore dell’attuale contratto sociale americano. Ma quando i tassi erano bassi, non era necessario: il giorno della resa dei conti poteva sempre essere rinviato.
Ridurre la spesa militare sembrerebbe essere una strada possibile per fare qualche progresso. Per lo meno, una mossa prudente sarebbe quella di riconoscere che il costo di mantenere un impero e di finanziare paesi come Ucraina, Israele e Taiwan è diventato improvvisamente proibitivo e ritirarsi da tali impegni. Ma anche questo è inconcepibile per l’establishment di Washington, come dimostra il recente disegno di legge ucraino volto a portare avanti una guerra persa. Un simile ritiro sarebbe troppo in contrasto con quella che vedono come la ragion d’essere dello Stato americano.
Un simile atteggiamento ricorda un po’ quando la Germania dell’Est, contro ogni buon senso, rifiutò le riforme della “glasnost” e della “perestrojka” di Gorbaciov alla fine degli anni ’80. Otto Rheinhold, il principale teorico del Partito Comunista della Germania dell’Est, pose la questione fondamentale con eccezionale chiarezza: “Che tipo di diritto di esistere avrebbe una DDR capitalista accanto a una Repubblica federale capitalista?”
I principali teorici dell’establishment di Washington pongono essenzialmente la stessa domanda: cos’è l’America se non lo stato indispensabile del mondo? Tale rigidità non fa altro che esacerbare la paralisi.
Il commentatore svedese Malcom Kyeyune ha osservato che “il periodo più pericoloso per un sistema politico è quando ha ignorato una crisi incombente per anni e decenni, e poi alla fine, con le spalle comodamente appollaiate contro un muro che non può essere spostato, cerca di applicare politiche di ampio respiro. riforme”.
Proprio come i problemi finanziari della monarchia francese alla vigilia della convocazione degli Stati Generali nel 1789 erano diventati, dopo decenni di cattiva gestione, una questione che non poteva essere affrontata con mezzi puramente tecnici, il problema dell’incombente crisi fiscale è andato ben oltre ambito della politica economica.
Coloro che detengono le redini del potere del governo degli Stati Uniti sembrano intuire la verità delle parole di Kyeyune: stanno facendo il meno possibile, perché non possono fare nulla senza gettarsi dritti in quel periodo molto pericoloso.
O Destacamento de Trânsito de Leiria deteve, no dia 17 de setembro, um homem de 37 anos pelos crimes de condução perigosa e condução sob o efeito do álcool, na Autoestrada 17, no concelho de Leiria.
A intervenção ocorreu durante a madrugada, após uma denúncia dar conta de um veículo a circular em contramão no sentido Sul-Norte, ao quilómetro 32 da A17, segundo a Guarda Nacional Republicana. Os militares realizaram diligências imediatas que permitiram localizar e intercetar a viatura no quilómetro 9 da mesma via.
No decorrer da ação policial, apurou-se que o condutor apresentava uma Taxa de Álcool no Sangue superior a 1,2 g/l, valor que configura crime nos termos da lei.
O detido foi constituído arguido e os factos foram remetidos ao Tribunal Judicial de Leiria.
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A candidata a deputada federal Rebeca Ramagem (PL-RJ) usou verba de campanha para contratar associados de seu marido, o ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado e foragido por participação na trama golpista de 8 de janeiro de 2023. Rebeca é candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro e está auto-exilada nos EUA desde 2025 junto ao marido, o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem, condenado a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023.
Segundo levantamento feito pela Agência Pública junto à plataforma DivulgaCand Contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a campanha repassou mais de R$ 150 mil a ex-assessores e colegas de trabalho do marido.
Os recursos são provenientes de verba pública, a partir do fundo partidário do PL, que repassou R$1,5 milhão à campanha de Rebeca.
Desses, R$ 10 mil foram para Aline Laudelina Lopes dos Santos Pires, contratada como coordenadora de equipe. A empresária é irmã do blogueiro Allan dos Santos, condenado por calúnia e indiciado no âmbito dos inquéritos das Fake News e dos atos antidemocráticos no STF, sob acusação de lavagem de dinheiro, organização criminosa e incitação ao crime. Diferente do irmão, Aline não é investigada em nenhum procedimento judicial.
Rebeca Ramagem contratou irmã de Allan dos Santos como coordenadora de equipe de sua campanha à deputada federal
Allan dos Santos, que também vive nos Estados Unidos e também é foragido da Justiça brasileira, é parceiro de Alexandre Ramagem. Os dois apresentam juntos o canal Revista TimeLine, onde comentam sobre política brasileira sob a ótica bolsonarista. O canal funciona no YouTube e tem mais de 440 mil inscritos. Em 2025, o canal foi bloqueado no Brasil por ordem judicial e, desde então, só pode ser acessado por VPN. Allan dos Santos e Ramagem compartilham também o endereço de suas empresas nos Estados Unidos. Timeline US Corporation e ARBN Villa Corporation são registradas no mesmo escritório na Flórida.
Aline, que mora no Brasil, também presta serviços para o canal. Em agosto, ela realizou a cobertura da TimeLine do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência em Copacabana, enquanto seu irmão e Ramagem acompanhavam do estúdio na Flórida. Na ocasião, a campanha de Rebeca enviou bonecos de papelão dela e do marido para representá-los no ato.
Contratada pela equipe de Rebeca Ramagem, Aline dos Santos participa do canal de seu irmão Allan dos Santos e de Alexandre Ramagem
Outros R$ 80 mil da campanha de Rebeca Ramagem foram repassados para a empresa Farol Comunicação Integrada Ltda, para “serviços de marketing”. A empresa pertence a Elisa Brom de Freitas, influenciadora com mais de 580 mil seguidores no X, e também presta serviços para a campanha de Carlos Bolsonaro (PL) ao Senado em Santa Catarina.
Em 2022, Brom foi alvo de ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por publicar desinformação contra Luís Inácio Lula da Silva (PT). Na ocasião, seu perfil foi um dos responsáveis por disseminar o boato de que o petista teria desviado presentes dados por chefes de Estado à Presidência durante seus primeiros mandatos.
Rebeca Ramagem contratou empresa de ex-assessora de seu marido acusada de desinformação em 2022
Na época, ela era secretária parlamentar de Alexandre Ramagem, cargo que ocupou até dezembro do ano passado, quando foi exonerada após a cassação do então deputado federal. Além de Brom, outros seis ex-funcionários do gabinete foram contratados pela campanha de Rebeca Ramagem, com repasses entre R$ 10 e R$ 15 mil cada, totalizando R$ 150 mil.
Os contratados operam a campanha de Rebeca do Brasil enquanto ela e o marido estão nos Estados Unidos. A família saiu do país clandestinamente no final de 2025 e se estabeleceu na Flórida, onde aguardam pedido de asilo político. Lá, mesmo com as contas bloqueadas no Brasil, moram em uma casa de alto padrão e abriram empresa para venda de cursos.
Em abril, Ramagem chegou a ser detido pelo Serviço de Imigração dos EUA (ICE, na sigla em inglês) por questões migratórias, mas foi solto dias depois. Em junho, depois de 150 dias sem trabalhar, Rebeca pediu licença de seu cargo de procuradora do Estado de Roraima para se candidatar a deputada federal.
A candidatura está sob análise do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro. Para o relator do processo, Paulo César Salomão Filho, aceitar a candidatura de Rebeca seria um “tapa na cara no Poder Judiciário”, devido à ligação com o marido condenado. Outros três ministros, no entanto, já votaram pela manutenção da candidatura, formando maioria. O julgamento foi adiado na última segunda-feira (15/09) após pedido de vistas da desembargadora Tathiana de Carvalho Costa.
A Pública questionou a assessoria de Rebeca sobre as contratações de acusados por desinformação, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestação.
Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.
Noite na Marginal Pinheiros, uma das principais artérias de São Paulo: dois jovens negros são abordados por três policiais militares numa viatura. Motivo? Eles caminhavam de forma suspeita, segundo a equipe. A abordagem é seguida por revista, interrogatório e xingamentos por parte dos PMs. “Tu é todo ladrãozão, né”, comentou um dos policiais.
Nada ilegal ou suspeito foi identificado na dupla. Mesmo assim, a ação foi exaltada em um vídeo publicado no YouTube pelo Diretor Elias Junior, candidato a deputado estadual pelo MDB. “O tamanho do viaduto ficou pequeno quando viram a ROTA”, diz o título da publicação. Um formato sensacionalista que se repete entre outros youtubers que disputam as eleições de 2026 e integram a lista dos que mais monetizaram explorando operações policiais. Alguns dos vídeos contêm deboche, humilhação e truculência, expondo, além dos próprios policiais, moradores e suspeitos, sobretudo em regiões periféricas de grandes cidades.
Apuração exclusiva da Agência Pública, em parceria com a plataforma Zeeng, mostra que um candidato com muitos seguidores pode ganhar até R$ 8 mil por mês no YouTube com vídeos sobre operações e abordagens das polícias. O levantamento considerou os 15 candidatos influencers com maior monetização sobre ocorrências policiais em 2026: eles podem ter ganhado até R$ 64,6 mil na soma dos vídeos (entre shorts e vídeos longos) postados no YouTube de 1º de janeiro a 25 de agosto deste ano.
Os valores podem ser ainda maiores, pois o levantamento considera o pagamento estimado por views do YouTube, o que não leva em conta outras redes sociais e possíveis patrocínios negociados diretamente pelos candidatos, a exemplo de divulgação de cursos e produtos.
Ao todo, sete partidos de direita e centro-direita compõem o levantamento: Podemos, MDB, PP, PL, Avante, União Brasil e Republicanos. Os nomes analisados possuem vínculo direto com a Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e Guarda Civil Metropolitana de São Paulo. A exceção é Elias Junior, que é diretor cinematográfico, mas acompanha operações e explora a estética policial.
Por que isso importa?
As Polícias costumam ter normas de como seus agentes devem usar as redes sociais – muitas delas vedam o uso de palavras depreciativas ou de fardas e dispositivos.
Cerca de 6% de todos os candidatos destas eleições são ligados a forças de segurança.
Partidos de direita e extrema direita têm defendido medidas inconstitucionais de endurecimento da punição a crimes.
Dos 15 youtubers listados pela reportagem, 14 utilizam ocorrências policiais para divulgar a própria imagem, a maioria em condutas que não são condizentes com as normas das Polícias Civil e Militar de São Paulo sobre uso das redes sociais. Além disso, parlamentares licenciados dos cargos não têm prerrogativa para se apresentarem como autoridades policiais – e nem usarem distintivo ou equipamentos da corporação, conforme confirmado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.
O líder na estimativa de arrecadação é o deputado federal e candidato à reeleição, delegado Palumbo (PODE-SP), que pode ter faturado cerca de R$ 64,6 mil desde o início do ano, acumulando mais de 26 milhões de visualizações no período analisado. Mesmo licenciado do cargo de Policial Civil, Palumbo aparece nos vídeos participando de operações, sobretudo relacionadas ao tráfico de drogas.
Na maioria das ocorrências, ele caminha ao lado dos agentes, auxilia e até mesmo protagoniza interrogatórios. Os títulos utilizados nos conteúdos são majoritariamente chamativos e com palavras fortes. “São duas opções, c4deia ou caixão – dessa vez ele foi parar na c4deia”, descreve uma publicação de 20 de julho de 2026, que começa com policiais imobilizando de forma agressiva um homem na rua. “Não estamos te esculachando não, você está sendo tratado como tem que ser tratado”, diz um dos agentes. Depois de ter sido procurado pela reportagem, Palumbo retirou o vídeo do ar, mas não respondeu aos questionamentos.
Mesmo licenciado do cargo de Policial Civil, o deputado federal Delegado Palumbo (de marrom) participa de operações e posta no YouTube –este vídeo foi retirado após contato da reportagem
Delegado licenciado usa distintivo e participa de operações
O canal com maior número de inscritos pertence ao deputado federal delegado Da Cunha (União-SP), com 3,53 milhões de inscritos, embora tenha ficado em 10º lugar no ranking de visualizações. Ele publicou 237 vídeos num período de quase oito meses, podendo ter monetizado cerca de R$ 3,4 mil desde janeiro.
Da Cunha está licenciado do cargo de delegado da Polícia Civil, mas participa de operações policiais e se apresenta nas ocorrências como “deputado e delegado”. Em um dos vídeos, postado em 8 de julho deste ano, ele interrogou um homem linchado por populares após uma tentativa frustrada de assalto a uma loja de produtos importados, em Osasco (SP).
O deputado aparece no vídeo atendendo a ocorrência junto à Guarda Municipal de Osasco. Usando distintivo de delegado, o deputado também foi até o hospital onde o suspeito ficou internado após o espancamento. Com o homem com a cabeça enfaixada e deitado numa maca, o parlamentar é filmado dando sermão e ainda faz propaganda de um projeto de lei de autoria dele e dos deputados Kim Kataguiri (Missão-SP) e Marcos Pollon (PL-MS): “Sabia que aumentou a pena do 157 [crime de roubo]? Sabia que a lei é minha? Agora é dez anos a pena mínima. Vai ficar uma cotinha na cadeia, meu tio. Agradecer à polícia que salvou sua vida né, se não ‘tava’ com o CPF cancelado já”.
Da Cunha, que é deputado federal e candidato à reeleição, é filmado no hospital dando bronca em um suspeito de roubo que foi vítima de espancamento
Por lei, é considerada contravenção um policial civil usar publicamente distintivo de função que não exerce. Além disso, uma portaria editada em 2020 regulou, em São Paulo, o uso de redes por policiais civis. A norma proíbe, entre outros pontos, a publicação de fotos e vídeos com vítimas, suspeitos ou investigados; veda comportamento que busque “reconhecimento social” ou “promoção pessoal” e exige “decoro e discrição na linguagem”.
A Polícia Militar de São Paulo tem norma parecida desde 2021, que proíbe publicar ou compartilhar qualquer conteúdo que se relacione, direta ou indiretamente, com a PM, bem como divulgar operações ou investigações.
Ainda que o servidor esteja licenciado, um órgão de segurança pública pode adotar medidas administrativas pelo descumprimento de normas institucionais, explicou o professor de direito eleitoral da Faculdade de Direito de Sorocaba, Pedro Marques Neto. “Tem regras que evitam o uso de fardas, por exemplo, mas muitas vezes elas não são aplicadas”.
No Brasil, quase 30% dos órgãos de polícia não têm norma específica para o uso de redes sociais por parte dos agentes, conforme levantamento do Instituto Sou da Paz. Para a entidade, é preciso garantir a liberdade de expressão, “mas também vedar o uso da autoridade policial para autopromoção e engajamento político”.
O problema é que as normativas em geral não estabelecem o setor responsável e as formas de fiscalização dos agentes no ambiente virtual, frisou a diretora-executiva do instituto, Carolina Ricardo. “Falta em algumas normativas ter um fluxo claro de quem é o dono disso dentro das instituições, da função de fiscalizar. E isso torna muito mais difusa a implementação [das normas]”, comentou.
Procurada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo informou que o parlamentar licenciado por conta do mandato não tem a prerrogativa para usar distintivo e nem se apresentar como autoridade policial. “Não há, portanto, autorização para ações como as descritas pela reportagem”, disse, em nota, quando questionada sobre parlamentares licenciados e também sobre o caso do Elias Junior, que não é policial.
Sobre o uso de redes sociais, a Secretaria reforçou que portarias das Polícias Civil e Militar proíbem a criação de perfil vinculado ao trabalho policial, bem como a publicação de fotos e vídeos com vítimas, e que não compactua com desvios de conduta. “Casos identificados são apurados pelas corregedorias das corporações, mediante procedimento próprio, podendo resultar em medidas administrativas, disciplinares, civis e criminais”, diz a nota. A SSP, no entanto, não confirmou se os casos enviados pela reportagem serão apurados.
A Pública procurou também todos os 15 candidatos do levantamento. A Capitã Rebeca, em 12º lugar no ranking, respondeu que não monetiza com os vídeos. Porém, não comentou sobre os objetivos do canal e nem como se posiciona sobre as críticas de espetacularização da violência.
O Coronel Telhada, 14º no ranking, disse que nenhuma das suas redes sociais ganha dinheiro com monetização. “O YouTube com frequência manda mensagem para monetizarmos, mas nunca concordamos e nem aceitamos, nunca fizemos inscrição no programa de monetização de nenhuma rede social e nem faremos”, afirmou em nota.
O deputado federal Sargento Fahur e candidato à reeleição, disse que a gestão do seu canal é feita por uma empresa. “Os valores obtidos com monetização não são suficientes sequer para custear integralmente a operação”, afirmou, pois há custos com funcionários, edição de vídeos, aluguel de espaço e compra de equipamentos. “Não se trata de autopromoção, mas de divulgar aquilo que penso”, conclui nota enviada pelo policial militar reformado que está na 6ª posição no ranking (leia na íntegra).
Este espaço será atualizado em caso de manifestação dos demais.
Distintivo confiscado – e devolvido
Em julho de 2021, Da Cunha chegou a ter o distintivo e a arma confiscados após a abertura de uma sindicância contra ele por ter simulado operações policiais. Os objetos foram devolvidos em 2023, numa decisão do delegado-geral da Polícia Civil de SP, Artur José Dian. À época, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que a competência sobre o processo era exclusiva da Polícia Civil e que não iria se manifestar sobre o tema.
O vídeo “Lincharam o ladrão em Osasco”, no canal de Da Cunha, foi publicado há dois meses e tem 51 mil visualizações
Os processos administrativos foram abertos após o deputado virar réu na Justiça por abuso de autoridade e constrangimento ilegal. Em julho de 2020, ele teria constrangido uma vítima de sequestro e o próprio sequestrador a simularem um resgate para que a cena pudesse ser gravada e repercutida nas redes sociais. Ele também é alvo da Justiça, após denúncia do Ministério Público, por violência doméstica contra a ex-companheira, em outubro de 2023. Ela acusou o parlamentar de ameaça de morte, lesão corporal, dano material e de bater sua cabeça contra a parede, além de tentar sufocá-la em um apartamento em Santos.
Em 3 de setembro deste ano, o processo por abuso de autoridade teve mais uma reviravolta: o anúncio da demissão de Da Cunha do cargo de delegado por parte do Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atendendo a uma recomendação feita pela Polícia Civil em 2022. No mesmo dia em que a demissão foi anunciada, no entanto, a Justiça de São Paulo concedeu uma liminar, a pedido do deputado, impedindo que a decisão fosse formalizada.
Monetizando a estética policial
Com 1,3 milhão de inscritos, o canal do Diretor Elias Junior teria arrecadado, em média, mais de R$ 40,8 mil na monetização dos vídeos só este ano. Na página inicial do perfil no YouTube, ele aparece com um colete à prova de balas marrom e uma roupa camuflada, nas características da farda do Exército brasileiro. Em alguns dos vídeos, ele usa boina e uniforme semelhantes aos usados pela PM de São Paulo.
Em vídeo postado neste ano, Elias Junior participa de operação policial usando o que aparenta ser uma boina da ROTA – mas ele não tem ligação formal com a instituição
Elias Junior vai às ocorrências dentro das viaturas, usa o discurso punitivista e expõe as abordagens policiais, ainda que nenhum crime tenha sido identificado. Entre outros formatos, os títulos sensacionalistas criticam o sistema legal brasileiro. Um deles foi intitulado “Mulher bandida teve o benefício da mãe cárcere”. No vídeo, publicado em 16 de junho de 2026, ele conversa com uma mulher que cumpria pena por tráfico de drogas em casa por conta de um benefício legal concedido a mães de crianças com menos de 12 anos.
Em outra publicação, em 23 de junho de 2026, o candidato acompanha o patrulhamento realizado por dois tenentes da Polícia Militar que decidem abordar dois homens que estariam andando com um “jeito malandro”, na Zona Leste de São Paulo. Os homens eram dependentes químicos e foram interrogados pelos militares sobre o consumo de drogas e crimes que teriam cometido; posteriormente, foram liberados. Mas o vídeo foi postado.
O diretor Elias Junior não respondeu aos questionamentos da Pública. A Polícia Militar não comentou o caso.
O tribunal midiático e o ‘policial herói’
Jurisprudências do Tribunal Superior do Trabalho (TST) reconhecem o vínculo de integrantes da segurança pública com a iniciativa privada, desde que compatíveis com os horários e não conflitantes com a função exercida. O famoso “bico” de segurança particular, por exemplo, é proibido.
Em relação à figura do “policial youtuber”, há regras institucionais que deveriam limitar a atuação dos servidores na internet. Em São Paulo, por exemplo, é vedado o uso de qualquer elemento que se remeta à corporação em perfis pessoais, com exceção de solenidades, formaturas e eventos excepcionais. O que acontece na prática, no entanto, é a teatralização da atividade do agente de segurança, com discursos violentos que tendem a construir a imagem de “policial herói”, assim como na maioria dos programas policiais — explicou o pesquisador Dannilo Duarte, autor do livro Jornalismo Policial na Televisão Brasileira: Gênero e Modo de Endereçamento.
O autor destaca que a internet amplificou a exploração audiovisual das operações, principalmente em ações envolvendo populações mais vulneráveis. “Há um posicionamento de quem é a vítima e de quem vai ser o bandido. Recorrentemente esse bandido vai ser preto ou pardo, vai estar em regiões periféricas. Se constrói uma ideia de que está sempre vinculado ao tráfico e que são pessoas com o estereótipo do malandro, do espertalhão, que não cumpre as leis”.
Além disso, esse tipo de abordagem, conforme o autor, alimenta a ideia de “justiceiro” que, em meio a estímulos à violência e descredibilização do sistema judiciário, faz “justiça com as próprias mãos”, a exemplo do assassinato de Claudio Rafael Landeiro, em 12 de agosto, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. A vítima tinha 37 anos e foi espancada até a morte por cinco homens após ser acusada injustamente de roubar uma bicicleta.
“É um comportamento de certa forma estimulado, o ‘bandido bom é bandido morto’. Mas você não verá isso acontecer num condomínio de classe média, mesmo que o infrator tenha cometido uma infração grave. Jovens brancos de classe média, média alta, não são espancados na praia ou nos becos. A integridade física não é respeitada. Há um lixamento virtual e físico”, pontuou Duarte.
O policial rodoviário federal, Breno Faria, também candidato, não explora a estética policial, mas tem canal em que ataca leis de combate à violência contra a mulher
Dos 15 perfis analisados, há uma exceção para a estética policial. Trata-se do policial rodoviário federal, Breno Faria, candidato a deputado federal pelo PL no Rio de Janeiro. Dono do canal Café com teu Pai, perfil também popularizado no Instagram, ele aproveita o espaço na internet para a defesa de ideias misóginas e ataques a leis de combate à violência contra a mulher. Em um dos vídeos, afirma: “as leis feministas não protegeram a mulher em nada” e defende o “aconselhamento familiar” como mais eficiente do que a atual legislação.
Numa outra publicação, Breno Faria faz comentários pejorativos sobre as roupas da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). “Mulher trans negra ou patricinha de Beverly Hills?”, publicou em 15 de junho. Estima-se que Faria tenha monetizado em torno de R$ 3,8 mil só no YouTube desde janeiro, somando mais de 1,9 milhão de visualizações em 401 vídeos.
METODOLOGIA
A Agência Pública começou o levantamento considerando os 100 youtubers e perfis no YouTube que têm maior número de inscritos na plataforma. Em seguida, cruzamos com os que são candidatos neste ano, usando a base de dados do Tribunal Superior Eleitoral.
Para estimar os valores monetizados pelos candidatos, foi considerada a soma de visualizações dos vídeos publicados em cada um dos 15 canais do YouTube entre 1.º de janeiro e 25 de agosto deste ano, separadas entre shorts e vídeos longos. Com isso, foi aplicado um modelo de receita bruta de anúncios que combina um parâmetro oficial do YouTube – a partir da divisão de 55% da receita publicitária com o criador e as estimativas de CPM (custo por mil impressões) e de RPM (receita por mil visualizações).
Eduardo Prange, pesquisador e CEO da Zeeng, afirma que os valores calculados são uma estimativa “moderada”, já que foi feito também um cenário otimista e conservador para as possíveis arrecadações. Prange destaca que a única forma de ter dados precisos de monetização seria com acesso ao YouTube Analytics de cada canal – que só o titular possui.
Os valores publicados não consideram outras redes sociais e também possíveis patrocínios negociados diretamente com o titular do canal, como divulgação de cursos ou de produtos.
Obra com pormenores inéditos da vida da falecida princesa Diana tem lançamento global previsto para esta próxima terça-feira. Memórias do irmão trazem revelações sobre casamento com o agora rei Carlos III e o impacto da morte de Diana na família real britânica.