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Gestão Tarcísio exonera professoras com regra da ditadura

8 October 2026 at 18:00

Em janeiro deste ano, Veruschka de Sales Azevedo passou pouco mais de uma hora contando à Agência Pública como perdera o cargo de professora na rede estadual de ensino de São Paulo. Ela chorou algumas vezes durante o encontro que foi finalizado com certa esperança: “O meu retorno será triunfante”, disse. Enquanto aguardava o desfecho do seu caso, ela organizava um livro com relatos de professores também investigados por meio de Processos Administrativos Disciplinares (PAD) na Secretaria de Educação de São Paulo (SEDUC). “A gente precisa registrar isso em tudo quanto é lugar.” Doutora em história, Veruschka tinha 24 anos de magistério, cerca de vinte deles na mesma escola de Guarulhos onde estudara antes de ser exonerada em maio de 2024 num PAD que se iniciou em 2017. Entre a abertura do processo e a exoneração, passaram-se sete anos e seis meses.

Em março deste ano, num artigo no Le Monde Diplomatique, Veruschka escreveu que o trauma da exoneração lhe causara uma doença crônica. Ela viria a falecer em julho, seis meses após a entrevista para a reportagem. A família não divulgou a causa da morte, mas a filha, Rayssa Sales, não tem dúvida sobre a origem da doença: “Antes, a imunidade da minha mãe era perfeita, mas, depois da exoneração, ela começou a ficar doente.”

As acusações contra a professora na SEDUC apontam falta de comprometimento com os estudantes, tumulto em reuniões pedagógicas, incitação de alunos contra a direção e excesso de atenção a temas raciais e de empoderamento feminino nas aulas.  

Três dias antes da demissão de Veruschka, também a professora Fabiana de Abreu, que ensinava história na mesma escola, fora exonerada. Em agosto de 2025, chegaria a vez de Maitée Nogueira, professora de sociologia em São Sebastião, no Litoral Norte paulista. As três contestaram as acusações em entrevista à Pública. Os processos se apoiam em um estatuto anterior à Constituição de 1988: o dos servidores civis do estado, de 1968, ano do AI-5. Para Salomão Ximenes, professor da Faculdade de Educação da USP e pesquisador do Observatório Nacional da Violência contra Educadores (Onve), os estatutos escritos durante o período ditatorial têm sido “ressignificados com o objetivo de dar mote a processos administrativos de perseguição a educadores”. 

Ele fala em “lawfare educacional”: o uso de instrumentos jurídicos e burocráticos para conter a mobilização de professores, a luta sindical e os avanços no currículo. Além de São Paulo, outros estados regulamentam o magistério por meio de normativas elaboradas durante o regime de exceção como Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Acre e Ceará, conforme Ximenes identifica no artigo “Os anos que não acabaram; o uso de estatutos jurídicos da ditadura militar na perseguição a educadores(as) no Brasil”, que publicou na metade deste ano com a jurista Ligia Ziggiotti de Oliveira.

Veruschka de Sales Azevedo (centro), professora exonerada via PAD
Veruschka de Sales Azevedo (centro), professora exonerada via PAD

Sarau criado por Veruschka incomodava a direção

Veruschka nasceu em Sanharó, no interior de Pernambuco, e chegou a Guarulhos ainda criança, com seis irmãos. A mãe era empregada doméstica; o pai, caminhoneiro. Ela estudou na Escola Estadual Professora Maria Aparecida Rodrigues, no bairro Pimentas, em Guarulhos, e cursou história na Unesp. Concursada em 2000, deu aulas na cidade de Sertãozinho até pedir, em 2004, transferência para a escola onde estudara. “Lá, havia professores que incentivaram os alunos a buscar a universidade pública”, disse a filha Rayssa. “Daí ela veio com o sonho de fazer o mesmo que fizeram por ela.” Ficou lá mesmo depois do doutorado, concluído em 2016 na PUC-SP.

Nas aulas, discutia desigualdades, feminismo, direitos humanos e identidade negra, e aplicava a Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. Militava na Associação Nacional de História (Anpuh), no sindicato e na Marcha Antirracista do Bairro dos Pimentas. Na escola, conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações. “No sarau do Milton Nascimento, fizemos o Milton de açúcar, porque ele é uma pessoa doce”, lembrou o ex-aluno Thiago Gomes, hoje estudante de filosofia na USP. “Eu via alunos racistas mudarem de opinião depois do sarau.” No cursinho popular da UNEafro Brasil que Veruschka coordenou na Unifesp, Thiago ouvia dela que era “um menino de ouro”. Para ele, a professora Veruschka morreu duas vezes. A primeira foi quando sofreu a exoneração. “Foi ali que perdi o brilho nos olhos. Eu continuava tendo aula com a Veruschka no cursinho da UneAfro, mas não era a mesma coisa”, afirma.

Veruschka conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações
Veruschka conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações
Veruschka conduzia o Sarau Resistência: ao longo do ano, os alunos pesquisavam personalidades negras e as homenageavam com apresentações

Os atritos com a direção da escola começaram em 2008, segundo Veruschka, quando, ainda no governo de José Serra, passaram a exigir o uso de apostilas. O material, disse ela, “não tinha respaldo na diversidade das minhas salas de aula, na realidade dos alunos”. Depois vieram suas cobranças por transparência no uso das verbas e as queixas da gestão contra o sarau. “Esse projeto incomodou tanto a gestão que, a todo momento, queriam acabar com ele, porque os alunos começaram a se sentir parte desse movimento.” 

Salomão Ximenes, do Onve, diz que os estatutos preservam princípios como “a proibição de manifestação e uma lógica hierárquica em relação às autoridades administrativas”, incompatíveis com a democracia, que “continuam a persistir e a servir de mote para processos de punição”.

O advogado de Veruschka, Roberto Parahyba, chama a demissão de “arbitrária” e “antissindical”: “não tenho dúvida de que o principal ponto foi ter participado do ato sindical.” A defesa sustenta, ainda, que o caso estava prescrito com base no próprio estatuto de 1968, que fixa em cinco anos o prazo para a pena de demissão. 

O Procurador do Estado havia pedido a suspensão da professora por 90 dias, mas o Secretário de Educação do Estado de São Paulo, Renato Feder, aplicou a pena de demissão em maio de 2024, por considerar que Veruschka “teve conduta incompatível com o cargo de professora, principalmente no aspecto da moralidade” e agiu “de maneira desrespeitosa perante a gestão escolar”.

Para o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), “se o professor tem uma atuação mínima que seja de defesa da escola pública é perseguido. Se for sindicalista então, a situação é ainda pior”, diz Roberto Guido, presidente interino do sindicato.

Exoneração fez Veruschka perder o acesso ao hospital

Com a demissão, Veruschka perdeu o acesso ao hospital dos servidores estaduais. “A gente sabe como o SUS é demorado e que ir buscar uma consulta particular é caro”, disse a amiga Vera Aparecida dos Santos, assistente social. Em janeiro, a professora contou ter uma úlcera gástrica e o intestino inflamado. “Eu quero meu cargo de volta. Quero os meus 25 anos de contribuição. A gente nunca espera parar de trabalhar”, disse, emocionada, à Pública.

Numa pesquisa da Apeoesp divulgada em maio de 2026, 97,6% dos professores ouvidos associaram o adoecimento mental às condições de trabalho na rede; 24,8% precisaram se afastar da escola por esse motivo. Segundo Guido, depressão e burnout já superam as doenças físicas, em razão da superlotação das salas, das jornadas duplas ou triplas, dos conflitos e, mais recentemente, da plataformização do ensino. A SEDUC afirma que, desde dezembro de 2024, oferece atendimento psicológico e psiquiátrico aos servidores por meio do programa Viva Bem.

Segundo a mentora espiritual de Veruschka, a Iyalorixá Cláudia de Oyá,  a demissão causou um sentimento de abandono na professora diante de toda uma vida dedicada à educação: “ela começou a perder muito peso e tinha um sentimento de solidão. Se sentiu muito perdida em meio a todo o esforço de uma vida”, explicou. 

Veruschka e a Iyalorixá Cláudia de Oyá durante aula na UNEAfro
Veruschka e a Iyalorixá Cláudia de Oyá durante aula na UNEAfro

Fabiana tratou “repetidamente” de pautas raciais e indígenas

Fabiana de Abreu foi exonerada em maio de 2024, também durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas. Em 2017, ela foi afastada por 90 dias, sem salário, após conflitos com a direção da mesma escola de Veruschka em Guarulhos. A suspensão de 2017 foi anulada e Fabiana voltou à escola após 39 dias. Segundo ela, o prazo para punição já havia prescrito. “Mas quando eu retornei, começou outro processo.” Nele, Fabiana foi acusada de falta de urbanidade, insubordinação, tumulto em reuniões pedagógicas, falhas no lançamento de notas e de incitar alunos a atos contra a direção. O processo registra ainda que ela trabalhava “repetidamente questões sobre índios, negros e movimentos sociais para todas as turmas, sob a justificativa de que tem liberdade de cátedra”. 

A defesa da professora considera as acusações “comprovadamente distorcidas” e alega também a prescrição. A SEDUC diz que os processos de Fabiana e Veruschka apontam interrupções reiteradas nas reuniões pedagógicas e conflitos com a gestão, e que houve tentativas prévias de mediação.

Fabiana de Abreu está entre os casos de exonerações de professoras via PAD em São Paulo.
Fabiana de Abreu foi exonerada em maio de 2024, também durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas

Com o avanço conservador sobre a educação, diz Ximenes, o estatuto que embasou as demissões “passa a ser cada vez mais reivindicado como possibilidade de contenção de educadores que propõem ações de educação democrática, antidiscriminatória e mobilizações no âmbito da escola pública”.

Fabiana diz que estaria “um pouco mais tranquila” se tivesse sido demitida sozinha. Por causa do afastamento dela, em 2017, outros professores que foram ao ato sindical, como Veruschka, passaram também a responder a processos. Com a exoneração, ela também perdeu o direito de tratar o câncer da mãe no hospital dos servidores. “Esses processos atrasam toda a nossa condição de existência. A cabeça adoece”, afirma a docente, que recorreu à justiça sobre a demissão.

Fabiana liga o caso dela à adoção de plataformas digitais nas escolas estaduais, a partir de 2024: professoras como ela e Veruschka, diz, foram afastadas para que as dirigentes pudessem “de maneira mais sossegada implantar o projeto do governo”. Diego de Freitas, professor de filosofia que trabalhou com Veruschka, vê o modelo como “uma educação enlatada, ultraprocessada”, na qual a colega não se encaixaria. “Ela sempre estava defendendo uma educação democrática, a liberdade de cátedra e isso causava tensão no ambiente.”

Para Ximenes, o controle do currículo, a obrigação de alimentar as plataformas e a cobrança de metas nas avaliações eliminaram a pluralidade pedagógica nas escolas paulistas. “Tudo já vem dado, plataformizado e construído”, diz. “Aqueles que não se plataformizam ou não performam se colocam em risco.” Uma nota técnica da Rede Escola Pública e Universidade (Repu), de julho de 2025, aponta que o tempo de uso das plataformas é monitorado, com possibilidade de punição a professores e diretores.

Caso Maitée: “debates polêmicos” sobre sexualidade e religião

Maitée Nogueira dava aulas há mais de vinte anos quando entrou em conflito com a direção da Escola Estadual Walkir Vergani, em São Sebastião, em 2023. O processo a acusa de descumprir o horário de trabalho, de falta de urbanidade, de condutas discriminatórias e de insubordinação grave, e menciona “debates polêmicos” sobre sexualidade e religião. A Procuradoria-Geral do Estado reconheceu não haver documentação oficial que comprovasse o descumprimento da jornada de trabalho. A demissão foi determinada em agosto de 2025, também na gestão de Tarcísio de Freitas.

“Está na ordem do dia da Secretaria de Educação exonerar, pois qualquer investigação séria teria parado quando comprovei que cumpri meus deveres como professora”, afirma Maitée. Ela também explica que os supostos “debates polêmicos” são inerentes à disciplina e que sempre seguiu o currículo. Os conflitos, diz, deveriam ter sido mediados pela coordenação. Sua advogada considera as acusações “frágeis” e “contraditórias” e afirma que a professora “era perseguida, veladamente, pela gestão, tendo ainda de lidar com o preconceito decorrente de sua orientação sexual”.

A SEDUC afirmou à reportagem que o processo apurou agressões verbais contra estudantes e servidores, linguagem ofensiva, intimidação de alunos, recusa em usar o nome social de uma estudante e comentários discriminatórios, além de abandono de atividades, atrasos frequentes e descumprimento de obrigações pedagógicas. Demitida, Maitée não pode assumir outro cargo público, mesmo que aprovada em concurso. “Não posso mais exercer a profissão em que atuei por 20 anos, na qual estudei e me preparei”, desabafa. 

Maitée Nogueira está entre os casos de exonerações de professoras via PAD em São Paulo.
Exonerada em agosto de 2025, a defesa de Maitée Nogueira afirma que a professora “era perseguida veladamente pela gestão”

A SEDUC diz que os processos das três professoras citadas na reportagem garantiram o contraditório e a ampla defesa, que os recursos das professoras foram rejeitados e que nenhuma delas levou o caso à Justiça, o que contradiz as informações das defesas das professoras enviadas à Pública. Nos três casos, as professoras estão recorrendo contra as exonerações. 

Ximenes defende que os estatutos anteriores à Constituição de 1988 sejam atualizados para incorporar as premissas de uma educação democrática. “Para mim é escandaloso que a gente continue usando uma legislação do período da ditadura”, diz. “Assim, é muito mais fácil para as perspectivas autoritárias se desenvolverem, com essa infraestrutura jurídica à disposição.”

No velório de Veruschka, decidiu-se que o Sarau Resistência passaria a se chamar Sarau Veruschka de Sales Azevedo. Ela foi homenageada pela Associação Nacional de História (Anpuh) e recebeu uma moção de aplauso na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). A família tenta anular a exoneração, mesmo após o falecimento. “Como filha, eu gostaria de algo impossível: ter minha mãe de volta e que ela pudesse usufruir do cargo dela”, disse Rayssa: “O que a gente gostaria é que, pelo menos, o caso dela se revertesse.”

Com Flávio, o Brasil pode virar um grande garimpo

8 October 2026 at 16:00

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O amor da família Bolsonaro pelo garimpo não é novidade. Ficou famosa a frase de Jair Bolsonaro de que ele mesmo gostava de “faiscar”, de pegar uma bateia e sair em busca de pepitas de ouro. Porém, essa visão romântica de como funciona a mineração não ajudou a esconder os enormes danos causados pela ilegalidade garimpeira nos quatro anos de sua gestão.

Dados da plataforma independente Amazon Mining Watch revelam que, durante o governo Bolsonaro, a velocidade de crescimento dos garimpos foi exorbitante. No início de 2019, quando se tornou presidente, o monitoramento por imagens de satélite mostrava que existiam 201,5 mil hectares de áreas de mineração de ouro na Amazônia. Quatro anos depois, já eram 401,5 mil hectares, uma área igual a 3,3 vezes a cidade do Rio de Janeiro e 92% maior que no início do governo.

Para fins de comparação, a mesma ferramenta, que utiliza inteligência artificial para analisar imagens Sentinel-2 com resolução de 10 metros, indica que, durante o governo de Lula 3, a taxa de crescimento foi bem menor – 24,3%, elevando o total de áreas de garimpo na Amazônia a 499 mil hectares até a metade desde ano. Este resultado coincide com o aumento de ações de fiscalização durante a gestão petista. A repressão ocorreu principalmente em áreas de mineração nas terras indígenas e pela apreensão de máquinas usadas pelos criminosos ambientais.

Durante o governo de Bolsonaro, foram muitas as evidências de que os garimpeiros ilegais tinham portas abertas nos gabinetes de Brasília. Uma investigação do The Intercept revelou gravações nas quais Eduardo Bim, então presidente do Ibama, órgão que deve zelar pela proteção ao meio ambiente, pedia para fiscais aliviarem a barra de uma empresa investigada por falsificar lavras de extração de ouro. 

Essas evidências, de que os interesses escusos estão intimamente conectados ao clã Bolsonaro, foram reforçadas na semana passada com uma reportagem da Agência Pública mostrando que um dos chefões dos garimpos na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, foi um dos articuladores da fuga para os Estados Unidos de Alexandre Ramagem, o diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante a gestão Bolsonaro. Foragido da justiça, Ramagem está condenado a 16 anos de prisão por participação na trama golpista. 

Já faz mais de uma década que os arautos da extrema direita gostam de “lacrar” dizendo que o Brasil governado pelos candidatos de esquerda, como Lula e Dilma, estava a um passo de se tornar a Venezuela. Uma grande fake news: nada do que ocorreu aqui nas últimas duas décadas se compara com os sofrimentos causados pelos erros do chavismo no país vizinho. Aqui não houve mudança na Constituição para acabar com o limite de mandatos presidenciais. As eleições foram respeitadas e sempre aferidas por observadores transparentes. A autonomia entre os poderes segue preservada.

Mas é no tema da soberania sobre seus recursos naturais onde, infelizmente, Brasil e Venezuela estão se aproximando cada vez mais. A invasão promovida na Venezuela por Trump para impor um governo subserviente aos interesses dos Estados Unidos gerou uma nova corrida pelo ouro e minérios daquele país. A atual presidente, Delcy Rodríguez, tem se mostrado pródiga em deixar a exploração de petróleo e ouro nas mãos do governo norte-americano – em 18 de setembro, por exemplo, o Financial Times noticiou que  31 toneladas em barras de ouro estavam sendo negociadas para serem transferidas da Venezuela para o Banco Central dos EUA.

Isso ocorre exatamente no momento em que operações do exército venezuelano, com ajuda militar norte-americana, tentam dominar a atuação de grupos ilegais no Arco Mineral do Orinoco, uma grande zona mineira criada em 2016 por Nicolás Maduro com o objetivo de gerar novas receitas para seu regime autoritário. Nunca deu certo, pois as minas de ouro foram sempre controladas pelos chamados “sindicatos”, organizações infra-legais atuando em conluio com militares corruptos.

Até o momento, as ações de repressão também não estão funcionando. Como mostrou o site de notícias Armando.info, os grupos criminais continuam hackeando o sistema e contrabandeando ouro ilegal para dentro do mercado norte-americano. Na verdade, mais do que isso: a Venezuela se tornou um hub de lavagem de ouro ilegal. Os garimpos que ainda continuam operando em territórios indígenas no Brasil têm usado a estrutura clandestina do país vizinho para exportar ouro à Índia, Oriente Médio, EUA e Europa.

Assim como a venezuelana Delcy Rodríguez, Flávio Bolsonaro mostrou-se disposto a sacrificar a soberania de seu país. Já deu muitos sinais de que vai abrir portas para uma intervenção norte-americana para combater o crime organizado, caso eleito. Em todos os países da América Latina onde isso ocorreu, os resultados têm sido desastrosos. A presença dos Estados Unidos na Colômbia, no Peru, no México e na Venezuela não alterou o quadro de ilegalidade generalizada. Apenas levou a uma valorização dos produtos ilícitos, intensificação da violência e impulsionou a reorganização dos grupos criminosos.

Talvez o leitor menos conhecedor das agruras geradas pela mineração ilegal na Amazônia possa perguntar porque afinal não deveria o Brasil aproveitar a oportunidade e lucrar com as altas cotações do ouro. A questão é que, por detrás dos garimpos, há uma cadeia de danos ambientais e sociais. Se aqui, como na Venezuela, o caminho for fazer um acordo com os Estados Unidos, é muito provável que eles fiquem com os ganhos e nós com a contaminação dos rios e matas.

Ficções belicistas: a teatralização da guerra

By: A A
8 October 2026 at 16:00

Líderes europeus vestem uniformes militares e brincam com guerra nuclear. Uma ordem sem futuro troca esperança por medo e arrisca autodestruição.

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Em um surto de simulação, durante a recente Cúpula Europeia do Ártico, em Rovaniemi, Finlândia, líderes europeus vestiram trajes militares para transmitir uma mensagem de preparação para uma confrontação com a Rússia, enquanto a máquina política e midiática repete, quase em uníssono, o alerta contra a “ameaça russa”. A declaração oficial da Cúpula coloca a segurança no centro das discussões e insiste na necessidade de fortalecimento da presença e das capacidades europeias na região, considerada estratégica para a segurança continental.

Essa encenação tem algo de profundamente inquietante. Tais dirigentes apresentam-se na condição de representantes de sociedades mobilizadas para a guerra, enquanto governam países profundamente divididos e enfrentam uma crescente erosão da confiança pública. Por si só, essa distância entre a retórica das lideranças e a disposição real das sociedades deveria recomendar prudência. Em vez disso, assistimos à construção de uma atmosfera psicológica de confrontação. E é justamente aí que começa o perigo.

O risco real de autodestruição

Em primeiro lugar, há um elemento de fingimento, pois a Europa não dispõe das condições industriais necessárias para sustentar autonomamente uma mobilização militar prolongada na escala sugerida pela retórica belicista. O próprio esforço para reconstruir estoques, aumentar a produção de munições e recuperar capacidade industrial demonstra o quanto essa estrutura foi reduzida nas últimas décadas. Mas a questão mais grave não é industrial, mas estratégica.

A Federação Russa dispõe de um enorme arsenal nuclear e de sistemas de ataque avançados, inclusive mísseis hipersônicos. Isto não significa que a Rússia possua superioridade tecnológica em todos os campos, mas algo muito mais importante para essa reflexão: qualquer guerra direta entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Rússia envolveria forças capazes de provocar uma destruição de escala civilizacional. A Rússia e os EUA continuam concentrando a esmagadora maioria das ogivas nucleares existentes, ao mesmo tempo em que os principais Estados nucleares modernizam seus arsenais e os mecanismos de controle de armas se enfraquecem. Portanto, tratar uma confrontação direta com a Rússia como apenas mais uma opção de política externa não é demonstração de coragem: é cortejar uma possibilidade de autodestruição.

Quando se atravessa determinado limiar, já não existe garantia de que os acontecimentos permaneçam sob o controle daqueles que os iniciaram. É este o ponto ausente da atual teatralização belicista.

E há algo ainda mais perturbador. A linguagem da destruição voltou a ser pronunciada abertamente pelas próprias lideranças ocidentais. Na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Donald Trump proclamou que os EUA poderiam “aniquilar” o Irã caso não fosse alcançado um acordo. Se uma ameaça dessa natureza – uma “solução final” – pode ser pronunciada na ONU sem provocar uma ruptura política proporcional à enormidade do que está sendo dito, algo extremamente grave está ocorrendo com a percepção ocidental dos limites da guerra. Porque a normalização da linguagem de aniquilação não permanece necessariamente confinada ao adversário contra o qual foi originalmente dirigida.

Hoje pode ser o Irã. Amanhã, numa espiral de escalada que ninguém consiga mais controlar, podem ser cidades europeias. É neste sentido que os atuais devaneios belicistas deixam de ser apenas uma encenação política e passam a representar um perigo concreto de autodestruição da própria civilização europeia. A Europa, que durante séculos foi um dos centros fundamentais da civilização ocidental, atravessou duas guerras mundiais e conheceu diretamente o que significa transformar rivalidades políticas em guerras de aniquilação. Justamente por isso, seria de esperar que suas lideranças fossem as primeiras a compreender que uma guerra entre potências nucleares não oferece uma segunda oportunidade para se corrigirem erros de cálculo.

No entanto, os vemos brincando com símbolos militares, discursos de mobilização, inimigos existenciais e horizontes de confrontação, como se ainda estivéssemos no mundo anterior a Hiroshima e Nagasaki. A ficção consiste precisamente nisso: representar a guerra como instrumento político disponível sem encarar até o fim o que ela poderia significar. E, se a confrontação escapar ao controle, não serão apenas governos, partidos ou alianças militares que pagarão o preço, mas a própria civilização que esses dirigentes afirmam estar defendendo.

Quem precisa da ameaça?

Então, perguntemos: quem está por trás de toda essa falsidade? Quem alimenta essa representação? Quem necessita dessa atmosfera permanente de ameaças? E por que uma ordem política em evidente crise de legitimidade parece encontrar na perspectiva da guerra uma das últimas narrativas capazes de justificar a sua própria continuidade?

A resposta mais simplória consistiria em explicar essa atitude como uma tentativa de manter regimes impopulares sob uma imaginária ameaça externa, ao mesmo tempo em que se condenam ou reprimem as forças políticas emergentes, apresentadas como agentes externos ou instrumentos de uma potência inimiga – no caso, vinculadas à “besta” russa.

Sem dúvida, há algo disso. A História oferece numerosos exemplos de governos que recorrem à ameaça externa para recompor coesões internas deterioradas, desacreditar adversários e justificar medidas que enfrentariam maior resistência em circunstâncias normais. Mas essa explicação é insuficiente. A crise não diz respeito apenas à legitimidade de um grupo de líderes europeus. Ela atinge o próprio sistema que os colocou nessa posição de poder – e é ele que está em crise.

A crise da ordem liberal-financeira

O chamado “mundo baseado em regras”, a globalização financeira, o livre comércio elevado à condição de dogma e a progressiva substituição da economia produtiva pela financeirização, estão sendo confrontados pelo retorno do Estado nacional soberano, das políticas industriais, da segurança energética, das cadeias produtivas estratégicas e da defesa dos interesses econômicos nacionais. Paradoxalmente, esse retorno do Estado nacional poderia representar também um caminho para que o Ocidente recuperasse parte de suas próprias raízes civilizatórias, essencialmente cristãs, nas quais o poder político não era concebido como absoluto, mas submetido a uma ordem moral superior.

Em profundidade, porém, o que se encontra por trás dessas quimeras é uma crise ainda maior: a crise do sistema liberal-financeiro organizado em torno de bancos centrais “independentes”, da autonomia crescente do poder financeiro em relação às comunidades nacionais e de uma concepção econômica que, ao longo de décadas, deslocou progressivamente o centro da riqueza da produção para as rendas financeiras. Esse sistema possui raízes históricas na formação da ordem comercial e financeira anglo-holandesa dos séculos XVII e XVIII, que posteriormente seria projetada sobre grande parte do mundo por meio das estruturas imperiais e financeiras britânicas e, depois, estadunidenses.

Com o passar do tempo, esse modelo adquiriu formas novas, mas conservou uma característica essencial: a capacidade do poder financeiro de se apresentar como uma realidade quase exterior à política, como se suas decisões fossem técnicas, neutras e independentes das escolhas soberanas das sociedades. É justamente essa arquitetura que hoje começa a ser questionada.

Uma religião secular sem promessa de redenção

O sistema profundo das oligarquias ocidentais perdeu a capacidade de gerar ideias e projetos capazes de mobilizar as sociedades em torno de um horizonte de futuro. Essa esterilidade se expressa também na mediocridade de grande parte das atuais lideranças, cada vez mais administradoras de uma ordem em crise do que criadoras de uma nova realidade política. A política liberal transformou-se, assim, em uma espécie de religião secular sem promessa de redenção. E esta talvez seja uma de suas características mais inquietantes.

Os grandes movimentos políticos dos séculos XIX e XX, mesmo quando conduziram sociedades inteiras à catástrofe, ainda prometiam alguma forma de redenção histórica: a sociedade sem classes, a grandeza nacional, o império, a revolução, o homem novo ou uma ordem futura supostamente definitiva.

A religião secular da ordem liberal em decomposição já não oferece sequer isso. Ela exige sacrifícios sem apresentar um paraíso futuro. Exige empobrecimento em nome da estabilidade, perda de soberania em nome das regras, desindustrialização em nome da eficiência e da “proteção” do meio ambiente, censura em nome da democracia e, finalmente, admite até mesmo o risco da guerra em nome da preservação de uma ordem cuja finalidade já não consegue explicar. Não existe mais uma verdadeira promessa de redenção. Existe apenas a promessa de que o sistema continuará existindo. Nas palavras do ex-chanceler da União Europeia, Josep Borrel, “nós somos o jardim do Éden, o resto é a selva”.

Nesse ponto, a política deixa de defender a sociedade e passa a exigir que a sociedade se sacrifique para defender o sistema. É precisamente aí que uma religião secular pode tornar-se autodestrutiva: quando a conservação da ordem existente passa a valer mais do que a conservação daqueles que vivem sob essa ordem.

Da minoria criadora à minoria dominante

Esse é, talvez, um dos sinais mais profundos de esgotamento civilizatório. Uma elite deixa de ser criadora quando já não consegue imaginar um futuro distinto da simples continuação de si mesma. O historiador inglês Arnold Toynbee percebeu com enorme profundidade esse fenômeno ao distinguir a minoria criadora da minoria dominante. Uma minoria criadora exerce liderança, porque oferece respostas capazes de inspirar adesão. Sua autoridade nasce de sua capacidade de responder aos desafios históricos e de produzir formas novas de organização, cultura e sentido. Quando essa capacidade desaparece, a antiga minoria criadora pode converter-se numa minoria dominante, que já não lidera porque inspira, mas conserva-se porque controla. A persuasão é progressivamente substituída pela disciplina; a imaginação, pela administração; o projeto, pela propaganda; e a confiança, pelo medo.

É nesse momento que o sistema corre o risco de transformar a própria crise em justificativa para continuar existindo. Quanto mais fracassa, mais exige poder. Quanto mais perde legitimidade, mais necessita de inimigos. Quanto menos consegue imaginar um futuro, mais dramaticamente precisa apresentar o presente como uma batalha existencial.

Quando o temporal ocupa o lugar do transcendente

Aqui, a reflexão do filósofo germano-estadunidense Eric Voegelin sobre as ideologias totalitárias como “religiões políticas” se encontra com a de Toynbee sobre a desintegração das civilizações. Quando uma sociedade perde a referência a uma ordem transcendente, a necessidade humana do absoluto não desaparece necessariamente. Ela pode simplesmente ser transferida. A nação, a raça, a classe, o partido, a revolução, o mercado, as “regras”, a democracia entendida não como regime político, mas como categoria moral absoluta – qualquer realidade temporal pode ser sacralizada e elevada a uma condição que já não admite questionamento.

Nesse processo, o temporal ocupa o lugar do transcendente. Mas há uma diferença decisiva entre os antigos movimentos políticos e essa possível religião secular de uma ordem esgotada. Os primeiros prometiam uma redenção futura. Essa última parece pedir o sacrifício presente apenas para impedir que o sistema desapareça. É uma religião secular sem escatologia, paraíso, homem novo e um horizonte verdadeiramente novo. Seu único futuro é a continuação indefinida do presente.

Quando o medo substitui a imaginação

Possivelmente, essa ausência de futuro é o que explica a crescente importância do medo: do inimigo externo; da ruptura; da dissidência; da perda do controle. O medo de que aquilo que durante décadas foi apresentado como inevitável deixe subitamente de sê-lo. Quando uma ordem não consegue mais produzir esperança, precisa produzir medo. E quando o medo substitui a imaginação, o conflito pode converter-se numa forma de legitimação. A guerra, então, deixa de ser apenas um instrumento externo de política e pode tornar-se uma necessidade interna do sistema. É justamente aí que os devaneios belicistas contemporâneos adquirem uma dimensão muito mais profunda do que a discussão cotidiana sobre a Rússia, Ucrânia, OTAN ou os gastos militares.

A questão passa a ser civilizacional. Uma ordem que perdeu a capacidade de imaginar o seu próprio futuro pode começar a aceitar riscos que, em condições normais, pareceriam impensáveis. Pode terminar confundindo a sobrevivência de suas estruturas com a sobrevivência da própria civilização. E essa confusão é uma das mais perigosas que uma elite possa cometer. Porque instituições, regimes econômicos e sistemas políticos são históricos. Civilizações são muito maiores do que eles. Quando um sistema passa a exigir que a civilização se arrisque para que ele próprio sobreviva, a relação entre meios e fins foi completamente invertida.

Os sinais de uma mudança de época

É nesse ponto que se torna possível falar verdadeiramente em autodestruição.

Uma civilização pode começar a autodestruir-se, não porque tenha deixado de acreditar, mas porque transformou a sua própria ordem histórica em objeto de crença absoluta. E quando os dirigentes deixam de imaginar um futuro diferente daquele que administram; quando a guerra começa a substituir a política; quando o medo substitui o projeto; quando a conservação das instituições passa a ser considerada mais importante do que as pessoas para as quais essas instituições deveriam existir; não estamos diante apenas de uma crise política ou econômica, mas de uma profunda crise civilizacional.

E quando uma elite perde a capacidade de imaginar, criar e persuadir, isto pode ser o sinal premonitório de que uma época está terminando. Mas não necessariamente de que a civilização esteja condenada. Pode significar exatamente o contrário: que as estruturas que já não conseguem responder aos desafios do presente estão abrindo espaço para outras formas de organização, outras ideias e uma recuperação de princípios que pareciam esquecidos. Porque a perda da imaginação de uma ordem não significa o fim da imaginação humana. E quando aqueles que governam já não conseguem conceber nada além da perpetuação de si mesmos, talvez, este seja precisamente o primeiro sinal de que algo novo começa a aproximar-se.

Caixa-Preta do Bolsonaro

8 October 2026 at 10:00

O especial Caixa-Preta do Bolsonaro é uma série de reportagens feitas a partir de pedidos de Lei de Acesso à Informação – viabilizada graças ao apoio de milhares de leitores – que revela os potenciais crimes e abusos cometidos pelo governo Bolsonaro que ficaram escondidos por trás de sigilos, negativas e outras táticas de sonegação de informação. Apoie nosso trabalho hoje e ajude a Pública a continuar investigando o que tem na caixa-preta do governo Bolsonaro.

Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas

7 October 2026 at 23:26

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

O primeiro turno da campanha eleitoral de 2026 durou 50 dias e registrou 134 episódios de violência política contra candidatos e candidatas, além de agentes políticos.Um aumento de 11% em relação aos 121 casos registrados no mesmo período da eleição municipal de 2022.

Os 134 episódios representam um caso de violência política a cada nove horas de campanha. E apesar das mulheres serem apenas 35% do total de candidatos, elas foram a maioria (52%) das vítimas do primeiro turno, segundo o levantamento.

Os dados integram a 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, realizada pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global, que pesquisa o tema desde 2016. O levantamento foi divulgado nesta quarta, dia 7 de outubro.

A porcentagem de vítimas mulheres aumenta mais ainda quando a pesquisa separa apenas os casos envolvendo candidatas e candidatos. Dos 134 episódios de violência política durante o primeiro turno, 102 foram dirigidos a pessoas que disputavam o pleito. Desse total, 60 eram mulheres, quase 59% do total.

Para a coordenadora do Setor de Incidência da Terra de Direitos, Gisele Barbieri, “os dados trazem importantes achados para identificar os ambientes em que agentes políticos estão mais vulneráveis e pensar medidas de proteção. Quando eleitas, essas pessoas passam a ser vítimas de violências nos seus locais de atuação, seja no Parlamento ou no Executivo”, afirma.

Machismo e misoginia se misturam nos casos de violência política

A pesquisa mostra que a violência política é marcada pela discriminação de gênero e raça. Quando se considera o universo completo de 70 casos de violência política contra mulheres, 45 casos envolveram machismo ou misoginia, nove envolveram racismo e cinco envolveram transfobia. Mulheres pretas foram vítimas de 25% dos casos de violência política medidos nesse primeiro turno.

A ameaça foi o tipo de violência política mais recorrente no período, com 64 casos registrados. Na sequência, aparecem 33 episódios de ofensa e 19 de agressão física. Também foram registrados 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos.

Mais da metade dos casos (71 ocorrências) aconteceu nas ruas, durante atividades públicas de campanha. O ambiente virtual concentrou 31,3% dos episódios.

Além disso, apenas candidatas sofreram ameaças de violência sexual. Em todos os sete casos, as vítimas eram mulheres.

“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira”, afirmou em nota Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global.

Policiais e outros agentes públicos foram a maioria dos autores

Em quase 20% dos casos o autor identificado da violência política era um agente público, incluindo parlamentares e forças de segurança. Até o encerramento da coleta de dados pelas organizações autoras da pesquisa, nenhum dos 134 episódios havia resultado em alguma punição efetiva, limitando-se a medidas cautelares de urgência determinadas pela Justiça Eleitoral.

A região Nordeste liderou o número de casos (48), seguido pelo Sudeste (38). Entre os estados, São Paulo lidera com 16 casos, seguido por Rio Grande do Norte (13), Minas Gerais (12) e Rio Grande do Sul (10).

A presença de policiais entre os autores de violência política já havia sido detectada também em levantamento realizado pela Agência Pública durante o primeiro turno.

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