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Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

1 October 2026 at 19:00

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Atual candidato à presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não tinha cargo no governo de seu pai, mas exerceu forte influência política nos hospitais federais do Rio de Janeiro entre 2019 e 2022, de acordo com gestores e ex-gestores hospitalares, parlamentares, funcionários dos órgãos de controle da União e servidores públicos entrevistados pela Agência Pública. 

Publicamente, dois políticos se pronunciaram neste ano sobre o controle dos hospitais federais por Flávio durante o governo do pai. Em março de 2026, o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), um pastor evangélico de direita, acusou o senador de ter liderado um esquema de corrupção nos hospitais federais do Rio. “Toda a estrutura de poder e de indicação política, e as empresas que participariam de licitações, que ganhariam ou perderiam, tudo isso estava dentro do grupo cuja cabeça era o senador Flávio Bolsonaro”, afirmou. Otoni tem defendido o voto em Lula, adversário de Flávio. 

Dois meses depois, em maio, durante a inauguração de um novo centro na Fiocruz, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT-SP), chamou Flávio de “o poderoso chefão” dos hospitais federais no governo de seu pai, e voltou a utilizar o termo em entrevista à Agência Pública em setembro. “Era, de fato, o poderoso chefão dos hospitais federais. Passava por ele a indicação de quem seria diretor e todas as decisões relacionadas a hospitais e contratos. Ele montou um esquema de rachadinha política com a ocupação dos cargos e provocou um desmonte. Todos os contratos de terceirizados tinham funcionários fantasmas. Um contrato de limpeza falava em 200 postos de trabalho, quando a gente olhou só havia 50 pessoas trabalhando”, disse o ministro. 

Com orçamento superior a 3 bilhões de reais para os quatro anos, período em que o país enfrentou a pandemia de Covid, documentos e depoimentos obtidos pela Pública revelam que a precariedade no funcionamento dos seis hospitais federais do Rio convivia com contratos superfaturados e concentração de recursos em custeio de despesas, comandadas pelos administradores locais, que seriam indicados pelo grupo político de Flávio Bolsonaro. 

Enquanto isso, de acordo com o relatório final da CPI da Covid, que dedica um capítulo inteiro ao Rio de Janeiro, 30% dos leitos clínicos e de UTI nos hospitais e institutos federais na capital fluminense “estavam e permaneceram fechados durante a pandemia, embora pudessem ter sido disponibilizados aos pacientes nesse período, evitando, inclusive gastos com abertura de hospitais de campanha. A maior parte estava fechada por falta de profissionais de saúde. No fim de dezembro de 2020, 3,5 mil contratos foram encerrados nos hospitais federais do Rio de Janeiro. Posteriormente, a Medida Provisória nº 1.022, de 31 de dezembro de 2020, prorrogou apenas 1,4 mil contratos por sessenta dias. Esse quadro foi decisivo para agravar o atendimento à população do Rio de Janeiro ante o recrudescimento da pandemia”, conclui o relatório. 

O Estado do Rio de Janeiro registrou mais de 2,8 milhões de casos confirmados de Covid e 77.166 mortes, sendo que mais da metade delas – 38,8 mil – ocorreram na capital. 

A atuação de políticos nos bastidores dos seis hospitais federais do Rio – Hospital do Andaraí, Hospital Geral de Bonsucesso, Hospital Cardoso Fontes, Hospital de Ipanema, Hospital da Lagoa e Hospital dos Servidores – durante a pandemia, já desastrosa em nível federal, pode ser contada também pelas marcas que deixou nas unidades que fazem parte da rede de assistência do SUS. A bagunça foi tão grande que a milícia chegou a ocupar um terreno do Hospital Cardoso Fontes para extorquir funcionários e familiares de pacientes com a cobrança de estacionamento, segundo inquérito aberto na Polícia Civil. 

Em abril de 2023, a pedido do deputado e médico sanitarista Daniel Soranz (PSD-RJ), a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara visitou a rede federal do Rio e encontrou 735 leitos inoperantes ou bloqueados, andares inteiros vazios, alas trancadas com correntes e cadeados, obras paralisadas e equipamentos sem uso. 

No Hospital do Bonsucesso, onde, em plena pandemia, um incêndio que começou no almoxarifado matou quatro pacientes – todos internados com Covid-19 –, a emergência estava fechada, embora reformada, por falta de pessoal; 126 dos 411 leitos estavam impedidos, e diálise, cardiologia e pós-operatório estavam parados. No Andaraí, a falta de médicos era tão grande que até para declarar a morte de pacientes a demora chegava a duas horas. A cozinha inacabada obrigava o hospital a gastar R$ 1,6 milhão por mês transportando comida. No Cardoso Fontes, pacientes esperavam em pé e em macas improvisadas nos corredores. 

“É ainda mais grave que isso tudo tenha ocorrido durante a pandemia”, afirma Soranz, que é doutor em saúde pública pela Fundação Oswaldo Cruz e um dos principais nomes da saúde pública do Rio nos últimos anos, quando foi secretário municipal da área em três períodos diferentes, sempre em gestões do ex-prefeito Eduardo Paes, também do PSD. Segundo ele, “Flávio [Bolsonaro] teve uma influência nefasta para os hospitais federais, foi algo terrível”, disse à Agência Pública. 

Contratos superfaturados 

Um diagnóstico de 235 páginas feito pelo Ministério da Saúde em fevereiro de 2023, ao qual a Pública teve acesso, mostra que 72% dos recursos dos seis hospitais – R$ 50,3 milhões por mês – eram consumidos em custeio, ou seja, com contratos administrativos, como limpeza, vigilância e rouparia. No Hospital do Bonsucesso, onde a fatia chegava a quase 80%, os contratos de apoio administrativo com a empresa Nova Rio Serviços Gerais tinham margens de lucro até 561% maiores do que o acordado e custos indiretos até 581% superiores aos acertos equivalentes do ministério. O hospital pagou mais de R$ 2 milhões em plano de saúde privado para funcionários da empresa terceirizada e adicional de insalubridade, sem laudo, para secretárias e almoxarifes. 

Aliados de Flávio Bolsonaro também aparecem nesses contratos como a família do deputado federal Altineu Côrtes, presidente do PL no Rio de Janeiro. A lavanderia Max Clean, fundada pelo pai de Altineu e registrada em nome de uma tia, multiplicou por oito seu faturamento durante esses anos. Segundo informações do Portal da Transparência, a empresa já recebeu R$ 81,5 milhões do Ministério da Saúde em centenas de contratos – e continua recebendo até hoje. “A Max Clean atendia todos os hospitais. Hoje, continua no Hospital dos Servidores e no Lagoa, é difícil tirá-los. Os fiscais do ministério que analisam esse contrato já pediram para deixar a função. É muita pressão”, revela uma servidora, que preferiu não se identificar. “Em época de pregão, o Seu Altineu, pai do deputado, chegava armado nos hospitais com uma sacola cheia de chocolates, distribuindo doces pra gente. Nossa esperança é tirar eles em abril, quando o contrato vence, e que eles não ganhem a próxima licitação.”

O mesmo diagnóstico do Ministério da Saúde explica como os contratos emergenciais se multiplicavam. “Não raro a troca de diretor ou de coordenador de Administração coincidia com a proximidade do término de um contrato, e quando um novo diretor era nomeado não tinha tempo hábil para iniciar processos regulares, e um novo contrato emergencial era efetuado”, registra o documento, que lembra que esse tipo de contrato “geralmente tem um valor acima do licitado”. Entre 2019 e 2022, o Hospital do Bonsucesso teve cinco diretores. O relatório também recomendou auditar a pesagem da roupa suja e o faturamento da lavanderia, onde as peças eram levadas “sem controle de saída”.

Não há um cálculo do sobrepreço total nos contratos de 2019 a 2022, mas a Pública obteve 13 relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU) e outros cinco da Controladoria Geral da União (CGU) que indicam valores muito acima do mercado e foram localizados em auditorias preventivas, evitando que fossem assinados. Em uma delas – que analisou o Edital do Pregão Eletrônico nº 05/2022 para a compra de 120,9 milhões em insumos para cirurgia vascular para o Hospital dos Servidores, a auditoria identificou “falhas na estimativa de preços que resultaram na adoção de valores superdimensionados em aproximadamente R$ 69 milhões”, ou seja, sobrepreço de 57%. 

Em outro caso, no mesmo hospital, a análise do Pregão Eletrônico nº 20/2021, que autorizou a compra de medicamentos para pacientes com câncer no valor de R$ 31,3 milhões, identificou sobrepreço de R$ 18,1 milhões, ou seja, novamente de 57%. Houve ainda uma tentativa de compra de stents heparinados para cirurgia vascular por R$ 7,5 milhões. Em licitações públicas regulares no Brasil, eles são comprados por valores que não costumam passar de R$ 30 mil. O Hospital dos Servidores pagaria R$ 42 mil em cada uma das 180 unidades.

Fachada do Hospital Federal do Andaraí
Hospitais federais do Rio enfrentaram sucateamento e problemas de gestão durante o governo Bolsonaro

Um “feudo” dominado por políticos 

“Em todo o país, só o Rio de Janeiro tem hospitais federais pelo fato de ter sido a capital até 1960”, lembra o médico João Marcelo Ramalho Alves, diretor do Hospital dos Servidores Federais, que era conhecido como “hospital dos presidentes”. Inaugurado em 1947, tendo Getúlio Vargas como matrícula número 01, o hospital atendeu a cúpula do poder por décadas, e foi pioneiro em diversas áreas, como a introdução da residência médica e a realização de cirurgias inéditas e transplantes. Com o tempo e a mudança da capital para Brasília, os hospitais ficaram suscetíveis a políticos do Rio, que já teve outros parlamentares como figuras centrais como Roberto Jefferson. 

“Um hospital só perde em complexidade para controle de tráfego aéreo. São contratos de vários tipos, mais de 5 mil itens a comprar. Para quem quer fazer esquema, sempre foi uma área fácil”, diz Ramalho Alves, que também dirige o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle e foi diretor do Departamento de Gestão Hospitalar do Ministério da Saúde no Rio em 2014.

Isso poderia explicar o interesse de Flávio Bolsonaro pelo “feudo”, que se manifestou ainda na primeira gestão do Ministério da Saúde do governo do pai, embora ele jamais tenha tido atuação relevante na área da saúde, nem no Senado nem na Assembleia Legislativa do Estado do Rio, onde exerceu quatro mandatos consecutivos como deputado estadual. Em 31 de julho de 2019, Flávio manifestou publicamente sua oposição ao indicado pelo então ministro Luiz Mandetta para o Hospital Geral do Bonsucesso, o médico Paulo Cotrim, efetivado depois de seis meses como interino. O hospital é a maior unidade de saúde do Rio em volume de atendimentos e com 4,5 mil funcionários.

Cotrim substituiu Luana Camargo, depois que a ex-diretora promoveu uma festa de aniversário do hospital que custou mais de 150 mil reais, segundo ela pagos por fornecedores. Revoltados com a patuscada em uma unidade sem ar-condicionado, superlotada, com postos de trabalho ocupados por pessoas sem experiência e onde os próprios pacientes tinham que comprar seus remédios, os servidores invadiram a festa e enviaram uma carta ao ministro Mandetta.  À época, o então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, declarou ter “fortes indícios e depoimentos” de que o hospital estava dominado por uma milícia.

A decisão de afastar Luana fez uma equipe da pasta ser ameaçada durante vistoria à unidade, mas Mandetta efetivou o servidor, o que desagradou Flávio Bolsonaro, que criticou o ministro nas redes sociais ao ter seu nome marcado em um post que enaltecia o novo diretor. “Esclareço que não tenho NENHUMA participação/responsabilidade na nomeação do Sr. Paulo Cotrim. Se tivesse sido consultado, diria para não nomeá-lo”, afirmou, dizendo que o médico já havia ocupado “cargos importantes em gestões passadas nessa unidade, que possui um histórico sombrio de má gestão e indicações políticas”. Menos de um mês depois, Cotrim foi exonerado.

Em seu lugar entrou Cristiane Jourdan, defensora do uso de hidroxicloroquina para tratamento da Covid-19, e depois escolhida por Jair Bolsonaro para a diretoria da Anvisa. Reportagem do Jota na época afirmou que, ao dirigir o Hospital de Bonsucesso, ela “acabou vinculando sua imagem ao senador Flávio Bolsonaro, responsável por orquestrar algumas mudanças na gestão hospitalar do estado”. Durante a gestão de Jourdan, como consta no relatório final da CPI da Pandemia, o hospital chegou a fechar as portas após ser anunciado como unidade de referência para a Covid-19. “No entanto, a maior parte dos leitos não foi utilizada, mesmo tendo sido fechados 28 serviços especializados de média e alta complexidade”, diz o relatório da CPI. “Dos 240 leitos existentes, apenas 18 pacientes estavam internados por Covid-19 e 17 estavam na emergência. Ou seja, na prática, o hospital de Bonsucesso não foi referência na pandemia e tampouco atendeu à população nos demais serviços, impactando a assistência à saúde”.

A partir do episódio Luana/Cotrim, as indicações começaram a passar pelo filho mais velho de Bolsonaro. Já havia sido escolha dele, em fevereiro daquele ano, o nome do médico Marcelo Muniz Lamberti para assumir o Departamento de Gestão Hospitalar (DGH) do Ministério da Saúde no Rio, chefiando diretamente os hospitais. Lamberti ascendeu rapidamente ao posto de Superintendente do Ministério da Saúde no Rio e, em junho de 2019, tornou-se Diretor de Programa da pasta, posição vinculada ao gabinete do ministro.

Duas semanas antes de Lamberti ser alçado a diretor, Flávio Bolsonaro participou de uma reunião em Brasília com o ministro Mandetta, o próprio Lamberti e o então secretário de Atenção Especializada à Saúde (Saes), Francisco de Assis Figueiredo. O encontro entrou na agenda oficial do ministro: foi dia 28 de maio de 2019.

Assim que assumiu o cargo, Lamberti teria promovido  uma “caça às bruxas”, nas palavras de um servidor concursado, demitindo aqueles do campo político oposto ao governo. A Pública também teve acesso à gravação de uma reunião, realizada no dia 6 de março de 2020, com 3h11m de duração. Nela, além de ameaçar demitir terceirizados e servidores temporários, Lamberti afirma que é ele quem manda no ministério da Saúde no Rio de Janeiro e que, se fosse preciso, rasgaria a Constituição para fazer valer sua vontade. 

Pressão sobre Nísia Trindade e descentralização dos hospitais

Primeira mulher a assumir o ministério da Saúde no início do novo governo, em 2023, a ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade acertou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que teria autonomia total para escolher os diretores dos hospitais “exatamente por causa do que todo mundo sabia existir”, conta em entrevista à Agência Pública. “Um descalabro absoluto, era um problema crônico do Rio”, comenta. 

Nísia admite ter sofrido “muita pressão” dos que queriam controlar o “feudo”, sobretudo de políticos do Centrão, ela diz, citando o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL). “Ele questionava o fato do orçamento de R$ 240 bilhões do ministério ser gerido por mim”, lembra. Outro parlamentar que trabalhou para tirar Nísia da pasta foi o Doutor Luizinho (PP-RJ), que sonhava – e ainda sonha – ser ministro da Saúde e comandar o terceiro maior orçamento da Esplanada do Ministério, que só perde para Previdência Social e Desenvolvimento e Assistência Social. Ex-secretário de saúde no Rio, o Dr. Luizinho se tornou nacionalmente conhecido por seu envolvimento com transplantes de órgãos infectados pelo vírus HIV.

Nísia afirma que “havia muita resistência” a qualquer mudança. A solução encontrada pelo novo governo foi tirar os hospitais da administração direta do ministério e reestruturar a gestão. Não foi tarefa fácil. Em outubro de 2024, o Bonsucesso passou ao Grupo Hospitalar Conceição, empresa pública federal ligada ao Ministério da Saúde e sediada em Porto Alegre. O hospital ficou cinco dias ocupado por manifestantes e os novos administradores só conseguiram entrar depois de uma decisão de reintegração de posse e acompanhados pela Polícia Federal. Ainda assim, o Ministério da Saúde teve que pedir uma escolta armada para a nova diretora da unidade, Elaine López. Dois meses depois, os hospitais de Andaraí e Cardoso Fontes foram entregues à prefeitura do Rio. 

Brasília (DF), 16/07/2024 - A ex-ministra da Saúde, Nísia Trindade durante entrevista coletiva
Nísia Trindade assumiu o Ministério da Saúde em 2023 e iniciou a reestruturação dos hospitais federais

Em março de 2025, Nísia foi substituída no ministério por Alexandre Padilha, mas o processo de reestruturação dos hospitais federais no Rio continuou. Em dezembro, o Hospital dos Servidores foi incorporado à UNIRIO, sob gestão da Ebserh, rebatizada em março como HU Brasil – outra empresa pública federal criada em 2011 para gerir hospitais universitários –, e atravessou um processo de fusão com o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle. O Hospital da Lagoa passou à Fundação Oswaldo Cruz em 2026. Só o Hospital de Ipanema continua sob gestão direta do ministério.

Com a reestruturação, o orçamento total dos seis hospitais passou de aproximadamente R$ 800 milhões para R$ 2 bilhões anuais. Segundo o ministério, já houve aumento de 30% no número de cirurgias (foram 21.869 em 2025) e 28% a mais de internações (42.516 em 2025). Houve também reabertura de 335 leitos somando todas as unidades (27% a mais do que antes) e 16 salas de cirurgia reativadas.

O deputado Daniel Soranz, da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, elaborou um relatório, ao qual a Pública teve acesso, comparando a situação dos hospitais federais no Rio em dois períodos diferentes: abril de 2023, logo no início do novo governo, e o segundo semestre de 2026. A ideia era avaliar os avanços do plano de reestruturação em relação aos anos Bolsonaro. No Bonsucesso, os leitos em funcionamento passaram de 215 para 423 e a emergência foi reaberta em janeiro de 2025. As internações cresceram 46,6%, as cirurgias 55,9% e os exames, 45,4%. Os profissionais aumentaram 73,4%, de 3.150 para 5.462, e o investimento, que ficou entre R$ 3,3 milhões e R$ 5,6 milhões por ano entre 2020 e 2023, chegou a R$ 36,7 milhões em 2024, segundo o relatório. 

No Andaraí, a emergência, fechada havia dez anos, voltou a funcionar e ganhou estrutura definitiva, e em 2026 foi inaugurado o novo prédio de Trauma. A cozinha foi concluída, o que acabou com o gasto mensal milionário com transporte de comida. A radioterapia foi inaugurada, o centro de queimados foi ampliado e o centro cirúrgico passou de três para 12 salas. O hospital ganhou 23 leitos de UTI, um tomógrafo e um ambulatório com 21 salas. Os leitos em funcionamento subiram de 165 para 351, com ocupação entre 96% e 99%, as cirurgias cresceram 36% e os profissionais cadastrados passaram de cerca de 2,6 mil para 5.114. 

No Cardoso Fontes, todos os leitos foram reabertos, as internações aumentaram 72%, de 4.084 para 7.034, e o quadro de pessoal cresceu 41,7%. A equipe da prefeitura, que cuida da regulação de vagas nos hospitais do SUS, antes impedida de atuar, segundo o relatório da Câmara, passou a trabalhar dentro da unidade. Em Ipanema, a fila de cirurgias caiu 38%, as internações passaram de 4.853 para 5.594, as cirurgias chegaram a 12.378 no ano, recorde da série, e o quadro de pessoal cresceu 23,1%. No Lagoa, as internações subiram 11,9%, e nos primeiros meses da nova gestão cresceram 21,7%, com alta de 20,9% nas cirurgias. A melhora, porém, é desigual. Em Ipanema, as três salas cirúrgicas fechadas em 2023 continuam sem uso e as consultas ambulatoriais caíram de 118 mil para 112,8 mil. No Lagoa, a produção ambulatorial caiu de 1,08 milhão de procedimentos em 2023 para 606 mil em 2025, e os servidores efetivos diminuíram de 850 para 734, enquanto os temporários passaram de 525 para 764. 

O médico João Marcelo Ramalho Alves, que dirige o Hospital dos Servidores e o Gaffrée e Guinle, que já resultou na contratação de 1.258 profissionais por concurso depois da fusão, também apoia a reestruturação. “O caminho é esse. O Ministério da Saúde existe para criar e gerir políticas públicas, não para administrar hospitais”, diz Alves, que lembra que ainda há muito a ser feito para recuperar os hospitais do Rio. Apesar dos avanços, a fila de pessoas à espera de cirurgia aumentou de 18 mil pacientes para 21 mil desde 2024, segundo informações do portal que contabiliza esses dados. 

Biópsias em potes de sorvete e pedidos de investigação

Em 2025, a Defensoria Pública da União encontrou biópsias acumuladas por meses no Bonsucesso, guardadas no formol em potes de sorvete e paçoca por falta de médicos patologistas – um problema sobretudo para pessoas com câncer que, por lei, devem iniciar o tratamento no SUS até 60 dias após o diagnóstico. “Se não tem diagnóstico, não tem tratamento. Tivemos que entrar com uma Ação Civil Pública, que segue tramitando, para pedir um novo plano de trabalho dos hospitais federais como um todo. A mudança de gestão foi mal recepcionada por servidores e o déficit de médicos ainda é grande”, afirma Taísa Bittencourt Leal Queiroz, Defensora Regional de Direitos Humanos da Defensoria Pública da União. “Quando a saúde é invadida pela política, ela se deteriora de um jeito absurdo. Quem sofre com isso é a população que depende do SUS”, diz a defensora. 

No fim de agosto, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu ao Supremo Tribunal Federal que investigue Flávio por suspeitas envolvendo o controle político dos hospitais federais. Ele citou no documento as auditorias do TCU e da CGU que identificaram os sobrepreços nos contratos. A notícia do fato foi encaminhada ao ministro Flávio Dino e pede que uma investigação, já em andamento no STF, seja ampliada para apurar a conduta do senador, e se ele teve participação nas irregularidades constatadas. Lindbergh citou no documento o depoimento na CPI da Pandemia, em 16 de junho de 2021, do ex-governador do Rio Wilson Witzel, que afirmou que os hospitais federais tinham dono. “Tem um dono, e esta CPI pode descobrir quem é o dono”, disse diante de Flávio Bolsonaro e dos demais presentes. Em seguida, confirmou a parlamentares que se referia a Flávio, mas negou a declaração ao ser processado pelo senador. 

Integrantes da CPI disseram à Pública que faltou tempo e recursos para investigar a denúncia de Witzel. A comissão apontou quatro pessoas como responsáveis pelas irregularidades constatadas. Além de Marcelo Lamberti, foram citados o coronel da reserva George Divério, que também foi superintendente do Ministério da Saúde durante a presidência de Bolsonaro, Jonas Roza, que trabalhava com Lamberti no DGH, e o advogado Joabe Antonio de Oliveira, servidor concursado que foi coordenador administrativo da Superintendência do ministério no Rio e diretor administrativo do Hospital de Bonsucesso. Divério foi nomeado em 2020 e exonerado em 26 de maio de 2021 após denúncias de contratações sem licitação – em um período de dois dias, ele autorizou dois contratos que somavam R$ 28,8 milhões. Joabe aprovou contratações sem licitação com valor superior a R$ 14 milhões no Bonsucesso.     

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em discurso à tribuna.
Flávio Bolsonaro é alvo de pedido de investigação sobre sua atuação nos hospitais federais do Rio

Procurado pela Pública, Flávio não respondeu aos pedidos de entrevista feitos ao seu assessor. Marcelo Lamberti respondeu por mensagem. Garantiu que “os atos da gestão estão disponíveis no SEI (Sistema Eletrônico de Informações, plataforma oficial do governo federal para gestão de documentos e processos administrativos), corroborando as ações verídicas e documentadas procedidas, incluindo as de correição junto aos órgãos federais de controle para apurar irregularidades”. Segundo Lamberti, “quanto a narrativas e ilações de opositores a essas correições procedidas no SEI, nada tenho a falar pela falta de conteúdo técnico”. O médico também afirma que, após se desligar das atividades exercidas no ministério, não responde a processos pela sua gestão. Perguntado sobre sua relação com Flávio Bolsonaro, se eles já se conheciam antes do senador indicá-lo ao cargo e como Flávio exercia influência nos hospitais federais, Lamberti se disse um “servidor técnico”, e que “nomeações e exonerações de servidores estão a cargo do escalão superior da pasta”. 

Trump’s plan to swing Brazil’s election for Bolsonaro | Ep. 15

1 October 2026 at 15:58
A supporter of far-right lawmaker and presidential candidate for the Social Liberal Party (PSL), Jair Bolsonaro, wears a mask of US President Donald Trump as he celebrates after Bolsonaro won Brazil's presidential election, in Sao Paulo, Brazil, on October 28, 2018. Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP via Getty Images
https://www.spreaker.com/show/5958129/episodes/feed

Brazil votes this Sunday, and the Trump administration has spent months trying to tilt the outcome toward far-right presidential candidate Flávio Bolsonaro. Tariffs. Terrorist designations. Revoked visas. Frequent meetings with the Bolsonaro family. Taken alone, each move looks random. Put the pieces together, and a picture emerges: U.S. interference in Brazil’s 2026 elections. 

Over the last year, Trump has met frequently with members of the Bolsonaro family. In June, the State Department put two Brazilian gangs on the terrorist list. Just a few weeks later, Trump shared an article on Truth Social that said Brazil was his next big challenge. Less than a month later, in July, Trump imposed new 25% tariffs on Brazilian goods. In August, Trump revoked the U.S. visa of the Brazilian ambassador.

The Brazilian Intelligence Agency recently raised the risk of external influence and interference by the United States in Brazil’s 2026 elections to a quote, “critical level.”

This is Episode 15 of Under the Shadow, Season 2. 

Under the Shadow is an investigative narrative podcast series that walks back in time, telling the story of the past by visiting momentous places in the present. Season 2 responds in real time to the Trump administration’s onslaught on Latin America.

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Hosted by Latin America-based journalist Michael Fox.
This podcast is produced in partnership between The Real News Network and NACLA.
It is supported, in part, by Global Exchange.

VOTE by October 15: Under the Shadow has been nominated for three podcast Signal Awards. Please consider voting for Under the Shadow and The Real News:

Panamerican Dispatch

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It’s called Panamerican Dispatch. It’s a project of The Real News in partnership with Global Exchange. The website is www.panamericandispatch.org

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Theme music by Michael Fox’s band, Monte Perdido. Monte Perdido’s 2024 album Ofrenda is available on Spotify, Deezer, Apple Music, YouTube or wherever you listen to music.

Other music from Blue Dot Sessions and Epidemic Sound.

Script editing by Heather Gies. Hosted, written, produced, mixed, and edited by Michael Fox.

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Transcript

The following is a rushed transcript and may contain errors. It will be updated.

Michael Fox:

Hi folks. This is your host, Michael Fox. Before I get started, I wanted to let you know that I have big news. First, this season of Under the Shadow has been nominated for three podcast Signal Awards. It’s really exciting, and you can help us by heading over to signalaward.com and voting for Under the Shadow. I’ll add direct links in the show notes that will take you straight there. Second, last week I launched a new website called Pan American Dispatch. It’s a project of the Real News. We’re translating daily articles from Portuguese and Spanish into English for a US audience. Over the next two months, we’ll be exclusively focused on covering the Brazilian elections and Trump’s attempts to sway them. That is what this entire episode is about. And if you want to get all of the news about what’s happening in real time, please consider subscribing to our Substack.

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Flávio Bolsonaro:

And let me look you in the eyes and tell you, we will win.

Michael Fox:

Flavio is the son and political heir of the former far right president Jair Bolsonado, a close ally of the US president. In the meeting at the Oval Office in May, Flavio Bolsonado reportedly asked Trump to designate the Brazilian drug gangs, Primero Commando de Capital and the Commando Vermelio as foreign terrorist organizations. After the meeting, Flavio spoke to the press.

He said, “I asked President Trump emphatically to designate as soon as possible the PCC and the Commando Vermelio as foreign terrorist organizations.” This might not seem like such a big deal, but it is. The United States has sometimes used that very designation as the pretext to invade or interfere in foreign countries. The US placed the Venezuelan gangs, Trende Aragua and Cartel de los Soles on the list back in 2025, and fighting those alleged terrorists was one of the excuses the United States used for invading Venezuela and kidnapping President Nicholas Maduro on January 3rd of this year. In other words, this designation carries weight.

Trump agreed to Flavio’s request. Just three days after meeting with Flavio Bolsonaro, US Secretary of State Marco Rubio announced that those two Brazilian gangs would be added to the list of foreign terrorist organizations. Flavio responded in a letter to Rubio, thanking him for the classification and offering to place his transition team at the disposal of the White House if he’s elected. For months, the United States has been escalating the pressure on Brazil in the lead up to the presidential elections with the goal of helping to lift Flavio Bolsonaro to the top office. Just a few weeks after the State Department put the Brazilian gangs on the terrorist list, Trump shared an article on Truth Social that said Brazil was his next big challenge. Less than a month later in July, Trump imposed new 25% tariffs on Brazilian goods. In August, Trump revoked the US visa of the Brazilian ambassador.

It was an apparent tit for tat after Brazil denied visas to two US State Department officials who planned to travel to Brazil to meet with former President Jair Bolsonaro. I could go on. The point here, as many people have pointed out, is that there isn’t just one thing that Trump is doing to try and sway the vote in favor of Bolsonaro. It’s a whole combination of moves, like a jigsaw puzzle with many pieces taken alone, and it’s just a random assortment of colors and shapes. But when you start to put the pieces in place, a picture begins to emerge. See, Trump allies have won big elections across Latin America. In recent years, right-wing candidates have taken back or held onto power in Argentina, Chile, Colombia, Ecuador, Honduras, Bolivia, and Peru. And they’ve done so with the help of US President Donald Trump, who’s thrown his weight around to boost right-wing candidates, and also with the support of bot farms and shady electoral campaign practices linked to Washington and Mar-a-Lago, as we looked at in the last episode.

Donald Trump:

But on this historic day, we come together to announce a brand new military coalition to eradicate the criminal cartels plaguing our region.

Michael Fox:

Many of those countries have now joined forces in Trump’s shield of the America’s alliance, but there are a few holdouts, and Brazil is one of the most important.

Alexander Main:

The upcoming election in Brazil is really going to be extremely consequential for the entire region.

Michael Fox:

Alexander Main is the director of international policy at the Center for Economic and Policy Research.

Alexander Main:

Brazil is the country with the largest economy, biggest population in Latin America, and it’s also one of the few countries that is still holding out against US pressure, pressure to align with the Trump administration’s agenda in the region.

Michael Fox:

The first round election is on October 4th in just a couple of days, and the runoff will take place three weeks later on October 25th. Bolsonaro is facing off against the longtime workers’ party icon, Luis Ignacio Lula de Silva. He’s the current president and he’s running for reelection. I have been covering the campaigns here in Brazil in recent weeks. I’ve attended rallies for both Lula and Bolsonaro. Today, I’m going to walk you through what’s at stake, and most importantly, how Trump is exerting underhanded pressure on the country ahead of the vote. As a leak document showed last week, the Brazilian Intelligence Agency has raised the risk of external influence and interference by the United States and Brazil’s 2026 elections to a “critical level.” According to the report, there is a trend of escalating pressure on Brazil and a quote, “selective intensification and reconfiguration of the pressure exerted by the United States.” It’s a textbook example of foreign election interference today, a multifaceted jigsaw.

People are concerned, but they’re also standing up, and that’s what makes this episode so interesting. It’s happening in real time. You have Trump attempting to sway the vote, and you also have people pushing back.

Like Lula’s recent speech at the United Nations where he told the US president that Brazil will not be the backyard of any country.

Or this woman, a small farmer who I spoke with at a Lula rally in Southern Brazil. “We’re not afraid of Trump, “she said. “We know what he wants to do and we’re not going to let him. We are the resistance. We’re not afraid of him, just like Lula isn’t afraid. Lula showed us that we are not less than any country,” she said. That and so much more in a minute. This is Under the Shadow, an investigative narrative podcast series that looks at the role of the United States abroad in the past and the very present. This podcast is a co-production in partnership with The Real News and NACLA. I’m your host, Michael Fox, longtime radio reporter, editor, journalist, the producer and host of the podcast’s Brazil on Fire: Stories of Resistance and my new series, The Battle for Free Speech. I’ve spent the better part of the last 20 years in Latin America.

I’ve seen firsthand the role of the US government abroad, and most often sadly, it is not for the better. Invasions, coup, sanctions, support for authoritarian regimes. Politically and economically, the United States has cast a long shadow over Latin America for the past 200 years. It still does. This is season two of Under the Shadow Trump’s attack. Episode 15, election meddling in Brazil.

Okay, before we dive into the allegations of election interference, let me set the scene. To do that, I want to take you back to a month and a half ago to the launch of the campaigns here in Brazil. I was in Sao Paulo covering Lula’s kickoff. Some of this section of the episode is based off of reporting I did at the time for the world and the real news. It’s August 16th, 2026. Tens of thousands of supporters of President Luis Idnacio Lula de Silva are packed into May 1st stadium in Sao Paulo. Among them is Sida Maya. She’s the secretary of women’s public policies in the nearby municipality of Maua.

“This is living history,” she says. “I’m participating in a historic moment. It’s a great feeling and we’re going to elect Lula.” Next to her, her husband Valmirmaya holds back tears. “It’s emotional, “he says. Lula’s campaign chose this stadium to kick off his run for a fourth and final term as president. This is where Lula got his start. In 1979, Lula was a young leader at the ABC Medal Workers Union. He led an iconic strike and rally at this same stadium. The workers won and it marked the beginning of the end of the country’s military dictatorship. Valmir Maya was there then and he’s here now.

“We wanted what we got,” he says, “to transform Brazil into a democratic country. That was our struggle, and Lula was the expression of this.” Inside the stadium, President Lula strode onto a long stage wearing a Panama hat and a white shirt. From the bleachers, he seemed to float above the sea of supporters in red, the color of Lula’s workers’ party. Lula’s top campaign promise has always been about battling hunger. Over the years, he’s lifted millions from poverty, increased access to education, health, and infrastructure, in particular in impoverished Northeastern Brazil. Lula told the crowd that there was much work left to be done, that they had to think of the future. He said they had to invest even more in education, that he wanted to continue to develop jobs and industry for Brazil. 300 miles to the east, Lula’s challenger, Flavio Bolsonaro, launched his campaign on Copacabana Beach in his hometown of Rio de Janeiro.

“Come with me and rescue our nation,” he said, “God above everyone, Brazil above all.” Flavio Bolsonaro has attacked the left and promised to fight crime and insecurity, cut bureaucracy, promote private business and privatizations, and develop close ties with the United States. Much of his rhetoric and that of his supporters is wrapped in a religious language of good versus evil.

“You are the son of hope,” said a pastor at his campaign launch. “You are the first born. You received the legacy of representing your father, and now for everything that is sacred on the face of the earth, honor your father. “The savior trope goes over well with his evangelical supporters, an important base for Bolsonaro and other far-right politicians in Brazil, as we looked at in depth in my 2022 podcast, Brazil on Fire. Blase Narujo is a youth pastor at an evangelical church in a working class neighborhood of Sao Paulo. He joined others on the streets in mid-August to promote Bolsonaro and other far-right candidates running for local office.

He said,” I believe that Flavio Bolsonado is the only viable candidate who can beat Lula and the workers’ party. “I’m a Christian here,” he told me. “I behave as a Christian, but I’m also a political activist here on the streets to defend my beliefs,” he said. Flavio Bolsonado also has powerful support in high places, in particular, as we heard earlier from Donald Trump. If you remember, the US president is a longtime ally of Flavio’s father, Jair Bolsonado. Jair is currently on house arrest. He was first barred from running for office for spreading lies about the country’s electoral system. Last year, the Supreme Court convicted him of plotting a coup to return to power. Before his rise as the leader of Brazil’s far right, Jair Bolsonaro was a backbench congressman for decades, outlandish, but mostly obscure. And then he ran for president.

Speaker 5:

There are a few things that drew inspiration for you.

Jair Bolsonaro:

Very special guy. Turned out to be a great friend of mine.

Michael Fox:

Bolsonaro fashioned himself after Trump. In fact, in Jair Bolsonaro’s electoral campaign in 2018, international media often called him the Trump of the tropics. He and Trump met a number of times while they were both president.

Jair Bolsonaro:

And I think we can say that Brazil and the United States are as close or closer as they’ve ever been.

Michael Fox:

Last year, Trump imposed 50% tariffs on Brazil in part because of the country’s criminal trial against the former president.

Donald Trump:

They’re treating President Bolsonaro very unfairly. He’s a good man. I know him well. I negotiated with him.

Michael Fox:

And let me be honest, there are many supporters of Bolsonaro who look up to Trump and want him to use his leverage to help their candidate, Jair Bolsonaro’s son and protege Flavio Bolsonaro. On September 7th, members of the far right in Brazil hit the streets across the country to rally for Flavio. I covered the march in the southern Brazilian city of Florianopolis. There, numerous people told me how much they admired Trump and how grateful they were for his support. Adalberto Luis de Santos is marching with a blue hat with the insignia of the United States. He and his wife are draped in Brazilian flags. “We’re hoping for support from the United States,” he said. “I believe Trump can help us. All Brazilians need the support of someone from abroad. “. “Trump is really important,” another man in the march told me. “The external pressure is very important.

“. A woman in the march carrying a flag and a yellow hat told me,” Just the simple fact that Trump is in power and acts democratically in favor of freedom makes all of the difference for our people. “.

“We don’t want Brazil to turn into another Venezuela,” she said. “I’ve heard that narrative countless times in Brazil and during elections in countries across Latin America for years. It’s the ever-present boogeyman of so-called communist Venezuela, but fear of the Venezuelan fate took on an even more serious dimension after the US invasion of Caracas earlier this year. The sentiments of so many Bolsonaro supporters are a sign of just how polarized the political debate is and how much the far right in Brazil looks up to the US president. Two weeks later, I covered another rally in the same city, this one in support of President Lula.

People had a lot to say about Trump and his efforts to influence their presidential decisions. I asked them, “Are you afraid of what Trump and the United States could do during this election to try and support Bolsonaro?” “Yes, I’m really afraid of that, “said one man carrying a Lula flag. “They want to take away our sovereignty. They want to invade our lands. They want to take what is ours and let Brazil be a colony of another country.” “Of course we’re afraid, “said someone else,” but we believe that Lula is well ahead in the election and we won’t allow Trump to destroy the election. “What do you think about Trump and are you concerned that Trump might try and do something with the elections here in

Speaker 7:

Brazil? Yeah, we’ve seen a lot of his work here in Latin America that we are very scared. Venezuela, Peru, Colombia, Argentina. So we are very scared because Latin America is being contaminated by him and his work, so it’s very scary and we don’t want him in here or anything with him.

Michael Fox:

People have a lot to be concerned about. When I was in Sao Paulo in August, I sat down with Igor Fusser at a cafe near Palista Avenue. We’ve known each other for years. He’s a professor of foreign relations at Brazil’s ABC Federal University. I asked him how he sees the US actions against Brazil at this moment.

He said, “This is not just about the United States trying to remove the government of a left-wing party, the workers’ party, or a left-wing leader, which is Lula. It’s about subjecting Brazil to the policies of the United States, and Brazil being the largest country in Latin America is precisely the biggest obstacle to the American project of global dominance of the Western hemisphere,” he said. Remember, over the last year, as we’ve looked at throughout this podcast, Trump has pushed the United States into a new era of dominance over Latin America, the likes of which the region has not seen in decades. Boat strikes in the Caribbean, the US invasion of Venezuela, and the kidnapping of President Nicolas Maduro, the oil blockade on Cuba, and Trump throwing his weight around and meddling in elections across Latin America. It’s all justified by a renewed Monroe doctrine. Here’s Secretary of War, Pete Hegseth, underlining that point.

Pete Hegseth:

President Trump has established the Trump corollary of the Monroe Doctrine, the Don Roe doctrine, and the war department is implementing it as fast as we can.

Michael Fox:

Brazil is the latest battleground. It’s playing out in the open and behind the scenes. It’s early August. The Brazilian Association of Investigative Journalism is meeting in Sao Paulo. At the meeting circulating in the crowd are staff from the US Consulate in Sao Paulo, their mission to woo Brazilian journalists into conversations about the country’s electoral process and the state of “freedom of expression” in the country. This was reported by several independent journalists at the conference and then published by independent journalist Leandro DeMori, the former executive editor of The Intercept Brazil. According to Demorti, three journalists at the event confirmed the actions of the consular officials. Two journalists said they were offered assistance with US visas if they needed them, even though the meetings with the officials about the country’s elections were to be held in Sao Paulo.

Washington has leaned on two key narratives to demonize Brazil in recent years. One, that freedom of expression is under attack in Brazil because of its attempts to reign in social media disinformation, and two, that the country’s electoral system is faulty and prone to errors. Both of those claims are false. Brazil has long held certified free and fair elections, and freedom of speech is alive and well, although Brazil embraces a more inclusive harmonious definition of how the freedom of speech fits into the country’s other laws. Episode 12 of this series goes deeper into those claims and their fallout. DiMorti’s reporting about the recent journalism forum brings up more questions than answers. What were the consular officials trying to achieve? Did some journalists take the bait? If so, how will this be weaponized? We don’t have answers, but it’s another piece of the scrambled jigsaw puzzle.

Here’s another, and it’s just one example of how the meddling campaign has been building. In mid-September, less than two weeks ago, Flavio Bolsonaro’s brother, Eduardo, met with President Donald Trump at the White House. As we looked at in the last episode, Eduardo is a former congressional representative who now lives in the United States. The Brazilian Supreme Court sentenced him earlier this year to four years in prison for his actions in the US, lobbying the Trump administration to intimidate the Brazilian judiciary amid the trial against his father. According to reports, Eduardo traveled to Washington to ask Trump to impose sanctions on members of the Lula government and the Supreme Court, including Justice Alexandre Morais. If you’ve been following Brazil or my reporting, you might remember that Morais was the justice that led the trials against the dissemination of fake news in the country and also against Jair Bolsonaro.

Jair Bolsonaro:

Also developing this morning, the Trump administration placing sanctions on a Brazilian Supreme Court justice over concerns of human rights violations and politicized prosecutions.

Michael Fox:

Last year, the US sanctioned Mordice for supposedly carrying out human rights abuse, including arbitrary detention. Those sanctions were lifted four months later, but they were a thinly veiled retaliation for the trial against Bolsonaro and also Morais’s fight with ex-owner Elon Musk, which we looked at in depth in episode 12. There is no question the battle over Brazil right now is also taking place online and Silicon Valley is playing its part.

On Wednesday, September 23rd, Meta, the parent company of Facebook and Instagram, took down President Lula’s Facebook page and blocked his campaign from running political ads. The platform gave no justification for the move. Lula’s workers’ party and his electoral coalition demanded answers. Lula’s campaign asked for the immediate return of the account. The campaign’s lawyers told the platform that the restriction “poses a serious risk to the candidate’s level playing field in the election.” The head of the Workers’ Party national communications team, Eden Valadaris, said they hadn’t ruled out taking the case to the superior electoral court. He wrote on X, “Brazil’s electoral contest, its campaigns, and its vote cannot be left to the mercy of the political preferences of the big tech companies whose supposed programming errors only hit and harm one campaign and one candidate.” One candidate, meaning Lula. By the next morning, the page was back up, but Lula’s electoral coalition said Meta’s actions harm the presidential campaign.

Remember that Meta was founded and is run by Mark Zuckerberg. He’s a close ally of President Donald Trump.

Jair Bolsonaro:

Thank you very, very much.

Michael Fox:

In fact, he was at Trump’s inauguration for his second term alongside the heads of Apple, Google, Amazon, and of course, Tesla and ex – CEO, Elon Musk. I want to talk about something important today because it’s time to get back to our roots around free expression on Facebook and Instagram. Zuckerberg got rid of fact-checking at Meta in early 2025, just before Trump came into power last year, and that’s important because there are now fewer constraints on the spread of fake news or misinformation on the platform. In late August, Amnesty International tested this lack of guardrails in Brazil. It sent 15 different AI-generated election-related political disinformation ads to Facebook to see if the platform could discern between truth and falsehood. Meta failed to block most of them. A similar test run by the eco movement in Brazil in mid-September showed that nearly 90% of the disinformation ads it attempted to run on Meta were approved, including “AI ads depicting execution style threats against lawmakers and calling for a stop the steal style coup.” And I want to say one more thing about the role of Silicon Valley’s big tech platforms.

They are paying attention to what’s happening in Brazil. Here’s just one example. Last year, lawmakers and a congressional committee in Brazilia were discussing a bill on AI regulation. According to the fact-checking agency, Ausfatos, big tech lobbyists visited committee members more than 80 times over a five-month period. The tech company that met with members in Brazilia the most was Meta, which made more than a third of those visits.

There’s another layer to all of this, another puzzle piece if you like. In the last episode of this podcast, I took an in-depth look at the work of the Argentine political strategist, Fernando Cerimedo. Remember, Serimedo has led right-wing digital campaigns across Latin America, and he did so with the help of Washington and Trump’s former campaign manager and digital strategist, Brad Parscali. This is what he had to say earlier this year in Mar-a-Lago when he was presented an award for best Hispanic Political Consultant of the Year.

Jair Bolsonaro:

I want to say something in English. Thank you to Brad Parscale for believing me all the time and give me your technology and Tim Don for the fighting in Latin America against socialism. Thank you, Brad.

Michael Fox:

Serimedo is now in prison on charges that he tried to kill his girlfriend. According to her, he hired the hitman to silence her. Serimedo also faces charges of illicit enrichment and other crimes, but his digital campaigning and the bot farms that he’s deployed in elections up and down the hemisphere haven’t necessarily gone away, nor have his deep ties to the right in the region. Remember who presented that award to Cerimedo? It was Eduardo Bolsonaro, the brother of Flavio Bolsonaro. They reportedly have known each other for more than 15 years. Now, just this week, Washington sanctioned Bolivian Attorney General Roher Mariaka, who is prosecuting the Serimero case,

He defended his country sovereignty and vowed to continue the investigation despite the apparent attempt to intimidate him. I mention all of this to say that just because Serimedo is now in jail, it doesn’t mean that these types of digital influence campaigns heavily fueled by an inter International far right aren’t happening. As I mentioned last time, Serimedo is just one piece in a puzzle, a cog and a wheel, albeit one very important cog. But actions pushing disinformation online are still happening. We just don’t necessarily know from who or where. Here’s one example. About a week ago, the Brazilian journalistic outlet Ajencia Publica reported in conjunction with Aos Fatos that AI farms were fueling the far right agenda in the lead up to the elections. The bots had created 255 profiles and made over a thousand posts. Agencia Publica reported that the network had “achieved 58 million views, expanding the reach of posts supporting the Bolsonaro family and attacking the Supreme Court.” It’s a strategy known as astroturfing, using artificial engagement to give the impression of a real surge in grassroots support.

All of this happened over one month between August and September. According to the investigation, one of the main nodes of this AI campaign was linked to the Instagram account Leo Indio Bolsonaro. That is managed by Leonardo Rodriguez de Jesus. He is Flavio and Eduardo Bolsonaro’s cousin. He was investigated by Brazilian officials for his role in the 2023 attempted coup. A warrant for his arrest was ordered in 2025. He fled the country. He’s reportedly now in Argentina. The point is this, these campaigns are happening. We often just don’t hear about them until after the fact.

Maria Marta Bruno:

Well, I’ve been voting since 1998 and I have never seen such level of interference of foreign interference in Brazilian elections.

Michael Fox:

Maria Marta Bruno is a journalist with Agencia Publica, the outlet I mentioned earlier. If you remember, I spoke with her in the last episode as well about Serimedo.

Maria Marta Bruno:

It reminds me a lot of what I have read in history books and what I have learned on the Brazilian dictatorship and the very clear role that the US developed from 1964 to 1985 when the military dictatorship in Brazil took place. There was never since the end of the dictatorship such open intervention.

Michael Fox:

Maria says there have been a lot of headlines lately mentioning diplomatic tension between Brazil and the United States, but she says what we’re seeing goes far beyond that.

Maria Marta Bruno:

Because given the gravity and the timing of the recent facts, I would say that it constitutes a clear interference in our process.

Michael Fox:

She highlights Trump’s tariffs on Brazil both last year and this year, which she says are wrapped into defending former President Jair Bolsonaro. She points to the numerous meetings between Flavio and Eduardo Bolsonaro with top officials in Washington over the last year, the US sanctions against Supreme Court Justice Alexandre Morais and so much more. And she says there are two other big reasons why the United States is so interested in Brazil. The first is China.

Maria Marta Bruno:

The US intentions to reduce China influence in Latin America. We all know that China, it’s a key partner for Brazil and for other countries in the region.

Michael Fox:

The second is rare earth minerals, stuff like neodymium, dysprosium, or terbium. Yeah, I don’t know what they look like either, but they’re used in EV motors, green energy technologies, military equipment, and other industries. Brazil is home to somewhere between a fifth and a quarter of the total rare earth reserves in the world. It’s second only to China. In April, a US company bought up the Brazilian firm Ceja Vergi, which mines rare earth minerals in Brazil. After his meeting with Trump in May, Flavio Bolshinaro promised to work with the United States on mineral extraction. “We are the only real alternative to China for a free world,” Flavio Bolsonaro said. “Under my government, there will be long-term strategic partnership with the United States in this sector with protected investment and shared reindustrialization between the two countries. Flavio also promised that if he is elected in his first month, Brazil would join President Trump’s Shield of the America’s regional coalition.

Brazil will join the shield of the Americas together with the United States, “he said,” and countries across the region, forming a great hemispheric alliance against terrorism and organized and transnational crime. “This is Brazil’s place. It is the protagonist of the security of the Americas side by side with free and sovereign nations, he said.

Maria Marta Bruno:

And we know that the US is very interested in what we have and the reserves that we have. So it’s very significant, it’s very important, and we know that the US is following closely the development of the presidential elections here because they will certainly determine what will be the future of the diplomatic relation between US and Brazil in the upcoming years.

Michael Fox:

In the face of all of this, Brazilians are responding none louder than President Luis Idnacio Lula de Silva.

Jair Bolsonaro:

The assembly will now hear and address by his excellency, Luis Inacio Lula Da Silva, president of the Federated Republic of Brazil.

Michael Fox:

The day is September 22nd, 2026, New York City. Brazilian President Luis Idnacio Lula de Silva walks to the podium at the United Nations to kick off the 81st General Assembly meeting. Without mentioning him, Lula speaks directly to US President Donald Trump. “Brazil does not fit into anyone’s backyard,” he says. Lula denounces Trump for attacking democracy, interfering in elections and using military force to acquire material resources across Latin America. He closes his speech with a nod to the upcoming high stakes elections in Brazil. On October 4th, he says, “Millions of Brazilians go to the polls to decide their future. They will not just elect the president of the republic, state governors, and representatives of the legislative power. They will decide between democracy and denialism, between if Brazil is going to move toward a future of more opportunities or return to a past of exclusion.”. He says Brazil will have free and transparent elections as it always has with broad freedom of speech.

He denounces the spread of disinformation online, in particular coming from outside the country, which he says is an attempt to “disrupt the debate.”.

“We have a modern and robust electoral system,” he says. “We have a plural citizenship and a free press. We will not allow the enemies of democracy, both internal and external, to attack the popular will. Brazilian democracy belongs to Brazilians. Brazil will continue to be a sovereign country. No one, no one will take us away from this path, “he says. It’s Lula’s response to Trump and the world as the country faces incredibly important elections, elections that Trump and the United States have been attempting to influence. Brazilians have been vocal online and in the streets against Washington’s pressure, and recently they actually got some support from a group of lawmakers on Capitol Hill. On September 24th, just last week, Senator Bernie Sanders and 30 Democratic members of the US House of Representatives sent a letter to Secretary of State Marco Rubio. They accused the Trump administration of waging a pressure campaign against Brazil ahead of the first round vote.

Illinois Congresswoman Delia Ramirez led the congressional effort. They write, “We are writing to express our grave concern regarding the administration’s coordinated effort to threaten our strategic alliance with Brazil and undermine the Western Hemisphere’s second largest democracy ahead of its upcoming presidential election in October 2026. Over the course of President Trump’s second term,” they write, “We have seen US officials engage in a sustained multifaceted campaign of interference and destabilization in Brazil. They point to the shocking 50% tariffs Trump levied on the country last year amid the country’s trial against Jair Bolsonaro. They also underscored Trump’s appointment last year of Darren Beattie as a senior advisor on Brazil issues in the State Department. Beattie, a noted far-right extremist and white supremacist,” they write, “came into this post with a clear record of public statements signaling an overt ideological commitment to undermining Brazil’s democratic institutions.” The congressional representative singled out Trump’s current tariffs, his meeting with Flavio Bolsonaro at the White House, and his designation of the Brazilian drug gangs as foreign terrorist organizations.

They write, “Given the Trump administration’s repeated military strikes in the region, justified in part by alleged foreign terrorist organization threats to US security, the designation has also fueled fears of potential US military intervention.” They recall comments from White House Press Secretary Caroline Levitt last year that threatened Brazil could potentially face the United States’ military might.

US military action in Brazil isn’t likely, but it’s not out of the question. Nothing is under Trump’s Dunro doctrine. The lawmakers highlight that Brazil is just the latest in a quote, deeply troubling pattern of interference by the United States in foreign elections, including in Argentina, Honduras, and Columbia. Rather than helping defend democracy, they write, the United States is acting as an agent of interference and destabilization using diplomatic economic and political pressure in ways that risk weakening the country’s democratic institutions, undermining confidence in Brazil’s electoral process and inflicting further damage on our relationship with a strategic US ally and trading partner. They demand that Washington commit to recognizing the certified election results. Here’s the thing, the stakes are high. Remember Igor Fusser? He’s the professor I met at the Sao Paulo Cafe. He told me, “It’s clear that the United States is doing everything and will do everything possible to prevent the reelection of Lula in the next elections.” And Igor told me there was a reason for that, because if Flavio Bolsonaro wins, he will bow to Trump and the United States.

Igor says, “Brazil will become a country under the tutelage of the United States, a colony or almost a colony of the US as already happened with Argentina, Columbia, Venezuela, and many others. And if Lula is victorious in these elections, we will live a very intense period of confrontation between the two countries,” he says. And Igor has a really interesting analysis here. He says, “The US dominance over Latin America imposed by Trump is analogous to the control of the Soviet Union over the Eastern block countries during the Cold War under a Russian foreign policy imposed by Soviet leader Leonid Brezniv in 1968.” He says, “Czechoslovakia, Hungary, Poland, Bulgaria, all of those countries were formally independent nations with their own government, their own laws, their own representation in the United Nations, but these countries were not autonomous. They didn’t have sovereignty. Any movement that they made that clashed with the interests of the Soviet Union was repressed.

Some of them were even invaded,” he says. “So we’re living in Latin America, a Breznev doctrine, capitalist, imperialist, dictated by Donald Trump. “That is why this election is so important. Brazil is the outlier, the counterweight to the United States and the region, and the US is fighting hard to bring it to heel.

We’re going to see this all unfold not in a couple of months or weeks, but in just a few days. The first round of the election is on October 4th. Brazilians are voting for their president and vice president. They’re also voting for all of the country state governors, all 513 members of the Chamber of Deputies, two-thirds of senators, and more than a thousand state assembly seats. Lula is ahead in the race, but he appears shy of the 50% needed to win outright. If no presidential candidate wins more than half of the vote, it’ll go to a second round. There, polls show the margin between Lula and Bolsonaro even tighter, and it will undoubtedly be a tough campaign. The second round, if it’s needed, is on October 25th.

That is all for this episode of Under the Shadow. Things are going to get intense in the coming days. Please consider following our new website, Pan-American Dispatch and our social media accounts for ongoing reporting on Brazil and these elections. Some of the reporting in this episode was based off of stories I produced recently for the world and The Real News. Many thanks to those outlets for all that they do. Let me remind you that if you’re craving even more backstory here, you can always go back and listen to episode 12 of the second season of Under the Shadow about Brazil’s fight against fake news in the country and the US attempt to roll it back. And please also consider checking out my 2022 podcast about Brazil under Bolsonaro. It’s called Brazil on Fire. It’s still totally relevant today. You can find that wherever you listen.

As always, you can find me at patreon.com/mfox.

There you can also support my work, become a monthly sustainer, or sign up to stay abreast of all the latest on this podcast and my other reporting across Latin America. You can find a ton of content there exclusively also for my supporters. If you’re looking for more information, news and reporting on Trump’s onslaught, both in communities within the United States and abroad, please check out The Real News and NACLA. Both of them are publishing daily indispensable reporting. The theme music is by my band, Monte Perdido. You can find us on Spotify or wherever you stream music. This closing song playing right now is off our 2024 album, Ofrenda. I hope you check it out. Under the shadows of co-production of The Real News and NACLA, it’s produced in partnership with Global Exchange. This episode was written, researched, reported, and produced by me, Michael Fox. The script was edited by Heather Geis.

Thanks for listening. See you next time.

Laura and Cristina, a Brazilian couple with four kids: ‘If Bolsonaro wins we will be a bunker of resistance’

1 October 2026 at 15:08

It’s Saturday night in Rio de Janeiro’s financial district and there are nothing but closed offices and dark streets, but around a corner, a three-story house lit in the colors of the rainbow appears. In front, a boisterous crowd is spread between tables, and there is even a sofa set out on the street. This is the atmosphere of Queerioca, a cultural center that has become the epicenter of Rio’s LGTBIQ+ community. There’s a DJ, laughter and caipirinhas, but also T-shirts bearing the face of President Luiz Inácio Lula da Silva, and some tension in the air. Brazil is holding general elections with the first round scheduled for Sunday, and the far right is knocking at the door.

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© Ana Alexandrino

Actresses Cristina Flores and Laura Castro, mothers of four kids, pose at Queerioca, the LGBTQ+ cultural center they run in Rio, in a photo provided by them.

Trump, Rúbio and the Bolsonaros’ electoral fraud and cyber attacks

30 September 2026 at 16:53
Supporters of the ruling party hold huge signs against former president Jair Bolsonaro and US President Donald Trump during a demonstration during the Independence Day commemoration, at the Praça da Republica, in Sao Paulo, Brazil, on September 7, 2025. Photo by MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images

This story originally appeared in Panamerican Dispatch on Sep. 29, 2026, and is shared here with permission.

The close relationship between the Bolsonaro family and key figures in the international far right like Steve Bannon and U.S. President Donald Trump has been public knowledge for over eight years. In this article, tech specialist Miguel Manso looks at the state of that relationship, right now, just days before Brazil’s first-round presidential elections. – ed.

Just days before the first round of Brazil’s presidential election, a confidential report from the Brazilian Intelligence Agency (Abin) warns that the United States is influencing the country’s electoral process. Titled “Threats to the 2026 Electoral Process,” the report was sent in late August to the presidency, the Superior Electoral Court and the Justice Ministry, warning that U.S. interference has reached a “critical” level.

Sen. Flávio Bolsonaro’s campaign has become the target of legal action over claims that it benefited from paid ads and mass messaging originating in the United States.

The coalitions backing Luiz Inácio Lula da Silva of the Workers’ Party and Renan Santos of the Missão party asked the Superior Electoral Court and the Supreme Federal Court to investigate the senator for economic and political abuse of power and foreign interference.

The court filings allege the following:

Foreign amplification: U.S.-based right-wing profiles and influencers, including American political figures, allegedly ran paid campaign content on X in support of Flávio Bolsonaro.

Paid partnerships: The posts, labeled “paid partnership,” cited figures from the foreign betting platform Polymarket to claim that Bolsonaro was the favorite, distorting the actual state of Brazilian polling.

Prohibited financing: The parties allege that this amounts to the use of funds from outside the official campaign structure and financed from a foreign source, both of which are strictly prohibited under Brazilian electoral law.

The lawsuits ask for the immediate removal of the posts, a Federal Police investigation, and, if the irregularities are confirmed, the loss of candidacy and ineligibility for those involved.

Trump’s Shield of the Americas and the Fernando Cerimedo Case

The attempted murder of Nadia Beller has drawn investigators toward Fernando Cerimedo and a web of other connections, including drug-trafficking flights and Bolivia’s top anti-narcotics police official, who allegedly identified the hitmen. Cerimodo is known for his work with far-right political leaders in Latin America.

On August 17, 2026, two gunmen on a motorcycle shot Nadia Beller, a Bolivian lawyer and Cerimedo’s girlfriend, outside a hotel in Santa Cruz de la Sierra, Bolivia. She survived but was wounded in the neck, chest and arm.

Bolivian police have identified Colombian national Aldúbar Henry Silva Peña as the lead shooter. He fled immediately after the attack, then released a video in September 2026 admitting his role in planning the crime, though he claimed the original plan was only to “scare” Beller. He led a group of five, including four other operatives — two Colombians and two Brazilians — whose identities have not been released by investigators. All four remain at large.

Police detained Víctor Hugo C.Z. and formally charged him as an accomplice who worked directly with the gunmen. They arrested Róger Aguilera on charges of supplying the .32 caliber weapon used in the attack, and arrested Paola Andrea Vargas on charges of hiding and storing it.

Bolivian authorities arrested Argentine political consultant Fernando Cerimedo, known for his work with Trump’s MAGA movement and Beller’s former partner, at Viru Viru International Airport. Bolivia’s public prosecutor’s office accuses him of masterminding the attempted femicide.

A forensic review of Cerimedo’s phone revealed real-time messages with Erik Correa González, the Bolivian government’s head of intelligence, confirming that the shooting took place at the exact moment the two were exchanging messages. Beller has said publicly that the attack was ordered to silence her before she could expose corruption, money laundering and illicit dealings involving Cerimedo and local government officials.

Investigators found two key pieces of evidence: a text note written six days before the attack that used the phrase “La Nadia” alongside an intent to “eliminate” the victim, and a message sent at 8:54 p.m. on August 17 to a contact identified as “E.C.G.,” reading, “Brother, they just shot her.”

The investigation also dug into Cerimedo’s finances. On his phone, police found a note referring to a “virtual wallet” that had moved about $66,000 over the previous 11 months across more than 320 transfers, and a larger “pass-through wallet” that had moved $1,386,997. In searches, police seized about $400,000 in cash, along with 500,000 Bolivian bolivianos, weapons, vehicles and equipment for a “bot farm” — automated accounts used to manipulate social media and elections.

The Earthquake Caused by Survivor Nadia Beller

Beller’s allegations against her former partner are shaking the governments of Rodrigo Paz in Bolivia, Javier Milei in Argentina, José Antonio Kast in Chile, Nasry Asfura in Honduras and Colombia’s Abelardo De La Espriella, along with their ties to the Bolsonaro family. Her account has helped expose a techno-fascist network aimed at manipulating and interfering in elections in Argentina, Bolivia, Chile and Colombia — and even in Mexico’s upcoming election — through bot and troll farms that Cerimedo’s team ran from Argentina and Santa Cruz de la Sierra in Bolivia.

The goal, investigators say, was to install leaders who would serve U.S. and Israeli interests, backed by the Shield of the Americas alliance, promotion from the outlet La Derecha Diario, and financing from Trump and his allies channeled through Milei. Cerimedo has been described as a CIA and Mossad asset.

Fernando Cerimedo, known as the “king of bots” for the Latin American far right, is also under investigation for money laundering and alleged ties to drug trafficking. Prosecutors are trying to determine whether he was part of a network that facilitated irregular flights carrying up to 500 kilograms of cocaine per trip and returning with large amounts of cash.

Searching properties tied to Cerimedo in Bolivia, authorities seized large sums of cash and found evidence of a technical setup built to automatically create fake online accounts — commonly known as a “bot farm.”

Fernando Cerimedo’s Ties to Donald Trump, Marco Rúbio and the Bolsonaro Family

It was already known that a global network links Donald Trump’s MAGA movement with right-wing leaders across Latin America, funded through an international web of businesspeople and drug traffickers and operating through artificial intelligence manipulation and integrated data networks used for cyberattacks.

These groups organize at high-profile political events and forums, such as Mar-a-Lago and the Conservative Political Action Conference (CPAC), where strategists and data operatives share methods for digital engagement and fundraising.

Cerimedo has said in interviews that no one formally introduced him to Eduardo Bolsonaro. The two say they met by chance at Harvard University in 2010. But when news outlets asked Harvard directly, the university said it had no record that either Eduardo Bolsonaro or Fernando Gabriel Cerimedo had ever been enrolled there. Confronted with this, Cerimedo later claimed he had only taken open, non-degree classes.

As part of the Federal Police investigation into the attempted coup in Brazil, investigators found that in 2022, military officers and aides brokered Cerimedo’s ties to the hardline core of the Bolsonaro movement, producing false reports attacking the integrity of Brazil’s voting machines.

Reports based on the plea-deal testimony of Mauro Cid identify Army Col. Ângelo Denicoli as the officer who contacted Cerimedo and coordinated the technical details needed to carry out broadcasts and attacks on Brazil’s electoral system.

The Federal Police obtained electronic records showing that Cerimedo’s phone number and contact information were passed directly to Denicoli. Forensic analysis of seized phones showed that Denicoli became the main point of contact with the Argentine consultant, coordinating the materials sent to him.

Cid formally confirmed in testimony that Denicoli was the direct link between the criminal organization and Cerimedo, saying Denicoli was part of the group tasked with gathering data to support claims that the electronic voting machines had failed.

Technical evidence linked Denicoli, Cerimedo and technology entrepreneur Eder Balbino. Balbino and Denicoli compiled reports containing false arguments and data based on outdated voting-machine models, then passed the files to Cerimedo, who used them as visual material for his broadcasts.

Digital cross-referencing by the Federal Police showed that the data Cerimedo presented in his broadcasts from Argentina contained the same mathematical inconsistencies and formatting as the documents manipulated by the Liberal Party’s technical committee in Brazil. Investigators concluded that Cerimedo had not discovered the material independently, but received it from the structure Denicoli managed.

Investigators also found that Denicoli was part of what they called the Disinformation and Electoral System Attack Unit. The Federal Police traced digital records linking Denicoli directly to fake ballot-audit files stored in a public Google Drive folder belonging to Cerimedo, with Denicoli listed as the folder’s original owner and editor.

Denicoli coordinated the technical compilation of false reports with Balbino. The material was passed to Cerimedo, who used it in the “fraud livestream” broadcast from Argentina in November 2022 and amplified in Brazil by Eduardo Bolsonaro.

In a trial concluded by the Supreme Court, Denicoli received the harshest sentence among the defendants in his group: 17 years in a closed prison regime, on charges of attempting a coup, seeking the violent overthrow of Brazil’s democratic order, and participating in an armed criminal organization.

Billion-dollar Technology Infrastructure Serving Lies and Fraud

The connection between U.S. Secretary of State Marco Rúbio and Argentine digital strategist Fernando Cerimedo took shape starting in 2023, with lobbyist and political consultant Damián Merlo acting as the intermediary.

Merlo, who owns the Miami-based Latin America Advisory Group, serves as a link between conservative Latin American politicians and power centers within the U.S. MAGA movement. According to filings under the U.S. Foreign Agents Registration Act, Merlo used his relationship with Viviana Bovo, a senior adviser to Rúbio, to introduce Cerimedo and his data tools directly to the office of the then senator, who is now secretary of state.

Cerimedo founded the agency Numen and the outlet La Derecha Diario, specializing in “bot farms” and algorithm manipulation to shape social media trends. In Chile, he worked on the campaign that defeated the 2022 constitutional referendum. In Brazil, he helped the Bolsonaro family spread disinformation about voting machines after the 2022 election. And in Argentina, he led the digital strategy behind Javier Milei’s election in 2023.

Brad Parscale, the top digital strategist for Donald Trump’s U.S. presidential campaigns, became Cerimedo’s business partner at the political consulting firm Numen, based in Buenos Aires.

Through that partnership, Cerimedo took over managing the Latin American operations of tools such as Campaign Nucleus and Eyes Over — data-mining and artificial intelligence platforms created or linked to Parscale. The partnership combined Parscale’s expertise in U.S. data operations with the infrastructure Cerimedo had built across Argentina, Brazil, Chile and Bolivia.

Brad Parscale, Peter Thiel and the Data Ecosystem

Brad Parscale earned the trust of the Trump family and went on to design websites for their businesses, before being chosen to lead the digital strategy for Donald Trump’s 2015 presidential campaign.

In 2016, as the campaign’s digital media director, he led a data operation called Project Alamo, directing much of the budget toward highly targeted social media ads and producing as many as 60,000 different Facebook ad variations a day.

In February 2018, Trump named Parscale campaign manager for his 2020 reelection bid.

Parscale’s ties to Big Tech and to Peter Thiel’s Palantir Technologies span strategic data cooperation, political alignment and technology supply.

Thiel, a Palantir cofounder, was one of the major Silicon Valley billionaires who directly backed and funded Trump’s 2016 campaign. Palantir builds surveillance and analytical intelligence software for governments and defense agencies.

Parscale created Campaign Nucleus, a platform meant to build a communications structure and data ecosystem. The data-mining and AI model it uses mirrors the mass-processing and information-control concepts associated with Palantir.

The ecosystem functions as an integrated chain: Thiel’s Palantir develops surveillance and data-intelligence technology, which feeds into political software such as Parscale’s Campaign Nucleus, and Parscale in turn distributes that technology across Latin America through Cerimedo’s Numen.

The Link between U.S. and Israeli Companies

These companies’ ties to Israel and its government center on two main areas: artificial intelligence for military targeting, and cyberwarfare and digital influence operations.

In January 2024, Palantir signed a direct strategic agreement with Israel’s Defense Ministry to supply advanced AI technology supporting “war-related missions.”

In July 2026, international journalistic investigations revealed that Parscale was registered as a foreign agent of Israel in the United States. The Israeli government hired Parscale’s main firm, Clock Tower X, through a $46.5 million contract to carry out a digital influence operation.

According to the reporting, the company built a network of pro-Israel propaganda websites and blogs while also producing search-optimized content designed to shape the databases artificial intelligence systems draw on.

Cerimedo’s Numen is described as the Latin American link in that network, applying Campaign Nucleus data concepts and bot infrastructure through La Derecha Diario.

The relationship is described as symbiotic: Israel provides public contracts, Palantir supplies data technology, Clock Tower X uses that funding for digital influence operations, and Numen carries out the messaging and bot infrastructure in Latin America.

The Use of Artificial Intelligence and “AI Poisoning”

The tactics have evolved from spreading disinformation on social media to manipulating institutional digital ecosystems.

Generative Engine Optimization, or GEO, is described as a technique meant to flood the internet with doctrinal texts and fake academic research centers, so that the crawlers used by systems such as ChatGPT, Gemini and Claude absorb that propaganda as factual information. As a result, when people ask artificial intelligence systems about geopolitical topics or elections, those systems can end up repeating narratives that this network planted beforehand.

The dismantling of Cerimedo’s structures in Bolivia also revealed the use of tens of thousands of automated phones running AI software designed to simulate human behavior, making it harder for social media platforms to detect and block them.

Trump’s MAGA strategists, working with Eduardo and Flávio Bolsonaro, continue trying to interfere in Brazil’s election despite Cerimedo’s arrest — evidence of a powerful alliance working jointly to manipulate and defraud the political landscape and bring Latin America under U.S. control. The question is: for how long?

This article was originally published in Brasil 247. It has been translated to English by Panamerican Dispatch and can be read in its original Portuguese, here.

What’s at stake in Brazil’s upcoming presidential election?

29 September 2026 at 23:11

The election campaign in Brazil is at its peak. Candidates are stepping up their speeches, campaign ads are airing more frequently, and attacks on opponents are the order of the day. Brazilian political life has found its focal point, and that is the contest – as it is being portrayed – between two titans.

On one side is the country’s current president, the legendary labor union leader and head of the Workers’ Party, Luiz Inácio Lula da Silva – a representative of progressivism and Brazil’s center-left – who has stated that he has chosen to run for reelection to prevent the far right from conquering one of the last countries to have resisted the new wave of far-right politics in South America.

Leading the charge is Flávio Bolsonaro, a senator from São Paulo who has stepped into the long shadow of his father, the neoliberal and ultra-conservative former president Jair Bolsonaro (a close friend of Trump’s) who is currently in custody, according to Brazilian authorities, for his role in an attempted coup d’état aimed at preventing the swearing-in of the current president, Lula.

The latest polls

For now, polls predict a potential runoff election (October 25) to determine the president, as neither candidate is expected to reach the 50% needed to win in a single round.

According to the polling firm Quaest, Lula continues to hold a slight 5% lead over Bolsonaro. Thus, the center-left candidate would reach 39% and Bolsonaro 34%. Meanwhile, the polling firm BTG Pactual/Nexus reports that Lula has 42% and Bolsonaro 37%.

The remaining candidates would not receive more than 4%, while undecided voters account for 5%. About 10% of those surveyed said they would cast a blank or invalid vote.

In a potential runoff, the race is much closer. Quaest reports that Lula and Bolsonaro would be tied in a future runoff, each with 42%. Nexus, on the other hand, gives Lula a lead in the runoff with 46%, compared to Bolsonaro’s 44%.

Two models, one possible path

From a media and strategic perspective, portraying the South American giant’s current situation as a crossroads can sometimes be a bit misleading. Both candidates advocate capitalism as the only viable economic system, and both are open to international cooperation with necessary trading partners.

However, the major differences – and the significant possibilities that accompany them – undoubtedly point to two distinct paths the country could take. Bolsonaro advocates for a radical reduction of the state and the full opening of the country to international capital, which has once again turned its attention with great interest to South America’s immense natural resources. Minerals, gold, oil, and Brazil’s enormous hydroelectric potential are fundamental to the new material distribution of the imperialist economy.

And while Lula is by no means an isolationist (in fact, he promotes investment) he is not a politician willing to hand over those resources at any cost without a significant state presence and without promoting the economic interests of Brazilian capital. Furthermore, Lula has based his campaign, among other things, on the country’s sovereignist rhetoric.

This issue is probably the most important in geopolitical terms. Lula is not part of Trump’s political-military coalition known as the Shield of the Americas, the true operational arm of Washington’s hemispheric strategy – namely, securing Latin America as its zone of control and influence.

Flávio Bolsonaro, on the other hand, asserts that during his potential presidency, the United States will be not only his main political partner but also his security partner (a relationship that has historically held over the past few decades).

And Trump, of course, has not been a bystander in this dispute – even from a personal standpoint. When he learned of Jair Bolsonaro’s conviction for an alleged coup attempt, he stated that he would impose sanctions on the Brazilian economy for having imprisoned the man he called “his friend.”

In response, Lula has played a game that carries high economic costs but maintains a firm diplomatic stance. Whenever tariffs have been raised, Lula has ordered a similar response, which has put him in direct conflict with the Trump administration.

This issue is likely of much greater significance than it appears, given that Brazil alone accounts for nearly 50% of the region’s total GDP. Therefore, what is at stake in Brazil’s upcoming elections is more than just a presidential election; it is also the continuation of a right-wing wave in the region or a halt to it – one that, given Brazil’s economic and territorial importance, could mean more than just a statistical anomaly.

A fake story about the Virgin of Aparecida, patron saint of Brazil, marks the end of the presidential campaign

29 September 2026 at 13:12

A fake story, with the Virgin of Aparecida, patron saint of Brazil, as an unwitting protagonist, has sparked a major controversy and poisoned the final stretch of the electoral campaign in Brazil. The contention, which harms Bolsonarismo, grew until it drew the direct intervention of the two leading candidates — President Luiz Inácio Lula da Silva and Flávio Bolsonaro — the Bishops’ Conference, and the Supreme Court. Since Thursday night there have been statements, official notes, mutual accusations, and conflicting judicial rulings. The falsehood, which continues to circulate on social media, could affect an election that promises to be extremely close.

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© Miguel Schincariol (Getty Images)

Tribute to Our Lady of Aparecida at the Basilica of the National Shrine, in Aparecida, São Paulo, on Thursday, October 12, 2023.

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

28 September 2026 at 22:34

Nossa Senhora Aparecida se transformou em um dos maiores eventos políticos de 2026, com 1,3 milhão de publicações e 12,4 milhões de interações entre 23 e 27 de setembro, ou seja, na penúltima semana antes do primeiro turno das eleições. A informação é do monitoramento realizado nas redes sociais neste período pelo Instituto Democracia em Xeque (IDX).

Não foi sem razão, portanto, que a campanha do senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acionou, já na sexta-feira, 25 de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tendo como o alvo a publicação do humorista Antonio Tabet.

A alegação dos advogados de Flávio era que se tratava de desinformação, uma mentira, afirmar que ele apoiava a retirada do título de “padroeira do Brasil” da santa. De fato, o post de Tabet ocorreu em meio a uma onda de desinformação sobre a relação do senador com um Projeto de Lei apresentado pelo então deputado Professor Victório Galli (PP-MT), pastor evangélico e arquivado em 2008. A proposta alterava a lei do feriado de 12 de outubro, trocando “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, conforme a Agência Pública mostrou.

Flávio Bolsonaro batizado no rio Jordão, em Israel, numa repetição de ato feito pelo pai em 2016
Flávio Bolsonaro batizado no rio Jordão, em Israel, numa repetição de ato feito pelo pai em 2016

O que o relatório do IDX mostra, entretanto, é que o debate sobre o assunto nas redes sociais ultrapassou rapidamente a “fake news” e se desenvolveu no embate político sobre liberdade religiosa, intolerância, defesa da padroeira e impacto eleitoral.

“A maior parte da conversação está em torno do debate cultural, religioso, judicialização, liberdade de expressão e defesa da padroeira, com 83% do universo analisado. Somente 17% do universo mencionam a acusação que originou a controvérsia”, afirma o relatório do Instituto.

A própria publicação de Antonio Tabet não faz relação direta ao projeto de lei. Trata-se de uma imagem da santa com a frase: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”.

Dino versus Mendonça

O tangenciamento entre o que é desinformação e o que acabou se tornando debate político, gerou uma nova batalha de decisões entre ministros de dois tribunais superiores, que deve ser levada ao plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).

No domingo, 27 de setembro, o ministro do STF Flávio Dino suspendeu as decisões do colega André Mendonça da última sexta-feira, 25, que determinava às redes sociais como X (antigo Twitter), Facebook, Instagram, TikTok e YouTube a retirada de postagem de Tabet e de outras contas nas redes sociais. Uma das decisões de Mendonça relaciona mais de mil links de publicações sobre o mesmo tema que deveriam ser retiradas pelas empresas responsáveis pelas mídias sociais.

Mendonça também afirmou na decisão, como atual vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que as redes sociais “atuem preventivamente contra a disseminação dos conteúdos abrangidos por esta decisão”. A decisão do ministro, derrubada por Dino, ainda fixa uma multa diária de R$ 50 mil ao provedor que não cumprir a medida.

Entre as justificativas do ministro Flávio Dino para anular as decisões de Mendonça está o risco de “censura em massa”, diante da “‘derrubada’ de milhares de postagens, inclusive de adeptos do culto à Nossa Senhora Aparecida”. Além disso, Dino afirma que o TSE “delegou largos poderes censórios às empresas de internet”, e que é necessário um “debate sobre o controle de constitucionalidade de decisões monocráticas de um ilustre ministro que faz parte de um Tribunal Superior”.

O ministro ainda salienta no documento a importância de valores como a liberdade religiosa, “já que o tema de fundo em discussão pública refere-se à determinação legal de ser Nossa Senhora Aparecida a ‘Padroeira do Brasil’”. Na mesma decisão, Dino solicita a análise da questão pelo plenário do Supremo.

Com a suspensão da derrubada de seu posicionamento, Tabet, também no domingo, publicou novamente a foto da santa com a mesma frase. O humorista ainda escreveu na rede social X: “Flavio Dino acabou de derrubar a decisão de André Mendonça, ‘preservando a liberdade de expressão e a liberdade religiosa’ dos que defendem Nossa Senhora Aparecida. Como será impossível restabelecer a postagem que foi apagada, vou publicá-la novamente. E conto com vocês para fazê-la chegar mais uma vez a todos que a viram e aos que não puderam vê-la”.

Nesta segunda-feira, 28 de setembro, a defesa de Flávio Bolsonaro solicitou ao ministro Luiz Fux que suspenda a decisão que liberou o post de Antonio Tabet e de outras contas nas redes sociais. A tese defendida agora pelos advogados de Flávio é que o combate à desinformação eleitoral cabe apenas ao TSE, e não ao STF.

As divergências mostram como as decisões dos ministros nos dois tribunais superiores influenciam e estão influenciadas pela disputa eleitoral. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, aceitou reunir-se com o presidente do TSE, ministro Nunes Marques, com o vice do tribunal eleitoral, André Mendonça, e com o ministro Dias Toffoli, que também faz parte das duas cortes, também nesta segunda-feira, após a publicação da decisão de Flávio Dino.

Segundo o blog do Oswaldo Cruz, no G1, os ministros estariam levando ao presidente Fachin o descontentamento por uma suposta tentativa dos outros membros da Corte, como Gilmar Mendes, Flávio Dino e Alexandre de Moraes, de levar a crise do STF para o TSE. Eles criticam uma postagem feita pelo ministro decano Gilmar Mendes de 19 de setembro, nas redes sociais, onde afirmou que o Tribunal Superior Eleitoral deve se comprometer com “uma atuação apartidária e fiel à Constituição”.

Tanto Nunes Marques quanto André Mendonça foram indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Já Flávio Dino foi indicado pelo presidente Lula e tem se manifestado no STF em concordância com Gilmar Mendes, indicado por Fernando Henrique Cardoso, e Alexandre de Moraes, indicado por Michel Temer.

O ministro Flávio Dino reafirmou em documento à determinação legal de ser Nossa Senhora Aparecida a ‘Padroeira do Brasil’

O que não é “fake news”

Um possível ataque por políticos evangélicos à Nossa Senhora Aparecida não é um tema recente na política brasileira. O boato de que Jair Bolsonaro, caso ganhasse as eleições, tiraria o título de “padroeira do Brasil” também circulou nas eleições de 2022.

A resposta do senador Flávio Bolsonaro à desinformação neste pleito, afirmando que se tratava de uma ação orquestrada entre a campanha do adversário Lula e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entretanto, não agradou a entidade que respondeu. “A Conferência repudia a produção e a utilização de informações falsas, independentemente de sua origem ou de quem possam beneficiar ou prejudicar”, afirma uma nota de esclarecimento publicada no site da CNBB.

A jornalista Daniela Lima, do Uol, apurou que os ataques à Nossa Senhora são monitorados pela Igreja Católica há cerca de sete anos, junto com o aumento da intolerância religiosa que inclui também ataques a templos, inclusive de religiões afro-brasileiras, católicos e judeus. Ela cita um vídeo publicado em agosto deste ano pelo candidato do PL em que, ao explicar por que não pretendia participar de debates sem a presença de Lula, afirma: “quero debater com quem não acredita em Deus, porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

A frase dita por Flávio aparece no monitoramento das redes sociais. Segundo o relatório, “no recorte temático, conteúdos sobre ‘retirada do título e eleição’ somam 108.563 resultados, enquanto ‘PL 2.623, Galli e Bolsonaros’ reúne 73.622.” Em sua análise, o IDX que “registros históricos de ataques à imagem de Nossa Senhora e manifestações de lideranças evangélicas” foram utilizados pelo campo progressista “para sustentar que a discussão religiosa possuía antecedentes”.

Últimas pesquisas e fim da propaganda eleitoral marcam semana antes do primeiro turno

28 September 2026 at 08:00

A poucos dias do primeiro turno das eleições, marcado para o próximo domingo, 4 de outubro, os candidatos entram na última semana de campanha com agendas em estados estratégicos, expectativa em torno do último debate televisivo e novas pesquisas de intenção de voto. A partir do dia 2 de outubro, sexta-feira, estão proibidos comícios, debates em emissoras de rádio e televisão, além da veiculação de propaganda eleitoral gratuita. A transmissão retornará, caso haja segundo turno, a partir de 9 de outubro.

O presidente Lula (PT), candidato à reeleição, deve concentrar a agenda entre Norte, Nordeste e Sudeste. Nesta segunda-feira, 28 de setembro, a previsão é que esteja em Manaus (AM) e Belém (PA). Na terça-feira, 29, o presidente deve participar de um ato em Feira de Santana (BA), ao lado do governador e candidato à reeleição Jerônimo Rodrigues (PT), e dos candidatos ao Senado pela Bahia Jaques Wagner (PT-BA) e Rui Costa (PT-BA). Na sexta-feira, 2 de outubro, estão previstas caminhadas em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, e o último ato da campanha deve ocorrer em São Paulo, no sábado.

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também chega à reta final com a participação no debate da Rede Globo, marcado para a quinta-feira, 1º de outubro. O encontro, realizado após o Jornal Nacional, será o último antes do primeiro turno. A emissora convidou Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD). Até o momento, Lula não confirmou participação.

Augusto Cury tem previsto para a semana um encontro com empresários organizado pelo Esfera Brasil, em conjunto com o grupo Prerrogativas, ainda sem data e horário divulgados. Já entre os governos estaduais, o destaque está nesta terça-feira, 29 de setembro, quando a Rede Globo e suas afiliadas irão realizar 27 debates simultâneos com candidatos aos governos estaduais. Será a última rodada de debates entre os candidatos ao executivo dos estados antes do primeiro turno.

Na área de pesquisas eleitorais, três levantamentos nacionais da AtlasIntel têm divulgação prevista para esta segunda-feira, 28, e terça, 29, segundo registros no TSE. Esta segunda também é o último dia para registrar pesquisas realizadas antes da eleição que tenham divulgação prevista para o próprio dia da votação. Pela regra eleitoral, portanto, ainda podem surgir até 28 de setembro registros de novos levantamentos feitos antes da eleição para divulgação em 4 de outubro, inclusive de institutos como Quaest e Datafolha.

O Supremo Tribunal Federal (STF) segue em meio aos desdobramentos e às tensões provocadas pelo caso Master. A agenda tem como destaque nesta quarta-feira, 30 de setembro, o início da gestão da ministra Cármen Lúcia na presidência da Primeira Turma do Tribunal, substituindo o ministro Flávio Dino. Até o momento, não há nova data definida para a análise dos processos relacionados ao caso Master.

Estão na agenda da semana de 28 de setembro a 4 de outubro:

  • TSE
    • Proibição de prisão de eleitores (29/9): começa a proibição de prisão ou detenção de eleitores, que segue até 6 de outubro, salvo as exceções previstas no Código Eleitoral. Também é o último dia para informar à Justiça Eleitoral os nomes de fiscais, delegados e delegadas autorizados a atuar na votação e apuração no exterior.
    • Propaganda eleitoral (1º/10): último dia da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, para a realização de comícios e para debates no rádio e na TV, que podem se estender até às 7h do dia 2 de outubro.
    • Atos de campanha (3/10): último dia, até as 22h, para distribuição de material gráfico, realização de caminhadas, carreatas e passeatas. Também começa a proibição de transporte de armas e munições por CACs e de transporte de eleitores fora das exceções legais. Na mesma data, ocorre a cerimônia de verificação do sistema de gerenciamento da totalização dos resultados.
    • Primeiro turno (4/10): eleitores vão às urnas para escolher presidente, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual ou distrital.

SAÚDE

  • STF
    • Transfusão de sangue (30/9): Plenário deve retomar a discussão sobre a realização de transfusão de sangue contra a vontade de pacientes maiores e capazes, inclusive em casos envolvendo Testemunhas de Jeová. O julgamento das ADPFs 618 e 642 envolve o direito à autonomia e à liberdade de escolha em tratamentos médicos.
    • Planos de saúde (30/9): Ministros devem analisar a ADC 90, que discute se a proibição de reajustes de planos de saúde por faixa etária para pessoas com 60 anos ou mais também se aplica aos contratos assinados antes de 2004, quando entrou em vigor o Estatuto da Pessoa Idosa.

Agenda da semana da Pública é um serviço apresentado aos leitores, concebido com base nas informações dos portais da Câmara, Senado e STF.

Nossa Senhora Aparecida: boato sobre padroeira domina redes e chega ao TSE

25 September 2026 at 22:40

Um projeto de lei engavetado há 18 anos levou Nossa Senhora Aparecida ao centro da campanha presidencial e, nesta sexta-feira, 25 de setembro, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O vice-presidente do Tribunal, ministro André Mendonça, determinou que o humorista Antonio Tabet apague do X (antigo Twitter) uma publicação que acusava a família de Flávio Bolsonaro (PL) de atacar a santa. Na postagem, com a imagem da padroeira, o humorista escreveu: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”

A decisão proíbe novas postagens com a mesma acusação, sob multa de R$ 30 mil. Segundo Mendonça, os documentos apresentados pela campanha de Flávio indicam que o candidato não propôs nem apoiou a iniciativa de retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.

Em nota, “A defesa de Antonio Tabet repudia veementemente a decisão liminar proferida pelo Ministro André Mendonça que determinou a remoção de uma de suas publicações na plataforma X. A ordem judicial de exclusão atinge uma manifestação que em momento algum citou o nome do candidato Flávio Bolsonaro. A principal (mas não única) fragilidade jurídica da decisão reside na presunção de que uma crítica genérica teria um destinatário certo, referendando um curioso fenômeno de autoidentificação. A postagem limitou-se a afirmar, acompanhada de uma imagem da padroeira, que ‘A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!’. O fato de o representante ter se reconhecido de forma tão imediata nessa exata descrição é revelador, mas vestir a própria carapuça não deveria fornecer o alicerce jurídico para a decretação de censura”. Leia a íntegra.

Como o tema explodiu

Existe um projeto de lei sobre o assunto, mas ele não tem relação com Flávio. É o PL 2.623/2007, do então deputado Professor Victório Galli (PP-MT), pastor evangélico, arquivado há muitos anos. O texto alterava a redação da Lei 6.802/80, do feriado de 12 de outubro, trocando “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. Galli invocava a laicidade do Estado, mas o projeto foi rejeitado na Comissão de Educação e Cultura e arquivado em agosto de 2008.

Nesta quinta-feira, 24 de setembro, no entanto, Maria Cristina Fernandes fez um comentário na GloboNews afirmando que haveria uma reação da Igreja Católica a evangélicos que estariam mobilizando o projeto, o que poderia favorecer Lula. A fala, que não mencionava Flávio, foi tirada de contexto e passou a viralizar como se ele estivesse por trás da ideia. Após a repercussão, a GloboNews fez uma retratação.

Redes e reações de lado a lado

Levantamento da Palver mostra que o assunto chegou a 735 menções a cada 100 mil mensagens nesta sexta-feira, 25. Um relatório da própria campanha, entregue ao TSE, contabilizou 2.086 publicações de 1.674 contas, com mais de 21 milhões de visualizações. No Google Trends, as buscas pela santa atingiram o nível mais alto em três meses.

Flávio Bolsonaro chamou o conteúdo de fake news, disse que é evangélico, mas respeita todas as religiões. “Isso é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto”, afirmou em um vídeo publicado na noite de ontem.

Já o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou, em suas redes sociais, ter recebido mensagens de católicos preocupados e garantiu que as tradições religiosas serão preservadas. Na última quarta-feira, 23 de setembro, o presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jaime Spengler, reiterou que a Igreja não declara voto e criticou a mistura entre religião e política.

A controvérsia surge num momento em que bispos e arcebispos católicos têm se manifestado publicamente em defesa da soberania nacional e dos mais pobres, bandeiras que coincidem com o discurso de campanha de Lula. A cúpula da Igreja, porém, reafirma que não apoia candidatos nem partidos.

O mar cresce e o Brasil pode afundar com um presidente negacionista

24 September 2026 at 16:00

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Talvez você ainda não tenha visto uma maré realmente violenta, ou só recentemente tenha escutado notícias a respeito. Mas a conversa já rola pelo Brasil e os sinais da destruição estão por toda a costa. No Nordeste, os jangadeiros comentam sobre as “marés grandes”. No Norte, os açaízeiros, os ribeirinhos próximo à costa, falam das “marés lançantes”. No Sudeste, alguns moradores da Ilha do Cardoso deixam suas casas ameaçadas pelo aumento do nível do mar. Agora, no Sul, depois do chamado Tsunami meteorológico em Santa Catarina, onde o mar subiu de forma abrupta e inundou três municípios, o tema ganhou a boca do povo. 

Ainda assim, enquanto milhares de brasileiros começam a enxergar o que os cientistas já vinham alertando há décadas, o candidato Flávio Bolsonaro, do PL, que está empatado (dentro da margem de erro) na corrida eleitoral com o presidente Lula, se recusa a aceitar que o aquecimento global, principal causador do aumento do nível do mar, é uma realidade. Ele deu uma resposta lamentável em sua entrevista no Jornal Nacional ao dizer que as mudanças climáticas se resolverão com saneamento básico. 

Usar a carta do negacionismo como uma muleta política é irresponsável. Os impactos causados pelo aumento da temperatura média do planeta são evidentes e não estão restritos ao litoral. Os problemas de saúde causados por ondas de calor, como sensação térmica acima dos 50 graus no Rio de Janeiro, deveriam sensibilizar qualquer candidato que se proponha a comandar o país. A posição tacanha de Flávio Bolsonaro é culturalmente sustentada por outro negacionista contumaz, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Vejo os comentários nas redes sociais sobre o que aconteceu em Santa Catarina e me exaspero em notar que há gente que trata o tema como se fosse uma fantasia comunista. Os negacionistas de plantão fecham os olhos e insistem que tudo não passa de um “ciclo natural.”

Neste momento é importante falar sobre o mar, sobre como o oceano está enviando mensagens de que o problema das mudanças climáticas é mais do que uma projeção de modelos científicos. As mudanças climáticas estão ocorrendo agora e por isso muitos ativistas preferem chamá-las de emergência climática.  

Em plena eleição presidencial no Brasil, o mundo nunca viu um fenômeno como o que estamos vendo agora: a temperatura da superfície do mar está mais quente do que em  125 mil anos. O que isso está causando: mais tempestades e eventos extremos, como a maré alta que invadiu a costa de Santa Catarina. O mar é um dos nossos principais termômetros pois é ele quem absorve a maior parte do calor na atmosfera. 

Os dados gerados pela agência espacial europeia através de seu programa Copernicus mostram porque os cientistas estão de cabelo em pé. Vejam no gráfico abaixo como a linha destacada, que representa o ano de 2026, se desprende de todas as outras. O que estamos vendo aqui é que a temperatura de superfície do mar está muito acima para esta época em comparação a outros anos. E para piorar esta elevação tem se mantido ao longo dos meses. Os ventos, as chuvas e as secas se intensificam. Mais calor no mar significa mais energia no sistema. 

Temperatura da superfície do mar - média global/diária
Temperatura da superfície do mar – média global/diária

Não apenas há mais água sendo vertida no oceano pelo derretimento das zonas congeladas do planeta como a expansão térmica do mar proporciona estas marés grandes tão faladas por quem vive na costa. As mesmas pesquisas sobre o oceano do programa Copernicus indicam que “no período de 1993-2022, o nível médio global do mar subiu, em média, 3,3 mm por ano. Um total de 9,57 cm durante este período. A taxa de crescimento está acelerando”. Traduzindo isso em números, é como se a cada ano 480 milhões de piscinas olímpicas fossem acrescentadas ao volume do oceano.

Eu acabei de publicar uma reportagem pela InfoAmazonia em um projeto colaborativo chamado Águas Partidas, que fiz ao lado do fotógrafo Luis Ushirobira, em que tratamos sobre a vida dura de quem vive hoje na região costeira da Amazônia. No Amapá visitamos a praia do Goiabal, no município de Calçoene, onde a maioria dos moradores já decidiu ir embora. Isso porque o mar já comeu um bom pedaço da costa e destruiu casas. 

O que os pescadores e ribeirinhos nos contaram está plenamente representado nos dados que encontramos nas análises estatísticas do Copernicus. Com a ajuda do cientista de dados da Universidade Federal de Juiz de Fora, Guilherme Couto, vimos que na região da foz do rio Amazonas não apenas o mar subiu, em média, 12,4 cm em 31 anos, como a duração destas inundações da maré na costa é muito maior. A partir de 2024, todos os meses do ano tiveram marés acima da cota de alerta.  

Gráfico mostra o aumento do nível do mar ao longo dos meses
Gráfico mostra o nível do mar ao longo dos meses

O problema é tão generalizado que os pesquisadores do Instituto de Pesquisas do Estado, o IEPA, junto à Universidade Estadual do Amapá (UEAP), criaram o Observatório Popular do Mar (Omara), em que estão se aliando às comunidades para investigar os impactos destas “marés lançantes”, como dizem aqueles que vivem sob a influência do mar amazônico. A pesquisa utiliza a metodologia da ciência cidadã para determinar qual a taxa de erosão sendo causada pelo avanço do mar e qual é a salinização dos rios e fontes de água que servem às comunidades. A intrusão salina não apenas pode deixar quem vive na costa sem água potável como afeta a saúde dos manguezais e de espécies de peixes e crustáceos. 

Essa solução de unir a ciência com as pessoas afetadas parece ser um caminho importante para ajudar o Brasil a se adaptar pelo o que vem pela frente. Infelizmente, mesmo que nossos futuros governantes cumpram o seu dever de interromper as emissões de carbono, o aquecimento global em curso levará a um aumento ainda maior do nível do mar nas próximas décadas. Ou seja, em poucos anos – 20, 30, 50 anos – as novas gerações vão viver em cidades muito diferentes. Rio, Florianópolis, Belém e Fortaleza serão algumas cidades que terão que lidar com a força do mar.

Por isso me parece absurdo e desolador que um candidato com tanta projeção e influência simplesmente negue que exista um problema tão sério como são as mudanças climáticas. O tema deve ser tratado como prioridade nestes poucos dias que restam antes das votações. Flávio Bolsonaro e outros candidatos precisam responder quais são as medidas de adaptação frente ao inegável problema que temos com o aumento do nível do mar.

Para saber mais

Temperatura do oceano é a mais quente em 125 mil anos? Entenda a comparação

Flávio Bolsonaro e aliados divulgam apostas do Polymarket como pesquisa eleitoral

24 September 2026 at 15:00

Pelo menos 10 candidatos, incluindo Flávio Bolsonaro (PL), divulgaram apostas de mercados de previsão, como Polymarket e Kalshi, como forma de apontar uma suposta vantagem do presidenciável em relação a Lula (PT). Para especialistas ouvidos pelo Núcleo, as publicações violam a legislação eleitoral, que proíbe a divulgação de dados que não sejam de pesquisas registradas, e podem confundir a percepção dos eleitores.

O movimento ganhou força logo após a página do Polymarket nos Estados Unidos ter postado no X que Flávio Bolsonaro atingiu “o pico mais alto de todos os tempos nas probabilidades da eleição presidencial do Brasil, com o primeiro turno a apenas duas semanas”. O post, feito no domingo (20.set), mostrava o gráfico das apostas feitas naquele dia, em que o candidato aparecia com 58%. 

BREAKING: Flávio Bolsonaro surges to an all-time high in Brazil's presidential election odds, with the first round just two weeks away.

58% chance. pic.twitter.com/lHnLMGig5m

— Polymarket (@Polymarket) September 20, 2026

Apesar de plataformas de mercados de previsão como o Polymarket estarem proibidas de operar no Brasil desde 24.abr.2026, a página no X continua acessível para usuários brasileiros. A rede social não faz parte do Conselho Digital, associação que reúne 10 big techs e tem um acordo de cooperação com a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) que permite a exclusão de conteúdos considerados irregulares sem passar pelo Poder Judiciário. 

Por isso, os perfis dessas plataformas no Instagram, por exemplo, não estão disponíveis no Brasil desde a proibição. Já 27 sites de mercados de previsão foram bloqueados após notificação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a pedido da secretaria.

Proibido, mas ainda disponível

A assessoria da Secretaria de Prêmios e Apostas informou que “o bloqueio já foi implementado pela maioria dos provedores”, mas a reportagem verificou que, mesmo com a proibição no Brasil, em alguns estados o acesso ao site do Polymarket continua disponível, como no Rio de Janeiro, mesmo sem utilização de VPN.

No Instagram, o próprio Flávio Bolsonaro republicou o gráfico do Polymarket em um Story, em 21.set., a partir da página @hora_livre22, com mais de 146 mil seguidores, que, por sua vez, reproduziu o tweet do Polymarket no X.

Publicação de Flávio Bolsonaro no Instagram
Publicação de Flávio Bolsonaro no Instagram

Mas foi no próprio X que a maioria das publicações dos candidatos localizadas pelo Núcleo foi feita.

O vereador Lucas Pavanato (SP), o deputado federal Mário Frias (SP), o vereador Gilson Machado Filho (PE) e o vereador Renan Paes (SP), todos do PL que disputam cargos para deputado estadual ou federal, repercutiram ou o post original ou o gráfico do Polymarket seguido da frase “vai ser no primeiro turno!”. O deputado Lucas Bove (SP), também do partido, postou a métrica seguida de “vai ser Bolsonaro!” com uma foto em destaque do presidenciável.

O deputado federal Mauricio Marcon (PL-RS), que busca a reeleição, comentou sobre a métrica, ainda no sábado (19.set), indicando que a diferença de 15% a favor de Flávio “jamais havia sido registrada” e emendou dizendo que a vitória de Donald Trump contra Kamala Harris, em 2024, “registrava um índice similar ao que vemos neste momento no Brasil”, reforçando uma ligação entre a vitória do presidente dos Estados Unidos e o dado da plataforma. Dois dias depois, comemorou em novo post com o gráfico do Polymarket: “Pela 1ª vez Flávio bate 60% de chances de vitória!”.

Vai ser no primeiro turno! https://t.co/A1ozVA5jPZ

— MarioFrias 2208 (@mfriasoficial) September 21, 2026

No mesmo tom, o candidato a deputado federal Rodrigo Lima (Novo-PB)  vibrou com o gráfico de linhas da plataforma: “ACABOU LULA, ACABOU 60 pontos na Poly pow. Isso é pornográfico 😂😂😂😂”.

Já o deputado federal e vice-líder do PL na Câmara, Bibo Nunes (RS), usou inteligência artificial para ilustrar os dados do Polymarket e da Kalshi em formato de gráfico de barras e setas direcionadas para cima, acompanhadas de uma foto manipulada de Flávio Bolsonaro e a frase “a nossa vitória será com glória!”, além do seu número de urna e da sua filha, Camila Nunes, que pleiteia uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Bem abaixo, é indicado na imagem que os percentuais divulgados são de mercados de previsão. O post foi publicado tanto na conta do parlamentar no X quanto na do Instagram.

Entre os candidatos, apenas o deputado estadual Major Mecca (SP), que busca uma cadeira pelo PL na Câmara, impulsionou uma publicação feita no Instagram e no Facebook. A imagem contava com uma foto do candidato ao lado de Flávio Bolsonaro e os dados abaixo: “Flávio atinge 59% de probabilidade de vitória na Kalshi e 58% no Polymarket”, seguidos dos números de urna de ambos. Na legenda, ainda havia o comentário “Dá para acabar com o sofrimento já no primeiro turno”.

Segundo a Biblioteca de Anúncios da Meta, o parlamentar gastou entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil para impulsionar o post em 21.set. que, até esta quarta-feira (23), tinha entre 250 mil e 300 mil impressões (a quantidade de vezes que o conteúdo passou pelo feed de alguém).

Aposta não é pesquisa

A pedido do Núcleo, o advogado Rafael Martins, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP), e o professor de direito eleitoral da FGV Fernando Neisser analisaram as publicações mencionadas. Ambos avaliam que os posts são “perigosos”, violam as regras eleitorais e podem influenciar a percepção do eleitorado de forma equivocada.

“Mercado de previsão não é pesquisa eleitoral. Em plataformas como Polymarket e Kalshi, as probabilidades refletem o volume de dinheiro que um grupo autosselecionado está disposto a pagar por um resultado, e não a opinião de uma amostra representativa do eleitorado”, explica Martins. 

“O volume financeiro de poucas contas com muito capital consegue mover esse percentual, o que só reforça o quão equivocado é confundir essa probabilidade com suposta vontade popular. Por isso, divulgar esses números como se fossem pesquisas de opinião é, a meu ver, uma irregularidade patente, contornando todas as exigências de registro e metodologia que a legislação eleitoral impõe às pesquisas.”

Neisser concorda. “Não é só a narrativa, mas até a forma de apresentação, a exposição com barras, com as porcentagens ou como gráfico, é exatamente a linguagem usada na divulgação de pesquisas eleitorais”. 

Para eles, apesar de o Código Eleitoral não ser explícito quanto à divulgação de dados de mercados de previsão ou apostas no cenário eleitoral, as publicações poderiam ser enquadradas no parágrafo 3º do artigo 33 da Lei nº 9.504/97, que trata da divulgação de pesquisa sem registro das informações na Justiça Eleitoral, cuja punição é uma multa que varia entre R$ 54 mil e R$ 100 mil, além da remoção do conteúdo. O parágrafo 5º do mesmo artigo também proíbe a realização de enquetes sobre o processo eleitoral durante a campanha.

A depender da reiteração da conduta, os especialistas apontam que os candidatos podem responder por abuso do poder econômico ou do poder de autoridade ou utilização indevida de veículos ou meios de comunicação social, em benefício de candidato ou de partido político, conforme a Lei Complementar 64/1990.

“Caso a caso, a justiça eleitoral vai avaliar se houve uma conduta grave, se isso teve repercussão, se o candidato teve ou não um vínculo com aquilo, se aquilo teve efeito sobre o eleitorado”, explica Neisser. “Você tem umas análises que são subjetivas, mas que se entender pela existência de abuso, isso leva à cassação de uma candidatura e à declaração de inelegibilidade”.

É importante lembrar ainda que o parágrafo 7 do artigo 6º da Resolução nº 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) veda o uso de plataformas digitais que ofereçam ou prometam, gratuita ou mediante pagamento de qualquer valor, “bens, produtos ou propagandas vinculados a candidatas ou a candidatos ou a resultado do pleito eleitoral”. O descumprimento pode configurar crime eleitoral, como abuso de poder econômico e captação ilícita de votos.

O Núcleo buscou todos os candidatos mencionados por meio dos contatos disponíveis em seus canais oficiais de comunicação, como sites e redes sociais, mas nenhum deles retornou até a publicação.

Nesta semana, o site Metrópoles e o jornal Folha de S.Paulo também mostraram que perfis estrangeiros e de pessoas ligadas a Trump estavam fazendo posts patrocinados no X sobre as métricas do Polymarket que favorecem Flávio Bolsonaro. Não é possível saber por quem o conteúdo foi pago nem o valor, já que a rede social não divulga essa informação.

A legislação eleitoral brasileira veda que partidos e candidatos recebam dinheiro de entidades ou governos estrangeiros e também proíbe o impulsionamento de propaganda eleitoral por terceiros, dentro e fora do país.

Nesta terça-feira (22.set), a conta do Polymarket voltado ao público brasileiro no Instagram, a @polymarketbrasil que virou @polymarketportugues, foi derrubada a pedido da Secretaria de Prêmios e Apostas após investigação do Núcleo revelar que a página promovia apostas em eleições brasileiras, apesar da proibição. O perfil também utilizava publicações em “collabs” com páginas de fofoca, memes, esportes e entretenimento para ampliar o alcance sem detalhar se a publicação cruzada era mediante pagamento, o que é obrigatório em caso de publicidade.

Algumas páginas no X e no Instagram também passaram a associar a restrição do acesso ao perfil do Polymarket no Instagram para brasileiros a uma suposta ação da campanha do candidato Lula, o que não é verdade, já que a Advocacia-Geral da União havia questionado a SPA sobre a operação da plataforma com base na reportagem em 10.set., ou seja, antes das postagens sobre as métricas dos mercados de previsão que favorecem Flávio Bolsonaro. 

Para Neisser, além de punir os candidatos individualmente por irregularidades, é necessário pensar no macro. “Conforme vamos chegando perto do período eleitoral, é preciso uma medida mais geral, que, por exemplo, determine não só a derrubada do acesso dos sites dessas empresas no Brasil, que já foi feito, mas também os perfis dessas empresas em redes sociais com acesso no Brasil sob a pena de a gente ter uma avalanche de postagens desse tipo, gerando um efeito manada falso, a partir de algo que não representa necessariamente o universo de eleitores e eleitoras”, explica.  

Procurado pelo Núcleo sobre as publicações dos candidatos, o Ministério Público Eleitoral disse que “não antecipa possíveis manifestações processuais”.

A reportagem também buscou as assessorias do Tribunal Superior Eleitoral e dos tribunais regionais eleitorais (TRE) de São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Paraíba por serem os estados dos candidatos mencionados. 

O TRE de São Paulo afirmou em nota que a Justiça Eleitoral apenas atua quando provocada por meio de ação judicial. “As questões concretas poderão ser apreciadas pela juíza ou juiz responsável em caso de eventual representação. Não há possibilidade de emissão de juízo prévio pela Justiça Eleitoral.”

Os demais não responderam.

Flávio Bolsonaro propõe ‘voucher’ para creche: a troco de quê?

22 September 2026 at 16:00

Uma grande novidade deste período eleitoral é a constatação por parte das campanhas – de todos os espectros políticos – de que 51,5% do eleitorado é composto de mulheres. E que, por isso, falar delas e de pautas que as interessam talvez seja uma boa ideia. 

A aproximação da direita e da extrema direita ao público feminino não é de hoje. O crescimento de figuras como a Senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a própria Michelle Bolsonaro (PL-DF), ex-presidente do PL Mulher, são exemplos disso. 

Claro, existem personalidades e falas misóginas também na esquerda. Mas essa “direita pró-mulher” me é um pouco estranha porque, afinal, o projeto da direita é, em essência, machista. Afinal, o neoliberalismo é ancorado em políticas econômicas que não só prejudicam relativamente mais as mulheres como dependem de forma basilar da exploração gratuita de seu trabalho. 

Um exemplo bastante conhecido é o das creches públicas. Um projeto de Estado mínimo que se desresponsabilize do investimento na educação infantil nunca vai se preocupar em garantir vagas para todas as crianças. 

Isso, por um lado, reduz a possibilidade de autonomia econômica das mães, que têm restrita sua possibilidade de trabalhar fora porque precisam ofertar cuidado para as crianças em tempo integral – sem compensação financeira. Já que hoje, cerca de 30% das mulheres que não buscam trabalho remunerado afirmam não o fazer por precisarem se dedicar ao cuidado de familiares e a afazeres domésticos. 

Por outro lado, este projeto terceiriza para a figura das famílias – na prática, quase sempre só às mulheres – uma carga que deveria ser da sociedade como um todo, a de manter e reproduzir a vida. 

No caso das crianças, elas são a força de trabalho do futuro. 

Ou seja: o país só cresce, produz e prospera porque há algumas décadas uma parte das mulheres dedicou anos de suas vidas para criar gratuitamente quem hoje compõe a massa de trabalhadores. 

O benefício da educação das crianças é apropriado por todos, mas os custos são vistos como uma responsabilidade privada – e que tem gênero. 

Ou seja, a direita neoliberal prega o desmonte de um aparato de políticas públicas importantíssimas para a autonomia feminina. 

Voltando ao exemplo das creches, uma das propostas de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é a ampliação da vaga de creches, usando como recurso, no caso de falta das vagas públicas, a distribuição de “vouchers” para creches particulares. 

Por trás de uma aparente defesa da autonomia das mulheres (que pouco convence a quem conhece o candidato, sua família e seu entorno político, com histórico de falas bastante machistas, diga-se de passagem) há uma repetição dessa mesma lógica neoliberal que estamos discutindo.

Ofertar “vouchers” para a educação pública é, de novo, tirar a responsabilidade do Estado e da coletividade e direcionar para o mercado privado. Além disso, tem efeitos ambíguos, pois raramente conduz a uma melhoria do serviço ofertado. Mercantilizar um serviço que não segue a lógica operacional de mercado traz mais malefícios do que ganhos. 

Uma política de “vouchers” expande, a princípio, o número de vagas, porque gera um incentivo financeiro para a criação de equipamentos de creche particular. Mas dificilmente os valores repassados às famílias serão suficientes para custear uma educação de elite. Criam-se aparelhos voltados para o atendimento desse mercado, com pior qualidade, superlotação e outras estratégias para garantir que uma atividade que não é muito lucrativa por princípio vire um bom “negócio”.

A educação infantil vira uma máquina de fazer dinheiro, e assim há ainda menos incentivo para resolver o problema da falta de vagas na rede pública. 

Quem perde são as crianças. E as mulheres que cuidam delas. 

Num outro caminho, a Política Nacional de Cuidados, instituída em dezembro de 2023, dá um passo na garantia do direito universal às creches públicas. Sua aprovação e a subsequente criação do Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida foram uma vitória importante do movimento feminista no governo atual. Meses antes fora criada a Secretaria Nacional da Política de Cuidados e Família, no Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), e da Secretaria Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados, no Ministério das Mulheres. São dois órgãos criados para construir políticas sólidas para as mulheres. 

O Plano prevê a criação de 100 mil novas vagas em creches e pré-escolas até 2027. 

Segundo o MEC, no ano de 2025, 48,5 mil dessas vagas foram criadas. Uma melhoria, mas que não garantiu o cumprimento da meta do Plano Nacional da Educação, que estipulava 50% das crianças de 0 a 3 anos matriculadas até esse mesmo ano. O percentual final foi de 41,8%, o maior da história, mas ainda aquém do planejado. 

Ou seja, o caminho está colocado, mas os esforços atuais não bastam. Até porque a execução integral desta e de outras ações do plano depende de garantia orçamentária e compromisso político, que não estão dados por enquanto.

Mesmo numa vitória petista, será preciso pressionar pela continuidade e ampliação das políticas, e sobretudo por espaço para elas no orçamento.  

Percebendo que as mulheres serão força definidora nesta eleição, todos os candidatos direcionam a nós muitas propostas. 

Mas não sejamos ingênuas. Se, para uns, somos parte da vida e da agenda política – e, com eles, conseguimos negociar pelo avanço de nossas pautas – para outros, nossas aflições se tornam belos tíquetes para ainda mais mercantilização. 

Brazil’s presidential campaign heats up

21 September 2026 at 19:32

On October 4, nearly 160 million Brazilians will go to the polls to elect their next president, vice president, members of Congress, governors, and state legislators from the country’s various states. If no presidential candidate receives more than 50% of the valid votes, a runoff election will be held on October 25.

At this time, 13 presidential candidates are vying for the presidency in Brasília, although polls clearly point to two candidates vying for the presidency of Latin America’s most economically powerful country.

On one side is Brazil’s current president, the former union leader and progressive Luis Inácio Lula da Silva. Lula served as president from 2003 to 2011 with very high approval ratings, although following corruption allegations, he was imprisoned and sentenced to nine years.

However, after over 500 days in detention, a judge ordered his release, ruling that the proceedings were flawed. The Supreme Court of Justice called the incident a “historic error.” Following that, Lula faced off against then-far-right President Jair Bolsonaro and defeated him in the 2022 election. Now Lula hopes to be re-elected once again.

At the forefront is none other than Jair Bolsonaro’s son, Flávio Bolsonaro, who has leveraged his father’s reputation to boost his own. This is because Jair Bolsonaro was found guilty of several crimes that, according to the Brazilian justice system, were intended to prevent Lula’s inauguration and promote a coup d’état. Jair Bolsonaro is currently in house arrest for those crimes.

Consequently, a significant portion of Brazilian society, as well as international politicians such as Donald Trump, consider Bolsonaro’s imprisonment to be unjust. This explains how his son Flávio – a lawyer and businessman who currently serves as a senator – has managed to garner significant support in his bid to win the presidency on October 4.

Thus, two clearly distinct political and economic models are pitted against one another. Lula belongs to a political tradition that seeks to strengthen the state, reduce extreme poverty, invest in social programs, and diversify trade partners (such as China and India), all in line with a clearly pro-sovereignty discourse.

For his part, Flávio Bolsonaro promises to continue on his father’s path: economic neoliberalism, reducing the size of the state, building closer ties with the private sector, and – perhaps most importantly – placing Brazil once again under the influence of the Trump administration, which supports the far-right candidate.

Read more: Lula and Flávio Bolsonaro all set to face off this October in Brazil’s presidential election

Clearly, a victory for the far right – which is close to Washington – would represent a sharp shift in the region’s current economic and political course. Brazil accounts for nearly 50% of the region’s total GDP, so a victory for a Trump ally would drastically alter not only the political landscape but also the economic one. On the other hand, a victory for Lula would signal a “halt” (probably the most significant of all possible outcomes) to the wave of victories by the Latin American right and far right – allies and supporters of US hemispheric and military policy – that have swept the electoral landscape in recent years.

What do the polls say?

Since the start of the presidential race, Lula has maintained a lead over his political opponent. However, that lead has been narrowing as the weeks have gone by, raising the possibility that the runoff election, scheduled for October 25, will be a very close race. This is because, it appears, neither candidate will manage to secure more than 50% of the vote to win in a single round.

According to a poll by the MDA Pesquisa Institute, Lula holds a solid lead over Bolsonaro: 40.06% to 30.4%. Augusto Cury comes in third with 6% of the vote, while the remaining candidates trail behind this mark. According to this poll, in the event of a runoff, Lula would win with 47.3% against Bolsonaro’s likely 40%.

However, other polls paint a different picture, in which Lula remains in the lead but by a very narrow margin. This is according to an AtlasIntel poll, which shows Lula with 46% of the vote, while Bolsonaro would receive 44% in the first round. In the runoff, the gap would disappear, and both candidates would receive nearly 47% of the vote (a technical tie).

A corruption scandal that is shaking up the political landscape

However, everything could change in the wake of a scandal that has rocked Brazilian politics. In late 2025, the former owner of Banco Máster SA, Daniel Vorcaro, allegedly committed a serious case of bank fraud. Since his arrest in March 2026, his conversations, friendships, and connections have all been under close investigation.

One of the people who has come under scrutiny is Flávio Bolsonaro, who confirmed that he had asked the banker for money to make a film about his father called “Dark Horse”. The Federal Police are investigating this case to determine whether Bolsonaro participated in any illegal activity.

Meanwhile, Lula’s inner circle has also been affected. The judge who ordered Jair Bolsonaro’s arrest, Alexandre de Moraes, is alleged to have exchanged messages with Vorcaro. Moraes has been portrayed as a judge close to Lula and thus Bolsonaro and his supporters have seized on the revelation of the messages to call for Moraes’s removal and indirectly accuse the government of suspicious activities.

The debate has led to a serious crisis within the Brazilian judiciary because a decision to investigate Moraes was postponed, prompting accusations of political bias among the judges.

Ricardo Nunes se complica com aliados acusados de ligação com o crime organizado

18 September 2026 at 15:28

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O prefeito Ricardo Nunes precisa se informar melhor sobre as pessoas que o cercam ou pode acabar se complicando. Ontem (17/09), o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), com sete mandatos na Câmara e seis vezes presidente da Casa, foi alvo de um mandado de prisão temporária em uma operação policial que apura a infiltração do PCC no sistema público de transporte de São Paulo. Não havia sido preso ainda porque a polícia não conseguiu localizá-lo.

O jornalista Leonardo Sakamoto escreveu em sua coluna que, nos bastidores da política municipal, Leite era tratado como “segundo prefeito”. Só não foi o vice de Nunes na chapa para a prefeitura porque a operação Fim da Linha, em abril de 2024, já havia apontado sua relação com a empresa de ônibus Transwolff, acusada de lavar dinheiro para o PCC. Nunes foi obrigado a cancelar o contrato depois da operação e a substituiu por outras duas, uma delas também na lista das 12 entre as 22 empresas de ônibus que prestam serviço à prefeitura acusadas pelo Ministério Público de fazer parte da rede da facção criminosa.

Nunes sempre disse que não sabia de nada, e que não tem nenhuma implicação com o caso. Mas manteve as relações com Leite, que levou o União Brasil, que presidia em São Paulo, a apoiar a eleição de Nunes em 2024. Além do poder acumulado na prefeitura, Leite domina boa parte do eleitorado na Zona Sul da capital, sua base política, onde também é conhecido como patrono da Escola de Samba Terceiro Milênio, no Grajaú.

Em fevereiro de 2025, portanto depois da revelação das relações de Leite com a alta cúpula da Transwolff, Nunes nomeou seu filho, Alexandre Leite, secretário de Relações Institucionais da prefeitura (ele deixou o cargo este ano para concorrer a deputado federal). Mas Nunes parece não conhecer os negócios nem mesmo de aliados de longa data: a nova operação apontou Leite como “dono oculto e de fato” da Transwolff, que continua operando para o crime organizado. O que levou aos mandados de prisão contra o ex-vereador, um candidato a deputado do PL, Danilo Morgado, acusado de ter a campanha financiada pelo PCC e de Levi Oliveira, ex-presidente da SPTrans.

Nunes reafirmou seu “respeito à história de Leite”, apesar de o desembargador Sérgio Antônio Ribas, que autorizou as investigações e os mandados de prisão, ter esclarecido que, além da Transwolff, “Milton Leite da Silva é citado nominalmente [nas investigações] por diversas vezes como responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas pelo PCC”. O MP ainda sustenta, com base em depoimentos de policiais militares, que a escolta da cúpula da Transwolff era feita pela PM, a cargo do governador.

Tarcísio de Freitas, outro aliado de Nunes que jura combater o crime organizado, também rasgou elogios a Leite, há menos de três semanas, ao comparecer ao lançamento da campanha de seus filhos, Alexandre e Milton Leite Filho, no reduto eleitoral na Zona Sul de São Paulo. E agradeceu à família Leite: “Assim que nós chegamos em São Paulo, nós fomos abraçados por eles, uma parceria enorme, e o tempo todo eu vi a preocupação com as pessoas. Gente que gosta da gente, gente que gosta de vocês”.

Nunes está encrencado também por conta de outro aliado político, o próprio senador Flávio Bolsonaro, a quem se dedica a ponto de ser alvo de uma representação feita ao Ministério Público Eleitoral por duas candidatas a deputada do PSOL que o acusam ter usado a estrutura da prefeitura em um ato de campanha do candidato a presidente do PL em São Miguel, na Zona Leste de São Paulo.

Flávio Bolsonaro, que é investigado pela PF desde julho por “possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros”, conta com o apoio de Nunes e do governador Tarcísio, que organizaram a vinda de mais de 300 prefeitos para o seu 7 de setembro. Nunes distribuiu camisetas com dizeres favoráveis a Mendonça, o “herói” da direita evangélica, no evento, e também está enrolado no caso Dark Horse. O ministro Flávio Dino incluiu nos inquéritos o contrato investigado pela Polícia Civil de São Paulo e pela Polícia Federal feito por Nunes com uma ONG da produtora do filme, Karina Gama.

Pelo contrato firmado com a prefeitura em junho de 2024, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), de Karina, receberia 108 milhões de reais para instalar Wi-Fi grátis em 5.000 pontos da periferia de São Paulo em dois anos. Além de nem o ICB nem Karina jamais terem prestado um serviço desse tipo anteriormente, foram entregues apenas 3.200 pontos até maio deste ano, por valores maiores que o previsto: 113,9 milhões de reais.

Mas Nunes é mesmo um sujeito distraído. Em dezembro de 2024, uma apuração da Folha de S. Paulo revelou que o prefeito e sua família moraram durante quatro meses em um imóvel de luxo de um empresário que tem mais de 600 milhões de reais em contratos sem licitação de obras com a prefeitura. Fernando Marsiarelli, que aparece nesta foto com Nunes e Tarcísio, também cedeu dois imóveis para o chefe de gabinete da Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras da prefeitura, Eduardo Lovatto, que vejam só, é irmão da mulher de Marcola, o conhecido chefe do PCC, assassinada em uma briga da facção.

Nunes diz que alugou o imóvel sem saber que pertencia a Marsiarelli e disse que Lovatto era funcionário de carreira, embora ele tenha sido nomeado para o cargo estratégico na contratação de obras na gestão do atual prefeito. Mas esperou a campanha acabar para exonerar o cunhado de Marcola, também seu cabo eleitoral – Lovatto também é investigado por pedir votos para Nunes no pátio da Potenza, outra construtora com contratos sem licitação com a prefeitura.

Além de compartilharem laços com suspeitos de formação de organização criminosa, Nunes e seu candidato a presidente parecem ter a mesma mania de usar imóveis alheios. No início da campanha, Flávio instalou seu comitê e gravou vídeos de campanha em um apartamento em um dos bairros mais caros de São Paulo que pertencia a Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, e foi vendido por Zettel pouco antes de ser ocupado por Flávio com prejuízo de 2 milhões de reais em relação ao valor que ele pagou na compra para o advogado Willer Tomaz, amigo do senador, em transação registrada dois meses depois de Zettel ter sido preso e seus bens, bloqueados. Procurado pela Piauí, Tomaz disse que não conhece Zettel nem Vorcaro, sem tocar no nome de Flávio Bolsonaro.

Não é à toa que a família Bolsonaro já foi chamada de “franquia política” por envolver tantos negócios e parceiros na obtenção de vantagens financeiras e da apropriação de recursos públicos – das rachadinhas às emendas parlamentares, da lojinha da Kopenhagen aos imóveis milionários comprados com dinheiro vivo, de aliança com milicianos a acusados de envolvimento com o CV indicados por Flávio Bolsonaro para cargos no governo do Rio.

Sabe o quê também funciona em sistema de franquia? Isso mesmo, as facções criminosas, cada vez mais infiltradas no Estado, como mostra um estudo realizado este ano por pesquisadores da Universidade do Amazonas. Boa sorte para quem aposta em Nunes, Tarcísio e Flávio Bolsonaro para combater o crime organizado.

Enquanto pedem para os Estados Unidos interferirem no país com o pretexto do “narcoterrorismo”, Flávio Bolsonaro e seus aliados paulistas não parecem ter credenciais para combater o crime organizado.

No caos, evangélicos rezam para Mendonça e pulam no colo de Flávio

16 September 2026 at 18:00

Nos meus 16 anos de igreja evangélica, fui ensinada a toda vez que o mundo estivesse um caos, que eu não soubesse que caminho tomar, que houvesse barulho demais, ideias demais, eu recorresse à Deus como norte e à igreja como refúgio. Me lembro que tinha até uma pulseirinha, vendida na lojinha da igreja, com as letras OQJF? “O que Jesus faria?”. É claro que o Jesus que chutou os mercadores do templo, mencionado no Novo Testamento, não era muito a referência para as igrejas neopentecostais. A gente aprendia que questionar o pastor, a congregação, e as ideias que eram apresentadas ali pelo representante de Deus na Terra era “falta de fé” e, em última instância, rebelar-se contra o próprio Deus.

Uma outra doutrina pregada reiteradamente era a de que as guerras, os conflitos, as crises políticas, econômicas – micro e macro – eram materializações de batalhas que estavam sendo travadas nos céus por anjos e demônios: batalhas espirituais.

Graças a Deus (?) os muros da igreja não foram capazes de conter minha rebeldia adolescente por muito tempo. Logo conheci o feminismo, o punk, os movimentos sociais, Marx, Foucault, Judith Butler, Simone de Beauvoir, a comunidade queer, a psicanálise. 

Mas décadas depois, voltei a mergulhar nesse universo evangélico como jornalista e pesquisadora, primeiro para uma reportagem da Agência Pública sobre a bancada evangélica no Congresso Nacional e a força política dessa fatia de uma fatia da população que crescia aceleradamente. Essa matéria levou a outras, a especiais transnacionais, a um livro que está sendo traduzido para seu terceiro idioma, e nunca mais larguei o assunto. 

Aprendi então que essas “batalhas espirituais” tinham um nome: Teologia do Domínio. A teologia do domínio basicamente defende que os cristãos devem governar e influenciar todas as esferas da sociedade, a partir de uma visão maniqueísta, na qual o poder político é visto como um instrumento legítimo de conquista espiritual e social. Ela surgiu ali no meio calvinista norte-americano entre as décadas de 1960 e 1970 e foi amplamente abraçada pelos pentecostais nos anos 1980. 

No meu livro, citei uma fala do pastor RR Soares, líder fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus – que tem nada menos que cinco parentes concorrendo nestas eleições  – que acho que ilustra bem: “não existe nada que esteja fora da ação demoníaca. No futebol, na política, nas artes e na religião, nada escapa ao cerco do Diabo […] Satanás tem milhares de agências no mundo […] Por trás da religião, do intelectualismo, da poesia, da arte, da música, da psicologia, do entendimento humano e de tudo com o que temos contato, Satanás se esconde”. 

Nessa lógica, o crente está sempre sendo atacado por representantes do diabo que “vêm para matar, roubar e destruir” e no jogo político, quem não tem as bençãos do pastor, é parte do front inimigo. 

A extrema direita, em especial o Bolsonarismo, foi espertamente se amalgamando a essas narrativas e colocando que a esquerda, o “comunismo”, as feministas, as universidades, os “professores doutrinadores”, a imprensa, a comunidade LGBT+, como inimigos a serem combatidos em nome de batalhas mais profundas, missionárias, messiânicas.

É daí que vem esse apoio crescente de grande parcela dos evangélicos à Flávio Bolsonaro e à André Mendonça, nesse momento de crise política em que ambos estão diretamente implicados e com os rabos mais presos que calango em boca de sapo no escândalo do Banco Master, por mais incoerente que pareça. Ele não surpreende quem cresceu dentro dessa doutrina. 

Há alguns dias, o ministro André Mendonça, que é pastor evangélico, publicou um vídeo em suas redes sociais agradecendo as mensagens de “oração e carinho” de líderes religiosos e disse que essas “preces a Deus têm sido fundamentais” para o sustentar. Em seguida, Michelle Bolsonaro afirmou que Mendonça é “escolhido e ungido do Senhor” e que Mendonça permaneceu fiel aos princípios e se manteve forte e corajoso. “Você foi chamado para este tempo. A nossa maior alegria é saber que você é um grande e verdadeiro homem de Deus”, disse em suas redes sociais. Correntes de fiéis têm chamado às orações por Mendonça.

É a jornada do STF sendo transformada em cruzada, em missão, levada a cabo corajosamente por Mendonça, sobretudo contra Alexandre de Moraes, que encarna o mal.

Nessa cruzada, Flávio Bolsonaro, que tem rodado igrejas evangélicas pelo país e que não era exatamente amado pelos evangélicos no início da campanha por conta da querela com Michelle, tem conseguido se inserir como opção divina pela proximidade a Mendonça, pela contraposição à figura de Alexandre de Moraes e pelos ataques ao STF. Arrisco dizer que é isso que tem levado a um crescimento nas pesquisas de intenção de votos dessa população. 

A última pesquisa Quaest, por exemplo, mostra Flávio à frente de Lula no segundo turno, com 42% contra 40% do atual presidente. 

Numa doutrina em que a política é entendida como batalha espiritual, nenhum escândalo vai pesar mais do que uma unção, porque duvidar do ungido segue sendo, para milhões de fiéis, duvidar do próprio Deus. 

E como me disse uma vez o pastor presbiteriano Caio Fábio, que foi presidente e fundador da Associação Evangélica Brasileira (AEVB) e é alguém que conhece os bastidores da articulação política dos evangélicos: “enquanto o Diabo continuar a existir para os evangélicos da forma como existe, eles [os políticos que dizem representar a Deus] podem continuar roubando, porque o Diabo pagará a conta das acusações. Em nome de Deus, a canalhice é santificada.”

Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula

16 September 2026 at 13:00

Enquanto a sessão histórica para apurar a conduta do ministro Alexandre de Moraes ocorria no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira, 15 de setembro, a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República montou uma força-tarefa para tentar associar as acusações contra o magistrado ao presidente Lula (PT), candidato à reeleição. Manifestos, audiências públicas e até ameaças de obstrução do Congresso Nacional fizeram parte das ações. O fato do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nome central das investigações da Polícia Federal no caso Master, ter realizado pagamentos a Flávio Bolsonaro para patrocinar o filme ‘Dark Horse’, no entanto, foi ignorado. 

Membros da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal acompanham sessão do STF sobre ligação do ministro do STF Alexandre de Moraes e o caso Master
Membros da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal acompanham sessão do STF sobre ligação do ministro do STF Alexandre de Moraes e o caso Master

Na tarde de segunda-feira (14), o senador Rogério Marinho (PL-RN) se reuniu com colegas da oposição no gabinete de uma das principais aliadas, a senadora Tereza Cristina (PP-MS). No mesmo dia, os parlamentares deram uma coletiva de imprensa para reforçar apoio irrestrito às ações do ministro André Mendonça, o “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro em 2021. Ele é o responsável pela quebra de sigilo das mensagens entre Daniel Vorcaro, dono do banco Master, e Alexandre de Moraes.

Na terça-feira, dia da sessão no STF, a oposição se reuniu na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado para assistir e reagir à transmissão ao vivo da TV Justiça. Os parlamentares refutaram as falas dos ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes. Eles defenderam uma votação em conjunto com o caso de André Mendonça sobre possíveis irregularidades à frente da relatoria do Caso Master. 

Nada ficou decidido na sessão porque o ministro Flávio Dino pediu vistas do processo, após bate-boca entre os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça. Com isso, os ministros da Corte terão mais tempo para analisar o caso. Antes do encerramento, Cármen Lúcia, a única mulher integrante da Corte, manifestou voto favorável ao julgamento de Moraes de forma isolada, pediu desculpas ao povo brasileiro por não ter ajudado a resolver a crise institucional antes e ainda classificou como “espetacularização” as discussões protagonizadas pelos magistrados. 

Os milhares de reais de Vorcaro a Alexandre de Moraes e a Flávio Bolsonaro

Segundo a suspeita apresentada ao plenário do STF pelo ministro André Mendonça, Daniel Vorcaro teria enviado 52 mensagens a Moraes, incluindo questionamentos sobre iminentes operações policiais e a respeito de possíveis mandados de busca, apreensão e bloqueio de bens. Moraes também supostamente atuou na edição de um contrato de R$ 130 milhões firmado entre Daniel Vorcaro e o escritório advocatício da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. O valor se aproxima dos R$ 134 milhões pedidos ao ex-banqueiro por Flávio Bolsonaro para financiar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso em regime domiciliar, condenado por tentativa de golpe de Estado. 

Rogério Marinho conversou com a imprensa após o encerramento da sessão no STF. Inicialmente, tentou não associar a campanha eleitoral às ações no parlamento – em recesso eleitoral, para que os senadores deem atenção às bases eleitorais nos respectivos estados. Porém, após ser confrontado por jornalistas, Marinho disse que o desgaste de Lula com o julgamento de Moraes seria uma “consequência” dos acontecimentos. Ele ainda fez referência às ações de Moraes contra os presos pela tentativa de golpe de Estado, em 8 de janeiro de 2023, para dizer, sem provas, que o ministro e o presidente Lula mantêm relação de amizade. 

Senador Rogério Marinho em coletiva de imprensa sobre o julgamento no STF de Alexandre de Moraes
Senador Rogério Marinho repete em coletiva discurso de Flávio Bolsonaro sobre pagamentos de Daniel Vorcaro recebidos pelo filho do ex-presidente

O senador reforçou o discurso de Flávio Bolsonaro sobre a relação com o empresário Daniel Vorcaro, do banco Master. Segundo ele, tudo não passou de uma relação contratual privada. As investigações da PF apontam, entretanto, para uma interlocução direta entre o filho 01 de Jair Bolsonaro e o ex-banqueiro para a obtenção de um patrocínio velado, sem qualquer divulgação no filme. Além disso, o candidato ao Planalto admitiu ter visitado Vorcaro no final de 2025, após a primeira prisão de Vorcaro, que já cumpria medidas cautelares e utilizava tornozeleira eletrônica. 

Financiamento de grupo ligado a J. D. Vance pode ser maior escândalo da eleição

14 September 2026 at 19:00

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A denúncia vem de fonte suspeita: Renan Santos. O candidato do Missão está bradando aos quatro ventos que a campanha de Flávio Bolsonaro recebeu dinheiro do Rockbridge Network, uma rede de financiadores da extrema direita ligados ao Vale do Silício e que foi fundada pelo vice-presidente dos EUA, J. D. Vance. O principal interesse do grupo é organizar uma infraestrutura mundial para a evolução da IA, incluindo terras raras e data centers.  

Segundo Renan, dois empresários, chamados Tallis Gomes e Pedro Sang, são representantes da Rockbridge no Brasil e intermediariam os fundos. “Esses caras vieram para o Brasil e saíram oferecendo apoio a várias candidaturas: Flávio, antes tentaram o Tarcísio, e fecharam com o Flávio. Esses caras trabalham com muitas coisas, entre elas terras raras. Eles entraram na campanha do Flávio, naturalmente e ilegalmente”, afirmou Renan Santos.

Se fato, Renan está desesperado por atenção desde que viu a ascensão de Augusto Cury (Avante).

Mas graças ao site Amado Mundo, do jornalista Guilherme Amado, sabemos que pelo menos parte das acusações é verdade. E elas são graves, porque financiamento externo de campanha é proibido pela lei eleitoral. 

Segundo o site, o carioca Pedro Sang atua de fato dentro do comitê da campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, em um casarão perto do parque Ibirapuera, na zona sul, onde despacha de uma sala no segundo andar. Pedro teria providenciado imóveis e infraestrutura ao local. A quem pergunta, ele se apresenta, segundo o Amado Mundo, como “Pedro da Rockbridge”. Pedro Sang reconheceu que é ligado ao Rockbridge, mas negou ser intermediador de fundos. 

Flávio mudou seu QG de campanha de Brasília para São Paulo no começo de julho. O objetivo propalado era facilitar viagens para Minas, Rio e Paraná e estar mais perto da Faria Lima.  

O especialista em direito eleitoral, advogado Fernando Neisser, afirma que “a entrada de recursos internacionais em campanha eleitoral no Brasil é absolutamente proibida, seja oriundos de pessoas físicas, cidadãos não brasileiros, seja por meio de empresas, de pessoas jurídicas”.

“É uma grave irregularidade, constitui abuso de poder econômico, que, se for comprovado, levaria à instauração de uma ação de investigação judicial eleitoral perante o TSE e, caso haja, como disse, prova suficiente, a condenação levaria à cassação do registro, do diploma ou do mandato, caso seja vencedor e isso aconteça depois das eleições, e a necessidade de convocação de novas eleições, além de acarretar a inelegibilidade de oito anos das pessoas consideradas responsáveis por esse ato de abuso de poder econômico”.

Para ele, “não faz diferença se esse pagamento é em dinheiro, se esse pagamento é em bens, como aluguéis, enfim, fornecimento de material, de insumos, ou no pagamento de serviços”. 

Ele alerta ainda para outra hipótese. Caso o trabalho de algum colaborador ou serviço seja pago por fora da campanha, isso poderia constituir Caixa 2.

Fundado em 2019 por J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, e o empresário Chris Buskirk, o Rockbridge Network é tido como responsável pelo impulsionamento do vice para o círculo de Trump. O objetivo declarado de Buskirk é “transformar” o Partido Republicano. Editor do site American Greatness, ele diz ser a “voz da nova geração de conservadorismo americano” e que os conservadores dos EUA “perderam seu caminho”. Além dele, manteve durante anos um Podcast com as tais “novas vozes” do conservadorismo, entre elas Darren Beattie, que hoje é o principal aliado de Eduardo Bolsonaro no Departamento de Estado.  

Chris é um velho conhecido de Eduardo Bolsonaro. Em 17 de março de 2019, ambos estiveram presentes no jantar oferecido a Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro em Washington, às vésperas da primeira reunião do ex-presidente com Donald Trump. No jantar oferecido pelo embaixador Sérgio Amaral na residência oficial, Olavo de Carvalho, ainda vivo, foi o centro das atenções, recepcionado junto a estrelas hoje caídas do bolsonarismo, como general Heleno, o general Rego Barros e Filipe Martins. Mas, segundo relevou O Globo, Eduardo Bolsonaro deu atenção a Chris Buskirk e Steve Bannon, ao lado do ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. 

O Amado Mundo descobriu outras ligações diretas entre a turma do Rockbridge e a campanha de Flávio Bolsonaro. 

Um memorando chamado “Prosperity Partnership” elaborado por André Marinho, candidato do Partido Novo a governador do Rio de Janeiro e filho do suplente de Flávio Bolsonaro ao Senado, inclui diretrizes em inglês de como seria uma parceria do potencial governo de Flávio Bolsonaro com os Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras. Em suma, ele propõe o afastamento da China e um completo alinhamento com os EUA, notando que o tema destes minerais é considerado um tema de “segurança nacional” para os EUA. 

Os termos da apresentação são idênticos ao discurso feito por Flávio Bolsonaro no CPAC deste ano, que já tinham um tom de “pitch” de vendas para investidores, como apontei nesta coluna. O discurso aconteceu nove dias depois da elaboração do documento.     

André Marinho admitiu ser autor do documento mas nega que ele tenha sido apresentado a qualquer estrangeiro. Mas o Amado Mundo descobriu que, três semanas depois de elaborar o documento, Marinho esteve nos EUA com J. D. Vance. 

Marinho é irmão de Giulia Be, que é casada com Conor Kennedy, filho do secretário de Saúde do governo Donald Trump, Robert Kennedy Jr. O encontro com J. D. Vance teria sido articulado pelo cunhado. 

Procurado, Flávio não respondeu aos questionamentos do site Amado Mundo. 

Em meio a tantas revelações nas últimas semanas, todas elas tingidas de interferência nas eleições, é importante mantermos o foco no que de fato importa. Como já argumentei aqui nesta coluna algumas vezes, os EUA já interferiram de pelo menos 5 maneiras nas eleições brasileiras. Mas até agora nunca apareceu uma transferência de verbas ou bens diretamente para a campanha de Flávio Bolsonaro por grupos ou potências estrangeiras. 

Embora ainda não haja provas de que isso tenha de fato acontecido, a aliança com Rockbridge Network pode levar ao elo que falta para entendermos se o candidato do PL cometeu crime eleitoral na sanha de vencer a corrida para a presidência do país – e o que ele estava disposto a dar em troca.  

Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

10 September 2026 at 22:36

Duas armas de cano longo e cinco pistolas de fabricantes variados, inclusive internacionais, como Glock, Sig Sauer e FXR. Esse pequeno arsenal foi apreendido pela Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira, 10 de setembro, em nome do deputado Mário Frias (PL). Segundo a corporação, as armas não estavam no endereço registrado, o que configuraria crime de porte ilegal de armas de fogo.

Embora o arsenal irregular não tenha sido o que motivou a ida da polícia atrás de Frias — o mandado de busca e apreensão mira o que seria uma organização criminosa que usaria dinheiro de emendas parlamentares para alimentar a produtora do filme de Jair Bolsonaro, o Dark Horse —, são as armas que explicam como o deputado se aliou ao bolsonarismo e ganhou poder político.

Ex-galã da Malhação, Frias tem um currículo “artístico” antes de chegar à política: passou pela Globo, Record e RedeTV antes de ingressar no Governo Federal. A estreia na política formal aconteceu em maio de 2020, quando a também colega atriz Regina Duarte foi demitida do cargo de Secretária Especial de Cultura após uma passagem rápida e problemática, que incluiu uma entrevista que minimizou a ditadura militar brasileira.

A saída de Duarte levou Frias a assumir a Secretaria, onde pôde unir dois mundos que interessam a ele e ao bolsonarismo: armas e cultura.

Armas de cano longo e cinco pistolas apreendidas hoje durante operação da Polícia Federal
Armas de cano longo e cinco pistolas apreendidas hoje durante operação da Polícia Federal

O plano para a cultura de 2020 a 2022: dinheiro para grupos armamentistas

Em 2022, a Agência Pública revelou como Frias, ao lado do então secretário nacional de Incentivo e Fomento à Cultura, André Porciuncula, prometeram R$ 1 bilhão da Lei Rouanet para conteúdo pró-armas.

“Pela primeira vez, vamos colocar dinheiro da Rouanet em eventos de armas de fogo, vai ser super bacana isso”, disse Porciuncula. A estratégia era convocar grupos armamentistas a submeterem projetos que usassem a isenção de impostos da Rouanet para conseguirem aprovar projetos elogiosos à cultura do uso de armas no Brasil. Uma pauta, no mínimo, contraditória, visto que a Rouanet é historicamente criticada por bolsonaristas e já foi chamada de “desgraça” por Jair Bolsonaro.

“Estou à disposição, qualquer dúvida, enquanto estiver na secretaria — que eu devo sair agora esta semana para concorrer —, mas nós vamos deixar uma equipe totalmente alinhada ao secretário especial de cultura. Qualquer dúvida estamos de portas abertas, o Mario é CAC, nós adoramos atirar. Essa pauta é importantíssima, uma pauta de liberdade e eu peço senhores, usem (a Lei Rouanet) e não deixem de usar”, frisou Frias.

A promessa foi feita durante a Convenção Nacional Pró-armas, realizada pelo grupo presidido pelo hoje deputado Marcos Pollon (PL-MS) — que hoje aparece novamente ao lado de Frias, justamente no escândalo do Dark Horse. Pollon é um dos deputados suspeitos de enviar emendas para o filme de Jair. Segundo a PF, Pollon enviou R$ 1 milhão à Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, produtora do longa-metragem. Foi também durante a gestão de Frias na Secretaria que ele teria conhecido Karina Gama, segundo apurou a Folha de S. Paulo.

A promessa de Frias gerou ao menos um resultado. A Pública mostrou com exclusividade que, em novembro de 2025, foi lançado um livro sobre a história das armas no Brasil com recursos captados via Lei Rouanet. Todo o dinheiro para bancar o livro veio da Taurus, a maior fábrica de armas do Brasil e a maior fabricante de revólveres do mundo, que patrocinou R$ 336 mil e doou outros R$ 85 mil para o livro. A fabricante pode abater impostos a partir dessa produção.

Após a Secretaria de Cultura de Bolsonaro, Frias foi para o Congresso. Catapultado pela visibilidade que alcançou no governo de Bolsonaro e por mais de R$ 1,4 milhão da direção nacional do PL, ele se elegeu em 2022 deputado federal por São Paulo.

Mário Frias durante a Convenção Nacional Pró-Armas, realizada em 28 de março de 2022, quando ainda era secretário da Cultura do governo Jair Bolsonaro.
Mário Frias durante a Convenção Nacional Pró-Armas, realizada em 28 de março de 2022, quando ainda era secretário da Cultura do governo Jair Bolsonaro

A atuação como deputado de 2023 a 2026: produção e dinheiro para filme de Bolsonaro

É durante o mandato de deputado federal que Frias se envolve no escândalo atual: os pedidos de dinheiro para o filme autobiográfico de Jair Bolsonaro e o envio de emendas parlamentares — isto é, dinheiro público — para o Instituto Conhecer Brasil, o ICB, da mesma Karina Gama, produtora do filme. Segundo a PF, foram duas emendas de Frias no valor de R$ 2 milhões. Além de Frias e Pollon, os negócios de Karina teriam recebido também emendas de Bia Kicis, no valor de R$ 150 mil.

A investigação também aponta um círculo de favores: o dinheiro das emendas sai dos cofres públicos, por meio de Frias, para o ICB de Karina; do outro lado, pessoas ligadas a outras empresas de Karina doam para a campanha de Frias em 2022.

A Pública mostrou como Karina tem acesso a gabinetes de ministérios e prefeituras e comanda empreendimentos que prometem uma revolução no empreendedorismo cristão. Dentre os principais apoiadores, está o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), que abriu portas para Karina em ao menos três ocasiões, para os muitos negócios da empresária — o ICB, a ANC e o grupo lobista GT Cristão. O ICB tem um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de Nunes para a instalação de wi-fi na periferia de São Paulo.

Frias também é próximo do marido de Karine, Wemerson Marinho dos Santos. Os dois participaram de reuniões com Frias enquanto ele era secretário da Cultura de Bolsonaro. 

Além do envolvimento financeiro, Frias é o principal idealizador do filme sobre Jair. O embrião já estava na sua gestão na Secretaria de Cultura quando apoiou a criação de heróis nacionais alinhados à pauta bolsonarista para disputar os corações dos jovens — uma ideia que dialoga com o ex-mentor dos Bolsonaro, o falecido Olavo de Carvalho. “Se a gente acredita em armas, a gente precisa criar os heróis. A gente precisa entender que as narrativas, principalmente pra população mais jovem, não são a partir de estatística, coronel, não são a partir de números que a gente vai convencer essa garotada de que nós queremos um Brasil melhor, e sim a partir da cultura”, disse à época.

Como a Pública mostrou com exclusividade, o argumento inicial do filme — e um dos principais — era atacar a imprensa e associá-la a uma suposta conspiração para matar Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018. O texto criava a figura de uma jornalista com passado comunista, Iara, que representaria o antagonismo da imprensa contra Jair, e que se envolvia numa teoria da conspiração com Adélio Bispo, autor das facadas contra o ex-presidente em 2018.

A Pública também mostrou que Frias se ausentou da Câmara dos Deputados, dizendo que faria uma viagem em missão oficial para “participar de debates sobre implantação de escolas cívico-militares”. No mesmo período, foram realizadas gravações do filme.

Mario Frias (ao centro) no set de Dark Horse
Mario Frias (ao centro) no set de Dark Horse

Os escândalos de 2026: o envolvimento não explicado dos filhos de Jair

Todo o escândalo envolvendo o Dark Horse envolve não apenas Frias, mas também ambos os filhos de Jair Bolsonaro.

Flávio, candidato à presidência, apareceu em áudio, revelado pelo Intercept, pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para bancar a produção do filme. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”, disse em mensagem. Inicialmente, ele negou o envolvimento, dizendo “É mentira”. Depois, admitiu, negando qualquer ilegalidade. A apuração mostrou que Vorcaro teria pago R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025. Depois, a revista piauí mostrou que os pagamentos foram ainda maiores, com mais R$ 8,2 milhões, e aconteceram após o período que Flávio havia admitido.

Áudio obtido pelo Intercept mostrou Frias agradecendo a Vorcaro pelo apoio ao filme Dark Horse.

Já a ligação com Eduardo aparece em um rascunho de contrato com uma empresa com braços na Hungria e na Holanda, a Freeway Cam B.V., que moveria fundos para o filme, como revelou a Pública. Ele e Karina procuraram a empresa, e Eduardo assumiu o compromisso de financiar a produção mesmo com o risco do filme não sair.

Ele também aparece no escândalo através do fundo Havengate, sediado nos EUA, onde o ex-deputado vive com muitas mordomias. O advogado de imigração Paulo Calixto, próximo de Eduardo, é quem administra o fundo. Ele teria recebido cerca de R$ 69 milhões através do doleiro Antonio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, também para o filme de Jair.

Mário Frias no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, convocado e liderado por Flávio Bolsonaro.
Mário Frias no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, convocado e liderado por Flávio Bolsonaro

A operação de hoje: as acusações contra Frias

A operação desta quinta, 10 de setembro, leva o nome de Make Up, expressão do inglês que remete a algo fabricado e também faz alusão à Go Up, empresa que produz o filme de Jair. Autorizada pelo ministro Flávio Dino — que é relator das investigações envolvendo o desvio de emendas para a produção do filme no STF (Pet 16669) —, a operação acontece em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.

Assim como Frias, Karina também é um dos alvos. São investigados os crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.

A polícia, utilizando informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), aponta envios de Frias no valor de R$ 645,4 mil à Go Up em um período de menos de 60 dias, que seriam incompatíveis com o rendimento do deputado, de cerca de R$ 44 mil mensais. O deputado está impossibilitado de deixar o país por ordem de Dino, mas ainda não há ordens de prisão.

Ao todo, o relatório aponta que a produtora movimentou R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. O período de gravação do filme Dark Horse seria praticamente o mesmo, de 20 de outubro a 7 de dezembro de 2025.

As investigações são um desdobramento da ação Compliance Zero, que investiga os desvios no Banco Master e levou à prisão de Vorcaro em 2025. No STF, o ministro André Mendonça é o relator das investigações sobre as fraudes envolvendo o banco. É esse o inquérito que gerou o relatório envolvendo o também ministro Alexandre de Moraes, divulgado na semana passada, e que deu início à crise atual envolvendo o STF. Dino, que é relator do inquérito sobre irregularidades no orçamento de emendas do Congresso, conduz investigações envolvendo a produção do filme Dark Horse por envolverem emendas parlamentares.

O amigo do Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis

9 September 2026 at 20:24

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Era uma presença discreta no palco montado na Avenida Paulista, em São Paulo, no feriado de 7 de Setembro. Posou para fotos com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Abraçou os candidatos ao Congresso Lucas Pavanato (PL-SP) e Guilherme Derrite (PP-SP), gravou vídeos para suas redes com o aspirante a vice-presidente Alfredo Gaspar (PL-AL) e estava sempre perto da vedete mais disputada da tarde, o senador, presidenciável e seu “amigo-irmão”, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Para as 28 mil pessoas presentes no ato da direita, era um completo desconhecido. 

Renato Araújo, empresário de 40 anos nascido em Angra dos Reis, tem provocado ciúmes no entorno de Flávio pela proximidade entre eles. “Agora ele só quer saber desse Renato. Com os amigos das antigas, ele nem responde mensagem, deve achar que já está eleito e não precisa mais da gente”, disse à Agência Pública um amigo da família. Nesta eleição, aproximaram-se ainda mais. Tanto que, há pouco mais de uma semana, no dia 29 de agosto, Araújo organizou em Angra uma motociata e uma carreata de barcos em apoio a campanha de Flávio – e para alavancar sua própria candidatura a deputado federal, embora a bênção dos Bolsonaro tenha sido em vão há dois anos, quando foi derrotado ao tentar ser prefeito de sua terra natal. 

Publicação de Renato Araújo durante o ato de Flávio Bolsonaro na Av. Paulista, em SP, no dia 7 de setembro
Publicação de Renato Araújo durante o ato de Flávio Bolsonaro na Av. Paulista, em SP, no dia 7 de setembro

Coordenador regional do Partido Liberal na região da Costa Verde desde maio de 2025, escolhido por Jair Bolsonaro e pelo presidente da sigla, Valdemar da Costa Neto, Renato Araújo passou a figurar nas páginas policiais do noticiário fluminense nas últimas semanas. Em agosto, a Operação Sarasvati, da Polícia Civil, cumpriu 20 mandados de busca e apreensão em sete cidades do estado do Rio, entre elas Angra dos Reis. Os agentes da Delegacia Fazendária bateram na porta da Bravo Construções, empreiteira fundada por Araújo em 2011 e atualmente no nome de sua esposa, Tainá Nóbrega de Souza. Até o ano passado, ele seguia assinando como diretor-geral da construtora.

A investigação revelou um esquema de fraudes na execução de obras em escolas públicas montado na Secretaria Estadual de Educação, que direcionava reformas milionárias na rede de ensino para um grupo de empresas selecionadas – a maioria com pouco tempo de experiência, donos em comum e 13 delas com a mesma contadora. Depoimentos de diretores das unidades escolares indicam que a secretaria os obrigava a contratar essas empreiteiras sob pena de não realização das obras caso houvesse questionamento. Além disso, as intervenções aprovadas não costumavam ter nenhuma relação com o que era solicitado.

Um escândalo de R$ 16 milhões em telhados de escolas

Segundo o deputado estadual Flávio Serafini (PSOL-RJ), presidente da comissão de servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e responsável pela denúncia que embasou as duas investigações ainda em andamento – da Polícia Civil e uma outra da Polícia Federal –, “há fortes indícios de que a finalidade das obras era lavagem de dinheiro”, disse o deputado à Agência Pública. 

A Bravo Construções recebeu R$16 milhões do erário estadual para realizar reparos em quinze escolas. O gabinete de Serafini visitou três delas entre outubro de 2025 e janeiro de 2026. Em um relatório produzido pelo gabinete e entregue em janeiro de 2026 às autoridades, entre elas o Tribunal de Contas do Estado, constam todas irregularidades encontradas.

Deputado Flávio Serafini, autor da denúncia sobre obras em escolas do RJ, aponta indícios de superfaturamento e lavagem de dinheiro
Deputado Flávio Serafini, autor da denúncia sobre obras em escolas do RJ, aponta indícios de superfaturamento e lavagem de dinheiro

A Pública teve acesso ao documento e conversou com o assessor parlamentar que fez as visitas. No Colégio Estadual Antonio da Silva, em Nova Iguaçu, havia necessidade de reforma hidráulica estrutural para evitar os alagamentos constantes decorrentes da proximidade com o Rio Botas, que fica ao lado da unidade e costuma encher em dias de chuva. No início de 2024, a instituição precisou adiar o início do ano letivo por causa desse problema. Apesar disso, a vistoria promovida pela secretaria desviou-se da demanda apontada pela direção e determinou como prioridade a “substituição de telhas e madeiramento” do telhado. 

As telhas foram retiradas, lavadas e devolvidas, sem sequer serem trocadas, ao custo de R$ 800 mil. O valor causa ainda mais estranheza por se tratar de uma construção pequena, com apenas 12 salas de aula. Outras intervenções na unidade – que não resolveram o problema inicial apresentado pela direção – elevaram o custo para R$ 2,2 milhões. De acordo com o assessor parlamentar que realizou a visita, “não precisava nem ser engenheiro para ver que fizeram uma maquiagem. O negócio foi tão mal feito que a comunidade ficou indignada”.

O segundo colégio visitado – entre os 15 reformados pela Bravo – foi o Embaixador Raul Fernandes, em Niterói. A diretora havia pedido o conserto de uma parede no banheiro, uma solicitação que já havia sido feita anteriormente. O então diretor da regional Baixadas Litorâneas, da Secretaria Estadual de Educação, chamado Jorge Paes, mandou para a diretora a cotação da Bravo por WhatsApp. Contratada pela escola, a Bravo terceirizou a reforma, o que não é permitido pela legislação estadual nos casos em que não há edital de licitação. Mas a vistoria feita pela própria secretaria apontou que a obra a ser feita deveria ser a mesma da unidade de Nova Iguaçu: reforma do telhado, com substituição de telhas, limpeza das calhas e substituição dos rufos. O custo total foi de R$ 1,6 milhão, sendo que esta unidade é ainda menor do que a primeira, com nove salas de aula e 155 alunos.

A terceira unidade visitada pelo assessor legislativo foi um dos maiores colégios do estado, o Albert Sabin, no bairro de Campo Grande, Rio de Janeiro, onde estudam dois mil alunos. Havia uma determinação do Ministério Público Estadual para que o governo ampliasse o refeitório. Apesar disso, a obra indicada, novamente após vistoria da secretaria, foi a reforma da cozinha e dos banheiros – trocaram quatro portas e pintaram duas paredes, segundo o assessor que esteve duas vezes na unidade. O valor da intervenção, feita em apenas um mês – entre setembro e outubro de 2025 –, foi fixado pela secretaria em R$ 377,8 mil. 

O esquema se aproveitava da descentralização de recursos da secretaria via Associações de Apoio à Escola (AAEs), um mecanismo criado para permitir que pequenos reparos emergenciais e de manutenção predial sejam resolvidos com menos burocracia, sem licitação. Entre 2018 e 2020, os valores anuais ficaram entre R$ 58,6 milhões e R$ 102,8 milhões, segundo informações do Sistema Integrado de Gestão Orçamentária, Financeira e Contábil (SiafeRio) levantadas pelo gabinete de Serafini. Nos últimos dois anos contabilizados, 2024 e 2025, já no governo do bolsonarista Cláudio Castro (PL-RJ), os valores subiram para R$ 630,2 milhões e R$ 513,3 milhões, respectivamente. 

“O que encontramos foi muito grave: havia indícios de burla à legislação de licitações, com empresas previamente escolhidas e colégios coagidos a contratá-las. As obras tinham valores superdimensionados e os serviços sequer correspondiam ao que estava previsto nos contratos. Uma obra que poderia custar R$ 80 mil era contratada por quase dez vezes mais. Essa diferença, segundo as apurações que motivaram as denúncias, alimentava um esquema criminoso articulado por interesses políticos e empresariais ligados à direita do Rio de Janeiro”, afirma Serafini. 

“As denúncias que fizemos sobre a máfia das obras permitiram estancar um esquema que movimentou mais de R$ 1 bilhão nos últimos dois anos. Em um estado que paga um dos piores salários do país aos seus educadores e que ocupa posições preocupantes no Ideb, é um verdadeiro descalabro imaginar que recursos públicos destinados às escolas tenham sido drenados dessa maneira.”

Serafini cita Renato Araújo ao lembrar que ele chegou a contratar influenciadores para debochar das acusações nas redes sociais e dizer que se tratavam de fake news. “Hoje esse mesmo empresário é apresentado pela família Bolsonaro como aposta do PL para a Câmara dos Deputados. Isso mostra a dimensão política do problema e um saldo estarrecedor desse modelo de gestão bolsonarista no Rio.”

Uma indicação a dedo por Cláudio Castro

O valor dos repasses via AAEs explodiu quando a secretária estadual de educação era Roberta Barreto. Segundo as investigações, ela foi indicada ao cargo pelo então presidente da Alerj, o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar, do União Brasil-RJ, aliado de Cláudio Castro. Bacellar está preso desde março de 2026, acusado de vazar informações de operações para o Comando Vermelho, mas já havia sido preso em dezembro do ano anterior pelo vazamento de informações sigilosas de operação da Polícia Federal para o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (MDB-RJ), o TH Joias, ourives de facções criminosas no Rio – e que também está preso sob suspeita de negociar armas para o Comando Vermelho. 

É um caso paralelo, mas dentro do guarda-chuva da operação Unha e Carne, da Polícia Federal, que prendeu este ano mais um deputado estadual: Thiago Rangel (Avante-RJ), envolvido diretamente no esquema das escolas públicas. Nessa mesma fase da operação da PF, foi expedido novo mandado de prisão contra Rodrigo Bacellar (que já estava no cárcere) e também contra Rui Bulhões, seu ex-chefe de gabinete. As duas prisões, de Bacellar e Rangel, foram expedidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. 

As irregularidades na Secretaria Estadual de Educação levaram o Tribunal de Contas do Estado a determinar em abril o fim dos pagamentos às empresas envolvidas. A secretaria prometeu à época uma revisão administrativa dos procedimentos relacionados às obras e citou a Lei de Licitações 14.133 como novo parâmetro, transferindo intervenções mais vultosas para a Empresa de Obras Públicas do Estado (EMOP). À Pública, o governo estadual disse que o contrato referente à execução de obras em colégios já foi encerrado. “A pasta esclarece ainda que, ao longo de 2026, não realizou qualquer repasse de recursos para obras escolares” às empreiteiras investigadas. Existe um processo em curso no Ministério Público Estadual, também motivado pelas denúncias do gabinete do deputado estadual Flávio Serafini, e a Operação Sarasvati foi consequência dele. As investigações da Polícia Civil e da Polícia Federal continuam.

O candidato da família Bolsonaro

Não tivesse sido preso, Bacellar seria o candidato apoiado pela família Bolsonaro ao governo do Rio de Janeiro. Ele foi levado à casa de Bolsonaro em Angra dos Reis pelo próprio Renato Araújo, que passava muito tempo com o ex-presidente – Bolsonaro chegou a ir ao aniversário de seis anos do filho caçula de Araújo, e também passaram juntos uma véspera de Natal, além dos passeios de lancha ou jet ski no mar esmeralda da Costa Verde. Só após a prisão de Bacellar foi lançado o nome de Douglas Ruas, do PL-RJ, que também estava no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista. O amigo da família Bolsonaro ouvido pela Pública confirmou o que já é sabido por muitas pessoas no Rio: já estava definido pelo ex-presidente que Renato Araújo seria candidato a vice-governador na chapa de Bacellar. 

“Em pouco tempo ele virou amigo do Bolsonaro, mas eles só se aproximaram depois da reforma na casa de Angra, que ele fez questão de fazer”, diz essa pessoa próxima da família, informação que foi confirmada pela Pública com outras fontes. A casa em questão fica à beira-mar na Vila Histórica de Mambucaba e foi construída por Bolsonaro nos anos 1990. Nas eleições de 2024, antes de endossar Araújo na corrida para a prefeitura de Angra, o ex-presidente prometeu apoio ao ex-vice-prefeito da cidade, Christiano Alvernaz (PP), mas algo o fez mudar de posição e ele decidiu lançar Araújo nas urnas pela primeira vez. 

O próprio Renato Araújo admitiu, em entrevista ao Metrópoles, que emprestou funcionários da Bravo para a obra, embora tenha afirmado que apenas supervisionou o trabalho e atuou como amigo.. Não se sabe exatamente quanto a obra custou, mas a PF encontrou na sede do PL um contrato não assinado da reforma, no valor de R$ 900 mil, que mencionava trocas de piso e esquadrias, abertura de paredes, reconstrução de um muro, pintura do imóvel por dentro e por fora e conserto do telhado. Em suas redes, o ex-presidente garantiu ter pago tudo no Pix com seu dinheiro. 

Renato Araújo também é sócio-administrador da Bellavista Portogalo Empreendimentos, projeto de condomínio de luxo com 31 mansões planejado para Angra dos Reis em um terreno de 320 mil metros quadrados, o equivalente a 20% do tamanho do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Dessa área total, 8 mil metros quadrados ficam em terreno de marinha, a menos de 33 metros do mar medidos em linha horizontal — exatamente a categoria de imóvel que a PEC das Praias, sob relatoria de Flávio Bolsonaro no Senado Federal, propõe transferir a estados, municípios e particulares, eliminando cobrança de foro, taxa de ocupação e laudêmio (tributo pago à União quando o imóvel é vendido). 

Em agosto de 2024, a revista piauí revelou que o empreendimento acumula problemas como denúncias de degradação ambiental, embargo da prefeitura, laudo da Defesa Civil que aponta risco de deslizamento e uma mudança não autorizada no regime de ocupação de parte do terreno, sem comunicação à Secretaria de Patrimônio da União. Um inquérito criminal sobre o caso foi arquivado em 2023 sem indício de crime; outro, cível e ambiental, seguia em aberto no Ministério Público. Questionado pela revista, Araújo negou qualquer ligação de Flávio – um dos principais defensores da Proposta de Emenda à Constituição em questão – com o empreendimento. Aprovada na Câmara em 2022, a PEC das Praias segue parada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado desde dezembro de 2024, quando um pedido de vista suspendeu a votação.

Renato Araújo: da infância pobre aos jet-skis em Angra

Mergulhador experiente, Araújo costuma dizer que teve uma infância pobre e que sua família passava necessidade. Hoje o cenário é bem diferente. Ele declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) possuir R$ 3,5 milhões em bens, entre eles dois apartamentos de R$ 400 mil cada, dois automóveis no valor de R$ 250 mil e R$ 330 mil, e dois jet-skis de R$ 40 mil e R$ 100 mil – um deles ele costumava emprestar para Bolsonaro, que lhe deu uma medalha em janeiro de 2024 com os dizeres “imorrível, imbrochável e incomível”. Araújo costuma se locomover de helicóptero em pequenas viagens, como quando participou de um pequeno trecho da “Caminhada pela Liberdade”, em janeiro deste ano, liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira. No seu instagram, há inúmeras fotos com a família Bolsonaro. No último aniversário de Flávio, no dia 30 de abril, ele postou um vídeo em seu Instagram com inúmeras imagens dos dois juntos e um agradecimento: “Aqui você tem um amigo querido, um irmão. Obrigado pela oportunidade que você me deu de entrar na sua vida”. É uma relação tão próxima que, em uma de suas lives, Jair Bolsonaro chegou a dizer que adotaria Araújo.

Na véspera das carreatas de moto e de barco em Angra dos Reis, que se tornaram um grande evento do PL na cidade, Renato Araújo divulgou uma mensagem na qual disse aos seus seguidores: “Não se surpreendam se, na véspera de recebermos nosso próximo presidente, apareça (sic) novamente a covardia dessa política que acha que vai calar aqueles que escolheram o lado do bem”. Ele temia uma nova operação da Polícia Civil, que acabou não acontecendo. Procurado pela Pública, Araújo não respondeu ao pedido de entrevista, assim como Flávio Bolsonaro – o espaço segue aberto para manifestações. Embora não tenha discursado no Dia da Independência para os presentes na Avenida Paulista, Araújo gravou um vídeo em cima do palco para suas redes. Disse que “vivemos um momento de guerra” no país, que “está muito fácil escolher um lado” e que seu lado é “o lado do bem, que defende a família, a liberdade e quem é a favor do crescimento do Brasil”.

Quem são os “coaches” de Michelle Bolsonaro

10 September 2026 at 08:00

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Michelle Bolsonaro não compareceu aos atos de 7 de Setembro com a justificativa de que precisava cuidar do marido, Jair Bolsonaro.  Mas a ex-primeira dama não ficou fora do clima de “guerra santa” que cercou o palanque do enteado Flávio nas manifestações em São Paulo. No  Instagram, prestou uma homenagem ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), o ícone do 7 de setembro na Paulista, a quem chamou de “ungido” e “escolhido por Deus”. Também reproduziu uma mensagem em conjunto com o bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, pedindo oração para que “o Brasil experimente um verdadeiro despertamento espiritual”. 

As mensagens têm um componente simbólico: representam que ela e seus aliados – como o próprio Mendonça, de quem foi fiadora em 2021 – estão no “lado do bem”, o “lado de Deus”, ao contrário de seus adversários. Pastores e especialistas em religião ouvidos pela Agência Pública dizem que a postura pode ter sido influenciada por pessoas de quem ela se cercou: lideranças evangélicas que acreditam que os cristãos devem participar – se não dominar – todas as esferas da sociedade, incluindo o governo, para subordinar o Estado aos valores bíblicos – a chamada teologia do domínio.

A imagem de Michelle migrou de uma primeira-dama tímida e apagada para uma das lideranças políticas mais influentes do país – mesmo disputando seu primeiro cargo eletivo só agora, aos 44 anos, ao Senado. E isso coincide com sua aproximação cada vez maior com esses grupos, que consideram ser dever do cristão ocupar cargos de poder para “libertar” os espaços da influência do diabo. Vale para política, educação, família, religião, mídia, entretenimento e negócios – considerados os “sete montes de influência”. Esse entendimento alcança várias das lideranças evangélicas mais conhecidas do Brasil hoje. Boa parte delas é do círculo pessoal de Michelle, consideradas por ela seus conselheiros espirituais, e que moldaram a sua maneira de ver o mundo.

Ex-primeira dama Michelle Bolsonaro olha para o marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro
De primeira-dama discreta a liderança política: Michelle Bolsonaro se cercou de líderes ligados à teologia do domínio atual

Três episódios ocorridos entre as eleições de 2018 e 2026 ajudam a ilustrar como ela passou a transitar entre esses dois polos – religião e política – e cravar o seu espaço no pólo conservador com apoio dos adeptos mais ferrenhos da teologia do domínio, e que podem ter peso para a candidatura de Flávio Bolsonaro. 

Pouco antes das eleições de 2018, o pastor José Wellington Bezerra, um dos principais líderes da Assembleia de Deus no Brasil, visitou a casa de Bolsonaro, então postulante à Presidência. “De todos os candidatos, o único que fala o idioma do evangélico é Bolsonaro”, ele disse, na época. A frase costuma ser lembrada por incutir uma certa contradição: apesar de receber apoio massivo do público evangélico, Bolsonaro se declara católico. Ainda pouco conhecida do público, Michelle não apareceu nas fotos divulgadas do dia.

Na campanha de 2022, a equipe de Bolsonaro percebeu que ela poderia ser uma peça-chave para acessar mulheres evangélicas, um dos públicos mais reticentes com o bolsonarismo. A partir de agosto daquele ano, ela se tornou quase onipresente nos eventos da campanha. Em longas falas parecidas com sermões de igreja, ela declarava que o marido era um “escolhido de Deus” e que a sua reeleição tinha um “propósito de libertação” da nação. 

Foi o ponto decisivo para a entrada de Michelle na política, galgando espaço para o seu projeto mais ambicioso: o PL Mulher, ala do partido que promove encontros entre mulheres conservadoras – onde se discute política ao mesmo tempo em que se fala de religião, família, cuidado e outros assuntos considerados femininos (não feministas). Sob a batuta de Michelle, o PL Mulher se espalhou por todos os estados como uma versão brasileira dos encontros de mulheres republicanas dos Estados Unidos.

Michelle e Jair Bolsonaro durante evento em Pelotas (RS)
Desde 2022, Michelle Bolsonaro se tornou uma das principais pontes entre o bolsonarismo e o eleitorado evangélico

Dois dias depois do primeiro turno, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já demonstrava vantagem sobre Bolsonaro, o casal Bolsonaro retribuiu a visita de José Wellington na eleição anterior no megatemplo que ele preside, em São Paulo. O pastor pediu abertamente votos para o capitão. Mas, desta vez, Michelle estava no púlpito, e discursou enquanto o marido chorava. A primeira-dama comparou a disputa eleitoral a uma batalha da “luz contra as trevas” e cobrou a igreja a ter uma posição no segundo turno. “A gente precisa se voltar ao Senhor. A igreja precisa se posicionar, a igreja precisa aprender”, disse ela.

Já em 2026, com Bolsonaro em prisão domiciliar, seu filho Flávio foi o escolhido pelo patriarca para disputar a presidência. Com dificuldades para ter o mesmo apoio recebido pelo pai entre os evangélicos, o filho 01 decidiu fazer um tour por várias denominações – e começou justamente pela igreja do pastor José Wellington, que lhe ofereceu a mesma simpatia. “Que o Senhor o leve para ser presidente da nossa nação” disse na ocasião, enquanto ungia o senador. 

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante encontro com lideranças evangélicas na Assembleia de Deus, Ministério de Belém
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante encontro com lideranças evangélicas na Assembleia de Deus, Ministério de Belém

Ele não contava, porém, que o estopim de uma das maiores crises de sua pré-campanha viria do núcleo familiar daquele líder religioso. Priscila Costa – deputada federal, sobrinha neta de José Wellington, vice-presidente do PL Mulher e aliada de primeira hora de Michelle – foi preterida por Flávio nas negociações do PL no Ceará.

O episódio foi a gota d’água para que Michelle gravasse um vídeo com críticas diretas ao enteado, divulgado poucas semanas depois do pedido de dinheiro de Flávio para o banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master ter se tornado público. Tanto o áudio da conversa como o vídeo de Michelle impactaram a imagem do candidato, que caiu 10 pontos percentuais entre o eleitorado feminino e oito pontos entre os que se denominam evangélicos, segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg do final de junho.

Para remediar, Flávio gravou vídeos pedindo desculpas à Michelle e até cogitou indicar Priscila para compor sua vice-presidência – o que não foi concretizado. A ex-primeira-dama respondeu que o perdoava, sem ter abaixado a cabeça. Para muitos, foi uma queda de braço vencida por Michelle, que consolidou sua imagem de influência no campo evangélico, especialmente entre os nomes mais fortes da teologia do domínio.

Uma pesquisa recente do Instituto de Estudos da Religião (Iser) mostra que Michelle é frequentemente associada a valores positivos por mulheres evangélicas – ela é considerada “exemplar”, “cristã virtuosa”, “elegante” e “forte”. “Sua trajetória pessoal, sua forma de se apresentar como mulher, mãe, esposa e cristã e gestos como ajoelhar-se em eventos públicos aproximam sua atuação política de uma linguagem religiosa reconhecível pelas entrevistadas. O testemunho funciona, assim, como uma técnica política: transforma a experiência pessoal em exemplo e torna valores como família e nação legíveis a partir de uma gramática cristã”, diz o relatório.

Teologia do domínio: de Malafaia aos radicais

No Rio de Janeiro, Michelle frequentava a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia – que celebrou o casamento dela com Bolsonaro em 2015. Em 2016, após um dos vários desentendimentos entre o pastor e seu marido, ela migrou para a Igreja Batista Atitude, do pastor Josué Valandro Júnior. Ela era a intérprete de libras dos cultos de domingo e a sua casa chegou a abrigar uma célula para crianças surdas – exceto no período em que Bolsonaro se recuperava da facada. Com a mudança de volta a Brasília por causa da posse presidencial, Michelle chegou a levar o pastor a vários eventos oficiais no Palácio do Planalto.

Mas, com a distância geográfica, a proximidade entre os dois diminuiu, e Michelle passou a frequentar outras congregações, como a Comunidade das Nações, do pastor JB Carvalho, e a Sara Nossa Terra, do bispo Robson Rodovalho, que já foi deputado federal. Entre as melhores amigas de Michelle estão a senadora Damares Alves – as duas se conhecem há mais de uma década, quando ainda eram assessoras parlamentares – e a bispa Dirce Carvalho, esposa de JB. Dirce, inclusive, organiza conferências de liderança para mulheres cristãs, sob o mote de “governar todas as áreas da vida”. Os encontros, que já reuniram mais de 15 mil mulheres, também já tiveram a presença de Michelle.

Michelle Bolsonaro e Damares Alves durante evento
A amizade entre Michelle Bolsonaro e Damares Alves se fortaleceu ainda antes da política e ganhou peso no campo conservador

Michelle e Bolsonaro também são próximos de outros nomes mais radicais do movimento, como os pastores Renê Terra Nova e Valnice Milhomens. Terra Nova, do Ministério Internacional da Restauração, é o líder da filial brasileira da International Coalition of Apostolic Leaders (Ical), fundada em 1999 nos Estados Unidos por John P. Kelly sob a presidência de C. Peter Wagner, os nomes centrais que popularizaram a teologia do domínio entre igrejas neopentecostais no mundo. Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, recentemente gravou um vídeo dizendo que os evangélicos devem “tomar o poder no Brasil”.

São esses os nomes dos principais representantes do dominionismo no Brasil hoje, de acordo com os especialistas ouvidos pela Pública. “A convivência da Michelle, onde ela frequenta, como a Igreja Atitude da Barra da Tijuca, são igrejas que migraram para uma radicalização do discurso que incorpora o desejo de assumir poder político. Não sei se o pastor Valandro leu o material da teologia do domínio, mas é o que ele defende”, diz Sérgio Dusilek, pastor batista e doutor em Ciência da Religião. “Quando uma pessoa frequenta esses espaços, ela acaba fazendo parte e incorporando aquele ideário, o que pra mim foi o caso da Michelle. As pessoas com quem ela anda, como a Damares, são propagadoras da teologia.”

“O principal conselheiro de Michelle costumava ser o Silas Malafaia, agora afastado da família Bolsonaro. O bispo Robson Rodovalho tem assumido esse papel e já chegou a defender Michelle como uma ‘grande líder’. Houve também encontros com a coach Obii Pax-Harry, ligada a uma corrente teológica internacional associada à teologia do domínio e à Brazil Apostolic Conference do apóstolo Renê Terra Nova, que difunde conceitos como guerra espiritual, restauração apostólica e atuação ativa de cristãos na esfera pública”, afirma a pesquisadora Pietra Cretella, mestranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que pesquisa  a interface entre religião e política. 

Nós procuramos todos os citados nesta reportagem, mas, até a sua publicação, apenas Damares Alves e a pastora nigeriana Obii Pax-Harry responderam. A senadora disse que “não defende qualquer forma de domínio religioso sobre o Estado”, mas sim a “participação democrática, proativa e consciente de todos os cidadãos na vida pública, inclusive dos cristãos”. “Sua atuação no Senado parte da defesa da dignidade humana e da construção de leis e políticas públicas que protejam direitos e criem condições para que todas as pessoas possam exercê-los, independentemente de sua religião. A senadora defende o Estado laico, compreendido como garantia da liberdade religiosa e de consciência de todos, e não como exclusão das pessoas de fé da esfera pública”, disse, em nota enviada pela assessoria de imprensa.

Damares também afirmou que Michelle Bolsonaro “conquistou, por sua própria atuação, um espaço relevante no movimento conservador brasileiro, especialmente entre as mulheres” e “vê de forma positiva o surgimento e a consolidação de lideranças femininas que defendam publicamente seus valores e estimulem outras mulheres a participar da vida política.”

A pastora nigeriana Obii Pax-Harry, uma das principais vozes globais da Ical, a organização que reúne denominações dominionistas, também respondeu à Publica. Ela tem vindo ao Brasil com frequência em conferências neopentecostais e passou uma semana ao lado de Michelle, pouco antes da ex-primeira dama publicar o vídeo contra Flávio Bolsonaro. “Eu te amo tanto, minha querida irmã e amiga, melhor primeira-dama do mundo inteiro!”, a pastora postou, em inglês, em uma seleção de fotos abraçadas com Michelle e Dirce Carvalho.

Em entrevista à Pública, Obii afirma que tem contato com o Brasil há 15 anos, quando vendeu os direitos de um livro a uma editora brasileira. Desde então, passou a receber “pedidos de assistência de Escolas de Profetas brasileiras que usavam meu livro para treinar seus alunos.” A pastora fundou uma escola de “Governo e Política” em Abuja, capital da Nigéria, e faz treinamentos de líderes cristãos para atuar em igrejas, negócios e governos. No Brasil, Obii tem um “grupo informal” a quem dá mentoria, junto com a pastora Débora Guillen, líder da Action Church, uma dissidência da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte.

“Conheci Michelle Bolsonaro como uma mulher cristã em uma igreja e fui particularmente atraída pelo coração que ela tem por seus irmãos na fé, independentemente do status social deles — algo que acho raro, vindo do Reino Unido, EUA e Nigéria”, disse. 

Mas ela frisa que Michelle não é uma de suas mentoradas, como se cogitou à época da publicação do vídeo. “Não tenho nenhuma relação de trabalho formal com Michelle ou com qualquer outra pessoa no Brasil como mentora, conselheira ou instrutora. Agradeço seu interesse nisso, mas não é o que acontece. Talvez você possa me recomendar para esse trabalho (risos)”, disse.

Gramática de dominação 

Para Christina Vital, professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia e coordenadora do laboratório de estudos em Política, Arte e Religião da Universidade Federal Fluminense (LePar), a teologia do domínio não é “um conjunto de orientações que os indivíduos seguem de maneira irrefletida e automática”, e nem “a única motivação para a atuação de evangélicos na política”. 

“A teologia do domínio não inaugura a noção de evangelização, mas oferece uma gramática e estratégias de ocupação e dominação de espaços públicos. Ela ocupa um lugar importante entre grupos religiosos e econômicos que mobilizam o repertório para fazer valer interesses institucionais – apresentados como interesses sociais e religiosos – e também interesses de conglomerados econômicos”, afirma a pesquisadora, que estuda a participação de mulheres na extrema direita brasileira.

Vital pondera, porém, que é importante considerar outros aspectos para além da teologia do domínio para analisar Michelle – como os seus interesses pessoais, econômicos, políticos e partidários. “Fazer a leitura exclusivamente pelo viés religioso é, de certa maneira, limpar essas outras dimensões, acentuando o valor espiritual das ações e encobrindo motivações que poderiam ser vistas como mundanas pelos próprios segmentos sociais reunidos em torno da fé”, afirma. 

Ela acredita que Michelle “não é simplesmente uma porta-voz de outras lideranças”, mas tem força política própria. “Ela costuma dizer que Bolsonaro é ‘um leão em público e um gatinho em casa’. Vamos acompanhar os próximos acontecimentos, mas ela vem se mostrando uma espécie de ‘leoa de direita’, tanto em casa quanto na política, para continuar nas metáforas felinas.”

Pesquisadores ouvidos concordam, porém, que o discurso de Michelle, sua arma mais importante como política, ganha densidade ao se articular com a teologia do domínio, como explica Fábio Py, doutor em Teologia que lidera o Grupo de Estudos Religião e Cidades da PUC de São Paulo. Ela articula textos bíblicos com inserção política atual, e faz isso muito bem, com tranquilidade. É natural para ela. Ela tem uma caminhada religiosa, coisa que muitos outros bolsonaristas não têm. Fez formações, estudou, compreende bem os elementos religiosos”, diz.

A pesquisadora Cretella, que estuda os discursos político-religiosos de Michelle, diz que ela costuma repetir elementos ligados à teologia do domínio, como falar em nome de Deus, da divisão entre o bem e o mal, atribuir-se um caráter divino e se vitimizar, o que também pode ser observado no vídeo contra o enteado. “Ela se colocou como vítima, citou Deus e valores cristãos para reforçar sua autoridade moral, enquanto se apresentava como ‘guardiã do bolsonarismo raiz’”, afirma a pesquisadora. 

Os elementos da teologia de domínio, ficam “escondidos” dentro das falas, explica Cretella. A narrativa de Michelle trata em uma primeira camada de lealdade, doação, cuidado, perseguição e retorno do líder. Mas, como mensagem subliminar, haveria um apelo à guerra espiritual, que funciona como um “apito de cachorro” para o núcleo mais fervoroso.

Se antes Jair Bolsonaro era a “voz dos evangélicos”, agora Michelle parece ter se tornado a favorita na política, usando a força do marido a seu favor. “Eu não diria que ela herdou o papel unificador de Bolsonaro, mas ela tem a pretensão de continuar a narrativa de que ele é o salvador, acenando ao público evangélico como um todo”, diz Cretella.

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