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Acordo Mercosul-Canadá pode transformar relações comerciais com Brasil

21 October 2026 at 08:50

Um acordo de comércio livre entre o Mercosul e o Canadá poderá transformar as relações económicas entre o Brasil e o Canadá e abrir novas oportunidades de investimento, disse à Lusa um responsável brasileiro.

“Entendemos que pode mudar o patamar das relações entre Brasil e Canadá, claro, com todos os outros membros do bloco Mercosul, mas especialmente para o Brasil”, afirmou Igor Brandão, diretor de operações da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) para a América do Norte.

Em declarações à Lusa, à margem da 19.ª edição da conferência Doing Business in Brazil, realizada na terça-feira, em Toronto, o responsável considerou que as negociações comerciais poderão reforçar a cooperação em setores como a agricultura, a indústria farmacêutica, a aviação e os produtos transformados.

“O obstáculo principal, o que eu diria, é o calendário. Precisamos acelerar as conversas, isso tem acontecido, já foram 10 rodadas de negociação, mas ainda há alguns capítulos a serem discutidos e concluídos”, explicou.

Segundo Igor Brandão, o acordo poderá beneficiar sobretudo setores de maior valor acrescentado, permitindo diversificar as exportações brasileiras para além das matérias-primas.

“Entendemos que na cadeia de fármacos, por exemplo, manufaturados, alimentos processados, são setores que serão beneficiados e pode gerar um novo perfil do comércio entre o Brasil e o Canadá”, acrescentou.

O responsável destacou a complementaridade das duas economias, apontando a produção canadiana de fertilizantes e a dimensão do setor agrícola brasileiro como exemplos de oportunidades de cooperação.

Também a indústria aeronáutica e os minerais críticos poderão beneficiar de uma maior aproximação económica.

“O Brasil é dono da segunda maior reserva de terras raras. Então, o potencial disso é gigantesco, considerando toda a agenda de transição energética, de economia verde”, salientou.

Igor Brandão sublinhou ainda a experiência canadiana na indústria mineira, considerando que a cooperação tecnológica e a partilha de conhecimento poderão contribuir para uma parceria estratégica de longo prazo.

De acordo com dados da Câmara de Comércio Brasil-Canadá, as trocas comerciais entre os dois países atingiram cerca de 10,4 mil milhões de dólares norte-americanos (9,3 mil milhões de euros) em 2025, dos quais 7,25 mil milhões de dólares (6,5 mil milhões de euros) corresponderam a exportações brasileiras e 3,14 mil milhões de dólares (2,8 mil milhões de euros) a importações provenientes do Canadá.

O investimento canadiano acumulado na economia brasileira situava-se em cerca de 33 mil milhões de euros no final de 2025, segundo os valores apresentados por Igor Brandão.

Apesar destes números, o responsável considera que existe uma margem significativa para aumentar as trocas comerciais, tendo em conta a dimensão das duas economias.

Igor Brandão defendeu ainda que o Brasil e o Canadá devem desenvolver uma relação económica de longo prazo, independentemente das mudanças políticas em Washington, Otava ou Brasília, considerando que os dois países apresentam interesses e características económicas complementares.

A ApexBrasil prepara ainda três missões comerciais a Toronto e Montreal até ao final do ano, envolvendo empresas dos setores mineiro, alimentar, audiovisual e da economia criativa.

O responsável confirmou que não foram anunciados novos acordos durante a conferência, mas considerou que os contactos realizados reforçaram a confiança dos investidores canadianos no mercado brasileiro.

Por sua vez, Peter Hawkins, copresidente da Câmara de Comércio Brasil-Canadá, identificou a proteção de setores económicos concorrentes como um dos principais obstáculos às negociações comerciais entre o Canadá e o Mercosul.

“Ambos produzimos carne e aço, e existe a preocupação de que um mercado possa prejudicar o outro”, afirmou à Lusa, apontando as reservas dos produtores de carne da província canadiana de Alberta relativamente à entrada de produtos brasileiros.

O responsável defendeu, contudo, que as diferenças entre os produtos e as tecnologias utilizadas poderão favorecer a complementaridade entre as duas economias, em vez de aumentar a concorrência.

Segundo Peter Hawkins, mais de metade das matérias em negociação já estará resolvida, embora subsistam questões importantes por concluir.

“Se houver a oportunidade de concretizar um acordo de comércio livre, poderemos aumentar exponencialmente as trocas comerciais”, afirmou, admitindo a possibilidade de gerar mais 6,2 mil milhões de euros em negócios adicionais.

O empresário destacou ainda os contactos estabelecidos entre empresas tecnológicas e representantes do setor agrícola durante a conferência, bem como a preparação de novas missões empresariais nos próximos meses.

Entre as iniciativas previstas está uma missão de empresárias e dirigentes canadianas a Florianópolis e São Paulo, além de contactos nos setores do vestuário, animação e alimentação.

A 19.ª edição do Doing Business in Brazil, organizada pela Câmara de Comércio Brasil-Canadá em parceria com a ApexBrasil, reuniu empresários, investidores e representantes institucionais para discutir oportunidades de investimento, comércio bilateral, infraestruturas, energia e minerais críticos.

“Já se brincou demasiado” com o TGV em Gaia e contrato é para cumprir

20 October 2026 at 09:10

A associação Frente Cívica avisou hoje que “já se brincou demasiado” com a obra da linha alta velocidade em Vila Nova de Gaia, avisando que o Governo deve fazer cumprir o contrato de concessão, que prevê estação em Santo Ovídio.

“A Frente Cívica estará vigilante e eu espero que todos os portugueses estejam vigilantes, porque já se brincou demasiado com esta obra e já se perdeu tempo demasiado, exatamente por causa das hesitações do Governo e proximidades pouco saudáveis com os interesses do concessionário”, disse à Lusa João Paulo Batalha, vice-presidente da associação de defesa de causas de interesse público, sobre a primeira parceria público-privada (PPP) da linha de alta velocidade Porto-Lisboa, que prevê estação de Gaia em Santo Ovídio.

Em causa está a localização da estação, cujo contrato assinado entre a Infraestruturas de Portugal (IP) e o concessionário AVAN (Mota-Engil, Serena, Teixeira Duarte, Casais, Alves Ribeiro, Conduril e Gabriel Couto) prevê que seja em Santo Ovídio, com ligação a duas linhas de metro, mas que o consórcio tentou alterar para Vilar do Paraíso em 2025, sem sucesso, após um ‘chumbo’ da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), e que voltou à discussão próximo do arranque da obra, dia 12.

Para João Paulo Batalha, o Governo só tem de “dizer que os contratos são para cumprir: a obra foi posta a concurso, o consórcio vencedor fez a sua proposta, a sua proposta ganhou para cumprir o caderno de encargos que está estabelecido e, portanto, os preços e as condições da concessão não são para ser revistos”.

“Foi a timidez do Governo em dizer isto – que é o que tem que ser dito agora – há dois anos, quando a Mota-Engil, depois de ganhar o concurso, se pôs a redesenhar o caderno de encargos e a fantasiar com uma estação num sítio errado, e isso desperdiçou praticamente dois anos de trabalho”, que permitiu, no seu entendimento, deixar “a Mota-Engil perder tempo neste devaneio”.

Não querendo discutir a “bondade ou maldade da localização” da estação, esta “foi decidida, está contratada, a obra está em curso, não é agora obviamente a altura de alterá-la”, apontou, pois “o que não se pode nunca fazer é alterar o caderno de encargos depois da obra atribuída, porque isso tornaria todo o concurso uma farsa, porque se o caderno de encargos fosse outro, os outros concorrentes teriam seguramente feito propostas diferentes”.

No dia 12, um dia após um comunicado do Governo reiterar Santo Ovídio e no evento do lançamento da obra, o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, deu o projeto como “fechado” com “avaliação de impacto ambiental”, dizendo que não há, de momento, “nada” que o leve a alterar a decisão da IP, e o presidente executivo da Mota-Engil e representante do consórcio AVAN, Carlos Mota Santos, disse que os construtores “estão comprometidos” em executar “o projeto de execução que está licenciado e que inclui a estação em Santo Ovídio”, atirando uma eventual mudança para uma “decisão política”.

As declarações surgiram após o presidente da Câmara de Gaia, Luís Filipe Menezes (PSD/CDS-PP/IL) ter expressado, dois dias antes, um renovado apelo à relocalização da estação para sul, mesmo após o ‘chumbo’ da APA, para “evitar perturbações profundas e prolongadas no funcionamento da cidade”, tendo o ministro dito que iria ouvir Menezes e depois “tomar decisões”.

Na terça-feira seguinte, já depois das declarações do ministro, Menezes disse ao Observador não acreditar numa mudança do local da estação, admitindo que “seria hipócrita se dissesse que acreditava muito nisso” quando lançou o comunicado na sexta-feira anterior, reconhecendo que põe “a fasquia alta para avisar” e ganhar “um justo e legítimo espaço para exigir um conjunto de vias alternativas desde já construídas em simultâneo nos primeiros dois anos da obra, que evitem que o caos se instale”.

Para o vice-presidente da Frente Cívica, “percebendo que é perfeitamente legítima a preocupação com os impactos da construção no centro de Gaia”, a Câmara deve dirigi-la “ao consórcio que está a fazer a obra”.

“A discussão que Luís Filipe Menezes está a querer ter com o Governo tem que ter com a Mota-Engil. E, no entanto, o que ele está a fazer é pressionar o Governo para fazer o favor que a Mota-Engil queria que tivesse feito, que é alterar a natureza do contrato e da obra depois de ter sido adjudicado”, considera João Paulo Batalha.

O vice-presidente da Frente Cívica lembra ainda que o consórcio já propôs também alterar os pressupostos da PPP2 da linha de alta velocidade, entre Oiã (Oliveira do Bairro, Aveiro) e Soure (Coimbra), considerando que “não cabe à Mota-Engil ou a qualquer outra construtora dizer o que é que se vai construir e que se vai construir uma coisa em vez de outra”.

“A Mota-Engil parece ter uma dificuldade crónica em fazer uma coisa muito simples, que é levantar um caderno de encargos que é publicado no âmbito de um concurso e fazer uma proposta para cumprir esse caderno de encargos”, refere.

A Lusa contactou a Câmara de Gaia e a AVAN e aguarda resposta, e o Governo não quis acrescentar nada às declarações do ministro de dia 12.

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