Proposta “para já” ou pedido da própria? As duas versões da saída da diretora de informação da Lusa

A ex-diretora de informação da Lusa, Luísa Meireles, disse esta quinta-feira no Parlamento que o Conselho de Administração (CA) lhe propôs a saída com efeitos imediatos. A proposta foi apresentada dois dias depois da audição parlamentar do presidente da agência e após ter questionado a administração. Luísa Meireles acusou ainda os dois novos administradores de passarem por cima da direção de informação. Ouvido logo a seguir, o presidente da Lusa, Joaquim Carreira, garantiu que a saída foi pedida pela própria e que “nunca” houve ingerência.
As duas audições decorreram na comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, esta quinta-feira, a requerimento do Livre, do PS e do PCP.
Uma saída “para já”
Para Luísa Meireles, “o tiro de partida” foi a audição de 29 de setembro. Nesse dia, Joaquim Carreira disse no Parlamento que “não chegou à Lusa qualquer intenção de mudar a Direção da informação”, mas acrescentou que “a atual diretora de Informação está a atingir a idade limite legal [para o cargo] e também tem funções na Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas (CCPJ”). Admitiu ainda que “poderá haver alterações”, decorrentes de eventuais “conflitos de interesses”, mas que a situação [não está] completamente esclarecida”.
As palavras foram entendidas como, “numa linguagem mais livre, um despedimento em direto”, e diz que não foi a única, tendo a situação deixado a redação “polvorosa”. A 1 de outubro, a direção de informação foi pedir esclarecimentos ao presidente. Nessa tarde, Luísa Meireles foi chamada a uma reunião “sozinha” e recebeu uma proposta de saída com quitação datada de 30 de setembro. Perguntou quando seria aplicada e a resposta foi “Já”. “Ainda questionei: ‘Mas têm a noção de que estão a decapitar esta agência da Direção de Informação?’ — ‘Sim, sim, mas a gente assume o risco’”, contou.
Pediu tempo para pensar e aceitou a proposta a 6 de outubro, depois de receber um telefonema da administradora com o pelouro financeiro. No dia seguinte, o acordo escrito trazia a saída adiada para 23 de outubro, porque a administração tinha “um problema de interinidade” e achava que a jornalista tinha levado a proposta “muito à letra”. Luísa Meireles recusou: “Eu sou [diretora de informação] na plenitude das minhas funções, ou não sou.” Assinou a 8 de outubro e saiu a 12. “Não discuti os termos do acordo, só discuti a data de saída.”
A diretora faz 70 anos a 23 de novembro e diz que “não tinha a intenção de ficar para além dos 70 anos a dirigir a Lusa, de modo nenhum”. Acrescentou que a administração a questionou sobre isso “nos últimos tempos”. Nessa data, o contrato passaria a contrato a prazo de seis meses, e teria até 3 de novembro para decidir. “Não fui obrigada a sair. Fizeram uma proposta de saída”, disse. Ainda assim, considera que “houve de facto uma precipitação”.
Recusa também a ideia de conflito de interesses com a presidência da CCPJ, uma função pro bono que ocupa desde fevereiro. Considerou “estranho” que essa alegação surgisse sete meses depois. Disse ainda que o assunto não foi invocado na reunião em que lhe propuseram a saída.
A administração conta outra história. A saída “resultou de um acordo entre as partes, na sequência de um pedido da própria ao Conselho de Administração para que fosse apresentada uma proposta de cessação do vínculo laboral”, afirmou Joaquim Carreira. Segundo o presidente, o CA “pretendia que a diretora de informação se mantivesse em funções interinamente por mais algum tempo, mas foi vontade da diretora de informação cessante sair rapidamente”.
A vice-presidente Ana Alves disse que já se falava da saída de Luísa Meireles “antes do verão”. “Essa questão surgia nas reuniões que tínhamos de forma natural. Não de forma imposta”, disse. Lembrou que, aos 70 anos, o contrato passaria a ser de seis meses. A empresa só o poderia rescindir com 60 dias de aviso, mas a diretora poderia fazê-lo com 15. “A direção de informação, para uma empresa como a Lusa, talvez seja a função mais importante que temos, e ter um vínculo que pode ser rescindido com 15 dias não nos dá grande estabilidade.” Mas acrescentou: “Não foi esse o motor da decisão. Foi um pedido de proposta que a própria Luísa fez. As motivações não as conheço.”
“Atropelando a direção de informação”
Segundo Luísa Meireles, a relação com o CA mudou quando entraram os administradores Luís Ferreira Lopes e Ana Alves. Durante cinco anos, com Joaquim Carreira, cada um respeitou “as suas áreas”. Os novos administradores mostravam “uma grande vontade de tratar diretamente com os jornalistas”, quando a prática era a administração falar com a redação através da direção.
“A situação começou a ficar mesmo estranha a partir da altura em que nos são pedidos contributos para as coisas”, contou. “Para além do agradecimento dos nossos contributos, a situação ficava na mesma e frequentemente não havia resposta aos emails.” Deu o exemplo das estratégias para podcasts e vídeo, pedidas pela nova administração e entregues pela direção, que não tiveram seguimento. “Tornou-se uma relação, de facto, muito custosa.”
Joaquim Carreira disse não saber “do que é que estão a falar” e estranhou a ideia de que os jornalistas não possam ser contactados pela administração. “Sempre falei, mas não pedi nada. Falo para saber o que é que se está a passar”, afirmou, defendendo uma “gestão de proximidade”. Luís Ferreira Lopes, que tem o pelouro da informação, disse ter entrado “três vezes” na redação e não ter “qualquer contacto com jornalistas”.
Os exemplos
Luísa Meireles deu três exemplos de situações onde considera ter existido interferência da administração.
Quando a delegação de Évora reabriu, a administração retirou aos dois correspondentes o subsídio de instalação e equipamento, apesar da oposição escrita da DI. “O Alentejo é gigante […] e para cobrir todo o Alentejo são precisas várias piscinas em automóvel”, explicou a ex-diretora. Ana Alves convocou depois diretamente os editores e editores adjuntos para lhes comunicar a medida, que seria alargada a outras delegações reabertas. “Isto foi uma desautorização e, ao mesmo tempo, o tal contacto direto, passar por cima da direção de informação — digamos, numa linguagem mais liberta, atropelando a direção de informação”, disse Luísa Meireles. O caso de Évora não foi levantado pelos deputados na audição da administração.
Luísa Meireles contestou também os contratos dos delegados internacionais. A versão de julho incluía funções comerciais que a direção considerou incompatíveis com o Estatuto do Jornalista. “Não poderia permitir que um jornalista da Lusa assinasse uma coisa daquelas”, disse. Assinou três dos seis e deixou as objeções por escrito, um deles era urgente, por ser necessário para um visto.
Joaquim Carreira garantiu que as alterações “foram feitas em conjunto com a direção de informação”. Acrescentou que “foi a própria diretora de informação que alertou, e bem” para as cláusulas desconformes. “Não existe nenhuma função comercial nem nada que se pareça”, afirmou. Segundo ele, os delegados devem apenas avisar a sede quando alguém se interessa pelos serviços da Lusa. Uma nova minuta começou a ser distribuída esta quinta-feira.
Bruxelas foi o ponto de maior choque. Segundo Luísa Meireles, a administração indicou uma jornalista, amiga e antiga colega de um dos administradores, para um lugar efetivo. A diretora recusou essa modalidade de contratação, alegando que não havia lugar efetivo e que as colocações no estrangeiro se faziam por concurso interno. Propôs antes um contrato de prestação de serviços, ouviu três candidatos e escolheu por escrito outra pessoa. A jornalista indicada pelo CA pediu melhores condições. A seguir, a diretora recebeu um e-mail a informar que o CA “tinha decidido contratar” essa jornalista. Respondeu que era “a primeira vez, em oito anos de trabalho com três administrações”, que passava por uma situação destas.
A versão da administração sobre Bruxelas é outra. Joaquim Carreira disse que “houve sugestões de nomes, tanto de um lado como de outro”. Segundo ele, Luísa Meireles fez a lista curta, entrevistou os candidatos e “escolheu uma determinada pessoa”, com o acordo do CA. “Essa pessoa não entrou ainda”, acrescentou, por “questões de tramitação processual e de burocracia”. Luís Ferreira Lopes garantiu que “nunca houve qualquer imposição de nomes” e que o CA apenas definiu um perfil mais multimédia.
Sem pressões do Governo
Questionada pelo PSD, Luísa Meireles afastou pressões do Governo: “Não houve qualquer condicionamento político. Sou absolutamente taxativa.” Defendeu, no entanto, que os novos estatutos têm uma “lacuna”, porque não garantem a independência e a autonomia da direção de informação. Pediu também urgência na revisão do contrato de serviço público, “elaborado na primeira década do século XXI”: “O contexto do ecossistema mediático mudou completamente.”
Joaquim Carreira afirmou que “não houve aqui nenhuma intervenção de ninguém fora da Lusa” e que “a independência editorial não é negociável”. “Distinguimos a responsabilidade de gestão do Conselho de Administração da autonomia das decisões editoriais e da direção de informação”, disse.
Confiança “abalada”
Para o diretor adjunto Nuno Simas, o clima de confiança entre a administração e os jornalistas “começou a degradar-se no dia em que o Conselho de Administração fez a denúncia do acordo de empresa”, que foi “uma machadada” na relação interna. Joaquim Carreira atribuiu o mal-estar à resistência à mudança: “Queremos sempre reformas, mas quando a reforma vem…”. E admitiu não saber se a confiança está abalada.
Os partidos que pediram as audições saíram insatisfeitos. Porfírio Silva, do PS, disse que “é curto aquilo que aqui foi explicado” e que duvida que a administração tenha enviado ao Parlamento todos os documentos relevantes. “Isto não acaba aqui”, afirmou, antes de pedir a transcrição integral da audição. Joaquim Carreira respondeu que entregou “os contratos que tínhamos no momento” e que ainda tem três pedidos de documentos por responder. Filipa Pinto, do Livre, lamentou que no fim se perceba que “há duas versões da mesma coisa, em que uns têm documentos para mostrar e os outros não”. Paula Santos, do PCP, disse sair “com mais dúvidas do que respostas” e concluiu que a independência da Lusa está “comprometida”.
Nuno Simas e Maria de Deus Rodrigues asseguram a direção interina até 31 de outubro. “Não sabemos quem vai ser [a futura direção]”, disse Nuno Simas, acrescentando que não tem conhecimento de que o Conselho de Redação já tenha sido consultada. Joaquim Carreira prevê ter uma nova direção de informação “até ao final do mês” e garantiu que o Conselho de Redação e a ERC serão ouvidos.















