As II Jornadas de Neurorreabilitação do Algarve reúnem profissionais de saúde e especialistas nacionais e internacionais no Cineteatro Jaime Pinto, a 16 e 17 de outubro. O programa inclui duas oficinas com 20 vagas cada.
Os mísseis foram disparados na quarta-feira em direção ao Mar do Japão (leste), sem "qualquer impacto negativo na segurança dos países vizinhos", acrescentou a KCNA
A segunda edição da Feira Equestre do Sul reuniu cerca de 10 mil visitantes, na Marina de Albufeira, entre 9 e 11 de outubro. Durante três dias, realizaram-se cerca de 200 provas individuais de Dressage, Equitação de Trabalho e Saltos de Obstáculos, num programa que cruzou desporto, cultura e tradição. A feira proporcionou aos atletas […]
Ação surge na sequência do teste de lançamento, realizado por Seul na quinta-feira, de um veículo planador hipersónico, a primeira arma sul-coreana deste tipo fabricada no território nacional.
Pelo menos 4 migrantes morreram e mais de 160 mil foram forçados a fugir. A revogação da polémica diretiva sobre asilo não travou a violência nas ruas.
Na esperança de atenuar as tensões, o Governo anunciou esta sexta-feira a revogação da diretiva para permitir tempo para rever o seu sistema de registo de pedidos de asilo, mas os seus esforços foram em vão
Melancolia dos Confins – Norte, de Mathias Enard, com tradução de Joana Cabral e publicado pela Dom Quixote, chegou às livrarias a 1 de setembro.
Tenho lido toda a sua obra, e apresentado aqui vários dos seus livros.
Este seu novo romance, o quinto publicado pela Dom Quixote, é o primeiro de uma tetralogia dividida em quatro estações.
Este destacadíssimo escritor francês não é fácil de ler, e por isso mesmo torna-se mais desafiante e interessante.
PAULO SERRA Doutorado em Literatura na UAlg e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Numa escrita fluída, complexa, onde abundam – mais que usualmente – referências e citações, Enard narra na primeira pessoa, conduzindo-nos por parágrafos longos que se estendem por páginas. O autor-narrador é aqui um viajante por uma Berlin fustigada pela chuva, e como acontece com qualquer viajante que caminha sem rumo específico a principal viagem que aqui se faz é sobretudo pelo tempo.
“Toda e qualquer narração tem que ver com o movimento, com a fronteira e o movimento.
Com o amor, também.” (p. 100)
Norte apresenta-se como «o primeiro volume desta Melancolia dos Confins em quatro estações, na qual, sob o nosso olhar, Mathias Enard desenha o seu atlas pessoal, cartografia íntima de um mundo feito de hiperligações, incansavelmente percorrido. E consegue, mais uma vez, o tom certo para celebrar os encontros e a diversidade.»
Destaca-se sobretudo a ligação entre o caminhar, aparentemente sem destino, e a errância do pensamento que constantemente deambula pelos meandros da História sempre em estreita relação com a literatura.
Pode ler-se na sinopse:
«Ao sair da clínica de Beelitz, onde foi visitar uma querida amiga apanhada por um acidente vascular cerebral, o autor transforma a sua melancolia num passeio, tanto para se aquecer como para afugentar a tristeza que o aflige. Enquanto cai a noite precoce e chuvosa do outono berlinense, Mathias Enard caminha pela cidade e pela sua história.
Novo romance é o primeiro de uma tetralogia dividida em quatro estações
Como numa conversa interior algo dantesca, o seu espírito deambula, vasculha o tempo e a geografia, examina a noção multiforme de fronteiras, de limites… e descobre em todo o lado as clareiras, a esperança melancólica: nas suas lembranças, nas suas leituras ou na sua prática ativa da amizade – que nunca se encontra muito afastada da sua experiência da literatura.»
Mathias Enard nasceu em 1972, estudou persa e árabe, e viveu largos períodos no Médio Oriente.
É professor de árabe na Universidade de Barcelona, cidade onde vive.
É autor dos romances La Perfection du tir (2003; Prémio dos Cinco Continentes da Francofonia 2004), Remonter l’Orénoque (2005), Zona (2008; prémios Décembre 2008 e Livre Inter 2009, entre outros), Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes (2010; Prémio Goncourt des Lycéens 2010 e Prémio do Livro em Poitou-Charentes 2011), Rue des voleurs (2012; finalista do Prémio Goncourt e vencedor do Prémio Lista Goncourt / A Escolha do Oriente 2012, entre outros), Bússola (2015; Prémio Goncourt 2015 e Prémio Lista Goncourt / A Escolha da Suíça 2015), Le Banquet annuel de la confrérie des fossoyeurs (2020), Desertar (2023) e Melancolia dos Confins – Norte (2024). Publicou também os livros de ensaio Bréviaire des artificiers (2007) e L’Alcool et la nostalgie (2011).
Geopolítica e religião. Temas sensíveis. Alarguem-se horizontes em Faro. Aquireúnem-se um conjunto de evidências históricas de um património singular de valor universal. Harvey Whitehouse em a Herança explica o conceito de era axial na religião. Uma forma de reação ideológica à desigualdade económica e social criada pela acumulação de poder nos Impérios. Simbolizada numa religião de resistência popular no íntimo e em comunhão contra as injustiças criadas pelo poder político.
Axial é X como símbolo. Que converge ao centro, sem hierarquia precisa, linhas e polos diametralmente opostos. Durer no século XVI retratou pioneiramente um escudo de armas do Reino do Algarve dedicado ao Imperador Maximiliano I com cristãos e muçulmanos em simetria axial. Estávamos nos alvores do Império português. Pela história de Faro colhemos evidências.
VIRGÍLIO MACHADO, Professor da UAlg e autor dos livros “Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico” https:reinosdoalgarve.com
Uma cidade plana dá especial valor à Paz. Não escolhe um urbanismo de colina com muralhas para se defender. Sinais históricos. Primeiro. Sede de taifa muçulmana denominada Santa Maria do Algarve em 1085 conforme o historiador espanhol Eduardo Moreno em España Plural. Respeito de um passado com pontes religiosas cristãs. Segundo. Acordo de rendição negociado com os mouros sem saques, acontecimento invulgar na Idade Média aquando da conquista por Afonso III em 1249. Terceiro. Uma das portas da muralha denominar-se-ia Nossa Senhora de Entre-Águas quando seus exércitos chegaram.
Faro. Crédito: Município de Faro 2026
No limiar do Império Português (1475-1525) Portugal atingiria um valor aproximado de um milhão de habitantes. A cifra que Whitehouse estima como favorável ao dealbar de uma religiosidade com características axiais. Quinto sinal. O convívio são com a comunidade hebraica e seu primeiro livro impresso em Portugal, o Pentateuco em 1487. Um cemitério judaico é hoje legado à cidade. A intolerância da Inquisição não conseguiu destruir a durabilidade desta vontade histórica e religiosa axial.
Poucas cidades no mundo se podem orgulhar deste cruzamento convergente de três religiões monoteístas no sentido da Paz. A diocese do Algarve e suas obras reforçariam estas características.
Faro. Crédito: Turismo de Portugal 2026
O pensamento humanista de D. Jerónimo Osório, primeiro bispo em Faro (1577), reconhecido internacionalmente, insere-se nesta linha. Tempos de Impérios em colisão. Pugnava pela existência de uma ordem do universo divinalmente justa, assente numa hierarquia de méritos pela prática da virtude empregue no bem comum. Esta seria a fonte principal da nobreza e não o sangue, títulos ou privilégios. A nobreza, defendia, é transmissível entre os homens. O rei seria o nobre dos nobres. Regista entre as virtudes, a Justiça e a Beneficência. Assinalamos aqui dimensões axiais: bem comum, mérito, virtude, justiça, disseminação humana. O mentor não teria tempo para sua aplicação prática falecendo em 1580. Pior. A cidade seria saqueada 16 anos depois por corsários ingleses.
D. Francisco Gomes de Avelar, bispo entre 1789 e1816, teve essa oportunidade pela duração do cargo e projetou-a urbanisticamente, Numa região empobrecida carente de justiça social e reedificações após o terramoto de 1755 fez um trabalho administrativo e religioso notável orientado para o bem comum.
Leu seguramente Osório. E completou sua axialidade. Arco da Vila. 1812. Arquiteto Fabri. São Tomás de Aquino no nicho central? Por ser um dos maiores pensadores políticos medievais. Seus escritos conciliam razão e fé, verdade natural e revelada, ordem e criação. Defendia um equilíbrio inteligente de poderes mistos onde se encontram reunidos, em convergência monarquia, aristocracia e governo popular reinventando conceções de Aristóteles.
Imagem parcial do escudo de armas do Reino do Algarve retratada por Durer. Crédito: Wikipédia COA Algarve 2026
Avelar traduziu o que foi o Reino dos Algarves? Num governo central, em regra ausente, periférico, com intermediários indiretos, que melhor práxis para um procurador local senão o governo pelo bem comum? De mérito pelo conhecimento? De igualdade religiosa e popular dos filhos de Deus? Simbolizou-se na escultura para a eternidade em Faro a harmonia política de São Tomás. O papa Pio XII, na sua mensagem de Natal de 1944, caracterizava-o como “equilíbrio inteligente próximo da democracia constitucional contemporânea”.
A axialidade é leitura urbanística da Vila Adentro. Suas muralhas e ruas em sentido oblíquo em vista aérea. Como se entra para o Largo da Sé e como se posiciona este em relação à Praça Afonso III, bem como as entradas da sé e câmara municipal. Poderes com suas órbitas próprias, contactos possíveis, mas intermitentes e temporários, com itinerários de regresso ao ponto de partida. Ao centro, a estátua do bispo (incomum nos centros históricos portugueses) em linha oblíqua à catedral, retratando sua importância enquanto dirigente experimentado na periferia de uma ordem política indireta. A história geopolítica axial de Faro tem valor subjacente: A Paz. Uma vista aérea interpretativa do alto de uma catedral, miradouro ou depósito de água dar-lhe-ia significado. Um tesouro geopolítico-religioso. O Arco do Repouso orientado a este, para o nascimento do sol e de religiões monoteístas, interpretadas na era axial como projetos de maior justiça social em tempos de Império, será um excelente ponto final de percurso numa viagem de inscrição universal.
Regressei recentemente à Roménia no âmbito de um programa europeu sobre a literacia digital.
A Roménia é um país quase três vezes maior do que Portugal e com uma geografia privilegiada, mas desta vez limitei-me a visitar a capital, uma cidade ampla, com um interessante centro histórico e profusão de edifícios nobres que evocam um período mais rico que o actual. Os edifícios do longo período da ditadura, passem o pleonasmo, que as ditaduras são sempre insuportavelmente longas, coexistem nas suas formas rectilíneas, massivas e brutais (três adjectivos, já me vão acusar de IA-ismo) com os projectos mais modernos. Mas lá estão numa afirmação muda, violenta mesmo, face à nobreza da arquitectura do virar do século, com as suas cúpulas e varandas graciosas.
JOSÉ GARRIDO Consultor em Marketing Turístico e Escritor
Não nos chega muita informação sobre a literatura nessa língua apesar de tudo muito próxima do português por via do latim, o ancestral comum. É a percentagem vasta de vocabulário de origem eslava que a torna incompreensível aos nossos ouvidos, pese embora os amantes de ambas as culturas consigam, com engenho e arte, criar meia dúzia de frases cuja fonética funciona com eficácia em ambos os contextos.
O delírio arquitectónico da ditadura é o responsável pelo imenso palácio do povo, uma estrutura de dimensões difíceis de justificar, tão difíceis de justificar que hoje, 40 anos depois do início da construção do edifício, ainda não terminou, o que não é verdadeiramente incomum se pensarmos que as obras de muitas catedrais duraram séculos, mas, e mais grave, foi responsável pelo arrasar da malha urbana antiga de parte significativa do centro histórico de Bucareste.
Biblioteca do Patriarcado. Crédito: José Garrido
A viagem levou-me a conhecer várias bibliotecas da cidade e, mais interessante, muito mais, a biblioteca do patriarcado ortodoxo com o grande privilégio da visita acompanhada pelo arquimandrita, homem de uma cultura incomum e que nos mostrou com um carinho notável, talvez por isso de mãos nuas, alguns dos livros e incunábulos mais significativos da biblioteca.
Para acompanhar esta viagem escolhi dois livros de autores romenos ambientados na cidade.
Sou da opinião iconoclasta que as ditaduras dizem muito sobre os povos que as suportam… O ditador romeno foi um dia à Coreia do Norte, visitar não sei já se o pai ou o bisavô do ditador actual. Voltou muito impressionado com o urbanismo e com os projectos arquitectónicos que o colega estava a implementar. Quando regressou a Bucareste arrasou parte do centro da cidade, designadamente a colina da Corte Velha, espaço de que necessitava para rasgar os novos grandes eixos viários e construir o palácio do povo. Tomemos, pois, o exemplo infeliz como mote para introduzir uma grande obra literária romena. A maior dos tempos modernos, dirão alguns talvez com exagero, mas para isso há que lê-la. Trata-se do romance homónimo de Mateiu Caragiale, Rakes of the Old Court, de 1929, jóia reconhecida do modernismo na literatura romena. Impressiona pela exuberância do estilo utilizado e pelo estilo misterioso, enigmático. A história decorre duas décadas antes e segue o percurso de quatro personagens pelos bares e bordéis da cidade. O guia da pequena excursão é um oportunista amoral que conduz um narrador nebuloso e mais dois amigos abastados, que flaneiam numa cidade que recordam construída sobre os escombros de palácios e reinos passados. Na narrativa, são fragmentos de amor, ambição e principalmente decadência, que funcionam como agregadores dos diferentes episódios e cenários.
Biblioteca Metropolitana. Crédito: José Garrido
Esta Bucareste metafórica que esquecida dos anteriores períodos de opulência, caíra no início do século vinte em chocante decadência permite o périplo aparentemente sem destino ou propósito mas, tratando-se da ruína da corte principesca, parece adivinhar a intervenção (então ainda no futuro) do ditador a que os romenos viriam a designar ironicamente por Ceusisma, um neologismo construído a partir do nome do ditador (Ceausescu) e da palavra Hiroshima, que é tão brilhante que se explica a si próprio.
Julgo que não existe tradução em português, tanto pelo grande desconhecimento da literatura romena entre nós, como pelo desafio, grande, que apresenta aos tradutores pela riqueza do vocabulário e imagética utilizados pelo autor, junto com a adição de palavras de idiomas vizinhos – do deles, não do nosso.
Para segundo livro escolhi, do já conhecido Mircea Eliade, Uma Segunda Juventude. Um misto de thriller psicológico, com espionagem e um q.b. de filosofia. Este romance tem início em Bucareste no final dos anos trinta. Hitler acaba de chegar ao poder em Berlim e a repressão acentua-se, também na Roménia. O protagonista, um homem que passou a vida a estudar línguas, história e poesia, parece ter chegado ao fim da vida. Depois de um acidente profundamente traumático, começa a despertar, numa cama de hospital, com uma saúde de ferro, rejuvenescido (literalmente) e com uma capacidade intelectual absolutamente extraordinária. Quando escrevo rejuvenescido, não me refiro a meia dúzia de injecções de botox numa clínica libanesa, mas décadas mais jovem e com uma capacidade intelectual única, por exemplo para aprender com um par de leituras e num santiámen, uma língua nova. Note-se que não se trata daquelas com origens, fonética e gramática de vizinhança, mas antes de grego clássico e chinês.
Art Safari New Museum. Crédito: José Garrido
Passado no período vertiginoso em que a Europa corre desencabrestada para o desastre da Segunda Guerra Mundial, Uma Segunda Juventude, pode ser uma fascinante companhia para uma visita a Bucareste.
A cidade vale-se por si, e, mesmo na sua enésima juventude ou talvez por isso mesmo, oferece um excelente lugar para dar asas a um olhar analítico e deambulatório, flaneando, bem acompanhado por vozes da cultura local.