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A inteligência artificial ao serviço da produtividade

Na conferência que o Jornal Económico e a EY realizaram esta semana sobre o OE2027, o professor Nadim Habib, da Nova SBE, deixou um aviso certeiro: a inteligência artificial (IA) deve aumentar a produtividade, não multiplicar a burocracia. Podemos produzir mais documentos, enviar mais emails e realizar mais reuniões sem criar mais riqueza.

O tema já atravessara a conferência dos dez anos do JE, realizada a 7 de outubro na Alfândega do Porto. Gonçalo Regalado, presidente executivo do Banco Português de Fomento, destacou a tecnologia e a internacionalização como motores de crescimento. Dois contributos do JE para uma questão essencial: como competir melhor.

Portugal arrasta um problema de produtividade. Em 2025, a riqueza produzida por hora trabalhada correspondia a 66,9% da média da União Europeia, segundo a Pordata, com dados do Eurostat. A distância ajuda a explicar os baixos salários.

A IA pode ajudar a encurtá-la. Não por milagre, mas por permitir que cada trabalhador produza mais valor e cada empresa seja mais eficiente.

Segundo o INE, só 11,5% das empresas com dez ou mais trabalhadores utilizavam IA em 2025. Um estudo da Amazon Web Services, realizado junto de um universo diferente de empresas, indica que apenas 16% das empresas utilizadoras atingiram uma integração avançada.

Escrever emails ou resumir relatórios mais depressa é útil. Melhorar a logística, reduzir desperdícios, antecipar falhas e transformar processos produtivos é outra coisa. É aí que se ganha produtividade.

A IA pode levar ferramentas sofisticadas a pequenas empresas sem meios para grandes investimentos, embora também possa criar um país empresarial a duas velocidades: os que incorporam conhecimento e os que ficam para trás.

Há, no entanto, sinais positivos. O Governo lançou em Leiria um projeto-piloto de formação em IA para pequenas empresas, com 50 participantes na primeira fase e a ambição de chegar a 100 mil trabalhadores em três anos. Importa avaliar depois o impacto nas empresas, não apenas contar formandos.

É preciso formar empresários e trabalhadores, aproximar universidades e empresas e medir resultados. A Administração Pública deve dar o exemplo: menos procedimentos, respostas mais rápidas, melhores serviços, tudo isto sem ignorar os riscos para o emprego, a privacidade e a responsabilidade.

O objetivo não é ter mais empresas a usar IA. É ter empresas mais produtivas, trabalhadores mais qualificados e, já agora, salários mais elevados.

Durante décadas, Portugal procurou crescer trabalhando mais e criar mais valor para o país. Chegou a altura de aprender a produzir melhor. A IA não fará esse trabalho por nós. Pode, porém, ajudar-nos a fazê-lo.

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Tentativa e erro

Lee Iacocca, gestor, antigo líder da Ford e da Chrysler, diz que votava democrata ou republicano, dependendo do objetivo. Votava nuns se achasse que era necessário mudar, noutros se fosse para manter a tendência.

Claro que as ideologias contam. Iacocca lembra, também, que só conseguiu salvar o terceiro maior construtor automóvel norte-americano com um empréstimo estatal porque eram os democratas que, nessa altura, estavam no poder. Teria sido impossível com os republicanos. Mesmo assim, a alternância no poder servia para mudar o rumo. Se a situação não tinha a dinâmica necessária, escolhia um lado, se era preciso continuar na mesma direção, porque estava a correr bem, preferia o outro.

Hoje, é mais difícil fazer uma escolha deste tipo. A ideologia pesa mais, as posições estão mais extremadas. Ou um lado ou outro. Mas a sensação que temos é de que, mesmo mudando de protagonistas, parece não acontecer nada de relevante. Escolhida a alternativa, não notamos diferença no dia a dia.

Nadim Habib, professor da Nova SBE, diz que nos esforçamos muito para manter tudo na mesma. Tentamos resolver problemas novos com as mesmas soluções que vêm de trás. Recusamos a transformação. Confundimos agitação com movimento. O horizonte de uma legislatura ou de um mandato também é redutor, não ajuda.

Olhando para a atual efervescência social, generalizada, estamos mesmo à procura de mudança. Mesmo não sabendo para onde. Renovam-se escolhas, opta-se por novidades para tentar encontrar alternativas, quando as procuramos. Acreditamos que vamos lá por tentativa e erro. Com o risco imenso de o fazer sem referências e, muitas vezes, sem perceber que as decisões têm custos. A mudança também pode ser para pior.

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Reinventar as empresas com inteligência artificial: pessoas, decisões e crescimento até 2030

O ISCTE Executive Education vai publicar o livro “110 Vozes sobre IA Generativa, Bots, Agentes e Robôs”, no próximo dia 27 de outubro. Este texto, assinado por Ricardo Martinho, presidente da IBM, é reproduzido no Jornal Económico na qualidade de pré-publicação da referida obra.

Um estudo recente do IBM Institute for Business Value revela que mais de 80 por cento dos executivos europeus antecipam um crescimento significativo de receitas impulsionado pela IA até 2030. No entanto, muitos têm dificuldade em identificar de onde virá esse crescimento. Esta incerteza demonstra que não estamos apenas perante uma evolução tecnológica, mas sim perante uma transformação profunda dos modelos de negócio.

Durante muito tempo falámos de inteligência artificial como algo distante, quase futurista. Hoje, essa fase terminou. A IA generativa, os bots e os agentes inteligentes já fazem parte do dia a dia das empresas, instituições e cidadãos. Estamos claramente a passar da experimentação para a execução e, mais importante ainda, para a criação de valor real e mensurável.

A questão já não é se a IA terá impacto, o que importa é a forma como a usamos para impulsionar o crescimento, a competitividade e uma melhor tomada de decisão.

Há, no entanto, um ponto essencial que importa esclarecer desde o início: a IA não substitui a inteligência humana. O seu verdadeiro valor reside em aumentar capacidades, libertar tempo e apoiar melhores decisões. Permite automatizar tarefas repetitivas, acelerar processos complexos e analisar grandes volumes de dados em tempo reduzido. Ainda assim, aquilo que realmente faz a diferença continua a ser humano, o pensamento crítico, o julgamento, a criatividade, a empatia e o sentido de responsabilidade.

No mundo empresarial, este impacto já é evidente. A pressão para relançar o crescimento económico está a aumentar, e a IA tornou-se uma das alavancas mais relevantes quando aplicada de forma estratégica e responsável. As organizações que ultrapassaram a fase de prova de conceito e escalaram a utilização da tecnologia começam a observar resultados tangíveis – não apenas em eficiência operacional, mas também na criação de novos produtos, serviços e experiências.

Um estudo recente do IBM Institute for Business Value revela que mais de 80 por cento dos executivos europeus antecipam um crescimento significativo de receitas impulsionado pela IA até 2030. No entanto, muitos têm ainda dificuldade em identificar exatamente de onde virá esse crescimento. Esta incerteza demonstra que não estamos apenas perante uma evolução tecnológica, mas sim perante uma transformação profunda dos modelos de negócio.

É neste contexto que surge o conceito de «empresa mais inteligente» (smarter enterprise): organizações orientadas por dados e IA, capazes de responder em tempo real às mudanças de mercado, antecipar necessidades dos clientes e transformar a produtividade em inovação contínua. Para concretizar este potencial, três grandes transformações tornam-se fundamentais.

A primeira é utilizar a produtividade como motor de transformação. O mesmo estudo referido acima indica que 54 por cento das organizações já reportam ganhos de produtividade mensuráveis resultantes de iniciativas de IA. No entanto, a eficiência não deve ser vista como um fim em si mesmo. Reduzir custos é importante, mas insuficiente. O verdadeiro valor está em reinvestir esses ganhos em inovação, novos modelos de negócio e novas fontes de receita. Num mercado em que a eficiência rapidamente se torna acessível a todos, a capacidade de reinvestir e diferenciar-se será o principal fator competitivo.

A segunda transformação está relacionada com a diferenciação. À medida que a IA se generaliza, a vantagem competitiva deixará de residir na dimensão dos modelos utilizados e passará a estar na sua singularidade. De acordo com o estudo, 68 por cento dos executivos identificam os dados próprios, o conhecimento específico do setor e a integração entre tecnologia e operações como a principal fonte de vantagem competitiva em IA. As organizações mais avançadas estão a evoluir para modelos híbridos, combinando grandes modelos fundacionais com soluções mais pequenas e especializadas, ajustadas ao contexto específico do seu negócio.

A terceira transformação é, acima de tudo, humana. A evolução da IA, em particular com o surgimento da chamada Agentic AI, baseada em agentes capazes de executar tarefas de forma autónoma e colaborativa, está a redefinir funções, competências e estruturas organizacionais. O estudo aponta que cerca de 40 por cento da força de trabalho precisará de requalificação nos próximos três anos devido à adoção de IA. Equipas híbridas, compostas por humanos e agentes digitais, serão cada vez mais comuns.

Esta mudança traz desafios significativos. Uma grande parte das competências atuais evoluirá rapidamente, exigindo requalificação contínua. Surgirão novas funções, ligadas à supervisão, governança e segurança dos sistemas de IA. Mais do que uma questão tecnológica, estamos perante um tema de liderança, cultura organizacional e gestão da mudança.

É por isso que a literacia em IA se está a tornar uma competência crítica. Vivemos num momento em que a utilização da tecnologia cresce mais rapidamente do que a sua compreensão. Utilizar a IA de forma eficaz exige compreender os seus limites. A IA não pensa de forma autónoma, não entende o contexto como um ser humano e não verifica a exatidão da informação, funciona com base em padrões e probabilidades e pode cometer erros.

Uma utilização responsável implica saber formular as perguntas certas, interpretar os resultados com espírito crítico, cruzar fontes e reconhecer quando uma decisão deve permanecer exclusivamente humana. Exige também compreender temas-chave como privacidade, ética, proteção de dados, cibersegurança e regulação. Estas não são questões técnicas secundárias, são condições essenciais para uma adoção sustentável.

No contexto empresarial, estes requisitos tornam-se ainda mais críticos. Confiança, transparência e governança são pilares fundamentais. As organizações precisam de assegurar o controlo sobre os seus dados, compreender o funcionamento dos modelos que utilizam e assumir a responsabilidade pelas decisões tomadas com apoio de IA. Sem estes princípios, o potencial da tecnologia pode rapidamente transformar-se em risco.

Olhando para o futuro, é claro que a IA continuará a evoluir em conjunto com outras tecnologias disruptivas, como a computação quântica. Estas tecnologias são complementares e, em conjunto, têm o potencial de resolver problemas que hoje são considerados impraticáveis, abrindo novas oportunidades em áreas como a saúde, a energia, a indústria e a sustentabilidade.

Portugal está bem posicionado para participar ativamente nesta nova fase. O país dispõe de talento qualificado, centros de investigação relevantes e capacidade de inovação. Tal como em revoluções tecnológicas anteriores, o maior risco não é investir cedo, é não acompanhar o ritmo da transformação.

Em conclusão, a mensagem é clara. A IA veio para ficar, mas o seu verdadeiro valor não será medido pela sofisticação tecnológica nem pela dimensão dos modelos. Será medido pelo impacto positivo que consegue gerar: melhores decisões, organizações mais eficientes, economias mais competitivas e uma sociedade mais preparada para os desafios futuros. E esse impacto continuará, inevitavelmente, a depender das decisões humanas que tomamos.

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Liberté, égalité, impasse

A França habituou-se a fazer da rua uma extensão do Parlamento. O que hoje inquieta é a possibilidade de a rua estar a substituir uma política que deixou de oferecer saídas. Entre escolas degradadas, contas públicas exaustas e uma Presidência sem autoridade suficiente para unir o país, a crise francesa tornou-se uma disputa sobre a própria promessa republicana: o que pode ainda o Estado exigir aos cidadãos quando tantos deixaram de acreditar naquilo que recebem em troca?

Maio de 68 regressa inevitavelmente à conversa. A comparação exige prudência. Aquela revolta enfrentava uma sociedade em crescimento, mas rígida nas hierarquias e nos costumes. A contestação atual nasce numa sociedade envelhecida, endividada e receosa de perder o que conquistou. Em 1968, a juventude queria transformar o mundo. Hoje, muitos jovens procuram perceber se ainda terão lugar nele. A diferença está na confiança no futuro.

A dívida pública atingiu 119% do PIB no segundo trimestre de 2026. Não é apenas um problema contabilístico. Quanto mais recursos absorvem os juros, menos liberdade existe para melhorar escolas, hospitais ou transportes. A França mantém um Estado social exigente e uma máquina administrativa pesada, cuja eficácia nem sempre corresponde ao custo. As prestações de proteção social representavam 31,9% do PIB em 2024. Essa proteção é uma conquista civilizacional; garantir o seu financiamento tornou-se uma responsabilidade que sucessivos governos adiaram.

O bloqueio agrava-se quando quem paga sente que os serviços pioram e quem depende deles teme qualquer mudança. A acumulação de estruturas administrativas dispersa responsabilidades e torna difícil perceber quem responde pelo fracasso. Entretanto, os jovens enfrentam uma distribuição de recursos que protege posições adquiridas sem lhes garantir oportunidades equivalentes. A dívida prolonga esse desequilíbrio, transferindo para amanhã parte do custo político de hoje.

Chirac e Alain Juppé enfrentaram a contestação de 1995. Sarkozy e François Fillon fizeram avançar mudanças nas pensões. Hollande procurou reformar o trabalho, com Manuel Valls, pagando um elevado preço político. Macron retomou a ambição reformista. Seria historicamente errado dizer que nada mudou. Mudaram leis, idades de reforma e regras laborais. Faltou transformar essas alterações num compromisso social duradouro. Reformar tornou-se uma operação imposta por um governo e contestada até à oportunidade seguinte de a desfazer.

Macron prometeu romper esse ciclo. A sua responsabilidade mede-se pela distância entre essa promessa e o resultado. Quis representar a ambição europeia, a autonomia estratégica e a influência francesa no mundo. Essa intervenção externa era necessária. Mas faltou-lhe construir, dentro de França, uma estratégia reconhecível para ligar competitividade, proteção social e mobilidade. A dissolução parlamentar de 2024 agravou a fragmentação. O Presidente continuou a explicar o lugar da França no mundo enquanto perdia capacidade para explicar aos franceses o seu lugar na França.

Também convém precisar o diagnóstico tecnológico. O país possui excelência na aeronáutica, no nuclear e na inteligência artificial. O problema reside na dificuldade de disseminar inovação, fazer crescer empresas e converter conhecimento em produtividade por toda a economia. A existência de campeões tecnológicos não resolve a estagnação dos territórios que ficaram afastados deles. Sem crescimento suficiente, a promessa de preservar todas as prestações e baixar impostos acaba financiada por dívida ou desmentida pelo orçamento seguinte.

Sobre este desgaste sobrepõem-se três Franças. Uma deixou de reconhecer legitimidade à autoridade pública. Nela coexistem motivações distintas: exclusão territorial, discriminação, descrença nas instituições e radicalismos que fazem da confrontação um objetivo. Isso não transforma todos os manifestantes em inimigos do Estado. Obriga a distinguir reivindicação democrática, violência e criminalidade, sem desculpar estas últimas nem reduzir o protesto às suas expressões destrutivas.

Outra França exige um Estado forte que faça cumprir regras, proteja pessoas e recupere o controlo. A insegurança e a perceção de impunidade aproximam parte desse eleitorado da extrema-direita. Entre ambas, um centro perde espaço porque já não convence como promessa de mudança nem como garantia de estabilidade. A autoridade que falha enfraquece a moderação; a moderação sem resultados acaba confundida com impotência.

É neste terreno que Marine Le Pen prepara 2027. A sua chegada ao poder permanece uma possibilidade, dependente das urnas e da configuração institucional. Mas o debate mudou: a extrema-direita apresenta-se como solução de governo e obriga os restantes partidos a reagir às suas prioridades. A crise beneficia quem promete ordem e proteção, mesmo quando as contas dessa promessa continuam por demonstrar.

Le Pen propõe cortar a contribuição francesa para a União Europeia e questiona novos financiamentos para a Ucrânia. Uma redução unilateral enfrentaria compromissos jurídicos e resistência dos parceiros. Ainda assim, a ameaça tem consequências: dificulta o próximo quadro financeiro europeu e fragiliza a previsibilidade do apoio a Kiev. O problema estrutural francês pode, assim, converter-se num problema de segurança europeu. Moscovo não precisa de decidir as eleições francesas para beneficiar das suas consequências.

Nas ruas existe, porém, uma inquietação que os governos deveriam escutar melhor. Os jovens falam de habitação, educação, emprego e rendimentos, mas entre as suas reivindicações também aparece a recusa da guerra. Não há uma juventude politicamente uniforme. Há quem peça uma Europa capaz de falar a uma só voz pela paz e de oferecer uma perspetiva de vida que ultrapasse a preparação permanente para novas crises. Escutar essa aspiração exige discutir seriamente como alcançar uma paz sustentável.

A defesa da Ucrânia e o investimento nas escolas precisam de uma explicação política comum: proteger a possibilidade de um futuro livre. Apresentá-los como escolhas necessariamente incompatíveis facilita o trabalho de quem promete resolver a crise social abandonando compromissos externos. Mas exigir sacrifícios sem explicar prioridades, custos e resultados também destrói apoio. Os líderes europeus revelam essa dificuldade nas negociações orçamentais, onde cada ambição coletiva encontra uma resistência nacional.

A França precisa de recuperar capacidade para produzir, reformar e fazer cumprir a lei com legitimidade. Precisa também de devolver sentido à solidariedade entre gerações. Nenhum destes objetivos sobreviverá muito tempo sem os outros. O perigo para a República começa quando a liberdade parece desordem, a igualdade parece promessa incumprida e a fraternidade deixa de alcançar quem vive do outro lado da barricada. É desse impasse que a política tem de a retirar.

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Para onde vão os unicórnios?

Uma startup que nasce hoje em Lisboa, Munique ou Tallinn encontra, com relativa facilidade, quem lhe financie os primeiros passos. A dificuldade surge depois, quando a ideia já provou o seu valor e é preciso capital a sério para contratar, internacionalizar e ganhar escala.

Nessa fase, o crédito bancário raramente é solução: uma empresa jovem ainda não gera lucros estáveis e tem poucos ativos para dar como garantia. Precisa de capital de risco, de fundos que se tornam sócios da empresa e partilham, com ela, o risco de crescer. Na Europa, estes fundos existem, mas são pequenos e estão confinados a 27 mercados desagregados.

Segundo o Banco Europeu de Investimento, o capital de risco europeu é cerca de seis vezes inferior ao norte-americano, pelo que uma scale-up europeia angaria, ao fim de dez anos, metade do capital de uma congénere de Silicon Valley.

Sem esse financiamento, muitas das empresas mais promissoras crescem fora da Europa. De acordo com o relatório Draghi, entre 2008 e 2021, perto de 30% dos unicórnios aqui fundados transferiram a sede, na sua maioria para o outro lado do Atlântico. Com eles partem empregos, receitas fiscais, propriedade intelectual e tecnologia.

Foi para dar escala aos fundos de capital de risco que a União criou, em 2013, o EuVECA, um passaporte que lhes permite angariar investidores em todos os Estados-Membros. A ideia era acertada, mas as regras envelheceram e o mecanismo vale hoje menos do que prometia. A revisão estava anunciada para este ano; em outubro, a proposta continua por apresentar.

No Grupo do PPE, definimos cinco prioridades, já enviadas à Comissão. A primeira visa corrigir um contrassenso: os gestores com menos de 500 milhões de euros sob gestão beneficiam do regime simplificado do EuVECA, mas, ultrapassado esse limiar, ficam sujeitos às regras dos grandes fundos de investimento, com encargos de supervisão e reporte muito superiores. O sucesso acaba, assim, penalizado no momento em que se concretiza, levando alguns a limitar o próprio crescimento. Propomos elevar a fronteira para, pelo menos, 1,5 mil milhões e indexá-lo à inflação, para que não volte a tornar-se obsoleto.

Pretendemos também pôr fim ao gold-plating, palavra do momento em Bruxelas. Somadas, as exigências e taxas que muitos Estados-Membros acrescentam à legislação europeia pesam excessivamente sobre quem não dispõe de juristas em cada capital. Removidos estes entraves, importa alargar o leque de instrumentos e de investidores: permitir o recurso aos SAFE, comuns nos EUA, que convertem o financiamento de hoje em ações numa ronda futura, e abrir estes fundos a investidores particulares experientes, e não só a quem investe acima de um determinado montante.

A última é, porventura, a mais relevante. As regras prudenciais desincentivam seguradoras e fundos de pensões de investir em capital de risco e o BCE aponta a sua fraca presença como um travão ao financiamento das scale-ups. A Europa dispõe de poupança; falta canalizá-la para a economia real. O Fundo Europeu de Investimento pode ajudar como investidor-âncora: a sua entrada num fundo é um sinal de confiança que atrai capital privado.

Mas mais capital não chega se as empresas, ao crescerem, continuarem a esbarrar em 27 regimes societários. Por isso, a revisão do EuVECA deve avançar a par da EU Inc., o estatuto empresarial europeu. A fragmentação do capital e a do direito das sociedades são duas faces do mesmo problema.

No Parlamento Europeu vamos bater-nos para que esta reforma não se perca pelo caminho. Está em causa saber se a Europa será capaz de transformar talento em prosperidade e ideias em liderança. Até lá, continuaremos a financiar o arranque das nossas melhores empresas para que outros colham os frutos.

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A doca que ainda é nossa

Há diferença entre vender uma empresa e abdicar de uma capacidade. A segunda vem disfarçada de concurso público e de linguagem administrativa que adormece o essencial. É o risco que corre a Mitrena. A concessão termina em 2027, e o concurso só deve arrancar perto do fim. Não há caderno de encargos, há estudos. Tudo se decide agora, sem que nada pareça estar a ser decidido.

E quem decide passou a ser a administração portuária, cuja lógica é a do tráfego e da receita, não a de um activo de soberania. Não é má-fé, é a calculadora a trabalhar no lugar errado. Já vimos, com a refinaria de Matosinhos, o que isso custa, e ali decidiu um privado; aqui o dono é o Estado, e a responsabilidade também.

Convém separar duas coisas. Uma é o estaleiro como negócio, com 76 navios reparados em 2024, só dois portugueses. Outra é a natureza do activo, que pede duas qualificações antes de se assinar seja o que for. É infra-estrutura crítica, em normalidade vantagem económica e em tensão função de soberania. E é activo estratégico, qualificação que não olha ao que ele faz, mas a quem fica com ele.

A segunda responde a outra coisa. O critério não é a nacionalidade de quem concorre, é o controlo; a origem do capital é factor de risco, não critério. Ainda não se sabe quem concorrerá: o porto fala de uma quinzena de interessados, da Coreia do Sul ao Reino Unido, e os nomes conhecidos são portugueses. Mas convém olhar para o mapa antes de abrir envelopes. Um mesmo operador estrangeiro explora hoje terminais em Leixões, Figueira da Foz, Lisboa e Setúbal, e movimenta a maioria da carga contentorizada que entra e sai do continente; Setúbal é onde fica a Mitrena. E a Europa já aprendeu que porto não é só assunto comercial: em Hamburgo, a Alemanha limitou a entrada de um operador estatal chinês num terminal. Que se saiba, cá a questão nunca se pôs. Não se trata de abrir ou fechar a porta ao capital estrangeiro, mas de não deixar que a entrada das mercadorias e a oficina onde se reparam os navios venham a ficar nas mesmas mãos.

A Marinha vai receber doze navios até 2030. Metade, os patrulhas oceânicos, constrói-se em Viana; os outros na Turquia, na Roménia e em Itália. E a manutenção está a ser desenhada: 461 milhões para sustentar as fragatas, o Alfeite revitalizado com o construtor italiano, 95 milhões para capacitação, 55 deles para uma doca nova. O Governo escreveu, ao anunciar a parceria, que os novos navios exigem novas infra-estruturas, novos meios e mais espaços de docagem. Do outro lado da península há seis docas secas, a maior com 450 metros, e nenhuma destas contas as inclui. Não para substituir o Alfeite, mas para o que lá não cabe. Presume-se que o Governo esteja a ouvir a Armada antes de fechar o modelo, e seria bom que se notasse: é dela o conhecimento que falta a quem desenha concessões.

As duas qualificações não são retórica. A primeira tem lei desde 2025: quem é designado entidade crítica não pode ceder uma infra-estrutura sem avisar o Estado com trinta dias e dizer a quem. O prazo das designações terminou em Julho, e a lista das designadas não é pública. A lei inclui quem gere as obras e o equipamento dentro dos portos, e importa saber se a maior doca do país cabe aí. Se cabe, há instrumento, e nada indica que esteja a ser usado; se não cabe, há lacuna a corrigir antes de assinar. A segunda tem regime desde 2014, o dos activos estratégicos, sem aplicação conhecida: só existe se alguém no Estado a exercer, e chama-se inteligência económica.

Qualificado o activo, o caderno de encargos escreve-se sozinho. Prioridade de acesso do Estado à reparação em crise, seja quem for o operador. A construção naval como possibilidade preservada, não como obrigação: o estaleiro vive bem da reparação, mas o contrato actual não prevê construir, e o próximo, que durará gerações, não deve fechar essa porta. E um escrutínio de segurança sobre o concorrente, a sua cadeia de controlo e as posições que já detém nos portos nacionais. Não é preferência nacional, que o direito europeu não permite; é o que um concedente pode exigir no seu próprio contrato. E o Tribunal de Justiça lembrou em 2024, a propósito de uma empreitada ferroviária, que concorrentes de países sem acordo de contratação pública com a União não têm sequer direito a tratamento igual.

Condições têm preço: quem as impõe recebe menos renda. Assinado o contrato, por um horizonte que pode durar gerações, decide-se se Portugal é nó ou apenas terminal. O mar que não defendermos agora será gerido por quem tiver as docas.

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O povo está okupado

As acampadas estão a conseguir o que sucessivos governos não fizeram. Devolver urgência à habitação. Durante anos, o problema cresceu entre indiferença e políticas desastrosas. Em Lisboa, por exemplo, António Costa entregou a regeneração urbana ao mercado. Regeneraram-se os prédios, mas esqueceram-se os moradores. Pedro Passos, deu benefícios fiscais a estrangeiros, que nem um governo socialista com apoio da esquerda radical alterou.

Conheço o problema na primeira pessoa. Atravessa gerações, regiões e rendimentos. Não é apenas uma crise de jovens. É uma crise do país. E não se resolve com mais uma década de promessas. Mas ligo a televisão e descubro que chegou o povo. Poder popular, assembleias populares, o povo a ordenar. O povo parece ter uma agenda preenchidíssima. Mas voltemos à questão do processo em curso, qual povo?

Uma assembleia popular representa quem nela participa. Mais ninguém. Não tem mandato, não responde perante eleitores nem representa quem discorda ou ficou em casa. É uma reunião, não um órgão de soberania. A democracia representativa não é um capricho “burguês”: existe para impedir que quem grita mais alto se confunda com a maioria.

E, obviamente, aquela espécie de soviete improvisado distribui receitas milagrosas, em que a maioria das propostas poderão aumentar o problema. Muitas são velhas propostas, como se décadas de erros pudessem ser corrigidas por aclamação.

Por outro lado, há legislação em discussão no Parlamento. É aí que se negoceia e decide. A rua deve pressionar, não substituir as instituições, e a sociedade civil deve reunir-se com os grupos parlamentares para aumentar as propostas. É o famoso lobby.

A ironia, é que o Chega, farejando o perfume do populismo, também poderá descobrir o seu povo e os seus milagres e poderá tornar-se a chave para desbloquear várias propostas de curto prazo.

Agora, o povo que conheço? Trabalha, paga rendas impossíveis e infelizmente não tem tempo. Não precisa de representantes autoproclamados nas praças. Precisa de representantes menos medíocres no Parlamento, capazes de ouvir todos os quadrantes da sociedade e transformar as aspirações dos portugueses em decisões concretas. E isso não invalida que possa e deva manifestar-se em força.

Porque representar o povo não é falar em nome dele. É ouvi-lo, responder perante ele e, sobretudo, agir.

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