A privatização da TAP vem com aeroporto na mala?


O fito do Governo sempre foi vender a maioria do capital da TAP. As circunstâncias parlamentares impuseram uma venda minoritária, até 49,9%, mas até isso de alguma forma foi contornado. Mesmo com menos de metade do capital, a Lufthansa vai mandar como se tivesse uma larga maioria, decidindo a gestão da frota, a política comercial, o lançamento de novas rotas ou o investimento corrente.
Era inevitável. De outra forma, nem a Air France-KLM nem o grupo alemão se teriam dado ao trabalho de olhar para a companhia portuguesa.
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© JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA
O presidente executivo da TAP, Luís Rodrigues, antecipa “três a cinco anos difíceis” para a aviação, perante a pressão dos combustíveis sobre os custos e os limites a novos aumentos dos bilhetes, segundo o Financial Times (acesso pago, em inglês). No World Aviation Festival, em Lisboa, o gestor reconheceu que a procura continua a sustentar o setor, mas alertou para a dificuldade de continuar a transferir os custos para os passageiros.
Já Roberto Alvo, presidente executivo da Latam, afirmou ao mesmo jornal que o problema atual do setor está nos custos, mas advertiu que a energia mais cara poderá prejudicar a economia e abrandar a procura. Para já, os dados mostram resistência dos passageiros aos aumentos. Segundo a OAG, citada pelo FT, foram feitas 2,3 mil milhões de reservas no primeiro semestre, mais 1% do que no período homólogo, apesar das subidas de dois dígitos das tarifas em quase todos os meses de 2026.
A pressão poderá agravar-se com o fim dos contratos de cobertura que protegeram várias companhias de parte do encarecimento dos combustíveis após o início da guerra no Irão. As transportadoras preparam novas subidas das tarifas e admitem reduzir os planos de crescimento, utilizando as entregas de aviões novos para substituir aparelhos antigos, com maior consumo, em vez de aumentar as frotas.
O alerta surge na semana em que o Governo escolheu a Lufthansa para adquirir até 49,9% da TAP. Segundo o comunicado do Executivo de 14 de outubro, esta fase da privatização prevê um encaixe total de 1.201 milhões de euros, incluindo os 5% reservados aos trabalhadores, e contempla também a compra da totalidade do capital numa segunda fase, num valor total de cerca de 2.5 mil milhões. A proposta do grupo alemão contempla o crescimento da frota da TAP para 117 aeronaves até 2035 e 130 depois dessa data.

O Vereinigung Cockpit, sindicato dos pilotos alemães, considera que a Lufthansa pagou um preço “excecionalmente” caro pela participação minoritária na TAP. E não está sozinho. Analistas e imprensa alemã também apontam para um valor elevado.
“O resultado constitui sobretudo um grande sucesso para o Governo português: consegue um preço excecionalmente elevado por uma participação minoritária e, ao mesmo tempo, mantém a maioria do capital da empresa”, afirma o Vereinigung Cockpit numa nota publicada esta sexta-feira no seu site.
O sindicato sustenta a análise no facto de a oferta da Lufthansa por 44,9%, de 1.025 milhões de euros (pelos 49,9% sobe para 1.201 milhões) ser 21% mais elevada que a da Air France-KLM, cuja proposta foi preterida pelo Governo.
“É igualmente de salientar que a International Airlines Group (IAG), o mais rentável dos três grandes grupos europeus de companhias aéreas de rede, retirou a sua participação no concurso”, afirma Oliver Löwe, vice-presidente da Vereinigung Cockpit, citado no comunicado. “Aparentemente, o fator decisivo foi o facto de uma participação minoritária, sem um caminho garantido para o controlo total, não ser suficientemente atrativa do ponto de vista económico para a IAG”, acrescenta.
O sindicato alemão realça também o que considera ser uma contradição entre a indisponibilidade para ir mais longe na melhoria das condições dos trabalhadores e a oferta generosa feita pela TAP. “Quem em Lisboa convence pela sua força financeira e está disposto a pagar um prémio significativo por uma participação minoritária não pode, ao mesmo tempo, agir perante os seus próprios trabalhadores como se cortes duros fossem inevitáveis. A administração tem de explicar por que razão, aparentemente, se aplicam critérios económicos diferentes às aquisições e às pessoas que, todos os dias, asseguram o sucesso do grupo”, afirma Oliver Löwe.
O Vereinigung Cockpit afirma ainda que vai intensificar ainda mais a sua longa e consolidada cooperação com o Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) em Portugal. A estrutura portuguesa dirigiu uma carta ao CEO da Lufthansa a transmitir o apreço pela operação e já se congratulou publicamente com a escolha do grupo alemão, considerando que “esta nova etapa poderá representar um passo fundamental para assegurar a estabilidade, competitividade e sustentabilidade futura da companhia aérea portuguesa”. O Sindicato Independente de Pilotos de Linhas Aéreas (SIPLA) também saudou hoje a escolha da Lufthansa para a privatização parcial da TAP e anunciou que vai solicitar reuniões ao Governo e à gestão da companhia aérea portuguesa.

O sindicato alemão não é o único a considerar o preço elevado. “A avaliação parece elevada e reflete sobretudo a escassez estratégica do ativo”, afirma o ODDOBHF numa nota enviada aos clientes.
O grupo independente de serviços financeiros franco-alemão assinala que, com base nos resultados da TAP de 2025, a operação da Lufthansa implica múltiplos de 1,1 vezes as receitas e 5,9 vezes o EBITDA recorrente (incluindo dívida de locações sem opção de compra). Sem uma melhoria nas contas da TAP no segundo semestre deste ano, o que normalmente ocorre, o múltiplo poderá atingir 8,3 vezes o EBITDA. “Em comparação, as empresas que acompanhamos negoceiam, em média, a 4,6 vezes o EBITDA de 2026 e 3,8 vezes o de 2027, incluindo as companhias low-cost”, aponta.
“O prémio pago pela Lufthansa é, portanto, significativo e coloca a captura de sinergias no centro da equação financeira”, conclui o ODDO BHF. Assinala, ainda assim, a importância estratégica da aquisição por dar à Lufthansa uma quota de 20% na América do Sul.
Também o banco de investimento Bernstein, que chegou a estimar cerca de 700 milhões de euros para a participação de 44,9% da TAP, considerou o investimento na TAP “estrategicamente sólido, mas caro”, tendo em conta os múltiplos implícitos no negócios.
Na imprensa alemã também há quem questione o preço. “A Lufthansa venceu a disputa por uma participação na TAP Air Portugal e está sobretudo de olho no negócio em direção à América do Sul. Mas a compra é cara”, afirma o site WirtschaftsWoche.
Já o chefe da diplomacia alemã, Johann Wadephul, defendeu junto do homólogo português que a aquisição de parte da TAP pela companhia aérea alemã Lufthansa vai “fortalecer a Europa como localização” e permitirá criar novos empregos.
Numa conferência de imprensa conjunta em Berlim, após um encontro com Paulo Rangel, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão destacou a “estreita cooperação estratégica” entre Portugal e Alemanha, relatou a agência Lusa.
Para Wadephul, a decisão do Governo português de escolher a companhia aérea alemã Lufthansa para adquirir parte do capital da TAP vai nesse sentido. “Muito está a ser investido nesta parceria, especialmente em Portugal, e muitos contactos, cooperações e novos empregos vão surgir”, destacou na mesma conferência de imprensa, transmitida em direto através a plataforma Youtube.
Por seu lado, o ministro Paulo Rangel afirmou que o Governo português está “muito satisfeito” com o negócio, que classificou como “um enorme sucesso”. “Algo que distingue as empresas alemãs é a mentalidade. Isso significa que pensam a médio e longo prazo. E claro, isso também ficou muito claro nesta transação”, comentou.
O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português disse esperar que a compra seja concluída no próximo ano, “com base nas regulamentações europeias” e fez votos de que o negócio “traga frutos positivos para ambos os países, mas também para a Europa”. E, destacou, “é também muito favorável para ambas as empresas”.

© MÁRIO CRUZ/EPA

© NUNO VEIGA/LUSA
A Lufthansa vai ter de realizar ainda este ano um pagamento inicial ao Estado de 2,5% do valor que ofereceu pela TAP, além de prestar garantias bancárias. Determinação consta da Resolução de Conselho de Ministros que seleciona o grupo alemão para ficar com até 49,9% da companhia aérea.
O caderno de encargos da privatização dava ao Governo a possibilidade de exigir o vencedor um pagamento inicial “no valor de até 5 % do valor global oferecido pelo conjunto das ações da TAP, a adquirir nos termos constantes da proposta selecionada”. Um despacho publicado em junho fixou esse ‘sinal’ em 2,5%.
O diploma aprovado no Conselho de Ministros de quarta-feira passada, diz que “o proponente selecionado deve (…) comprovar a realização do pagamento da prestação pecuniária inicial e prestar a respetiva garantia bancária, ou outro instrumento financeiro idóneo para o mesmo efeito.
Se for considerada a oferta total da Lufthansa de 1.201 milhões de euros pelos 49,9% — que incluem os 5% destinados preferencialmente aos trabalhadores — o pagamento inicial será de 30,03 milhões de euros. Caso o critério sejam os 44,9%, o ‘sinal’ será de 25,63 milhões.
Quando é que é devido o pagamento? O despacho de julho diz que “o pagamento da prestação pecuniária inicial (…) deve ser efetuado até à data da celebração dos instrumentos contratuais que concretizam a venda direta de referência”. Ora o Governo já afirmou que quer assinar os contratos com a Lufthansa até ao final do ano.
A Lufthansa tem também de prestar garantias bancárias para o valor oferecido. No final de junho o grupo alemão tinha disponibilidades de liquidez de 10.727 milhões de euros.



O Governo escolheu a Lufthansa para adquirir até 49,9% da TAP, numa disputa com a Air France-KLM, e admite avançar posteriormente com a privatização total da companhia, numa operação que poderá permitir recuperar os apoios públicos concedidos.
Os dois grupos chegaram à fase final do concurso com propostas consideradas tecnicamente muito equivalentes, mas o executivo optou pela oferta do grupo alemão, que classificou como financeiramente superior e com menor grau de incerteza.
O negócio prevê investimentos em Portugal, alterações na gestão da TAP e a possibilidade de o Estado vir a tornar-se acionista da Lufthansa, caso avance uma segunda fase da privatização.
Eis algumas perguntas e respostas sobre os principais termos da operação, as diferenças entre as propostas e o que ainda está por decidir:
O Governo considerou que as propostas da Lufthansa e da Air France-KLM eram tecnicamente muito equivalentes e apresentavam condições contratuais semelhantes, mas a oferta financeira do grupo alemão era superior e apresentava menor incerteza.
“A decisão do Governo recai sobre o grupo Lufthansa, cuja proposta financeira é 16% superior à proposta concorrente e com menor grau de incerteza”, afirmou o primeiro-ministro, Luís Montenegro, na conferência de imprensa após o Conselho de Ministros onde foi tomada a decisão.
“Esta é a melhor escolha para o futuro da empresa e a que melhor protege o interesse nacional”, acrescentou.
Na decisão pesaram também os investimentos associados, o crescimento previsto da frota, a manutenção da TAP na Star Alliance e o modelo de governação proposto pelo grupo alemão.
A Lufthansa apresentou um preço de referência de 1.025 milhões de euros para adquirir 44,9% da TAP, a que acrescem 58 milhões de euros de ajustamentos financeiros e 118 milhões relativos aos 5% do capital reservados aos trabalhadores.
O Governo estima, assim, um encaixe potencial de 1.201 milhões de euros pela alienação de até 49,9% do capital da companhia, contra 1.038 milhões de euros da proposta da Air France-KLM.
A diferença é de 163 milhões de euros, ou seja 16%.
A proposta do grupo franco-neerlandês incluía, contudo, a possibilidade de um pagamento adicional de 100 milhões de euros, dependente do cumprimento de objetivos financeiros pela TAP em 2028. Caso essas condições fossem cumpridas, a diferença entre as ofertas diminuiria para 63 milhões de euros, cerca de 6%.
O grupo alemão apresentou também uma proposta financeiramente superior para uma eventual segunda fase da privatização, embora o Governo não tenha divulgado o valor global oferecido pela Air France-KLM nessa etapa.
Nesta primeira fase, o Estado português manterá uma participação de 50,1% no capital da companhia.
A oferta de até 5% do capital destinada aos trabalhadores será lançada após a conclusão da venda direta à Lufthansa, que está dependente da aprovação das autoridades regulatórias, nomeadamente da Comissão Europeia.
O calendário e as condições finais da oferta serão definidos posteriormente pelo Governo.
Segundo as regras já aprovadas, poderão participar os trabalhadores da TAP e de outras empresas do grupo com mais de três anos consecutivos de vínculo laboral, sendo o preço por ação igual ao da venda direta ao investidor de referência.
Se os trabalhadores não adquirirem a totalidade das ações disponibilizadas, a Lufthansa fica com preferência para comprar a parcela remanescente, podendo aumentar a sua participação até 49,9%.
O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, destacou a importância da transportadora portuguesa para reforçar a presença do grupo alemão na América Latina.
Segundo o governante, a integração da TAP permitirá à Lufthansa aumentar a sua quota de mercado nas ligações entre a Europa e a América Latina de 9% para 20%.
Na mesma conferência, Pinto Luz apontou ainda o risco de a companhia portuguesa ser adquirida por um grupo concorrente como um dos fatores que tornaram a operação estrategicamente relevante para a Lufthansa.
“Se ficasse em casa e não tivesse vindo a jogo, eram os seus concorrentes que poderiam assumir”, afirmou o ministro, referindo-se à possibilidade de a TAP passar a integrar a Air France-KLM ou outro grupo.
O governante destacou também a localização geográfica de Portugal, as ligações da TAP ao Brasil e o futuro aeroporto de Lisboa como elementos de interesse para o investidor alemão.
O Estado manterá cinco dos nove lugares no Conselho de Administração, incluindo a presidência, mas a gestão operacional corrente ficará delegada numa comissão executiva.
De acordo com a apresentação feita pelo executivo, esta comissão terá quatro administradores executivos, um dos quais indicado pelo Estado.
A Lufthansa terá o direito de indicar o presidente executivo (CEO) da TAP após a conclusão da primeira fase da privatização, não sendo conhecido ainda se Luís Rodrigues permanecerá no cargo.
As decisões relativas à estratégia, à frota e a operações de maior valor terão de ser tomadas por consenso.
O acordo prevê ainda a criação de um Comité de Partes Relacionadas, destinado a supervisionar as operações financeiras entre a TAP e outras empresas do grupo Lufthansa.
Pinto Luz explicou que o objetivo é impedir que as relações comerciais dentro do grupo possam retirar valor à transportadora portuguesa.
“Temos que garantir que o nosso parceiro não tem relações com partes relacionadas […] que possam esvaziar ou extrair valor da TAP”, afirmou.
A proposta da Lufthansa prevê o reforço da frota da TAP para 117 aeronaves em 2035 e 130 após essa data, dependendo, neste último caso, da concretização do novo aeroporto de Lisboa.
Contempla ainda a possibilidade de transferência de até oito Airbus A350-900 após 2030, a modernização da frota da Portugália e o reforço do Porto como segunda base estratégica, com oito aeronaves de longo curso.
Entre os projetos adicionais estão uma escola de aviação em Tancos, um centro de inovação tecnológica em Aveiro e um centro de serviços corporativos e operacionais em Portugal.
A proposta prevê também a integração da manutenção da TAP na rede Lufthansa Technik, além do investimento já anunciado de cerca de 300 milhões de euros numa unidade em Santa Maria da Feira, associado à criação de aproximadamente 700 postos de trabalho.
“Estamos a perspetivar um crescimento também do emprego, 3.000 empregos associados ao crescimento projetado da TAP e um total de 5.500 empregos diretos e indiretos no conjunto de todas estas iniciativas de investimento no nosso país”, afirmou Luís Montenegro.
O Governo assegurou que a proposta da Lufthansa contempla o respeito pelos direitos laborais, pela estabilidade dos trabalhadores e pelos acordos de empresa em vigor.
Questionado sobre a possibilidade de despedimentos, Miguel Pinto Luz afirmou que “ninguém vai comprar a TAP com o nível de exposição que estamos aqui a ver para reduzir trabalhadores”.
O governante defendeu que o crescimento previsto da companhia exigirá mais pilotos, tripulantes, técnicos de manutenção e pessoal de terra.
Já hoje, numa conferência telefónica com analistas e investidores, o presidente executivo da Lufthansa, Carsten Spohr, foi questionado sobre o risco de conflitos laborais prejudicarem a integração da TAP, tendo referido que recebeu, “nas últimas horas”, manifestações favoráveis à cooperação com o grupo alemão.
Segundo o gestor, o SITAVA manifestou abertura ao diálogo e uma posição favorável ao negócio, os pilotos da Portugália transmitiram uma posição semelhante e os pilotos da TAP enviaram uma carta a acolher a cooperação com o grupo alemão.
Carsten Spohr acrescentou que os encontros realizados com os sindicatos em Lisboa demonstraram, na sua perspetiva, que estes reconhecem a experiência da Lufthansa no desenvolvimento das companhias aéreas que adquire.
Essa possibilidade está em análise, mas ainda não existe uma decisão definitiva.
A Lufthansa apresentou uma proposta para adquirir a participação remanescente, avaliada pelo Governo em 1.351 milhões de euros, incluindo 863 milhões em dinheiro e 488 milhões em ações do grupo alemão.
A componente acionista poderá conferir ao Estado português uma participação de cerca de 5% na Lufthansa, tornando-o, segundo as estimativas apresentadas pelo Governo, no segundo maior acionista do grupo.
Pinto Luz afirmou que o executivo vê “com muito bons olhos” esta segunda fase, mas ressalvou que será necessária uma avaliação política e um processo de diálogo com os partidos, sob a liderança do primeiro-ministro.
“A TAP não precisa de mais confusão do que aquela que já teve no passado. Nós agora temos uma TAP no rumo certo”, afirmou.
O ministro não apresentou uma data para a decisão, sublinhando que o Governo já iniciou a reflexão sobre esta possibilidade.
Segundo Pinto Luz, a Lufthansa sinalizou disponibilidade para atribuir a Portugal um lugar no conselho de supervisão do grupo alemão, caso avance a segunda fase da privatização.
O ministro referiu também a possibilidade de representação portuguesa na Comissão Executiva da TAP e da criação de uma comissão estratégica em Portugal para acompanhar o cumprimento dos compromissos considerados essenciais para o interesse nacional.
O objetivo será preservar, mesmo num cenário de integração total, as características estratégicas da companhia, nomeadamente a marca, a sede, o ‘hub’ (plataforma giratória de distribuição de voos) de Lisboa e a conectividade com as regiões autónomas e os países lusófonos.
O Governo considera que a operação permite abrir caminho à recuperação dos apoios públicos concedidos à transportadora no âmbito da reestruturação iniciada em 2021 por causa da covid-19.
“Esta parceria entre a TAP e a Lufthansa aponta-nos esse caminho. O caminho da recuperação total do valor que os portugueses investiram na TAP”, afirmou Luís Montenegro.
Segundo as projeções do Governo, o retorno poderá atingir cerca de 3.400 milhões de euros até 2040.
As contas incluem 1.201 milhões de euros de receitas potenciais com a primeira fase da privatização, 863 milhões em dinheiro numa eventual segunda fase e cerca de 1.400 milhões relativos ao valor estimado das ações que o Estado receberia no grupo Lufthansa e aos dividendos acumulados até 2040.
“Temos ações e dividendos que até 2040 é expectável recuperar mais 1.400 milhões de euros, que perfazem 3.400 milhões”, explicou Pinto Luz.
No entanto, a estimativa depende da concretização da segunda fase, da evolução do valor das ações e dos dividendos que venham a ser distribuídos.
O executivo considera que a integração num grande grupo internacional permitirá à TAP ganhar escala e enfrentar melhor eventuais crises no setor da aviação.
“A TAP não está imune a crises futuras”, alertou Miguel Pinto Luz, sublinhando que a transportadora já não poderá contar com novas injeções de capital nas condições em que recebeu os anteriores apoios públicos, devido às regras europeias.
“Temos que garantir uma TAP robusta para o futuro”, defendeu.
O governante considerou ainda que o setor da aviação está cada vez mais dependente de grandes grupos internacionais, acrescentando que a venda da participação remanescente permitiria concretizar o objetivo de recuperar o dinheiro público investido na companhia.
A Lufthansa prevê concluir a aquisição da participação inicial no primeiro semestre de 2028, dependendo das autorizações regulatórias necessárias, incluindo a avaliação da Comissão Europeia.
O Governo pretende assinar os documentos da operação até ao final deste ano.
Até à conclusão da venda, a TAP continuará sob a atual gestão, embora Pinto Luz tenha explicado que a Lufthansa terá o direito de acompanhar a execução do plano estratégico da companhia.
Já a eventual segunda fase da privatização dependerá de uma decisão política posterior e de um processo autónomo.
O conteúdo O que ganha a Lufthansa com a TAP e como espera o Estado recuperar o dinheiro investido? aparece primeiro em O MINHO.
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A Comissão Política Distrital de Faro do CDS-Partido Popular, em comunicado que se transcreve, «saúda a decisão do Governo da Aliança Democrática de selecionar o Grupo Lufthansa como parceiro estratégico da TAP, considerando que esta operação abre uma nova oportunidade para a aviação portuguesa, para a recuperação dos recursos públicos investidos na companhia e para o reforço da conectividade internacional do Algarve.
A decisão aprovada em Conselho de Ministros representa um passo importante na reprivatização da TAP e na procura de uma solução que permita à companhia crescer, ganhar competitividade e integrar um dos grandes grupos europeus de aviação. Em 2023, o Governo de António Costa definiu como objetivo alienar pelo menos 51% do capital da TAP, tendo admitido a possibilidade de privatizar a totalidade da companhia.
A opção agora seguida pelo Governo de Luís Montenegro prevê a venda de 44,9% à Lufthansa, acrescida de até 5% reservados aos trabalhadores, mantendo o Estado uma participação maioritária de 50,1% nesta primeira fase. A proposta selecionada representa um encaixe global de até 1.201 milhões de euros e foi considerada financeiramente superior à da Air France-KLM, com uma vantagem de 16%. A operação prevê ainda a possibilidade de uma segunda fase de privatização, que poderá permitir ao Estado recuperar uma parte substancial do investimento realizado.
Para o CDS-PP, a questão central é clara. O dinheiro dos contribuintes que foi necessário mobilizar para salvar a TAP deve ser recuperado tanto quanto possível, através da alienação de capital, da valorização da participação remanescente e dos resultados futuros da companhia. A concretização desse objetivo dependerá, naturalmente, da evolução financeira e das condições da operação.
A TAP registou um prejuízo líquido de 99,2 milhões de euros no primeiro semestre de 2026, apesar do crescimento das receitas e do número de passageiros. Este resultado demonstra que a dimensão da companhia e a procura pelos seus serviços não dispensam uma gestão rigorosa dos custos, uma estratégia comercial consistente e uma estrutura financeira sustentável. A experiência europeia mostra que é possível superar crises profundas e reduzir a exposição dos contribuintes. A Lufthansa reembolsou antecipadamente os empréstimos e depósitos estatais utilizados durante a pandemia, tendo o Estado alemão concluído posteriormente a venda da sua participação.
Também a KLM reembolsou os empréstimos que efetivamente utilizou ao abrigo do pacote de apoio disponibilizado pelos Países Baixos. Estes exemplos não são diretamente comparáveis com o caso português, mas demonstram a importância de criar condições para que as companhias aéreas recuperem a sua autonomia financeira e deixem de depender do apoio público.
A Distrital de Faro do CDS-PP reconhece o trabalho desenvolvido pelo Ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, na condução deste processo, que exigiu capacidade negocial, avaliação das propostas e definição de condições para o futuro da companhia. Tendo sido cabeça de lista da Aliança Democrática pelo círculo eleitoral de Faro nas legislativas de 2024, Miguel Pinto Luz conhece as necessidades e as aspirações do Algarve. É, por isso, particularmente importante que esta decisão nacional se traduza também em oportunidades concretas para a região.
O CDS-PP orgulha-se de integrar a Aliança Democrática, sob a liderança do Primeiro-Ministro Luís Montenegro, e de contribuir para uma governação assente na responsabilidade financeira, na iniciativa privada e na defesa do interesse nacional. A privatização parcial da TAP não significa abdicar do interesse público. Significa procurar uma solução que permita conciliar a sustentabilidade económica da companhia com a preservação da sua identidade portuguesa, da sua função estratégica e da capacidade de servir o país.
Faro tem de conquistar um lugar na estratégia da Lufthansa. Para o Algarve, esta decisão abre perspetivas relevantes, mas não garante automaticamente novas rotas ou mais voos para Faro. O Grupo Lufthansa integra companhias com uma extensa rede internacional e importantes plataformas aeroportuárias, nomeadamente em Frankfurt, Munique, Zurique e Viena. A articulação comercial entre a TAP e as companhias do grupo poderá criar novas oportunidades de ligação entre Faro e mercados emissores de elevado interesse para a região. O mercado alemão, em particular, apresenta potencial para o desenvolvimento do turismo de natureza, do golfe, da cultura, da gastronomia, da saúde e do bem-estar, bem como para o aumento das estadias fora da época alta.
Contudo, as oportunidades só se transformarão em benefícios reais se forem acompanhadas por decisões comerciais, novas rotas, frequências adequadas e uma estratégia de captação de procura durante todo o ano. O CDS-PP Algarve defende, por isso, que o Governo promova um diálogo estruturado com a Lufthansa, a ANA Aeroportos, o Turismo do Algarve, os municípios e os agentes económicos regionais, com o objetivo de identificar oportunidades de expansão da conectividade aérea e definir prioridades concretas para o Aeroporto Gago Coutinho, em Faro.
O Algarve não precisa apenas de receber mais turistas. Precisa de criar melhores condições para que o turismo produza prosperidade duradoura, empregos mais qualificados e maior valor acrescentado para a economia regional. O reforço das ligações internacionais poderá beneficiar a hotelaria, a restauração, o comércio, as empresas de animação turística, os operadores de golfe e os produtores regionais. Poderá também contribuir para reduzir a sazonalidade e distribuir melhor os benefícios do turismo pelo Barrocal e pelo interior serrano. Uma oportunidade que exige resultados até porque a economia social de mercado, um dos princípios fundamentais da Democracia Cristã, assenta na articulação entre liberdade económica, responsabilidade pública, justiça social e promoção do bem comum.
O Estado deve assim definir objetivos estratégicos, proteger o interesse coletivo e garantir condições de concorrência, sem substituir permanentemente a iniciativa empresarial. Uma TAP financeiramente sustentável, competitiva e integrada num grande grupo europeu poderá dispor de melhores condições para investir, crescer e reforçar a sua posição internacional. Importa, contudo, acompanhar o cumprimento dos compromissos assumidos, salvaguardar os trabalhadores, preservar a identidade portuguesa da companhia e garantir que as oportunidades criadas pela operação se traduzem em benefícios para o conjunto do país. Para o Algarve, o desafio é particularmente claro. A região não pode ficar à margem desta nova etapa da aviação portuguesa, nem se limitar a aguardar que os benefícios cheguem por iniciativa do mercado.
A Distrital de Faro do CDS-PP saúda a decisão do Governo da Aliança Democrática e o trabalho desenvolvido pelo Ministro Miguel Pinto Luz, defendendo que esta oportunidade seja acompanhada por uma estratégia efetiva de reforço das ligações internacionais a Faro. A oportunidade existe. Importa agora transformá-la em investimento, conectividade e melhores condições de desenvolvimento para o Algarve. A TAP deve ganhar sustentabilidade financeira. Os contribuintes devem recuperar, tanto quanto possível, o dinheiro investido. E Faro deve conquistar um lugar mais relevante na aviação europeia. É essa a exigência que o CDS-PP Algarve coloca ao Governo e aos parceiros envolvidos nesta nova etapa.

© TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

© JOSÉ COELHO/LUSA
A distrital algarvia quer diálogo entre Governo, Lufthansa e entidades regionais para definir prioridades e reforçar futuras ligações aéreas.
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