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Clima e saúde: novos desafios à segurabilidade

21 October 2026 at 17:27

As alterações climáticas estão a alargar o perímetro da análise de risco no setor segurador. Para além dos danos sobre edifícios, infraestruturas e investimentos, importa compreender como a transformação das condições ambientais afeta a saúde humana, a mortalidade, a morbilidade e a longevidade — e como estes efeitos se transmitem para as responsabilidades das seguradoras e dos sistemas de pensões.

1. Risco climático e impacto na saúde

Esta evolução encontra expressão no relatório publicado pela Autoridade Europeia dos Seguros e Pensões Complementares de Reforma (EIOPA), em 30 de setembro de 20261, sobre os impactos das alterações climáticas nos seguros de Vida e Saúde e nas instituições de realização de planos de pensões profissionais. O documento identifica o calor extremo como o principal risco climático associado às responsabilidades destes setores, antecipando que a sua materialidade poderá aumentar nas próximas décadas. A dimensão do problema é expressiva: segundo o relatório, as ondas de calor representaram 97% das mortes associadas a eventos meteorológicos e climáticos extremos na UE-27 entre 1980 e 2024. O documento identifica ainda os incêndios, a exposição ao fumo e a possível expansão de doenças transmitidas por vetores como fatores relevantes para a saúde da população.

A resposta da indústria seguradora exige também uma reflexão sobre a inovação médica, a evolução dos custos de saúde e os seus efeitos nos compromissos futuros. Na Health & Demography Conference 2026, promovida pela The Geneva Association, a 17 de setembro2, destacou-se a importância de abordagens baseadas na evidência, da afetação eficiente de recursos e da transição de estratégias de rastreio generalizado (population-wide scanning) para tratamentos direcionados (targeted treatment).

Esta reflexão articula-se com o debate sobre a economia da saúde e da longevidade no Cascais International Health Forum 2026, subordinado ao tema “Viver Mais, Viver Melhor”, realizado a 24 de setembro3. Viver mais anos não constitui, por si só, um indicador suficiente de progresso: importa considerar o estado de saúde, a autonomia e a qualidade de vida ao longo do envelhecimento, bem como as implicações para a produtividade, a despesa em saúde e a sustentabilidade dos sistemas de proteção social e seguradora, num contexto de sociedades longevas.

Neste contexto, as alterações climáticas introduzem uma variável adicional na avaliação dos riscos de saúde, podendo alterar os padrões de mortalidade e morbilidade e, por essa via, os pressupostos dos produtos seguradores, as responsabilidades futuras e a avaliação da solvência.

2. Da exposição climática às responsabilidades seguradoras

O contributo mais relevante do relatório consiste em explicitar a transmissão do risco climático ao nível das responsabilidades das seguradores. A análise deixa de se concentrar exclusivamente na exposição aos ativos e passa a considerar os efeitos sobre a mortalidade, a morbilidade e a longevidade, variáveis fundamentais da atividade seguradora em Vida e Pensões.

  • Impactos diferenciados por linha de negócio. Nos seguros de saúde, proteção de rendimento e acidentes de trabalho, o agravamento da morbilidade pode aumentar a sinistralidade e as responsabilidades. Nos seguros de vida e nas anuidades, os efeitos dependem da evolução da mortalidade, da longevidade e das coberturas contratadas;
  • Exposição heterogénea e avaliação ainda limitada. A autoridade identifica, em Não Vida, os seguros de despesas médicas, proteção de rendimento e acidentes de trabalho e, em Vida, determinados seguros de saúde e outros seguros sem participação nos resultados. A relevância efetiva depende dos produtos, das carteiras e dos horizontes temporais;
  • A capacidade de avaliação continua a ser um desafio. A autoridade desenvolveu um modelo exploratório baseado no perigo, na vulnerabilidade e na exposição, reconhecendo limitações nos dados e na ligação entre fenómenos climáticos e sinistros. Os resultados incorporam juízo especializado e não constituem previsões definitivas de perdas futuras.

A dificuldade de quantificar um risco não significa que seja irrelevante, mas evidencia a necessidade de reforçar a capacidade de avaliação. O relatório assinala uma distância entre o reconhecimento dos riscos climáticos e a sua integração na gestão prudencial, justificando a melhoria dos dados, a articulação da informação climática, epidemiológica, demográfica e seguradora e o recurso a cenários e testes de esforço adequados aos horizontes temporais relevantes.

A análise deve, contudo, ultrapassar as variáveis atuariais de mortalidade e morbilidade, considerando também a capacidade de adaptação das pessoas, das empresas e dos sistemas de saúde. Os efeitos económicos da longevidade dependem das condições de saúde, da manutenção da autonomia e da capacidade de prolongar a vida ativa. Para o setor segurador, importa, assim, distinguir a exposição ao risco dos fatores que condicionam a sua concretização e transmissão para as responsabilidades.

3. A nova fronteira da segurabilidade na saúde

O caso das ondas de calor, na Europa este verão, ilustra uma questão estrutural para o setor segurador: a fronteira da segurabilidade não depende exclusivamente da dimensão de um risco, mas também da capacidade de o identificar, avaliar, diversificar e integrar nas decisões de negócio.

  • Preparação proporcional à incerteza: a materialidade financeira atual é limitada, mas o potencial agravamento dos riscos justifica antecipar impactos nos produtos, nas carteiras e nos mecanismos de proteção, sem esperar por evidência completa;
  • Envelhecimento demográfico: as alterações climáticas poderão intensificar pressões sobre a mortalidade, a morbilidade e a longevidade, num contexto já marcado por desafios à sustentabilidade dos sistemas de pensões e de proteção;
  • Adaptação e vulnerabilidade: os impactos dependerão não só da evolução climática, mas também das condições socioeconómicas, do acesso a cuidados de saúde e das medidas de prevenção, exigindo a consideração de diferentes trajetórias de adaptação.

Para as seguradoras, esta abordagem permite reforçar a resiliência através da antecipação de tendências e do desenvolvimento de soluções adequadas. A insuficiente preparação poderá, contudo, pressionar os prémios, as condições contratuais e a acessibilidade dos seguros, agravando as protection gaps. A questão estratégica é saber se as instituições estarão preparadas para agir antes de a materialização dos riscos limitar as opções disponíveis.

A longevidade exige igualmente adaptar os modelos de financiamento e proteção a ciclos de vida mais longos, articulando prevenção, competências, organização do trabalho e proteção social. Esta perspetiva é essencial para a segurabilidade, pois as decisões presentes condicionam a vulnerabilidade futura e a capacidade de gerir riscos a longo prazo.

4. Da gestão do risco à governação da capacidade

O relatório constitui um sinal relevante para a agenda prudencial europeia, evidenciando a necessidade de antecipar os impactos climáticos na saúde e nas responsabilidades seguradoras, através de melhores dados, cenários prospetivos e integração dos riscos na avaliação da solvência e no stress testing.

  • A resposta deve ser proporcional, ajustada à natureza das exposições e à incerteza, sem transformar limitações metodológicas em exigências indiscriminadas ou justificações para a inação;
  • A segurabilidade é dinâmica: depende da evolução dos riscos, mas também da capacidade de avaliar, prevenir e decidir, exigindo articulação entre seguradoras, supervisores, autoridades de saúde e instituições científicas;
  • A prioridade é desenvolver capacidade de antecipação, reduzindo lacunas de informação e preparando respostas antes de a incerteza limitar as opções de proteção.

A longevidade acrescenta uma dimensão económica estrutural, que articula demografia, saúde, capacidade contributiva e financiamento da proteção ao longo do tempo. Quando os mecanismos coletivos são insuficientes, os custos podem transferir-se para as famílias, ampliando as desigualdades de proteção. Para o setor segurador, o desafio consiste, assim, em antecipar os riscos climáticos e avaliar a capacidade económica e institucional para lhes responder. A futura fronteira da segurabilidade dependerá, em parte, desta passagem da gestão reativa do risco para a governação da capacidade de antecipação e resposta.

Nota: As propostas e a interpretação estratégica do artigo constituem análise própria, não conclusões atribuídas às instituições ou citações dos oradores.

1 EIOPA, Report on the Impacts of Climate Change on Life and Health and Potential Emerging Risks for the Insurance and IORP Sectors, 30 Set.2026.
2 The Geneva Association, Health & Demography Conference 2026, Londres, 17 Set.2026.
3 Cascais International Health Forum 2026, “Viver Mais, Viver Melhor”, sessão “Construir Sociedades de Vida Longa: Sustentabilidade, Economia e Políticas Públicas”, Centro de Congressos do Estoril, 24 Set.2026.

Os desafios e o futuro do transporte expresso

21 October 2026 at 17:05

Durante muitos anos, habituámo-nos a medir a qualidade do transporte expresso através do tempo. Quer isto dizer, quanto mais depressa uma encomenda chegasse ao destino, melhor seria o serviço. A rapidez continuará, naturalmente, a ser importante. Mas tenho cada vez mais a convicção de que o verdadeiro desafio dos próximos anos será outro.

Os números ajudam a perceber a mudança. O comércio eletrónico B2C europeu está em crescimento e, segundo os dados da Digitalisation in Europe – 2026 edition do Eurostat, em 2025, 78% dos utilizadores de Internet na União Europeia já compraram bens ou serviços via online. Estamos, portanto, perante um hábito consolidado, transversal a gerações e mercados, que colocou a logística no centro da experiência de compra.

No entanto, mais encomendas não significam apenas mais volume. Significam consumidores com expectativas mais elevadas. Já não basta saber que uma encomenda “chega amanhã”. Queremos saber quando chega, poder alterar a entrega, escolher onde a recebemos e acompanhar o percurso de forma simples. Em Portugal, o Barómetro E-Shopper 2025 mostra que 79% dos compradores online consideram que conhecer um horário exato para a entrega aumenta a probabilidade de compra. Ao mesmo tempo, 32% já recebem encomendas através de soluções out-of-home, como pontos de recolha ou lockers.

Estes dados levam-me a uma primeira reflexão: talvez estejamos a entrar numa fase em que a previsibilidade será tão ou mais importante do que a velocidade. Uma entrega rápida que obriga alguém a permanecer em casa à espera da encomenda pode ser menos conveniente do que uma entrega um pouco mais demorada, mas com um horário preciso e possibilidade de escolha. O desafio para os operadores será, por isso, construir redes suficientemente flexíveis para acomodar diferentes necessidades.

É precisamente na last mile que encontramos muitas destas exigências. É aqui que a expectativa do consumidor, o trânsito das cidades, a disponibilidade do destinatário, as restrições de circulação e a necessidade de reduzir o impacto ambiental se cruzam. É aqui também que pequenas ineficiências, quando multiplicadas por milhares de encomendas, podem fazer uma enorme diferença.

Por isso, quando falamos de sustentabilidade no transporte expresso, acredito que temos de ir além da discussão sobre a eletrificação das frotas, por mais importante que ela seja. Uma last mile mais sustentável é, antes de mais, uma last mile mais eficiente. Significa otimizar rotas, reduzir quilómetros desnecessários, diminuir as segundas tentativas de entrega e consolidar encomendas sempre que isso fizer sentido.

Um estudo publicado em 2025 na Research in Transportation Economics, dedicado à evolução dos modelos de entrega de last mile em contexto urbano, mostra que uma maior otimização de entregas pode contribuir para reduzir os quilómetros percorridos e as emissões de CO₂. Não existe uma solução única, mas é por isso que o futuro passa por redes híbridas, capazes de combinar diferentes modelos de entrega em função das características de cada cidade, de cada percurso e de cada consumidor.

A inteligência artificial e a utilização avançada de dados terão também um impacto particularmente relevante no setor. Mais do que automatizar tarefas, estas ferramentas podem ajudar a antecipar a procura, otimizar rotas em função de variáveis em constante alteração e identificar anomalias antes de se transformarem em falhas de serviço.  Mas a tecnologia, por si só, não resolve todos os desafios. Quanto mais sofisticadas se tornam as operações, maior é também a necessidade de garantir que não se traduz numa barreira para a experiência do cliente. É talvez esse o paradoxo mais interessante do nosso setor: por detrás de uma entrega aparentemente simples existe uma rede cada vez mais complexa de pessoas, tecnologia, dados, infraestruturas e decisões operacionais.

Ao mesmo tempo, há várias expectativas que temos de conseguir conciliar. Os consumidores querem mais conveniência e mais opções; as empresas procuram maior eficiência e custos competitivos; as cidades querem menos congestionamento e emissões; e o setor tem de continuar a garantir qualidade, previsibilidade e capacidade de resposta. Fazer tudo isto simultaneamente será provavelmente um desafio maior do que simplesmente entregar cada vez mais depressa.

Quando a Lei encontra uma Tenda | Por Luís Ganhão

21 October 2026 at 14:40

As acampadas e os acampamentos terminaram. A lei neste país é para imperar. A força, a firmeza e a robustez das forças são para ser exercidas quando for necessário – Luís Neves,  Ministro da Administração Interna.

A declaração possui aquela sonoridade marcial que tanto agrada aos espíritos amantes da ordem e da autoridade. Ao ouvi-la, quase se imaginam trombetas ao longe, bandeiras ao vento e a própria Lei, revestida de armadura, descendo dos altos céus da República para repor a disciplina entre os mortais.

E as forças? As forças serão firmes, robustas e exercerão a sua força. Nada mais reconfortante. De resto, sempre existiu entre nós uma particular predileção por adjetivos musculados. Quando os problemas se acumulam durante anos, quando as regras, em diversos domínios, são ignoradas de forma persistente (1), quando as instituições hesitam e contemporizam, surge invariavelmente o momento solene em que alguém anuncia firmeza. É uma espécie de substituto verbal da ação, um tónico retórico administrado à opinião pública. E assim se pretende terminado mais um capítulo da longa epopeia nacional. As tendas desapareceram, os colchões recolheram aos seus destinos e a autoridade do Estado, finalmente despertada, fez sentir a sua presença. A lei imperou. Ou, pelo menos, foi declarado que imperou, o que para certos espíritos produz efeito semelhante.

A questão, porém, que talvez merecesse alguma atenção, é saber porque razão jovens resolvem montar tendas numa praça. Não consta que tenham sido movidos por uma irresistível vocação para o campismo, nem que procurassem conquistar qualquer insígnia de mérito escutista. É possível, ainda que tal hipótese pareça secundária para alguns, que quisessem apenas uma casa onde viver.

Mas as causas, como frequentemente sucede, possuem o defeito de serem menos fotogénicas do que as consequências. É mais fácil desmontar uma tenda do que desmontar os mecanismos que impedem uma geração inteira de aceder à habitação. É mais simples remover um acampamento do que remover obstáculos burocráticos, défices de construção, especulação imobiliária ou décadas de políticas incapazes de responder às necessidades mais elementares.

Assim, o país assiste ao curioso espetáculo de celebrar o desaparecimento dos sintomas enquanto a doença prossegue tranquilamente o seu percurso. A tenda desaparece e o problema permanece. A lona é removida, mas a falta de habitação continua de pé, sólida e resistente a qualquer exercício de robustez institucional.

E o cidadão observa, com legítima perplexidade, que a firmeza do Estado parece revelar-se com maior facilidade perante quem pouco possui. Perante uma barraca improvisada, a autoridade mostra vigor exemplar. Já perante problemas estruturais que se arrastam há anos, a mesma autoridade parece por vezes mergulhar num estado de reflexão filosófica prolongada.

Naturalmente, ninguém questiona que a lei deva ser cumprida. O que se questiona é se o triunfo da lei consiste apenas em expulsar os seus infratores visíveis, ou também em criar condições para que os cidadãos não sejam empurrados para situações extremas. Porque um Estado verdadeiramente eficaz não se limita a remover tendas. Procura compreender porque surgiram.

Caso contrário, arriscamo-nos a confundir a resolução de um problema com a simples limpeza do cenário. E, como qualquer espetador sensato sabe, o facto de o pano cair sobre uma peça não significa que a história tenha terminado.

(1) Por exemplo,  quanta evasão fiscal não haverá no respeitante a milhares de imóveis «alugados» durante o verão em zonas balneares, sem que a força da lei se faça sentir com firmeza?

Leia também: O perigo do tijolo | Por Luís Ganhão

Mais do que uma cadeira vazia: compreender o absentismo laboral para lá das estatísticas

21 October 2026 at 14:00

O absentismo laboral continua a ser um desafio significativo para as organizações, numa realidade que não se observa apenas em Portugal. Segundo dados disponíveis no Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2023 a taxa de absentismo registou um aumento expressivo, passando de 2% (em 2022) para 3,6%, correspondendo a um crescimento de 1,6 pontos percentuais.

Este fenómeno, cujo impacto é naturalmente significativo para a operação das empresas, podendo condicionar resultados e contribuir para a sobrecarga das equipas, não pode, no entanto, ser analisado apenas com base nos números macro. É necessário olhar para as estatísticas com atenção para perceber que, ainda de acordo com o INE, em Portugal uma grande parte das horas de absentismo (42%) se deve a doença, 10,7% dizem respeito à “proteção na parentalidade”, e finalmente reservando-se 35% a “outros”.

Ora, estes dados devem contribuir para alterar a perceção das empresas: estamos mais vezes perante questões de saúde e compromissos parentais, do que a lidar com falta de compromisso ou ausência de disciplina. Por isso, antes de se desenharem políticas de retenção é preciso definir a premissa certa. Mais relevante do que saber apenas quantas pessoas faltam e quantos dias, é crucial compreender os motivos intrínsecos que as levam a fazê-lo.

No mercado de trabalho português, pautado pela crescente escassez de determinados perfis, a permanência dos profissionais passou a ser um fator tão crítico quanto a sua contratação. O cenário macroeconómico obriga, por isso, a uma leitura própria. Ao contrário de outros países, Portugal experiencia uma taxa de desemprego abaixo da média europeia, na ordem dos 5,7%, de acordo com os dados do INE relativos a julho deste ano. Ainda assim, e nesse mesmo mês, o país debateu-se com cerca de 18 mil ofertas de emprego por preencher, de acordo com os registos do IEFP.

O nosso paradoxo reside aqui: num mercado onde o talento disponível é diminuto, a fricção entre o que as empresas precisam e aquilo que os profissionais procuram e valorizam torna-se muito mais evidente e penalizadora. Não se trata apenas de haver poucos profissionais; trata-se de um desajuste crítico de competências, expectativas e condições de trabalho oferecidas. Também o absentismo deve ser analisado à luz desta realidade.

Por detrás de muitos indicadores de absentismo podem estar desafios estruturais ligados à integração, motivação ou adequação ao contexto de trabalho.

Estas fricções evidenciam o raio de ação das empresas na sintonia entre os colaboradores, os cargos e o ambiente de trabalho. Num mercado onde cada profissional conta, o recrutamento tradicional, assente quase em exclusivo na experiência técnica, deixou de ser suficiente. Hoje, é imprescindível alinhar expectativas, motivações, capacidade de adaptação e estilos de liderança, procurando anular a distância entre a promessa feita na seleção e a realidade vivida no dia a dia corporativo.

Quando existe uma discrepância persistente entre expectativa e realidade, o envolvimento tende naturalmente a diminuir. Este desajuste acaba por alimentar a rotatividade e resulta em ausências que poderiam perfeitamente ser evitadas. As causas deste fenómeno são normalmente partilhadas entre fatores individuais e organizacionais: boa parte reside no modo como o trabalho é organizado pela empresa.

O reverso desta equação revela-se promissor. Quando as organizações colocam as pessoas no centro, promovendo uma melhor definição de funções, processos transparentes e lideranças focadas na escuta ativa, o compromisso e o rendimento das equipas disparam. A experiência comprova-o: segundo dados internos da Eurofirms, referentes a intervenções em projetos concretos, as empresas que trabalham ativamente o encaixe perfeito entre a pessoa, o posto de trabalho e a cultura corporativa conseguem reduzir a sua taxa de absentismo em quase 20% e diminuir a rotatividade até 53%.

Por tudo isto, não posso deixar de reforçar que, para mitigar o pesado custo das cadeiras vazias em Portugal, não basta fazer contas aos dias de ausência, é preciso construir ambientes onde as pessoas encontrem verdadeiros motivos para se manterem.

A distração climática do mundo rico

As alterações climáticas tornaram-se a obsessão do mundo desenvolvido. Em nenhum outro lugar é mais evidente do que na ajuda ao desenvolvimento dos países ricos. O seu principal objetivo é auxiliar o desenvolvimento, mas, cada vez mais, o dinheiro é gasto em questões climáticas.

A esquerda que quer proteger os inquilinos de terem casa

21 October 2026 at 10:41

A discussão sobre o mercado da habitação, em muitos fóruns, não anda muito longe do tosco. Há quem nos queira convencer de que o nosso excecionalismo nos permite escapar às mais básicas leis do mercado. Receio desiludi-los, mas não. A demografia, a pouca construção ou um contínuo êxodo rural, por exemplo, estavam disponíveis para quem quisesse ver. Nada disto é rocket science e, por muitos defeitos que tenham os simplificados modelos de oferta e procura, isto conseguiam antecipar.

A questão que naturalmente segue daqui é: onde fica a responsabilidade do Estado? A inação não nos trouxe até aqui, mas é inegável que amplificou as consequências. A rede ferroviária, pesada ou ligeira, está há décadas praticamente congelada. Os planos foram sendo adiados e muitos ficaram no papel. Os transportes são insuficientes e totalmente depauperados. Do lado da construção, a regulação excessiva, dantesca, atrasou ou hipotecou novos projetos. Ainda do lado da oferta, o Estado foi incapaz de assumir o seu papel de proprietário, identificando o potencial dos seus edifícios e reconvertendo-os quando possível. A somar a isto, quiseram-nos convencer de que a entrada de um milhão de pessoas viria sem consequências e que medidas de expansão da procura, como as de apoio aos jovens, seriam inócuas. Entre a inércia e a inaptidão reside parte da culpa.

Para agravar a uma discussão que não ultrapassa a banalidade dos diagnósticos, surge o populismo económico, fundado em propostas mirabolantes de soluções imediatas, sem custos ou consequências. As propostas variam, mas os resultados são os mesmos e fáceis de prever.

A falácia mais comum é a dos tetos às rendas. Parecem simples, diretos e com resultados compreensíveis. Aproveitando-se disto, os propagandistas, não muito incomodados com a verdade, atiram com a tautologia de que os preços caem. Pois claro, se impomos um valor máximo, a média cai. O que falta dizer é que o número de contratos também cai, há filas de espera e famílias desesperadas acabam por aceitar rendas mais altas, mas sem contratos, ou com contratos sazonais. A médio prazo, os que já tinham contrato ficam melhor e os outsiders pagam o custo completo da política através de instabilidade e muito piores condições de vida. Não sou eu quem o diz: é a realidade de Barcelona e tantos outros sítios que cederam à demagogia.

Não sou nenhum purista. Compreendo que, em momentos de aflição, possa caber aos governos algum tipo de contenção da procura, através de desincentivos fiscais bem direcionados. Agora, avançar para isso sem pôr termo às medidas de expansão da procura ou sem estimular a oferta, tanto no longo prazo – através de licenciamentos e construção – como, mais residualmente, no curto e médio prazo, através da reabilitação e dos incentivos à colocação de casas no mercado, não passa de pólvora seca.

Não me arrogo o direito de representar uma geração. Nunca o fiz, nem o farei. Para além de ser um sinal de fraqueza argumentativa, ninguém me elegeu para tal. Represento-me a mim mesmo. E mal. E, nessa posição, assumo-me como um dos lesados da crise. Quando, em janeiro, entrar no mercado de trabalho, serei um daqueles jovens que alugam quartos, com os quais tanto comentariado fantasia. Não o digo com qualquer intuito de vitimização, postura que não combina bem comigo, mas com a certeza de que se a extrema-esquerda levasse o seu populismo avante, seria eu a pagar a fava da proteção dos insiders. Ver jovens a defender isso provoca-me, mais do que pena, uma profunda tristeza. É que as leis da economia têm um defeito inconveniente para os populistas: não deixam de funcionar só porque alguém decide ignorá-las.

Portugal acumula 15 anos de atraso na construção de habitação

21 October 2026 at 10:09

Num contexto de crescente dificuldade no acesso à habitação, os últimos dias têm sido marcados por manifestações em várias cidades do país contra os elevados custos de comprar ou arrendar casa. É uma preocupação que os dados ajudam a compreender: Portugal acumulou, ao longo dos últimos 15 anos, um forte défice de construção de nova habitação face à média europeia.

Entre 2010 e 2025, foram emitidas em Portugal cerca de 3.144 licenças para nova habitação por cada 100 mil habitantes, contra 5.676 na média da União Europeia. Significa que, por cada 100 licenças por 100 mil habitantes emitidas na UE neste período, Portugal registou apenas 55 — menos 45%.

Nem sempre foi assim. Em 2005, Portugal registava 704 licenças por cada 100 mil habitantes, acima das 609 da média europeia. A situação mudou profundamente nos anos seguintes. A crise financeira internacional e, posteriormente, a crise da dívida soberana foram acompanhadas por uma forte quebra da construção. Em 2014, Portugal atingiu um mínimo de apenas 67 licenças por cada 100 mil habitantes, cerca de um quarto da média europeia nesse ano.

A partir daí iniciou-se uma recuperação, mas lenta. O número de licenças foi aumentando progressivamente, sem que Portugal conseguisse recuperar o terreno perdido. Só em 2025 o país voltou finalmente a aproximar-se da média europeia: 358 licenças por cada 100 mil habitantes, praticamente o mesmo que as 359 registadas na União Europeia.

É um sinal positivo, mas que não elimina o desequilíbrio acumulado. A habitação é um bem duradouro: vários anos de construção insuficiente deixam marcas que não desaparecem quando o ritmo anual regressa à média. São casas que não foram construídas e que hoje não existem no mercado.

Os preços da habitação resultam de vários fatores — procura, rendimentos, crédito, fiscalidade, burocracia ou concentração populacional, entre outros. Mas a escassez de oferta é uma parte essencial do problema. Quando o número de famílias que procura casa cresce mais depressa do que o número de casas disponíveis, a pressão sobre os preços aumenta.

Depois de 15 anos de atraso, aproximar-se da média europeia já não basta para recuperar o défice acumulado. Portugal precisa de continuar a aumentar a construção de nova habitação para ampliar a oferta disponível e responder às necessidades das famílias.

  • Os factos vistos à lupa por André Pinção Lucas e Juliano Ventura – Uma parceria do POSTAL com o Instituto +Liberdade

Leia também: Investimento público: uma década de orçamentos por cumprir

Saúde: o bem deste país

21 October 2026 at 08:14
A chegada de nove novos medicamentos para tratamento de câncer ao Sistema Único de Saúde (SUS) marca um momento importante para a saúde pública brasileira. Confirmada como a maior ampliação já realizada no tratamento do câncer na rede pública, a medida deve beneficiar mais de 116 mil pessoas nos próximos dias.Trata-se de passo gigante na redução das desigualdades de acesso à assistência especializada neste país, trazendo alegria para quem sofria o desalento. Os remédios salvadores contemplam diferentes tipos de câncer, como os de mama, próstata, pulmão, rim, estômago e tireoide, além de linfomas e tumores diversos.As terapêuticas ampliam a sobrevida dos pacientes e proporcionam melhor qualidade de vida. No uso após cirurgias, o risco de retorno da doença é reduzido. O investimento demonstra uma mudança relevante na atuação do Ministério da Saúde, uma tática eficiente no sentido de atender às demandas da coletividade. Ao assumir parte das negociações e aquisições, o governo federal busca ampliar o acesso a terapias modernas, antes fora do alcance de milhares de brasileiros. A previsão de ampliar para 23 os novos fármacos até o fim do ano reforçam essa estratégia, aumentando significativamente as opções disponíveis no SUS.No entanto, a eficácia da iniciativa dependerá da capacidade de implementação em todo o território nacional, começando a oferta por 20 centros de tratamento. Agora, é trabalhar para garantir a expansão a fim de alcançar todas as unidades, fazendo as tecnologias de ponta chegarem além dos grandes centros urbanos.Também merece destaque o reforço ao diagnóstico precoce, com a distribuição de testes para rastreamento do câncer e a ampliação do uso do teste DNA-HPV. A ampliação dos tratamentos, salvando vidas, merece aplausos, por transformar o investimento em benefícios de forma igual a todos os pacientes deste país.Este Brasil disposto a dar o maior valor à saúde combina com a grandeza para a qual está vocacionado: se muito vale o já feito, o melhor está por vir.

O Olhar de um Coach: Como gere o seu Tempo? | Por Helder Gonçalves

21 October 2026 at 07:30

Hoje em dia, um dos fatores mais importantes da relação entre a produtividade e a operacionalidade, é o TEMPO!

Estimad@ Leitor@, é fácil para si gerir a sua AGENDA?

Consegue separar o que é URGENTE do que é realmente IMPORTANTE?

Vamos debruçar-nos sobre estes aspetos da sua relação com o tempo e compreender como podemos desenvolver uma agenda mais EFICIENTE!

Primeiro que tudo, tem TEMPO para se organizar?

Quando começamos com um objetivo em mente, o mais importante é a ESTRATÉGIA ficar BEM DELINEADA! Projetarmos aquilo que queremos alcançar e estruturar esse caminho, é um sinal de ORGANIZAÇÃO!

Em que dia vai começar a utilizar uma AGENDA para TODAS as TAREFAS que pretende executar? Costuma selecionar os PONTOS mais IMPORTANTES a seguir? Tem uma ATITUDE POSITIVA para o fazer? É fácil manter o FOCO?

A resposta a estas questões leva o leitor a aprofundar as ferramentas que utiliza no seu dia a dia!

Já ouviu certamente a expressão em que “o dia tem as mesmas 24h para todos nós”!!! Então porque será que determinadas pessoas conseguem até que “SOBRE TEMPO” para cuidarem de si e das suas famílias e outras não?!

Aconselho sempre aos meus clientes a desenvolverem uma lista de tarefas com 4 tópicos extremamente úteis:

  1. TOP 10 – tarefas consumidoras de tempo
  2. TOP 10 – tarefas geradoras de stress
  3. TOP 10 – tarefas mais produtivas
  4. TOP 10 – tarefas mais agradáveis

Esta lista vai orientar o foco nas necessidades que carecem maior atenção da sua parte!

Ao criar um esquema de trabalho para verificar o que pode mudar de imediato, vai permitir substituir hábitos menos saudáveis na realização das suas tarefas!

De igual modo existe um sistema de apoio a uma BOA GESTÃO do seu tempo, onde se pode distinguir o carácter de URGÊNCIA e IMPORTÂNCIA da sua actividade diária.

O Alvo Temporal:

Aqui podemos observar que algumas tarefas consumidoras do tempo que classificam-se como Não Urgentes e Não Importantes, levam-nos a DISTRAÇÕES! Situações como cafés constantes com os colegas de trabalho, horas a mais nas redes sociais ou simplesmente argumentações desnecessárias sem conteúdo relevante! Já vos aconteceram situações deste tipo? Depois também existem por vezes interrupções constantes em reuniões, bem como ter a tendência de responder de imediato a um telefonema ou email quando estava concentrado(a) em outra tarefa! Estamos a falar de tarefas Urgentes mas Não Importantes! Isso provoca-nos uma ILUSÃO sobre o que realmente deve estar em 1º lugar!

O que nos leva a ENTRAR no centro da RESPOSTA , são tarefas classificadas de URGENTES e IMPORTANTES! Tais como situações de Crise, reuniões PREVIAMENTE AGENDADAS ou elaboração de Propostas Comerciais.

Por fim temos o Centro do Alvo a ser trabalhado, onde encontramos tarefas IMPORTANTES mas NÃO URGENTES, como por exemplo a Formação, o Networking ou algo que possamos colocar estrategicamente em AÇÃO e com um período de tempo para uma BOA REFLEXÃO!

Espero que estas simples dicas vos ajudem a orientar MELHOR as vossas AGENDAS DIÁRIAS e a Planificação do vosso TEMPO!

Continuação de Excelente Trabalho com EXCELENTES Negócios.

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