❌

Reading view

Sem educação, clima ou fome: O dito e não dito na propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

“A boca fala do que o coração está cheio”, diz o versículo 31 do capítulo 12 do livro bíblico de Mateus. E apesar de a fé ter entrado em cheio na campanha presidencial, a lição não parece ter sido colocada em prática pela propaganda eleitoral do candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro (PL). Educação, fome, moradia, mobilidade e clima foram termos que nenhum dos guias de exibição gratuita na TV mencionaram ao longo de sua corrida presidencial. A palavra “constituição”, inclusive, não foi sequer mencionada pelo candidato em 14 inserções gratuitas até o momento.  

Segundo especialistas ouvidos pela Agência Pública, até então, o foco do discurso de Flávio Bolsonaro esteve em provocar comoção nos eleitores, através do medo e projetar força pessoal, através da autopromoção. 

A palavra “Brasil”, por exemplo, é a mais usada pela campanha do ultradireitista, numa frequência mais de 18 vezes superior a termos como “proposta(s)”. Embora faça parte do seu slogan “O Brasil vai Vencer”, “Brasil” também é usado conjuntamente a “Brasileiro(s)” e “Soberania” para criar sentido de pertencimento nacional, unidade, identidade coletiva e à defesa da nação. É o que diz a professora e pesquisadora em semiótica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Lilian Muneiro.

A responsabilidade pela elaboração do conteúdo dos guias – roteiro, cenário e edição, por exemplo – é integralmente do partido político. A legislação garante o espaço na programação de rádios e televisões, comerciais e públicas, para veiculação do guia ou propaganda eleitoral de candidatos a cargos estaduais, federais e presidência durante 70 minutos por dia, distribuídos entre os comerciais da emissora. 

O levantamento da Pública identificou as palavras mais repetidas por Flávio Bolsonaro nos 14 vídeos de seu guia eleitoral até agora. As peças estão disponíveis no perfil do candidato no YouTube e foram exibidas em rede nacional de 28 de agosto a 14 de outubro. O levantamento também identificou palavras que o candidato não citou, mesmo sendo assuntos de preocupação mundial. 

visualization

Para a professora do Departamento de Letras da UFRN e pesquisadora em análise do discurso, Cellina Muniz, a escolha de palavras de Flávio Bolsonaro não deve ser interpretada como coincidência, pois para seu campo de estudos, as palavras que usamos não são só nossas, e carregam uma história. A construção narrativa visa projetar uma imagem de si “historicamente associada a regimes tipicamente autoritários. Governos totalitários, de diferentes posicionamentos ideológicos, sempre se pautaram na idolatria da figura mítica de um ‘chefe’ que tenta se afirmar simultaneamente como combatente e como guardião”, avalia.

Reprodução de vídeo de campanha de Flávio Bolsonaro
Reprodução de vídeo de campanha de Flávio Bolsonaro

O dito…

O termo “medo” aparece duas vezes mais que “esperança” nos guias eleitorais de Flávio Bolsonaro. “Esse discurso tenta comover seu público e construir sua adesão por meio do apelo emocional com a criação de um ‘inimigo’ a ser combatido (as milícias, o petismo etc.)”, avalia a professora Cellina Muniz.

“O Brasil nunca teve tanto medo”, disse o candidato no programa exibido no dia 1º de setembro, se referindo a grupos de facções espalhados pelo Brasil. “Comando Vermelho”, “facções”, “PCC” “organizações narcoterroristas” e “milícias” não são termos dos mais recorrentes no guia eleitoral, mas aparecem duas vezes mais que as palavras “democracia” e “paz” na mensagem passada aos eleitores.

Apesar do apelo ao medo, alguns fatos conectam o candidato ao universo que critica. Ainda em setembro, a revista piauí expôs que em 2023, o senador Flávio enviou emenda parlamentar para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), uma ONG sediada na Taquara, reduto miliciano na Zona Oeste do Rio. O pedido partiu de Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, preso e condenado por agir como braço operacional da organização criminosa dos irmãos Brazão, os mandantes do assassinato de Marielle Franco. Peixe é apontado como o elo entre os Brazão e os milicianos da região de Jacarepaguá.

Em sua análise, a pesquisadora de semiótica Lilian Muneiro comentou que os vocábulos sobre segurança produzem juntos um “eixo de sentido associado à vulnerabilidade, ao risco, à necessidade de proteção e ao restabelecimento da ordem. Nesse conjunto, também é possível observar a dimensão passional do discurso”, afirma.

As escolhas do que compõe o discurso repetido de Flávio Bolsonaro também ajuda a indicar suas prioridades narrativas. O candidato do PL falou mais em picanha do que em Deus ou saúde durante a propaganda eleitoral. O termo “picanha” foi repetido sete vezes, e superou também os vocábulos “corrupção”, “trabalhador” e “escola”. “A picanha é o símbolo do velho, do que tem de mais velho na política, que a gente não aguenta mais, tem uma diferença fundamental entre o atual presidente e eu”, disse o candidato no vídeo veiculado uma semana antes do dia da votação.

“No conjunto dos termos e expressões que são reiterados na fala do candidato, constróem-se eixos discursivos que focam em uma ideia sem aprofundamento, imediatista, apressada e impregnada de um senso de urgência e de ‘medo’, que não dá conta nem explica o processo de construir um ‘Brasil’, como se um país continental pudesse se resumir a soluções simplistas e genéricas”, avalia especialista em semiótica e professora de ciências do consumo da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Jaqueline de Melo.

Outra palavra de grande incidência foi “mulher(es)”, a quinta mais citada. No discurso de Flávio Bolsonaro ela está constantemente relacionada a “mães”, como visto no primeiro programa do guia, exibido em 29 de agosto: “Quando eu aprendi com a minha mãe, que formou a minha visão de como as mulheres são. De como elas lideram de uma forma diferente. Em muitas coisas, muito melhor do que os homens”. “Família(s)” também ganhou destaque, sendo a oitava palavra mais citada.

A recorrência destes termos ligados ao feminino conotam um sentido de proteção, cuidado e à reprodução social, o que sugere uma valorização dos vínculos familiares, falou a pesquisadora Muneiro. Essa valorização não significa necessariamente uma relação harmônica na “vida real”. 

Em junho deste ano, a madrasta do candidato e senadora eleita, Michelle Bolsonaro (PL), publicou em suas redes sociais dois vídeos onde se dizia “apunhalada”, “humilhada” e “maltratada” por Flávio Bolsonaro. “Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política. Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi”, disse a ex-primeira-dama no vídeo, que, semanas depois, fez nova publicação indicando reconciliação com o enteado.

Reprodução de vídeo publicado por Michelle Bolsonaro nas redes sociais
Reprodução de vídeo publicado por Michelle Bolsonaro nas redes sociais

…O não dito…

Um elemento do discurso que também é campo de estudo para analistas é o silêncio. “O não dito faz sentido também. Temas que são importantes para o cotidiano das pessoas não estão presentes, o que nos leva a entender não serem prioridades”, opina Lilian Muneiro. Cultura, Amazônia, meio ambiente, mobilidade urbana, moradia e clima são alguns dos termos tradicionais no debate democrático mas que não foram mencionados até agora pela propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro. 

Segundo pesquisa divulgada em setembro deste ano pela Ipsos, saúde, corrupção financeira/política, pobreza e desigualdade social, educação, mudanças climáticas e ameaças ao meio ambiente estão entre as dez principais preocupações dos brasileiros.

“A pergunta que me faço é: de que Brasil está se falando quando as palavras ‘ladrão’ e ‘bandido’ aparecem mais que as palavras ‘escola’ e ‘trabalhador’? Como é possível mencionar os termos ‘melhor’, ‘mudar’ e ‘futuro’, sem ao menos se referir a um projeto de ‘educação pública’ e de ‘oportunidades de emprego’ e ‘geração de renda?’”, reflete Jaqueline de Melo. 

As duas vezes em que cita o pai, o discurso de Flávio indica continuidade/referência do governo dele. “[…] gera mais empregos e o consumo aumenta. E o governo arrecada mais, taxando menos. Sem sufocar você. Isso já aconteceu com o Bolsonaro”, disse no programa exibido no dia 3 de setembro. 

O “sufoco”, no entanto, não se limita a questões de tributação, como o candidato faz parecer. No primeiro ano de governo, Jair Bolsonaro bloqueou R$ 5,839 bilhões de investimento na educação brasileira, o que levou os estudantes às ruas contra o congelamento. No âmbito do meio ambiente, em 2020 a Amazônia Legal teve 276 quilômetros quadrados de área desmatada, um aumento de 10% em relação a dezembro de 2019, segundo dados do Sistema de Alerta do Desmatamento. A gestão Bolsonaro também foi marcada pelo retorno do Brasil ao Mapa da Fome em 2021, de acordo com o relatório das Nações Unidas e a ameaça constante de direitos. 

Outra ausência notada foi a da palavra “agro”. Embora se diga aliado do Agronegócio, e seja apoiado por figuras do setor, como o presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), deputado federal reeleito Pedro Lupion (Republicanos/PR), o candidato à presidência não fez nenhuma menção ao tema durante a propaganda eleitoral gratuita. Os termos “feminicídio” e “racismo” também ficaram de fora das peças de campanha do filho 01 de Jair Bolsonaro.

Nossa Senhora Aparecida estava entre os temas do programa de Flávio Bolsonaro exibido no dia 12 de outubro

…e o mutante

A propaganda eleitoral do segundo turno começou em 9 de outubro e, até agora, dois programas do candidato Flávio foram ao ar: um dia 12, outro dia 14 de outubro, e as palavras trazidas por elas mantêm a tônica do que é dito no primeiro turno. 

De novidade nos roteiros da propaganda eleitoral para a TV há termos curiosos, como “hospital”, ausente em todo o primeiro turno, e menções a programas do governo federal, como o Farmácia Popular e o Bolsa Família. 

O posicionamento é uma clara resposta à campanha do adversário petista, Lula, que prioriza esses mesmos temas e põe em xeque a manutenção do investimento deles em um eventual governo Flávio Bolsonaro. 

Essa estratégia fica evidente quando se percebe que Nossa Senhora Aparecida, protagonista da polêmica, que envolveu sua campanha, sobre a suposta alteração do título de “padroeira do Brasil” para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, estava entre os temas do programa exibido no dia 12 de outubro, feriado nacional em homenagem à santa. 

O Farmácia Popular é um dos programas sociais protagonistas destas eleições, sendo usado pelas candidaturas de formas diferentes. A medida foi implementada em 2004 durante o primeiro mandato de Lula, que nessas eleições fala em dar continuidade à proposta. O programa conta com ampla aprovação da população, que, segundo uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (14) pelo AtlasIntel/Bloomberg, é um acerto para 89% dos entrevistados.

Este programa também esteve na mira dos cortes orçamentários do mandato de Jair Bolsonaro, que em 2022 enviou ao congresso uma proposta que previa 59% de redução nos recursos do Farmácia Popular. Em seu plano de governo, Flávio não cita o programa social, mas no programa exibido no dia 12 de outubro, afirma que o Farmácia Popular “continua, claro”. 

Metodologia

  • Foram identificados os 14 vídeos institucionais que integraram o guia eleitoral de TV para a corrida presencial 2026 do candidato Flávio Bolsonaro;
  • As peças foram transcritas e analisadas de acordo com a densidade de vocábulos utilizados;
  • Conectores, artigos, preposições e pronomes foram excluídos do levantamento;
  • Variações de um mesmo termo, por gênero ou número, foram unidos para melhor refletir o sentido do discurso exibido no guia;
  • A partir da lista das 106 palavras mais recorrentes, a nuvem de palavras foi criada para representar as prioridades discursivas.

  •  

Um jumento na filarmônica

De orelhas sempre de pé e com uma zurra que ecoa por mais de 3 km entre a vegetação, talvez o jumento não seja a associação mais óbvia que se pense em relação ao universo da música. E, no entanto, aos 33 anos, Antonino Tertulino está mais do que habituado a preencher as caixas mais improváveis.

“Eu me considero um jumento. E eu tenho essa visão, pois nunca penso em ser uma peça de destaque. Aqueles que são muito presenteados, muito exigidos, e como o jumento é subestimado, passa despercebido, sabe?”, conta o jovem magro de cabelos rareando, cujo talento diante de um contrabaixo acústico, já exibido perante ao menos três presidentes e dois papas, há muito, não o deixa passar tão despercebido quanto tenta se enxergar.

No dia 19 de julho, Antonino deixou a Áustria, onde integrava a Orquestra Filarmônica de Salzburgo, para uma semana de passeio pela memória, no Recife, onde nasceu, um compromisso que se tornou regular em seu calendário anual.

Entre as paredes do Teatro de Santa Isabel, templo cultural que, desde a metade do século 19, se fez palco nobre da sociedade pernambucana, ele foi um dos músicos a capitanear uma sequência de apresentações da Orquestra Criança Cidadã, formada por estudantes de 6 a 21 anos, na qual ele mesmo, vinte anos antes, teve sua iniciação no mundo da música. O trote silencioso de Antonino ecoa. O zurro é de gratidão, mas os olhares ao redor são mesmo aspiracionais. O contrabaixista tirou tempo para estar junto das crianças, conceder entrevistas e reencontrar amigos.

O ritual se deu antes dos preparativos para mudar de casa mais uma vez, agora para desbravar a Alemanha, onde acaba de assinar com a Niederbayerische Philharmonie, de Landshut. “Uma das dezessete melhores do mundo”, diz uma das vozes contemplativas no interior do teatro, fazendo jus à megalomania pernambucana, sempre disposta a um ranking que nem sequer carece de fontes. 

A impressão dos que o acompanham é que a carreira de Antonino não tem um limite claro de até onde pode chegar e que segue em rota ascendente, sempre em frente, sem desvios. Quem é do interior, sabe: jumentos têm excelente senso de direção.

Antonino em 7 notas

Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si

DOis coelhos com uma cajadada

Fugir das aulas de física e química. Essa foi a primeira intenção de um Antonino de 13 anos, ainda em 2006, admite o hoje músico, em retrospecto. Aos alunos da Escola Nossa Senhora do Carmo, logo após a apresentação de um quinteto de cordas, foi oferecida a oportunidade de concorrer a uma das vagas do projeto Orquestra Criança Cidadã.

A escolha da unidade de ensino no Coque não foi por acaso. A região do bairro Joana Bezerra carecia de infraestrutura básica e tinha uma pobreza hostil que, muitas vezes, era retratada apenas pela face da violência. Não por menos, o discurso padrão era o de resgate, oferecendo atividades para que os alunos jovens não tivessem tempo de serem capturados pelo trabalho infantil ou cooptados pelo tráfico – e, entre os atrativos, estavam acompanhamento médico e odontológico, bem como refeições regulares.  

As aulas de música seriam no contraturno do calendário escolar, nas dependências do 7º Depósito de Suprimentos do Exército. Como incentivo, a atividade representaria horas de aula – o que, para o garoto, seria uma chance de se livrar das matérias que, àquela altura, já lhe causavam dor de cabeça. O impulso inicial, no entanto, deu lugar à admiração pelo novo mundo.

“Algo que me deixou bem curioso foi a comunicação entre os músicos, sem nenhuma comunicação verbal, sabe? Hoje, com colegas, eu faço isso no dia a dia, na orquestra, essa comunicação de gesto, de olhar, tudo. Mas aquilo teve um efeito “uau” pra mim, de como eles agiam como um time.”

As crianças da região, a partir dos seis anos, foram convidadas a realizar testes de aptidão musical facilitados. O desafio consistia em uma melodia de solfejo e em um método rítmico simplificado. Aprovados, eles seriam divididos entre os instrumentos – e as atenções se voltaram todas ao violino. 

“E eu dizia: ‘aquele ali, rapaz, pelo tamanho, vai ser difícil de controlar’. Se o violino é difícil, aquele ali é ainda mais difícil, pelo tamanho.’ E eu sempre fui franzino, assim, magrinho, né?”, lembra Antonino. Desde então, a relação com o instrumento se fez como complemento de si mesmo e da própria imagem que tentava projetar.

Do Recife para a Alemanha: músico acaba de assinar com a Niederbayerische Philharmonie, de Landshut

“Não é sobre volume, não é sobre show-off, sobre se exibir. É sobre criar o piso, a base para que tudo aconteça. Por isso, sempre pensei ‘aquele ali é o instrumento’. E eu sempre fui muito tímido, porém, com o contrabaixo não tenho timidez. E ele tem essa virtude também, de não ser um instrumento exibicionista. É como se fosse [também] um jumento. Muitas vezes subestimado, porém ali, forte e necessitado, sabe? Pode ser veloz e bonito.”

E assim tem sido, há 20 anos.

Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si

REcife e Carpina, a conexão que não se perde

Voltar para casa pode ser agridoce. O pai de Antonino, Antônio Tertuliano, mora em Carpina, na Mata Norte de Pernambuco. Comerciante, com ensino fundamental incompleto, vêm dele os costumes mais fortes que o músico mantém até hoje. “Meu pai brincava que, no dia em que desse 6h da manhã e ele ainda não tivesse acordado, não acordaria mais. Uma figura”, lembra. As visitas rápidas ao Recife nem sempre permitem vivenciar o estilo de vida do interior ou curtir a família vencendo a distância que se mantém ao longo de todo o ano.

No Recife, por outro lado, as diferenças gritam. Uma delas, que perpassa toda a cidade, o músico descreve apenas como “o barulho”. A poluição sonora, que os ouvidos locais normalizam e praticamente não sentem, salta aos sentidos de quem hoje vive outra realidade. 

Andar pelas ruas da comunidade onde cresceu também pode ser desafiador, até mesmo para a própria memória. No Coque, Antonino descreve ver, a cada visita, um processo de “desfavelamento”, com a remoção de barracos e a mudança da dinâmica da própria região, onde, conta, convivia com colegas de orquestra ao máximo durante as aulas porque, fora dela, os espaços possíveis de trânsito eram delimitados pela área onde cada um morava, em que cada trecho era reclamado por grupos diferentes ligados ao crime local.

A segurança acaba sendo um tema recorrente das reflexões inevitáveis ao comparar a realidade atual com as alternativas, caso suas escolhas fossem diferentes. E, ainda que o contexto de Israel envolva até mesmo a guerra, ele diz que regressar ao Recife “é outro tipo de terror”. 

“Ontem estávamos jantando a um quilômetro do hotel e ‘vamos pegar um Uber por segurança’. Isso é tirar a sua individualidade e sua independência. Apesar das guerras, eu digo que me sentia muito mais seguro em Tel Aviv do que na minha cidade. Isso é muito triste. De você poder fazer uma chamada de vídeo, uma, duas da manhã, caminhando na rua, e, no máximo, vai chegar alguém pedindo informação ou pedindo ajuda pra empurrar um carro, sabe? Mas a sensação de que alguém iria me roubar, ou fazer algo contra mim, nunca existiu. Eu falo que em Israel também eu aprendi a valorizar a vida. Porque aqui no Recife o perigo acontece, mas, de certa forma, também temos que viver com isso”, lamenta.

Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si

MInha vez

Enquanto milhões de brasileiros se encaminham às urnas para as eleições de 2026, os jovens da Orquestra Criança Cidadã estarão completando o primeiro aniversário de sua última incursão do outro lado do mundo, que começou no Parque Memorial da Paz, em Hiroshima, no Japão, um dos Concertos pela Paz. 

A cidade, assolada por uma bomba nuclear norte-americana durante a Segunda Guerra Mundial, foi uma das paradas da turnê promovida pelo projeto social do Recife, que abrangeu três países. A iniciativa reuniu músicos de áreas de conflito para tocarem junto com as crianças e envolveu, por exemplo, encontro da música clássica de artistas da Rússia e da Ucrânia no mesmo palco, um recado que excede qualquer limite imposto pelas guerras.

Após passarem pela Coreia do Sul, as crianças do projeto encerraram a sequência de shows no Vaticano, com uma performance na Praça de São Pedro, diante do Papa Leão 14. Não foi o primeiro Papa para quem o projeto se apresentou. Desde 2011, quando estava prestes a ser encerrado, após um apelo feito diretamente ao presidente Lula, o projeto recebeu patrocínio de um banco estatal, o que permitiu a estruturação da iniciativa e passou a viabilizar voos mais altos. 

Evento do 5º Aniversário da Orquestra Criança Cidadã (OCC) com a presença de Lula

Ao longo desse período, os jovens se apresentaram para três presidentes, dois papas e tiveram comitivas tocando em países como Argentina, Itália, Japão, Estados Unidos e Portugal. Em 2010, foi reconhecida como boa prática de inclusão social pela Organização das Nações Unidas (ONU) e, em 2015, foi a segunda escola de música do mundo a integrar o Programa de Escolas Associadas da Unesco.

Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si

FÁbulas e farpas

Cerca de 400 crianças e adolescentes, entre 6 e 21 anos, são atendidos pela Orquestra Criança Cidadã, sendo 250 no Coque, primeira sede do projeto, além de 120 em Camela (Ipojuca) e 30 em Chã de Cruz (Igarassu), ambos na Região Metropolitana do Recife. Além das aulas de música, o projeto previa a alimentação dos integrantes e, em geral, foi bem recebido pela comunidade.

A iniciativa não passa ilibada de críticas de organizações sociais que atuam no Coque, devido ao discurso de salvamento que sempre associou, na ponta contrária da atuação das crianças na música, à criminalidade. À época, a região foi escolhida para sediar a intervenção por ser uma das de menores índices de desenvolvimento humano na capital pernambucana e por ser frequentemente associada, na imprensa, a casos de violência urbana.

“Eu conheci o Coque quando fui assaltado nas suas imediações […] Tive sorte de não levar uma bala no crânio”. Com essa frase, um dos três idealizadores do projeto, e primeiro maestro da orquestra, Cussy de Almeida, apresentava a comunidade em rede nacional, durante a apresentação da OCC no antigo Domingão do Faustão, em 2008, à época, com 103 integrantes. 

Além de Almeida, também fizeram parte da concepção do projeto o desembargador Nildo Nery dos Santos, falecido, e o juiz João Rocha Targino, que também participou do projeto à época conclamando figuras políticas a escolherem “se quer[em] formar cidadãos como esses, ou se quer[em] formar presidiários”.

Apresentação da Orquestra Cidadã no Domingão do Faustão em 2008
Apresentação da Orquestra Cidadã no Domingão do Faustão em 2008

Frases ditas por Cussy na ocasião, como “Eles eram pequenos índios”, “estão arrodeados do crime”, “Eles sabem comer com o garfo na mão esquerda, a faca na mão direita, ele sabe escovar dente, passar fio dental, tem asseio, sabe entrar no banheiro sem deixar rastro” e “hoje em dia são meninos que você pode levar pra sua casa e passar um fim de semana” são, ainda hoje, citadas para criticar o discurso dos idealizadores quanto à manutenção de estigmas enfrentados pela comunidade. Na ocasião, o programa chegou a apresentar-se como uma iniciativa “que tira crianças da rua” e Fausto Silva chegou a usar a expressão “essa gente do Coque”. O maestro faleceu dois anos depois, aos 74 anos.

Questionado sobre o papel do discurso intervencionista da direção da Orquestra na manutenção de estereótipos que afetam a comunidade, o idealizador ainda à frente da OCC, o juiz João Rocha Targino, responde que acredita que “somos todos irmãos” e que o Coque “sempre foi visto” como palco de “marginalidade e prostituição, não igual a outros bairros do Recife”, mas que acredita que a promoção de oportunidades e que a região tem pessoas “pobres de bens materiais, mas ricas de talento”.

Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si

SOL sem céu

Antonino deixou o Coque para tocar na Orquestra Sinfônica de Goiânia, onde permaneceu por dois anos até dar início a um bacharelado em música em Tel Aviv. Foi quando a distância exigiu um preço maior. Com a mãe, Maria Denise, falava nas madrugadas, por videochamada. E lembra do desejo de apresentar o mundo da música que passou a desbravar.

“Antes era uma coisa muito simplória, muito singela. Depois, tudo se otimizou, cenário internacional, sabe? […] Se antes ela já ficava orgulhosa só de ir assistir às apresentações…”, conta.

Ao longo de cinco anos, Antonino estudava e se dedicava a um objetivo: integrar a Orquestra Filarmônica de Israel, uma das mais reconhecidas do mundo, dirigida pelo maestro indiano Zubin Mehta desde 1969. Foram cinco tentativas fracassadas. Em algumas, ninguém sequer chegou a ocupar a vaga oferecida. A filosofia era a de que apenas os mais preparados podiam integrar o grupo. 

O jogo virou em 2021, quando o contrato do posto de contrabaixista lhe foi oferecido. “Eu me lembro da primeira ligação após a audição. Foi pra minha mãe. Mesmo sem saber o que era a Filarmônica de Israel, ou quem era Zubin Mehta. Mas ela via a euforia na minha fala e então só dizia: ‘Poxa, estou tão orgulhosa de ti, quero muito te ver [se apresentando]’, lembra. Não viu.

Algumas semanas depois, no Recife, a doméstica Denise faleceu aos 64 anos, vítima de um mal súbito, e não chegou a testemunhar o filho em carreira internacional. “Foi muito precoce o falecimento da minha mãe. Foi algo muito súbito. Não teve um processo, não teve um… E foi quando eu tinha acabado de girar a chave pro profissionalismo, sabe? Foi algo assim que, ou eu desmorono com tudo aquilo que eu vinha construindo, ou utilizo isso como nutriente, pra minha música, pra minha trajetória”, avalia.

Eu vejo que as simplicidades que minha mãe tinha, a limitação que ela tinha para se expressar, sabe? Essa dificuldade que ela tinha de se expressar, de fazer o que ela sonhava, mas não era por ela não saber, era totalmente falta de conhecimento, falta de oportunidade, que ela não teve. Eu não tenho dúvida de que a mamãe estaria muito orgulhosa de ver esse momento.”
Antonino Tertulino
Contrabaixista
Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si

LÁ pro lado das Europas

O macarrão estava cozendo na água fervente quando o som de uma sirene tomou conta da vizinhança. Mais uma. Era o sistema antiaéreo de defesa antimísseis que alertava sobre possíveis ataques na área urbana de Tel Aviv. O ano era 2023, início do conflito com o Hamas, mas duas semanas já eram tempo suficiente para Antonino entender: “Eu não vim aqui pra isso. Essa não é a minha guerra”, resume o pensamento.

Foi assim, meio que às pressas e se recusando a normalizar a convivência com sirenes de guerra, que um plano engavetado do contrabaixista ganhou nova luz: aplicou para um mestrado na Mozarteum University Salzburg, na Áustria, foi aprovado e conseguiu antecipar o início das aulas. Assinou então com a Orquestra Filarmônica de Salzburgo até 2026, logo após voltar do reencontro com as crianças da OCC, quando se mudou para o norte da Alemanha, para um novo desafio: a Niederbayerische Philharmonie. 

“Eu ainda acredito que foi tudo muito precoce. As coisas, as oportunidades vieram, eu abracei as que pude, as que digo, as portas que eu abri, sabe? E eu continuo com fome de continuar essa caminhada.”

Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si

SInfonia da gratidão

Mais de 700 crianças e adolescentes já passaram pelo projeto Orquestra Criança Cidadã – e ao menos 360 delas se revezaram no palco do Teatro de Santa Isabel, no Recife, no fim das férias de julho, para a apresentação dos 20 anos do projeto. Orquestras infantis, infantojuvenis e jovens revisitaram da música clássica aos sucessos regionais, com releituras próprias, algumas vezes acompanhadas de um coro infantil. 

Antonino, convidado de honra, se apresentou em destaque como a principal referência de sucesso da proposta, iniciada ainda em 2006. Repetiu o ritual de sempre: pouca salada, muita água e várias sessões de meditação ao longo do dia até subir ao palco. Dividiu os holofotes com colegas músicos, que convidou das orquestras europeias das quais participou, com o mesmo empenho e ares de showman que exibiu ao estar à frente dos pequenos talentos recifenses por duas noites consecutivas.

  • Apresentações da Orquestra Criança Cidadã no Teatro de Santa Isabel
  • Apresentações da Orquestra Criança Cidadã no Teatro de Santa Isabel
  • Apresentações da Orquestra Criança Cidadã no Teatro de Santa Isabel
  • Apresentações da Orquestra Criança Cidadã no Teatro de Santa Isabel
  • Apresentações da Orquestra Criança Cidadã no Teatro de Santa Isabel

Em frente a um público de 570 espectadores, com movimentos precisos, ele claramente se transportava a outro lugar, onde se encontrava em pleno conforto. Como se, de suas mãos, dependesse o mundo. Carrega ali arte, fardo, história e um tanto mais de expectativas ainda não alcançadas, que não divide.

Perguntado sobre estacionar e fazer carreira em uma única orquestra, em que possa ascender e encontrar zona de conforto, Antonino ri: “Não sou mustang, não sou manga larga [raças de cavalo]. Quero sempre ser a base, estar aprendendo, participar de algo que seja muito maior que eu”, resume o contrabaixista que faz questão de descobrir os maiores verdes pastos que o mundo que anda desbravando ainda lhe possa ofertar. Você sabe, coisa de quem se diz jumento.

  •  
❌