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O futuro da colaboração entre agências e clientes

19 October 2026 at 22:13
Como se constrói uma nova relação de trabalho entre agência e cliente e o que muda na forma de criar valor em conjunto? É este o ponto de partida para a conversa com Guilherme Coelho, Managing Partner da CSA Havas Portugal.

Changan promove com a Seleção gama de pick-ups usada pela Rússia para lançar drones contra a Ucrânia

By: + M
19 October 2026 at 15:56

A campanha “Stay in the Game!”, com que a fabricante chinesa Changan Automobile promove o patrocínio à Seleção Nacional, inclui a gama de pick-ups Hunter. Viaturas desta gama estão a ser usadas pelas forças russas para lançar drones contra a Ucrânia, segundo a Slidstvo.Info, agência ucraniana de jornalismo de investigação independente.

Fruto do contrato assinado em maio com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), a imagem de cinco jogadores, entre os quais Cristiano Ronaldo, está a ser utilizada para promover cinco modelos de automóveis. Num vídeo divulgado em julho pelo propagandista russo Vladimir Solovyov, uma pick-up Hunter surge a ser utilizada como plataforma de lançamento de drones de ataque.

Segundo o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), que também publicou a investigação em parceria, foram importadas para a Rússia 327 pick-ups Hunter em 2024, com mais 145 a terem chegado durante os primeiros três meses de 2025. De acordo com dados do grupo de análise automóvel Inovev citados pelos jornalistas, a Changan aumentou as exportações para o mercado russo após a saída de fabricantes europeus e norte-americanos, na sequência da invasão em larga escala da Ucrânia.

Questionada pela Slidstvo.Info, a FPF afirmou que o contrato de patrocínio passou por um processo de compliance “rigoroso”. Já a Changan Automobile não respondeu ao pedido de comentário.

Judite Mota é candidata à direção do Clube da Criatividade de Portugal 18 anos depois

By: + M
19 October 2026 at 11:57

Judite Mota, CCO da Publicis e desde 2024 vogal da direção do Clube da Criatividade de Portugal (CCP), é candidata à presidência da associação, encabeçando a única lista apresentada para o biénio 2026-2028. As eleições realizam-se online a 22 de outubro, depois de o prazo para a apresentação de candidaturas ter terminado a 15 de outubro.

A Lista A propõe uma combinação de continuidade e renovação, com João Madeira, diretor criativo executivo da Fuel, como vice-presidente.

A direção integra ainda Mafalda Quintela, diretora criativa da Mafalda&Francisco, Margarida Borges, designer e cofundadora da Desisto, Daniel Caeiro, diretor de estratégia da Uzina, como vogais e José Maria Machado, diretor de contas da BBDO, como tesoureiro.

No Conselho Fiscal, Mário Mandacaru mantém-se como presidente, acompanhado por Anabela Vaz Borges, em representação da BDO, e Maria Magalhães. A Mesa da Assembleia Geral conserva igualmente a composição atual, com Luís Alvoeiro na presidência, Luís Mileu como vice-presidente e José Ricardo Monteiro como secretário.

O programa da Lista A estabelece oito prioridades para o próximo biénio, entre as quais o reconhecimento do talento nacional, a formação de uma nova geração de criativos e a internacionalização da criatividade portuguesa.

A candidatura pretende também reforçar a ligação às escolas de criatividade, manter os programas dirigidos aos jovens profissionais e dar continuidade às relações com o Art Directors Club of Europe e o One Club of Creativity.

A dignificação da profissão é outra das linhas de atuação propostas, incluindo a procura de uma sede permanente para o Clube e o desenvolvimento de parcerias que promovam a reflexão sobre inovação, ética, sustentabilidade, cultura laboral e responsabilidade social.

A lista propõe ainda continuar a descentralizar as atividades do CCP, com a realização de eventos fora de Lisboa e uma maior integração de profissionais de outras regiões, bem como aprofundar a relação com os anunciantes e promover um mercado mais inclusivo, equitativo e participativo.

A relação com as agências associadas, através de contactos regulares com os seus diretores criativos, integra igualmente o programa, com o objetivo de responder aos desafios do setor em matéria de representação e formação.

Sob o lema “Uma nova Direção na mesma direção”, a candidatura defende a continuidade dos princípios do Clube, acompanhada pela entrada de novos membros e ideias. O programa pretende também prosseguir a transformação do Clube dos Criativos num Clube da Criatividade, alargando a representação às diferentes disciplinas que trabalham a criatividade em comunicação.

Judite Mota, foi presidente do então Clube da Criatividade de Portugal entre 2004 e 2008 e sucede a Susana Albuquerque, presidente do CCP nos últimos quatro mandatos.

Só me saem dupes e cenas tristes…

19 October 2026 at 11:11

Há uma palavra nova para um expediente antigo: dupe. Vem de duplicate e apresenta um produto como alternativa mais barata a outro, conhecido e desejado. Nas redes sociais, a descoberta chega em êxtase: ‘parece o original, mas custa apenas uma fração do respetivo preço’. Pode ajudar a escolher. Também pode ser uma maneira bastante económica de pôr uma marca alheia a trabalhar para nós. Sem contrato e, aparentemente, sem sequer um obrigado.

Convém distinguir o dupe da cópia parasitária, ou copycat, ou lookalike. Nesta última, não se copia o nome: vão-se buscar as cores, as formas, as letras e a arrumação da embalagem. Tudo coisas perfeitamente banais, dirá o imitador. Curiosamente, depois de juntas, lembram sempre uma marca que já vende bem. Não é preciso convencer o consumidor de que está a comprar o original. Às vezes, basta aquele segundo de familiaridade. O resto faz-se na prateleira.

O dupe anunciado sem rodeios poupa esse trabalho. Em vez de esperar que alguém pense ‘isto lembra-me aquela marca’, diz logo qual é a marca que deve ser lembrada. A boleia deixa de ser discreta: vem no título, aparece na pesquisa e circula nas partilhas. A identidade é de uns, a promoção rende a outros. Há quem lhe chame esperteza comercial. Visto do banco de quem paga a viagem, tem menos graça.

Nem tudo o que se vende ‘ao estilo’ de uma marca constitui uma infração, ou sequer se parece com ela. Cada caso exige olhar para o produto e para o contexto. Mas, antes de abrir o link, podemos fazer uma pergunta simples: estamos a comparar para esclarecer ou a chamar uma marca conhecida para vender o produto de outra pessoa?

Apenas entre 20 e 30 de Setembro, retirei do meu clipping os títulos abaixo. Deixo-os aqui porque a sequência vale mais do que uma explicação. Estes operadores não são os únicos, nem estas publicações têm o exclusivo da fórmula. Há, pelos vistos, muita gente a descobrir a mesma ‘genialidade’:

  • Aldi lança calças de trabalho estilo Carhartt ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Aldi lança coluna portátil (estilo JBL Clip) com funcionalidade genial ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Conjunto de caixas estilo Tupperware do Aldi vai voar das prateleiras (Versa)
  • Lidl proibido de vender sandálias de estilo Birkenstock. Arrisca pagar 5 mil euros por dia (News in Cascais)
  • Lidl lança cardigan de malha (estilo Ralph Lauren) ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Lidl lança blazer (estilo Sacoor) ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Só falam dos tachos estilo Le Creuset da Ikea porque não viram estes mais baratos (e mais bonitos?) (Versa)
  • Lidl lança gabardine (estilo Ralph Lauren) ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Lidl lança pincéis de maquilhagem estilo Real Techniques ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Lidl lança ténis de corrida (estilo Adidas) ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Lidl lança liquidificadora portátil com bateria (estilo Nutribullet) ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Aldi lança calças estilo Sacoor ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Lidl lança potente berbequim (estilo Bosch) ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Lidl lança saco estilo Longchamp ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Lidl lança relógio (estilo Audemars Piguet Royal Oak) ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Lidl lança mochila estilo Eastpak ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Aldi lança botas estilo Dr. Martens ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Lidl lança aparafusadora premium com bateria (estilo Black+Decker) ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Lidl lança balança com funcionalidade premium (estilo Withings) ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Aldi lança casaco premium estilo Carhartt ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Mercadona lança popular chocolate estilo Kinder Bueno ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Aldi lança galochas estilo Hunter ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Lidl lança máquina para barba e cabelo (estilo Philips) ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Lidl lança mini bomba de ar portátil genial (estilo Xiaomi) ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Lidl lança alisador de cabelo (estilo Rowenta) com funcionalidade genial ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Action lança estendal em torre (estilo Vileda) ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Lidl vende caixas para frigorífico (estilo Tupperware) ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Aldi lança calças de ganga (estilo Levi’s) ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Aldi lança camisola polar (estilo Columbia) ao preço mais baixo de sempre (MSN Portugal)
  • Aldi lança mochila estilo Kanken ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)
  • Lidl lança calças chino (estilo Ralph Lauren) ao preço mais baixo de sempre (Magazine HD)

Mais de trinta títulos num intervalo de dez dias. Dezenas de produtos e marcas, quase uma única frase. Troca-se o produto, muda-se a marca entre parênteses e mantém-se a notícia bombástica: ‘ao preço mais baixo de sempre’. A criatividade, essa, está em promoção permanente.

Mais baixo de sempre em relação a quê? Desde quando? Com que histórico? Perguntas aborrecidas, reconheço. O título tem espaço para o entusiasmo; para a explicação, já não costuma sobrar. ‘Premium’ certifica tudo. ‘Genial’ tanto serve para uma coluna como para uma bomba de ar ou um alisador. As caixas ‘vão voar das prateleiras’ e o chocolate é ‘popular’ porque alguém decidiu escrevê-lo. Não faltam adjetivos. Faltam, por vezes, as razões para os usar. O leitor recebe entusiasmo comercial em formato de notícia e quem construiu a marca entra na festa como patrocinador involuntário.

Uma marca conhecida não apareceu ontem entre dois parênteses. Houve desenvolvimento de produto, qualidade, design, distribuição, comunicação e anos de experiências dos consumidores. O nome traz expectativas. Usá-lo como chamariz para um produto de terceiro permite ir buscar atenção e credibilidade sem pagar o trabalho que as criou. É eticamente questionável e concorrencialmente desleal, ainda que a qualificação jurídica de cada caso dependa dos factos. O ‘estilo’ pode ser barato. A reputação que lhe dá jeito custou dinheiro.

‘Mas o consumidor sabe o que está a comprar!’ Muitas vezes, sabe. E então? O benefício pode ter sido recolhido muito antes de chegar à caixa registadora: quando a marca conhecida o fez abrir o artigo, pesquisar o produto ou olhar para uma alternativa que, pelo seu próprio nome, talvez passasse despercebida. Uns fornecem o atalho mental, outros recebem os cliques. Se a alternativa desiludir, nem todas as associações feitas pelo caminho desaparecem por magia.

No grande consumo, as cópias parasitárias aproveitam uma compra rápida e rotineira, entre milhares de referências. Antes de ler, reconhecemos cores, formas e grafismos. Isoladamente, cada elemento pode ser vulgar; em conjunto, pode ser uma identidade construída durante anos. O imitador hábil fica suficientemente perto para ganhar a atenção e suficientemente longe para deixar uma discussão jurídica sobre cada pormenor. Ele ganha segundos na prateleira. O titular da marca ganha anos de processo. Uma distribuição de tarefas verdadeiramente ‘genial’.

O dupe promovido por comparação explícita nem precisa de tanta ginástica visual: o título faz o serviço. Se a aparência também ajudar, melhor ainda. Mas não vale meter tudo no mesmo saco. Há concorrentes que oferecem qualidade e preço inferior por mérito próprio. Há comparações honestas que ajudam a escolher. O que merece escrutínio é fazer da identidade de outro a principal razão para olhar, clicar ou comprar. Ter uma proposta própria também devia fazer parte do negócio.

Precisamos de instrumentos que avaliem a impressão global no contexto real da compra e o aproveitamento da reputação alheia. E de respostas que cheguem antes de a gama desaparecer e dar lugar à seguinte. Com proporcionalidade, claro: ninguém deve ser dono de uma cor vulgar, de uma forma funcional ou do direito a vender mais barato. A concorrência deve afirmar-se pela qualidade, inovação, serviço e preço. Construir uma identidade própria não é uma extravagância que se possa exigir apenas aos originais.

Também há uma responsabilidade editorial básica. Quem usa uma marca para promover outra oferta deve explicar a comparação, verificar o que afirma sobre preço e desempenho e distinguir informação de publicidade. Escrever ‘estilo’ não transforma uma associação comercial em análise independente. E repetir ‘genial’ até à exaustão prova sobretudo que se encontrou uma maneira descansada de encher títulos.

Defender as marcas não é pedir ao consumidor que pague mais nem fechar a porta às alternativas. É reconhecer que notoriedade e inovação têm autores e custos. O consumidor merece escolhas verdadeiras; as empresas merecem competir sem financiar, à força, a promoção de quem as imita. Quanto ao ‘preço mais baixo de sempre’, talvez haja finalmente uma resposta segura: é aquele a que se está a vender a imaginação de quem escreve estes títulos.

A vender o local sem traduções, Filipe Bonina, da Octant Hotels, na primeira pessoa

19 October 2026 at 10:42

Filipe Bonina, diretor de marketing da Octant Hotels

“Nunca comunicamos nada que não estejamos absolutamente convencidos de que é verdadeiro. Se acharmos que a verdade que temos não é suficientemente interessante para o consumidor, significa que temos de desenvolver mais o nosso produto.” É assim que Filipe Bonina, diretor de marketing da Octant Hotels, traduz em conversa com o +M como o conceito “Local Kind of Luxury” é aplicado no marketing.

Este conceito esteve na base da criação da Octant em 2022 pelo grupo de gestão hoteleira Discovery Hotel Management (DHM). A marca reuniu hotéis que já existiam e que “estavam falidos, basicamente” antes de serem recuperados. O grupo nunca construiu um hotel de raiz para a Octant. No entanto, faltava uma base comum para vários locais, com conceitos e arquiteturas diferentes. Um dos focos foi o localismo. “Queremos ser o melhor hotel para se estar e para se conhecer cada uma das regiões onde estamos.”

Por trás está uma leitura do que procura quem viaja. “Na hospitalidade temos o dever de defender aquilo que é verdadeiro. Vivemos numa época em que estamos rodeados de ilusões. Em momentos de lazer sobretudo, há uma tendência muito forte para as pessoas procurarem coisas de verdade, ou seja, saberem que aquilo que lhes é proposto e oferecido realmente tem uma base e uma raiz que é absolutamente verdadeira “, defende.

“Em Portugal, temos a mania de traduzir tudo. Os hóspedes que tentamos cativar gostam da verdade”

Filipe Bonina admite que “todos os dias” são tentados a fugir do localismo, mas que a persistência tem permitido “evoluir para cada vez mais ter este posicionamento concretizado”. O posicionamento é o mesmo quer para o mercado nacional, quer para o internacional. “Desde a raiz daquilo que produzimos, temos sempre a preocupação de ter uma mensagem e também formatos que se apliquem a todos os mercados em que estamos presentes”, nota.

Nos restaurantes dos hotéis, o conceito passa por produtos e receituário locais. “Não somos absolutamente rigorosos nisso, porque achamos que podemos, dentro da tradição gastronómica portuguesa, também apresentar a um hóspede estrangeiro pratos de outras regiões do país e, portanto, não vemos isso como uma falha no posicionamento”.

A aposta no local levou a marca a criar o “Como em Casa”, iniciativa que convida habitantes das localidades onde estão os hotéis a preparar refeições para os hóspedes, com base na cozinha da região. O nome nunca foi traduzido, nem nos Estados Unidos (EUA). “Limito-me a imitar os italianos que toda a gente adora e que, por exemplo, nunca traduzem nada para ninguém. Em Portugal, temos a mania de traduzir tudo. Os hóspedes que tentamos cativar gostam da verdade, não gostam de chegar a um sítio e de repente perceber que andaram a tentar imitar aquilo que eles têm em casa”, argumenta.

Nos vídeos, as cozinheiras falam em português, com legendas para os mercados estrangeiros. “Mostramos pessoas que vão encontrar se vierem a Évora. Isto cria uma comunicação quase documental que acreditamos que é valorizada hoje em dia”. O formato também tem resultado. Foram feitas peças de cerca de 30 segundos, uma por hotel, e no YouTube mais de 80% das pessoas viram-nas até ao fim, segundo dados da marca. “A questão não é se é curto ou se é longo. Quando estamos a expor uma peça, estamos também a entreter as pessoas, para além de estarmos obviamente a apresentar-nos como produto. Se somos suficientemente interessantes, a peça até pode ter 5 minutos. Claro que o esforço é muito maior”, considera.

A lógica do localismo aplica-se às experiências, cada vez mais importantes num país que “vendia basicamente turismo de sol”, em que as pessoas iam à praia “e depois iam todas vermelhas para casa, mas felizes”. Com mais investimento em destinos menos óbvios e do interior, é preciso “oferecer mais profundidade na estadia”, defende. O risco, alerta, é acabar “num catálogo de milhares de experiências, todas assim mais ou menos”.

No caso da Octant, têm procurado o contrário, de forma a que o hóspede diga “só aqui é que eu poderia ter tido esta experiência ou nunca tinha visto isto”. Exemplos dados por Filipe Bonina passam, no Octant Douro, por passeios no rio num barco rabelo reconstruído, assim como por um festival dedicado à região que celebrou o rio “desde a nascente até à foz”. Quando o mercado começa a imitar, considera que o caminho passa por “continuar a imaginar coisas para estarmos sempre um bocadinho à frente”.

Quatro anos depois do lançamento, a prioridade é consolidar. A Octant começou com oito hotéis e passou para seis, deixando cair unidades mais pequenas que “teriam alguma dificuldade em acompanhar o ritmo de crescimento pretendido”. A expansão virá depois, quando todos os hotéis atuais chegarem ao nível desejado, e é “muito improvável” que passe por outros hotéis que já pertencem ao grupo.

Consolidar passa também por melhorar os hotéis atuais. As expansões deste ano no Octant Praia Verde e no Octant Vila Monte, este último onde as obras ainda decorrem, têm sido divulgadas aos poucos, para “não parecer só uma coisa bang que aconteceu”. Este verão, o foco esteve sobretudo no Praia Verde, um hotel que “depende muito da época alta” e onde a marca queria arrancar bem.

Para ganhar o foco na consolidação, a estrutura acionista decidiu em fevereiro “autonomizar” a marca. “Foi uma espécie de spin-off”, que abrangeu os departamentos top line como o marketing, o revenue e as vendas. A nova entidade partilha alguns serviços com o grupo, mas opera de forma independente. Filipe Bonina, até então diretor de marketing da DHM, ficou só com a Octant, e Cláudia Silva, que fazia parte da equipa, passou a dirigir o marketing do resto do negócio.

Com a autonomia, Filipe Bonina ganhou tempo para o detalhe. “Uma marca de luxo de hospitalidade precisa de detalhe”, defende. Passou a visitar mais os hotéis e a observar “como os hóspedes atuam, o que é que pensam de nós, o que é que encontram de bom e mau”. Longe do dia a dia de um portefólio que incluía campos de golfe, a equipa pode concentrar-se na estratégia e nos projetos para o futuro das seis unidades, “de uma forma muito criteriosa e muito detalhista”.

“Sentimos que muitas vezes éramos viciados para aquilo que é a nossa realidade e não para a compreensão do mercado internacional”

A equipa de marketing é composta no total por seis pessoas. Dois marketing managers ligados aos hotéis, que fazem a estratégia da marca e de cada unidade e trabalham com as agências. Depois uma pessoa dedicada à produção e ao desenvolvimento de experiências. “Esta é a pessoa que, depois da ideia estar concretizada, tem de a produzir e garantir que vai para o ar.” Há ainda a responsável pelas relações públicas e marketing de influência (Ana Stilwell) e um responsável pela gestão e desenvolvimento do ecossistema digital.

O marketing de influência é feito internamente, sem parceiro externo, com “uma curadoria muito grande” dos perfis convidados. “Queremos garantir que mantemos alguma genuinidade naquilo que é a experiência que depois passamos também para fora e que não é uma coisa construída artificialmente”. As peças de que mais gosta são aquelas em que se percebe que as pessoas “foram para um hotel nosso com os filhos e estão, de facto, a partilhar um fim de semana bem passado”.

A rede de parceiros segue uma lógica entre o local e o internacional. Na criatividade, a mais recente é a holandesa KesselsKramer, escolhida pela experiência em hospitalidade e em mercados externos. “Estamos em Portugal mas estamos a vender uma parte importante do nosso produto para o estrangeiro. Sentimos que muitas vezes éramos viciados para aquilo que é a nossa realidade e não para a compreensão do mercado internacional. Portanto, encontrámos uma agência que tem esta experiência de trabalhar neste tipo de negócios”.

Na comunicação, há uma agência por mercado. A Burson em Portugal, a Laura Davidson Public Relations nos EUA, a Sauce Collective no Reino Unido e a IMS Consulting em Espanha, que cobre também a Europa Central. A marca conta ainda com as agências criativas Experimenta Studio e Poets & Painters — esta também no design –, a agência digital Voilà Maison, o designer Diogo Potes, a produtora Tendência Fidalga, de Afonso Sousa, as agências de eventos H2N e Lohad e a fotógrafa Joana Freitas.

“Quando vendemos um produto de hospitalidade, estamos a pedir às pessoas não só dinheiro, mas também o seu tempo de lazer, que é um bem muito escasso”

O passado no grande consumo

Filipe Bonina chegou à hotelaria depois de passar muitos anos no grande consumo, em empresas como a Unilever, a Kellogg, a Coca-Cola e a Central de Cervejas e Bebidas. “Estou sempre a dizer que é a primeira vez que eu trabalho numa coisa que não se mete dentro de uma embalagem”, brinca. Precisava de “uma experiência nova” e encontrou uma indústria numa fase “muito divertida para quem trabalha nela”, a passar de um setor “muito tradicional, muito familiar” para um que”se está a sofisticar e a crescer”.

Questionado sobre o que trouxe do grande consumo, responde sobretudo com o que mudou. Na hotelaria, nota, a valorização do produto e da experiência é “muito profunda”, e as críticas, boas ou más, são “sempre muito efusivas”. A razão, acredita, está no que se pede ao cliente, e ajuda a explicar a regra com que a marca comunica.

“Quando vendemos um produto de hospitalidade, estamos a pedir às pessoas não só dinheiro, mas também o seu tempo de lazer, que é um bem muito escasso. A maior parte de nós tem 22 dias de férias por ano”. Por isso, diz, o marketing tem de ser “mais responsável do que em qualquer outro setor” onde trabalhou. “É muito errado iludir as pessoas. Isso tem um preço e paga-se rapidamente em pouco tempo”.

E dá um exemplo: “Na Coca-Cola era bom a bebida estar fresca, mas se um dia não está, gastámos dois euros e passados cinco minutos já não nos lembramos. Uma experiência má de hospitalidade, nunca mais somos visitados por aquelas pessoas.”

Para ser um bom profissional de marketing, defende, bastam senso comum, disciplina e criatividade. Não é preciso “nenhuma formação muito específica nem excecional”. “O marketing é para parvos”, brinca. O senso comum, ressalva, é “uma coisa muito difícil de alimentar e de produzir”. Já a criatividade “alimenta-se e cria-se a viver”.

“Viver significa estarmos expostos à atividade cultural, ao dia a dia das pessoas e que não sejam só as pessoas da nossa bolha privada. Compreendermos realidades que estão para além da nossa”, exemplifica.”Quando se passa de um bom marketeer para um marketeer excecional, é esta a parte que faz a maior diferença — perceber que a nossa vida não é um espelho da humanidade nem das pessoas que queremos impactar”, resume.

No seu caso, ajudou ter passado por várias empresas e países — exemplo dos anos em Madrid pela Coca-Cola –, mas sobretudo a curiosidade. “Há pessoas que já estiveram em mais de 50 países e que os viveram muito pouco.” Em Madrid, foi aos sítios onde os bailarinos de flamenco vão depois dos espetáculos e aos restaurantes mais populares, “não apenas aos Michelin e recomendados”. “É importante depois também desligarmo-nos um pouco de preconceitos e estarmos abertos para criarmos amizades com pessoas que são diferentes de nós. Isso depois também nos leva para outras dimensões e para outros sítios“, nota.

Outro ponto de inspiração podem ser os transportes públicos. “É um local de observação muito bom de comportamentos. Para percebermos como é que as pessoas estão, o que querem, procuram, atuam, o que falam”. “Acho que nos transportes públicos se calhar nunca tive nenhuma ideia, mas acho que alimentei o meu subconsciente com esses momentos.” As ideias, essas, surgem-lhe a conduzir.

Fora do trabalho, vive na Ajuda, em Lisboa, “e não é num palácio”, brinca. Gosta de cinema, de ir ao Estádio da Luz ver o Benfica e de desfrutar de vinho e queijo. “Costumo dizer que ninguém é infeliz enquanto está a beber vinho e a comer queijo.”

No seu dia a dia, faz questão de que todas as semanas haja “coisas divertidas e ligeiras” para fazer, e deixa um conselho.”Não vivam para as férias. Depois, quando forem de férias, podem vir para os Octant, mas até lá alimentem a vida todos os dias com coisas divertidas e boas”.

Esse tipo de atitude, acredita, “faz com que não estejamos ansiosos no último dia de férias quando vimos trabalhar, porque não vai ser assim tão mau. Nem as férias são tão boas como às vezes imaginamos, nem os dias de trabalho tão maus como às vezes os percebemos. A vida tem de ser levada com alguma ligeireza”.

Filipe Bonina em discurso direto
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Que campanhas gostava de ter feito/aprovado? Porquê?
A nível nacional, a da marca Olá, na primeira campanha de Inverno, que mostrava um vendedor de gelados a caminhar e a apregoar gelados numa praia deserta e que assinava “nos locais habituais”. A nível internacional, a campanha da Patek Philippe: “Você nunca possui realmente um Patek Philippe. Você apenas cuida dele para a próxima geração.” A razão para ambas as escolhas deve-se à clareza e à simplicidade com que expõem o posicionamento de longevidade e justificam a compra.
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Qual é a decisão mais difícil para um marketeer?
Abandonar um caminho. Ter a capacidade para reconhecer que algo que lançámos não funciona e que tem de ser retirado ou transformado.

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No seu top of mind está sempre?
Ser diferente.
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O briefing ideal deve…
Ser como uma boa anedota: curto e claro, sem necessidade de explicação. Se assim for, o resultado final também será assim.

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E a agência ideal é aquela que…
Que nos desafia, que entrega diferença e que tem um bom serviço.

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Em publicidade é mais importante jogar pelo seguro ou arriscar?
Arriscar.

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O que faria se tivesse um orçamento ilimitado?
Demitia-me e procurava uma empresa que precisasse de mim.
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A publicidade em Portugal, numa frase?
Cheia de medo. Culpa de clientes e agências.

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Construção de marca é?
Coragem e persistência.
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Que profissão teria, se não trabalhasse em marketing?
Dono de uma gelataria.

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