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Como o agro e o interior podem explicar diminuição de votos para Lula

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O domingo do primeiro turno terminou com uma surpresa, ao menos para quem acompanhava a maioria das pesquisas eleitorais e também para os próprios candidatos. “Confesso que estava convencido de que iria ganhar no primeiro turno”, disse Lula ontem. O atual presidente marcou 3,3 milhões de votos a menos do que no primeiro turno de 2022, enquanto Flávio Bolsonaro conseguiu 5 milhões de votos a mais que seu pai, Jair.

O resultado pode ser explicado por vários fatores: como a Agência Pública mostrou, escândalos políticos podem ter favorecido o desejo “antissistema” que – apesar de ser uma grande contradição –, é usado politicamente por Flávio e bolsonaristas. O caso do Master, inclusive, não foi capaz de impedir que muitos políticos diretamente citados nas investigações e vazamentos ligados ao banco conseguissem se reeleger. Isso inclui o próprio Flávio, investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas em relação ao financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai. Flávio pediu dinheiro diretamente para Daniel Vorcaro, trocou dezenas de mensagens com o ex-banqueiro e marcou encontros com ele.

Além dos escândalos políticos, outras variáveis ajudam a entender a diminuição de votos de Lula e o crescimento de Flávio, e elas ficam evidentes no próprio mapa do Brasil. Levantamento de dados feito pelo cientista político Marco Antonio Faganello, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV/CEPESP), mostra que Lula perdeu mais votos em municípios que não são capitais, e essa perda é ainda mais gritante em cidades menores onde a participação do agro na economia é grande. “Onde o agro está em mais de 50% no PIB (Produto Interno Bruto), no conjunto, Lula perdeu 8% dos votos em relação a 2022”, aponta.

A análise de Faganello mostra que municípios pequenos do interior, com alto PIB per capita, proporção de moradores que se declaram brancos e jovens mais alta e com grande atividade agropecuária estão onde Lula mais perdeu votos proporcionalmente a 2022. É esse o tipo de perfil de vários municípios de Goiás, estado onde a diminuição dos votos para Lula foi a mais significativa na proporção com 2022.

O pesquisador também aponta que o Nordeste, apesar de ser um reduto tradicional de Lula e não ter registrado uma queda significativa nos votos para o atual presidente, foi onde Flávio mais avançou. “A direita cresceu nos nove estados do Nordeste. Flávio superou o resultado de Bolsonaro em 98% dos 1.794 municípios da região. No Nordeste, Lula perdeu poucos votos, mas a direita cresceu em todos os estados: de 27% para 30,9% dos votos válidos”, detalha.

Na entrevista, Faganello também avalia como a abstenção, apesar de ter sido recorde, não parece ter impactado a perda de votos de Lula no Brasil como um todo, com exceção de Salvador, onde a ausência de eleitores impactou a votação do petista. Além disso, para o pesquisador, a proporção de evangélicos entre a população pode não explicar essa mudança. Contudo, Faganello ressalta que ainda há dados que o Tribunal Superior Eleitoral deve divulgar que podem detalhar esses aspectos.

Confira os principais trechos da entrevista aqui.

Marco Antonio Faganello é cientista político e pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV/CEPESP)
Marco Antonio Faganello é cientista político e pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV/CEPESP)

Na sua análise, você conclui que Lula teve menos votos em 2026 em relação ao primeiro turno de 2022 em 98% dos municípios do Brasil. Mas isso aconteceu diferente nas cidades pequenas e nas capitais e também a partir de outros fatores, como atividade agropecuária. Você pode explicar melhor essa diferença?

Estamos falando em votação proporcional, isto é, no quanto os votos que foram para o Lula em 2022 aumentaram ou diminuíram em 2026, proporcionalmente. Os dados mostram que essa queda foi maior sobretudo nos pequenos municípios e nos municípios ligados ao agro, além de ter um recorte por região do país. São esses os três principais fatores: tamanho, agro e região.

Sobre o tamanho dos municípios, quanto menor, mais Lula perdeu votos em relação a 2022. Nos municípios com até 5 mil habitantes, ele perde cerca de 7% [comparando 2026 a 2022]. Nos com mais de 500 mil habitantes, ele perde só 1%.

É importante ressaltar que isso é uma faceta, porque se você olha pra outro lado, em números absolutos, esse contingente de municípios pequenos não contribui tanto para a diminuição dos votos do Lula.

Se você aumentar esse grupo para municípios com até 50 mil habitantes, você chega a 50% da perda de votos que Lula teve entre 2022 e 2026. Já por outro lado, o Flávio ganhou votos nesses mesmos municípios em que o Lula perdeu. Ou seja, o voto que o Lula perdeu foi pro Flávio. Os demais candidatos desidrataram demais, não chegaram a influenciar essa conta.

Gráfico mostra onde Lula perdeu votos no primeiro turno das eleições 2026
Gráfico mostra onde Lula perdeu votos no primeiro turno das eleições 2026

Explique mais sobre esse recorte da presença do agro nos municípios. Você comparou a porcentagem da participação da atividade agropecuária no PIB municipal? Você pode citar alguns exemplos?

Isso, eu peguei a porcentagem da atividade agropecuária no PIB municipal. Para se ter uma ideia, em municípios onde essa porcentagem está em menos de 5% do PIB, Lula perdeu 2% no conjunto de votos. Mas onde o agro está em mais de 50% no PIB, no conjunto, Lula perdeu 8% dos votos em relação a 2022. Esses municípios pegam só 2% da população brasileira.

É interessante que, cruzando porte [da cidade] e agro, você vê que, nos municípios bem pequenos, de até 5 mil habitantes e que têm mais de 50% de PIB no agro, Lula perdeu 9% dos votos. Já entre os pequenos que têm menos de 5% do PIB no agro, Lula perdeu bem menos votos, menos de 4%. E essa perda de votos do Lula foi para o Flávio, não virou abstenção.

Isso levanta a hipótese de uma afinidade ideológica forte em municípios muito pequenos e com alta participação do agro. Uma pergunta ainda a se fazer é porque isso não pesou tanto em 2022 quanto em 2026.

E como a diferença entre as regiões do país e dos estados entra nessa conta?

No Sul e no Centro-Oeste foram onde aconteceram as maiores perdas de votos para Lula. Mas existe uma queda generalizada no país: parece que o que foi conquistado em 2022 se perdeu.

Foram 3 milhões de votos a menos que no primeiro turno de 2022. Não é uma flutuação gigantesca, mas nas últimas eleições é isso que tem acontecido, uma proporção de votos menor, que fica no meio, que fica flutuando. E quem decide a eleição são justamente essas pequenas flutuações.

E sobre a abstenção? Você aponta que ela não teve efeito na perda de votos para Lula. Por que?

A abstenção aparece como algo generalizado no país. Onde você teve mais abstenção, Lula não perdeu mais votos. A abstenção não parece ter relação nem com agro, nem com região do país. Ela bateu recorde em números absolutos, mas não foi uma variável que ajude a explicar a perda de votos de Lula.

Na sua análise, você aponta que o fator da religião evangélica não pesou nessa diminuição de votos do Lula. Por quê? E outros fatores, como entraram?

A porcentagem de evangélicos na população dos municípios não aponta uma mudança significativa de 2026 para 2022, Lula nem perdeu nem ganhou votos nas cidades a partir desse recorte – ele já não tinha [esses votos].

Já quanto mais jovem a população do município, mais o Lula perdeu votos. Quanto mais branca, também, e renda per capita do município também influencia. Quanto maior a renda, mais o Lula perdeu.

E teve uma diferença muito gritante entre capital e interior: Lula quase não perdeu nada na maioria das capitais, mas bastante em cidades que não são capitais.

Então dá pra dizer que entre os municípios onde o Lula mais perdeu votos existe um perfil comum? Municípios com grande participação do agro na economia, com população mais branca, mais jovem e com PIB per capita maior?

Sim.

E o contrário, onde o Flávio ganhou votos em relação a Jair?

O PL [votos para Flávio] ganhou 5 milhões em relação a 2022, em todo o país. E desse total de ganhos que o Flávio teve em 2026, 32% vieram do Nordeste. Foi onde ele mais avançou.

A direita cresceu nos nove estados do Nordeste. Flávio superou o resultado de Bolsonaro em 98% dos 1.794 municípios da região. No Nordeste, Lula perdeu poucos votos, mas a direita cresceu em todos os estados: de 27% para 30,9% dos votos válidos (mais 1,6 milhão de votos). O maior ganho, em pontos percentuais, foi no Ceará e no Maranhão.

Gráfico mostra onde Lula perdeu votos no primeiro turno das eleições 2026
Gráfico mostra onde Flávio Bolsonaro ganhou votos no primeiro turno das eleições 2026

Você também aponta que o Lula cresceu em 102 municípios – há algum padrão nestas cidades?

Lula ganha mais percentualmente em municípios de regiões variadas, Sobral, no Ceará; Macapá, no Amapá; Belém, no Pará; Niterói, no Rio de Janeiro; Aracaju, em Sergipe; Recife, em Pernambuco; Santos, em São Paulo; Rio Branco, no Acre; Fortaleza, no Ceará; e até na cidade do Rio de Janeiro. No geral são cidades grandes e médias.

Já Lula perdeu mais em várias cidades de Goiás, ali perto de Rio Verde. Depois em municípios do Tocantins e do Rio Grande do Sul.

Olha que curioso: Lula perde mais [votos proporcionalmente] na Bahia, com 3,6%, que em São Paulo, 3% [entre 2026 e 2022].

Na Bahia, Salvador concentrou 38% da perda de votos de Lula no estado, mas só 6% do ganho da direita: em Salvador, Lula perdeu votos sobretudo porque menos gente votou. No interior, a direita cresceu com mais eleitores indo às urnas.

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Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

Duas armas de cano longo e cinco pistolas de fabricantes variados, inclusive internacionais, como Glock, Sig Sauer e FXR. Esse pequeno arsenal foi apreendido pela Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira, 10 de setembro, em nome do deputado Mário Frias (PL). Segundo a corporação, as armas não estavam no endereço registrado, o que configuraria crime de porte ilegal de armas de fogo.

Embora o arsenal irregular não tenha sido o que motivou a ida da polícia atrás de Frias — o mandado de busca e apreensão mira o que seria uma organização criminosa que usaria dinheiro de emendas parlamentares para alimentar a produtora do filme de Jair Bolsonaro, o Dark Horse —, são as armas que explicam como o deputado se aliou ao bolsonarismo e ganhou poder político.

Ex-galã da Malhação, Frias tem um currículo “artístico” antes de chegar à política: passou pela Globo, Record e RedeTV antes de ingressar no Governo Federal. A estreia na política formal aconteceu em maio de 2020, quando a também colega atriz Regina Duarte foi demitida do cargo de Secretária Especial de Cultura após uma passagem rápida e problemática, que incluiu uma entrevista que minimizou a ditadura militar brasileira.

A saída de Duarte levou Frias a assumir a Secretaria, onde pôde unir dois mundos que interessam a ele e ao bolsonarismo: armas e cultura.

Armas de cano longo e cinco pistolas apreendidas hoje durante operação da Polícia Federal
Armas de cano longo e cinco pistolas apreendidas hoje durante operação da Polícia Federal

O plano para a cultura de 2020 a 2022: dinheiro para grupos armamentistas

Em 2022, a Agência Pública revelou como Frias, ao lado do então secretário nacional de Incentivo e Fomento à Cultura, André Porciuncula, prometeram R$ 1 bilhão da Lei Rouanet para conteúdo pró-armas.

“Pela primeira vez, vamos colocar dinheiro da Rouanet em eventos de armas de fogo, vai ser super bacana isso”, disse Porciuncula. A estratégia era convocar grupos armamentistas a submeterem projetos que usassem a isenção de impostos da Rouanet para conseguirem aprovar projetos elogiosos à cultura do uso de armas no Brasil. Uma pauta, no mínimo, contraditória, visto que a Rouanet é historicamente criticada por bolsonaristas e já foi chamada de “desgraça” por Jair Bolsonaro.

“Estou à disposição, qualquer dúvida, enquanto estiver na secretaria — que eu devo sair agora esta semana para concorrer —, mas nós vamos deixar uma equipe totalmente alinhada ao secretário especial de cultura. Qualquer dúvida estamos de portas abertas, o Mario é CAC, nós adoramos atirar. Essa pauta é importantíssima, uma pauta de liberdade e eu peço senhores, usem (a Lei Rouanet) e não deixem de usar”, frisou Frias.

A promessa foi feita durante a Convenção Nacional Pró-armas, realizada pelo grupo presidido pelo hoje deputado Marcos Pollon (PL-MS) — que hoje aparece novamente ao lado de Frias, justamente no escândalo do Dark Horse. Pollon é um dos deputados suspeitos de enviar emendas para o filme de Jair. Segundo a PF, Pollon enviou R$ 1 milhão à Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, produtora do longa-metragem. Foi também durante a gestão de Frias na Secretaria que ele teria conhecido Karina Gama, segundo apurou a Folha de S. Paulo.

A promessa de Frias gerou ao menos um resultado. A Pública mostrou com exclusividade que, em novembro de 2025, foi lançado um livro sobre a história das armas no Brasil com recursos captados via Lei Rouanet. Todo o dinheiro para bancar o livro veio da Taurus, a maior fábrica de armas do Brasil e a maior fabricante de revólveres do mundo, que patrocinou R$ 336 mil e doou outros R$ 85 mil para o livro. A fabricante pode abater impostos a partir dessa produção.

Após a Secretaria de Cultura de Bolsonaro, Frias foi para o Congresso. Catapultado pela visibilidade que alcançou no governo de Bolsonaro e por mais de R$ 1,4 milhão da direção nacional do PL, ele se elegeu em 2022 deputado federal por São Paulo.

Mário Frias durante a Convenção Nacional Pró-Armas, realizada em 28 de março de 2022, quando ainda era secretário da Cultura do governo Jair Bolsonaro.
Mário Frias durante a Convenção Nacional Pró-Armas, realizada em 28 de março de 2022, quando ainda era secretário da Cultura do governo Jair Bolsonaro

A atuação como deputado de 2023 a 2026: produção e dinheiro para filme de Bolsonaro

É durante o mandato de deputado federal que Frias se envolve no escândalo atual: os pedidos de dinheiro para o filme autobiográfico de Jair Bolsonaro e o envio de emendas parlamentares — isto é, dinheiro público — para o Instituto Conhecer Brasil, o ICB, da mesma Karina Gama, produtora do filme. Segundo a PF, foram duas emendas de Frias no valor de R$ 2 milhões. Além de Frias e Pollon, os negócios de Karina teriam recebido também emendas de Bia Kicis, no valor de R$ 150 mil.

A investigação também aponta um círculo de favores: o dinheiro das emendas sai dos cofres públicos, por meio de Frias, para o ICB de Karina; do outro lado, pessoas ligadas a outras empresas de Karina doam para a campanha de Frias em 2022.

A Pública mostrou como Karina tem acesso a gabinetes de ministérios e prefeituras e comanda empreendimentos que prometem uma revolução no empreendedorismo cristão. Dentre os principais apoiadores, está o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), que abriu portas para Karina em ao menos três ocasiões, para os muitos negócios da empresária — o ICB, a ANC e o grupo lobista GT Cristão. O ICB tem um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de Nunes para a instalação de wi-fi na periferia de São Paulo.

Frias também é próximo do marido de Karine, Wemerson Marinho dos Santos. Os dois participaram de reuniões com Frias enquanto ele era secretário da Cultura de Bolsonaro. 

Além do envolvimento financeiro, Frias é o principal idealizador do filme sobre Jair. O embrião já estava na sua gestão na Secretaria de Cultura quando apoiou a criação de heróis nacionais alinhados à pauta bolsonarista para disputar os corações dos jovens — uma ideia que dialoga com o ex-mentor dos Bolsonaro, o falecido Olavo de Carvalho. “Se a gente acredita em armas, a gente precisa criar os heróis. A gente precisa entender que as narrativas, principalmente pra população mais jovem, não são a partir de estatística, coronel, não são a partir de números que a gente vai convencer essa garotada de que nós queremos um Brasil melhor, e sim a partir da cultura”, disse à época.

Como a Pública mostrou com exclusividade, o argumento inicial do filme — e um dos principais — era atacar a imprensa e associá-la a uma suposta conspiração para matar Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018. O texto criava a figura de uma jornalista com passado comunista, Iara, que representaria o antagonismo da imprensa contra Jair, e que se envolvia numa teoria da conspiração com Adélio Bispo, autor das facadas contra o ex-presidente em 2018.

A Pública também mostrou que Frias se ausentou da Câmara dos Deputados, dizendo que faria uma viagem em missão oficial para “participar de debates sobre implantação de escolas cívico-militares”. No mesmo período, foram realizadas gravações do filme.

Mario Frias (ao centro) no set de Dark Horse
Mario Frias (ao centro) no set de Dark Horse

Os escândalos de 2026: o envolvimento não explicado dos filhos de Jair

Todo o escândalo envolvendo o Dark Horse envolve não apenas Frias, mas também ambos os filhos de Jair Bolsonaro.

Flávio, candidato à presidência, apareceu em áudio, revelado pelo Intercept, pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para bancar a produção do filme. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”, disse em mensagem. Inicialmente, ele negou o envolvimento, dizendo “É mentira”. Depois, admitiu, negando qualquer ilegalidade. A apuração mostrou que Vorcaro teria pago R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025. Depois, a revista piauí mostrou que os pagamentos foram ainda maiores, com mais R$ 8,2 milhões, e aconteceram após o período que Flávio havia admitido.

Áudio obtido pelo Intercept mostrou Frias agradecendo a Vorcaro pelo apoio ao filme Dark Horse.

Já a ligação com Eduardo aparece em um rascunho de contrato com uma empresa com braços na Hungria e na Holanda, a Freeway Cam B.V., que moveria fundos para o filme, como revelou a Pública. Ele e Karina procuraram a empresa, e Eduardo assumiu o compromisso de financiar a produção mesmo com o risco do filme não sair.

Ele também aparece no escândalo através do fundo Havengate, sediado nos EUA, onde o ex-deputado vive com muitas mordomias. O advogado de imigração Paulo Calixto, próximo de Eduardo, é quem administra o fundo. Ele teria recebido cerca de R$ 69 milhões através do doleiro Antonio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, também para o filme de Jair.

Mário Frias no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, convocado e liderado por Flávio Bolsonaro.
Mário Frias no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, convocado e liderado por Flávio Bolsonaro

A operação de hoje: as acusações contra Frias

A operação desta quinta, 10 de setembro, leva o nome de Make Up, expressão do inglês que remete a algo fabricado e também faz alusão à Go Up, empresa que produz o filme de Jair. Autorizada pelo ministro Flávio Dino — que é relator das investigações envolvendo o desvio de emendas para a produção do filme no STF (Pet 16669) —, a operação acontece em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.

Assim como Frias, Karina também é um dos alvos. São investigados os crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.

A polícia, utilizando informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), aponta envios de Frias no valor de R$ 645,4 mil à Go Up em um período de menos de 60 dias, que seriam incompatíveis com o rendimento do deputado, de cerca de R$ 44 mil mensais. O deputado está impossibilitado de deixar o país por ordem de Dino, mas ainda não há ordens de prisão.

Ao todo, o relatório aponta que a produtora movimentou R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. O período de gravação do filme Dark Horse seria praticamente o mesmo, de 20 de outubro a 7 de dezembro de 2025.

As investigações são um desdobramento da ação Compliance Zero, que investiga os desvios no Banco Master e levou à prisão de Vorcaro em 2025. No STF, o ministro André Mendonça é o relator das investigações sobre as fraudes envolvendo o banco. É esse o inquérito que gerou o relatório envolvendo o também ministro Alexandre de Moraes, divulgado na semana passada, e que deu início à crise atual envolvendo o STF. Dino, que é relator do inquérito sobre irregularidades no orçamento de emendas do Congresso, conduz investigações envolvendo a produção do filme Dark Horse por envolverem emendas parlamentares.

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