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Habitação TEM Solução | Por Tiago Manuel

18 October 2026 at 17:13

Não é uma questão de ser socialista ou liberal. É uma questão de decidir para onde queremos canalizar o investimento para a criação de mais habitação:

• Reservar a compra de imóveis com licença de habitação a pessoas singulares. As empresas poderiam investir em terrenos, ruínas e projetos de construção e reabilitação, contribuindo para aumentar a oferta. 

Solução de curto prazo, se não for suficiente: Empresas e Fundos de Investimento terem de vender para pessoas singulares os seus imóveis residenciais com licença de habitação em 3 anos.

• Facilitar a construção de hotéis e limitar  alojamentos locais. O crescimento do turismo deve ser acompanhado por capacidade de alojamento turístico própria. 

Solução de curto prazo se não for suficiente: duplicar o IMI especial a ALs e canalizar esse montante apenas para a construção de habitação pública.

• Aumentar o IMI de proprietários não residentes, com salvaguardas para emigrantes e situações justificadas, e reforçar a tributação de casas de luxo. A receita adicional ficaria expressamente destinada à construção e reabilitação de habitação pública.

Solução de curto prazo se não for suficiente: Duplicar o IMI para as residências de extremo luxo.

• Agravar progressivamente o IMI de casas habitáveis mantidas devolutas, salvaguardando obras, heranças em resolução e impedimentos comprovados.

Solução de curto prazo, se não for suficiente: expropriar para habitação jovem ao preço de mercado, caso não haja resposta em 1 ano útil. Jovens que emigram têm retirados os direitos à habitação jovem.

• Reduzir a carga fiscal sobre quem coloca imóveis no arrendamento de longa duração a preços acessíveis.

Solução de curto prazo se não for suficiente: Reduzir mesmo o IRS.

• Acelerar o licenciamento, para dias e não anos, e mobilizar terrenos e edifícios públicos sem utilização, com metas de execução e prestação pública de contas.

Solução de curto prazo se não for suficiente:  Não-Objecção por defeito.

• Investir em transportes e infraestruturas para tornar mais zonas atrativas para viver.

Solução de curto prazo, se não for suficiente: transporte sem custo.

Estas propostas exigem enquadramento jurídico e uma avaliação dos seus efeitos. 

Mas o princípio é claro: os incentivos públicos devem premiar quem constrói, recupera e disponibiliza habitação.

O investimento deve ajudar a criar mais casas. 

E a receita fiscal gerada pelo património deve contribuir para que mais pessoas tenham acesso a uma.

Simples. Concordas? Agora deseduca toda a gente para esquecer as suas ideologias que só nos torna cegos. E educa como devemos andar para a frente.

Precisamos duma frente ampla com visão em comum.

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Talgo quer fornecer a Portugal comboios de alta velocidade adaptáveis a duas bitolas

18 October 2026 at 16:59

A fabricante espanhola Talgo pretende apresentar à CP uma proposta de comboios de alta velocidade capazes de circular em bitola ibérica e internacional. Embora o concurso não exija essa capacidade, a empresa considera que a solução daria a Portugal maior flexibilidade perante uma eventual mudança da largura das vias ou a operação noutros mercados.

A intenção foi avançada pelo presidente executivo da Talgo, Ricardo Chocarro, em declarações em Madrid a meios de comunicação portugueses, incluindo a Lusa. A fabricante espanhola e a francesa Alstom foram as duas empresas escolhidas em setembro para apresentar propostas à CP – Comboios de Portugal.

Tecnologia já permite mudar de bitola em Espanha

O concurso destina-se à ligação de alta velocidade entre Lisboa e Porto em bitola ibérica, uma característica que Chocarro descreveu como uma “especificidade absoluta” do procedimento.

Segundo o responsável, os comboios de alta velocidade da Talgo já circulam em Espanha nas duas bitolas. A tecnologia permite passar entre vias de diferentes larguras sem necessidade de parar as composições ou de fazer descer os passageiros.

“O concurso não o exige, o concurso não o valoriza, mas acreditamos que é uma grande vantagem para Portugal dispor dessa capacidade de bitola variável, caso se decida, no futuro, adotar a bitola europeia ou caso se pretenda, no futuro, operar noutros contextos, noutros mercados. É isso que vamos colocar em cima da mesa no concurso de Portugal”, afirmou.

Circulação poderá combinar linhas de alta velocidade e vias regionais

Chocarro destacou os 25 anos de experiência da Talgo na alta velocidade espanhola, num contexto que considera semelhante ao português. Ressalvou, porém, que a proposta terá de responder às características específicas da rede nacional.

Além da circulação em bitola ibérica, que classificou como pouco habitual na alta velocidade, o responsável apontou a necessidade de utilizar diferentes tipos de linha enquanto decorrem as obras.

“O comboio vai ter de circular por vias de alta velocidade e, provavelmente, também por vias que atualmente se utilizam nos transportes mais regionais”, explicou, acrescentando que a empresa dispõe de uma “tecnologia multivia”.

Compra de 12 automotoras com opção de mais oito

Com um preço base de 504 milhões de euros, o concurso prevê a aquisição de 12 automotoras de alta velocidade, respetivas peças de parque e ferramentas especiais. Inclui ainda a opção de compra de mais oito automotoras.

O contrato abrange também a manutenção integral durante os dois anos seguintes à receção do primeiro comboio.

As próximas etapas serão a apresentação e análise das propostas, seguindo-se a decisão. O calendário prevê a assinatura do contrato no primeiro trimestre de 2027 e a entrega do primeiro comboio nos primeiros três meses de 2031.

Talgo prevê contratar e formar trabalhadores em Portugal

A empresa pretende “desenvolver capacidade local, tanto para o fornecimento como para a manutenção”, nomeadamente através da contratação e formação de trabalhadores em Portugal, adiantou Chocarro.

O presidente executivo não revelou os custos da proposta que será apresentada à CP nem valores de um eventual investimento no país.

Fundada em 1942, a Talgo apresenta-se como uma empresa especializada no desenho, fabrico e manutenção de comboios de alta velocidade e longa distância. Tem uma carteira de encomendas de cerca de 6.500 milhões de euros, em contratos de produção e manutenção em vários continentes.

A companhia é maioritariamente privada, contando com duas participações públicas: 7,9% do Estado espanhol e 7,8% do executivo regional do País Basco.

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Miguel Trindade sagra-se campeão mundial de kickboxing e já treinou no Algarve [vídeo]

18 October 2026 at 13:41

O português Miguel Trindade, que já treinou no Algarve, conquistou o título mundial de pesos-pena do Glory, em kickboxing, no sábado, 17 de outubro. O atleta de 25 anos venceu o turco Deniz Demirkapu na Lotto Arena, em Antuérpia, na Bélgica, segundo o Diário de Notícias.

Treinos no Algarve

A Kickboxing Fight Tavira pretende, há algum tempo, trazer Miguel Trindade a Tavira para orientar um treino. Para Miguel Pires, da associação tavirense, a conquista do título mundial era um desfecho que já se adivinhava, tendo em conta a qualidade e o talento demonstrados pelo atleta ao longo do seu percurso.

“Este título já se adivinhava, pois o Miguel é um atleta extraordinário e merece, sem qualquer dúvida, este título e todo o reconhecimento do mundo”, afirma Miguel Pires, da Kickboxing Fight Tavira.

A ligação do campeão mundial ao Algarve passa também pelos treinos que tem realizado ocasionalmente na região, incluindo uma sessão de sparring com Fábio Medinas, atleta da associação tavirense.

Micael Rodrigues, da Top Team Briceno (E), o campeão mundial de kickboxing Miguel Trindade (C) e Fábio Medinas, da Kickboxing Fight Tavira (D), numa fotografia de 2025

A fotografia que documenta esta ligação resultou de um convite feito por Micael, da Top Team Briceno, a Fábio Medinas. O encontro aconteceu algumas semanas depois de um treino de sparring com Uisma Lima, pugilista profissional que, nas palavras de Miguel Pires, “já deu e dará ainda muito que falar, e pela positiva”.

Nesse contexto, Micael também foi convidado, tendo o clube de kickboxing do Campinense cedido gentilmente o espaço e o ringue para a realização do treino.

Miguel Pires revela ainda que acompanhou, através das redes sociais, a presença de Miguel Trindade na Top Team Albufeira, onde também realizou treinos, reforçando assim a ligação do campeão mundial à região algarvia.

Apesar de reconhecer que a conquista do título mundial poderá dificultar a disponibilidade do atleta para novos compromissos, a Kickboxing Fight Tavira mantém a intenção de o receber na cidade.

“Sabemos que agora será mais difícil ter o Miguel em Tavira, mas será uma realidade muito em breve”, garante Miguel Pires, manifestando confiança na possibilidade de o campeão mundial vir a partilhar a sua experiência e os seus conhecimentos com os atletas tavirenses.

Três quedas decidiram o combate

O triunfo chegou por knockout técnico no terceiro assalto, depois de três quedas do adversário provocadas por pontapés baixos, descreve o DN.

Para atingir os 65 quilogramas da categoria, Trindade explicou ao jornal que segue uma preparação alimentar de oito a dez semanas.

De Loures aos ringues internacionais

Nascido nas Torres da Bela Vista, em Loures, viveu depois em Sintra. Aos 19 anos, deixou Geografia, na Universidade de Lisboa, para apostar no desporto. Trabalhou no McDonald’s e deu aulas antes de rumar a Espanha.

Conquistou um título europeu em 2021. Após uma lesão em 2022, passou a trabalhar com Diego Vazquez e regressou aos combates em 2023, chegando depois ao Glory.

Ao DN, resumiu a ambição que acompanha o percurso: “Mais do que ganhar ou perder, o que fica é a marca que deixamos nas pessoas”.

A mensagem de confiança antes da conquista

Antes do combate, numa publicação no Facebook de 1 de outubro, acompanhada por um vídeo, Miguel Trindade tinha deixado uma mensagem sobre as suas origens e o significado que atribuía à presença naquele patamar competitivo.

“Quando um português filho de emigrantes moçambicanos está neste patamar, lembrem-se bem de que ele está a representar-vos a todos”, escreveu.

O atleta dirigiu-se a quem enfrenta dificuldades para concretizar os seus objetivos, seja pela origem, pelas circunstâncias de vida ou pela falta de apoio.

“Está a demonstrar que, embora seja duas vezes mais difícil, todos nós podemos”, afirmou, evocando pessoas de bairros sociais, pequenas localidades do interior ou países em guerra, assim como quem não tem o apoio que gostaria de receber.

“Admirem, valorizem e orgulhem-se”, apelou.

A publicação terminava com uma frase de confiança na data em que viria a conquistar o título mundial: “Por isso e por muito mais, dia 17 será um dia para a História”.

Mensagem de Miguel Trindade a 13 de abril deste ano: “Não tinha nada, não sou predestinado nem sou mais que ninguém… Tudo veio à base de obsessão e MUITO sacrifício. Espero que sintam a mensagem”.

Leia também: Dynamite Fighting Championship levou mais de 800 pessoas ao Parque de Feiras de Tavira

Miniassembleias nas escolas juntam mais de mil alunos para falar de saúde sexual

18 October 2026 at 12:50

A Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde (SPLS) está a promover “miniassembleias da saúde” em escolas básicas e secundárias para esclarecer os jovens sobre infeções sexualmente transmissíveis. As iniciativas envolvem mais de 1.000 alunos entre os 14 e os 18 anos, que participam no debate e na transmissão de informação aos colegas.

As sessões integram a campanha #semvergoha, com o apoio científico da Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da Sida (APECS). Em declarações à Lusa, a presidente da SPLS, Cristina Vaz de Almeida, defendeu que os jovens devem ser “os protagonistas da mudança”.

A iniciativa surge num contexto em que quase 30% dos novos casos de VIH registados em 2024 ocorreram em pessoas com menos de 30 anos. No conjunto dos novos diagnósticos, 53,9% foram identificados numa fase avançada da infeção, segundo os dados citados pela Lusa.

Informação simples e discussão em pequenos grupos

As miniassembleias são desenvolvidas com os próprios alunos. Médicos ou enfermeiros começam por transmitir informação em linguagem simples, seguindo-se a divisão dos participantes em grupos para debater temas como a sífilis, o VIH e a sida, a transmissão das infeções e a utilização correta do preservativo.

“Para haver desenvolvimento de competências nestes jovens, não pode ser uma ação meramente expositiva. Temos de adaptar ao perfil”, explicou Cristina Vaz de Almeida.

A responsável associa o aumento das infeções sexualmente transmissíveis entre os jovens a “comportamentos de risco e falta de literacia em saúde”, tanto dos adolescentes como das famílias.

A abordagem procura reduzir o estigma e “normalizar os comportamentos protetores”, permitindo que a informação circule de forma simples e que os alunos transmitam mensagens corretas entre si.

No final, as miniassembleias são publicadas e os participantes podem rever-se. “Gostam de ver que são eles os atores da mudança”, afirmou a presidente da SPLS.

Saber aceder à internet não significa saber usar informação de saúde

Cristina Vaz de Almeida alertou que a familiaridade dos jovens com o meio digital não garante capacidade para compreender e utilizar informação sobre saúde.

“Têm literacia digital, sabem aceder ao digital, mas não têm literacia em saúde digital, não sabem usar o conhecimento quando estão dentro do digital”, observou.

Perante a dificuldade de mudar comportamentos, a responsável considera as escolas um espaço privilegiado de intervenção.

“Promover a literacia em saúde nas escolas é investir na capacidade dos jovens para compreenderem a informação, avaliarem as suas opções e tomarem decisões informadas sobre a sua saúde e o seu bem-estar”, defendeu.

Para isso, acrescentou, é necessário “criar espaços de confiança, onde os jovens possam falar sem vergonha, esclarecer dúvidas sem receio de julgamento e aceder a informação clara, rigorosa e adequada à sua idade”.

Sessões previstas em Lisboa, Peniche, Felgueiras e Lousada

Em outubro, as miniassembleias passam pela Escola Secundária Padre António Vieira, em Lisboa, nos dias 20 e 22, e pela Escola Básica Marquesa de Alorna, também na capital, no dia 29.

Em Peniche, a Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos de Atouguia da Baleia recebe a iniciativa em 28 de outubro.

No dia 18 de novembro, estão previstas sessões nas escolas secundárias de Felgueiras e de Lousada.

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Acampadas violências | Por José Figueiredo Santos

18 October 2026 at 12:18

Há violências que irrompem nas ruas, de punho erguido e rosto descoberto, e outras que preferem a penumbra dos gabinetes, a respeitabilidade das instituições e a linguagem asséptica dos regulamentos. Umas empunham armas; outras manejam despachos, multiplicam procedimentos e invocam, com a fleuma dos irrepreensíveis, as inevitabilidades do sistema. Umas ameaçam pela força; outras exercem-na sem levantar a voz. Todas, porém, se tornam perigosas quando a razão capitula, o medo se instala e a força, perdida a vergonha, reclama para si o direito de governar.

O século XX, com a sua indústria triunfante, a massificação dos desejos e a burocratização da existência, deixou-nos uma lição que o nosso otimismo tecnológico parece obstinado em esquecer: o progresso das máquinas não obriga ao progresso dos homens. Aperfeiçoámos os instrumentos, multiplicámos as necessidades, catalogámos a vida em repartições cada vez mais minuciosas e construímos, em nome da eficiência, prodigiosas maquinarias estatais para administrar pessoas. Mas, nem por isso, aprendemos a viver melhor uns com os outros. A sociedade cresceu em organização e perdeu em comunidade; o indivíduo ganhou em informação, mas ficou-se pelo anonimato e pelo emudecimento da voz, e descobriu que entre o direito de participar e o poder efetivo de decidir se espraia, tantas vezes, um abismo regulamentado com todo o cuidado.

Não admira, pois, que os apelos à não violência sejam hoje recebidos, em certos círculos, como uma ingenuidade de salão, própria de quem nunca teve de enfrentar a brutalidade do mundo. Discute-se, com a desenvoltura de quem não arrisca a pele no argumento, a legitimidade dos meios violentos de resistência à opressão, como se a nobreza dos fins pudesse lavar a infâmia dos meios. Em tempos de violências acampadas à porta da razão, insistir na distinção entre poder e violência parece, por vezes, uma excentricidade académica. E, no entanto, é precisamente quando essa distinção começa a ser tratada como um luxo que mais importa defendê-la — sem confundir o poder político com o monopólio estatal da violência legítima, na formulação clássica de Max Weber.

Convém, a este propósito, regressar a Hannah Arendt. Para a pensadora, o poder nasce quando os homens agem em conjunto, sustentados pelo consentimento e pela capacidade de construir um espaço público comum. A violência, pelo contrário, é instrumental: precisa de armas, de máquinas, de dispositivos de coerção; carece, em suma, de meios que substituam aquilo que já não consegue obter pela adesão. Onde o poder vacila, a violência oferece-se como sucedâneo. Promete restaurar a autoridade, mas corrói-lhe os fundamentos; impõe obediência, mas não fabrica legitimidade. É capaz de calar uma praça D. João I ou um concentrado de Rossio, não de conquistar a confiança de quem nelas é calado. E pode destruir o poder com uma eficácia que nunca conseguirá reproduzir na sua construção.

Curem-se da ilusão, pois, os devotos do tacão, que tentam mascarar a fragilidade do poder elevando o tom da ameaça e a vulgaridade da coação, seja apelidando os outros de arruaceiros, seja ordenando que os encostem à parede. Repete-se à exaustão, entre o senso comum e certas teorias políticas, que o poder nasce do fuzil. Trata-se de um chavão de fácil encanto para quantos preferem a obediência cega ao acordo mútuo e o medo ao trabalho paciente do convencimento.

Uma arma pode impor silêncio, produzir submissão e espalhar terror. Mas o silêncio não é consentimento, a submissão não é adesão e o terror não é poder político. Quando uma autoridade precisa de recorrer incessantemente à força para provar que ainda manda, talvez já tenha perdido aquilo que a legitimava: a capacidade de ser reconhecida sem ter de se impor a cada instante.

De Paris ao Porto, de Lisboa a Moscovo, esta verdade não deveria carecer de demonstração. E, contudo, continuamos a comportar-nos como se a violência pudesse resolver aquilo que a política deixou por dirimir. Como se o estrondo dispensasse o argumento, a confrontação poupasse o trabalho de diálogo e a destruição fosse uma expedita forma de construção. Como se a cólera, pelo simples facto de ter uma causa por base, adquirisse o privilégio de todas as razões. A indignação pode ser justa; os seus instrumentos, porém, não ficam por isso absolvidos. Há causas legítimas defendidas por meios que acabam por as desfigurar — e há revoltas que, de tanto combaterem a opressão, começam a aprender-lhe os métodos.

A História oferece-nos um inventário eloquente destas frustrações. Da guerra do Vietname aos movimentos estudantis de maio de 1968, dos protestos contra a burocracia estatal às revoltas juvenis em França, reaparece, sob circunstâncias diversas, uma inquietação comum: a de cidadãos que se sentem afastados dos lugares onde o seu destino coletivo é decidido. A juventude protesta, por vezes com desordem e violência, contra sistemas que lhe exigem paciência, mas lhe recusam influência; que lhe prometem participação, mas que apenas lhe entregam formulários; que a convocam para a democracia e depois se espantam quando ela pretende exercer o direito de intervir. As instituições, entretanto, recomendam serenidade, abrem um processo, nomeiam uma comissão e aguardam que a indignação, por cansaço ou falta de expediente, acabe por desaparecer.

Já em 1981, Pierre Rosanvallon chamava a atenção para o facto de a crise do Estado social não se esgotar nas contas públicas nem no equilíbrio financeiro. Era também uma crise cultural e de legitimidade. A questão não consistia apenas em saber quanto custava o Estado, mas em compreender por que razão tantos cidadãos deixavam de reconhecer nele um instrumento da sua vontade coletiva. Quando a palavra parece inútil, a participação se converte em ritual e a ação política se reduz à escolha periódica de representantes, a violência insinua-se como atalho para a mudança. Promete chegar depressa onde o diálogo parece não chegar nunca. Esquece-se, porém, de que os atalhos também conduzem a becos sem saída — e de que o caminho de regresso é, muitas vezes, mais penoso do que aquele que nos levou até lá.

A violência possui, sem dúvida, uma racionalidade instrumental: escolhe meios, calcula efeitos, procura alcançar fins imediatos. O seu perigo começa quando os meios se emancipam dos fins, quando a destruição deixa de ser uma exceção e se transforma em linguagem, quando a brutalidade, de tanto se repetir, adquire a enganadora aparência da normalidade. Nesse momento, já não é apenas a ordem pública que está ameaçada. É a própria capacidade de uma sociedade se reconhecer como comunidade política, isto é, como lugar onde as diferenças podem coexistir sem que cada divergência se converta numa batalha.

É então que a política fica suspensa — e com ela a suspensão da possibilidade de resolver o conflito sem o entregar à brutalidade da força. Na sua expressão mais nobre, a política transforma antagonismos em debate, interesses em negociação e conflitos em decisões partilhadas. Não elimina a divergência, nem promete a harmonia fácil dos discursos oficiais; impede, isso sim, que a divergência tenha de acabar no esmagamento do adversário. A violência dispensa o argumento e exige a submissão. Uma vez aceite como método habitual, alimenta-se de si própria: cada golpe reclama uma resposta, cada resposta legitima um novo golpe, cada vítima descobre no sofrimento a justificação para a represália. No fim, todos se declaram ofendidos, todos reclamam justiça e quase ninguém se reconhece responsável pelo incêndio.

Talvez resida aqui uma das contradições mais inquietantes do nosso tempo: queremos viver em democracia, mas nem sempre aceitamos a disciplina interior que ela exige. Reclamamos autoridade, desde que não nos contrarie; exigimos liberdade, desde que não nos incomode; defendemos o diálogo, até ao instante em que o outro começa a falar. Somos tolerantes enquanto não somos contrariados, democratas enquanto a decisão nos favorece, pacifistas enquanto a indignação alheia não perturba a nossa tranquilidade. Depois, surpreendemo-nos com a violência, como se ela tivesse chegado de um mundo estranho e não fosse também, por vezes, o resultado das nossas renúncias, das nossas cumplicidades e da nossa incapacidade de escutar.

E assim vamos acampando violências, nas ruas e nas consciências, diante das instituições e dentro delas, convencidos de que a força poderá realizar aquilo que a razão, a justiça e a política não conseguiram. Esquecemo-nos de que a violência pode conquistar um espaço, impor uma vontade, derrubar uma porta ou silenciar uma multidão. O que não consegue, por si só, é construir uma casa comum. Para isso são precisos outros instrumentos, menos espetaculares e mais exigentes: confiança, responsabilidade, justiça, liderança e a difícil disposição de reconhecer no adversário alguém com quem teremos, a inevitabilidade de continuar a viver.

O confronto físico até pode ditar quem sai vitorioso, mas nunca definirá quem tem razão ou quem tem legitimidade. Afinal, a violência destrói, mas não tem a competência para reconstruir uma vida digna nos dias que se lhe seguirão.

E talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer antes de cada confronto, antes de cada palavra incendiária e de cada gesto que se julga irreversível: quando a violência toma o lugar da política, quem ganha verdadeiramente o poder — e quem fica, afinal, sem ele?

Leia também: Lideranças políticas que temos | Por José Figueiredo Santos

Ministro foi à China e revela posição sobre regras vinculativas para o uso da inteligência artificial nas escolas

18 October 2026 at 11:59

Fernando Alexandre afirmou, na China, que as novas orientações para utilizar a inteligência artificial (IA) nas escolas não terão caráter vinculativo. O ministro da Educação, Ciência e Inovação defende uma abordagem pedagógica que permita acompanhar a evolução da tecnologia, tendo como prioridade melhorar as aprendizagens.

“São orientações”, sublinhou à Lusa, em declarações prestadas na sexta-feira, 16 de outubro, à margem da Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento do Ensino Profissional e Técnico, em Tianjin.

O governante reconheceu que a IA oferece oportunidades para desenvolver as competências dos alunos e melhorar as práticas pedagógicas, mas também apresenta riscos que mudam com o aparecimento de novas aplicações.

“Uma das mensagens nas orientações é precisamente a capacidade de adaptação àquilo que são as novas aplicações que vão surgindo, as novas possibilidades”, explicou.

Documento em consulta pública após um ano de trabalho

As orientações resultam de um trabalho desenvolvido ao longo do último ano, com a auscultação de várias entidades e a recolha de centenas de contributos.

O documento foi colocado em consulta pública em 15 de outubro, procurando agora receber novas contribuições das escolas e da comunidade educativa.

Fernando Alexandre adiantou que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que acompanha a reforma do sistema educativo português, deverá também contribuir para o texto, nomeadamente na área da transformação digital.

Ministro defende avaliação dos benefícios das ferramentas digitais

O desenvolvimento das competências digitais ocupa um lugar central na estratégia do Governo, afirmou o ministro. Ressalvou, contudo, que a introdução de ferramentas nas escolas deve ser acompanhada de regras e de uma avaliação dos seus benefícios.

Como exemplos, apontou a regulamentação do uso dos telemóveis nas escolas e a diminuição do recurso aos manuais digitais nos últimos dois anos.

“Aquilo que aconteceu nos últimos dois anos foi uma redução até significativa do uso dos manuais digitais, precisamente porque a evidência do seu benefício não era óbvia”, declarou.

Inteligência artificial também coloca desafios à avaliação

Questionado sobre a possibilidade de reforçar as provas orais e presenciais, numa altura em que muitos trabalhos são realizados com recurso à IA, Fernando Alexandre considerou que essa preocupação é particularmente relevante no ensino superior.

“No básico e no secundário, isso não tem uma grande relevância”, afirmou, referindo-se ao peso dos trabalhos realizados fora da sala de aula na avaliação dos estudantes.

O governante reconheceu, porém, que a utilização da tecnologia tem consequências nas duas vertentes: “Estas orientações afetam não apenas o ensino, como também a avaliação”.

Recordou ainda que, enquanto professor universitário, já tinha alterado o modelo de avaliação de uma disciplina em resposta à utilização destas ferramentas.

“Em 2022, mudei no próprio semestre a avaliação, porque tinha um ensaio e ele foi alterado para apresentações orais”, afirmou.

Leia também: UAlg inaugura duas residências em Faro com 296 camas e avança com projeto para o Barlavento

Movimento pela habitação destaca Faro e promete continuar protestos

18 October 2026 at 11:20

A mobilização em Faro foi destacada pela porta-voz do movimento pela habitação, Cristiana Leal, num balanço em que classificou a semana de protestos no Porto como o “despertar de um povo”. Em declarações à Lusa no sábado, 17 de outubro, assegurou que o movimento continuará depois de terminar a autorização municipal para se manifestar na Praça D. João I.

“Em Faro também está a haver muita mobilização e eu acredito que vão ser grandes manifestações”, afirmou, sublinhando que “isto não é uma luta só do Porto, isto é uma luta do país inteiro”.

Questionada sobre as ações previstas para esse dia noutras cidades, a porta-voz referiu também informações positivas sobre a mobilização na Madeira e destacou os preparativos em Lisboa, tanto para a manifestação como para a acampada anunciada para depois.

Participantes recebidos com palmas na manifestação da CGTP

Cerca de uma centena de pessoas do movimento integrou a manifestação da CGTP, que reuniu milhares de participantes no Porto. A marcha partiu da Praça da Batalha e terminou na Praça D. João I, centro dos protestos pela habitação ao longo da semana.

À chegada, os elementos do movimento foram recebidos com palmas.

“Fomos recebidos com todo o carinho, as pessoas sabem que nós estamos a lutar pelo mesmo que elas, estamos todos a lutar pelo mesmo e é só isso que importa”, afirmou Cristiana Leal.

A porta-voz, identificada pela Lusa como uma das vítimas da carga policial que terminou com a acampada na madrugada de quinta-feira, considerou que a mobilização alcançada representa uma vitória.

“Nós, numa semana, conseguimos mobilizar todas estas pessoas, conseguimos que outras cidades se mobilizassem para se juntar a nós”, salientou.

Movimento quer prosseguir depois de 20 de outubro

Na mesma intervenção, Cristiana Leal apelou à participação na assembleia popular então agendada para as 19:00 de sábado, na Praça D. João I.

A autorização da Câmara do Porto para os protestos naquele espaço é válida até 20 de outubro, mas a porta-voz garantiu que o seu termo não determinará o fim do movimento.

“Este movimento começou e não vai parar, porque as condições de vida são as que são, ainda não mudaram e enquanto elas não mudarem o movimento não para”, declarou.

Caráter apartidário não impede aproximação a outras causas

Questionada sobre uma eventual associação a outras causas por ter participado na marcha da CGTP, Cristiana Leal respondeu que não se opõe a essa ligação quando estão em causa “a melhoria das condições de vida e o aumento dos salários”.

“Nós somos um movimento apartidário, mas os partidos são formados por pessoas e essas pessoas estão connosco e estão com o nosso movimento”, afirmou.

A porta-voz criticou ainda o presidente da Câmara do Porto, que acusou de ter “agredido e atacado” os manifestantes.

Apesar de participarem na marcha, os membros do movimento não foram autorizados a discursar, uma situação que Cristiana Leal desvalorizou. Depois de entoarem o hino nacional, os jovens gritaram “Pedro Duarte, demissão”.

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Arménio Aleluia: a grandeza de não esquecer | Editorial de Henrique Dias Freire

18 October 2026 at 07:30

Uma roda de ferro, feita por um ferreiro para um menino brincar, pode parecer um episódio pequeno. Nas palavras de Arménio Aleluia Martins, torna-se memória de uma pessoa, de um ofício e de uma terra. O menino era ele; o ferreiro, José Martins.

Talvez esteja aqui uma das qualidades mais bonitas do seu percurso: reconhecer grandeza onde outros poderiam ver apenas uma história sem importância. Aos 86 anos, o jornalista e escritor publica Cidadãos que Conheci em Paderne, o seu 13.º livro. Reúne 63 biografias, cruzando recordações com fotografias, documentos e testemunhos. Mas faz mais do que guardar o passado: devolve presença às pessoas que ajudaram a construir a comunidade.

A entrevista publicada nesta edição mostra um homem para quem o afeto não dispensa o rigor. A gratidão, explica, não autoriza a acrescentar qualidades ou acontecimentos. É uma lição de jornalismo e também de respeito: homenagear alguém exige conhecer a sua vida, não inventar-lhe uma grandeza conveniente.

Esse compromisso atravessa um percurso que merece reconhecimento. Dirigiu A Avezinha, Hora de Albufeira e Diário do Algarve, trabalhou na rádio e nas agências noticiosas e fundou a Biblioteca-Museu do Jornal A Avezinha. Ao jornalismo juntou o associativismo, o teatro, a música e o desporto. Não se limitou a contar a vida da sua terra: participou nela.

Ao recordar Maria da Conceição Elói e Maria Feliciana Marim Marques, entre as fundadoras de A Avezinha, dá também lugar às mulheres que escreveram e fizeram a história local.

Paderne pode orgulhar-se deste trabalho. E o Algarve deve reconhecer ne-le uma forma de serviço público: preservar aquilo que nenhuma estatística consegue substituir, a experiência concreta das pessoas. Uma região também se conhece pela atenção que dedica a quem a construiu, longe da notoriedade.

Esta homenagem não pretende encerrar um percurso. Pretende agradecer uma presença e acompanhar o trabalho que continua. Quem dedicou tantas páginas aos outros merece encontrar, nestas páginas, o reconhecimento da comunidade.

A roda do ferreiro sobreviveu na memória do menino. Arménio transforma agora essa memória numa herança partilhada.

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