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Build Canada Homes… O que é esta organização e quem a lidera?

O Canadá enfrenta um problema habitacional que se tornou impossível de ignorar por qualquer governo. Os preços das casas e das rendas continuam fora do alcance de muitos canadianos, a construção não tem acompanhado o crescimento populacional e os governos a todos os níveis têm tido dificuldades em construir habitações com a rapidez necessária. É neste cenário que surge a Build Canada Homes, a nova empresa pública (Crown corporation) do governo federal concebida para ajudar a construir mais habitação acessível em todo o país.

A questão é direta: será a Build Canada Homes uma nova ferramenta autêntica capaz de fazer a diferença, ou trata-se de mais uma iniciativa política concebida para dar a impressão de que o governo do Primeiro-Ministro Mark Carney está a agir na habitação? A resposta, pelo menos até agora, contém um pouco de ambas.

O que é exatamente a Build Canada Homes?

A Build Canada Homes foi lançada em setembro de 2025 e encontra-se agora estabelecida por lei como uma empresa pública federal ao abrigo da Lei Build Canada Homes (Build Canada Homes Act). O seu objetivo fundamental é aumentar a oferta de habitação acessível através da combinação de várias ferramentas: terrenos públicos, financiamento, parcerias e métodos de construção mais recentes. Em vez de se limitar a atribuir subsídios à habitação, a organização pretende desempenhar um papel mais ativo no encaminhamento dos projetos desde a fase de planeamento até à construção. Isso pode incluir a utilização de terrenos federais, a concessão de empréstimos ou garantias, o investimento em projetos, o trabalho conjunto com municípios e províncias, a parceria com organizações de habitação sem fins lucrativos e o apoio aos construtores do setor privado para acelerar os projetos. O governo federal afirma que a Build Canada Homes foi concebida para se tornar uma espécie de motor de entrega de habitação — e não apenas mais um programa governamental.

O Canadá já dispõe de organizações e programas que financiam a habitação. O argumento a favor da Build Canada Homes é que o país precisa de uma instituição capaz de juntar terrenos, capital, parceiros e capacidade de construção para concretizar a habitação.

Porquê transformá-la numa empresa pública (Crown corporation)?

A Lei Build Canada Homes recebeu a Sanção Real em junho de 2026. A legislação confere à corporação uma maior flexibilidade operacional do que a que detinha enquanto operava como agência federal. A entidade pode realizar investimentos, operar através de subsidiárias, contrair empréstimos dentro dos limites estabelecidos e celebrar parcerias concebidas para acelerar a construção de habitações. É também gerida por um conselho de administração, em vez de ser simplesmente mais um ramo de um ministério federal. Essa estrutura visa dar à Build Canada Homes maior independência e a capacidade de tomar decisões à semelhança de uma organização de desenvolvimento e investimento, mantendo-se, contudo, responsável perante o governo federal e o Parlamento. A legislação estabeleceu igualmente a estrutura para os cargos de Presidente Executivo (CEO) e do conselho de administração. O presidente do conselho e o CEO são nomeados pelo Governador em Conselho, o que significa que o governo federal mantém um papel relevante na liderança da organização.

Quem lidera a BCH?

A organização é liderada por Ana Bailão, que exerce o cargo de Presidente Executiva (CEO). Bailão é uma escolha particularmente interessante porque não chega ao cargo como uma burocrata federal tradicional. Possui uma vasta experiência na política municipal e na área da habitação em Toronto, tendo exercido o cargo de vice-presidente da câmara da cidade. O seu papel é significativo porque a Build Canada Homes deve fazer a ponte entre as políticas governamentais e a prática concreta de construir habitação. A organização conta ainda com Evan Siddall como seu presidente fundador do conselho de administração. Siddall é ex-CEO da Sociedade Canadiana de Hipotecas e Habitação (Canada Mortgage and Housing Corporation – CMHC) e antigo executivo sénior da BMO Capital Markets, o que confere à corporação uma considerável experiência em financiamento habitacional e no setor institucional. Esta combinação — uma CEO focada na habitação e um presidente com forte experiência em financiamento habitacional — sugere que Otava pretende que a Build Canada Homes seja mais do que um mero exercício de relações públicas.

Já fez alguma coisa?

É aqui que o governo tem um argumento legítimo. A Build Canada Homes não está a arrancar do zero. Desde o seu lançamento, a organização tem avançado com projetos e parcerias envolvendo cidades, províncias, territórios e parceiros indígenas. O governo federal afirma que projetos e parcerias representando mais de 11.000 habitações estavam em andamento ou perto da fase de construção em junho de 2026. Em setembro, o governo falava em acordos que poderão vir a resultar em aproximadamente 19.000 habitações acessíveis, estando cerca de 2.000 em construção. Os governos são especialistas em anunciar projetos de habitação. O verdadeiro teste será saber quantas unidades são concluídas, com que rapidez são construídas e qual será o seu custo final.

A Build Canada Homes estabeleceu uma parceria com a Cidade de Otava em vários projetos que envolvem mais de 1.100 habitações para arrendamento, sendo a maioria destinada a habitação acessível. Alguns destes projetos envolvem prestadores de habitação sem fins lucrativos, enquanto outros envolvem parcerias entre o setor privado e o setor sem fins lucrativos. A habitação é uma das maiores preocupações dos canadianos e dos inquilinos. Um governo que consiga demonstrar que está a construir casas obtém uma vantagem política óbvia.

Mark Carney fez da construção de habitação e da acessibilidade económica uma peça central da agenda económica do seu governo. A criação de uma organização altamente visível chamada Build Canada Homes envia também uma mensagem política muito clara: Otava quer que os canadianos associem o governo federal diretamente à construção de habitações. Contudo, dizer que algo é politicamente útil não significa que seja ineficaz. Os governos constroem infraestruturas por razões políticas a todo o momento. Isso não torna a infraestrutura desnecessária. Se eventualmente ajudar a colocar dezenas de milhares de habitações acessíveis em construção mais depressa e a custos mais reduzidos, os canadianos provavelmente não se importarão se o programa também ajudou Carney no plano político.

O Canadá não precisa simplesmente de mais anúncios de habitação. Precisa de mais gruas, mais trabalhadores da construção, mais terrenos com infraestruturas e mais edifícios concluídos. Se o Canadá conseguir encontrar formas de construir apartamentos e habitações acessíveis mais rapidamente, com menos desperdício e custos mais baixos, os benefícios poderão ir muito além dos projetos financiados diretamente pela Build Canada Homes. Esta corporação poderá potencialmente tornar-se um catalisador para mudar a forma como o Canadá constrói habitação.

Não há dúvida de que a Build Canada Homes é politicamente útil para Mark Carney. Mas isso não faz dela uma má ideia. O Canadá tentou incentivos fiscais, programas hipotecários, subsídios à habitação e várias iniciativas governamentais durante anos. O país continua a enfrentar uma grave escassez de casas. Talvez o que se exija agora seja uma organização apoiada pelo governo que esteja disposta a assumir parte do risco, utilizar terrenos públicos, trazer financiamento para a mesa e trabalhar diretamente com quem constrói habitação. A Build Canada Homes recebeu as ferramentas.

Agora tem de provar o seu valor.

Vincent Black/MS

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Odemira tem 19 propostas do Orçamento Participativo em votação até 31 de outubro

Os residentes, trabalhadores e estudantes do concelho de Odemira já podem escolher os projetos que pretendem ver concretizados através do Orçamento Participativo de 2026. Estão em votação 19 propostas, num processo que decorre até 31 de outubro e para o qual o Município disponibiliza 300 mil euros.

Podem participar cidadãos a partir dos 14 anos, sendo permitida uma única votação por pessoa. O voto pode ser feito por SMS, através do portal www.op.cm-odemira.pt, ou presencialmente no Balcão Único do Município e nas juntas de freguesia do concelho.

As propostas abrangem áreas como cultura, educação, desporto, ambiente e bem-estar. Incluem também intervenções destinadas à melhoria de espaços públicos, equipamentos e acessibilidades.

A autarquia compromete-se a executar as propostas mais votadas até ao limite da verba disponível, com um montante máximo de 75 mil euros por projeto.

Para favorecer a coesão territorial, será garantida a concretização de pelo menos um projeto numa freguesia com menos de 1 500 habitantes, entre as propostas mais votadas.

Implementado em 2011, o Orçamento Participativo de Odemira procura envolver a população na definição de investimentos públicos e incentivar uma participação próxima e transparente. Segundo o Município, trata-se do processo participativo mais antigo do país a funcionar de forma ininterrupta.

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GNR apreende quase quatro toneladas de cocaína na Costa Vicentina e detém três homens

A GNR apreendeu cerca de quatro toneladas de cocaína e deteve três homens durante uma operação realizada na madrugada desta quinta-feira, 8 de outubro, nas imediações da foz do rio Mira e da Praia da Vieirinha, nos concelhos de Odemira e Sines.

A ação foi conduzida pela Unidade de Controlo Costeiro e de Fronteiras, através do Destacamento de Controlo Costeiro de Sines, após a deteção de embarcações de alta velocidade pelo Sistema Integrado de Vigilância, Comando e Controlo (SIVICC). Foram mobilizados meios terrestres e marítimos para acompanhar os movimentos das embarcações.

Segundo a Guarda, foram identificadas duas embarcações de alta velocidade que estariam a transferir volumes para uma embarcação de pesca, junto à foz do rio Mira. A intervenção dos militares permitiu intercetar o barco de pesca, onde foram encontrados 73 fardos de cocaína.

No interior seguiam três homens, de nacionalidade portuguesa e estrangeira, com idades entre os 22 e os 42 anos, que foram detidos.

Durante o regresso a terra, os militares localizaram ainda uma embarcação de recreio à deriva, com outros 58 fardos de cocaína a bordo.

No total, foram apreendidos 131 fardos de cocaína, com um peso estimado de 3 915 quilos, duas embarcações, quatro telemóveis e 1 240 euros em numerário.

A operação contou com o reforço do Comando Territorial de Setúbal e com o apoio da Polícia Marítima e do Município de Sines.

Esta apreensão ocorreu menos de 48 horas depois de outra ação da GNR, realizada na madrugada de 7 de outubro, na Praia da Costinha, que resultou na apreensão de cerca de 2,7 toneladas de cocaína. As duas operações permitiram retirar mais de 6,5 toneladas de cocaína do circuito de tráfico, de acordo com os dados divulgados pela Guarda.

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Gestão Tarcísio exonera professoras com regra da ditadura

Em janeiro deste ano, Veruschka de Sales Azevedo passou pouco mais de uma hora contando à Agência Pública como perdera o cargo de professora na rede estadual de ensino de São Paulo. Ela chorou algumas vezes durante o encontro que foi finalizado com certa esperança: “O meu retorno será triunfante”, disse. Enquanto aguardava o desfecho do seu caso, ela organizava um livro com relatos de professores também investigados por meio de Processos Administrativos Disciplinares (PAD) na Secretaria de Educação de São Paulo (SEDUC). “A gente precisa registrar isso em tudo quanto é lugar.” Doutora em história, Veruschka tinha 24 anos de magistério, cerca de vinte deles na mesma escola de Guarulhos onde estudara antes de ser exonerada em maio de 2024 num PAD que se iniciou em 2017. Entre a abertura do processo e a exoneração, passaram-se sete anos e seis meses.

Em março deste ano, num artigo no Le Monde Diplomatique, Veruschka escreveu que o trauma da exoneração lhe causara uma doença crônica. Ela viria a falecer em julho, seis meses após a entrevista para a reportagem. A família não divulgou a causa da morte, mas a filha, Rayssa Sales, não tem dúvida sobre a origem da doença: “Antes, a imunidade da minha mãe era perfeita, mas, depois da exoneração, ela começou a ficar doente.”

As acusações contra a professora na SEDUC apontam falta de comprometimento com os estudantes, tumulto em reuniões pedagógicas, incitação de alunos contra a direção e excesso de atenção a temas raciais e de empoderamento feminino nas aulas.  

Três dias antes da demissão de Veruschka, também a professora Fabiana de Abreu, que ensinava história na mesma escola, fora exonerada. Em agosto de 2025, chegaria a vez de Maitée Nogueira, professora de sociologia em São Sebastião, no Litoral Norte paulista. As três contestaram as acusações em entrevista à Pública. Os processos se apoiam em um estatuto anterior à Constituição de 1988: o dos servidores civis do estado, de 1968, ano do AI-5. Para Salomão Ximenes, professor da Faculdade de Educação da USP e pesquisador do Observatório Nacional da Violência contra Educadores (Onve), os estatutos escritos durante o período ditatorial têm sido “ressignificados com o objetivo de dar mote a processos administrativos de perseguição a educadores”. 

Ele fala em “lawfare educacional”: o uso de instrumentos jurídicos e burocráticos para conter a mobilização de professores, a luta sindical e os avanços no currículo. Além de São Paulo, outros estados regulamentam o magistério por meio de normativas elaboradas durante o regime de exceção como Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Acre e Ceará, conforme Ximenes identifica no artigo “Os anos que não acabaram; o uso de estatutos jurídicos da ditadura militar na perseguição a educadores(as) no Brasil”, que publicou na metade deste ano com a jurista Ligia Ziggiotti de Oliveira.

Veruschka de Sales Azevedo (centro), professora exonerada via PAD
Veruschka de Sales Azevedo (centro), professora exonerada via PAD

Sarau criado por Veruschka incomodava a direção

Veruschka nasceu em Sanharó, no interior de Pernambuco, e chegou a Guarulhos ainda criança, com seis irmãos. A mãe era empregada doméstica; o pai, caminhoneiro. Ela estudou na Escola Estadual Professora Maria Aparecida Rodrigues, no bairro Pimentas, em Guarulhos, e cursou história na Unesp. Concursada em 2000, deu aulas na cidade de Sertãozinho até pedir, em 2004, transferência para a escola onde estudara. “Lá, havia professores que incentivaram os alunos a buscar a universidade pública”, disse a filha Rayssa. “Daí ela veio com o sonho de fazer o mesmo que fizeram por ela.” Ficou lá mesmo depois do doutorado, concluído em 2016 na PUC-SP.

Nas aulas, discutia desigualdades, feminismo, direitos humanos e identidade negra, e aplicava a Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. Militava na Associação Nacional de História (Anpuh), no sindicato e na Marcha Antirracista do Bairro dos Pimentas. Na escola, conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações. “No sarau do Milton Nascimento, fizemos o Milton de açúcar, porque ele é uma pessoa doce”, lembrou o ex-aluno Thiago Gomes, hoje estudante de filosofia na USP. “Eu via alunos racistas mudarem de opinião depois do sarau.” No cursinho popular da UNEafro Brasil que Veruschka coordenou na Unifesp, Thiago ouvia dela que era “um menino de ouro”. Para ele, a professora Veruschka morreu duas vezes. A primeira foi quando sofreu a exoneração. “Foi ali que perdi o brilho nos olhos. Eu continuava tendo aula com a Veruschka no cursinho da UneAfro, mas não era a mesma coisa”, afirma.

Veruschka conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações
Veruschka conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações
Veruschka conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações

Os atritos com a direção da escola começaram em 2008, segundo Veruschka, quando, ainda no governo de José Serra, passaram a exigir o uso de apostilas. O material, disse ela, “não tinha respaldo na diversidade das minhas salas de aula, na realidade dos alunos”. Depois vieram suas cobranças por transparência no uso das verbas e as queixas da gestão contra o sarau. “Esse projeto incomodou tanto a gestão que, a todo momento, queriam acabar com ele, porque os alunos começaram a se sentir parte desse movimento.” 

Salomão Ximenes, do Onve, diz que os estatutos preservam princípios como “a proibição de manifestação e uma lógica hierárquica em relação às autoridades administrativas”, incompatíveis com a democracia, que “continuam a persistir e a servir de mote para processos de punição”.

O advogado de Veruschka, Roberto Parahyba, chama a demissão de “arbitrária” e “antissindical”: “não tenho dúvida de que o principal ponto foi ter participado do ato sindical.” A defesa sustenta, ainda, que o caso estava prescrito com base no próprio estatuto de 1968, que fixa em cinco anos o prazo para a pena de demissão. 

O Procurador do Estado havia pedido a suspensão da professora por 90 dias, mas o Secretário de Educação do Estado de São Paulo, Renato Feder, aplicou a pena de demissão em maio de 2024, por considerar que Veruschka “teve conduta incompatível com o cargo de professora, principalmente no aspecto da moralidade” e agiu “de maneira desrespeitosa perante a gestão escolar”.

Para o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), “se o professor tem uma atuação mínima que seja de defesa da escola pública é perseguido. Se for sindicalista então, a situação é ainda pior”, diz Roberto Guido, presidente interino do sindicato.

Exoneração fez Veruschka perder o acesso ao hospital

Com a demissão, Veruschka perdeu o acesso ao hospital dos servidores estaduais. “A gente sabe como o SUS é demorado e que ir buscar uma consulta particular é caro”, disse a amiga Vera Aparecida dos Santos, assistente social. Em janeiro, a professora contou ter uma úlcera gástrica e o intestino inflamado. “Eu quero meu cargo de volta. Quero os meus 25 anos de contribuição. A gente nunca espera parar de trabalhar”, disse, emocionada, à Pública.

Numa pesquisa da Apeoesp divulgada em maio de 2026, 97,6% dos professores ouvidos associaram o adoecimento mental às condições de trabalho na rede; 24,8% precisaram se afastar da escola por esse motivo. Segundo Guido, depressão e burnout já superam as doenças físicas, em razão da superlotação das salas, das jornadas duplas ou triplas, dos conflitos e, mais recentemente, da plataformização do ensino. A SEDUC afirma que, desde dezembro de 2024, oferece atendimento psicológico e psiquiátrico aos servidores por meio do programa Viva Bem.

Segundo a mentora espiritual de Veruschka, a Iyalorixá Cláudia de Oyá,  a demissão causou um sentimento de abandono na professora diante de toda uma vida dedicada à educação: “ela começou a perder muito peso e tinha um sentimento de solidão. Se sentiu muito perdida em meio a todo o esforço de uma vida”, explicou. 

Veruschka e a Iyalorixá Cláudia de Oyá durante aula na UNEAfro
Veruschka e a Iyalorixá Cláudia de Oyá durante aula na UNEAfro

Fabiana tratou “repetidamente” de pautas raciais e indígenas

Fabiana de Abreu foi exonerada em maio de 2024, também durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas. Em 2017, ela foi afastada por 90 dias, sem salário, após conflitos com a direção da mesma escola de Veruschka em Guarulhos. A suspensão de 2017 foi anulada e Fabiana voltou à escola após 39 dias. Segundo ela, o prazo para punição já havia prescrito. “Mas quando eu retornei, começou outro processo.” Nele, Fabiana foi acusada de falta de urbanidade, insubordinação, tumulto em reuniões pedagógicas, falhas no lançamento de notas e de incitar alunos a atos contra a direção. O processo registra ainda que ela trabalhava “repetidamente questões sobre índios, negros e movimentos sociais para todas as turmas, sob a justificativa de que tem liberdade de cátedra”. 

A defesa da professora considera as acusações “comprovadamente distorcidas” e alega também a prescrição. A SEDUC diz que os processos de Fabiana e Veruschka apontam interrupções reiteradas nas reuniões pedagógicas e conflitos com a gestão, e que houve tentativas prévias de mediação.

Fabiana de Abreu está entre os casos de exonerações de professoras via PAD em São Paulo.
Fabiana de Abreu foi exonerada em maio de 2024, também durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas

Com o avanço conservador sobre a educação, diz Ximenes, o estatuto que embasou as demissões “passa a ser cada vez mais reivindicado como possibilidade de contenção de educadores que propõem ações de educação democrática, antidiscriminatória e mobilizações no âmbito da escola pública”.

Fabiana diz que estaria “um pouco mais tranquila” se tivesse sido demitida sozinha. Por causa do afastamento dela, em 2017, outros professores que foram ao ato sindical, como Veruschka, passaram também a responder a processos. Com a exoneração, ela também perdeu o direito de tratar o câncer da mãe no hospital dos servidores. “Esses processos atrasam toda a nossa condição de existência. A cabeça adoece”, afirma a docente, que recorreu à justiça sobre a demissão.

Fabiana liga o caso dela à adoção de plataformas digitais nas escolas estaduais, a partir de 2024: professoras como ela e Veruschka, diz, foram afastadas para que as dirigentes pudessem “de maneira mais sossegada implantar o projeto do governo”. Diego de Freitas, professor de filosofia que trabalhou com Veruschka, vê o modelo como “uma educação enlatada, ultraprocessada”, na qual a colega não se encaixaria. “Ela sempre estava defendendo uma educação democrática, a liberdade de cátedra e isso causava tensão no ambiente.”

Para Ximenes, o controle do currículo, a obrigação de alimentar as plataformas e a cobrança de metas nas avaliações eliminaram a pluralidade pedagógica nas escolas paulistas. “Tudo já vem dado, plataformizado e construído”, diz. “Aqueles que não se plataformizam ou não performam se colocam em risco.” Uma nota técnica da Rede Escola Pública e Universidade (Repu), de julho de 2025, aponta que o tempo de uso das plataformas é monitorado, com possibilidade de punição a professores e diretores.

Caso Maitée: “debates polêmicos” sobre sexualidade e religião

Maitée Nogueira dava aulas há mais de vinte anos quando entrou em conflito com a direção da Escola Estadual Walkir Vergani, em São Sebastião, em 2023. O processo a acusa de descumprir o horário de trabalho, de falta de urbanidade, de condutas discriminatórias e de insubordinação grave, e menciona “debates polêmicos” sobre sexualidade e religião. A Procuradoria-Geral do Estado reconheceu não haver documentação oficial que comprovasse o descumprimento da jornada de trabalho. A demissão foi determinada em agosto de 2025, também na gestão de Tarcísio de Freitas.

“Está na ordem do dia da Secretaria de Educação exonerar, pois qualquer investigação séria teria parado quando comprovei que cumpri meus deveres como professora”, afirma Maitée. Ela também explica que os supostos “debates polêmicos” são inerentes à disciplina e que sempre seguiu o currículo. Os conflitos, diz, deveriam ter sido mediados pela coordenação. Sua advogada considera as acusações “frágeis” e “contraditórias” e afirma que a professora “era perseguida, veladamente, pela gestão, tendo ainda de lidar com o preconceito decorrente de sua orientação sexual”.

A SEDUC afirmou à reportagem que o processo apurou agressões verbais contra estudantes e servidores, linguagem ofensiva, intimidação de alunos, recusa em usar o nome social de uma estudante e comentários discriminatórios, além de abandono de atividades, atrasos frequentes e descumprimento de obrigações pedagógicas. Demitida, Maitée não pode assumir outro cargo público, mesmo que aprovada em concurso. “Não posso mais exercer a profissão em que atuei por 20 anos, na qual estudei e me preparei”, desabafa. 

Maitée Nogueira está entre os casos de exonerações de professoras via PAD em São Paulo.
Exonerada em agosto de 2025, a defesa de Maitée Nogueira afirma que a professora “era perseguida veladamente pela gestão”

A SEDUC diz que os processos das três professoras citadas na reportagem garantiram o contraditório e a ampla defesa, que os recursos das professoras foram rejeitados e que nenhuma delas levou o caso à Justiça, o que contradiz as informações das defesas das professoras enviadas à Pública. Nos três casos, as professoras estão recorrendo contra as exonerações. 

Ximenes defende que os estatutos anteriores à Constituição de 1988 sejam atualizados para incorporar as premissas de uma educação democrática. “Para mim é escandaloso que a gente continue usando uma legislação do período da ditadura”, diz. “Assim, é muito mais fácil para as perspectivas autoritárias se desenvolverem, com essa infraestrutura jurídica à disposição.”

No velório de Veruschka, decidiu-se que o Sarau Resistência passaria a se chamar Sarau Veruschka de Sales Azevedo. Ela foi homenageada pela Associação Nacional de História (Anpuh) e recebeu uma moção de aplauso na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). A família tenta anular a exoneração, mesmo após o falecimento. “Como filha, eu gostaria de algo impossível: ter minha mãe de volta e que ela pudesse usufruir do cargo dela”, disse Rayssa: “O que a gente gostaria é que, pelo menos, o caso dela se revertesse.”

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Qual o acordo secreto entre AD e Chega?

Regresso às nossas crónicas, enriquecido pelo nascimento do meu filho Luís e pelo mês de licença que gozámos juntos.  A semana do meu regresso foi profícua e equívoca, e não me refiro ao drama entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus. Montenegro, por fim, acedeu às condições de José Luís Carneiro para viabilizar o Orçamento do Estado, aprovando uma linha para continuar as obras do PRR e dando garantias quanto à revisão constitucional. Por boa medida, aprovou com a abstenção do CHEGA a sua nova lei do arrendamento.

Horas antes, parecia certo que a proposta do Governo chumbaria. Empacotado com uma necessária modernização das regras de despejo, Pinto Luz desfaz praticamente todas as proteções e direitos de um inquilino. Se antes um senhorio só podia rescindir unilateralmente o contrato após 3 anos, agora poderá fazê-lo por mera comunicação prévia. As rendas em novos contratos, limitados à inflação mais 2%, deixarão de ter qualquer controle. Desde o fim do limite à caução ao aumento do número de rendas antecipadas, a proposta de lei é de um desequilíbrio total.

O populista André Ventura não se queria associar. Na véspera, anunciou o voto contra. No Parlamento, puxou a si a intervenção para falar grosso. Mas a montanha pariu um rato. Já com as votações a decorrer, é anunciado um acordo escrito para deixar passar o projeto.

A cambalhota do CHEGA não surpreende. O duplo mortal a que todos assistimos no pacote laboral diz-nos tudo sobre a coluna vertebral do seminarista de Mem Martins. Mais preocupante é quanto é que o PSD teve de oferecer para o fazer dançar. Consistentemente em 3.º lugar nas sondagens, o Governo não se pode dar ao luxo de derrotas políticas. A pouca agenda reformista que ainda lhes resta tem de avançar, a qualquer custo. E Ventura sabe disto. Sabe que tem a faca e o queijo na mão.

A lei do arrendamento levou a relação entre a AD e o CHEGA a um novo patamar: o acordo escrito. Luís Montenegro tinha, até ao momento, governado à vista, escolhendo os parceiros parlamentares que lhe são mais convenientes para cada ocasião. É um modelo invulgar. Na maioria dos países europeus, a formação de um governo é precedida por semanas de negociações. No fim, há um acordo global – público, firme e escrutinável por todos. Foi assim, nomeadamente, com a afamada “Geringonça”.

Agora há acordo escrito, mas este está sob sigilo. Desconhecemos o seu âmbito – se é limitado a esta lei – e quais são as suas contrapartidas. Ao longo deste ano, já muito se suspeitava que alguma radicalização do PSD seria condição da extrema-direita para salvar as alterações ao Código de Trabalho. Chegou-se, mesmo, a debater se o Governo não iria, por isso, aceitar a descida da idade da reforma. Na altura, à última da hora, foi tudo por água abaixo. Mas agora que não foi, e que há um papel que o comprova, importa saber porquê. E com que consequências.

A assinatura do primeiro acordo escrito entre PSD e CHEGA é, goste-se ou não, o atravessar de um rubicão político. É mais um passo na normalização da extrema-direita no nosso país. Alguma direita moderada acha que o faz por estratégia: assim, a extrema-direita está mais condicionada, esvaziada. Outra admite que o faz por mera conveniência política. Seja como for, isso não pode ser indiferente a qualquer democrata, e muito menos ao PS.

Nestes 2 anos e meio, o PS tem viabilizado Orçamentos e outras leis, não obstante a agenda radical das burqas e bandeiras ou o ataque ao SNS e à escola pública. Se hoje o Governo diz que não há margem para mais medidas de alívio do custo de vida é porque aprovou com o CHEGA a descida do IRC e os benefícios às “rendas moderadas”, cujo impacto orçamental chegará em 2027 aos 1500 milhões de euros.

Já no início do ano, Carneiro tinha avisado, perante a indiferença de Montenegro, que a paciência tem limites. No Congresso, com Montenegro a privilegiar Ventura nas negociações para o Tribunal Constitucional, Carneiro avisou que era altura de decidir e que quem semeia ventos, colhe tempestades. A audácia de firmar um acordo com o CHEGA no mesmo dia em que Carneiro anuncia a viabilização do Orçamento do Estado é mais uma machada na relação de confiança que Montenegro devia estar a construir – não só com o PS, mas com o país.

Não tem de ser assim. Esta semana, um conjunto de personalidades do PS e PSD lançaram uma carta aberta a defender entendimentos entre estes dois partidos centrais. O diálogo dos moderados é também um dos fins do Instituto Progresso, lançado no final de agosto.

Somos muitos a querer esse caminho mas ele exige respeito e lealdade. Como escrevemos na moção que levámos ao Congresso do PS, pactos de regime não são a mesma coisa que um bloco central. Não precisam de servir para suspender as diferenças entre os partidos, mas como chão comum sobre o qual transformemos o país e valorizemos as escolhas alternativas de cada um.

Como explicou António José Seguro, no discurso do 5 de Outubro, a estabilidade não é um fim em si mesmo. Mas é uma condição essencial para as coisas se fazerem. Agora mais que nunca, cabe ao PSD decidir com quem quer fazer acordos e a que preço.

Miguel Costa Matos/MS

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No PCCM, Fado une gerações numa noite de homenagem a Amália Rodrigues

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Fotos: Cindy Da Ponte

Foi uma noite dedicada à alma de Portugal, onde a música, a emoção e a cultura se encontraram através do fado. O Portuguese Cultural Centre of Mississauga realizou a tradicional Gala de Fado, este ano integrada na primeira edição do Festival Internacional de Fado de Toronto e dedicada a uma das maiores referências da cultura portuguesa: Amália Rodrigues. Realizada há 26 anos, a gala é motivo de orgulho para Jorge Mouselo, presidente do Centro Cultural Português de Mississauga, que destaca a importância de preservar uma tradição já enraizada na comunidade. “Não quero que isto morra”, afirmou, defendendo também uma maior união entre os clubes portugueses no Canadá.

Para Mouselo, a parceria com o Festival Internacional de Fado representa uma oportunidade para abrir o Centro a novos projetos e aproximar diferentes comunidades portuguesas. A gala reuniu artistas vindos de Portugal e talentos ligados à comunidade local, mas o dirigente acredita que, no futuro, poderá haver uma edição especialmente dedicada aos artistas da comunidade. “Os nossos artistas locais mereciam uma noite destas também”, afirmou. Mais do que uma noite de música, a iniciativa pretende celebrar o fado, homenagear Amália Rodrigues e reforçar os laços da comunidade. “Sem o vosso apoio, sem o vosso carinho, nada disto acontecerá”, sublinhou Mouselo.

Entre as artistas participantes esteve Suzy Silva, cuja formação em jazz lhe trouxe novas ferramentas para a composição, harmonia e arranjos, sem alterar a forma como aprendeu a cantar fado. “Eu aprendi a cantar fado da maneira que todos nós aprendemos: a ouvir os antigos”, explicou.

Amália é uma das suas maiores referências, uma espécie de “santa padroeira de todas as fadistas”. Suzy estudou atentamente as suas interpretações, desde a divisão dos versos à dicção e colocação da voz. Interpretar um fado associado a Amália representa, por isso, uma responsabilidade especial. “É impossível tirar do ouvido de quem ouve a versão original, que é grandiosa”, reconheceu. Ainda assim, procura imprimir às interpretações a sua própria identidade, através do “amor e dedicação” que coloca em cada atuação.

Para Suzy, o fado não pode ser reduzido a uma única definição: “É emoção, é música, mas também é um estado de espírito.” A cantora considera uma honra representar os fadistas da comunidade e destaca o crescente interesse pelo género entre públicos francófonos e anglófonos. “O fado tem muita coisa interessante a dar a conhecer ao mundo inteiro”, afirmou.

A cantora portuguesa Lenita Gentil também participou na gala de homenagem a Amália. Feliz por regressar a uma região onde tem muitos amigos, destacou a importância destas iniciativas para os portugueses no estrangeiro. “Onde houver um português tem que haver fado”, afirmou. Lenita recordou o seu percurso, iniciado na canção e marcado por festivais internacionais, até chegar ao fado, influenciada pelo ambiente musical familiar e pelos grandes nomes do género. Considera positivo o crescente interesse dos jovens e de públicos estrangeiros pelo fado, incluindo japoneses e chineses que já cantam e tocam esta música. Para a artista, esse fenómeno demonstra a sua força e universalidade. Recordou ainda a parceria de mais de 20 anos com Natalino de Jesus, com quem gravou Fado para Dois e continua a atuar. Natalino reforça a importância do Fado, numa comunidade onde a “saudade” é a palavra de sentimento.

João Brito, artista e organizador do Festival Internacional de Fado, considera a concretização do projeto um grande desafio. A ideia nasceu e avançou com o apoio de três associações. Apesar dos contratempos, a primeira edição levou o fado a Toronto e Mississauga, com salas bem preenchidas. “Esta é a primeira vez, mas não vai ser a última”, garantiu.

Para as próximas edições, a intenção é crescer gradualmente, envolver mais associações, chegar a outras cidades, incluindo Montreal, e apresentar o fado também a públicos não portugueses através de concertos mais intimistas. “Temos que começar a mostrar o fado”, defende.

Outra prioridade é dar espaço aos artistas da comunidade. Brito quer que o festival funcione como uma “rampa de lançamento” para fadistas e músicos de Toronto, Montreal, Vancouver e outras regiões, mostrando que existem muitos talentos locais que “também fazem bem” e merecem ser conhecidos.

Entre a homenagem a Amália, a tradição da Gala de Fado e os novos caminhos do festival, a noite em Mississauga mostrou que o fado continua vivo: preserva as raízes portuguesas, aproxima gerações e comunidades e, ao mesmo tempo, encontra novos artistas e públicos muito para além de Portugal.

RMA/MS

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