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Centro esquerda e extrema direita: a diferença essencial que a imprensa não fez

9 October 2026 at 16:00

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Imagine por um minuto que em vez de um candidato de extrema direita houvesse um candidato da esquerda radical em disputa com qualquer outro moderado. Como seria a cobertura das eleições? Será que se buscaria um falso equilíbrio entre as duas forças como acontece desde que os Bolsonaro passaram a disputar a presidência do Brasil?

A resposta é óbvia e a pergunta uma provocação para pensar no embuste que é a imparcialidade da imprensa desde a ascensão da extrema direita pós-redemocratização. Em especial nessas eleições, quando a aliança entre os Bolsonaro e a extrema direita dos Estados Unidos já interfere na nossa soberania, inclusive nas próprias eleições.

Nem assim a imprensa cumpriu o papel de informar com rigor quais são os projetos políticos em disputa no país. Com o argumento da “polarização”, apresentou, e continua a apresentar, a centro-esquerda de Lula como pólo inverso e, portanto, equivalente à extrema direita de Flávio Bolsonaro – um erro, também jornalístico, que enviesa toda a cobertura da campanha.

A esquerda caminhou para o centro enquanto a direita se deslocou para a ponta extrema, esse é o fato oculto sob a suposta “polarização” dos eleitores. A terceira via, tão desejada pela imprensa, está na chapa Lula-Alckmin como sabemos desde 2022. Em termos simples, à moda das redes, Lula não é comunista, mas Flávio é fascista, e a imprensa poderia ter deixado essa diferença clara para a população.

Tendo como escudo a alegada isenção e a falsa equiparação como método, a imprensa contornou o tema mais importante das eleições nacionais, as primeiras depois de uma tentativa de golpe de Estado, quando enfim o país conseguiu condenar presidente e generais que conspiraram contra a nossa suada democracia. E que agora, tem a soberania ameaçada pelos Estados Unidos de Donald Trump e Marco Rubio.

Não estou cobrando de jornais e emissoras de rádio e TV, de propriedade de famílias ricas, que sejam sequer progressistas, como são, aliás, a esmagadora maioria dos jornalistas que para eles trabalham, mas que pelo menos honrem o lugar que ocupam entre as instituições democráticas brasileiras. Assim como não existe democracia sem imprensa livre, não existe imprensa livre sem democracia.

Nem o risco à liberdade de imprensa e de expressão, que deveria ser valor inegociável de jornais, emissoras de TV e rádio, fez com que expusessem claramente a possibilidade real, e já ensaiada, de Flávio Bolsonaro rasgar a Constituição.

O monitoramento e a investigação de questões cruciais dessas eleições, como o lobby dos Bolsonaro no governo Trump, a farsa do Dark Horse, a predominância dos aliados políticos de Flávio no Caso Master e em outros casos envolvendo o crime organizado, a interferência dos Estados Unidos e das Big Techs ficou a cargo de veículos menores, feitos por jornalistas, que podem exercer a profissão de forma totalmente independente.

A imprensa também se esquivou de alertar os cidadãos sobre o que a eleição de Flávio Bolsonaro tiraria dos brasileiros e que afeta todos nós (excluindo o 1% mais rico que ganha 31,6 vezes mais que a metade mais pobre da população). Os usuários do SUS, os médicos, professores, dentistas, e outros profissionais da saúde e educação, assim como as famílias que utilizam os equipamentos públicos não foram alertados do risco que correm os sistemas públicos de educação e saúde – mesmo com muitos exemplos a retirar da pandemia da Covid, incluindo a contribuição desastrosa dos hospitais federais do Rio, gerenciados por indicados pelo próprio Flávio Bolsonaro no governo do pai.

Enquanto cobrava dos candidatos e eleitores o debate sobre “propostas”, e noticiava escândalos com base em vazamentos seletivos, permitiu a omissão de Flávio não apenas em relação às explicações devidas no caso Vorcaro, mas em se posicionar claramente sobre temas que afetam diretamente os direitos individuais e coletivos, como a demarcação de terras indígenas e quilombolas, ou as políticas para a promoção de igualdade de gêneros e de proteção aos direitos das pessoas LGBTQIA+ – inexistente em seu programa de governo e ainda mais relevantes pelo sofrimento imposto às pessoas trans pelo governo Donald Trump, inspiração confessa dos Bolsonaro. Sem falar nos jornalistas, cientistas, artistas e professores perseguidos no governo de Jair e de Trump.

Não se procurou nem ouvir as pessoas de verdade, com reportagens destacadas sobre comunidades que seriam ainda mais ameaçadas pelo garimpo e outros crimes, ou sobre famílias que têm um filho ou filha trans sob ameaça de violência, assim como aquelas que saíram da miséria e temem voltar para ela, ou com adolescentes que dependem de bolsas e programas sociais para ficar na escola e agora não têm garantia de futuro – ainda mais ameaçado com o fim das políticas contra o racismo e a desigualdade de gêneros.

Reduzidas a iniciativas eleitoreiras – mesmo que a crítica também caiba – também não contribuiu para o debate sobre o mérito de políticas como o fim da jornada 6×1 (uma iniciativa da sociedade), a proibição das bets e o aumento ao Bolsa Família. Nem pressionou Flávio para saber o que acontecerá com medidas de evidente interesse público, que têm que ser defendidas como direitos dos cidadãos e já são alvo de críticas, senão pelo próprio Flávio, por medo de perder votos, por seus aliados políticos – incluindo o “mercado”.

Esses e outros exemplos estão expostos agora nas redes sociais na onda que pegou os cidadãos conscientes do desequilíbrio das propostas e da possibilidade de evitar o tsunami anticonstitucional que seria a aliança Bolsonaro-Trump através do convencimento de eleitores menos radicais, apáticos ou ausentes. Não estão errados. Embora os resultados da primeira pesquisa Datafolha de 2º turno coloquem Flávio quatro pontos à frente de Lula, eu não subestimo o poder das formiguinhas em campanhas eleitorais. A ver.

Longa vida aos jornalistas combativos, à mídia independente, e sobretudo aos brasileiros que ainda buscam o diálogo como ferramenta para manter e aprimorar a democracia e garantir a liberdade e os direitos de todos os cidadãos.

STF pode ser enfraquecido por interesses políticos se Flávio for eleito, avaliam juristas

9 October 2026 at 15:30

O Supremo Tribunal Federal (STF) está longe de ser perfeito na análise de três juristas especialistas em direito constitucional, direitos humanos e reforma do Estado ouvidos pela Agência Pública. As suas imperfeições e a recente crise institucional que a mais alta instância do poder judiciário no Brasil e “guardiã da Constituição Federal” está passando, não devem ser, entretanto, usadas como justificativa do jogo político que visa aumentar a impunidade. E é consenso entre os três, que o risco existe. 

“O desgaste do STF pode ser usado politicamente não apenas para corrigir excessos da Corte, o que é legítimo, mas para reduzir sua capacidade de funcionar como limite ao poder político”, afirma Amarílis Costa, doutora em Direitos Humanos e diretora-executiva da Rede Liberdade, que atua em casos de violação de direitos e liberdades individuais. “Uma coisa é democratizar, tornar mais transparente e limitar excessos do STF. Outra é submeter a Corte à maioria parlamentar de ocasião”, argumenta.

Costa destaca a importância da Corte e de sua estabilidade justamente para aqueles que não estão nas rodas do poder. “Isso importa especialmente em direitos humanos, porque minorias e grupos historicamente vulnerabilizados dependem de uma jurisdição constitucional capaz de conter maiorias quando seus direitos estão em risco”, acrescenta.

Advogada Amarillis Costa
Advogada Amarillis Costa vê tentativa de limitar ações do STF contra políticos no poder

O professor de direito na PUC-SP e ex-secretário Nacional de Reforma do Judiciário no governo Dilma Rousseff, Flávio Crocce Caetano, concorda com a advogada. Ele acrescenta que “ a conjuntura política se tornaria muito favorável a medidas autoritárias de um eventual governo Bolsonaro, com diminuição do papel do STF, possível impeachment de ministro, além da redução do prazo de mandatos atuais, aumento do número de cadeiras para obtenção de imediata maioria e parceria perene com o Legislativo”. 

Para Caetano, “experiências autocráticas” em outros países são exemplos de concentração de poder nas mãos do Executivo, com ajuda do Legislativo, para o “apequenamento do Judiciário”. 

O também professor Rubens Beçak, livre-docente em Teoria Geral do Estado na USP, acompanha seus pares sobre o risco de Flávio Bolsonaro, se eleito presidente, “tentar minar o papel do Supremo, mesmo enfrentando “reações da opinião pública, da comunidade jurídica e provavelmente do próprio tribunal”. 

Ele ressalva que isso não significa que “discutir a redução do ativismo judicial, o excesso de decisões monocráticas e até os critérios de indicação dos ministros” não seja legítimo. “Essas mudanças podem contribuir para um Supremo melhor”, avalia Beçak que não descarta a possibilidade de se realizar uma Reforma do Judiciário. 

Reforma do Judiciário pode sanar excesso de decisões individuais

Flávio Caetano é professor na PUC-SP e foi secretário Nacional de Reforma do Judiciário durante a gestão de Dilma Rousseff
Flávio Caetano é professor na PUC-SP e foi secretário Nacional de Reforma do Judiciário durante a gestão de Dilma Rousseff

Já Flávio Caetano diz que “é necessária uma Reforma do Judiciário, que também atinja o Supremo.” Segundo o professor da PUC, estamos “diante de uma crise institucional, e de uma disfuncionalidade do STF”. Essa conjuntura “tem levado a posturas muito individuais dos ministros” e um acúmulo de decisões monocráticas, que faz o Plenário da Corte ficar diminuído. 

Amarílis Costa denomina o problema de individualização excessiva do poder, o que, segundo ela, “não significa eliminar decisões monocráticas”. “Elas são necessárias em situações urgentes. O problema surge quando uma decisão concebida como provisória produz, por longo período, efeitos equivalentes aos de uma decisão definitiva”, explica.

As decisões monocráticas foram alargadas nas práticas das últimas décadas do Supremo, e por isso deveriam ser “extremamente limitadas” na análise de Rubens Beçak. “Não é desejável que um ministro tenha poder individual sobre questões tão importantes”, afirma. “O correto é que a decisão individual, depois de tomada, seja prontamente submetida à Turma ou ao Plenário”, complementa. 

O comportamento do STF em período eleitoral

Rubens Beçak, professor na Faculdade de Direito da USP
Rubens Beçak, professor na Faculdade de Direito da USP, considera correta postura de presidente do STF, Edson Fachin, sobre processo sobre caso Master

Além da concentração de poder, os ministros do STF são, comumente, criticados por decisões que podem influenciar a opinião pública e as intenções de voto em período eleitoral. Para os juristas entrevistados pela Pública, porém, os casos precisam ser analisados de acordo com a realidade e contexto de cada um. 

O presidente do STF Edson Fachin, por exemplo, recebeu críticas de parte do eleitorado do presidente Lula (PT) por manter não dar seguimento às investigações do inquérito do Master e do INSS que ele recolheu ao seu gabinete após os embates entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.

Os juristas, no entanto, formaram consenso sobre a postura correta do ministro presidente. “Diante de uma situação tão conturbada, achei acertada a decisão do ministro [Edson Fachin]. Ele adotou uma medida provisória, que não me parece representar uma decisão definitiva. Considerei a decisão uma medida um pouco profilática. O presidente tem essa função”, comenta Rubens Beçak.   

Avaliação compartilhada por Flávio Caetano que considera a “decisão do presidente do Supremo de centralizar os casos que envolvam eventuais indícios ou suspeitas envolvendo ministros da própria Corte, tanto nos casos do Banco Master como do INSS, correta”. 

Amarílis Costa também afirma que há fundamento jurídico para a remessa. A advogada, no entanto, pondera que “a preocupação começa quando a preservação de competência se confunde com controle da investigação. Encaminhar informações ao tribunal competente é legítimo. Transformar a Presidência em filtro sobre o que pode ou não ser investigado seria outra coisa”. 

Para ela, “independência judicial não significa imunidade investigativa.” “O modelo será legítimo se proteger a regularidade do procedimento. Se produzir uma estrutura de autoproteção institucional, teremos um problema democrático”, ressalta.

No caso de ministros do Supremo, Flávio Caetano explica que crimes comuns são julgados pelo Plenário do STF. Quando se trata de crime de responsabilidade, o Senado Federal passa a ser o responsável. “O que não está muito claro é como haver uma investigação administrativa de algum ministro do Supremo”, diz. Na interpretação do professor, de toda forma, a “apuração administrativa ou disciplinar” sobre seus próprios membros é um procedimento adequado ao Pleno da Corte.  

A liberdade de Jair Bolsonaro analisada por Nunes Marques

Quando se trata da análise pelo ministro Nunes Marques da revisão criminal do processo que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, os juristas divergem em alguns pontos. 

Flávio Caetano, professor da PUC, afirma que não vê possibilidade desta análise ser feita de forma monocrática porque seria a revisão de algo que foi decidido pelo colegiado. Portanto, apenas o colegiado poderia julgar. 

Já o docente da USP, Rubens Beçak, considera que o ministro poderia sim tomar uma decisão, favorável ou não ao ex-presidente, já que a defesa tem o direito de solicitar essa revisão. Beçak salienta que mesmo sendo “impactante” conceder uma liminar para a libertação do ex-presidente, estaria “dentro do conjunto de competências de quem analisa um pedido de revisão criminal”.

Uma medida cautelar do relator não é “juridicamente impossível” na análise de Amarillis Costa que nesse ponto concorda com Beçak. Por outro lado, a advogada  declara que uma “decisão individual capaz de suspender os efeitos de uma condenação definitiva e alterar a situação de liberdade de um ex-presidente, exigiria fundamentação especialmente robusta e rápida apreciação pelo colegiado”, se aproximando da visão de Caetano.

“O ponto mais delicado é o calendário eleitoral. O Judiciário precisa compreender a conjuntura política sem permitir que ela se transforme em critério jurídico. A pergunta relevante é se a mesma decisão seria tomada, no mesmo momento e com os mesmos fundamentos, caso o condenado fosse outra pessoa e não estivéssemos em período eleitoral”, diz Costa.

Para Caetano, “eventualmente pode haver — não estou dizendo que há — alguma conotação política para um julgamento antecipado de uma revisão que talvez ainda não fosse o momento de ser julgada. Isso tem que ser observado em relação a casos similares, como o Supremo tem se posicionado. A partir daí, pode-se analisar se há um componente de conveniência política ou não”, acrescenta.

Após a divulgação do resultado do primeiro turno das eleições, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma reportagem dizendo que o ministro Nunes Marques pretendia soltar uma liminar sobre o pedido de revisão criminal da defesa de Jair Bolsonaro. Por nota, o gabinete do ministro informou que ele encaminharia a solicitação ao Plenário. Na última quarta-feira, 7 de outubro, reconsiderou afirmando que só analisaria o pedido após o segundo turno. 

“O ministro Nunes Marques entendeu, até acertadamente, que deixaria a análise para depois do segundo turno. Não necessariamente por ser presidente do TSE, mas porque foi uma decisão de bom senso, considerando que isso poderia conturbar ainda mais as eleições”, concluiu Rubens Beçak.

As duas ciências: a original e a materialista

By: A A
9 October 2026 at 16:05

A ciência nasceu do Deus engenheiro cristão. Hoje, o materialismo ateu domina as universidades, mas mantém sociedades secretas e ambíguas.

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Possivelmente, há mais de uma resposta correta à pergunta de por que a ciência surgiu na cristandade ocidental, em vez de ter aparecido primeiro numa das muitas sociedades orientais com tecnologia formidável, ou no seio do paganismo greco-romano.

O epistemólogo beneditino Stanley Jaki tem uma resposta detalhista e intrínseca ao próprio cristianismo: segundo lemos em Christ and Science, o diferencial é os cristãos não serem propensos a cair no panteísmo. Entre os pagãos greco-romanos, o cosmos era chamado de “unigênito”, título assumido depois por Jesus no cristianismo, e somente no cristianismo. No mundo de Aristóteles, o pagão predileto da cristandade ocidental, os corpos se movem por vontade própria (o fogo quer subir, a terra quer afundar etc.), e o Primeiro Motor é parte da natureza, em vez de transcendê-la. No judaísmo e no islamismo, as figuras de Spinoza (amado no s. XX por Einstein e Sagan, e no XXI por Sam Harris) e de Averróis (com seu intelecto universal) mostram que é fácil confundir Deus com a própria natureza. É na cristandade medieval que o mundo passa a ser concebido à maneira de um grande relógio com as peças inanimadas ajustadas por um Criador inteligente, cujas leis devemos descobrir. Esse estilo de pensar o universo, que hoje associamos a Newton, é medieval. E essa cosmovisão, específica da cristandade, é o que possibilitou a invenção da ciência.

Aqui nesta SCF, cheguei a aventar uma resposta mais modesta, de natureza cultural. Escrevi que Ocidente é racionalista desde antes de ser cristão; e isso favorece não só o surgimento da ciência, como a disposição para mantê-la em caso de conflito com a fé. Os sunitas, que são a maioria dos muçulmanos, viram uma espécie de literalismo corânico acabar com o espetacular florescimento das ciências na Idade Média. Já os judeus, que se entregavam à exegese de textos religiosos, só se tornaram cientistas com a emancipação e a laicização. Essa característica cultural ajuda a explicar por que a Ciência surgiu na cristandade ocidental, em vez da oriental, já que tanto a Igreja Romana quanto a Grega compartilham a crença no unigênito Jesus. Isso também ajuda a explicar por que, quando a Reforma protestante aconteceu, a Europa protestante não se apegou ao literalismo bíblico, nem às invectivas de Lutero contra a razão, e produziu ciência em diálogo com a Europa católica. Isso acabou deslocando a Verdade da religião (que cada uma tinha a sua) para a ciência (a ser aceita por todos), criando terreno para essa invenção recente ocidental chamada cientificismo.

Agora, uma ideia intrínseca ao cristianismo que eu queria apontar é a absoluta intolerância ao relativismo no conhecimento. No mundo pagão, filosofia e religião eram assuntos desconectados. Platão refletia sobre o bom, o belo e o justo sem investigar o Olimpo. Cícero, enquanto filósofo, escrevia contra os adivinhos públicos da religião romana; mas, enquanto político, não esboçava nenhuma intenção de alterar as práticas da religião de Estado, nem de inventar o laicismo. Nem mesmo Aristóteles, que escrevia sobre todas as disciplinas concebíveis, escrevia sobre Zeus, Hera ou Atena. Ele até criou uma “teologia”, mas não se referia aos deuses e sim ao Primeiro Motor. Zeus, Hera e Atena não eram objeto de uma disciplina.

Foi na Idade Média que a Igreja Católica inventou a universidade com a intenção de estudar o universum, isto é, tudo: metafísica, física, política, teologia… O conhecimento estava ordenado de modo coeso, presumindo uma realidade objetiva. Assim, a física não podia ensinar uma coisa que estivesse em contradição com a teologia, e vice-versa. (Embora o problema de Galilei se deva ao aristotelismo abraçado pela Igreja via Tomás de Aquino, e não a uma leitura literal da Bíblia.) Essa coesão pode parecer óbvia, mas nos dias de hoje a disciplina “física” diz que o vidro é líquido, enquanto a disciplina “química” diz que o vidro é sólido. E esse nem é o maior dos problemas: quem se atreveria a pedir uma definição unívoca de “homem” ou “humano” a uma universidade? Na prática, o relativismo impera na universidade mesmo antes de os pós-modernos tomarem conta de tudo.

Essa fragmentação do conhecimento teve origem no modelo de ciência surgido na Renascença. Fora das universidades, os humanistas buscavam os textos antigos que os católicos medievais haviam descartado, como o De rerum natura, do materialista e epicurista Lucrécio. Como naquela época a antiguidade conferia autoridade, o ocultismo formado pela fusão entre o hermetismo e a cabala gozou de especial credibilidade entre os letrados de modo geral. O hermetismo vem de Hermes Trismegistos, que os renascentistas acreditavam ser o professor de Moisés, Platão e Pitágoras – mas na verdade era uma ficção um pouco mais nova que Cristo. Um vestígio etimológico da importância do hermetismo para a ciência é o adjetivo “hermético”, usado pelos alquimistas com seus potes muito bem fechados. Quanto à cabala, ela vem da religião que precedeu o cristianismo e isso basta para ser entendida como muito antiga – mesmo que seu principal texto, o Zohar, seja da Espanha medieval. Conforme argumentei em maior detalhe aqui, o ocultismo da Renascença influenciou a ciência moderna, e é responsável pelo seu viés utilitarista. Se cada disciplina decidir que um determinado conceito “funciona” e houver contradição entre elas, não há problema, pois o que interessa não é o conhecimento, mas sim o caráter prático. É uma ciência inspirada no procedimento do feiticeiro, que fica consultando livros antigos e testando feitiços para descobrir se funcionam.

Digamos então que o status quo do conhecimento nas universidades é um relativismo prático decorrente da falta de uma visão unitária por parte da instituição. No âmbito individual, porém, é humanamente impossível fazer ciência sem uma cosmovisão coerente – nem que seja uma elaborada a posteriori com base nos “feitiços” que funcionaram, à maneira dos alquimistas na Renascença. Hoje, está muito claro que o mainstream científico é ateu, mas isso é pouco informativo. Seria mais preciso dizer que o mainstream é materialista.

O século XIX é o século da consolidação do materialismo na ciência. É o século do triunfo de Darwin, o primeiro (e talvez único) grande cientista inequivocamente ateu da História. Antes de Darwin, predominava a cosmovisão medieval do Deus relojoeiro, ou da natureza como o livro escrito em linguagem matemática por Deus (para usar a metáfora de Galileu). Na Renascença, vão despontando cosmovisões alternativas. No Iluminismo, essa movimentação ganha as formas do deísmo e do materialismo, que não são mutuamente excludentes. O deísmo é a ideia de que Deus existe, porém não se importa com a humanidade. Essa é uma ideia muito vaga, pois compreende as possibilidades de (1) Deus ser um arquiteto distante (como para Voltaire, um “criacionista” entusiasta de Newton); (2) Deus ser a própria matéria, ou o próprio universo (panteísmo); (3) os deuses existirem e serem feitos de átomo como o resto da natureza – opinião que consta no De rerum natura e resulta num ateísmo prático. Como esta concepção de Deus é psicologicamente difícil de sustentar, não é de admirar que, no século XIX, a feição pública do materialismo já tenha sido a do ateísmo.

Ainda assim, como mostrei aqui na SCF, só um dos “quatro cavaleiros” do neoateísmo (Richard Dawkins) é inequivocamente ateu. Os outros três (Sam Harris, Daniel Dennett e Christopher Hitchens) são adeptos ou de um New Age lisérgico, ou do judaísmo, ou das duas coisas. Sagan era outro ateu com esse perfil ambíguo.

Creio então ser útil discriminar essas duas cosmovisões científicas opostas: uma, originadora da ciência, é a do Deus transcendente engenheiro do cosmos; outra, a do materialismo, segundo o qual tudo o que existe é matéria a movimentar-se de maneira aleatória, gerando ora caos, ora ordem. É possível, dentro desta última, ser um ateu inequívoco como Dawkins hoje ou Barão d’Holbach no XVIII; e é possível também ser um New Age como Sam Harris. A matéria é, também ela, divinizável por parte de peruas dos cristais e maconheiros. E uma figura ambígua é ninguém menos do que Epstein, já que esse mecenas era um judeu religioso o bastante para querer criar um porco kosher GMO a fim de comer bacon, mas ao mesmo tempo financiava o clube de ateus de Sam Harris. Tal como mostrei aqui, Epstein era adepto do materialismo a ponto de querer identificar a parte do cérebro que corresponde à alma.

Um último traço intrínseco do cristianismo que vale mencionar é o seu exoterismo, isto é, o seu caráter público e não iniciático. Essa característica se reflete na universidade e nas bibliotecas: todo o repositório de conhecimento está público para aquele que quiser estudar. No caso do materialismo, desde o XVIII a Inglaterra tem na Lunar Society uma tradição sólida de sociedades científicas privadas e secretas, amiúde com finalidade comercial. Isso também está de acordo com o esoterismo da Renascença. E no século XXI, os Arquivos Epstein trouxeram à tona sociedades discretas de materialistas, tais como a de Sam Harris financiada pelo pedófilo.

Dado que o pedófilo também financiava pesquisas na universidade, é plausível que esse materialismo limítrofe entre o panteísmo e o ateísmo seja uma “teologia” oculta, sempre presumida na ciência atual, porém nunca explicitada para os não iniciados.

Da sua mão para o crime organizado: o que acontece quando seu celular é roubado?

9 October 2026 at 08:00

Jonas Domenici, 55, ganhou de presente da mãe um iPhone 15, adquirido em um famoso marketplace que tem como slogan a expressão “compre com confiança”. Era julho de 2025 e o agrado, que custou R$ 4 mil, foi entregue sem demora em São Paulo. Quase um ano depois, já em junho de 2026, ele recebeu uma mensagem da Polícia Civil da Bahia (PCBA) informando que o aparelho havia sido identificado como possível objeto de crime e deveria ser entregue para averiguação em 72 horas, sob risco de indiciamento por receptação.

Assustado, Jonas tentou contato com a plataforma, mas não recebeu ajuda. Então, procurou uma delegacia, apresentou documentos da compra, mas teve que registrar a ocorrência e deixar o aparelho que usava com a polícia e voltar para casa de mãos vazias. “O reembolso pelo prejuízo só foi feito após eu procurar os meus direitos”, declarou. “E a plataforma ofereceu apenas créditos para serem utilizados dentro do próprio marketplace”, finaliza.

Jonas é apenas um dos mais de 51 mil brasileiros notificados por estarem com celulares roubados ou furtados no país. Um total de 9.989 aparelhos foram entregues em delegacias apenas entre 10 e 19 de agosto de 2026. De acordo com o Código Penal, as penas para o crime de receptação variam de um mês a um ano de detenção em caso de crime culposo (quando não houve intenção) e pode chegar a 8 anos no caso, por exemplo, de revenda desses aparelhos.

Em 2025, conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 830 mil celulares foram subtraídos – 95 por cada hora. Os caminhos percorridos pelos aparelhos após serem retirados de seus proprietários apontam para uma cadeia que pode envolver, além da comercialização dos celulares, sua reutilização, a permuta por drogas e até mesmo o escoamento para outros países, segundo informou o secretário Nacional de Segurança Pública, Francisco Lucas Costa Veloso.

“[Os celulares também podem] ser utilizados para fraudes financeiras, acesso indevido a serviços e comprometimento de dados e identidades digitais”, explica. “Não existe um percurso único”, pontua o secretário, logo após afirmar que as subtrações ocorrem principalmente pelo valor econômico do aparelho no mercado ilícito.

Dados da 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que a taxa de ocorrências de roubo e furto de celulares no país é de 371,2 casos para cada 100 mil habitantes. Os dados históricos mostram uma queda nos roubos — cometidos mediante ameaça ou violência direta — e um leve aumento nos furtos, que representam 60% desses crimes, concentrados fortemente nos grandes centros urbanos.

20 municípios com as maiores taxas de aparelhos roubados ou furtados a cada 100 mil habitantes

Entre os 20 municípios com as maiores taxas de celulares roubados por 100 mil habitantes, 14 são capitais – com São Luís, Belém e São Paulo aparecendo do pódio. Amazonas, Amapá, Pará, Pernambuco, Distrito Federal, Rondônia, São Paulo, Maranhão, Espírito Santo e Bahia aparecem entre as dez unidades da Federação com as maiores taxas dessas ocorrências.

O tema “segurança pública” se tornou uma das principais bandeiras de campanha eleitoral para o pleito de 2026. Nos programas de governo apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os candidatos à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, que disputam o segundo turno, defendem diferentes caminhos para enfrentar a insegurança no país.

Segundo a pesquisa encomendada pelo FBSP, 78,8% dos brasileiros afirmam temer que o celular seja roubado ou furtado. O receio de cair em um golpe pela internet ou pelo próprio aparelho é ainda maior: atinge 83,2% da população. O medo começa a modificar hábitos e comportamentos. A liberdade de circulação dos cidadãos passa a ser condicionada pela percepção de risco, especialmente em locais e horários considerados mais “arriscados”.

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Para o doutor em direito e mestre em antropologia social Welliton Caixeta Maciel, além do alto preço que é pago por determinados modelos de celular, considerado essencial na vida das pessoas, os dados que constam nos aparelhos atraem a atenção de criminosos

“[Quando um celular é subtraído,] criminosos passam a ter acesso a dados, às informações bancárias e acesso às redes sociais das vítimas”, disse. Para o especialista, o vazamento de informações sensíveis justifica a classificação do crime como um dos mais temidos atualmente.

De um bolso a outro

“Quem roubou nem sempre é a mesma pessoa que vai tentar ganhar dinheiro com aquele aparelho. Ele pode passar para outra pessoa, que fica responsável por procurar uma forma de transformar aquele telefone em dinheiro. […] Quando não tem a ver com essa engrenagem, o ladrão apenas tenta trocar o aparelho por drogas”, o depoimento à Pública parte de alguém que entende do assunto. Júlio* (nome fictício) passou anos atuando como técnico que desbloqueava celulares no ecossistema do crime no Distrito Federal. Segundo ele, o roubo ou furto do celular é apenas “o começo de todo um caminho”. 

Se o celular tem condições de uso, segundo Júlio, o aparelho é colocado novamente no mercado. “Nesse caso, tentam invadir esse celular para alterar senhas de redes sociais, emails e aplicativos bancários. Daí pegam empréstimos, limpam a conta e utilizam fotos e vídeos para golpes. Quando não é possível, os celulares são levados para especialistas que conseguem burlar sistemas de segurança e adulterar o IMEI”, detalha. 

O IMEI, sigla para Identidade Internacional de Equipamento Móvel, é um número único de identificação de um celular, geralmente formado por 15 dígitos. Ele serve para identificar o aparelho nas redes móveis e pode ser usado pelas operadoras para bloquear um celular em casos de perda ou roubo. “Se tudo der certo, o aparelho é colocado à venda em feiras, pela internet… Quem rouba pode receber até 30% da revenda”, finaliza Júlio*, que garante que de uma forma ou de outra o aparelho rende dinheiro já que, caso esteja totalmente bloqueado e não possa ser reativado, o celular é desmontado para venda de peças.

Como acesso o meu IMEI?

*#06# – É o código universal que você pode digitar para mostrar o IMEI do aparelho, que também vem impresso próximo ao código de barras da embalagem original do aparelho;

No Android, você também pode ver em “Configurações > Sobre o telefone“;
No iOS, você pode verificar em “Ajustes > Geral > Sobre“.

À Pública, a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) informou que entre os esforços para o combate ao furto e roubo de celulares está a Operação Última Chamada, cujo objetivo é a recuperação e devolução de aparelhos, bem como vistoria simultânea em presídios em todo o país

Após a primeira fase da iniciativa ocorrer entre 10 e 19 de agosto, e reunir esforços de 23 das 27 unidades da federação, a segunda fase foi deflagrada entre os dias 15 e 18 de setembro, com foco na fiscalização de pontos irregulares de venda de celulares.

Nas datas, 882 estabelecimentos físicos foram fiscalizados. Segundo a Senasp, 1.712 aparelhos foram apreendidos durante a ação, e 30 pessoas detidas em flagrante por receptação qualificada e outros crimes. A secretaria, no entanto, não informou quais estabelecimentos foram punidos nem em quais circunstâncias ocorreram as prisões. 

Conforme o secretário Francisco Lucas, entre os esforços para conter ações criminosas estão “bloqueio, integração nacional de dados, identificação de aparelhos com restrição que retornam às redes e atuação das Polícias Civis para recuperação e investigação”.

“No Programa Celular Seguro, o aparelho é identificado principalmente pelo IMEI. Quando um aparelho com restrição volta a ser utilizado na rede de  telecomunicações, essa informação pode subsidiar sua localização e recuperação pelas Polícias Civis”, informou.

O Celular Seguro é uma plataforma de iniciativa do Governo Federal que permite ao cidadão comunicar perda, furto ou roubo de um celular. “[Diante dos crimes, a vítima] deve registrar o boletim de ocorrência e comunicar o fato pelo Celular Seguro, possibilitando medidas de bloqueio e inclusão do aparelho nas bases utilizadas para recuperação. Havendo fraude ou acesso indevido, deve também comunicar imediatamente às instituições financeiras ou serviços afetado”, pontuou o secretário.

Mas, afinal, dá pra ter segurança quanto à procedência do aparelho comprado online? A Pública procurou os três principais marketplaces que permitem a revenda de celulares para entender os recursos de segurança e garantia oferecidos aos clientes. A Amazon disse manter rigorosas medidas de proteção físicas, eletrônicas e processuais em sua cadeia logística. “Quando detectamos irregularidades, atuamos rapidamente para bloquear essas ações e colaboramos ativamente com as autoridades brasileiras competentes para a identificação e responsabilização dos envolvidos”, afirma em nota.

A OLX informa que anúncios de produtos roubados são proibidos na plataforma. “Quando identificados ou denunciados pelos usuários, eles são devidamente removidos. A plataforma enfatiza que está sempre à disposição das autoridades para colaborar com as investigações e disponibiliza um canal para que os usuários denunciem anúncios que infrinjam sua política”, publicou em nota à Pública. O Mercado Livre foi procurado, mas preferiu não responder até o momento.

Mapa sem tesouro

A frustração de ter o aparelho subtraído talvez seja quase tão grande quanto descobrir onde o celular está e não poder recuperá-lo. Foi o caso da enfermeira Nathalia de Macêdo, 26, que desceu de um ônibus, foi distraída por uma mulher e, segundo ela, teve o celular furtado enquanto conversava com a desconhecida, em 2023. Quando percebeu o ocorrido, o aparelho já estava fora de alcance, mas foi capaz de localizar o celular em tempo real.

Na 17º Delegacia de Polícia do Distrito Federal (Taguatinga), no entanto, teria ouvido dos policiais que “não podiam deixar a unidade para verificar o endereço indicado pelo rastreamento” e que ela deveria “buscar o aparelho por conta própria, já que sabia onde ele estava”. Ela só voltou a ter notícias um ano depois, quando recebeu uma mensagem da mesma delegacia, via WhatsApp, informando que o aparelho havia sido recuperado em 31 de julho, na “Feira do Rolo”, em Ceilândia – local conhecido por compra e venda de eletrônicos e outros objetos sem nota fiscal.

Assim como Nathalia, muitas vítimas de furto ou roubo conseguem rastrear seus aparelhos por GPS, mas encontram entraves ao tentar resgatá-los. Em São Paulo, por exemplo, entre os locais citados na região central, um prédio na Rua Guaianases passou a ser identificado em mapas do Google como o “ninho do celular roubado” devido ao número de relatos de usuários.

Em um dos relatos, na plataforma Reddit, a vítima diz que teve o celular furtado no Rio de Janeiro e o rastreou até SP. “No dia seguinte, registrei um boletim de ocorrência. Como o iPhone ainda mostrava localização mesmo desligado, o delegado sugeriu que eu fosse até a delegacia mais próxima do sinal para tentar recuperá-lo”, narrou. O aparelho estaria próximo à entrada do Complexo da Mangueirinha, em um ponto identificado pelos próprios policiais que seria ligado ao tráfico e, por isso, a PM teria se recusado a intervir por ser “área de risco”. “Agora, quase dois meses depois, recebo um e-mail da Apple: alguém tentou desbloquear meu iPhone. Quando fui conferir a localização, lá estava ele na famosa Rua Guaianases”, ironizou.

Entre as capitais analisadas na 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, São Paulo se destaca pela dimensão do fenômeno: embora reúna cerca de 5,6% da população brasileira, a capital paulista concentra aproximadamente 20% dos roubos e furtos de celulares registrados no país.

A Pública procurou as três principais operadoras de telefonia do Brasil para questionar se é possível identificar a localização de chips e aparelhos e se a existência de um número elevado de linhas vinculadas ao mesmo CPF pode gerar procedimentos de segurança. Até a publicação desta reportagem, TIM e Claro não haviam respondido. A Vivo informou que, “após avaliação interna, as áreas responsáveis optaram por não participar desta pauta”.

Oficialmente, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) informou em nota que “não recomenda que vítimas se desloquem sozinhas até locais indicados pelo rastreamento, especialmente quando existe a possibilidade de contato com suspeitos ou outras pessoas envolvidas no crime”: “A corporação orienta que as informações sejam repassadas às forças de segurança para que a verificação seja feita por policiais civis ou militares”.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo também foi questionada sobre o motivo de aparelhos furtados continuarem sendo levados ao ninho do celular, apesar das denúncias. Até a última atualização deste texto, porém, não houve retorno. O conteúdo será atualizado caso a pasta se manifeste.

Pesadelo não se encerra na perda do aparelho

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o aparelho celular subtraído deixou de ser cobiçado apenas pelo seu valor de revenda ou pela comercialização clandestina de peças e passou a representar uma porta de entrada para a vida digital das vítimas. Criminosos podem tentar acessar aplicativos bancários, contas, chaves Pix, redes sociais e outras informações pessoais, ampliando significativamente o potencial prejuízo financeiro de quem já teve o aparelho sequestrado.

Golpes mais comuns no Brasil

Tentativas de captura de dados de vítimas visam uso posterior para fraudes financeiras

Uso indevido de CPF via SMS
Leilão ou da loja falsa
Clonagem ou troca de cartão de crédito
Golpe do WhatsApp
Falsa central bancária
Golpe do Pix
Uso indevido de CPF via SMS

Mensagens falsas informam irregularidades no CPF e induzem a vítima a fornecer dados ou acessar links.

Leilão ou da loja falsa

Sites e anúncios falsos oferecem produtos ou veículos por preços muito abaixo do mercado para atrair vítimas. Após o pagamento, o produto não é entregue.

Clonagem ou troca de cartão de crédito

Dados do cartão são obtidos por páginas falsas, maquininhas adulteradas, etc para futuras compras sem autorização.

Golpe do WhatsApp

Conta falsa se passando por conhecido pede dinheiro ou pagamento de conta e geralmente justifica troca ou perda do número original.

Falsa central bancária

Ligação ou mensagem se passa por atendimento do banco e alerta sobre movimentação suspeita. Atendente tenta colher dados ou pede para que app seja instalado.

Golpe do Pix

Fraudes para transferir rapidamente valores obtidos de forma ilegal, incluindo pagamentos, contas ou chaves substituídas e falsas oportunidades de investimento.

Fraudes originadas a partir de dispositivos subtraídos registraram um salto de aproximadamente 340%, de acordo com dados da 20ª edição do Anuário. Ao mesmo tempo, o estelionato consolidou-se como uma das principais modalidades de crime patrimonial no país. Em 2025, foram registradas 2,2 milhões de ocorrências de estelionato e golpes digitais no Brasil — 429,8% em relação a 2018.

O avanço dessa modalidade está diretamente relacionado ao uso de engenharia social, técnica que explora a confiança, a desatenção ou a vulnerabilidade das vítimas para obter informações, dinheiro ou acesso a contas. Além de ser uma fonte potencial de recursos com menor exposição à violência física, para os criminosos, trata-se também de uma atividade de baixo risco de responsabilização: mais de 97% das ocorrências de estelionato comunicadas às polícias brasileiras não chegam a resultar em processo judicial, segundo o Anuário da Segurança.

Criminoso usa conta de WhatsApp clonada para abordar contatos da vítima e solicitar dinheiro
Criminoso usa conta de WhatsApp clonada para abordar contatos da vítima e solicitar dinheiro

Um levantamento do Observatório Lupa, de junho de 2026, identificou padrões em 115 conteúdos fraudulentos que viralizaram entre maio de 2024 e abril de 2026. Em 74% deles, os golpistas exploravam a credibilidade de empresas, personalidades conhecidas ou pessoas próximas às vítimas, enquanto 71% prometiam algum tipo de vantagem financeira.

Segundo o estudo, uma das principais estratégias é criar situações familiares ou de interesse imediato para reduzir a desconfiança, estimular uma resposta rápida e impedir a checagem do fato. 

Os criminosos podem usar nomes e imagens de marcas conhecidas, simular ofertas e oportunidades de renda, explorar temas em evidência ou se passar por pessoas próximas. O WhatsApp foi identificado como um importante canal de disseminação, presente em quase 65% dos golpes analisados.

À Pública, o advogado e especialista em direito do consumidor Bruno Durão explicou que, em caso de perda do celular, a prioridade é impedir o acesso de terceiros às contas financeiras e aos dados pessoais. Ele recomenda comunicar imediatamente os bancos, bloquear o acesso pelo aparelho e verificar movimentações recentes. Também é importante alterar as senhas de contas principais, chip junto à operadora, usar as ferramentas de localização e bloqueio remoto, além de registrar boletim de ocorrência.

A tecnologia também pode ajudar na proteção do aparelho. “O IMEI é uma das principais ferramentas para identificação do dispositivo e pode ser utilizado na consulta de restrições relacionadas ao aparelho”, explica Durão. Segundo ele, sistemas de localização e bloqueio remoto permitem localizar, bloquear e, em alguns casos, apagar os dados do celular à distância.

Para quem compra celulares usados, o especialista recomenda atenção redobrada à origem do aparelho. “Preços muito abaixo dos praticados no mercado, ausência de nota fiscal, falta de informações sobre a procedência e recusa em fornecer o IMEI são sinais que devem despertar a desconfiança do consumidor.” Antes da compra, ele orienta verificar se há registros de roubo ou furto e conferir se o IMEI da embalagem corresponde ao aparelho. Guardar anúncios, conversas e comprovantes também ajuda a documentar a negociação.

Caso descubra que comprou um aparelho roubado ou furtado, o consumidor deve preservar os registros, comunicar o caso às autoridades e entregar o celular conforme as orientações recebidas. Durão recomenda evitar negociações informais com o vendedor ou alterações no aparelho: “Se o comprador tiver adquirido o celular “de boa-fé”, deve reunir documentos que demonstrem que desconhecia a origem ilícita e, dependendo do caso, buscar o ressarcimento pelas vias consumerista ou judicial”.

Das ruas para as celas

Em agosto, durante a apresentação da mobilização nacional para recuperar celulares furtados ou roubados, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, chamou atenção para outro destino dos aparelhos roubados: as penitenciárias. “Em alguns casos, nós temos um ciclo completo, no qual o dispositivo chega, inclusive, às mãos do crime organizado nos presídios. A única forma de enfrentar o problema é por meio da integração federativa do Governo Federal e do MJSP, com as polícias estaduais”, afirmou.

À reportagem, Ricardo* (nome fictício), que passou nove meses preso em regime semiaberto, detalhou o uso de celulares dentro da prisão. Sob condição de anonimato, ele narrou ter visto diversos aparelhos na unidade onde estava e que os telefones entravam por meio de familiares ou com a ajuda de agentes de segurança, que recebiam dinheiro para facilitar o acesso ao dispositivo.

“Tinha uma estrutura muito bem organizada para poder usar eles [celulares]. […] Depois que o celular entra, se ele tiver sido enviado pela família ou conhecido de um único detento, ele que vai ficar no comando [do aparelho]. Se você quiser usar o celular pra mandar uma mensagem pra alguém da família, namorada ou alguém próximo, você troca por cigarro, marmita, sabonete, o que o ‘dono’ quiser, mas geralmente não sai muito caro”, narra. “Caso a pessoa queira fazer alguma malandragem, tipo aplicar golpe, aí o dono do celular cobra mais”, pontuou.

Ricardo* conta que os próprios detentos estabeleciam as regras de uso. Quando havia mais de um responsável pelo aparelho, eles negociavam as condições de utilização e os empréstimos. “Vi o celular sendo mais usado para essas três coisas: falar com pessoas próximas, aplicar golpe e para comando de chefes de facção. [Sobre] Esses ‘chefes’, eu ouvi falar muita coisa, mas só vi um único lá dentro. Os presos falavam que o celular dele era só dele. Ninguém mexia. Era através dali que ele comandava a região dele aqui fora”, lembra.

À Pública, o doutor em direito e pesquisador do Grupo Candango de Criminologia da Universidade de Brasília (UnB) Wellington Maciel, explica que o celular é um dos principais meios de comunicação entre criminosos dentro e fora das prisões. “Digamos que ele seja um vetor que possibilita essa porosidade dos muros das prisões”, avalia, acrescentando que os aparelhos garantem cadeias de comando e coordenação de ações, de golpes a ordens de execução.

Para combater essa comunicação, Maciel defende o reforço da fiscalização e o combate à corrupção nas unidades prisionais. Entre as medidas, cita “varreduras frequentes” e inspeções periódicas, incluindo revistas de visitantes, trabalhadores e demais profissionais que circulam nos presídios. “O crime, com seus tentáculos, tem cooptado funcionários”, por isso, “o Estado precisa estar à frente da criminalidade com novos equipamentos, sistemas de bloqueio, interceptação de drones e outras ferramentas capazes de impedir o uso desses mesmos recursos pelos criminosos”, conclui.

À Pública, a Senasp informou que a administração, a fiscalização e a apuração de ocorrências em unidades prisionais estaduais são de responsabilidade dos respectivos estados. “Os procedimentos de fiscalização também são definidos por cada administração penitenciária e abrangem o controle da entrada de pessoas, incluindo os profissionais que atuam nesses estabelecimentos”, explicou.

“Entre as medidas estão operações de inteligência, revistas, varreduras eletrônicas, capacitação de profissionais e modernização tecnológica. […] Desde maio, por exemplo, as Operações MUTE, nacionais e locais, mobilizaram mais de 13 mil policiais penais, alcançaram 312 unidades prisionais e apreenderam 2.447 celulares nas prisões. Em 2026, a Operação Modo Avião realizou 260 ações de varredura eletrônica em 96 unidades”, informou a Senasp.

As unidades da federação recebem apoio para fortalecer o combate ao crime organizado a partir do sistema prisional por meio da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), que vem atuando para modernizar 138 unidades prisionais com tecnologias como scanners corporais, aparelhos de raios X, georradares, kits de varredura e drones.

Gestão Tarcísio exonera professoras com regra da ditadura

8 October 2026 at 18:00

Em janeiro deste ano, Veruschka de Sales Azevedo passou pouco mais de uma hora contando à Agência Pública como perdera o cargo de professora na rede estadual de ensino de São Paulo. Ela chorou algumas vezes durante o encontro que foi finalizado com certa esperança: “O meu retorno será triunfante”, disse. Enquanto aguardava o desfecho do seu caso, ela organizava um livro com relatos de professores também investigados por meio de Processos Administrativos Disciplinares (PAD) na Secretaria de Educação de São Paulo (SEDUC). “A gente precisa registrar isso em tudo quanto é lugar.” Doutora em história, Veruschka tinha 24 anos de magistério, cerca de vinte deles na mesma escola de Guarulhos onde estudara antes de ser exonerada em maio de 2024 num PAD que se iniciou em 2017. Entre a abertura do processo e a exoneração, passaram-se sete anos e seis meses.

Em março deste ano, num artigo no Le Monde Diplomatique, Veruschka escreveu que o trauma da exoneração lhe causara uma doença crônica. Ela viria a falecer em julho, seis meses após a entrevista para a reportagem. A família não divulgou a causa da morte, mas a filha, Rayssa Sales, não tem dúvida sobre a origem da doença: “Antes, a imunidade da minha mãe era perfeita, mas, depois da exoneração, ela começou a ficar doente.”

As acusações contra a professora na SEDUC apontam falta de comprometimento com os estudantes, tumulto em reuniões pedagógicas, incitação de alunos contra a direção e excesso de atenção a temas raciais e de empoderamento feminino nas aulas.  

Três dias antes da demissão de Veruschka, também a professora Fabiana de Abreu, que ensinava história na mesma escola, fora exonerada. Em agosto de 2025, chegaria a vez de Maitée Nogueira, professora de sociologia em São Sebastião, no Litoral Norte paulista. As três contestaram as acusações em entrevista à Pública. Os processos se apoiam em um estatuto anterior à Constituição de 1988: o dos servidores civis do estado, de 1968, ano do AI-5. Para Salomão Ximenes, professor da Faculdade de Educação da USP e pesquisador do Observatório Nacional da Violência contra Educadores (Onve), os estatutos escritos durante o período ditatorial têm sido “ressignificados com o objetivo de dar mote a processos administrativos de perseguição a educadores”. 

Ele fala em “lawfare educacional”: o uso de instrumentos jurídicos e burocráticos para conter a mobilização de professores, a luta sindical e os avanços no currículo. Além de São Paulo, outros estados regulamentam o magistério por meio de normativas elaboradas durante o regime de exceção como Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Acre e Ceará, conforme Ximenes identifica no artigo “Os anos que não acabaram; o uso de estatutos jurídicos da ditadura militar na perseguição a educadores(as) no Brasil”, que publicou na metade deste ano com a jurista Ligia Ziggiotti de Oliveira.

Veruschka de Sales Azevedo (centro), professora exonerada via PAD
Veruschka de Sales Azevedo (centro), professora exonerada via PAD

Sarau criado por Veruschka incomodava a direção

Veruschka nasceu em Sanharó, no interior de Pernambuco, e chegou a Guarulhos ainda criança, com seis irmãos. A mãe era empregada doméstica; o pai, caminhoneiro. Ela estudou na Escola Estadual Professora Maria Aparecida Rodrigues, no bairro Pimentas, em Guarulhos, e cursou história na Unesp. Concursada em 2000, deu aulas na cidade de Sertãozinho até pedir, em 2004, transferência para a escola onde estudara. “Lá, havia professores que incentivaram os alunos a buscar a universidade pública”, disse a filha Rayssa. “Daí ela veio com o sonho de fazer o mesmo que fizeram por ela.” Ficou lá mesmo depois do doutorado, concluído em 2016 na PUC-SP.

Nas aulas, discutia desigualdades, feminismo, direitos humanos e identidade negra, e aplicava a Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. Militava na Associação Nacional de História (Anpuh), no sindicato e na Marcha Antirracista do Bairro dos Pimentas. Na escola, conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações. “No sarau do Milton Nascimento, fizemos o Milton de açúcar, porque ele é uma pessoa doce”, lembrou o ex-aluno Thiago Gomes, hoje estudante de filosofia na USP. “Eu via alunos racistas mudarem de opinião depois do sarau.” No cursinho popular da UNEafro Brasil que Veruschka coordenou na Unifesp, Thiago ouvia dela que era “um menino de ouro”. Para ele, a professora Veruschka morreu duas vezes. A primeira foi quando sofreu a exoneração. “Foi ali que perdi o brilho nos olhos. Eu continuava tendo aula com a Veruschka no cursinho da UneAfro, mas não era a mesma coisa”, afirma.

Veruschka conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações
Veruschka conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações
Veruschka conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações

Os atritos com a direção da escola começaram em 2008, segundo Veruschka, quando, ainda no governo de José Serra, passaram a exigir o uso de apostilas. O material, disse ela, “não tinha respaldo na diversidade das minhas salas de aula, na realidade dos alunos”. Depois vieram suas cobranças por transparência no uso das verbas e as queixas da gestão contra o sarau. “Esse projeto incomodou tanto a gestão que, a todo momento, queriam acabar com ele, porque os alunos começaram a se sentir parte desse movimento.” 

Salomão Ximenes, do Onve, diz que os estatutos preservam princípios como “a proibição de manifestação e uma lógica hierárquica em relação às autoridades administrativas”, incompatíveis com a democracia, que “continuam a persistir e a servir de mote para processos de punição”.

O advogado de Veruschka, Roberto Parahyba, chama a demissão de “arbitrária” e “antissindical”: “não tenho dúvida de que o principal ponto foi ter participado do ato sindical.” A defesa sustenta, ainda, que o caso estava prescrito com base no próprio estatuto de 1968, que fixa em cinco anos o prazo para a pena de demissão. 

O Procurador do Estado havia pedido a suspensão da professora por 90 dias, mas o Secretário de Educação do Estado de São Paulo, Renato Feder, aplicou a pena de demissão em maio de 2024, por considerar que Veruschka “teve conduta incompatível com o cargo de professora, principalmente no aspecto da moralidade” e agiu “de maneira desrespeitosa perante a gestão escolar”.

Para o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), “se o professor tem uma atuação mínima que seja de defesa da escola pública é perseguido. Se for sindicalista então, a situação é ainda pior”, diz Roberto Guido, presidente interino do sindicato.

Exoneração fez Veruschka perder o acesso ao hospital

Com a demissão, Veruschka perdeu o acesso ao hospital dos servidores estaduais. “A gente sabe como o SUS é demorado e que ir buscar uma consulta particular é caro”, disse a amiga Vera Aparecida dos Santos, assistente social. Em janeiro, a professora contou ter uma úlcera gástrica e o intestino inflamado. “Eu quero meu cargo de volta. Quero os meus 25 anos de contribuição. A gente nunca espera parar de trabalhar”, disse, emocionada, à Pública.

Numa pesquisa da Apeoesp divulgada em maio de 2026, 97,6% dos professores ouvidos associaram o adoecimento mental às condições de trabalho na rede; 24,8% precisaram se afastar da escola por esse motivo. Segundo Guido, depressão e burnout já superam as doenças físicas, em razão da superlotação das salas, das jornadas duplas ou triplas, dos conflitos e, mais recentemente, da plataformização do ensino. A SEDUC afirma que, desde dezembro de 2024, oferece atendimento psicológico e psiquiátrico aos servidores por meio do programa Viva Bem.

Segundo a mentora espiritual de Veruschka, a Iyalorixá Cláudia de Oyá,  a demissão causou um sentimento de abandono na professora diante de toda uma vida dedicada à educação: “ela começou a perder muito peso e tinha um sentimento de solidão. Se sentiu muito perdida em meio a todo o esforço de uma vida”, explicou. 

Veruschka e a Iyalorixá Cláudia de Oyá durante aula na UNEAfro
Veruschka e a Iyalorixá Cláudia de Oyá durante aula na UNEAfro

Fabiana tratou “repetidamente” de pautas raciais e indígenas

Fabiana de Abreu foi exonerada em maio de 2024, também durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas. Em 2017, ela foi afastada por 90 dias, sem salário, após conflitos com a direção da mesma escola de Veruschka em Guarulhos. A suspensão de 2017 foi anulada e Fabiana voltou à escola após 39 dias. Segundo ela, o prazo para punição já havia prescrito. “Mas quando eu retornei, começou outro processo.” Nele, Fabiana foi acusada de falta de urbanidade, insubordinação, tumulto em reuniões pedagógicas, falhas no lançamento de notas e de incitar alunos a atos contra a direção. O processo registra ainda que ela trabalhava “repetidamente questões sobre índios, negros e movimentos sociais para todas as turmas, sob a justificativa de que tem liberdade de cátedra”. 

A defesa da professora considera as acusações “comprovadamente distorcidas” e alega também a prescrição. A SEDUC diz que os processos de Fabiana e Veruschka apontam interrupções reiteradas nas reuniões pedagógicas e conflitos com a gestão, e que houve tentativas prévias de mediação.

Fabiana de Abreu está entre os casos de exonerações de professoras via PAD em São Paulo.
Fabiana de Abreu foi exonerada em maio de 2024, também durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas

Com o avanço conservador sobre a educação, diz Ximenes, o estatuto que embasou as demissões “passa a ser cada vez mais reivindicado como possibilidade de contenção de educadores que propõem ações de educação democrática, antidiscriminatória e mobilizações no âmbito da escola pública”.

Fabiana diz que estaria “um pouco mais tranquila” se tivesse sido demitida sozinha. Por causa do afastamento dela, em 2017, outros professores que foram ao ato sindical, como Veruschka, passaram também a responder a processos. Com a exoneração, ela também perdeu o direito de tratar o câncer da mãe no hospital dos servidores. “Esses processos atrasam toda a nossa condição de existência. A cabeça adoece”, afirma a docente, que recorreu à justiça sobre a demissão.

Fabiana liga o caso dela à adoção de plataformas digitais nas escolas estaduais, a partir de 2024: professoras como ela e Veruschka, diz, foram afastadas para que as dirigentes pudessem “de maneira mais sossegada implantar o projeto do governo”. Diego de Freitas, professor de filosofia que trabalhou com Veruschka, vê o modelo como “uma educação enlatada, ultraprocessada”, na qual a colega não se encaixaria. “Ela sempre estava defendendo uma educação democrática, a liberdade de cátedra e isso causava tensão no ambiente.”

Para Ximenes, o controle do currículo, a obrigação de alimentar as plataformas e a cobrança de metas nas avaliações eliminaram a pluralidade pedagógica nas escolas paulistas. “Tudo já vem dado, plataformizado e construído”, diz. “Aqueles que não se plataformizam ou não performam se colocam em risco.” Uma nota técnica da Rede Escola Pública e Universidade (Repu), de julho de 2025, aponta que o tempo de uso das plataformas é monitorado, com possibilidade de punição a professores e diretores.

Caso Maitée: “debates polêmicos” sobre sexualidade e religião

Maitée Nogueira dava aulas há mais de vinte anos quando entrou em conflito com a direção da Escola Estadual Walkir Vergani, em São Sebastião, em 2023. O processo a acusa de descumprir o horário de trabalho, de falta de urbanidade, de condutas discriminatórias e de insubordinação grave, e menciona “debates polêmicos” sobre sexualidade e religião. A Procuradoria-Geral do Estado reconheceu não haver documentação oficial que comprovasse o descumprimento da jornada de trabalho. A demissão foi determinada em agosto de 2025, também na gestão de Tarcísio de Freitas.

“Está na ordem do dia da Secretaria de Educação exonerar, pois qualquer investigação séria teria parado quando comprovei que cumpri meus deveres como professora”, afirma Maitée. Ela também explica que os supostos “debates polêmicos” são inerentes à disciplina e que sempre seguiu o currículo. Os conflitos, diz, deveriam ter sido mediados pela coordenação. Sua advogada considera as acusações “frágeis” e “contraditórias” e afirma que a professora “era perseguida, veladamente, pela gestão, tendo ainda de lidar com o preconceito decorrente de sua orientação sexual”.

A SEDUC afirmou à reportagem que o processo apurou agressões verbais contra estudantes e servidores, linguagem ofensiva, intimidação de alunos, recusa em usar o nome social de uma estudante e comentários discriminatórios, além de abandono de atividades, atrasos frequentes e descumprimento de obrigações pedagógicas. Demitida, Maitée não pode assumir outro cargo público, mesmo que aprovada em concurso. “Não posso mais exercer a profissão em que atuei por 20 anos, na qual estudei e me preparei”, desabafa. 

Maitée Nogueira está entre os casos de exonerações de professoras via PAD em São Paulo.
Exonerada em agosto de 2025, a defesa de Maitée Nogueira afirma que a professora “era perseguida veladamente pela gestão”

A SEDUC diz que os processos das três professoras citadas na reportagem garantiram o contraditório e a ampla defesa, que os recursos das professoras foram rejeitados e que nenhuma delas levou o caso à Justiça, o que contradiz as informações das defesas das professoras enviadas à Pública. Nos três casos, as professoras estão recorrendo contra as exonerações. 

Ximenes defende que os estatutos anteriores à Constituição de 1988 sejam atualizados para incorporar as premissas de uma educação democrática. “Para mim é escandaloso que a gente continue usando uma legislação do período da ditadura”, diz. “Assim, é muito mais fácil para as perspectivas autoritárias se desenvolverem, com essa infraestrutura jurídica à disposição.”

No velório de Veruschka, decidiu-se que o Sarau Resistência passaria a se chamar Sarau Veruschka de Sales Azevedo. Ela foi homenageada pela Associação Nacional de História (Anpuh) e recebeu uma moção de aplauso na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). A família tenta anular a exoneração, mesmo após o falecimento. “Como filha, eu gostaria de algo impossível: ter minha mãe de volta e que ela pudesse usufruir do cargo dela”, disse Rayssa: “O que a gente gostaria é que, pelo menos, o caso dela se revertesse.”

Com Flávio, o Brasil pode virar um grande garimpo

8 October 2026 at 16:00

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O amor da família Bolsonaro pelo garimpo não é novidade. Ficou famosa a frase de Jair Bolsonaro de que ele mesmo gostava de “faiscar”, de pegar uma bateia e sair em busca de pepitas de ouro. Porém, essa visão romântica de como funciona a mineração não ajudou a esconder os enormes danos causados pela ilegalidade garimpeira nos quatro anos de sua gestão.

Dados da plataforma independente Amazon Mining Watch revelam que, durante o governo Bolsonaro, a velocidade de crescimento dos garimpos foi exorbitante. No início de 2019, quando se tornou presidente, o monitoramento por imagens de satélite mostrava que existiam 201,5 mil hectares de áreas de mineração de ouro na Amazônia. Quatro anos depois, já eram 401,5 mil hectares, uma área igual a 3,3 vezes a cidade do Rio de Janeiro e 92% maior que no início do governo.

Para fins de comparação, a mesma ferramenta, que utiliza inteligência artificial para analisar imagens Sentinel-2 com resolução de 10 metros, indica que, durante o governo de Lula 3, a taxa de crescimento foi bem menor – 24,3%, elevando o total de áreas de garimpo na Amazônia a 499 mil hectares até a metade desde ano. Este resultado coincide com o aumento de ações de fiscalização durante a gestão petista. A repressão ocorreu principalmente em áreas de mineração nas terras indígenas e pela apreensão de máquinas usadas pelos criminosos ambientais.

Durante o governo de Bolsonaro, foram muitas as evidências de que os garimpeiros ilegais tinham portas abertas nos gabinetes de Brasília. Uma investigação do The Intercept revelou gravações nas quais Eduardo Bim, então presidente do Ibama, órgão que deve zelar pela proteção ao meio ambiente, pedia para fiscais aliviarem a barra de uma empresa investigada por falsificar lavras de extração de ouro. 

Essas evidências, de que os interesses escusos estão intimamente conectados ao clã Bolsonaro, foram reforçadas na semana passada com uma reportagem da Agência Pública mostrando que um dos chefões dos garimpos na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, foi um dos articuladores da fuga para os Estados Unidos de Alexandre Ramagem, o diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante a gestão Bolsonaro. Foragido da justiça, Ramagem está condenado a 16 anos de prisão por participação na trama golpista. 

Já faz mais de uma década que os arautos da extrema direita gostam de “lacrar” dizendo que o Brasil governado pelos candidatos de esquerda, como Lula e Dilma, estava a um passo de se tornar a Venezuela. Uma grande fake news: nada do que ocorreu aqui nas últimas duas décadas se compara com os sofrimentos causados pelos erros do chavismo no país vizinho. Aqui não houve mudança na Constituição para acabar com o limite de mandatos presidenciais. As eleições foram respeitadas e sempre aferidas por observadores transparentes. A autonomia entre os poderes segue preservada.

Mas é no tema da soberania sobre seus recursos naturais onde, infelizmente, Brasil e Venezuela estão se aproximando cada vez mais. A invasão promovida na Venezuela por Trump para impor um governo subserviente aos interesses dos Estados Unidos gerou uma nova corrida pelo ouro e minérios daquele país. A atual presidente, Delcy Rodríguez, tem se mostrado pródiga em deixar a exploração de petróleo e ouro nas mãos do governo norte-americano – em 18 de setembro, por exemplo, o Financial Times noticiou que  31 toneladas em barras de ouro estavam sendo negociadas para serem transferidas da Venezuela para o Banco Central dos EUA.

Isso ocorre exatamente no momento em que operações do exército venezuelano, com ajuda militar norte-americana, tentam dominar a atuação de grupos ilegais no Arco Mineral do Orinoco, uma grande zona mineira criada em 2016 por Nicolás Maduro com o objetivo de gerar novas receitas para seu regime autoritário. Nunca deu certo, pois as minas de ouro foram sempre controladas pelos chamados “sindicatos”, organizações infra-legais atuando em conluio com militares corruptos.

Até o momento, as ações de repressão também não estão funcionando. Como mostrou o site de notícias Armando.info, os grupos criminais continuam hackeando o sistema e contrabandeando ouro ilegal para dentro do mercado norte-americano. Na verdade, mais do que isso: a Venezuela se tornou um hub de lavagem de ouro ilegal. Os garimpos que ainda continuam operando em territórios indígenas no Brasil têm usado a estrutura clandestina do país vizinho para exportar ouro à Índia, Oriente Médio, EUA e Europa.

Assim como a venezuelana Delcy Rodríguez, Flávio Bolsonaro mostrou-se disposto a sacrificar a soberania de seu país. Já deu muitos sinais de que vai abrir portas para uma intervenção norte-americana para combater o crime organizado, caso eleito. Em todos os países da América Latina onde isso ocorreu, os resultados têm sido desastrosos. A presença dos Estados Unidos na Colômbia, no Peru, no México e na Venezuela não alterou o quadro de ilegalidade generalizada. Apenas levou a uma valorização dos produtos ilícitos, intensificação da violência e impulsionou a reorganização dos grupos criminosos.

Talvez o leitor menos conhecedor das agruras geradas pela mineração ilegal na Amazônia possa perguntar porque afinal não deveria o Brasil aproveitar a oportunidade e lucrar com as altas cotações do ouro. A questão é que, por detrás dos garimpos, há uma cadeia de danos ambientais e sociais. Se aqui, como na Venezuela, o caminho for fazer um acordo com os Estados Unidos, é muito provável que eles fiquem com os ganhos e nós com a contaminação dos rios e matas.

Ficções belicistas: a teatralização da guerra

By: A A
8 October 2026 at 16:00

Líderes europeus vestem uniformes militares e brincam com guerra nuclear. Uma ordem sem futuro troca esperança por medo e arrisca autodestruição.

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Em um surto de simulação, durante a recente Cúpula Europeia do Ártico, em Rovaniemi, Finlândia, líderes europeus vestiram trajes militares para transmitir uma mensagem de preparação para uma confrontação com a Rússia, enquanto a máquina política e midiática repete, quase em uníssono, o alerta contra a “ameaça russa”. A declaração oficial da Cúpula coloca a segurança no centro das discussões e insiste na necessidade de fortalecimento da presença e das capacidades europeias na região, considerada estratégica para a segurança continental.

Essa encenação tem algo de profundamente inquietante. Tais dirigentes apresentam-se na condição de representantes de sociedades mobilizadas para a guerra, enquanto governam países profundamente divididos e enfrentam uma crescente erosão da confiança pública. Por si só, essa distância entre a retórica das lideranças e a disposição real das sociedades deveria recomendar prudência. Em vez disso, assistimos à construção de uma atmosfera psicológica de confrontação. E é justamente aí que começa o perigo.

O risco real de autodestruição

Em primeiro lugar, há um elemento de fingimento, pois a Europa não dispõe das condições industriais necessárias para sustentar autonomamente uma mobilização militar prolongada na escala sugerida pela retórica belicista. O próprio esforço para reconstruir estoques, aumentar a produção de munições e recuperar capacidade industrial demonstra o quanto essa estrutura foi reduzida nas últimas décadas. Mas a questão mais grave não é industrial, mas estratégica.

A Federação Russa dispõe de um enorme arsenal nuclear e de sistemas de ataque avançados, inclusive mísseis hipersônicos. Isto não significa que a Rússia possua superioridade tecnológica em todos os campos, mas algo muito mais importante para essa reflexão: qualquer guerra direta entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Rússia envolveria forças capazes de provocar uma destruição de escala civilizacional. A Rússia e os EUA continuam concentrando a esmagadora maioria das ogivas nucleares existentes, ao mesmo tempo em que os principais Estados nucleares modernizam seus arsenais e os mecanismos de controle de armas se enfraquecem. Portanto, tratar uma confrontação direta com a Rússia como apenas mais uma opção de política externa não é demonstração de coragem: é cortejar uma possibilidade de autodestruição.

Quando se atravessa determinado limiar, já não existe garantia de que os acontecimentos permaneçam sob o controle daqueles que os iniciaram. É este o ponto ausente da atual teatralização belicista.

E há algo ainda mais perturbador. A linguagem da destruição voltou a ser pronunciada abertamente pelas próprias lideranças ocidentais. Na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Donald Trump proclamou que os EUA poderiam “aniquilar” o Irã caso não fosse alcançado um acordo. Se uma ameaça dessa natureza – uma “solução final” – pode ser pronunciada na ONU sem provocar uma ruptura política proporcional à enormidade do que está sendo dito, algo extremamente grave está ocorrendo com a percepção ocidental dos limites da guerra. Porque a normalização da linguagem de aniquilação não permanece necessariamente confinada ao adversário contra o qual foi originalmente dirigida.

Hoje pode ser o Irã. Amanhã, numa espiral de escalada que ninguém consiga mais controlar, podem ser cidades europeias. É neste sentido que os atuais devaneios belicistas deixam de ser apenas uma encenação política e passam a representar um perigo concreto de autodestruição da própria civilização europeia. A Europa, que durante séculos foi um dos centros fundamentais da civilização ocidental, atravessou duas guerras mundiais e conheceu diretamente o que significa transformar rivalidades políticas em guerras de aniquilação. Justamente por isso, seria de esperar que suas lideranças fossem as primeiras a compreender que uma guerra entre potências nucleares não oferece uma segunda oportunidade para se corrigirem erros de cálculo.

No entanto, os vemos brincando com símbolos militares, discursos de mobilização, inimigos existenciais e horizontes de confrontação, como se ainda estivéssemos no mundo anterior a Hiroshima e Nagasaki. A ficção consiste precisamente nisso: representar a guerra como instrumento político disponível sem encarar até o fim o que ela poderia significar. E, se a confrontação escapar ao controle, não serão apenas governos, partidos ou alianças militares que pagarão o preço, mas a própria civilização que esses dirigentes afirmam estar defendendo.

Quem precisa da ameaça?

Então, perguntemos: quem está por trás de toda essa falsidade? Quem alimenta essa representação? Quem necessita dessa atmosfera permanente de ameaças? E por que uma ordem política em evidente crise de legitimidade parece encontrar na perspectiva da guerra uma das últimas narrativas capazes de justificar a sua própria continuidade?

A resposta mais simplória consistiria em explicar essa atitude como uma tentativa de manter regimes impopulares sob uma imaginária ameaça externa, ao mesmo tempo em que se condenam ou reprimem as forças políticas emergentes, apresentadas como agentes externos ou instrumentos de uma potência inimiga – no caso, vinculadas à “besta” russa.

Sem dúvida, há algo disso. A História oferece numerosos exemplos de governos que recorrem à ameaça externa para recompor coesões internas deterioradas, desacreditar adversários e justificar medidas que enfrentariam maior resistência em circunstâncias normais. Mas essa explicação é insuficiente. A crise não diz respeito apenas à legitimidade de um grupo de líderes europeus. Ela atinge o próprio sistema que os colocou nessa posição de poder – e é ele que está em crise.

A crise da ordem liberal-financeira

O chamado “mundo baseado em regras”, a globalização financeira, o livre comércio elevado à condição de dogma e a progressiva substituição da economia produtiva pela financeirização, estão sendo confrontados pelo retorno do Estado nacional soberano, das políticas industriais, da segurança energética, das cadeias produtivas estratégicas e da defesa dos interesses econômicos nacionais. Paradoxalmente, esse retorno do Estado nacional poderia representar também um caminho para que o Ocidente recuperasse parte de suas próprias raízes civilizatórias, essencialmente cristãs, nas quais o poder político não era concebido como absoluto, mas submetido a uma ordem moral superior.

Em profundidade, porém, o que se encontra por trás dessas quimeras é uma crise ainda maior: a crise do sistema liberal-financeiro organizado em torno de bancos centrais “independentes”, da autonomia crescente do poder financeiro em relação às comunidades nacionais e de uma concepção econômica que, ao longo de décadas, deslocou progressivamente o centro da riqueza da produção para as rendas financeiras. Esse sistema possui raízes históricas na formação da ordem comercial e financeira anglo-holandesa dos séculos XVII e XVIII, que posteriormente seria projetada sobre grande parte do mundo por meio das estruturas imperiais e financeiras britânicas e, depois, estadunidenses.

Com o passar do tempo, esse modelo adquiriu formas novas, mas conservou uma característica essencial: a capacidade do poder financeiro de se apresentar como uma realidade quase exterior à política, como se suas decisões fossem técnicas, neutras e independentes das escolhas soberanas das sociedades. É justamente essa arquitetura que hoje começa a ser questionada.

Uma religião secular sem promessa de redenção

O sistema profundo das oligarquias ocidentais perdeu a capacidade de gerar ideias e projetos capazes de mobilizar as sociedades em torno de um horizonte de futuro. Essa esterilidade se expressa também na mediocridade de grande parte das atuais lideranças, cada vez mais administradoras de uma ordem em crise do que criadoras de uma nova realidade política. A política liberal transformou-se, assim, em uma espécie de religião secular sem promessa de redenção. E esta talvez seja uma de suas características mais inquietantes.

Os grandes movimentos políticos dos séculos XIX e XX, mesmo quando conduziram sociedades inteiras à catástrofe, ainda prometiam alguma forma de redenção histórica: a sociedade sem classes, a grandeza nacional, o império, a revolução, o homem novo ou uma ordem futura supostamente definitiva.

A religião secular da ordem liberal em decomposição já não oferece sequer isso. Ela exige sacrifícios sem apresentar um paraíso futuro. Exige empobrecimento em nome da estabilidade, perda de soberania em nome das regras, desindustrialização em nome da eficiência e da “proteção” do meio ambiente, censura em nome da democracia e, finalmente, admite até mesmo o risco da guerra em nome da preservação de uma ordem cuja finalidade já não consegue explicar. Não existe mais uma verdadeira promessa de redenção. Existe apenas a promessa de que o sistema continuará existindo. Nas palavras do ex-chanceler da União Europeia, Josep Borrel, “nós somos o jardim do Éden, o resto é a selva”.

Nesse ponto, a política deixa de defender a sociedade e passa a exigir que a sociedade se sacrifique para defender o sistema. É precisamente aí que uma religião secular pode tornar-se autodestrutiva: quando a conservação da ordem existente passa a valer mais do que a conservação daqueles que vivem sob essa ordem.

Da minoria criadora à minoria dominante

Esse é, talvez, um dos sinais mais profundos de esgotamento civilizatório. Uma elite deixa de ser criadora quando já não consegue imaginar um futuro distinto da simples continuação de si mesma. O historiador inglês Arnold Toynbee percebeu com enorme profundidade esse fenômeno ao distinguir a minoria criadora da minoria dominante. Uma minoria criadora exerce liderança, porque oferece respostas capazes de inspirar adesão. Sua autoridade nasce de sua capacidade de responder aos desafios históricos e de produzir formas novas de organização, cultura e sentido. Quando essa capacidade desaparece, a antiga minoria criadora pode converter-se numa minoria dominante, que já não lidera porque inspira, mas conserva-se porque controla. A persuasão é progressivamente substituída pela disciplina; a imaginação, pela administração; o projeto, pela propaganda; e a confiança, pelo medo.

É nesse momento que o sistema corre o risco de transformar a própria crise em justificativa para continuar existindo. Quanto mais fracassa, mais exige poder. Quanto mais perde legitimidade, mais necessita de inimigos. Quanto menos consegue imaginar um futuro, mais dramaticamente precisa apresentar o presente como uma batalha existencial.

Quando o temporal ocupa o lugar do transcendente

Aqui, a reflexão do filósofo germano-estadunidense Eric Voegelin sobre as ideologias totalitárias como “religiões políticas” se encontra com a de Toynbee sobre a desintegração das civilizações. Quando uma sociedade perde a referência a uma ordem transcendente, a necessidade humana do absoluto não desaparece necessariamente. Ela pode simplesmente ser transferida. A nação, a raça, a classe, o partido, a revolução, o mercado, as “regras”, a democracia entendida não como regime político, mas como categoria moral absoluta – qualquer realidade temporal pode ser sacralizada e elevada a uma condição que já não admite questionamento.

Nesse processo, o temporal ocupa o lugar do transcendente. Mas há uma diferença decisiva entre os antigos movimentos políticos e essa possível religião secular de uma ordem esgotada. Os primeiros prometiam uma redenção futura. Essa última parece pedir o sacrifício presente apenas para impedir que o sistema desapareça. É uma religião secular sem escatologia, paraíso, homem novo e um horizonte verdadeiramente novo. Seu único futuro é a continuação indefinida do presente.

Quando o medo substitui a imaginação

Possivelmente, essa ausência de futuro é o que explica a crescente importância do medo: do inimigo externo; da ruptura; da dissidência; da perda do controle. O medo de que aquilo que durante décadas foi apresentado como inevitável deixe subitamente de sê-lo. Quando uma ordem não consegue mais produzir esperança, precisa produzir medo. E quando o medo substitui a imaginação, o conflito pode converter-se numa forma de legitimação. A guerra, então, deixa de ser apenas um instrumento externo de política e pode tornar-se uma necessidade interna do sistema. É justamente aí que os devaneios belicistas contemporâneos adquirem uma dimensão muito mais profunda do que a discussão cotidiana sobre a Rússia, Ucrânia, OTAN ou os gastos militares.

A questão passa a ser civilizacional. Uma ordem que perdeu a capacidade de imaginar o seu próprio futuro pode começar a aceitar riscos que, em condições normais, pareceriam impensáveis. Pode terminar confundindo a sobrevivência de suas estruturas com a sobrevivência da própria civilização. E essa confusão é uma das mais perigosas que uma elite possa cometer. Porque instituições, regimes econômicos e sistemas políticos são históricos. Civilizações são muito maiores do que eles. Quando um sistema passa a exigir que a civilização se arrisque para que ele próprio sobreviva, a relação entre meios e fins foi completamente invertida.

Os sinais de uma mudança de época

É nesse ponto que se torna possível falar verdadeiramente em autodestruição.

Uma civilização pode começar a autodestruir-se, não porque tenha deixado de acreditar, mas porque transformou a sua própria ordem histórica em objeto de crença absoluta. E quando os dirigentes deixam de imaginar um futuro diferente daquele que administram; quando a guerra começa a substituir a política; quando o medo substitui o projeto; quando a conservação das instituições passa a ser considerada mais importante do que as pessoas para as quais essas instituições deveriam existir; não estamos diante apenas de uma crise política ou econômica, mas de uma profunda crise civilizacional.

E quando uma elite perde a capacidade de imaginar, criar e persuadir, isto pode ser o sinal premonitório de que uma época está terminando. Mas não necessariamente de que a civilização esteja condenada. Pode significar exatamente o contrário: que as estruturas que já não conseguem responder aos desafios do presente estão abrindo espaço para outras formas de organização, outras ideias e uma recuperação de princípios que pareciam esquecidos. Porque a perda da imaginação de uma ordem não significa o fim da imaginação humana. E quando aqueles que governam já não conseguem conceber nada além da perpetuação de si mesmos, talvez, este seja precisamente o primeiro sinal de que algo novo começa a aproximar-se.

Caixa-Preta do Bolsonaro

8 October 2026 at 10:00

O especial Caixa-Preta do Bolsonaro é uma série de reportagens feitas a partir de pedidos de Lei de Acesso à Informação – viabilizada graças ao apoio de milhares de leitores – que revela os potenciais crimes e abusos cometidos pelo governo Bolsonaro que ficaram escondidos por trás de sigilos, negativas e outras táticas de sonegação de informação. Apoie nosso trabalho hoje e ajude a Pública a continuar investigando o que tem na caixa-preta do governo Bolsonaro.

Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas

7 October 2026 at 23:26

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

O primeiro turno da campanha eleitoral de 2026 durou 50 dias e registrou 134 episódios de violência política contra candidatos e candidatas, além de agentes políticos.Um aumento de 11% em relação aos 121 casos registrados no mesmo período da eleição municipal de 2022.

Os 134 episódios representam um caso de violência política a cada nove horas de campanha. E apesar das mulheres serem apenas 35% do total de candidatos, elas foram a maioria (52%) das vítimas do primeiro turno, segundo o levantamento.

Os dados integram a 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, realizada pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global, que pesquisa o tema desde 2016. O levantamento foi divulgado nesta quarta, dia 7 de outubro.

A porcentagem de vítimas mulheres aumenta mais ainda quando a pesquisa separa apenas os casos envolvendo candidatas e candidatos. Dos 134 episódios de violência política durante o primeiro turno, 102 foram dirigidos a pessoas que disputavam o pleito. Desse total, 60 eram mulheres, quase 59% do total.

Para a coordenadora do Setor de Incidência da Terra de Direitos, Gisele Barbieri, “os dados trazem importantes achados para identificar os ambientes em que agentes políticos estão mais vulneráveis e pensar medidas de proteção. Quando eleitas, essas pessoas passam a ser vítimas de violências nos seus locais de atuação, seja no Parlamento ou no Executivo”, afirma.

Machismo e misoginia se misturam nos casos de violência política

A pesquisa mostra que a violência política é marcada pela discriminação de gênero e raça. Quando se considera o universo completo de 70 casos de violência política contra mulheres, 45 casos envolveram machismo ou misoginia, nove envolveram racismo e cinco envolveram transfobia. Mulheres pretas foram vítimas de 25% dos casos de violência política medidos nesse primeiro turno.

A ameaça foi o tipo de violência política mais recorrente no período, com 64 casos registrados. Na sequência, aparecem 33 episódios de ofensa e 19 de agressão física. Também foram registrados 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos.

Mais da metade dos casos (71 ocorrências) aconteceu nas ruas, durante atividades públicas de campanha. O ambiente virtual concentrou 31,3% dos episódios.

Além disso, apenas candidatas sofreram ameaças de violência sexual. Em todos os sete casos, as vítimas eram mulheres.

“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira”, afirmou em nota Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global.

Policiais e outros agentes públicos foram a maioria dos autores

Em quase 20% dos casos o autor identificado da violência política era um agente público, incluindo parlamentares e forças de segurança. Até o encerramento da coleta de dados pelas organizações autoras da pesquisa, nenhum dos 134 episódios havia resultado em alguma punição efetiva, limitando-se a medidas cautelares de urgência determinadas pela Justiça Eleitoral.

A região Nordeste liderou o número de casos (48), seguido pelo Sudeste (38). Entre os estados, São Paulo lidera com 16 casos, seguido por Rio Grande do Norte (13), Minas Gerais (12) e Rio Grande do Sul (10).

A presença de policiais entre os autores de violência política já havia sido detectada também em levantamento realizado pela Agência Pública durante o primeiro turno.

Há três anos os palestinos pagam pelo 7 de outubro

7 October 2026 at 16:00

Quis o destino que eu estivesse na Cisjordânia neste 07 de outubro, e que essa coluna fosse publicada no exato dia em que, 3 anos atrás, o ataque terrorista do Hamas que resultou na morte de cerca 1000 pessoas entre civis e militares, deu início a um massacre cometido pelo Estado de Israel que, até agora, somente na Faixa de Gaza, já matou mais de 75 mil e feriu mais de 170 mil palestinos. 

Eu sei que o Brasil pega fogo neste momento e é difícil falar em outra coisa ou pensar em um povo que está tão longe geograficamente. Mas talvez nós possamos aprender uma coisa ou duas sobre resistência e resiliência com um povo que vem sendo oprimido, colonizado e sofre tentativas reiteradas de apagamento há mais de 100 anos. 

Meus avós são sobreviventes do Holocausto. Minha avó polonesa e meu avô romeno passaram por campos de concentração e tinham números tatuados neles. Ainda jovens migraram para o Brasil, onde se conheceram e formaram família. E é também por respeito a essa história que não posso me calar diante de um genocídio étnico que acontece live stream nos celulares na palma de nossas mãos. 

Nos últimos dias estive rodando pela Cisjordânia, visitando comunidades palestinas que estão sendo despejadas, torturadas, roubadas e dizimadas por milícias israelenses formadas por colonos e por militares. A Cisjordânia é um território palestino que fica no Oriente Médio, situado na margem ocidental do rio Jordão, entre Israel e a Jordânia. É dividida em três zonas administrativas – zonas A, B e C –  segundo os Acordos de Oslo, assinados na década de 1990, que previam transferir gradualmente o controle do território para a Autoridade Palestina. A área teoricamente estaria sob controle total da Palestina. A área B teria um controle misto entre Israel e Palestina e a área C, cerca de 60% da Cisjordânia, está sob controle israelense total, tanto para administração civil quanto para segurança. 

Mas atualmente esses contornos estão cada vez mais borrados, com colonos israelenses tomando cada vez mais áreas.

Tudo isso ainda vai virar reportagem e indico o Pauta Pública desta sexta-feira (09/10) com o diretor geral do Centro de Assistência Jurídica e Direitos Humanos de Jerusalém (JLAC) e membro do Conselho de Comissários da Comissão Independente de Direitos Humanos da Palestina (ICHR), Issam Aruri, que traz uma verdadeira aula sobre o conflito na região. 

Mas queria contar aqui na coluna uma das histórias que mais me marcou até agora: A de uma mulher de 67 anos, moradora de um vilarejo em Masafer Yatta, que fica nas colinas ao sul da cidade de Hebrom, cerca de 70km ao sul de Ramallah – capital administrativa da Cisjordânia. Não vou revelar seu nome por motivos óbvios. Mas sua vila está totalmente cercada por assentamentos israelenses, que tentam a custo de barbárie expulsar os palestinos que estão ali há dezenas de gerações, vivendo da colheita de azeitonas e do pastoreio de ovelhas e cabras. 

Casa de palestinos em Masafer Yatta, na Cisjordânia
Casa de palestinos na comunidade de Masafer Yatta, na Cisjordânia

Sua vila não tem água encanada nem luz. Se vê apenas pedras, areia, pequenas casas e barracões. Os cabos de energia passam por cima da comunidade, de um lado a outro, para os assentamentos israelenses, mas os palestinos não podem usar. Foi instalado um portão na estrada, que pode ser fechado pelos soldados a qualquer momento e por tempo indeterminado, impedindo os moradores de entrar ou sair, mesmo que em emergência médica. Essa é uma prática bastante comum na região. Até mesmo ruas dentro de comunidades são fechadas indiscriminadamente pelas forças israelenses. 

“Foi aqui que um colono israelense matou meu filho”. A senhora aponta para um ponto do centro de convivência, que já foi destruído e reconstruído várias vezes e que abriga o único banheiro disponível para a comunidade. As casas tinham banheiro. Mas eles foram destruídos ou absurdamente declarados como zonas militares, tornando-se inacessíveis aos moradores. Sua filha mora em uma casa há poucos metros dali e não pode usar o próprio banheiro nem construir outro sem permissão. Mais: o celeiro, que fica no quintal da casa, foi declarado “zona militar” e trancado, então a família não pode levar os animais para o pasto ou mesmo chegar perto do pequeno barracão. O exército israelense passa por lá uma vez na semana (quando muito) para alimentar as ovelhas e cabras, que estão obviamente morrendo paulatinamente. 

“Um colono entrou na comunidade e atirou na cabeça do meu filho. Meu neto, aquele ali  – aponta para um gurizinho de uns 3 anos – estava no colo dele. Entrou e atirou. Assim. Na frente de todo mundo. Chamamos a polícia que veio, levou o corpo e não puniu o colono. Alguns dias depois ele estava caminhando por aqui normalmente e eu perguntei: ‘Por que você matou o meu filho’? Ele me empurrou ali, eu caí de cabeça em uma pedra e desmaiei. O portão estava fechado e só pude ser levada ao hospital dias depois. Sofri uma concussão e perdi a visão. Quebrei ossos do corpo. Mas nenhuma dor foi igual a de não poder enterrar meu filho. A polícia levou o corpo e não nos deixou velar ou enterrar”, contou. Ela enxugava os olhos no hijab preto, que contornava seu rosto e se fundia ao vestido também preto. Uma mãe em luto há três anos.

Não faltam provas. Todas as comunidades que visitei me mostraram dezenas de vídeos de colonos invadindo, cortando as oliveiras centenárias, subindo à noite nos telhados das casas batendo os pés e cantando músicas, ameaçando botar fogo, e todo o tipo de humilhações e torturas inimagináveis. Em todas as vilas, ouvi que os moradores fazem turnos durante a noite, para que não morram queimados enquanto dormem. 

As violações também são amplamente registradas por organizações de direitos humanos na região. Eu vi as árvores cortadas. Eu vi os animais mortos. Eu fiquei do lado de fora dos portões e levei 4 horas para atravessar poucos quilômetros, porque no caminho havia pontos de checagem com soldados pesadamente armados que me fizeram descer do carro, mostrar meus documentos e passar minha bolsa em detectores. Eu visitei uma escola de crianças palestinas que era proibida de pôr o lixo pra fora e tinha que manter todo ele dentro das classes – não no pátio, dentro das salas – por semanas. 

Enquanto caminhava por um mercado árabe a céu aberto em Hebrom e ouvia histórias de porque os corredores estreitos haviam sido cobertos por grades – para evitar que pedras fossem jogadas do alto, fui cercada, junto a colegas jornalistas e guias palestinos, por um grupo de soldados israelenses usando roupas camufladas e rosto coberto, mais novos que meu filho. Um deles apontou sua metralhadora para nós. 

Ouvi de moradores que a Cisjordânia está virando Gaza. Mas também ouvi que eles não pretendem ir a lugar nenhum, que ali é sua terra há dezenas de gerações, que eles têm resistido. Que uma hora esse massacre vai ter que acabar. “O que eles vão fazer? Matar 7 milhões de nós? Nós não temos para onde ir, aqui é nossa casa”, me disse um senhor, diante das suas oliveiras centenárias queimadas por colonos israelenses.

Bandeira de Israel colocada por colonos no quintal da casa de palestinos em Masafer Yatta, na Cisjordânia
Bandeira de Israel colocada por colonos no quintal da casa de palestinos em Masafer Yatta, na Cisjordânia

Há três anos a Palestina é punida pelo 7 de outubro. Todos os dias. Mas teve uma frase que ouvi de uma mulher que conheci pelo caminho que acho que serve pra nós também, nesse momento da nossa história: 

“O mais difícil é não se tornar um monstro. Não desejar a morte deles como eles desejam as nossas. Enquanto eles passam com tanques sobre bebês em Gaza, eu quero o bem das crianças deles. Esse é um desafio e um exercício diário. Que a indignação nos fortaleça em nossa resistência, mas que não nos torne monstros”. 

Segundo turno no Brasil: que fatores levarão à vitória eleitoral?

By: A A
7 October 2026 at 16:05

Lula falhou em atender às demandas do povo – e agora enfrenta as consequências.

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O primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras terminou com o candidato Flávio Bolsonaro (PL) na frente de Lula da Silva (PT) por 47% a 45%. Nas eleições parlamentares, o PT e a esquerda sofreram derrotas esmagadoras em todo o país, indicando uma crescente rejeição da esquerda entre os brasileiros comuns. Agora, nas últimas semanas restantes antes da decisão final sobre quem governará o país a partir do próximo ano, a questão permanece aberta: que fatores serão considerados pelos eleitores na escolha do presidente?

O governo Lula tem tomado várias medidas consideradas “desesperadas” para reverter sua crise de impopularidade e retomar apoio na reta final das eleições. A ampliação de programas sociais é uma dessas medidas, mas sua eficiência política é cada vez mais contestável. Após décadas de redistribuição de renda nos governos PT, sem que isso representasse qualquer mudança real na situação dos trabalhadores, a avaliação dessas políticas tem se tornado cada vez mais negativa.

O problema central para Lula é que uma parcela significativa do eleitorado parece estar menos interessada em novas medidas paliativas e mais preocupada com problemas que permanecem presentes em sua vida cotidiana. Segurança pública, emprego, renda, inflação e qualidade dos serviços públicos têm impacto muito mais direto sobre a população do que os grandes debates promovidos pelo governo.

A segurança talvez seja o exemplo mais evidente. O avanço das organizações criminosas, a expansão territorial do crime organizado e a sensação de impunidade transformaram a violência em uma das principais preocupações nacionais. Para milhões de brasileiros, a questão deixou de ser uma discussão abstrata sobre políticas de segurança. Trata-se de uma realidade cotidiana que determina onde as pessoas podem morar, trabalhar, circular e até mesmo abrir um negócio – ainda mais especialmente nos grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro, onde o crime organizado já controla algo entre 60% e 70% do território total da cidade.

Nesse contexto, propostas associadas à agenda cultural progressista também podem produzir custos eleitorais importantes para a esquerda. O debate brasileiro sobre questões de gênero, identidade, educação e direitos de minorias passou a reproduzir cada vez mais conflitos políticos originados nos Estados Unidos e na Europa. Uma parte considerável da população, porém, não se identifica com essa agenda e considera que o Estado deveria concentrar seus esforços em problemas materiais mais urgentes.

Isso ajuda a explicar por que o segundo turno provavelmente será decidido muito mais por questões domésticas do que pela política externa – que é a parte mais elogiada do governo Lula na comunidade internacional de especialistas. Os BRICS, a Palestina ou a posição brasileira diante dos Estados Unidos podem mobilizar setores politizados da sociedade, mas definitivamente não constituem as principais preocupações do eleitor médio quando ele decide seu voto.

A política externa possui importância estratégica para o Estado brasileiro. O cidadão comum, entretanto, tende a avaliá-la através de seus efeitos concretos sobre a própria vida. Uma política externa considerada bem-sucedida não compensará, por si só, uma percepção de insegurança, desemprego ou deterioração dos serviços públicos. E à medida que o governo Lula evita combater o problema do crime organizado diretamente, cresce naturalmente a popularidade de uma direita que elogia os EUA por considerarem as facções criminosas brasileiras terroristas.

O mesmo vale para os já mencionados programas de transferência de renda. Esses mecanismos podem até possuir uma função social importante em um país marcado por desigualdades profundas, mas sua utilização como principal instrumento de política social apresenta limitações graves. Transferir renda pode aliviar uma situação de pobreza, mas não cria automaticamente empregos qualificados, não aumenta a produtividade e não reconstrói a indústria nacional. Pelo contrário, cria uma massa de precarizados dependentes de ajuda governamental. Quando a assistência se transforma em substituto permanente para políticas de desenvolvimento, o problema estrutural permanece.

É justamente nesse ponto que a disputa eleitoral entra em uma fase decisiva. O eleitor terá de escolher entre propostas diferentes para enfrentar problemas que não desapareceram durante os últimos anos. A capacidade de apresentar respostas convincentes para segurança, emprego, renda e ordem social poderá pesar mais do que discursos sobre grandes projetos geopolíticos.

O resultado do primeiro turno também demonstra que a direita brasileira conseguiu transformar o descontentamento doméstico em força eleitoral. A vantagem de Flávio Bolsonaro e a composição do novo Congresso indicam que existe uma demanda significativa por mudança. Isso não significa que todos esses eleitores compartilhem uma mesma visão sobre economia, política externa ou questões culturais. Significa, sobretudo, que existe uma insatisfação suficientemente ampla para alterar o equilíbrio político nacional.

Nas semanas restantes da campanha, portanto, a questão fundamental será saber se o governo conseguirá convencer o eleitorado de que suas políticas oferecem soluções duradouras ou se prevalecerá a percepção de que foram adotadas medidas paliativas para administrar problemas que continuam sem solução.

Falar sobre gênero, direitos humanos ou Palestina definitivamente não ajudará Lula a se reeleger.

Processo da Advocacia da União contra bets tem 14 empresas que passaram impunes por CPI

7 October 2026 at 08:00

Em junho de 2025, a CPI das Bets terminou em pizza – como se diz quando uma investigação acaba sem punir ninguém. Mas agora, mais de um ano depois, as empresas que passaram impunes pela comissão estão de volta, desta vez como alvos de uma ação civil pública na Justiça.

No dia 28 de setembro, a Advocacia-Geral da União (AGU) entrou na Justiça Federal em Pernambuco contra 17 empresas ligadas a 20 marcas de apostas online, pedindo ressarcimento de gastos pela União. A Agência Pública cruzou essa lista com a documentação reunida pelos senadores da CPI e descobriu que ao menos 14 delas estavam nos documentos da comissão como remetentes ou beneficiárias de transferências financeiras. Dessas, 12 foram citadas no relatório final. Esse documento, da então senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) – que não foi reeleita neste ano -, foi rejeitado por 4 votos a 3.

Na ação da AGU, o órgão pede que as empresas de apostas ressarcem o Sistema Único de Saúde (SUS) pelo tratamento de apostadores adoecidos, custo que o Ministério da Saúde (MS) estima em, no mínimo, R$ 2,6 bilhões. Pede também R$ 1 bilhão por danos morais coletivos e a devolução em dobro do que as pessoas diagnosticadas com ludopatia apostaram.

Aparecer nos papéis da CPI não indica, por si só, irregularidade. Nem todas as empresas aparecem como suspeitas. A Superbet, por exemplo, surge como titular legítima de uma autorização que outra plataforma teria usado indevidamente. Duas, a OIG e a Ventmear (Sportingbet), estão ligadas a pedidos de indiciamento, todos contra pessoas, não contra as empresas. Seis delas, OIG, Esportes Gaming, NSX, Ventmear, BPX e Foggo (Blaze), somam cerca de 31% do mercado, segundo as contas da própria AGU, e ocupam lugar de destaque nas 541 páginas deixadas por Thronicke.

Muitas siglas: Bets, CPI, MP de Lula e Fux no STF

A ação da AGU veio três dias depois da Medida Provisória 1.394, assinada pelo presidente Lula, que proíbe as apostas de quota fixa, tira as plataformas do ar até 6 de outubro e extingue as autorizações em 30 dias, sem devolver o que as empresas pagaram pelas outorgas. Se o Congresso não aprovar a MP em até 120 dias de tramitação, prazo suspenso durante o recesso parlamentar, ela perde a validade. A CPI já havia ido nessa direção: entre as vinte medidas do relatório derrubado estava a proibição de cassinos on-line, como o Tigrinho.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) já apresentaram pedido a Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), para suspensão dos efeitos da medida provisória.

Nesta segunda-feira, 5 de outubro, a AGU pediu que o STF rejeite a suspensão da Medida Provisória. Na manifestação, assinada pelo advogado-geral Jorge Messias, a AGU sustenta que o marco legal das bets, formado pelas leis 13.756/2018 e 14.790/2023, era “extensamente falho” e falhava em autorização, fiscalização, publicidade e prevenção à lavagem de dinheiro. Para concluir, a peça diz que “o ‘dragão’ era indomável”. O órgão cita dados oficiais segundo os quais os registros no SUS ligados ao jogo patológico cresceram 140% entre 2018 e 2025, e as apostas retiraram R$ 62,5 bilhões dos orçamentos familiares só em 2025. A AGU também pediu que o procurador-geral da República seja ouvido em 72 horas e sugeriu uma nova audiência pública sobre o tema, atualizando a realizada em novembro de 2024.

Como a CPI terminou em pizza

Em 26 de novembro de 2024, Fernando Oliveira Lima, o Fernandim OIG, sentou-se diante dos senadores da CPI das Bets amparado por um habeas corpus. Tinha 33 anos, disse ter estudado até o primeiro ano do ensino médio e se apresentou como empresário de tecnologia, criador de jogos para o Facebook que teriam alcançado 250 milhões de usuários durante a pandemia. Os senadores exibiram dois vídeos e perguntaram se ele conhecia os sites 7Games, R7Games e Betão. Ele conhecia e disse que pertenciam à OIG Gaming Brazil, da qual é sócio. Perguntaram se era dono do “jogo do tigrinho”, mas ele negou. Respondeu que a OIG pagava para oferecê-lo. O empresário contou ainda que, naquela mesma semana, a empresa havia sido uma das primeiras a obter a aprovação completa do Ministério da Fazenda para operar.

CPI das BETS (CPIBETS) realiza a primeira audiência com depoimentos de policiais civis envolvidos em investigações sobre fraudes em apostas e três representantes de casas de apostas.
A CPI das bets a fez audiência com depoimentos de três representantes de casas de apostas, entre eles Fernando Oliveira Lima, CEO da OIG Group

Fernando não era o único convocado do dia. A pauta listava também João Studart, dono da Betnacional, e Marcus Vinicius Freire de Lima e Silva, apresentado no requerimento como “diretor do Grupo Entain e proprietário do Sportingbet”. Studart faltou e só depôs uma semana depois. Marcus Vinicius não apareceu: na véspera, seus advogados alegaram que ele não fora intimado e que morava no exterior. As três empresas ligadas a eles, a OIG, a NSX (dona da Betnacional) e a Ventmear (operadora do Sportingbet), estão hoje entre as rés da AGU.

Seis meses depois, o relatório final propôs indiciar Fernando, um primo dele e o administrador da OIG, por lavagem de dinheiro e por associação criminosa. Marcus Vinicius e as influenciadoras Virginia Fonseca e Deolane Bezerra estavam entre os alvos de 16 pedidos de indiciamento, mas nenhum deles vingou com a derrubada do texto.

No especial Jogo Perigoso: o Brasil das Bets, a Pública contou os bastidores dessa votação. Votaram contra o relatório de Thronicke os senadores Ângelo Coronel (Republicanos-BA), Efraim Filho (PL-PB), Eduardo Gomes (PL-TO) e Professora Dorinha Seabra (União-GO). Eduardo Girão (Novo-CE), que votou a favor ao lado de Alessandro Vieira (MDB-SE), atribuiu o resultado a uma manobra do Centrão, com senadores que não acompanharam os depoimentos e só apareceram para votar. Thronicke contou à reportagem que passou a andar com seguranças do Senado após receber “recados” e ameaças veladas. Mesmo com a rejeição, ela levou o material às autoridades e diz ter apresentado, desde então, projetos de lei para endurecer o controle sobre as apostas.

O senador Eduardo Girão (Novo-CE) em reunião para apresentação do relatório final das CPI das BETS

Entre os documentos da CPI estava a carta de Vania Borges, que perdeu o filho para as bets, como revelou a Pública.

A apuração também mostra quem atuou na comissão a favor do setor. Ciro Nogueira (PP-PI) foi apontado por colegas como “advogado” de Fernandim OIG, que havia comprado três apartamentos de uma incorporadora da família do senador. Ângelo Coronel justificou o voto pela “falta de tempo” para analisar as 541 páginas do relatório e declarou abertamente ser favorável aos jogos como fonte de receita. O presidente da CPI, Dr. Hiran (PP-RR), foi criticado por não pautar todos os depoimentos aprovados. Os bastidores incluem ainda uma investigação da Polícia Federal sobre um lobista que teria cobrado R$ 50 milhões de empresários do setor para evitar convocações e indiciamentos, acusação sem comprovação oficial. Selfies de senadores com Virginia Fonseca durante o depoimento dela ajudaram a minar a credibilidade da comissão, cujo desfecho um integrante descreveu como “melancólico”.

Ação da AGU se apoia em números do setor

Na Justiça, a AGU seguiu outro caminho. As empresas foram escolhidas por um único critério, o tamanho. A AGU usou as vinte marcas de um levantamento da consultoria Blask, que juntas concentrariam cerca de 80% da receita do setor, e chegou às empresas que as operam, num mercado em que a Fazenda tinha 85 autorizadas em agosto deste ano. A Betano, sozinha, responderia por 21% do mercado. A OIG, com 7Games e Betão, pouco mais de 5%. Para justificar o foro em Pernambuco, a AGU invoca o Código de Defesa do Consumidor e a concentração de população vulnerável no Nordeste.

O país tem 28 milhões de apostadores, 10,9 milhões deles com padrão de risco. Os atendimentos no SUS por jogo patológico cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. Quase 1,3 milhão de pessoas pediram para serem excluídas das plataformas. No primeiro semestre de 2026, o INSS concedeu 260 afastamentos do trabalho por vício em jogo; em todo o ano de 2022, foram 11, segundo dados obtidos pelo UOL e citados na ação. Pela lei, cabe ao Ministério da Saúde 0,12% da arrecadação do setor, cerca de R$ 50 milhões no último exercício.

A tese é que o dano à saúde mental é inerente ao negócio, e não fruto do desvio de uma ou outra empresa. Por isso, a AGU propõe calcular a parcela das doenças atribuível às apostas e distribuir a conta conforme a fatia de mercado de cada ré. A fórmula vem de um julgamento de 1980 na Suprema Corte da Califórnia, contra fabricantes de um remédio para gestantes, e já foi usada pela Justiça do Rio Grande do Sul contra a Souza Cruz. A ação segue o molde da que a AGU move desde 2019 contra a indústria do cigarro.

A própria peça avisa que a participação no mercado “não constitui presunção de ilicitude”. O relatório de Thronicke, aliás, recomendava ao Ministério Público ajuizar ações civis públicas para indenizar consumidores lesados e já registrava a pressão sobre a rede de atenção psicossocial do SUS, cujos atendimentos por jogo patológico tinham passado de 841, em 2022, para 1.290 no ano seguinte.

A peça da AGU também traz estimativa do Ministério da Fazenda de que, somente em 2025, as apostas tenham retirado cerca de R$ 62,5 bilhões dos orçamentos das famílias brasileiras.

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

6 October 2026 at 21:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Em meio às acusações sobre a interferência das Big Techs na integridade eleitoral brasileira, plataformas digitais continuaram veiculando anúncios políticos irregulares e recomendando conteúdos de candidatos durante o período de resguardo do primeiro turno das eleições de 2026.

O período de resguardo para a circulação paga ou impulsionada de propaganda eleitoral na internet compreende as 48 horas anteriores e as 24 horas posteriores à votação, conforme previsto no art. 29, § 11, da Resolução TSE nº 23.610/2019. A norma também define, nos artigos 28 e 29, as formas de propaganda eleitoral na internet e as regras para o impulsionamento de conteúdo. 

O monitoramento identificou 568 anúncios irregulares na Meta, 18 anúncios ativos no Kwai e um no Google Ads, além de ao menos seis campanhas fraudulentas que imitavam o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O levantamento também encontrou recomendações orgânicas de conteúdos publicados por contas oficiais de candidatos no TikTok e no YouTube durante o dia da votação. Os dados são do Observatório das Big Techs, realizado pelo NetLab UFRJ, laboratório de pesquisa sobre internet e redes sociais vinculado à Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

O monitoramento foi dividido em duas frentes: o Observatório da Publicidade Política, voltado aos anúncios pagos, e o Observatório da Recomendação Algorítmica, que analisou os conteúdos sugeridos organicamente por TikTok, YouTube e Instagram.

Anúncios de TSE falso dizem que eleitor poderia votar pela internet

Na frente de publicidade política, foram identificados os 568 anúncios veiculados irregularmente na Meta relacionados a 15 candidatos, além de 18 anúncios ativos no Kwai e um anúncio ativo no Google Ads durante o período de resguardo. No Kwai, os pesquisadores também encontraram 45 anúncios de 10 páginas de candidaturas cuja data-limite de circulação havia sido alterada para permitir que continuassem ativos no dia da votação.

Entre os casos identificados na Meta estão ao menos seis campanhas fraudulentas que se passavam pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou pela Justiça Eleitoral. Segundo o NetLab, os anúncios eram veiculados tanto por perfis que imitavam contas oficiais, utilizando a marca da Corte e nomes como “TSE Informa”, quanto por contas aparentemente pertencentes a usuários comuns.

As campanhas promoviam a falsa ideia de que o TSE teria criado uma modalidade oficial de “voto digital”, que permitiria ao eleitor votar remotamente, de casa ou pelo celular. Para dar credibilidade à fraude, os anúncios exploravam situações que poderiam dificultar o comparecimento presencial às urnas, como fortes chuvas, problemas de saúde e dificuldades de locomoção.

Ao clicar nas peças, o usuário era direcionado para sites externos que solicitavam o CPF para supostamente iniciar a votação. Uma das mensagens identificadas no monitoramento dizia: “Você não precisa de fila para votar. O TSE criou o voto digital para que você participe desta eleição pelo celular, com total segurança e praticidade”. O NetLab aponta que esse tipo de conteúdo poderia induzir eleitores a acreditar que não precisariam comparecer presencialmente às suas seções eleitorais, além de criar riscos relacionados à coleta de dados pessoais.

O monitoramento também identificou anúncios da loja Vinho B II Mito, que promoviam produtos como vinhos, facas e bonés utilizando imagens de figuras políticas e manifestações explícitas de apoio a candidaturas.

O boletim aponta problemas de transparência nas próprias ferramentas utilizadas para fiscalizar a publicidade. Na Meta, os pesquisadores encontraram inconsistências entre os anúncios classificados como “inativos” e aqueles que permaneciam disponíveis como ativos na biblioteca da plataforma. No Kwai, foram identificados rótulos como “em pausa”, sem documentação clara sobre o significado desses status, além de divergências entre os dados exibidos na plataforma e os dados que poderiam ser exportados para análise.

Para a Pública, o Google afirmou que a política da empresa proíbe anúncios políticos no Brasil e que suas equipes atuam para impedir violações. A empresa também diferenciou a publicidade paga do conteúdo orgânico no YouTube, afirmando que, neste último caso, aplica suas Diretrizes da Comunidade de forma independente do alinhamento político dos criadores.

Íntegra do posicionamento do Google

“O Google apoia as eleições do Brasil ao conectar milhões de pessoas a informações confiáveis e de alta qualidade. Desde 2024, as políticas do Google Ads proíbem anúncios políticos no Brasil. Nós aplicamos nossas políticas e agimos imediatamente em caso de qualquer violação. Este estudo prova que nossas equipes preveniram abusos com sucesso e, por isso, apenas um anúncio foi identificado. Desde maio de 2024, o Google proíbe o uso do Google Ads para anúncios políticos no Brasil. Isso significa que anúncios relacionados a candidatos, partidos ou às eleições não são permitidos em nossas plataformas (inclusive durante as Eleições Gerais de 2026 no Brasil). Para o conteúdo orgânico no YouTube, aplicamos nossas Diretrizes da Comunidade globais e disponíveis publicamente de maneira consistente, independentemente do alinhamento político do criador, para proteger a integridade da plataforma e apoiar uma economia de criadores robusta e aberta.”

TikTok “para você” recomenda conteúdos políticos no dia de votação

Na segunda frente, o Observatório da Recomendação Algorítmica analisou como as plataformas recomendaram conteúdos políticos e de candidatos no dia da votação. Segundo o NetLab, a Resolução TSE nº 23.732/2024 estabelece regras sobre sistemas de recomendação e a propaganda eleitoral na internet. O monitoramento identificou recomendações de candidaturas pelo TikTok e pelo YouTube.

No TikTok, o feed “Para Você” apresentou a maior proporção de recomendações relacionadas à política, com 53,8% das sugestões analisadas sobre o tema. A plataforma recomendou 18 vídeos únicos de sete contas oficiais de candidatos. Flávio Bolsonaro (PL) apareceu em seis recomendações, seguido por Lula (PT) e Fernando Haddad (PT), com quatro cada. Jones Manoel (PSOL) e Gustavo Gayer (PL) tiveram duas recomendações cada, enquanto Nikolas Ferreira (PL) e Biólogo Henrique (MDB) tiveram uma cada.

No YouTube, a aba Shorts apresentou uma proporção menor de conteúdo político, de 1,26% das recomendações, mas também continuou sugerindo conteúdos publicados por contas oficiais de candidatos. Foram identificados 17 vídeos únicos de seis contas de candidatos. Lula apareceu em quatro recomendações, enquanto Jerônimo Rodrigues, Gleisi Hoffmann e Fernando Haddad tiveram três cada. Nikolas Ferreira apareceu em duas recomendações.

Já no Instagram, o monitoramento não identificou recomendações de conteúdos publicados por contas oficiais de candidatos na seção Reels. Os conteúdos relacionados à política representaram 1,8% das recomendações analisadas.

O NetLab aponta que a permanência dessas recomendações no dia da eleição pode produzir assimetrias de visibilidade entre candidaturas. Ao mesmo tempo, os pesquisadores ressaltam que as limitações de transparência das plataformas impedem determinar a dimensão exata dessas irregularidades e de seu alcance. Os resultados representam apenas uma amostra do problema, e não o universo completo de anúncios e recomendações que circularam durante o primeiro turno.

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

6 October 2026 at 20:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Dois governadores, dois senadores, quatro deputados federais e 23 suplentes no Congresso Nacional. Esse é o saldo das eleições para uma categoria muito próxima da direita e do bolsonarismo: os militares das Forças Armadas. Com raízes no Exército Brasileiro, um oficial de alta patente e dois de baixa patente são os responsáveis por fazerem dos resultados do último domingo (4) um marco histórico na militarização da política no país.

Nome forte do bolsonarismo na Câmara dos Deputados, o tenente-coronel da reserva do Exército Luciano Zucco (PL) teve 58% dos votos válidos para se tornar o primeiro militar das Forças Armadas eleito governador do Rio Grande do Sul desde os anos 1950 – quando o também tenente-coronel do Exército Ernesto Dornelles foi eleito.

Um amigo de Zucco dos tempos de Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), também se reelegeu governador no 1º turno – o capitão da reserva Tarcísio de Freitas (Republicanos), com mais de 62% dos votos válidos em São Paulo. Isso torna esta a primeira vez que dois governadores ex-Forças Armadas são eleitos desde a redemocratização.

Zucco vai governar o Rio Grande do Sul ao mesmo tempo em que o colega de Aman Tarcísio de Freitas estará à frente de São Paulo

No Senado, a partir de janeiro de 2027 dois militares se juntarão ao general da reserva do Exército Hamilton Mourão (Republicanos-RS), um dos fiadores do início da carreira política de Zucco, em 2018, e ao tenente-coronel aviador da reserva da Aeronáutica Marcos Pontes (PL-SP): o capitão da reserva Renan Contar (PL-MS) e o 3º sargento reformado do Exército Antônio Nicoletti (PL-RR). Desde a Constituição de 1988, o Congresso Nacional nunca teve quatro senadores oriundos das Forças Armadas.

Mais de 856 mil eleitores votaram no capitão Contar para senador em Mato Grosso do Sul, na eleição seguinte àquela em que ele quase se elegeu governador com apoio direto do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Antes, em 2018, o ex-capitão do Exército já tinha se tornado o deputado estadual mais bem votado da história de Mato Grosso do Sul, com 78 mil votos – marco não superado em 2026.

Atualmente deputado federal, o 3º sargento do Exército Antônio Nicoletti se elegeu senador por Roraima com apoio direto do candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ele deixou a caserna para fazer carreira na Polícia Rodoviária Federal (PRF), mas enfatiza até hoje nas redes sociais a sua origem como “militar do Exército”. No governo Bolsonaro, Antônio Nicoletti foi inclusive homenageado pelo Exército com a honraria da Medalha do Pacificador, como mostra o boletim da Força de julho de 2021.

Antônio Nicoletti foi eleito por Roraima e será um dos quatro militares a ocuparem cadeiras no Senado

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Juliano Cortinhas, o avanço de candidaturas militares destoa da aproximação das Forças Armadas com a candidatura (e o próprio mandato) do ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro.

“Vejo que as Forças Armadas se afastaram da família Bolsonaro durante o atual governo, e, nesta corrida eleitoral, o Flávio não contou com eles, nem se aproximou. Então acho que vemos um movimento de indivíduos, mais do que propriamente da instituição militar, diferentemente do que ocorreu em 2018”, avalia Cortinhas, que coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional da UnB.

“Acho que o resultado do 1º turno das eleições sugere uma nova tendência, com cada vez mais militares candidatando-se a cargos eletivos daqui pra frente. Mas isso é um problema porque, em geral, militares são despreparados politicamente, seja por sua formação ideológica, seja pelo fato de não serem forjados para a política – e, na minha opinião, eles não devem ser preparados para tal, sob o risco de não cumprirem sua função”, afirma.

Já para o co-autor do estudo Fardados Partidos, que reflete sobre as relações históricas entre as Forças Armadas e a política no Brasil, pesquisador e doutor em antropologia social pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Guilherme Lemos, o resultado das urnas mostra falhas do atual governo e de seus antecessores em separar os quartéis da política partidária.

“De modo geral, vejo como fruto de uma histórica politização das casernas e de uma incapacidade dos governos civis, sobretudo os de esquerda, de aprofundar o controle civil e democrático dos militares no Brasil. No fim das contas, os eleitos estão claramente alinhados à direita do espectro político, com uma retórica que reforça a noção de violência e de gestão da insegurança e do medo no país”, pontua Lemos.

Desde 2018, a alta hierarquia militar, sobretudo do Exército, percebeu as possibilidades de galgar novos espaços na política, seja no Congresso, no poder Executivo ou nos estados, e vejo esse avanço como fruto deste mesmo processo”
Guilherme Lemos
Pesquisador e doutor em antropologia social da UFSCar.

No total, dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Portal da Transparência mostram que ao menos 61 membros da ativa e da reserva da Aeronáutica, Exército e Marinha candidataram-se para cargos no Congresso em 2026. Seis se elegeram e outros 23 se tornaram suplentes na Câmara e no Senado, podendo assumir os cargos ao longo dos próximos quatro anos.

Os dados mostram que não houve polarização entre os militares políticos neste pleito. Dos 61 militares candidatos ao Congresso, 60 concorreram por siglas de direita, extrema direita e partidos “nanicos” alinhados ao Centrão. Apenas o suboficial reformado do Exército Antônio Carlos de Andrade (PT-RJ) concorreu por um partido de esquerda e não se elegeu, conseguindo apenas uma vaga de suplente na Câmara.

É um pressuposto do bom militar que ele não tenha viés político, porque ele deverá seguir ordens de civis de esquerda ou direita sem pestanejar. Mas no Brasil ocorre o contrário: desde a formação, militares são formatados pelo pensamento conservador, o que prejudica a sua função básica para o país”
Juliano Cortinhas
Pesquisador da UnB.

Concentração de candidaturas militares se deu no PL e no RJ

Sob influência da família Bolsonaro, o PL reuniu o maior número de militares candidatos no país, com 21 ao todo – um terço do total, sendo 15 para deputado federal, quatro para senador e dois para 1.º suplente (que assume a vaga no Senado caso o/a titular se ausente ou se licencie do mandato na Casa Alta).

O PL já abrigava os militares deputados federais atualmente com mandato, todos da reserva do Exército e candidatos nestas eleições. Além do tenente coronel Zucco e do 3º sargento Nicoletti, o coronel João Chrisóstomo (PL-RR) e os generais Eduardo Pazuello (PL-RJ) e Eliéser Girão (PL-RN) também saíram vitoriosos, reelegendo-se para mais quatro anos de mandato na Câmara dos Deputados.

Para o pesquisador Guilherme Lemos, o caso do general Girão é exemplar em relação à politização dos quartéis. “Junto com o general Augusto Heleno, Girão começou a bater de frente com o governo Lula no segundo mandato [do petista], em 2007, indo à mídia e ganhando visibilidade sem nunca ter sido punido pela caserna – permitindo que essa indisciplina militar crescesse ao longo dos anos”, disse.

O único dos atuais militares congressistas que saiu derrotado foi o amigo de longa data da família Bolsonaro, Hélio Lopes (PL-RR), subtenente da reserva do Exército, que acabou como 5º colocado na corrida pelo Senado em Roraima.

Nicoletti e Hélio Lopes receberam apoio de Flávio Bolsonaro em Roraima nas eleições 2026

Os dados do TSE mostram a disparidade entre o PL e o resto dos partidos que abrigaram militares candidatos. O Novo, segunda sigla com mais candidatos nesta categoria, teve seis concorrentes, sendo cinco para deputado federal e um para senador, mas nenhum se elegeu.

O estado do Rio de Janeiro foi o que mais se destacou na corrida militar por cargos no Congresso Nacional. Os dados do TSE mostram a presença de ao menos 15 militares candidatos pelo estado, quase o triplo do segundo colocado no ranking, São Paulo (6). Somente um desses candidatos se elegeu: o general Eduardo Pazuello (PL).

“O caso do general Pazuello se assemelha ao do general Girão, no sentido de ser um militar que cometeu um ato de indisciplina sem punição pelo Exército, quando participou de um evento político com o ex-presidente Bolsonaro no Rio de Janeiro e não foi punido. A migração dele para a política partidária se aproveitou disso e, para além, na sua campanha neste ano ele se dirigia pedindo votos à ‘tropa’ e à ‘família militar’ do Rio de Janeiro, ou seja, usando o seio militar como propulsor dos seus objetivos políticos”, acrescenta Lemos.

Caso do general Pazuello é apontado como referência no tipo de politização das Forças Armadas que, não punida, pode desvirtuar papel do serviço público, avalia pesquisador

General articulou contra PEC que restringe militares na política

Na atual e na próxima legislaturas, oito dos 594 parlamentares do Congresso Nacional são membros das Forças Armadas. A partir de 2027, além de trocarem duas cadeiras na Câmara por duas no Senado, a categoria ainda contará com dois governadores eleitos.

No atual governo, a base do presidente Lula no Congresso tentou aprovar uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para barrar – ou ao menos dificultar – candidaturas de militares a cargos eletivos. O tema chegou a avançar, mas uma articulação no Senado liderada pelo general da reserva e ex-vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos-RS) brecou a iniciativa até aqui. Como revelado à época pela Pública, Mourão contou com apoio de um dos vice-líderes do governo Lula, o senador Jorge Kajuru (PSB-GO), para frear a PEC.

A proposta está parada, no aguardo do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), dar andamento a debates e sessões plenárias para discussão da PEC – o projeto somente poderá ser votado após essas discussões. Até o momento, não há perspectiva de o tema voltar à pauta do Senado.

A proposta do governo visa que o militar seja imediatamente transferido para a reserva ao registrar sua candidatura, e somente aqueles com ao menos 35 anos de serviço poderão manter seus vencimentos enquanto militares em caso de vitória nas urnas. A mudança seria restrita às eleições federais e não atingiria outras corporações – como bombeiros e policiais militares.

A lei em vigor determina que militares da ativa podem permanecer como “agregados” das Forças Armadas desde a data do registro como candidato até sua eventual diplomação ou regresso à Força a que pertence, se não houver sido eleito, sem um prazo definido para seu eventual retorno à caserna.

Atualmente, qualquer militar com mais de dez anos de serviço pode se candidatar a cargos eletivos mantendo seus vencimentos, justamente na condição de “agregado” – que corta apenas o recebimento de gratificações derivadas da função específica exercida pelo militar candidato. Já no caso daqueles com menos de cinco anos de serviço, a exclusão das Forças Armadas é obrigatória por lei em caso de candidatura.

Pela regra atual, militares com mais de dez anos de serviço que se candidatam, mas não se elegem, podem voltar à ativa nas Forças Armadas. Mas, caso sejam eleitos ou apenas diplomados em cargo eletivo, vão para a reserva remunerada automaticamente. Na prática, isso garante a eles os vencimentos do seu último posto como militar pelo resto da vida.

Por que a proibição das Bets é tão importante

6 October 2026 at 18:06

Na sexta-feira, dia 25 de setembro, às vésperas do primeiro turno das eleições, o presidente Lula assinou a Medida Provisória (MP) 1394, que proíbe a atuação das bets no país. A MP é uma vitória, ainda que venha tarde.

É apenas o começo de uma batalha jurídica e regulatória que irá se desenrolar no próximo mandato eleitoral, com papel central tanto do presidente eleito quanto dos demais parlamentares. Afinal, deputados e senadores compõem as comissões mistas que analisam as medidas provisórias, e, para virar lei, uma MP também precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado. 

Aqui, quero enaltecer o papel fundamental que a cobertura jornalística da Agência Pública teve nessa decisão, e que minha colega Natália Viana detalha em sua coluna da semana passada.  

Que o vício em apostas – a ludopatia – tem um impacto grande na saúde da população, já está estabelecido, tanto em termos psicológicos quanto financeiros. Não são poucos os casos de pessoas que perdem bens materiais, se endividam e quebram relações familiares por causa das apostas.

O marido de uma amiga não tem celular desde o ano passado: foi a condição para que seguissem o relacionamento, depois de ele perder tudo o que tinham guardado e até vender o carro para seguir jogando. 

Rafael Borges Amaral, de 26 anos, perdeu a vida na batalha contra a ludopatia. A carta escrita por sua mãe, Vânia de Souza Borges, não foi ouvida pela CPI das Bets, mas alcançou o Brasil e ajudou a levantar a bandeira de muitas outras famílias pela proibição das apostas online.

A saúde das pessoas é muito mais importante do que qualquer impacto econômico. Antes de pensar no PIB ou na arrecadação tributária, é a vida que precisa ser colocada em primeiro plano. 

Então, mesmo se proibir as bets fosse ruim para a economia, seria a decisão acertada.

Mas este não é o caso. Para a economia do país, acabar com esses jogos é bastante benéfico.

Isso porque a renda que é absorvida pelas bets não retorna em mesmo volume para a economia do país. Ela é tirada de circulação, em grande parte apropriada pelas casas de aposta, muitas das quais nem no Brasil estão.

Então, além da renda que sai do bolso das famílias e prejudica suas contas diárias, a economia do país como um todo é afetada. 

Isso porque, quando alguém vai ao mercado e gasta dinheiro comprando um produto ou contratando um serviço, esse valor retorna em maior escala para a economia. É o que chamamos de efeito multiplicador. 

Por exemplo, se eu compro R$ 100 no mercadinho, estes R$ 100 viram a renda do comerciante. Ele, por sua vez, vai gastá-la, o que gera renda para outra pessoa, que também vai gastar, e assim por diante. No final, R$100 viram muito mais em atividade econômica. A roda da economia gira.  

Mas, se eu perco estes mesmos R$ 100 num cassino online, este dinheiro não comprou nada, não gerou demanda nenhuma. E a maior parte dele não vai retornar em prêmios, vai ser retida na casa de apostas.

Um estudo conduzido pelo professor Guilherme Klein para o Centro de Estudos de Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made/USP) dimensionou o impacto das bets nesse movimento. 

A conta é a seguinte. O Centro Celso Furtado estimou que, em 2025, houve uma transferência bruta de R$ 62,5 bilhões para as plataformas de apostas. Ou seja, somando tudo o que foi apostado e redistribuído em prêmios, as bets ficaram com mais de 60 bilhões para si. 

Com esse número, o professor estimou alguns cenários diferentes, com hipóteses mais ou menos otimistas sobre o papel econômico do setor de apostas, e chegou numa perda total para a economia brasileira de algo entre R$ 90,9 bi e R$ 141 bilhões de reais – ou de 0,7 a 1,1% do PIB do nosso país.

De um terço a metade do crescimento da economia brasileira em 2025. Até cinco vezes mais do que o impacto estimado para o tarifaço americano. 

A própria Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimou que o varejo sozinho deixou de faturar cerca de R$ 103 bilhões em 2024, devido ao direcionamento de recursos das pessoas para as bets.

Mesmo quando consideramos o ganho de arrecadação que a regulamentação das apostas trouxe, regular sai mais caro para o país do que proibir. No Estudo do Made, o efeito final é de uma redução entre R$ 14,6 bilhões e R$ 35,6 bilhões na arrecadação de impostos.

Isso sem nem considerar a elevação dos gastos em saúde pública para tratamento do vício em apostas. Conforme o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), as bets geram um custo anual para o SUS de R$ 30,6 bilhões. 

No fim, a soma do jogo é clara. Com a proibição, ganham as pessoas, sua saúde mental e financeira, e a economia do país. Só perdem, mesmo, as casas de apostas – e os influenciadores que elas remuneram. 

As contradições de Lula finalmente cobram o preço

By: A A
6 October 2026 at 18:00

Mesmo uma vitória de Lula, hoje improvável, não fará mais que dar uma sobrevida e prolongar a agonia num falso senso de estabilidade.

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A perspectiva sobre as eleições brasileiras após o 1º turno é unânime: Lula e o Partido dos Trabalhadores foram varridos e humilhados, e as perspectivas de uma virada nas eleições presidenciais é mínima.

Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, recebeu 56 milhões de votos, ou aprox. 47% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 53,8 milhões de votos, ou aprox. 45% dos votos válidos – o resultado leva ao 2º turno, a ser realizado no dia 28 de outubro. O problema para Lula é que o eleitorado dos candidatos que ficaram em 3º, 4º e 5º têm uma maior tendência para votar em Flávio Bolsonaro do que no próprio Lula.

Lula só tem como puxar votos tentando converter os que não foram votar, ou os que votaram nulo. São 30 milhões de eleitores nessas condições, portanto não é pouca gente. Mas historicamente, a tendência é que essa fatia do eleitorado aumente do 1º para o 2º turno, em vez de diminuir.

O revés de Lula, porém, não é apenas em sua própria disputa com Bolsonaro.

Em número de governadores estaduais, o seu partido, o PT, cai de 4 para 3 governadores. E o partido até conseguiu preservar seus assentos no Senado e somar 1 deputado federal a mais na Câmara, mas os seus rivais bolsonaristas do PL ganharam mais 13 cadeiras no Senado e 21 cadeiras na Câmara. Em outras palavras, mesmo que Lula ganhasse, não conseguiria governar.

A reação do partido de Lula e de seus militantes é a pior possível: responsabilizam o povo por “não saber votar” ou por “ser fascista”, os candidatos de micropartidos de esquerda por não terem desistido de suas candidaturas, alegam narrativas fantasiosas de “manipulação” por parte dos EUA e das redes sociais – tudo, menos admitir que o governo de Lula padecia de problemas sérios e foi incapaz de dialogar com a população e entender as suas demandas.

Pior: abraçam uma ilusão na qual o governo de Lula teria sido, na verdade, excepcional e no qual todos os índices econômicos seriam maravilhosos, e “os pobres” deveriam agradecer a Lula de joelhos e votar nele para sempre.

A realidade, porém, é que excetuando na região nordeste, onde Lula nasceu, o PT virou o partido da classe média progressista e dos centros urbanos, enquanto as cidades pequenas e médias e uma parte significativa dos setores populares abraçou o bolsonarismo. E por que?

No que concerne a economia, a percepção de melhora é falsa. O governo Lula criou ou aumentou mais de 30 impostos e taxas de todos os tipos, voltados em sua maioria contra a classe média e trabalhadora. Para piorar, apertou a regulamentação dos microempreendedores, dificultando a sua vida no que concerne questões tributárias.

Os empregos criados foram principalmente no setor de serviços e no extrativismo, para não falar nos trabalhos autônomos e precários. Em contrapartida, o governo multiplicou ao infinito os “benefícios sociais”, concedidos principalmente para a camada lúmpem da sociedade, parasitária e odiada pelos setores positivos. Aliás, apenas os setores mais ricos ligados às finanças receberam tantos benefícios quanto o lumpemproletariado no governo Lula. E não casualmente, as classes de apoio ao PT foram a classe A e a classe E, as duas pontas do sistema parasitário e improdutivo, que esmagam as classes produtivas (B, C e D) por cima (através da usura) e por baixo (através da criminalidade).

Não se pode subestimar ademais, o problema da segurança pública, para o qual temos alertado há muito tempo. O discurso de Lula sobre soberania é vazio quando ¼ da população brasileira (segundo estudo da Cambridge University Press) vive em território controlado por organizações narcotraficantes. A tolerância do brasileiro por essa situação acabou.

Mas a leniência do governo não. Ao contrário, o Brasil vive a situação esquizofrênica de ser suave com criminosos perigosos e extremamente repressivo contra quem diz coisas politicamente incorretas na internet. Tornou-se corriqueiro no Brasil que pessoas comuns seja presas e condenados por “crime de ódio” ao recusarem a entrada de alguma pessoa “trans” num banheiro feminino.

E num erro de julgamento crasso, o PT decidiu associar a própria sorte ao STF, exatamente o núcleo de poder liberal que garante a implementação de todas as pautas globalistas no Brasil e que opera um aparato draconiano de repressão e silenciamento. Lula se esqueceu de que ele próprio foi perseguido e preso pelo Judiciário brasileiro, e decidiu se aliar a este setor para tentar impor a mesma sina a Bolsonaro.

O tiro, porém, saiu pela culatra. A disputa de Lula é com Flávio Bolsonaro. Mas quem venceu essa eleição, estando condenado, preso, adoecido e censurado é Jair Bolsonaro.

Especulações sobre “interferência estrangeira” nas eleições são fúteis e pueris posto que desnecessárias. Todas as causas da derrota de Lula estão em seu próprio governo.

Nem na política externa – área mais elogiada pelos colegas estrangeiros – escapamos das contradições: condenação da Nicarágua no Conselho de Direitos Humanos da ONU, veto ao ingresso da Venezuela nos BRICS e deslegitimação da reeleição de Nicolás Maduro, aliança tácita com a França de Macron, Acordo UE-Mercosul, colaboração da ABIN com as inteligências da França e da Alemanha, pressão para tentar desacelerar o crescimento dos BRICS, e poderíamos continuar longamente.

É por isso que dentro do Brasil, o elemento da política externa não pode ser visto, nessas eleições, da maneira “dualista” como ele é visto de fora para dentro (em que se tem o mito de um “Lula multipolarista” e um “Bolsonaro atlantista”). Na verdade, tanto Lula quanto Bolsonaro jogam com os dois lados do campo geopolítico, são apenas seus discursos que são levemente divergentes. Naturalmente, os propagandistas de ambos os lados jurarão que não é assim, mas é o que a análise fria dos fatos aponta.

No fim das contas, estamos às portas do “fim da Era Lula”, e dos momentos finais de uma carreira política que marcou a história do Brasil, que teve seus altos e baixos, seus pontos positivos e negativos, mas que termina de um modo agridoce, pela ausência de um projeto de nação e pela obsessão oportunista de se perpetuar no poder a qualquer preço – inclusive ao preço de trair os princípios da época da fundação do Partido dos Trabalhadores.

Lula deixará o PT órfão. Não houve preocupação com formar um sucessor à altura de Lula. Pior: a práxis do PT o levou a esmagar os partidos de esquerda menores e a absorver seus principais quadros para podá-los e controlá-los antes que eles pudessem se tornar maiores que Lula.

Nesse sentido, com o fim da carreira política de Lula morre a esquerda. Ou pelo menos UMA esquerda. A esquerda liberal-progressista da Sexta República e da Constituição de 88. Resta saber se o que triunfará na inevitável disputa por seu legado é uma esquerda ainda mais radicalmente progressista, ou se retornará uma esquerda nacionalista, tal como já existiu no Brasil em outras épocas.

Mesmo uma vitória de Lula, hoje improvável, não fará mais que dar uma sobrevida e prolongar a agonia num falso senso de estabilidade. Não só da esquerda, mas também do Brasil.

O que muda com Lula ou Flávio?

By: A A
6 October 2026 at 17:30

Considerações realistas sobre as eleições brasileiras.

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As eleições presidenciais brasileiras estão chegando. E com elas estão chegando também as controvérsias, os debates e os diferentes pontos de vista sobre o que esse evento representa para o Brasil, para os BRICS e para o futuro do mundo multipolar.

Em um artigo recente, o respeitado analista político brasileiro Valdir Bezerra advogou a tese de que as eleições de 2026 representam um ponto de inflexão na história brasileira, podendo definir o papel do Brasil no mundo. Para Bezerra, a eleição opõe, de um lado, a vertente “autonomista”, representada por Luiz Inácio Lula da Silva, e, de outro, a vertente “ocidentalista”, representada por Flávio Bolsonaro.

Demostrando todo o devido respeito ao trabalho de Bezerro, que é um dos analistas mais bem conceituados no debate político russo-brasileiro, gostaria de apresentar aqui uma visão crítica sobre sua opinião. Não tenho como intenção “refutar” a posição de Bezerra, mas apenas expor as razões pelas quais não considero essa oposição entre autonomismo e ocidentalismo como um pressuposto válido para analisar a atual disputa eleitoral. Ademais, gostaria também de explicar por que não considero a eleição de 2026 como um momento decisivo na definição do papel internacional do Brasil.

Flávio é um ocidentalista, mas Lula não é um autonomista

Os termos guarda-chuvas usados para definir estas duas “tradições” da política brasileira não parecem minimamente aplicáveis na realidade atual. Os termos nos quais muitos pensadores brasileiros definiam a oposição entre aqueles que apoiam a soberania e o desenvolvimento nacional e aqueles que advogam por uma posição subordinada em relação ao eixo atlântico há muito tempo se tornaram obsoletos na alta política institucional brasileira – onde não há hoje qualquer figura digna do título de “autonomista”.

Não é preciso comentar aqui sobre a natureza ocidentalista de Flávio Bolsonaro, que, como seu pai antes dele, defende uma política externa de alinhamento total aos EUA e a Israel, ademais de uma agenda hostil aos BRICS e às plataformas multipolaristas. O ponto central, porém, é tentar entender em que posição, entre ocidentalistas e autonomistas, está Lula.

O atual presidente do Brasil governou o país em três ocasiões e protagonizou alguns dos eventos mais marcantes da política internacional no século XXI. Foi cofundador dos BRICS, articulou alianças com governos soberanistas nas Américas (Venezuela, Bolívia, Cuba) nos anos 2000, manteve laços amigáveis com o Irã e, mais recentemente, estreitou parcerias com a Rússia em pleno regime de sanções imposto pelo Ocidente, além de condenar abertamente o genocídio em Gaza.

Tudo isso é extremamente louvável, mas, para uma análise justa de Lula, é preciso apresentar o outro lado de sua figura: Lula nunca foi um “multipolarista”, apenas um articulador habilidoso no âmbito do multilateralismo da era Obama nos anos 2000. Isso se soma ao fato de Lula ter sido descaradamente apoiado pelo establishment Democrata nas eleições de 2022. Aliás, o terceiro governo Lula foi marcado por controvérsias dignas de um líder “ocidentalista” clássico: Lula não reconheceu as eleições venezuelanas, iniciou tensões com a Nicarágua, vetou o acesso da Venezuela aos BRICS, escanteou as negociações de um acordo Mercosul-China para priorizar um pacto de livre-comércio com a Europa extremamente negativo para os países sul-americanos (um acordo até mesmo neocolonial, pode-se dizer, colocando os países do Mercosul como exportadores de commodities e importadores de tecnologia). Isso tudo para não falar nas relações próximas, quase de alinhamento total e irrestrito, com o regime Macron na França.

Lula certamente teve vários acertos, mas, se formos voltar um pouco no tempo, o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro também os teve: se recusou a sancionar a Rússia e a condenar a Operação Militar Especial (ao contrário de Lula, aliás, que repetidamente a condenou), fortaleceu as parcerias com a China, preservou a estrutura dos BRICS e abandonou o alinhamento à política externa estadunidense pós-Trump, se tornando um alvo de Joe Biden.

No fim, acertos por acertos e erros por erros, ambos os lados parecem muito distantes de qualquer ideal “autonomista”.

Então, como definir Lula e Flávio?

Podemos resumir este tópico em uma única frase: tanto Lula quanto Bolsonaro são, cada um a seu jeito, ocidentalistas.

Em diversas outras ocasiões comentei em minha coluna sobre como vejo a Sexta República brasileira (o atual regime constitucional fundado em 1988) como uma espécie de “revolução colorida permanente”. De um lado, uma direita liberal abertamente pró-EUA e pró-Israel, de outra uma esquerda liberal institucionalista, ligada ideológica e financeiramente a um grande lobby internacional que vai desde os Democratas estadunidenses até a União Europeia.

As tensões atuais parciais que ocorrem agora entre Lula e Trump não são uma novidade. Bolsonaro se tornou uma figura extremamente incômoda nas relações entre Brasil e EUA assim que Biden chegou ao poder. O que muitos analistas falham em perceber é que as relações entre Brasil e EUA se definem pela dialética entre esquerda e direita no Brasil e Democratas e Republicanos nos EUA. Lula era amigo de Biden, como Bolsonaro era amigo de Trump. Se Lula vencer as eleições de 2026, terá muitos problemas – pelo menos até um eventual retorno Democrata nos EUA. Se Flávio vencer, Brasil e EUA estarão em alinhamento total – mas apenas enquanto Trump estiver na Casa Branca.

É essa dinâmica que permite aos EUA manter a política brasileira sob controle de forma estável. Washington não precisa fazer um Maidan no Brasil. Aliás, a fórmula “golpe + ditadura” não tende a funcionar em países continentais e diversos como o Brasil – e a maior prova disso é a própria experiência brasileira de regime militar, que foi inicialmente patrocinada pelos EUA, mas posteriormente se tornou um regime autônomo não-alinhado após um autogolpe interno entre os militares. Não por acaso, os EUA endossaram a redemocratização do Brasil, ajudando a criar precisamente o regime político atual.

De um lado, uma direita que apoiada pelos Republicanos, por Israel e pelo lobby neocon transnacional; de outro, uma esquerda que obedece aos Democratas e aos europeus. Lula foi um grande multilateralista numa época em que Washington, com Obama, incentivava esse tipo de verniz à unipolaridade estadunidense; Bolsonaro foi uma marionete aberta dos EUA numa época em que Washington, com Trump, exigia isso. A diferença é muito pouca – ou nula.

E o que a eleição de 2026 realmente representa?

A nível internacional, nada ou muito pouco.

Se vencer, Lula será pressionado enquanto Trump estiver no poder. E Lula ao longo dos últimos quatro anos já mostrou que compensa a hostilidade estadunidense sendo ainda mais aliado aos europeus. Por outro lado, se Flávio vencer, teremos pelo menos algum período de alinhamento total com os EUA, o que pode mudar numa eventual vitória Democrata nas próximas eleições presidenciais. É uma escolha muito clara entre Republicanos-Israel e Democratas-UE. “Autonomismo” não faz parte do jogo.

A nível interno, contudo, muitos fatores estão em jogo.

É no cenário interno que o debate sobre a eleição deve se concentrar. Afinal, nenhum brasileiro vai votar em um candidato ou outro por causa de Palestina ou BRICS – que, embora sejam causas legítimas, são realidades distantes para o cidadão comum. No plano interno, temos um Lula cada vez mais enfraquecido devido aos efeitos colaterais de anos em aliança com o Poder Judiciário (que agora está sendo escrutinado e exposto com o escândalo de corrupção do Banco Master). Do outro lado, Flávio recupera posições que já se julgavam perdidas e hoje ambos aparecem em empate técnico nas pesquisas.

O Poder Judiciário acumulou poderes extraordinários com Lula, a ponto de encarcerar manifestantes pacíficos e idosos sob acusação de “terrorismo” apenas porque participavam de manifestações pró-Bolsonaro. A inimizade entre o Judiciário e o Bolsonarismo não pode ser revertida, exceto por uma vitória de Flávio que culmine na indicação de ministros bolsonaristas para a Suprema Corte – remodelando assim os rumos da própria República.

Podemos resumir que Lula daria uma sobrevida à Sexta República, enquanto Flávio aceleraria seu colapso. Enquanto a Sexta República existir, nenhuma alternativa realmente “autonomista” surgirá no Brasil porque o próprio sistema constitucional brasileiro impede tal alternativa. Mas isso não significa que o colapso iminente deste sistema significará uma “aurora multipolar” no Brasil, já que não há (fora do extremamente “ocidentalista” Bolsonarismo) qualquer movimento político no país com força para erguer um novo projeto de Estado.

A conclusão talvez seja frustrante para os mais otimistas e esperançosos, mas o que parece estar por acontecer no Brasil em 2026 é a absoluta nulidade. Com Lula ou Flávio, pouco tende a mudar. O Brasil continuará sendo uma potência média decadente, politicamente subordinada aos EUA, mas com certa liberdade de engajamento multilateral com as potências eurasiáticas – enquanto domesticamente as instituições da Sexta República se autodestroem.

Senado deve avaliar PEC do fim da escala 6×1 no Plenário após primeiro turno das eleições

6 October 2026 at 08:00

Após o primeiro turno das eleições, o Senado Federal volta a discutir o fim da escala 6×1 a partir desta terça-feira, 6 de outubro. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 reduz a jornada de trabalho para 40 horas semanais, com a possibilidade de dois dias de repouso remunerado. O Plenário realiza sessões para debater a PEC também na quarta-feira e na quinta-feira, 8 de outubro, a partir das 14h.

A análise entra na agenda do Plenário após negociações na última semana entre o presidente Lula e a cúpula do Senado para destravar o andamento da PEC. Em nota à imprensa, postada na Agência Senado, Davi Alcolumbre (UNIÃO-AP) afirma que a decisão surge a partir da “ampla relevância para a sociedade brasileira”.

Também nesta terça-feira, 6, cumprindo a Medida Provisória nº 1.394/2026, assinada por Lula, as empresas de apostas e as fintechs deverão terminar suas atividades e informar às instituições financeiras sobre os saldos dos clientes que não sacaram seu dinheiro até essa segunda-feira, prazo final para brasileiros sacarem o dinheiro dos aplicativos. Entre os dias 9 e 14 de outubro, as empresas deverão restituir dinheiro aos apostadores.

Corrida Eleitoral

Com a definição de um segundo turno entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a presidência da República, os outros candidatos começam a discutir seu apoio para o segundo turno, dia 25 de outubro. O candidato Augusto Cury (Avante) disse que não pretende continuar na política e declarou que não vai apoiar ninguém para o segundo turno.

O mesmo ocorreu com Renan Santos (Missão), que não declarou seu apoio, mas, em live na segunda-feira, 5 de outubro, afirmou que seus eleitores podem escolher em quem votar. Ronaldo Caiado (PSD) comunicou que não irá declarar seu apoio sem antes se reunir com o presidente do partido, Gilberto Kassab. Sem posicionamento direto de apoio ao candidato Flávio Bolsonaro, Romeu Zema (Novo) declarou que vai estar contra o PT.

Com um período mais curto para o segundo turno, Lula, que teve 45,16% dos votos, em seu discurso pós-apuração declarou que irá começar com uma nova campanha. Para o presidente, o segundo turno irá mostrar “a verdadeira democracia do Brasil”. Nesta segunda-feira, 5, o presidente se reuniu com apoiadores para discutir novas estratégias de campanha.

Em contrapartida, Flávio Bolsonaro comemorou o resultado nas urnas. Nesta segunda-feira, o senador se encontrou com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ambos reeleitos, para discutir sobre as estratégias de campanha para o segundo turno.

Estão na agenda da semana de 6 a 10 de outubro:

  • TSE:
    • Salvo-conduto (06/10): último dia em que o documento de salvo-conduto, emitido pela Juíza Eleitoral, protege a integridade de eleitores que sofreram ameaças ou agressões para influenciar seu voto.
    • Eleitor pode ser preso (06/10): Fim do período em que eleitores não poderiam ser presos.
    • Justificativa do mesário (07/10): último dia para os mesários justificarem abandono do trabalho durante a votação.
    • Cadastramento (08/10): início do cadastramento das Mesas Receptoras de Justificativa e alocação temporária de seções para o segundo turno.
    • Propaganda eleitoral (09/10): Início da propaganda eleitoral nas rádios e na televisão.
    • Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) (09/10): Último dia para a transferência, pelas agremiações, de recursos do FEFC destinados às candidatas e aos candidatos a cargos majoritários que concorram ao segundo turno.
    • Candidatos não podem ser presos (10/10): A partir desta data, candidatos que vão disputar segundo turno não podem ser presos, exceto em prisão em flagrante.
  • STF:
    • Exclusão de créditos (RE 835818, 07/10, 14h): Recurso Extraordinário avalia se há possibilidade de exclusão os créditos presumidos de Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS, do cálculo do PIS e da Cofins.
    • Subordinação dos policiais penais (ADI 7781, 07/10, 14h): Ação direta discute constitucionalidade da lei de São Paulo em subordinar a polícia penal à Secretaria de Segurança da Administração Penitenciária.
    • Cargos em Comissão (ADI 7512, 07/10, 14h): Ação Direta de Inconstitucionalidade questiona a validade da lei amazonense, Lei Estadual 3.147/2007, que estabelece 10% dos cargos em comissão para servidores de carreira.
    • Expurgos inflacionários (RE 1141156, 07/10, 14h): volta a julgamento recurso extraordinário que discute a validade da inclusão dos expurgos inflacionários na correção monetária de depósitos judiciais.
    • Adicional de Insalubridade (ADPF 1181, 07/10, 14h): Governo Estadual do Espírito Santo entra com ação contra decisão da Justiça do Trabalho em obrigar o governo a pagar adicional de insalubridade de 20% para merendeiras e auxiliares de serviços gerais terceirizados da rede pública de ensino.

Agenda da semana da Pública é um serviço apresentado aos leitores, concebido com base nas informações dos portais da Câmara, Senado e STF. 

Como o agro e o interior podem explicar diminuição de votos para Lula

5 October 2026 at 23:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

O domingo do primeiro turno terminou com uma surpresa, ao menos para quem acompanhava a maioria das pesquisas eleitorais e também para os próprios candidatos. “Confesso que estava convencido de que iria ganhar no primeiro turno”, disse Lula ontem. O atual presidente marcou 3,3 milhões de votos a menos do que no primeiro turno de 2022, enquanto Flávio Bolsonaro conseguiu 5 milhões de votos a mais que seu pai, Jair.

O resultado pode ser explicado por vários fatores: como a Agência Pública mostrou, escândalos políticos podem ter favorecido o desejo “antissistema” que – apesar de ser uma grande contradição –, é usado politicamente por Flávio e bolsonaristas. O caso do Master, inclusive, não foi capaz de impedir que muitos políticos diretamente citados nas investigações e vazamentos ligados ao banco conseguissem se reeleger. Isso inclui o próprio Flávio, investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas em relação ao financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai. Flávio pediu dinheiro diretamente para Daniel Vorcaro, trocou dezenas de mensagens com o ex-banqueiro e marcou encontros com ele.

Além dos escândalos políticos, outras variáveis ajudam a entender a diminuição de votos de Lula e o crescimento de Flávio, e elas ficam evidentes no próprio mapa do Brasil. Levantamento de dados feito pelo cientista político Marco Antonio Faganello, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV/CEPESP), mostra que Lula perdeu mais votos em municípios que não são capitais, e essa perda é ainda mais gritante em cidades menores onde a participação do agro na economia é grande. “Onde o agro está em mais de 50% no PIB (Produto Interno Bruto), no conjunto, Lula perdeu 8% dos votos em relação a 2022”, aponta.

A análise de Faganello mostra que municípios pequenos do interior, com alto PIB per capita, proporção de moradores que se declaram brancos e jovens mais alta e com grande atividade agropecuária estão onde Lula mais perdeu votos proporcionalmente a 2022. É esse o tipo de perfil de vários municípios de Goiás, estado onde a diminuição dos votos para Lula foi a mais significativa na proporção com 2022.

O pesquisador também aponta que o Nordeste, apesar de ser um reduto tradicional de Lula e não ter registrado uma queda significativa nos votos para o atual presidente, foi onde Flávio mais avançou. “A direita cresceu nos nove estados do Nordeste. Flávio superou o resultado de Bolsonaro em 98% dos 1.794 municípios da região. No Nordeste, Lula perdeu poucos votos, mas a direita cresceu em todos os estados: de 27% para 30,9% dos votos válidos”, detalha.

Na entrevista, Faganello também avalia como a abstenção, apesar de ter sido recorde, não parece ter impactado a perda de votos de Lula no Brasil como um todo, com exceção de Salvador, onde a ausência de eleitores impactou a votação do petista. Além disso, para o pesquisador, a proporção de evangélicos entre a população pode não explicar essa mudança. Contudo, Faganello ressalta que ainda há dados que o Tribunal Superior Eleitoral deve divulgar que podem detalhar esses aspectos.

Confira os principais trechos da entrevista aqui.

Marco Antonio Faganello é cientista político e pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV/CEPESP)
Marco Antonio Faganello é cientista político e pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV/CEPESP)

Na sua análise, você conclui que Lula teve menos votos em 2026 em relação ao primeiro turno de 2022 em 98% dos municípios do Brasil. Mas isso aconteceu diferente nas cidades pequenas e nas capitais e também a partir de outros fatores, como atividade agropecuária. Você pode explicar melhor essa diferença?

Estamos falando em votação proporcional, isto é, no quanto os votos que foram para o Lula em 2022 aumentaram ou diminuíram em 2026, proporcionalmente. Os dados mostram que essa queda foi maior sobretudo nos pequenos municípios e nos municípios ligados ao agro, além de ter um recorte por região do país. São esses os três principais fatores: tamanho, agro e região.

Sobre o tamanho dos municípios, quanto menor, mais Lula perdeu votos em relação a 2022. Nos municípios com até 5 mil habitantes, ele perde cerca de 7% [comparando 2026 a 2022]. Nos com mais de 500 mil habitantes, ele perde só 1%.

É importante ressaltar que isso é uma faceta, porque se você olha pra outro lado, em números absolutos, esse contingente de municípios pequenos não contribui tanto para a diminuição dos votos do Lula.

Se você aumentar esse grupo para municípios com até 50 mil habitantes, você chega a 50% da perda de votos que Lula teve entre 2022 e 2026. Já por outro lado, o Flávio ganhou votos nesses mesmos municípios em que o Lula perdeu. Ou seja, o voto que o Lula perdeu foi pro Flávio. Os demais candidatos desidrataram demais, não chegaram a influenciar essa conta.

Gráfico mostra onde Lula perdeu votos no primeiro turno das eleições 2026
Gráfico mostra onde Lula perdeu votos no primeiro turno das eleições 2026

Explique mais sobre esse recorte da presença do agro nos municípios. Você comparou a porcentagem da participação da atividade agropecuária no PIB municipal? Você pode citar alguns exemplos?

Isso, eu peguei a porcentagem da atividade agropecuária no PIB municipal. Para se ter uma ideia, em municípios onde essa porcentagem está em menos de 5% do PIB, Lula perdeu 2% no conjunto de votos. Mas onde o agro está em mais de 50% no PIB, no conjunto, Lula perdeu 8% dos votos em relação a 2022. Esses municípios pegam só 2% da população brasileira.

É interessante que, cruzando porte [da cidade] e agro, você vê que, nos municípios bem pequenos, de até 5 mil habitantes e que têm mais de 50% de PIB no agro, Lula perdeu 9% dos votos. Já entre os pequenos que têm menos de 5% do PIB no agro, Lula perdeu bem menos votos, menos de 4%. E essa perda de votos do Lula foi para o Flávio, não virou abstenção.

Isso levanta a hipótese de uma afinidade ideológica forte em municípios muito pequenos e com alta participação do agro. Uma pergunta ainda a se fazer é porque isso não pesou tanto em 2022 quanto em 2026.

E como a diferença entre as regiões do país e dos estados entra nessa conta?

No Sul e no Centro-Oeste foram onde aconteceram as maiores perdas de votos para Lula. Mas existe uma queda generalizada no país: parece que o que foi conquistado em 2022 se perdeu.

Foram 3 milhões de votos a menos que no primeiro turno de 2022. Não é uma flutuação gigantesca, mas nas últimas eleições é isso que tem acontecido, uma proporção de votos menor, que fica no meio, que fica flutuando. E quem decide a eleição são justamente essas pequenas flutuações.

E sobre a abstenção? Você aponta que ela não teve efeito na perda de votos para Lula. Por que?

A abstenção aparece como algo generalizado no país. Onde você teve mais abstenção, Lula não perdeu mais votos. A abstenção não parece ter relação nem com agro, nem com região do país. Ela bateu recorde em números absolutos, mas não foi uma variável que ajude a explicar a perda de votos de Lula.

Na sua análise, você aponta que o fator da religião evangélica não pesou nessa diminuição de votos do Lula. Por quê? E outros fatores, como entraram?

A porcentagem de evangélicos na população dos municípios não aponta uma mudança significativa de 2026 para 2022, Lula nem perdeu nem ganhou votos nas cidades a partir desse recorte – ele já não tinha [esses votos].

Já quanto mais jovem a população do município, mais o Lula perdeu votos. Quanto mais branca, também, e renda per capita do município também influencia. Quanto maior a renda, mais o Lula perdeu.

E teve uma diferença muito gritante entre capital e interior: Lula quase não perdeu nada na maioria das capitais, mas bastante em cidades que não são capitais.

Então dá pra dizer que entre os municípios onde o Lula mais perdeu votos existe um perfil comum? Municípios com grande participação do agro na economia, com população mais branca, mais jovem e com PIB per capita maior?

Sim.

E o contrário, onde o Flávio ganhou votos em relação a Jair?

O PL [votos para Flávio] ganhou 5 milhões em relação a 2022, em todo o país. E desse total de ganhos que o Flávio teve em 2026, 32% vieram do Nordeste. Foi onde ele mais avançou.

A direita cresceu nos nove estados do Nordeste. Flávio superou o resultado de Bolsonaro em 98% dos 1.794 municípios da região. No Nordeste, Lula perdeu poucos votos, mas a direita cresceu em todos os estados: de 27% para 30,9% dos votos válidos (mais 1,6 milhão de votos). O maior ganho, em pontos percentuais, foi no Ceará e no Maranhão.

Gráfico mostra onde Lula perdeu votos no primeiro turno das eleições 2026
Gráfico mostra onde Flávio Bolsonaro ganhou votos no primeiro turno das eleições 2026

Você também aponta que o Lula cresceu em 102 municípios – há algum padrão nestas cidades?

Lula ganha mais percentualmente em municípios de regiões variadas, Sobral, no Ceará; Macapá, no Amapá; Belém, no Pará; Niterói, no Rio de Janeiro; Aracaju, em Sergipe; Recife, em Pernambuco; Santos, em São Paulo; Rio Branco, no Acre; Fortaleza, no Ceará; e até na cidade do Rio de Janeiro. No geral são cidades grandes e médias.

Já Lula perdeu mais em várias cidades de Goiás, ali perto de Rio Verde. Depois em municípios do Tocantins e do Rio Grande do Sul.

Olha que curioso: Lula perde mais [votos proporcionalmente] na Bahia, com 3,6%, que em São Paulo, 3% [entre 2026 e 2022].

Na Bahia, Salvador concentrou 38% da perda de votos de Lula no estado, mas só 6% do ganho da direita: em Salvador, Lula perdeu votos sobretudo porque menos gente votou. No interior, a direita cresceu com mais eleitores indo às urnas.

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