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Pode uma escola inclusiva dizer “não”?


Há uma pergunta com a qual me debato frequentemente enquanto educador: uma escola verdadeiramente inclusiva deve aceitar todos os alunos que desejam fazer parte da sua comunidade?

Gostaria que a resposta fosse simples. Mas a experiência ensinou-me que a inclusão não se mede apenas pela abertura das portas. Mede-se também pela capacidade de garantir que, depois de entrar, cada aluno encontra as condições de que necessita para aprender, crescer e sentir que pertence.

Admitir uma criança é assumir um compromisso. Não significa apenas encontrar-lhe um lugar numa sala de aula. Significa assegurar que existem professores preparados, recursos adequados e capacidade para responder às suas necessidades académicas, sociais e emocionais.

E essas necessidades são cada vez mais diversas. Os perfis dos alunos estão a mudar e, numa mesma sala, encontramos diferentes ritmos de aprendizagem, níveis de autonomia, formas de comunicar, necessidades de autorregulação e maneiras de participar. Esta diversidade exige que os professores alarguem continuamente o seu leque de ferramentas e estratégias, porque aquilo que funciona com um aluno ou com uma turma pode não funcionar com outro aluno ou outra turma.

Acredito que não são os alunos que devem adaptar-se a um único modelo de ensino. São as escolas que devem continuar a alargar a sua capacidade de resposta.

Para isso, os professores precisam de formação, tempo para refletir, apoio especializado e estratégias diversificadas. Mas precisam também de condições que lhes permitam acompanhar cada aluno com a atenção e a qualidade que merece. A inclusão só funciona verdadeiramente quando existe esse equilíbrio.

Costumo pensar nesta responsabilidade através de uma imagem simples. Para cada família, o seu filho é a sua estrela e, naturalmente, merece toda a atenção. Para uma escola, porém, uma sala de aula está cheia de estrelas e todas merecem o mesmo cuidado e a mesma oportunidade de crescer. Ser inclusivo significa conseguir olhar para cada uma individualmente, sem perder de vista as necessidades da comunidade educativa como um todo.

É aqui que surge o dilema. Por vezes, dizer “sim” parece ser a decisão mais inclusiva. No entanto, um “sim” que coloque em causa a qualidade do acompanhamento de uma criança, ou o equilíbrio necessário para acompanhar todos os alunos, pode acabar por não servir verdadeiramente ninguém.

Algumas das conversas mais difíceis que tenho são precisamente aquelas em que reconhecemos que, naquele momento ou naquele contexto específico, não conseguimos garantir a uma criança o acompanhamento que consideramos necessário. Nunca são decisões fáceis. Devem ser individuais, transparentes e conduzidas com respeito. Mas acredito que admitir um aluno sabendo que não conseguiremos proporcionar-lhe a experiência educativa que merece seria ainda mais injusto.

Isto não significa que as escolas devam deixar de evoluir ou de aumentar a sua capacidade de resposta. Pelo contrário. Obriga-nos a investir continuamente nas equipas, na formação e no acompanhamento emocional. Obriga-nos também a questionar as nossas práticas e a reconhecer que aquilo que funcionava há alguns anos poderá já não responder às necessidades dos alunos de hoje.

Uma escola inclusiva deve querer abrir portas. Mas deve também ter a coragem de perguntar: conseguimos realmente proporcionar a esta criança as condições de que precisa para prosperar, mantendo a qualidade do acompanhamento que queremos garantir a todos os nossos alunos?

Na minha opinião, a inclusão começa precisamente aí: não na vontade de dizer sempre “sim”, mas na responsabilidade de garantir que cada “sim” pode ser verdadeiramente cumprido.

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Quem está a violar a Constituição?

Temos constitucionalistas e juristas que opinam sobre tudo, e deixaram passar, sem uma palavra, a ideia de que quem acampa numa praça está a violar a Constituição e quem o retira às 6h está a defendê-la. É exactamente ao contrário

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Quem está a violar a Constituição?

Temos constitucionalistas e juristas que opinam sobre tudo, e deixaram passar, sem uma palavra, a ideia de que quem acampa numa praça está a violar a Constituição e quem o retira às 6h está a defendê-la. É exactamente ao contrário

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ConsciêncIA

A interpelação de Chris Olah ao Vaticano não nos deve deixar assustados. Deve, pelo contrário, encher-nos de alento. Mostra que no auge do avanço algorítmico, em vez de apagar o sagrado, a máquina acabou por empurrar o Homem de volta para a sua própria vocação.
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A madeira de amanhã começa hoje…

Se o contacto se intensifica quando há madeira para cortar, é fundamental garantir que permanece depois de sair o último camião. Quem apoiará o proprietário na escolha de espécies e modelos de gestão? Quem o ajudará a preparar o novo povoamento para a seca, o fogo, as pragas, as doenças ou os eventos extremos?
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Portugal e as escolhas estratégicas na defesa


Ouvimos recentemente o Ministro da Defesa Nacional dizer que as escolhas de equipamentos e capacidades devem ser exclusivamente das Forças Armadas. Mas, nesse caso qual o papel da tutela política?

Quando um país compra material militar, não escolhe apenas equipamentos: escolhe também dependências, alianças e capacidades para o futuro. Por isso, embora a eficácia, a segurança e a interoperabilidade com os aliados sejam critérios incontornáveis, a decisão não pode ser exclusivamente técnica.

A geopolítica deve também pesar na escolha. Portugal integra a NATO e a União Europeia e precisa de forças armadas capazes de atuar com os parceiros. Mas interoperabilidade não deve significar dependência cega de um único fornecedor. Importa igualmente avaliar quem controla a manutenção, as atualizações e o acesso a peças e tecnologia. E, ainda, o que acontece se as relações políticas mudarem.

Há, porém, uma pergunta igualmente decisiva: o que fica em Portugal depois da compra?

Os investimentos previstos devem responder a necessidades operacionais reais, reparar lacunas e assegurar a sustentação dos equipamentos ao longo de décadas. O preço de aquisição é apenas uma parte da equação: formação, manutenção, munições e modernizações podem pesar muito mais no custo total.

No âmbito do programa SAFE, e segundo declarações do Ministro da Defesa, estima-se que, num investimento de aproximadamente 4 mil milhões de euros referente à aquisição das novas fragatas, o retorno económico direto para a economia portuguesa seja inferior a 10%

Em suma, a melhor compra não é necessariamente a mais barata, a mais sofisticada ou a que oferece maior retorno imediato.

As compras devem também fortalecer a base tecnológica e industrial nacional, envolver empresas e universidades e estimular investigação. Drones, cibersegurança e outras tecnologias de uso dual podem gerar capacidades úteis tanto para a defesa como para a economia civil.

O Governo tem apontado para um retorno direto de 33% na economia nacional associado à Lei de Programação Militar. É uma ambição relevante.

Mas, infelizmente, não é uma garantia e por isso deve ser acompanhada por critérios transparentes, metas verificáveis e escrutínio público. Por exemplo, no âmbito do programa SAFE, e segundo declarações do Ministro da Defesa, estima-se que, num investimento de aproximadamente 4 mil milhões de euros referente à aquisição das novas fragatas, o retorno económico direto para a economia portuguesa seja inferior a 10%

Em suma, a melhor compra não é necessariamente a mais barata, a mais sofisticada ou a que oferece maior retorno imediato. É a que responde a uma necessidade concreta, a que tem sustentabilidade em vários domínios, a que reforça a capacidade de agir com aliados e a que reduz vulnerabilidades estratégicas.

Gastar milhões em defesa exige mais do que escolher armas: exige decidir que autonomia o país quer. E que compromissos está disposto a assumir numa visão alargada de geoestratégia e geopolítica.

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Portugal consegue escalar? Cinco desafios para a próxima década


Nos últimos dez anos, Portugal demonstrou uma capacidade notável para atrair investimento, criar novos polos de inovação, afirmar-se como destino para talento internacional e modernizar setores tradicionais da economia. Mas a pergunta que deverá marcar a próxima década não é se Portugal consegue crescer. É se Portugal consegue escalar.

Num contexto global cada vez mais competitivo, crescer já não basta. A capacidade de transformar boas ideias em empresas globais, talento em produtividade e investimento em valor sustentável será o verdadeiro fator diferenciador. Para isso, identifico cinco desafios.

O primeiro é a dimensão empresarial. Portugal continua a ter excelentes empresas, mas poucas com dimensão global. Precisamos de facilitar o crescimento orgânico, mas também fusões, aquisições e alianças estratégicas que permitam consolidar setores, entrar em novos mercados e reforçar competências.

O segundo é a produtividade. O crescimento sustentável dependerá menos do aumento dos recursos disponíveis e mais da capacidade de gerar mais valor por cada euro investido e por cada hora trabalhada. Isso exige melhor gestão, inovação, digitalização e processos eficientes.

O terceiro é o talento. Atrair pessoas qualificadas não chega. É necessário desenvolvê-las, retê-las e criar condições para que tenham impacto. A competição por competências críticas é hoje global. A formação contínua, a requalificação profissional e uma ligação mais próxima entre universidades e empresas assumem um papel central.

O quarto é a transformação tecnológica. A inteligência artificial, a automação e os dados estão a redefinir modelos de negócio. O desafio já não é adotar tecnologia, mas integrá-la na estratégia, redesenhar operações e convertê-la em crescimento, competitividade e valor.

O quinto é a competitividade estrutural do país. A simplificação administrativa, a estabilidade regulatória, a eficiência da justiça económica e uma fiscalidade orientada para o crescimento continuarão a ser fatores decisivos para atrair investimento e aumentar a confiança.

Estes desafios têm um denominador comum: a capacidade de execução. Portugal não parte do zero. Tem talento, espírito empreendedor, capacidade de adaptação e empresas que já competem com sucesso internacionalmente. O que tem faltado, demasiadas vezes, é continuidade na estratégia, rapidez na decisão e disciplina na concretização.

A próxima década será, por isso, menos uma questão de potencial e mais uma questão de concretização e criação de escala. Num mundo onde a velocidade da mudança continuará a acelerar, os países que conseguirem escalar serão os que transformarão ambição em execução, conhecimento em inovação e visão em crescimento sustentável. Portugal tem condições para estar entre eles. A questão é se conseguiremos atuar à escala dessa ambição. Quero acreditar que sim.

 

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Ventura e a transparência dos outros


André Ventura tem uma boa oportunidade para mostrar o que vale a transparência que exige aos outros partidos e líderes políticos. O presidente do Chega prometeu uma campanha presidencial em que tudo ficaria “clarinho como a água”, apresentou um orçamento de 900 mil euros e acabou a gastar 3,73 milhões, um desvio significativo, com quase um milhão em brindes e outras ofertas. A notícia ficou na sombra do debate sobre habitação – e do faro político do próprio Ventura para o aproveitar -- mas estas contas merecem mais atenção, até porque permitem perceber a distância entre o discurso e aquilo que o seu partido e o próprio fazem.

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O elefante na entrada


A 11 de Março de 1986, pouco mais de dois meses depois da entrada de Portugal na CEE, a RTP dedicou o programa Panorama à crise da habitação. Se uma pessoa só ouvir o episódio (parte I e parte II), sem ver o estilo dos óculos, quase acha que ele foi gravado a semana passada. E, no entanto, o país mudou muito nestes quarenta anos. Em 2015, o estudo coordenado por Augusto Mateus para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, Três Décadas de Portugal Europeu, fez uma descrição das transformações económicas e sociais resultantes da integração europeia e apontou para a habitação como um dos seus “expoentes máximos”: Portugal tornou-se um país de proprietários.

Os Censos ilustram bem esta mudança. Em 1981, 57% dos alojamentos familiares clássicos eram ocupados pelo respectivo proprietário e 39% em arrendamento. Em 1991, a primeira proporção tinha subido para 65% e,…

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Do combate à desinformação ao orçamento da UE. Cidades exigem ter voz no futuro da Europa | Por João Palmeiro

Em toda a Europa, a democracia enfrenta pressões sem precedentes. A proliferação da desinformação, a polarização política e a erosão progressiva da confiança nas instituições públicas tornaram-se desafios transversais a todo o continente. Contudo, é na escala local, onde a política se cruza diariamente com a vida das populações, que a resposta está a ganhar forma. Apesar de disporem frequentemente de recursos mais limitados, os pequenos municípios beneficiam de uma proximidade única com os seus residentes, uma posição privilegiada que lhes permite incentivar a participação comunitária e reconstruir a coesão social a partir das bases.

Reconhecendo este potencial, a rede Eurocities* e a Generalitat** de Catalunya lançaram um programa de aprendizagem focado no reforço da democracia local. O projeto envolve oito municípios catalães que já estão a implementar medidas concretas de inovação cívica. No município de Sant Boi de Llobregat, por exemplo, desenvolvem-se programas para capacitar os jovens a identificar e combater a desinformação. Em El Vendrell, a prioridade passa por dar voz direta aos residentes nas decisões de investimento local, enquanto o município de Vic recorre a ferramentas digitais para dinamizar a participação cidadã. Já em Terrassa, a aposta reside na mobilização comunitária para revitalizar o mercado de bairro. Representantes destas localidades deslocaram-se a Bruxelas para partilhar os seus resultados com as instituições comunitárias, demonstrando como as boas práticas locais podem moldar grandes iniciativas europeias, como o futuro Escudo Europeu da Democracia.

Se, por um lado, as cidades demonstram capacidade para defender os valores democráticos da União Europeia, por outro, enfrentam o risco iminente de serem marginalizadas no processo de decisão sobre o financiamento comunitário. Enquanto os governos nacionais já começaram a desenhar os seus futuros planos de investimento e o Parlamento Europeu define a sua posição sobre os novos Planos de Parceria Nacional e Regional, os líderes locais lançam um forte alarme, sublinhando que a preparação antecipada não se pode transformar numa exclusão precoce.

Um inquérito preliminar realizado pela Eurocities, com base nas respostas de 37 cidades distribuídas por 17 Estados-Membros, revela uma discrepância profunda entre o progresso dos trabalhos de preparação dos novos Planos de Parceria Nacional e Regional ao nível central e a inclusão efetiva dos órgãos autárquicos.

Indicador do Inquérito EurocitiesPercentagem de Respostas
Preparativos novos Planos de Parceria Nacional e Regional nacionais já em andamento nos Estados-Membros81%
Estruturas formais estabelecidas ou consultas iniciadas54%
Consultas formais realizadas com os municípios19%
Participação efetiva de cidades em grupos de trabalho preparatórios8%

Conforme demonstra o quadro comparativo, existe um desequilíbrio acentuado, enquanto a grande maioria dos governos já avança a passos largos na definição do próximo orçamento, mais de três quartos das cidades europeias reportam um envolvimento limitado ou simplesmente inexistente.

Diante destes números, autarcas e líderes municipais reuniram-se em Bruxelas com Raffaele Fitto, Vice-Presidente Executivo da Comissão Europeia para a Coesão e Reformas, para entregar em mão as conclusões do estudo. Os responsáveis autárquicos alertam que afastar os municípios corre o risco de repetir os erros cometidos na gestão dos fundos de recuperação pós-pandemia, enfraquecendo os planos nacionais de investimento e limitando o impacto do financiamento europeu na vida quotidiana dos cidadãos.

O alerta é partilhado por vários líderes urbanos do continente. Rafał Trzaskowski, autarca de Varsóvia, avisa que as cidades não podem ser chamadas apenas quando as prioridades, as reformas e os investimentos já estiverem decididos. No mesmo sentido, Matteo Lepore, autarca de Bolonha, recorda que os planos de recuperação mostraram que fazer o financiamento chegar às cidades não é o mesmo que dar voz às cidades. Também Henna Partanen, Primeira Vice-Presidente do Conselho Municipal de Espoo, reforça que o que as cidades precisam agora é de um canal formal para que o seu conhecimento no terreno molde concretamente os planos nacionais.

Face a este cenário, a Eurocities exige que a futura arquitetura financeira da União Europeia garanta a inclusão obrigatória dos municípios desde a fase inicial de conceção dos Planos de Parceria Nacional e Regional, assegurando uma dimensão urbana clara em cada projeto. Num momento em que os líderes europeus negociam à mesa em Bruxelas os montantes e as prioridades do orçamento comunitário, a mensagem do poder local é inequívoca: fortalecer a Europa exige dar voz a quem está mais próximo dos cidadãos, quer no combate à desinformação, quer na definição dos investimentos que moldam o futuro das comunidades.

Edição e adaptação de João Palmeiro com Eurocities.

JOÃO PALMEIRO

*Rede europeia com mais de 200 cidades em 38 países

**Governo autonómico.

Leia também: Cuidar do futuro a partir do território: líderes locais exigem maior voz e investimento no novo Orçamento Comunitário | Por João Palmeiro

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