Os territórios inteligentes conhecem as pessoas. E decidem melhor




Os EUA vão ter eleições de meio de mandato a 3 de novembro de 2026. Em que consiste uma eleição intercalar, qual a importância desse processo, o que poderá acontecer? Esta série de artigos procura explicar as eleições intercalares a um público não americano
O turismo português continua a crescer em receitas, dormidas e projeção internacional.
A eleição de Portugal como Melhor Destino da Europa e a distinção do Algarve como Melhor Destino de Praia da Europa nos World Travel Awards 2026 são motivo de orgulho e confirmam a atratividade dos nossos destinos. Mas estes prémios devem também levar-nos a refletir sobre o que significa, na prática, ser um destino de excelência. Num território onde o acesso à habitação se tornou uma preocupação crescente, importa perguntar se quem contribui diariamente para essa excelência consegue também viver na região, desenvolver uma carreira e projetar nela o seu futuro. A reputação de um destino não se constrói apenas com aquilo que oferece a quem o visita, mas também com as condições que proporciona a quem nele trabalha. Para além dos indicadores de sucesso, importa colocar uma pergunta essencial:
A dificuldade em atrair e reter profissionais qualificados é frequentemente apresentada como um problema de falta de mão de obra, sazonalidade ou evolução demográfica. São fatores relevantes, mas há outra questão que merece atenção: como valoriza o setor as competências de que necessita?
Esta não é uma preocupação nova. Durante décadas, a hotelaria e a restauração conheceram mecanismos de reconhecimento profissional que associavam categorias, preparação técnica, experiência e, em determinados casos, remuneração. As carteiras profissionais e os enquadramentos previstos na contratação coletiva ajudavam a estruturar percursos e a distinguir funções.
Conheço esta realidade também pela minha experiência profissional. Comecei na hotelaria como bagageiro, passei a aprendiz de receção e evoluí para rececionista de segunda e, posteriormente, de primeira, até chegar a diretor hoteleiro. Não era apenas uma sucessão de funções: existia um percurso profissional reconhecível. O conhecimento de línguas estrangeiras, quando devidamente reconhecido, podia também traduzir-se num prémio remuneratório. A competência adquirida tinha, assim, uma expressão concreta no trabalho.
A legislação e a contratação coletiva conheceram, entretanto, alterações profundas. Em 2011, o Decreto-Lei n.º 92/2011 instituiu o Sistema de Regulação do Acesso a Profissões, simplificando o acesso a diversas profissões e eliminando, nos casos abrangidos, determinados requisitos de acesso. A simplificação do acesso ao mercado de trabalho tinha objetivos próprios, mas deixou uma questão que continua atual: como assegurar que a facilidade de entrada nas profissões não se traduz numa menor valorização da preparação técnica e da experiência?
Não se trata de idealizar o passado nem de defender o regresso às antigas carteiras profissionais. Trata-se de recuperar a função de reconhecimento que importa preservar: distinguir competências, valorizar o saber-fazer e criar perspetivas de progressão.
Hoje, dispomos do Quadro Nacional de Qualificações, de referenciais de formação certificada e de instrumentos de contratação coletiva que continuam a definir categorias profissionais e níveis remuneratórios. O desafio está em articular melhor estes mecanismos, para que a qualificação, a especialização e a experiência tenham consequências efetivas nas oportunidades de carreira e na remuneração.
Se alguém investe tempo e esforço numa formação profissional, é legítimo esperar que esse investimento faça diferença. Não significa que um diploma deva garantir automaticamente uma categoria ou um salário. Significa que as competências adquiridas e demonstradas não podem ser tratadas apenas como um requisito para entrar no mercado de trabalho.
Quando as perspetivas de evolução são reduzidas e a experiência acumulada não encontra reconhecimento, torna-se mais difícil reter profissionais. A rotatividade representa então mais do que um problema de recrutamento: implica perda de conhecimento, sobrecarga das equipas e riscos para a consistência e a qualidade do serviço.
Que caminhos podemos seguir?
Em primeiro lugar, precisamos de reforçar a ligação entre qualificação e carreira. Os níveis do Quadro Nacional de Qualificações, incluindo os níveis 4 e 5, podem ajudar a estruturar percursos profissionais, desde que articulados com as competências demonstradas, as responsabilidades assumidas e mecanismos transparentes de progressão e remuneração.
Em segundo lugar, importa aprofundar a colaboração entre entidades formadoras e empresas. Experiências como o Hotel Academy Lab ilustram o potencial da aprendizagem em contexto real de trabalho. Mas a colaboração não deve terminar com a formação ou o estágio. Deve incluir acompanhamento, tutoria e condições para uma integração profissional efetiva.
Em terceiro lugar, temos de reconhecer o valor da experiência e da transmissão de conhecimento. Os profissionais mais experientes representam um património que importa preservar. Valorizar a tutoria, criando condições para que acompanhem e desenvolvam os mais novos, é investir na qualidade do serviço, na continuidade das equipas e na dignificação das profissões.
Estas mudanças exigem o envolvimento das empresas, dos trabalhadores, dos parceiros sociais, das entidades formadoras e das instituições públicas. Nenhum destes intervenientes conseguirá, isoladamente, responder a um desafio que atravessa todo o ecossistema turístico.
É também aqui que a valorização profissional se liga à sustentabilidade. Um destino não pode avaliar o seu sucesso apenas pelas receitas geradas ou pelos visitantes recebidos. Deve igualmente perguntar se cria condições para que as pessoas que nele trabalham possam desenvolver competências, progredir e construir um futuro profissional.
O turismo português não tem de escolher entre crescer e valorizar as pessoas. Tem de demonstrar que consegue crescer criando mais valor económico, profissional e social.
A questão já não é apenas onde encontrar os trabalhadores de que o setor precisa. É perceber que razões lhes estamos a dar para escolher este setor, permanecer nele e querer fazer melhor.
Não precisamos de regressar ao passado. Precisamos de garantir que, no turismo de hoje, a qualificação, a competência e o saber-fazer voltam a ser razões concretas para reconhecer, valorizar e fazer progredir quem trabalha.
Leia também: Formação profissional: valorizar competências, transformar realidades | Por Luís Filipe

Durante décadas, a especialização foi uma das grandes vantagens competitivas das organizações profissionais. As empresas recorriam a especialistas porque estes tinham acesso a informação, ferramentas e capacidade analítica que dificilmente se conseguiriam reunir internamente. Não se pagava apenas pelo conselho, mas também pela experiência e pelo acesso a algo escasso.
Atualmente, esta realidade está a mudar.
A inteligência artificial está a tornar acessível aquilo que, até há pouco tempo, exigia equipas especializadas, horas de pesquisa e capacidade analítica considerável. Informação que demorava dias a reunir pode agora ser encontrada em minutos. Grandes volumes de dados podem ser analisados e sintetizados em segundos. Benchmarks, estudos de mercado e análises comparativas surgem com uma rapidez que está a alterar a relação das empresas e das pessoas, com o conhecimento.
O impacto da inteligência artificial poderá, por isso, não estar apenas no aumento da produtividade. Está também na comoditização do conhecimento. Quando a informação se torna de fácil acesso, deixa de ser, por si só, uma vantagem.
Isto não significa que a experiência ou a especialização tenham perdido valor. Significa apenas que já não são suficientes. A verdadeira vantagem competitiva do nosso tempo passou a ser o julgamento: a capacidade de compreender como aplicar aquilo a que qualquer pessoa já tem acesso.
Há aqui um paradoxo que vale a pena sublinhar. Quanto mais competente se torna a inteligência artificial a produzir respostas, mesmo respostas aparentemente muito boas, maior é o desafio de formular as perguntas certas e de ter capacidade crítica para validação. A tecnologia aproxima-nos dos textos e dos dados. Continua a ser o pensamento que nos aproxima das ideias.
A inteligência artificial consegue identificar padrões e comparar dados, mas pode não compreender diferenças de contexto, de risco ou de circunstância. Pode gerar uma recomendação, mas não é ela que assume a responsabilidade quando essa recomendação se revela errada ou inadequada para uma situação concreta. A análise e a decisão continuam, por isso, a ser competências humanas. Nenhum algoritmo constrói a confiança necessária para sustentar decisões com impacto real nas pessoas e nas organizações.
Não é por acaso que este debate ultrapassou o domínio técnico. Algumas das empresas que lideram o desenvolvimento de inteligência artificial têm vindo a integrar filósofos, linguistas e investigadores das ciências humanas nas suas equipas. É um sinal claro de que as grandes questões deixaram de ser apenas tecnológicas e passaram a ser questões sobre linguagem, ética e discernimento.
Perante este novo paradigma, as organizações são desafiadas a repensar o valor da especialização. O papel de qualquer profissional de conhecimento deixa de estar apenas naquilo que sabe e passa a estar, cada vez mais, na capacidade de questionar melhor, de usar a tecnologia para chegar mais depressa às perguntas certas e de desafiar as respostas fáceis. É o que se passa, por exemplo, na consultoria de otimização de custos e gestão de fornecedores: um algoritmo identifica em minutos que uma empresa paga acima de um benchmark, mas só a experiência de mercado consegue determinar se essa diferença é uma oportunidade real ou o reflexo de um contrato, um nível de serviço ou um risco que os números, sozinhos, não explicam.
Esta mudança não se limita às empresas. Os dados do “Future of Jobs Report 2025”, do Fórum Económico Mundial, mostram que o pensamento analítico continua a ser a competência mais valorizada pelos empregadores, com sete em cada dez a considerá-lo essencial. Pela terceira edição consecutiva mantém-se no topo da lista, precisamente num contexto em que o próprio relatório associa esta importância crescente à expansão da inteligência artificial.
Cada grande transformação tecnológica obrigou, ao longo da história, a redefinir o que significa pensar, decidir e criar. A inteligência artificial não é exceção. Pode ampliar o acesso ao conhecimento, mas não elimina a necessidade de julgamento. Pelo contrário: quanto mais abundante se torna a informação, mais valiosa se torna a capacidade de pensar criticamente sobre ela.
Nenhuma organização consegue, sozinha, reunir todo o conhecimento necessário para acompanhar a velocidade da mudança tecnológica. No setor segurador, esta constatação deixou de ser teórica. O envelhecimento da população, os novos riscos climáticos, a cibersegurança, a mobilidade e a procura de serviços de saúde mais acessíveis, rápidos e personalizados colocam desafios que já não se resolvem só com novas apólices ou com a digitalização de etapas como a participação de sinistros ou o acompanhamento de reembolsos.
A Inteligência Artificial tornou esta mudança evidente. Em poucos anos, passou de tema reservado a especialistas a tecnologia transversal. Nos seguros, o impacto sente-se da prevenção à personalização da oferta, da subscrição à gestão de sinistros, e está a mudar a forma como conhecemos os clientes e avaliamos riscos. A diferenciação das soluções para os clientes pode ser potenciada com o uso de tecnologia e parcerias para tornar a proteção mais simples e adequada à vida real das Pessoas.
É aqui que as startups ganham espaço. Pela agilidade e especialização, podem responder a desafios muito concretos, da análise de risco à saúde preventiva, da gestão de sinistros ao apoio à rede de Mediadores. Isto não significa que as seguradoras tradicionais tenham perdido relevância. A experiência, a escala no acesso aos Clientes, a capacidade de investimento, o conhecimento regulatório e a gestão de risco continuam a ser ativos decisivos. A inovação acontece catalisando estas virtudes através da interação entre seguradoras, startups, universidades, centros de investigação e parceiros tecnológicos.
Mas é também certo que inovar com parceiros externos não é simples. Um piloto bem-sucedido não garante uma solução à escala: é preciso integrar tecnologia nova em sistemas complexos, cumprir exigências regulatórias e garantir que a Inteligência Artificial é usada com transparência e responsabilidade. Muitos testes ficam pelo caminho, e isso faz parte do processo: errar cedo, e em pequena escala, custa muito menos do que errar tarde.
A inovação aberta é, por isso, mais do que uma metodologia. É uma resposta prática a um contexto em que os riscos evoluem mais depressa do que os ciclos tradicionais de planeamento. As seguradoras mais competitivas serão as que souberem olhar para fora, aprender com o que acontece à sua volta e transformar esse conhecimento em formas mais inteligentes de prevenir, proteger e responder. Reconhecer que nenhuma empresa tem todas as respostas pode ser o primeiro passo para construir um setor segurador mais bem preparado para o futuro.
Quando uma resposta de saúde representa muito mais do que uma vaga.
O conteúdo O Algarve também tem direito à Genética Médica aparece primeiro em Barlavento.
Opinião de Rui Correia. Há pessoas que têm o direito de ser insuportáveis. Melhor ainda: há pessoas que têm a obrigação, se não o dever, de ser insuportáveis.

O que exaspera nisto tudo é a estagnação, a manutenção do status quo que só beneficia quem já tem 55 casas, como é o caso do primeiro-ministro

No âmbito da Bússola Europeia para a Cultura, apresentada pela Comissão Europeia no dia 12 de novembro de 2025, a assinatura da Declaração Conjunta “Europa para a Cultura – Cultura para a Europa”, pelas três instituições europeias – Comissão Europeia, Parlamento Europeu e Conselho da União Europeia – no dia 18 de junho de 2026, marca um momento histórico ao apresentar o quadro político mais ambicioso para a cultura europeia até à data.
Num mundo cada vez mais instável, marcado por conflitos, tensões geopolíticas, profundas transformações tecnológicas e crescentes desafios à coesão social, esta declaração recorda-nos que falar de Europa é, acima de tudo, falar de cultura. Porque é na cultura que se encontram as raízes dos nossos valores comuns, da nossa memória coletiva e da diversidade dos povos europeus. É também nela que o lema da União Europeia (UE) – “Unida na diversidade” – ganha o seu verdadeiro significado.
A Declaração Conjunta procura, por isso, afirmar a cultura, não como um domínio secundário, mas sim como uma dimensão essencial da democracia, da economia, da inovação, da educação e da identidade europeia. Reconhecendo simultaneamente o papel auxiliar da UE nesta área e as competências dos Estados-Membros, o documento estabelece 12 compromissos partilhados para tornar a Europa mais criativa, coesa e preparada para os desafios do futuro.
O primeiro compromisso prende-se com a defesa da liberdade de expressão artística e de criação, porque sem liberdade para criar, questionar, imaginar ou desafiar, não há cultura plena nem sociedades verdadeiramente democráticas. Torna-se, por isso, essencial proteger os artistas, os profissionais da cultura e instituições culturais contra a censura, intimidação ou interferência indevida. No entanto, esta liberdade só faz sentido se estiver assegurada a diversidade cultural e linguística que caracteriza o nosso continente, sendo esse o segundo princípio da Declaração Conjunta. Numa era em que a atenção é cada vez mais concentrada por grandes plataformas e algoritmos aditivos, a promoção da nossa diversidade, tanto ao nível das línguas, tradições, histórias e expressões artísticas, merece especial atenção no espaço digital.
A Declaração Conjunta faz ainda questão de destacar que a cultura precisa não só de ser protegida, como de ser acessível. Significa isso reconhecer a cultura como um instrumento indispensável de desenvolvimento regional e territorial, e em termos práticos, reforçar as infraestruturas culturais e promover a participação cultural a nível local, para que a cultura seja uma possibilidade real para todos. A um nível mais profundo, esta acessibilidade depende também das pessoas que criam, preservam e fazem chegar a cultura aos cidadãos, sendo, por isso, o quarto princípio da Declaração Conjunta, assegurar condições de trabalho justas para os artistas e profissionais da cultura, não sendo possível valorizar a cultura sem valorizar quem a cria. Num momento em que a competitividade ocupa um lugar central na agenda europeia, importa recordar que a cultura não é apenas um bem simbólico. De acordo com os dados recentes do Eurostat, o emprego na área dos setores culturais e criativos representa 3,8% do emprego total na UE. Além disso, mais de 2,1 milhões de empresas culturais geraram cerca de 202 mil milhões de euros de valor acrescentado em 2023, um valor ligeiramente superior ao do setor do comércio e reparação automóvel, com cerca de 181 mil milhões de euros. É cada vez mais evidente, que investir na cultura é investir em emprego, inovação, crescimento e competitividade.
As futuras gerações devem fazer parte deste projeto e isso significa garantir a sua participação na definição de políticas culturais e amplificar as suas vozes nos processos de decisão. Uma abordagem intergeracional é por isso importante para estimular a cooperação entre gerações, de modo que as competências, conhecimentos e tradições possam ser transmitidos, renovados e projetados no futuro. Neste ponto, a ligação entre a cultura, arte e educação é fundamental. Promover a educação artística ao longo da vida, em contextos formais, não formais e informais, é investir em cidadãos mais críticos, criativos e participativos. Além de entretenimento, é uma forma de aprender, compreender o mundo e participar nele.
Um dos compromissos mais relevantes da Declaração Conjunta é, naturalmente, a defesa do uso ético, sustentável e responsável da inteligência artificial (IA). A IA representa uma das maiores transformações do nosso tempo, oferecendo novas possibilidades de criação, produção, acesso e preservação cultural. Mas também levanta riscos concretos, como a utilização não autorizada de obras protegidas, falta de transparências e a ameaça à remuneração justa dos criadores. É por isso necessário defender uma abordagem que não encare a IA como um inimigo, nem desincentive a inovação, mas que seja centrada no ser humano, pondo-a ao serviço da sua criatividade e não contra ela. Trata-se de inovar responsavelmente, com regras claras sobre transparência, propriedade intelectual, remuneração e distinção entre conteúdos gerados por humanos e conteúdos gerados por sistemas de IA. Esta é precisamente a abordagem que pretendo adotar enquanto relator do relatório da Comissão da Cultura e Educação (CULT) no Parlamento Europeu, sobre o impacto da IA nos setores culturais e criativos, que deverá alimentar a estratégia atualmente a ser produzida pela Comissão Europeia sobre o mesmo tema, a ser comunicada no início do próximo ano.
O mesmo olhar sobre o futuro aplica-se ao património cultural, que a Declaração Conjunta reconhece como símbolo de unidade na diversidade e como pedra basilar da identidade, da democracia e da resiliência europeia. Proteger o património europeu é proteger a memória das gerações passadas e torná-la acessível às gerações futuras. As tecnologias digitais devem desempenhar um papel importante na sua preservação, investigação e divulgação, enquanto se reforça a cooperação contra o tráfico de bens culturais e outros crimes que ameaçam o nosso património comum.
Por fim, a Declaração Conjunta defende a integração da cultura nas políticas internas e externas da UE, o que requer a promoção da cultura nas relações com países terceiros e organizações internacionais, melhorar a circulação transfronteiriça de obras culturais europeias e melhorar a recolha de dados sólidos e comparáveis para o desenvolvimento de políticas públicas baseadas em evidência.
A Declaração Conjunta é, por tudo isto, um acontecimento histórico. Pela primeira vez, as instituições europeias assumem de forma clara que investir na cultura é investir na democracia, na liberdade, na coesão social, na inovação, na competitividade e nos valores comuns que unem a Europa. Mas o verdadeiro teste começa agora. O futuro deve ser encarado com otimismo, mas também com realismo. A Declaração Conjunta abre uma oportunidade única para pôr a cultura no lugar onde sempre deveria ter estado, no centro do projeto europeu. Mas uma declaração, por mais ambiciosa que seja, necessita de vir acompanhada pela transformação de princípios em políticas e em financiamento, pelo que a atual negociação do próximo Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034 será absolutamente decisiva. Cabe agora às instituições e aos Estados-Membros garantir que este compromisso não fica apenas no papel.
Uma Europa que investe na sua cultura é uma Europa mais forte, mais coesa e mais preparada para o futuro.
Leia também: Horizonte Europa: a inovação como motor de competitividade | Por Hélder Sousa Silva

As manifestações dos últimos dias pela habitação em Lisboa e no Porto -- e que também são infiltradas por uma agenda radical anti-capitalista -- exprimem a revolta de quem trabalha e continua sem conseguir pagar uma casa, numa crise que exige respostas urgentes do Governo, além das que foram já tomadas em matéria fiscal e de licenciamento. Mas as propostas para travar as rendas, impedir os despejos sem alternativa e afastar os investidores agravam o risco de arrendar e desincentivam a oferta, deixando os manifestantes na contradição de exigirem mais casas enquanto defendem medidas que tornam mais difícil o aumento de imóveis disponíveis.
A assembleia do Rossio aprovou seis propostas que vão do recuo na legislação do arrendamento, que está agora em discussão no Parlamento, à suspensão dos despejos de quem não tenha alternativa habitacional,…
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Ver todos os planosOs centros das grandes cidades da Europa estão transformados num enorme jogo do Monopólio. Comprar uma casa e um hotel no Rossio e cobrar uma renda extravagante a quem pela má sorte dos dados passe acidentalmente pela casa Rossio. A ficção de um jogo de tabuleiro torna-se a descrição da vida real numa capital da Europa. Seja em Lisboa, seja em Paris. Lisboa adormece em tendas de campismo que se agarram ao mar da calçada portuguesa. Paris arde com a violência de sempre sem tendas ou calçadas, apenas com o refluxo imparável da violência política. A França não se reforma pois só sabe fazer a revolução para se reformar. Portugal não se reforma nem sabe fazer a revolução.
Em Portugal há quem revele do alto da sua ignorância política que é senhorio em Lisboa e inquilino em Barcelona e “que tem conflitos com os seus privilégios”, concluindo que é “difícil ser socialista”. Esta é uma das grandes ilusões de alguns esquerdistas eminentes que vivem no mundo confortável que a social-democracia soube construir – Ser socialista e viver como um burguês é normal. Não, não é normal porque a teoria implica que ser socialista exige uma “opção de classe” que tem um preço social e um custo político que ninguém está disposto a pagar, prescindir dos privilégios e viver a realidade do proletariado apenas com a mão-de-obra para vender no mercado. Ser de esquerda não se resume à revelação pública de uma boa consciência e solidariedade automática para efeitos de uma entrevista para as televisões em horário nobre. Esta esquerda falida em modo de autopromoção é a ruína da esquerda.
Quando os protestos se alargam a 50 cidades da Europa não se pode falar de “instrumentalização da rua” pela elite de uma esquerda em escombros. Na revolução de que todos falam, a esquerda hipócrita e oportunista seria devorada pela rua por colaboracionismo capitalista e sabotagem da causa socialista. O que existe de facto é uma fractura que atravessa o Continente e que está para além da esquerda e para além da direita.
A fractura é a falência de uma sociedade de bem-estar que já não produz riqueza para poder distribuir bem-estar. Porque é que todas as manifestações que tomam as ruas da Europa de assalto exibem um esquema colorido de bandeiras de todas as causas? A resposta tanto pode ser a ideia de uma “policrise” como pode ser o conceito de “intersectionalidade” – Todas as crises convergem num ponto, todas as opressões convergem no oprimido que é sempre o mesmo.
O caos das multidões nas cidades da Europa é o sintoma de um mau estar que se instala nas sociedades que já foram prósperas, mas que hoje apenas podem oferecer aos cidadãos do futuro um futuro pior do que aquele que foi oferecido à geração anterior. A progressão no sentido da segurança e do bem-estar está em regressão e a política contemporânea não tem solução política. A direita radical apenas capitaliza uma crise real manifestada em pessoas reais e não por construções sociais.
Na manifestação de Lisboa basta observar os cartazes para se observar o dicionário político do nosso tempo em fuga para o desespero – “Paz aos Barracos Guerra aos Palácios”; “Quando o Sistema Falha Entramos em Batalha”; Não Há Quem Não Sinta Um Cheiro a Anos 30”; “Lembra-me um Sonho Lindo quase Endividado”; “Trabalhar para Empobrecer”; “4 Rendas, 3 Cauções, 1 Fiador; 1 Rim”; “Procura-se: Senhorio com Coração pago com Sonhos e Esperança”; “Trabalhar 40 anos para pagar uma Caixa de Fósforos”; “Tenho 81 Anos e Estou a ser Despejada”; “Ciência de Primeira Salário de Bolseira”. Como construir um sentido político quando tudo vai em todas as direcções?
Os slogans não são um tratado de política nem a ideia de que a poesia está na rua, os cartazes são a face visível de uma Europa sem futuro incapaz de encontrar um conjunto de respostas políticas na esquerda clássica e na direita clássica. Para além da esquerda e da direita sobram os extremos que se anulam mutuamente em nome de uma polarização que leva à violência, à destruição, à decadência da Europa. No Rossio, com uma “Lisbon for Sale” rodeada de esplanadas para turistas, surge na memória a ideia de uma “Lisboa não sejas Francesa” porque se fores francesa o destino é o fogo e a guilhotina e a revolução. Em Portugal não há coragem sequer para uma revolução no modo como o país é governado.
As “acampadas” são representações de uma ideia distante que se designa por “democracia popular” dirigidas por “estruturas horizontais”. No meio de tantas bandeiras da Palestina e de tantos acessórios de moda em estilo keffiyeh, as “acampadas” reproduzem na essência a lógica do kibutz e o espírito dos colonatos sionistas na Cisjordânia – Uma Cisjordânia em cada cidade da Europa é uma ideia luminosa que só pode antecipar uma catástrofe.
Entramos no outono, e com a regularidade das castanhas, as Praças enchem-se. São os mesmos de sempre, com as faixas de sempre, a exigir as soluções de sempre: congelar, tabelar, expropriar, proibir. E, no fim, colhemos os resultados de sempre: violência, destruição de propriedade pública e privada, tomada das manifestações pelos partidos dos extremos e infelizmente nada de verdadeiramente consequente para a resolução do problema acontece. Se fossemos seguir a narrativa ouvida as casas (tão necessárias) não aparecem, o mercado de arrendamento colapsa, pois, o investimento evapora! Mas face ao sucesso mediático da manifestação, marca-se mais uma para a semana seguinte para vociferar contra mais um problema deste mundo profundamente injusto.
Comecemos por uma análise de números, oficiais, que é coisa aborrecida, mas honesta. Entre 2000 e 2013, os preços reais das casas em Portugal caíram cerca de 32%, segundo os dados da OCDE. No mesmo período, em Espanha, subiram aproximadamente 21%. Durante mais de uma década, a habitação portuguesa desvalorizou-se em termos reais, a construção entrou em colapso e muitas empresas desapareceram.
Os números do INE são ainda mais eloquentes: em 2002, Portugal concluiu quase 126 mil casas novas; em 2015, apenas 7 mil. Uma queda de 94%. Entretanto, os preços começaram a recuperar a partir de 2013, mas a construção permaneceu durante anos em níveis historicamente baixos. Quando a procura regressou em força, encontrou um país que tinha perdido grande parte da sua capacidade de construir. A crise da habitação não nasceu simplesmente de uma súbita ganância dos senhorios. É também a fatura de mais de uma década de desinvestimento na construção, seguida de uma recuperação da procura que a oferta não conseguiu acompanhar.
E o Estado? O Estado, esse benfeitor de cartaz, foi governado pelo Partido Socialista durante cerca de 17 dos últimos 26 anos (Guterres, Sócrates e Costa), tendo o Pais assistido a um drama em três atos no que a políticas com relação ao mercado da habitação. Neste período, a habitação pública ficou-se pela retórica costumeira: o parque público continua a rondar uns envergonhados 2% do total, dos mais baixos da Europa. Prometeu-se muito, legislou-se ainda mais e construiu-se…quase nada. Há quem confunda legislar com edificar; mas uma casa, por mais que o Diário da República se esforce, não se constrói sobre o papel.
Permita-se uma declaração de interesses, que a honestidade exige e a ironia agradece. Em 2020, em plena pandemia, o executivo independente de Rui Moreira lançou o Programa Municipal “Porto com Sentido”: o município arrenda casas a privados, muitas delas antes em alojamento local, e subarrenda-as a rendas acessíveis à classe média, garantindo ao proprietário a renda paga e isenção de IMI. A proposta saiu do pelouro da Economia, ocupado por um vereador militante da Iniciativa Liberal que, por acaso, assina esta crónica. Começou como pesca à linha, admito, mas cresceu, juntou-lhe o build to rent (para ganhar escala) e tornou-se o programa municipal de renda acessível do país que pela primeira vez atraiu dinheiro de privados institucionais para este mercado. Os votos contra vieram, coerentemente, de quem hoje desfila pela habitação. Mistérios da fé.
Mas então o que propõem os organizadores destas manifestações? As soluções de sempre: tetos, congelamentos, travões e, atualmente, cidades e países sem estrangeiros. Os resultados destas propostas já foram testados, e os resultados são os esperados para quem conhece fundamentos mínimos de economia. Em Berlim, o Mietendeckel de 2020 baixou as rendas anunciadas, é verdade; mas os anúncios de casas para arrendar caíram para cerca de metade, as rendas dispararam nos municípios vizinhos e o Tribunal Constitucional alemão acabou com a experiência um ano depois. Os estudos são de uma crueldade académica: a quebra da oferta foi cinco vezes superior à descida das rendas. Na Catalunha, o teto de 2024 trouxe uma ligeira descida nos novos contratos e um mercado paralisado: menos oferta de longa duração, contratos novos a cair um quinto, casas a fugir para a venda e para o arrendamento sazonal. Protegem-se os inquilinos que já têm casa; os que procuram uma ficam a ver navios; em Barcelona, de cruzeiro.
Há, aliás, um padrão. Hayek chamou-lhe O Caminho para a Servidão: o Estado que promete tudo acaba a decidir tudo, e o cidadão, de tanto ser protegido, fica dependente. Temos um Estado que absorve metade da riqueza nacional e devolve urgências entupidas, escolas sem professores e tribunais onde a justiça chega com a pontualidade de um relógio fabricado na antiga URSS. E temos autarquias que, perante a falta de casas, respondem com excursões a Fátima pagas às juntas de freguesia e com o Tony Carreira na festa do concelho, anunciado como espetáculo “gratuito”; gratuito, claro, para quem não paga impostos quer sobre rendimento, quer sobre património. Dinheiro não falta; falta a coragem de o gastar no que é aborrecido e não dá palmas. Uma praceta inaugurada rende uma fotografia; um loteamento licenciado em seis meses não rende nada. Até as pessoas lá viverem.
O caminho, por aborrecido que seja, é conhecido: mais oferta, licenciamento rápido, mais solo urbanizável, mais densificação, menos IVA e menos taxas na construção, estabilidade fiscal e contratual para quem investe em arrendamento, parcerias com privados em vez de monopólios de boas intenções. E, claro, uma economia mais competitiva. O drama português não é só o preço das casas; é também o salário de quem as procura. Um país que paga mal não tem uma crise de habitação, tem uma crise de rendimento com sintomas imobiliários.
Sejamos claros. O direito à manifestação não está em causa, a liberdade de expressão também não. Mas uma crise de acesso à habitação resolve-se com licenças, gruas, investimento e salários, ou seja, com políticas a sério, e não com a retórica dos gritos e das poses à la Greta ou à la flotilha.
Na política local, há uma diferença fundamental entre governar e querer governar sem ser questionado. A primeira exige capacidade de decisão, responsabilidade e diálogo. A segunda parte de uma ideia perigosa: a de que quem vence eleições fica dispensado de prestar contas.
No debate em torno do empréstimo municipal, o Partido Socialista tem procurado vender uma determinada narrativa dos acontecimentos, apresentando as suas próprias interpretações como se fossem factos incontestáveis. Mas entre aquilo que o PS quer fazer crer e aquilo que efetivamente aconteceu há diferenças que não podem ser ignoradas. Importa, por isso, desmontar estas narrativas, uma a uma, à luz dos factos.
Na Assembleia Municipal de 30 de setembro, foram apresentadas duas moções sobre o mesmo tema: o empréstimo para investimentos. Uma do Partido Socialista, que foi rejeitada, e outra do PSD, que foi aprovada. O resultado das votações é elucidativo: o PS foi o único partido a votar contra a moção social-democrata e, no sentido inverso, foi o único partido a votar a favor da sua própria moção, com exceção do presidente da Junta de Freguesia de Santa Bárbara de Nexe, eleito pela CDU, que acompanhou essa posição.
Ainda assim, o PS apressou-se a levar às redes sociais a narrativa de alegados entendimentos entre o PSD e o CHEGA, desviando a atenção do que efetivamente aconteceu na Assembleia Municipal. A moção socialista não foi rejeitada apenas pelo PSD e pelo CHEGA: contou também com os votos contra do CDS, do PAN, do MPT e da IL, além das abstenções das restantes forças políticas. Reduzir uma votação com esta expressão política a um suposto entendimento entre dois partidos é omitir uma parte essencial dos factos. Mas sempre é mais fácil do que explicar por que razão o PS ficou isolado numa matéria tão relevante para o futuro da cidade.
Uma votação desfavorável não constitui, por si só, um bloqueio político. Quando as críticas atravessam o espetro partidário, da esquerda à direita, talvez seja tempo de o executivo olhar para elas não como uma conspiração contra a sua governação, mas como um sinal de que algumas decisões merecem ser repensadas.
É uma narrativa politicamente conveniente, mas que não resiste quando confrontada com os números: das mais de 700 propostas votadas, até à data, nas reuniões de segunda-feira, a oposição chumbou apenas quatro. Este dado torna difícil sustentar a ideia de que existe uma estratégia sistemática de bloqueio à governação municipal.
Uma oposição responsável não tem de aprovar tudo o que lhe é apresentado. Se a sua função se limitasse a validar as opções do executivo, a Assembleia Municipal seria reduzida a um mero exercício de confirmação das decisões tomadas noutro lugar.
Em 2023, foi aprovado um empréstimo de 16,42 milhões de euros destinado a financiar investimentos estruturantes para Faro, com o voto favorável do Partido Socialista. Três anos depois, o executivo liderado por António Pina apresenta uma nova operação de crédito, no valor de 10,91 milhões de euros, propondo revogar o anterior e deixando de fora projetos que haviam sido considerados prioritários, como a requalificação do eixo central da Baixa de Faro, a intervenção na Porta Nova e a rotunda das Pontes de Marchil.
É precisamente por isso que causa estranheza que, perante a possibilidade de abandonar ou comprometer investimentos desta natureza, a discussão se concentre mais na responsabilidade política da oposição do que nas opções do Presidente.
As Pontes de Marchil são um exemplo evidente. Faro cresceu, continua a crescer e enfrenta diariamente dificuldades de circulação nas suas entradas e saídas. A pressão do trânsito não se resolve com publicações nas redes sociais. Exige planeamento, investimento e soluções que acompanhem as necessidades de uma cidade que não pode ficar parada no tempo. Abandonar o projeto é condenar a concretização da terceira circular.
E quanto à Baixa de Faro? Também aqui vale a pena recuperar a memória política, sobretudo quando ela contraria o discurso do presente.
No dia 3 de novembro de 2023, um membro da bancada socialista reconheceu a importância dos quatro projetos. Sobre a requalificação da Baixa, declarou ainda que esta era “urgente” e que vinha defendendo a intervenção entre a Estação e o Largo de São Francisco. A ata está disponível para consulta pública no site do município (N.º 35, página 7).
Se, em 2023, a requalificação da Baixa era urgente e os projetos eram reconhecidos como estruturantes, o que mudou, entretanto? Terá a cidade deixado de precisar destas intervenções ou mudou apenas a estratégia política de quem agora governa?
E porque não o fez o executivo anterior? É essa a questão que o PS agora coloca. Mas também aqui responde o próprio membro da bancada socialista, quando, na mesma intervenção, afirmou, a propósito dos quatro projetos: «São projetos que podem marcar o seu mandato. O senhor (Presidente) já não os vai apanhar, mas podem marcar o mandato».
A declaração é elucidativa: em novembro de 2023, o próprio PS admitia que estes projetos poderiam prolongar-se para o mandato seguinte. Não se tratava, portanto, de intervenções cuja conclusão estivesse prevista no mandato então em curso. A mesma bancada que reconhecia a sua importância admitia que a sua concretização poderia ultrapassar esse horizonte temporal.
Se o atual presidente da Câmara justifica a sua opção pelo abandono destes investimentos com a falta de conclusão dos projetos ou com a necessidade de realizar expropriações, então coloca-se uma questão igualmente legítima: o que foi feito, ao longo do primeiro ano de mandato, para ultrapassar esses obstáculos?
Se eram esses os entraves à execução, seria expectável que o executivo tivesse procurado resolvê-los, avançando com os procedimentos necessários para permitir que as obras se concretizassem. Afinal, um mandato também se mede pela capacidade de transformar os constrangimentos existentes em soluções concretas.
A moção socialista que propunha uma auditoria aos projetos antes da sua execução levanta uma questão incontornável. Como afirmou o líder da bancada do PSD na Assembleia Municipal, uma auditoria nestes moldes bloquearia a execução de todos os projetos até à sua conclusão. Cria-se, assim, uma pescadinha de rabo na boca: a própria auditoria impede que a sua execução avance. Afinal, se o objetivo é concretizar os investimentos, importa perceber se esta proposta contribui para esse propósito ou se apenas adia ainda mais a sua concretização.
A fiscalização é necessária. A transparência também. Mas nenhuma delas deve servir de pretexto para empurrar indefinidamente decisões que exigem uma resposta.
Estamos, entretanto, prestes a completar um ano desde a tomada de posse do Presidente da Câmara Municipal de Faro. Neste período, as opções políticas do executivo já suscitaram manifestações de desagrado por parte de diferentes forças políticas representadas na Assembleia Municipal, da esquerda à direita.
Quando presidia à Câmara Municipal de Olhão, António Pina governava com uma maioria absoluta. Vivia numa realidade política que dispensava ouvir a outra parte. Mas os farenses não elegeram uma oposição para assinar cheques em branco. Elegeram representantes para acompanhar as decisões do executivo, fiscalizar a utilização dos recursos públicos e defender o interesse municipal. E é isso que se espera de uma democracia local saudável.
O poder não se mede pela capacidade de fazer aprovar todas as propostas. Mede-se também pela capacidade de aceitar o escrutínio, explicar as decisões e reconhecer os limites da própria estratégia. Governar não é querer, poder e mandar. É decidir, justificar e prestar contas.
Porque Faro merece mais do que uma disputa permanente sobre quem tem razão. Merece que se discuta, com seriedade, o que é melhor para a cidade e para os farenses.
Leia também: À Mesa com o Poder Local: As Mulheres que o CHEGA deixou à porta da Assembleia Municipal | Por Adriana Martins

Há encontros que nos fazem regressar a casa com mais do que recordações. Levamos perguntas, ideias, novas perspetivas e, sobretudo, a consciência de que ainda há muito por fazer.
A minha participação no congresso internacional do G100, em Sesimbra, foi uma dessas experiências.
Reunir mulheres de diferentes países, culturas, percursos e áreas de intervenção em torno de uma causa comum é, por si só, uma afirmação de força. Cada uma chega com a sua história, as suas escolhas e a sua maneira de olhar o mundo. É nessa diferença que reside uma parte essencial da nossa riqueza coletiva.
Durante demasiado tempo, as mulheres viram os seus caminhos condicionados por limites impostos, oportunidades desiguais e expectativas que nem sempre lhes permitiram escolher livremente.
Falar de empoderamento feminino é falar da possibilidade de cada mulher desenvolver as suas capacidades, participar nas decisões, liderar projetos, criar empresas, produzir conhecimento e transformar comunidades sem ter de abdicar da sua identidade.

É também compreender que esse caminho precisa de colaboração, de partilha de conhecimento e de disponibilidade para reconhecer o mérito umas das outras.
Quando uma mulher abre uma porta, pode ajudar outras a atravessá-la. Quando partilha a sua experiência, transforma uma dificuldade individual numa aprendizagem coletiva. Quando usa a sua posição para dar espaço a quem ainda não é ouvido, contribui para uma mudança que ultrapassa os seus próprios interesses.
O progresso mede-se também pelas condições que criamos para que outras mulheres possam avançar.
Num encontro internacional, a diversidade é uma oportunidade de aprendizagem.
Há diferenças de língua, de contexto, de oportunidades e de prioridades. Há realidades que podem parecer distantes, mas também preocupações que nos aproximam. Escutar essas perspetivas é reconhecer que existem muitas maneiras de ser mulher, de exercer liderança e de contribuir para a sociedade.
Precisamos de mulheres na ciência, na política, na educação, na economia, na cultura, na tecnologia e na diplomacia. Precisamos da sua participação nos espaços onde se tomam decisões que afetam a vida de todos.
Precisamos igualmente de reconhecer o trabalho das mulheres que transformam as suas comunidades longe dos grandes palcos. Das que ensinam, cuidam, criam emprego, preservam património ou encontram soluções para problemas que raramente chegam às notícias.
A diversidade torna-se uma força quando se traduz em oportunidades, em participação nas decisões e em respeito nas práticas quotidianas.
As mudanças tecnológicas, os desafios económicos, as desigualdades sociais, os conflitos e as questões ambientais exigem conhecimento, capacidade de diálogo e responsabilidade coletiva.
As mulheres contribuem diariamente para estas respostas. O desafio está em garantir que possam fazê-lo em condições justas, com acesso aos recursos necessários, sendo ouvidas e vendo o seu trabalho reconhecido.
Também a liderança pode ganhar com a diversidade de experiências, de prioridades e de formas de construir consensos. Não existe uma única maneira feminina de liderar, tal como não existe um percurso que todas tenhamos de seguir.
Importa que nenhuma pessoa seja limitada pelo seu género e que os talentos, as ideias e a capacidade de realização encontrem espaço para se desenvolver.
Uma sociedade mais justa beneficia todos.
A minha participação no congresso teve também uma dimensão pessoal e criativa. Tive a oportunidade de falar do meu livro, A Viajante do Tempo, que estou agora a preparar para chegar a leitores de língua inglesa.
Partilhar um livro num contexto internacional é aceitar que uma história pode ultrapassar as fronteiras em que nasceu. É permitir que outras pessoas a leiam a partir das suas próprias experiências, encontrem nela perguntas diferentes e estabeleçam ligações que talvez nunca tivéssemos imaginado.
Senti essa possibilidade ao levar comigo uma obra que faz parte do meu percurso. A escrita, tantas vezes feita em silêncio, torna-se um lugar de encontro quando chega aos leitores.
Tal como acontece com as pessoas, também as ideias ganham novas possibilidades quando circulam e entram em diálogo com outras perspetivas.
Levar a nossa voz a novos espaços exige coragem e abertura para escutar. E talvez essa seja uma das oportunidades mais valiosas destes encontros: perceber que podemos afirmar a nossa identidade e, ao mesmo tempo, deixarmo-nos enriquecer pela diferença.
Regressei de Sesimbra a pensar na responsabilidade que acompanha a possibilidade de participar nestes espaços.
Como transformar os contactos em colaboração? Como dar continuidade às conversas? Como fazer chegar estas oportunidades a mulheres que não puderam estar presentes?
São perguntas que merecem acompanhar-nos depois de terminado o congresso. A igualdade ganha sentido quando se traduz em escolhas concretas: partilhar uma oportunidade, reconhecer um contributo, apoiar um projeto, criar condições para que alguém possa participar.
O empoderamento feminino é também um processo coletivo, feito de trabalho, solidariedade e persistência. Precisa de relações que continuem para além dos encontros e de compromissos que encontrem expressão na vida quotidiana.
Saio desta experiência com a convicção de que cada mulher tem uma história que merece ser ouvida e um contributo que pode fazer a diferença.
Quando criamos condições para que essas histórias se encontrem e esses contributos sejam reconhecidos, ampliamos o futuro de todos nós.
Leia também: Uma borboleta na lapela | Por Ana Alexandra Resende

Muitos dos eleitores da AD podem não estar nas “acampadas”, nem gostar da fauna política que lá veem, mas vivem com o mesmo dilema de vida. Depois de pagar as despesas de habitação, 27% da população fica em risco de pobreza
A Europa habituou-se a acreditar que a defesa obstinada dos seus valores a tornaria pura, virtuosa e invulnerável. Os protestos em França recordam-na, porém, que nenhuma democracia sobrevive quando abdica de proteger as condições que tornam a liberdade possível
Não é uma questão de ser socialista ou liberal. É uma questão de decidir para onde queremos canalizar o investimento para a criação de mais habitação:
• Reservar a compra de imóveis com licença de habitação a pessoas singulares. As empresas poderiam investir em terrenos, ruínas e projetos de construção e reabilitação, contribuindo para aumentar a oferta.
Solução de curto prazo, se não for suficiente: Empresas e Fundos de Investimento terem de vender para pessoas singulares os seus imóveis residenciais com licença de habitação em 3 anos.
• Facilitar a construção de hotéis e limitar alojamentos locais. O crescimento do turismo deve ser acompanhado por capacidade de alojamento turístico própria.
Solução de curto prazo se não for suficiente: duplicar o IMI especial a ALs e canalizar esse montante apenas para a construção de habitação pública.
• Aumentar o IMI de proprietários não residentes, com salvaguardas para emigrantes e situações justificadas, e reforçar a tributação de casas de luxo. A receita adicional ficaria expressamente destinada à construção e reabilitação de habitação pública.
Solução de curto prazo se não for suficiente: Duplicar o IMI para as residências de extremo luxo.
• Agravar progressivamente o IMI de casas habitáveis mantidas devolutas, salvaguardando obras, heranças em resolução e impedimentos comprovados.
Solução de curto prazo, se não for suficiente: expropriar para habitação jovem ao preço de mercado, caso não haja resposta em 1 ano útil. Jovens que emigram têm retirados os direitos à habitação jovem.
• Reduzir a carga fiscal sobre quem coloca imóveis no arrendamento de longa duração a preços acessíveis.
Solução de curto prazo se não for suficiente: Reduzir mesmo o IRS.
• Acelerar o licenciamento, para dias e não anos, e mobilizar terrenos e edifícios públicos sem utilização, com metas de execução e prestação pública de contas.
Solução de curto prazo se não for suficiente: Não-Objecção por defeito.
• Investir em transportes e infraestruturas para tornar mais zonas atrativas para viver.
Solução de curto prazo, se não for suficiente: transporte sem custo.
Estas propostas exigem enquadramento jurídico e uma avaliação dos seus efeitos.
Mas o princípio é claro: os incentivos públicos devem premiar quem constrói, recupera e disponibiliza habitação.
O investimento deve ajudar a criar mais casas.
E a receita fiscal gerada pelo património deve contribuir para que mais pessoas tenham acesso a uma.
Simples. Concordas? Agora deseduca toda a gente para esquecer as suas ideologias que só nos torna cegos. E educa como devemos andar para a frente.
Precisamos duma frente ampla com visão em comum.

E lá fomos mais uma vez, à sede da Caixa de Crédito Agrícola de Paderne, para assistirmos a mais uma das muitas obras, desta vez, mais uma obra escrita, do teimoso Arménio Aleluia Martins, o grande decano da imprensa Regional, um homem bom, que escreve livros como quem toca ferrinhos e neste quase, quase cair da tarde, a sala estava à cunha, sem cunhas, porque se este livro tivesse sido apresentado em Lisboa e noutras das muitas capitais do velho Império português, a televisão, não tinha receio de mostrar só a mesa, porque aqui havia muita gente, gente que também estava dentro de uma qualquer das 150 páginas do último livro de Aleluia Martins (último por agora) CIDADÃOS QUE CONHECI EM PADERNE, com a importante chancela editorial da prestigiada Arandis Editora.
CIDADÃOS QUE CONHECI EM PADERNE, é um livro com gente dentro, com gente, muita gente, com retratos únicos, que se não fosse o saber de Arménio Aleluia Martins e o seu mais que perfeito «casamento», com a Arandis Editora, nada seria fácil. Casamento, entre aspas, para que não possam acontecer ciúmes por parte da grande Senhora que é a esposa do Arménio.
Não se pense que estamos perante um livro fácil, como quem romanceia, às vezes, nos SOS, da IA, antes um livro onde a ficção foi lavada com água das malvas e pendurada na corda da roupa.
É um livro fascinante, onde ao contrário do que acontece diariamente em todos os sítios, com excepção por exemplo, quando estamos a fazer um ressonância magnética onde nos proíbem de entrarmos com o telemóvel, desta vez, enquanto os oradores falavam, da Rita Coelho, uma autarca bonita, Presidente da Junta de Paderne, até ao Nuno Campos, passando pelo Arménio Aleluia Martins, ninguém estava a olhar para o telemóvel, antes virando um olho para o palco e outro para o livro. Um livro, que em muitos momentos foi o arrastar de uma sala para a emoção. E este mar de lágrimas, começou quando da intervenção de Rita Coelho, que quando falou do avô Manuel da Ponte Coelho, que aparece na página 118 e 119, lá deixou tombar uma lágrima.

Só falta Paderne, homenagear o Arménio Aleluia, dando seu nome ao pavilhão
E é a partir daqui que damos início ao palco das lágrimas, antes, porém e num cochichar ao ouvida da Rita Coelho, vou segredar. Amiga, está na hora de dar o nome de Arménio Aleluia Martins, ao Pavilhão de Paderne. Rita, não sei se falei muito baixinho, mas creio, que numa espécie de linguagem gestual, certo de que interiorizou as palavras deste velho escriba…
E como se não existisse mais ninguém na sala (está-lhe no sangue), o Arménio fez tudo. Escreveu o livro, pediu autorização à Caixa de Crédito Agrícola para fazer a apresentação naquele espaço, outra vez, uma espécie de centro cultural, fez os convites e ainda por cima, foi o apresentador da cerimónia. Isto só visto…
Por isso, começou por saudar a sala e num repente ficar um chato para comigo, comigo, porque falou de mim, e quando ia falando de mim, ia falando do Jornal do Algarve, onde também foi colaborador, talvez por me sentir um eterno seguidor dele, ainda na Rádio Alfarroba (a grande histórica RDP SUL), agora a finar-se e a manutenção de continuarmos e ainda bem, enleados numa forte teia de amizade, tão velha, como carinhosa. E ele, que sempre me trata por Netinho, desta vez, fugiu-lhe a boca para a mentira e lá foi falando de mim, do Neto Gomes, quiçá em homenagem ao constante dia dos velhos, não gosto da palavra idoso, porque é o arranque de IDIOTA…
Pouco depois e por ordens do Arménio, lá foi para o palco e enorme Francisco Saboia e o seu acordéon. Num espectáculo incrível, porque Paderne, além de guardar a memória do acordéon, sempre encontrou no Chico Saboia, uma figura incrível, pois além do acordéon, também trouxe para a sala uma obra de arte de pastelaria, onde ele, a par da cozinha ainda é uma mestre, ou para melhor, ainda é um faz tudo e está sempre disponível para dar um abraço, a quem precisar.
Depois foi a vez da anfitriã, Rita Coelho, Presidente da Junta de Paderne, que pelas memórias que também guarda do Arménio, não fez um discurso, antes pegou num papelinho bem alinhavado e, prestou uma homenagem ao Arménio, às gentes de Paderne e aqui o caldo entornou, quando falou do seu avô. Contudo, não deixou de acentuar a importância da Arandis, neste feitiço, que foi a edição do livro CIDADÃOS QUE CONHECI EM PADERNE.

Depois foi a vez do Arménio, que inspirado pelo Rita Coelho, chorou mais do que ela. Chorou mais do que falou. E como o choro também se pega, estava a ver, que tínhamos ir pegar na esfregona…
Arménio, lá foi dizendo o que sentia. Nem sei se ele falou do livro. Falou, falou, porque nisso também se sente como peixe na água. E falou com tanto entusiasmo, que se não fosse eu, a fazer um gesto do meio da sala, até se tinha esquecido de agradecer à sua amada esposa…
Aqui ninguém chorou, antes um ensaio para a gargalhada e um forte aplauso…
Arménio, também agradeceu à Arandis. Da minha parte fez bem, porque a Arandis, tem tido um papel incrível, no vastíssimo de obras, também de grande prestígio, como CIDADÃOS QUE CONHECI EM PADERNE, que têm sido lançadas no Algarve.
Depois foi a vez de Nuno Campos usar da palavra, que antes de chamar pelo Sérgio Brito, também sublinhou a nossa presença e do grande Aurélio Cabrita, para nós um grande escritor e um extraordinário historiador.
Nuno Campos, começou por ler uma linda e sentida mensagem de Sérgio Brito, outro homem da Arandis, que fez emergir alguns traços, da longa amizade que o une a Arménio Aleluia Martins.
Nuno Campos, pegou mentalmente, nalgumas linhas do seu prefácio no livro, para dizer: “Por vezes, conservam-se, em algumas terras, espaços e suportes memoriais, os túmulos perpétuos e os jazigos dos cemitérios, um ou outro registo toponímico, uma lápide num espaço público, um retrato numa parede ou um álbum de fotográfico. Uns eternizam nomes sem substância biográfica; outros preservam rostos cuja identificação se vai perdendo com o tempo.
Arménio Aleluia Martins, dando continuidade ao seu trabalho de recuperação da memória e do passado de Paderne, oferece-nos mais um contributo exemplar para que algumas das figuras desta terra nunca sejam esquecidas. Não pretende eternizar apenas nomes, datas ou imagens de rostos que um dia se cruzaram nas ruas de Paderne. Regista histórias e memórias. Conta-nos quem foram essas pessoas, o que fizeram, qual era o seu enquadramento social e familiar e que percursos de vida trilharam.
Felicito Arménio Aleluia Martins pelo extraordinário legado que soube receber, preservar e transmitir – três ações essenciais à salvaguarda do património cultural.
Arménio Aleluia Martins é, acima de tudo, um portador vivo do património cultural imaterial de Paderne: de sua memória, dos seus saberes e das suas tradições. Ao fixá-los e transmiti-los pela escrita, assegura que esse património sobreviva ao tempo e continue a viver nas mãos e na memória de cada leitor.
Obrigado pelo privilégio de me ter adotado por amigo!”
E o sol, ainda não tinha caído e antes de se iniciar a hora dos autógrafos, Arménio Aleluia Martins, que foi também o Mestre de Cerimónias, quis que a última palavra fosse a sua, cavando o seguinte:
“Escrever este livro foi, acima de tudo, um exercício de gratidão. Um reencontro com pessoas, histórias e afectos que fazem parte da alma de Paderne. Ao recordar a vida e a obras destes cidadãos, procurei preservar a memória de quem dedicou o seu talento, o seu trabalho e a sua generosidade à comunidade.
Porque uma terra vive das suas paisagens, mas perdura sobretudo pela memória das suas gentes. E enquanto houver quem conte as suas histórias, aqueles que partiram continuarão presentes entre nós, inspirando as gerações que hão-de vir.”
Arménio, um dos nossos mais notáveis decanos – e quando falo em notáveis decanos, lá encalha com estrondo no meu pensamento o Mestre João Leal, – voltou a comprovar, que até na apresentação de um livro: OS HOMENS E AS MULHERES TAMBÉM CHORAM…