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Cancro do fígado: prioridade de saúde pública exige prevenção, diagnóstico precoce e cuidados no doente

Artigo de Opinião de Joana Espírito Santo, médica especialista em Medicina Interna, Subespecialidade de Doenças do Fígado, Unidade de Transplantação Hepática de Adultos, Unidade Local de Saúde de Coimbra, membro da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF). O cancro primário do fígado é uma das neoplasias com evolução epidemiológica mais desfavorável neste século. […]

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Portugal, o país que se tornou difícil ignorar

O desafio já não é provar que somos um bom país, mas que sabemos transformar essa atratividade em produtividade, em salários, em habitação acessível, em serviços públicos de qualidade.

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A alfarrobeira e o seu legado secular

Para nós, algarvios, é familiar a omnipresença da humilde alfarrobeira, designadamente na zona do Barrocal, local de eleição edáfico (do gr. “édaphos”, terra, solo) para esta sóbria espécie vegetal, originária, segundo consta, da Mesopotâmia, sua pátria remota. Conta-se como mais um dos inúmeros contributos da presença árabe, entre nós, a quem devemos, não apenas uma verdadeira revolução nos processos com novas técnicas na agricultura, no al-Andalus peninsular, como a migração e introdução de um sem número de outras espécies arbóreas e arbustivas.

Não me irei debruçar sobre a alfarrobeira, na vertente económica em si, uma vez que outros já o fizeram, melhor do que eu faria, neste mesmo espaço do nosso Jornal do Algarve.

Irei, antes, focar-me num outro aspecto histórico desta simpática árvore talvez, suponho eu, não tão conhecido.

O termo alfarroba veio-nos do ár. “al-ẖarrûba”, que, por sua vez, foi tomado do gr. “kérăs, kérātos” (chifre, corno), sua verdadeira origem. Aos olhos gregos foi atribuída tal designação, devido à semelhança deste fruto, que é ligeiramente curvo, com um chifre.

O contributo do fruto da alfarrobeira, em transacções comerciais de algo tão valioso como o ouro, desde tempos imemoriais, que remontam aos da própria Mesopotâmia, tem a ver com as humildes e minúsculas sementes da alfarroba.

Como assim?

Desde tão cedo, na história do Médio Oriente, como com os negociantes fenícios, a massa de cada semente da alfarroba era considerada como extremamente uniforme e pendular, pelo que, à falta de outro meio mais credível para pesar um metal tão caro como o ouro, foi, desde esses tempos remotos, tomada como fiável para esse fim.

Como se sabe, foram duas as grandes línguas que, desde os últimos três séculos anteriores ao advento da Era Cristã, dominaram culturalmente, “grosso modo”, a Europa: o Latim, na sua parte ocidental, devido à ascensão do Império Romano, e o Grego, na parte nascente, pela emergência de Alexandre, o Grande, cujos limites do império haveriam de tocar as fronteiras da própria India.

No âmbito da dominante influência cultural do Grego, como língua franca na área oriental da Europa, reflectindo rotas comerciais mediterrânicas extremamente activas, em termos comerciais, à modesta semente da alfarroba, então correntemente usada como padrão de peso para metais preciosos, seria atribuída a designação grega, “kerátion”, semente da alfarroba, ou seja, o diminutivo, como acima referimos, do gr. “kérăs”, o nome grego para alfarroba.

Quem não conhece o termo “quilate”, unidade que representa, actualmente, a massa padronizada de 0,2 g., a mesma que se atribuía, dantes, a cada semente da alfarroba, em termos empíricos ?

Este “quilate” nada mais é do que a evolução do grego “kerátion”, semente da alfarroba, através da língua árabe. No âmbito do intenso comércio praticado pelos Árabes, através das rotas comerciais e traduções científicas do tempo, e segundo as regras fonéticas da sua língua, o grego “kerátion”evoluiria, via árabe, para a forma intermédia “qīrāt“, antecâmara do actual “quilate”.

Nas línguas inglesa e francesa, por exemplo, a evolução seguiu caminho diferente do nosso e deu “carat”, enquanto no Italiano deu “carato” e, no Castelhano, tal como em nós, “quilate”.

Contudo, aplicado ao ouro, o quilate não funciona como medida de peso, mas como critério de “pureza do metal”, visto que o ouro é passível de ligas com outros metais, o que lhe retira a pureza, algo que é fundamental ter em conta, no acto da negociação.

Apenas o ouro com 24 quilates é considerado puro e, proporcionalmente, com 18 quilates tem 75% de pureza – o que significa que apenas três quartos são de ouro puro e um quarto de outro(s) metal(is) – ou com 12 quilates, apenas com 50% e por aí adiante.

De notar que o ouro puro desgasta-se mais facilmente do que como liga metálica, sendo por esse facto que algum do ouro comercializado não é de 24 quilates.

Permita-se-me, como vem a talho de foice, como sói dizer-se, que explique o porquê da escala utilizada de 24, como método para medir a pureza do ouro.

Tem a ver com o facto de a semente de alfarroba ter uma designação semelhante ao de uma pequena moeda de prata romana (do lat. siliqua) e de esta ser 1/24 (vigésima quarta parte) do soldo (do lat. solidus), moeda de ouro de grande pureza, criada no séc. IV.

Modernamente, como acima refiro, havia a necessidade de padronizar, cientificamente, a unidade de medida “quilate”, pelo que lhe foram atribuídas 0,2 gramas, pelo Sistema Internacional de Unidades (SI).

Acrescente-se que, segundo medidas rigorosas efectuadas, se chegou à conclusão de que a suposta uniformidade das sementes de alfarroba não correspondia à realidade, uma vez que aquelas podem, pontualmente, diferir, entre si, nalguns nanogramas.

Mais tarde, o quilate haveria de passar a ser igualmente utilizado em pedras preciosas, aqui, com o critério de peso e não, como no ouro, em que se tem de aquilatar, sim, não do peso, mas da sua pureza, como atrás se refere.

– Os processos para determinar a pureza do ouro, baseiam-se em vários métodos laboratoriais, de que refiro a espectrometria ou o ensaio electrolítico.

– O critério para determinar o valor de diamantes e outras gemas utiliza três pilares de avaliação, de que um é o peso, em quilates (0,2 g), e os outros a cor e clareza, no caso dos diamantes.

Para finalizar, não obstante todas as modernas técnicas postas ao serviço do comércio das mais valiosas jóias, a memória da humilde semente da alfarroba haveria de sobreviver, como símbolo, embora não como padrão prático, no termo “quilate”, medida básica para aferir do valor do ouro, assim como das mais valiosas gemas.

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Aumentar salários não chega: é preciso devolver poder de compra aos portugueses

Portugal enfrenta uma realidade económica que merece uma reflexão séria: apesar dos aumentos salariais anunciados ao longo dos últimos anos, muitas famílias continuam a sentir enormes dificuldades em fazer face às despesas mensais. Para milhares de trabalhadores, receber mais ao final do mês não significa necessariamente viver melhor.

O problema está na diferença entre aquilo que aparece no recibo de vencimento e aquilo que efetivamente sobra depois de pagar a renda da casa, a alimentação, a eletricidade, a água, os transportes, os seguros e os impostos. É nesta diferença que reside uma das maiores preocupações da sociedade portuguesa: a dificuldade crescente em transformar o trabalho numa verdadeira garantia de estabilidade financeira.

Não basta aumentar os salários se o custo de vida continuar a absorver os rendimentos das famílias

Os aumentos salariais são importantes e necessários. Contudo, não podem ser apresentados como uma solução isolada, nem utilizados como único indicador da melhoria das condições de vida dos portugueses.

Quando o salário aumenta, mas as despesas essenciais acompanham essa subida, o resultado pode ser uma melhoria praticamente impercetível no orçamento familiar.

A questão fundamental é simples: o que interessa não é apenas quanto ganha um trabalhador, mas aquilo que consegue fazer com o dinheiro que recebe.

O peso dos impostos sobre quem trabalha

Uma política económica centrada nas pessoas deve começar por reconhecer o valor do trabalho. Quem trabalha a tempo inteiro, cumpre os seus deveres e contribui para o funcionamento do país deve ter condições para viver com dignidade, constituir poupanças e preparar o futuro.

É por isso que o aumento dos salários deve ser acompanhado por uma redução responsável da carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho, em particular nos escalões baixos e intermédios. Não faz sentido promover aumentos salariais sem avaliar quanto desse esforço chega efetivamente ao bolso dos trabalhadores.

O objetivo deve ser claro: permitir que os portugueses conservem uma parcela maior do rendimento que conquistam com o seu trabalho.

Esta redução fiscal deve ser acompanhada por uma gestão eficiente dos recursos públicos, pela avaliação da despesa do Estado e pelo combate ao desperdício. Aliviar os impostos não pode significar ignorar a sustentabilidade das contas públicas, mas também não pode continuar a ser tratado como uma questão secundária para quem vive com um orçamento limitado.

O trabalho deve compensar, e o esforço de quem produz riqueza tem de se traduzir numa melhoria concreta das condições de vida.

A habitação tornou-se um dos maiores obstáculos à estabilidade financeira

A crise da habitação é outro dos fatores que mais contribuem para a pressão sobre os rendimentos das famílias. Em diversas regiões do país, o valor das rendas e dos imóveis afastou-se da capacidade financeira de muitos trabalhadores, incluindo aqueles que têm emprego estável.

Para um jovem que pretende sair de casa dos pais, para um casal que deseja constituir família ou para um trabalhador que procura viver perto do seu local de trabalho, encontrar uma habitação a um preço comportável tornou-se um desafio cada vez maior.

Quando uma parte excessiva do salário é destinada à renda ou à prestação da casa, ficam comprometidas outras necessidades fundamentais. Poupar torna-se difícil, enfrentar uma despesa inesperada pode representar um problema grave e o recurso ao crédito pode transformar-se numa solução de recurso para despesas correntes.

Não podemos normalizar uma realidade em que trabalhar não chega para garantir o acesso a uma habitação digna. É necessário travar a escalada dos preços através de uma resposta estrutural: aumentar a oferta de habitação, simplificar e acelerar os processos de licenciamento, disponibilizar terrenos, recuperar imóveis devolutos e criar condições para construir a custos mais comportáveis.

Devem igualmente ser avaliadas medidas proporcionais que reduzam os comportamentos especulativos e promovam uma utilização mais eficiente do património habitacional, sem desincentivar a construção, o arrendamento ou o investimento necessário para aumentar a oferta.

A solução não passa por procurar culpados de forma indiscriminada, mas por corrigir os desequilíbrios que impedem o mercado de responder às necessidades reais da população.

Combater a inflação e recuperar o poder de compra

A inflação representa outro desafio, sobretudo quando incide sobre despesas das quais as famílias não podem prescindir. A alimentação, a energia e os transportes ocupam uma parcela significativa dos orçamentos familiares, pelo que qualquer aumento persistente nestes custos reduz a margem financeira disponível. É importante, contudo, distinguir a inflação geral da evolução dos preços da habitação. São fenómenos relacionados com o custo de vida, mas que exigem respostas diferentes.

No combate à inflação, o país deve promover a concorrência, a produtividade e o funcionamento eficiente dos mercados, avaliando medidas temporárias e devidamente fundamentadas quando os aumentos dos bens essenciais colocam em causa as condições de vida das famílias mais vulneráveis.

Na habitação, é necessário atuar sobre a oferta, os custos de construção, o licenciamento e os desequilíbrios entre os preços praticados e a capacidade financeira dos agregados familiares. Os aumentos salariais devem, por isso, ser avaliados em função da evolução do poder de compra real, e não apenas pelo número de euros acrescentados ao vencimento.

Uma economia que permita viver, e não apenas sobreviver

Portugal precisa de uma estratégia económica que articule três objetivos fundamentais: salários dignos, impostos mais baixos sobre o trabalho e habitação acessível.

Estas medidas devem ser acompanhadas pelo crescimento da produtividade, pela valorização das empresas que investem e criam emprego e por uma utilização criteriosa dos recursos públicos. Só assim será possível construir uma economia que concilie melhores rendimentos com estabilidade financeira e oportunidades reais para as novas gerações.

O crescimento económico não pode ser avaliado exclusivamente através de indicadores macroeconómicos. Esses indicadores são importantes, mas devem ser acompanhados por uma pergunta essencial: estão os portugueses a viver melhor?

Uma economia pode crescer e, ainda assim, deixar muitas famílias sem capacidade para poupar, adquirir habitação ou enfrentar imprevistos. É precisamente por isso que as políticas públicas devem ser avaliadas pelos seus resultados concretos na vida das pessoas.

Não se pretende defender aumentos salariais artificiais, desligados da produtividade, nem ignorar as dificuldades das empresas. Pretende-se exigir uma política económica equilibrada, em que o Estado, as empresas e os decisores públicos assumam as suas responsabilidades e em que o trabalhador não seja o elemento esquecido desta equação.

A dignidade de quem trabalha deve estar no centro das prioridades nacionais

O verdadeiro progresso não consiste em ganhar mais euros para pagar despesas cada vez maiores. Consiste em ganhar o suficiente para viver melhor, poupar, constituir família e construir um futuro com segurança e liberdade.

Portugal precisa de devolver aos seus cidadãos a confiança de que o trabalho continua a ser um caminho de mobilidade social e de realização pessoal. Aumentar salários é necessário. Reduzir a carga fiscal sobre o trabalho é essencial. Garantir habitação acessível é urgente.

Sem estas três dimensões, corremos o risco de continuar a anunciar melhorias económicas que uma parte significativa da população não consegue sentir na sua vida quotidiana.

Trabalhar para sobreviver não pode ser o destino de quem trabalha honestamente.
Trabalhar tem de voltar a ser um caminho para uma vida melhor.

Para ler o artigo anterior publicado pelo autor, clique aqui.

* Vogal da Direção Política Nacional do REAGIR

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Dois diferendos, em escalas diferentes: Pichardo/Ronaldo…

…Conhecidos do grande público, o atleta de triplo salto, Pedro Pichardo, campeão olímpico em ‘Tóquio 2020’, e o futebolista, capitão da nossa seleção e astro maior do firmamento, Cristiano Ronaldo, protagonizam diferentes conflitos.

Um, o Pichardo, é feito de silêncio, prova e dignidade, o outro, Ronaldo, tem sido objeto de ruído, ego e palco.

No momento em que debitamos este modesto escrito, e em respeito para com a linha editorial do ‘Times’ do Algarve, ainda sem conhecermos a versão oral ou escrita do futebolista, não poderemos aprofundar o ‘caso’, que tem feito correr mundo, seja escrito ou falado, razão pela qual nos limitaremos a caracterizar, o diferendo do Pichardo como vivendo no escuro, com documentos numa pasta, e o do Ronaldo, na ausência de (mais) dados tem tido, ainda assim, os holofotes permanentemente acesos, com um fartote de comentários…

Como bom seria que ambos pudessem redundar, ter o seu desfecho final, em observância para com princípios e valores éticos essenciais, tais como: dignidade, equidade, responsabilidade, respeito e verdade.

Na circunstância e em liberdade de expressão, a grande almofada para se ser digno, talvez que importe trazer ao ‘palco dos acontecimentos’ três mestres – porque sábios! -. Um, Laborinho Lúcio: “A justiça deve rosto, voz e coração”, o outro, Michel Renaud: “O desporto é uma atividade essencialmente humana, que implica o jogo do corpo, a força da alma, a educação do espírito”, e o mestre dos mestres, Manuel Sérgio: “Só se sabe aquilo que se vive”, sem que antes, ao fecharmos este time out, não nos tivéssemos de socorrer do celebérrimo rodapé de Fernando Pessa: “E esta, hein?!”, quando também se deva rematar, assim, assertiva e responsávelmente: “Não há remates à baliza, há pessoas que rematam à baliza”.

Na abrangência dos três saberes: Fazer – o rigor, o treino, o jogo; Estar – o cidadão, como estamos uns com os outros?; Ser – pessoa, com voz para ouvir os seus pares e coração para pesar as provas e não o poder.

Pela simples razão de que o sucesso, o êxito não se compra apenas se merece!

Uma vez mais, as tais ‘coisas’ da ‘coisa desportiva’… e não só!

*Embaixador para a Ética no Desporto, uma vez, Embaixador para sempre

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