Farmacêuticas terão de manter tratamento gratuito

© DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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A Cooprofar está a investir 15 milhões de euros na expansão da sua plataforma logística de Alcochete, numa operação que não se limita a aumentar o espaço para armazenar medicamentos. A cooperativa quer reforçar a distribuição às farmácias, mas também entrar com maior dimensão num negócio destinado à indústria farmacêutica: o pré-armazenamento de medicamentos antes de estes serem entregues a outros distribuidores.
Dos 15 milhões de euros previstos, cerca de 9 milhões correspondem à construção do novo armazém. O restante investimento está sobretudo relacionado com equipamentos de automação e robótica que serão instalados na unidade existente. O projeto deverá estar totalmente concluído em 2027.
“Este investimento representa mais um
passo no compromisso de crescimento sustentado do Grupo Cooprofar e traduz a nossa confiança no futuro da distribuição farmacêutica em Portugal”, afirma Hélder Mesquita, presidente do Conselho de Administração da Cooprofar.
A expansão acrescenta 6.500 metros quadrados à plataforma de Alcochete e permitirá atingir, numa fase futura, uma capacidade de armazenamento de até 13.500 paletes. A infraestrutura terá também unidades de frio de última geração, importantes para produtos que exigem condições de temperatura controlada, como vacinas e determinados medicamentos injetáveis.
Mas a mudança mais relevante está na forma como a empresa pretende utilizar o espaço. A Cooprofar tem atualmente duas grandes áreas de atividade. A primeira é a distribuição farmacêutica às farmácias, negócio que está na origem da cooperativa. A segunda, que agora quer desenvolver, é o chamado pré-grossismo ou pré-wholesale.
Na prática, trata-se de disponibilizar capacidade de armazenamento em Portugal à indústria farmacêutica. Um laboratório que fabrique medicamentos fora do país, por exemplo em Espanha ou Itália, pode utilizar a infraestrutura para receber e guardar os produtos em Portugal antes de estes serem encaminhados para outros distribuidores.
“Esta expansão serve para crescermos no pré-armazenamento, mas, ao mesmo tempo, vai-nos permitir reorganizar os armazéns de forma a conseguirmos estar mais otimizados para as farmácias”, explica Hélder Mesquita.
A nova atividade deverá começar de forma relativamente modesta. A Cooprofar estima que possa acrescentar cerca de um milhão de euros por ano ao volume de negócios através deste serviço. O valor dependerá, contudo, dos clientes conquistados e da dimensão das operações contratadas.
A aposta em Alcochete surge depois de a Cooprofar ter chegado perto do limite de capacidade das instalações que já possuía. A cooperativa tem cinco armazéns distribuídos pelo país, com unidades em Gondomar, onde está também a sede, Macedo de Cavaleiros, Aveiro e Alcochete, sendo que a intervenção agora realizada corresponde à ampliação da unidade existente nesta última localização.
A opção por Alcochete tem uma razão geográfica. Em vez de concentrar mais capacidade em Gondomar, a empresa decidiu reforçar a operação no Sul, procurando melhorar a eficiência do serviço prestado às farmácias de todo o território.
A Cooprofar abastece atualmente mais de 1.100 farmácias e conta com mais de 700 cooperadores. A ambição é continuar a crescer.
“Temos uma ambição mesmo de crescer no maior número de farmácias possível e conseguir servir farmácias de Norte a Sul do país”, diz o presidente da cooperativa.
O crescimento tem acompanhado a evolução da faturação. A Cooprofar passou de 483 milhões de euros em 2024 para 544 milhões em 2025, um aumento de 13%. No mesmo ano, o mercado farmacêutico cresceu 9,7%, segundo os dados divulgados pela empresa.
Para 2026, a cooperativa espera aproximar-se dos 600 milhões de euros de volume de negócios. Nos últimos anos, a evolução média tem rondado os 8% ao ano, embora 2025 tenha sido particularmente forte.
A Cooprofar tem ainda uma característica pouco habitual: é uma cooperativa de proprietários de farmácias. São estes cooperadores que estão na base do modelo de negócio e que beneficiam dos resultados distribuíveis da organização.
Em vez de dividendos, a designação utilizada é “excedentes”. Ou seja, parte do resultado que pode ser distribuído regressa às próprias farmácias cooperadoras.
O modelo também influencia a forma como a empresa olha para a logística. Um dos objetivos é permitir que as farmácias não tenham de manter grandes stocks nem de trabalhar diretamente com centenas de fornecedores.
O distribuidor funciona, assim, como uma espécie de grande armazém intermédio: concentra produtos de diferentes fabricantes, gere o stock e assegura entregas frequentes às farmácias.
É uma operação que exige quilómetros. Segundo Hélder Mesquita, o conjunto do setor da distribuição farmacêutica percorre cerca de 54 milhões de quilómetros por ano.
A expansão acontece num setor onde a disponibilidade dos medicamentos continua a ser uma preocupação.
Hélder Mesquita admite que “todos os medicamentos” não estão disponíveis “a 100% no mercado”, mas considera que a escassez é um problema recorrente e não uma situação nova.
As causas podem estar na própria produção ou nas cadeias internacionais de abastecimento. Quando um determinado medicamento depende de uma fábrica ou de um número reduzido de produtores, uma perturbação pode afetar vários mercados ao mesmo tempo.
A distribuição tem então de gerir os produtos disponíveis e procurar evitar que as diferenças de acesso entre regiões se agravem.
“Procuramos encontrar mecanismos de distribuição que garantam que uma farmácia do Norte e uma farmácia do Sul tenham um acesso igual se estiverem nas mesmas condições de compra”, explica o responsável.
É precisamente aqui que a dimensão da rede ganha importância. Quanto maior a capacidade de armazenamento e distribuição, maior é também a possibilidade de gerir stocks e responder rapidamente às necessidades das farmácias.
A modernização da unidade de Alcochete inclui novas soluções de automação e robótica. O objetivo, segundo a empresa, é aumentar a eficiência e permitir que os trabalhadores possam desempenhar as operações de forma mais produtiva.
A Cooprofar emprega atualmente mais de 350 pessoas e admite vir a contratar mais à medida que a atividade cresça.
“O objetivo da automação é ajudar que as pessoas consigam fazer melhor o seu trabalho”, sublinha Hélder Mesquita.
O investimento será financiado, nesta fase, essencialmente através do cash flow gerado pela própria atividade. A empresa não exclui, contudo, recorrer à banca para financiar parte do projeto, nomeadamente através de dívida de longo prazo.
A nova capacidade poderá ainda ter uma utilização que vai além da atividade comercial. Segundo Hélder Mesquita, o espaço poderá, se necessário, contribuir para a criação ou gestão de reservas críticas de medicamentos.
Com 51 anos de atividade, uma rede de cinco armazéns, mais de 1.100 farmácias abastecidas e uma faturação que poderá chegar aos 600 milhões de euros este ano, a Cooprofar está agora a tentar fazer uma coisa aparentemente simples: ter mais espaço. Mas o objetivo é bastante maior — usar esse espaço para ganhar escala na distribuição farmacêutica e transformar a logística numa nova frente de crescimento.

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