Os jovens do Algarve, entre os 16 e os 30 anos, podem candidatar-se a partir desta segunda-feira, 19 de outubro, à quinta edição da Academia Próxima Geração. O programa de formação em liderança cívica e política dispõe de 25 vagas para candidatos de todas as regiões do país.
As candidaturas decorrem até 9 de novembro, através do site aproximageracao.com. A formação realiza-se entre fevereiro e maio de 2027, combinando sessões semanais online com quatro fins de semana presenciais em diferentes regiões portuguesas.
Na mensagem enviada ao POSTAL, Manuel Caldeira, vice-presidente da Próxima Geração, destaca o potencial do projeto para os jovens algarvios, que considera estarem muitas vezes afastados de outros mecanismos de envolvimento cívico e democrático.
Potencial de intervenção na comunidade orienta seleção
A organização procura participantes com vontade de aprender e capacidade para contribuir para as suas comunidades, valorizando o autoconhecimento e o sentido de propósito, em vez da proximidade ao poder ou de percursos políticos já consolidados.
“Não procuramos quem está mais perto do poder, mas quem tem potencial para ter impacto positivo na sua comunidade. A política faz-se também fora dos cargos eletivos”, afirma Fabiana Fernandes, presidente da Próxima Geração.
A metodologia assenta na diversidade dos participantes, na valorização de diferentes experiências profissionais, académicas e cívicas e na empatia. A academia pretende reunir jovens de vários contextos socioeconómicos e orientações ideológicas.
Missões semanais, debates e projetos práticos
O programa está organizado em três blocos — Refletir, Capacitar e Mobilizar — e trabalha competências de liderança, comunicação e pensamento crítico através de missões semanais, debates com especialistas e projetos práticos.
Nas edições anteriores, participaram oradores como Marcelo Rebelo de Sousa, Carlos Guimarães Pinto, Marta Temido, David Elrich, Inês Franco Alexandre, José Maria Pimentel e Rita Saias.
Apresentada pela organização como a primeira academia multipartidária do país dedicada à participação cívica e política dos jovens, a iniciativa conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República. A quinta edição tem também o apoio da Movy.
Cem participantes formados desde 2022
A academia formou 100 jovens nas quatro edições realizadas desde 2022. Segundo os resultados divulgados pela organização junto dos antigos participantes, um ano depois do programa a percentagem dos que se consideram bem informados sobre política passou de 30% para 79%.
Cerca de 80% afirmam que a formação aumentou a sua motivação para atuar na política e intervir na comunidade, enquanto 95% dizem ter adquirido novas perspetivas políticas. Os indicadores traduzem as avaliações reportadas pelos próprios participantes.
Entre os antigos alunos encontram-se membros de partidos com representação na Assembleia da República, assessores parlamentares, eleitos de assembleias municipais e candidatos a câmaras municipais. Há também fundadores de associações e jovens sem filiação partidária que participam nas suas comunidades e em debates públicos.
A Próxima Geração é uma associação sem fins lucrativos e multipartidária, fundada em 2022, que integra a rede internacional Better Politics Foundation. A sua atividade centra-se na capacitação de jovens para a participação cívica e política.
Não é uma questão de ser socialista ou liberal. É uma questão de decidir para onde queremos canalizar o investimento para a criação de mais habitação:
• Reservar a compra de imóveis com licença de habitação a pessoas singulares. As empresas poderiam investir em terrenos, ruínas e projetos de construção e reabilitação, contribuindo para aumentar a oferta.
Solução de curto prazo, se não for suficiente: Empresas e Fundos de Investimento terem de vender para pessoas singulares os seus imóveis residenciais com licença de habitação em 3 anos.
• Facilitar a construção de hotéis e limitar alojamentos locais. O crescimento do turismo deve ser acompanhado por capacidade de alojamento turístico própria.
Solução de curto prazo se não for suficiente: duplicar o IMI especial a ALs e canalizar esse montante apenas para a construção de habitação pública.
• Aumentar o IMI de proprietários não residentes, com salvaguardas para emigrantes e situações justificadas, e reforçar a tributação de casas de luxo. A receita adicional ficaria expressamente destinada à construção e reabilitação de habitação pública.
Solução de curto prazo se não for suficiente: Duplicar o IMI para as residências de extremo luxo.
• Agravar progressivamente o IMI de casas habitáveis mantidas devolutas, salvaguardando obras, heranças em resolução e impedimentos comprovados.
Solução de curto prazo, se não for suficiente: expropriar para habitação jovem ao preço de mercado, caso não haja resposta em 1 ano útil. Jovens que emigram têm retirados os direitos à habitação jovem.
• Reduzir a carga fiscal sobre quem coloca imóveis no arrendamento de longa duração a preços acessíveis.
Solução de curto prazo se não for suficiente: Reduzir mesmo o IRS.
• Acelerar o licenciamento, para dias e não anos, e mobilizar terrenos e edifícios públicos sem utilização, com metas de execução e prestação pública de contas.
Solução de curto prazo se não for suficiente: Não-Objecção por defeito.
• Investir em transportes e infraestruturas para tornar mais zonas atrativas para viver.
Solução de curto prazo, se não for suficiente: transporte sem custo.
Estas propostas exigem enquadramento jurídico e uma avaliação dos seus efeitos.
Mas o princípio é claro: os incentivos públicos devem premiar quem constrói, recupera e disponibiliza habitação.
O investimento deve ajudar a criar mais casas.
E a receita fiscal gerada pelo património deve contribuir para que mais pessoas tenham acesso a uma.
Simples. Concordas? Agora deseduca toda a gente para esquecer as suas ideologias que só nos torna cegos. E educa como devemos andar para a frente.
A fabricante espanhola Talgo pretende apresentar à CP uma proposta de comboios de alta velocidade capazes de circular em bitola ibérica e internacional. Embora o concurso não exija essa capacidade, a empresa considera que a solução daria a Portugal maior flexibilidade perante uma eventual mudança da largura das vias ou a operação noutros mercados.
A intenção foi avançada pelo presidente executivo da Talgo, Ricardo Chocarro, em declarações em Madrid a meios de comunicação portugueses, incluindo a Lusa. A fabricante espanhola e a francesa Alstom foram as duas empresas escolhidas em setembro para apresentar propostas à CP – Comboios de Portugal.
Tecnologia já permite mudar de bitola em Espanha
O concurso destina-se à ligação de alta velocidade entre Lisboa e Porto em bitola ibérica, uma característica que Chocarro descreveu como uma “especificidade absoluta” do procedimento.
Segundo o responsável, os comboios de alta velocidade da Talgo já circulam em Espanha nas duas bitolas. A tecnologia permite passar entre vias de diferentes larguras sem necessidade de parar as composições ou de fazer descer os passageiros.
“O concurso não o exige, o concurso não o valoriza, mas acreditamos que é uma grande vantagem para Portugal dispor dessa capacidade de bitola variável, caso se decida, no futuro, adotar a bitola europeia ou caso se pretenda, no futuro, operar noutros contextos, noutros mercados. É isso que vamos colocar em cima da mesa no concurso de Portugal”, afirmou.
Circulação poderá combinar linhas de alta velocidade e vias regionais
Chocarro destacou os 25 anos de experiência da Talgo na alta velocidade espanhola, num contexto que considera semelhante ao português. Ressalvou, porém, que a proposta terá de responder às características específicas da rede nacional.
Além da circulação em bitola ibérica, que classificou como pouco habitual na alta velocidade, o responsável apontou a necessidade de utilizar diferentes tipos de linha enquanto decorrem as obras.
“O comboio vai ter de circular por vias de alta velocidade e, provavelmente, também por vias que atualmente se utilizam nos transportes mais regionais”, explicou, acrescentando que a empresa dispõe de uma “tecnologia multivia”.
Compra de 12 automotoras com opção de mais oito
Com um preço base de 504 milhões de euros, o concurso prevê a aquisição de 12 automotoras de alta velocidade, respetivas peças de parque e ferramentas especiais. Inclui ainda a opção de compra de mais oito automotoras.
O contrato abrange também a manutenção integral durante os dois anos seguintes à receção do primeiro comboio.
As próximas etapas serão a apresentação e análise das propostas, seguindo-se a decisão. O calendário prevê a assinatura do contrato no primeiro trimestre de 2027 e a entrega do primeiro comboio nos primeiros três meses de 2031.
Talgo prevê contratar e formar trabalhadores em Portugal
A empresa pretende “desenvolver capacidade local, tanto para o fornecimento como para a manutenção”, nomeadamente através da contratação e formação de trabalhadores em Portugal, adiantou Chocarro.
O presidente executivo não revelou os custos da proposta que será apresentada à CP nem valores de um eventual investimento no país.
Fundada em 1942, a Talgo apresenta-se como uma empresa especializada no desenho, fabrico e manutenção de comboios de alta velocidade e longa distância. Tem uma carteira de encomendas de cerca de 6.500 milhões de euros, em contratos de produção e manutenção em vários continentes.
A companhia é maioritariamente privada, contando com duas participações públicas: 7,9% do Estado espanhol e 7,8% do executivo regional do País Basco.
O português Miguel Trindade, que já treinou no Algarve, conquistou o título mundial de pesos-pena do Glory, em kickboxing, no sábado, 17 de outubro. O atleta de 25 anos venceu o turco Deniz Demirkapu na Lotto Arena, em Antuérpia, na Bélgica, segundo o Diário de Notícias.
Treinos no Algarve
A Kickboxing Fight Tavira pretende, há algum tempo, trazer Miguel Trindade a Tavira para orientar um treino. Para Miguel Pires, da associação tavirense, a conquista do título mundial era um desfecho que já se adivinhava, tendo em conta a qualidade e o talento demonstrados pelo atleta ao longo do seu percurso.
“Este título já se adivinhava, pois o Miguel é um atleta extraordinário e merece, sem qualquer dúvida, este título e todo o reconhecimento do mundo”, afirma Miguel Pires, da Kickboxing Fight Tavira.
A ligação do campeão mundial ao Algarve passa também pelos treinos que tem realizado ocasionalmente na região, incluindo uma sessão de sparring com Fábio Medinas, atleta da associação tavirense.
Micael Rodrigues, da Top Team Briceno (E), o campeão mundial de kickboxing Miguel Trindade (C) e Fábio Medinas, da Kickboxing Fight Tavira (D), numa fotografia de 2025
A fotografia que documenta esta ligação resultou de um convite feito por Micael, da Top Team Briceno, a Fábio Medinas. O encontro aconteceu algumas semanas depois de um treino de sparring com Uisma Lima, pugilista profissional que, nas palavras de Miguel Pires, “já deu e dará ainda muito que falar, e pela positiva”.
Nesse contexto, Micael também foi convidado, tendo o clube de kickboxing do Campinense cedido gentilmente o espaço e o ringue para a realização do treino.
Miguel Pires revela ainda que acompanhou, através das redes sociais, a presença de Miguel Trindade na Top Team Albufeira, onde também realizou treinos, reforçando assim a ligação do campeão mundial à região algarvia.
Apesar de reconhecer que a conquista do título mundial poderá dificultar a disponibilidade do atleta para novos compromissos, a Kickboxing Fight Tavira mantém a intenção de o receber na cidade.
“Sabemos que agora será mais difícil ter o Miguel em Tavira, mas será uma realidade muito em breve”, garante Miguel Pires, manifestando confiança na possibilidade de o campeão mundial vir a partilhar a sua experiência e os seus conhecimentos com os atletas tavirenses.
Três quedas decidiram o combate
O triunfo chegou por knockout técnico no terceiro assalto, depois de três quedas do adversário provocadas por pontapés baixos, descreve o DN.
Para atingir os 65 quilogramas da categoria, Trindade explicou ao jornal que segue uma preparação alimentar de oito a dez semanas.
De Loures aos ringues internacionais
Nascido nas Torres da Bela Vista, em Loures, viveu depois em Sintra. Aos 19 anos, deixou Geografia, na Universidade de Lisboa, para apostar no desporto. Trabalhou no McDonald’s e deu aulas antes de rumar a Espanha.
Conquistou um título europeu em 2021. Após uma lesão em 2022, passou a trabalhar com Diego Vazquez e regressou aos combates em 2023, chegando depois ao Glory.
Ao DN, resumiu a ambição que acompanha o percurso: “Mais do que ganhar ou perder, o que fica é a marca que deixamos nas pessoas”.
A mensagem de confiança antes da conquista
Antes do combate, numa publicação no Facebook de 1 de outubro, acompanhada por um vídeo, Miguel Trindade tinha deixado uma mensagem sobre as suas origens e o significado que atribuía à presença naquele patamar competitivo.
“Quando um português filho de emigrantes moçambicanos está neste patamar, lembrem-se bem de que ele está a representar-vos a todos”, escreveu.
O atleta dirigiu-se a quem enfrenta dificuldades para concretizar os seus objetivos, seja pela origem, pelas circunstâncias de vida ou pela falta de apoio.
“Está a demonstrar que, embora seja duas vezes mais difícil, todos nós podemos”, afirmou, evocando pessoas de bairros sociais, pequenas localidades do interior ou países em guerra, assim como quem não tem o apoio que gostaria de receber.
“Admirem, valorizem e orgulhem-se”, apelou.
A publicação terminava com uma frase de confiança na data em que viria a conquistar o título mundial: “Por isso e por muito mais, dia 17 será um dia para a História”.
Mensagem de Miguel Trindade a 13 de abril deste ano: “Não tinha nada, não sou predestinado nem sou mais que ninguém… Tudo veio à base de obsessão e MUITO sacrifício. Espero que sintam a mensagem”.
A Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde (SPLS) está a promover “miniassembleias da saúde” em escolas básicas e secundárias para esclarecer os jovens sobre infeções sexualmente transmissíveis. As iniciativas envolvem mais de 1.000 alunos entre os 14 e os 18 anos, que participam no debate e na transmissão de informação aos colegas.
As sessões integram a campanha #semvergoha, com o apoio científico da Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da Sida (APECS). Em declarações à Lusa, a presidente da SPLS, Cristina Vaz de Almeida, defendeu que os jovens devem ser “os protagonistas da mudança”.
A iniciativa surge num contexto em que quase 30% dos novos casos de VIH registados em 2024 ocorreram em pessoas com menos de 30 anos. No conjunto dos novos diagnósticos, 53,9% foram identificados numa fase avançada da infeção, segundo os dados citados pela Lusa.
Informação simples e discussão em pequenos grupos
As miniassembleias são desenvolvidas com os próprios alunos. Médicos ou enfermeiros começam por transmitir informação em linguagem simples, seguindo-se a divisão dos participantes em grupos para debater temas como a sífilis, o VIH e a sida, a transmissão das infeções e a utilização correta do preservativo.
“Para haver desenvolvimento de competências nestes jovens, não pode ser uma ação meramente expositiva. Temos de adaptar ao perfil”, explicou Cristina Vaz de Almeida.
A responsável associa o aumento das infeções sexualmente transmissíveis entre os jovens a “comportamentos de risco e falta de literacia em saúde”, tanto dos adolescentes como das famílias.
A abordagem procura reduzir o estigma e “normalizar os comportamentos protetores”, permitindo que a informação circule de forma simples e que os alunos transmitam mensagens corretas entre si.
No final, as miniassembleias são publicadas e os participantes podem rever-se. “Gostam de ver que são eles os atores da mudança”, afirmou a presidente da SPLS.
Saber aceder à internet não significa saber usar informação de saúde
Cristina Vaz de Almeida alertou que a familiaridade dos jovens com o meio digital não garante capacidade para compreender e utilizar informação sobre saúde.
“Têm literacia digital, sabem aceder ao digital, mas não têm literacia em saúde digital, não sabem usar o conhecimento quando estão dentro do digital”, observou.
Perante a dificuldade de mudar comportamentos, a responsável considera as escolas um espaço privilegiado de intervenção.
“Promover a literacia em saúde nas escolas é investir na capacidade dos jovens para compreenderem a informação, avaliarem as suas opções e tomarem decisões informadas sobre a sua saúde e o seu bem-estar”, defendeu.
Para isso, acrescentou, é necessário “criar espaços de confiança, onde os jovens possam falar sem vergonha, esclarecer dúvidas sem receio de julgamento e aceder a informação clara, rigorosa e adequada à sua idade”.
Sessões previstas em Lisboa, Peniche, Felgueiras e Lousada
Em outubro, as miniassembleias passam pela Escola Secundária Padre António Vieira, em Lisboa, nos dias 20 e 22, e pela Escola Básica Marquesa de Alorna, também na capital, no dia 29.
Em Peniche, a Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos de Atouguia da Baleia recebe a iniciativa em 28 de outubro.
No dia 18 de novembro, estão previstas sessões nas escolas secundárias de Felgueiras e de Lousada.
Há violências que irrompem nas ruas, de punho erguido e rosto descoberto, e outras que preferem a penumbra dos gabinetes, a respeitabilidade das instituições e a linguagem asséptica dos regulamentos. Umas empunham armas; outras manejam despachos, multiplicam procedimentos e invocam, com a fleuma dos irrepreensíveis, as inevitabilidades do sistema. Umas ameaçam pela força; outras exercem-na sem levantar a voz. Todas, porém, se tornam perigosas quando a razão capitula, o medo se instala e a força, perdida a vergonha, reclama para si o direito de governar.
O século XX, com a sua indústria triunfante, a massificação dos desejos e a burocratização da existência, deixou-nos uma lição que o nosso otimismo tecnológico parece obstinado em esquecer: o progresso das máquinas não obriga ao progresso dos homens. Aperfeiçoámos os instrumentos, multiplicámos as necessidades, catalogámos a vida em repartições cada vez mais minuciosas e construímos, em nome da eficiência, prodigiosas maquinarias estatais para administrar pessoas. Mas, nem por isso, aprendemos a viver melhor uns com os outros. A sociedade cresceu em organização e perdeu em comunidade; o indivíduo ganhou em informação, mas ficou-se pelo anonimato e pelo emudecimento da voz, e descobriu que entre o direito de participar e o poder efetivo de decidir se espraia, tantas vezes, um abismo regulamentado com todo o cuidado.
Não admira, pois, que os apelos à não violência sejam hoje recebidos, em certos círculos, como uma ingenuidade de salão, própria de quem nunca teve de enfrentar a brutalidade do mundo. Discute-se, com a desenvoltura de quem não arrisca a pele no argumento, a legitimidade dos meios violentos de resistência à opressão, como se a nobreza dos fins pudesse lavar a infâmia dos meios. Em tempos de violências acampadas à porta da razão, insistir na distinção entre poder e violência parece, por vezes, uma excentricidade académica. E, no entanto, é precisamente quando essa distinção começa a ser tratada como um luxo que mais importa defendê-la — sem confundir o poder político com o monopólio estatal da violência legítima, na formulação clássica de Max Weber.
Convém, a este propósito, regressar a Hannah Arendt. Para a pensadora, o poder nasce quando os homens agem em conjunto, sustentados pelo consentimento e pela capacidade de construir um espaço público comum. A violência, pelo contrário, é instrumental: precisa de armas, de máquinas, de dispositivos de coerção; carece, em suma, de meios que substituam aquilo que já não consegue obter pela adesão. Onde o poder vacila, a violência oferece-se como sucedâneo. Promete restaurar a autoridade, mas corrói-lhe os fundamentos; impõe obediência, mas não fabrica legitimidade. É capaz de calar uma praça D. João I ou um concentrado de Rossio, não de conquistar a confiança de quem nelas é calado. E pode destruir o poder com uma eficácia que nunca conseguirá reproduzir na sua construção.
Curem-se da ilusão, pois, os devotos do tacão, que tentam mascarar a fragilidade do poder elevando o tom da ameaça e a vulgaridade da coação, seja apelidando os outros de arruaceiros, seja ordenando que os encostem à parede. Repete-se à exaustão, entre o senso comum e certas teorias políticas, que o poder nasce do fuzil. Trata-se de um chavão de fácil encanto para quantos preferem a obediência cega ao acordo mútuo e o medo ao trabalho paciente do convencimento.
Uma arma pode impor silêncio, produzir submissão e espalhar terror. Mas o silêncio não é consentimento, a submissão não é adesão e o terror não é poder político. Quando uma autoridade precisa de recorrer incessantemente à força para provar que ainda manda, talvez já tenha perdido aquilo que a legitimava: a capacidade de ser reconhecida sem ter de se impor a cada instante.
De Paris ao Porto, de Lisboa a Moscovo, esta verdade não deveria carecer de demonstração. E, contudo, continuamos a comportar-nos como se a violência pudesse resolver aquilo que a política deixou por dirimir. Como se o estrondo dispensasse o argumento, a confrontação poupasse o trabalho de diálogo e a destruição fosse uma expedita forma de construção. Como se a cólera, pelo simples facto de ter uma causa por base, adquirisse o privilégio de todas as razões. A indignação pode ser justa; os seus instrumentos, porém, não ficam por isso absolvidos. Há causas legítimas defendidas por meios que acabam por as desfigurar — e há revoltas que, de tanto combaterem a opressão, começam a aprender-lhe os métodos.
A História oferece-nos um inventário eloquente destas frustrações. Da guerra do Vietname aos movimentos estudantis de maio de 1968, dos protestos contra a burocracia estatal às revoltas juvenis em França, reaparece, sob circunstâncias diversas, uma inquietação comum: a de cidadãos que se sentem afastados dos lugares onde o seu destino coletivo é decidido. A juventude protesta, por vezes com desordem e violência, contra sistemas que lhe exigem paciência, mas lhe recusam influência; que lhe prometem participação, mas que apenas lhe entregam formulários; que a convocam para a democracia e depois se espantam quando ela pretende exercer o direito de intervir. As instituições, entretanto, recomendam serenidade, abrem um processo, nomeiam uma comissão e aguardam que a indignação, por cansaço ou falta de expediente, acabe por desaparecer.
Já em 1981, Pierre Rosanvallon chamava a atenção para o facto de a crise do Estado social não se esgotar nas contas públicas nem no equilíbrio financeiro. Era também uma crise cultural e de legitimidade. A questão não consistia apenas em saber quanto custava o Estado, mas em compreender por que razão tantos cidadãos deixavam de reconhecer nele um instrumento da sua vontade coletiva. Quando a palavra parece inútil, a participação se converte em ritual e a ação política se reduz à escolha periódica de representantes, a violência insinua-se como atalho para a mudança. Promete chegar depressa onde o diálogo parece não chegar nunca. Esquece-se, porém, de que os atalhos também conduzem a becos sem saída — e de que o caminho de regresso é, muitas vezes, mais penoso do que aquele que nos levou até lá.
A violência possui, sem dúvida, uma racionalidade instrumental: escolhe meios, calcula efeitos, procura alcançar fins imediatos. O seu perigo começa quando os meios se emancipam dos fins, quando a destruição deixa de ser uma exceção e se transforma em linguagem, quando a brutalidade, de tanto se repetir, adquire a enganadora aparência da normalidade. Nesse momento, já não é apenas a ordem pública que está ameaçada. É a própria capacidade de uma sociedade se reconhecer como comunidade política, isto é, como lugar onde as diferenças podem coexistir sem que cada divergência se converta numa batalha.
É então que a política fica suspensa — e com ela a suspensão da possibilidade de resolver o conflito sem o entregar à brutalidade da força. Na sua expressão mais nobre, a política transforma antagonismos em debate, interesses em negociação e conflitos em decisões partilhadas. Não elimina a divergência, nem promete a harmonia fácil dos discursos oficiais; impede, isso sim, que a divergência tenha de acabar no esmagamento do adversário. A violência dispensa o argumento e exige a submissão. Uma vez aceite como método habitual, alimenta-se de si própria: cada golpe reclama uma resposta, cada resposta legitima um novo golpe, cada vítima descobre no sofrimento a justificação para a represália. No fim, todos se declaram ofendidos, todos reclamam justiça e quase ninguém se reconhece responsável pelo incêndio.
Talvez resida aqui uma das contradições mais inquietantes do nosso tempo: queremos viver em democracia, mas nem sempre aceitamos a disciplina interior que ela exige. Reclamamos autoridade, desde que não nos contrarie; exigimos liberdade, desde que não nos incomode; defendemos o diálogo, até ao instante em que o outro começa a falar. Somos tolerantes enquanto não somos contrariados, democratas enquanto a decisão nos favorece, pacifistas enquanto a indignação alheia não perturba a nossa tranquilidade. Depois, surpreendemo-nos com a violência, como se ela tivesse chegado de um mundo estranho e não fosse também, por vezes, o resultado das nossas renúncias, das nossas cumplicidades e da nossa incapacidade de escutar.
E assim vamos acampando violências, nas ruas e nas consciências, diante das instituições e dentro delas, convencidos de que a força poderá realizar aquilo que a razão, a justiça e a política não conseguiram. Esquecemo-nos de que a violência pode conquistar um espaço, impor uma vontade, derrubar uma porta ou silenciar uma multidão. O que não consegue, por si só, é construir uma casa comum. Para isso são precisos outros instrumentos, menos espetaculares e mais exigentes: confiança, responsabilidade, justiça, liderança e a difícil disposição de reconhecer no adversário alguém com quem teremos, a inevitabilidade de continuar a viver.
O confronto físico até pode ditar quem sai vitorioso, mas nunca definirá quem tem razão ou quem tem legitimidade. Afinal, a violência destrói, mas não tem a competência para reconstruir uma vida digna nos dias que se lhe seguirão.
E talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer antes de cada confronto, antes de cada palavra incendiária e de cada gesto que se julga irreversível: quando a violência toma o lugar da política, quem ganha verdadeiramente o poder — e quem fica, afinal, sem ele?
Fernando Alexandre afirmou, na China, que as novas orientações para utilizar a inteligência artificial (IA) nas escolas não terão caráter vinculativo. O ministro da Educação, Ciência e Inovação defende uma abordagem pedagógica que permita acompanhar a evolução da tecnologia, tendo como prioridade melhorar as aprendizagens.
“São orientações”, sublinhou à Lusa, em declarações prestadas na sexta-feira, 16 de outubro, à margem da Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento do Ensino Profissional e Técnico, em Tianjin.
O governante reconheceu que a IA oferece oportunidades para desenvolver as competências dos alunos e melhorar as práticas pedagógicas, mas também apresenta riscos que mudam com o aparecimento de novas aplicações.
“Uma das mensagens nas orientações é precisamente a capacidade de adaptação àquilo que são as novas aplicações que vão surgindo, as novas possibilidades”, explicou.
Documento em consulta pública após um ano de trabalho
As orientações resultam de um trabalho desenvolvido ao longo do último ano, com a auscultação de várias entidades e a recolha de centenas de contributos.
O documento foi colocado em consulta pública em 15 de outubro, procurando agora receber novas contribuições das escolas e da comunidade educativa.
Fernando Alexandre adiantou que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que acompanha a reforma do sistema educativo português, deverá também contribuir para o texto, nomeadamente na área da transformação digital.
Ministro defende avaliação dos benefícios das ferramentas digitais
O desenvolvimento das competências digitais ocupa um lugar central na estratégia do Governo, afirmou o ministro. Ressalvou, contudo, que a introdução de ferramentas nas escolas deve ser acompanhada de regras e de uma avaliação dos seus benefícios.
Como exemplos, apontou a regulamentação do uso dos telemóveis nas escolas e a diminuição do recurso aos manuais digitais nos últimos dois anos.
“Aquilo que aconteceu nos últimos dois anos foi uma redução até significativa do uso dos manuais digitais, precisamente porque a evidência do seu benefício não era óbvia”, declarou.
Inteligência artificial também coloca desafios à avaliação
Questionado sobre a possibilidade de reforçar as provas orais e presenciais, numa altura em que muitos trabalhos são realizados com recurso à IA, Fernando Alexandre considerou que essa preocupação é particularmente relevante no ensino superior.
“No básico e no secundário, isso não tem uma grande relevância”, afirmou, referindo-se ao peso dos trabalhos realizados fora da sala de aula na avaliação dos estudantes.
O governante reconheceu, porém, que a utilização da tecnologia tem consequências nas duas vertentes: “Estas orientações afetam não apenas o ensino, como também a avaliação”.
Recordou ainda que, enquanto professor universitário, já tinha alterado o modelo de avaliação de uma disciplina em resposta à utilização destas ferramentas.
“Em 2022, mudei no próprio semestre a avaliação, porque tinha um ensaio e ele foi alterado para apresentações orais”, afirmou.
A mobilização em Faro foi destacada pela porta-voz do movimento pela habitação, Cristiana Leal, num balanço em que classificou a semana de protestos no Porto como o “despertar de um povo”. Em declarações à Lusa no sábado, 17 de outubro, assegurou que o movimento continuará depois de terminar a autorização municipal para se manifestar na Praça D. João I.
“Em Faro também está a haver muita mobilização e eu acredito que vão ser grandes manifestações”, afirmou, sublinhando que “isto não é uma luta só do Porto, isto é uma luta do país inteiro”.
Questionada sobre as ações previstas para esse dia noutras cidades, a porta-voz referiu também informações positivas sobre a mobilização na Madeira e destacou os preparativos em Lisboa, tanto para a manifestação como para a acampada anunciada para depois.
Participantes recebidos com palmas na manifestação da CGTP
Cerca de uma centena de pessoas do movimento integrou a manifestação da CGTP, que reuniu milhares de participantes no Porto. A marcha partiu da Praça da Batalha e terminou na Praça D. João I, centro dos protestos pela habitação ao longo da semana.
À chegada, os elementos do movimento foram recebidos com palmas.
“Fomos recebidos com todo o carinho, as pessoas sabem que nós estamos a lutar pelo mesmo que elas, estamos todos a lutar pelo mesmo e é só isso que importa”, afirmou Cristiana Leal.
A porta-voz, identificada pela Lusa como uma das vítimas da carga policial que terminou com a acampada na madrugada de quinta-feira, considerou que a mobilização alcançada representa uma vitória.
“Nós, numa semana, conseguimos mobilizar todas estas pessoas, conseguimos que outras cidades se mobilizassem para se juntar a nós”, salientou.
Movimento quer prosseguir depois de 20 de outubro
Na mesma intervenção, Cristiana Leal apelou à participação na assembleia popular então agendada para as 19:00 de sábado, na Praça D. João I.
A autorização da Câmara do Porto para os protestos naquele espaço é válida até 20 de outubro, mas a porta-voz garantiu que o seu termo não determinará o fim do movimento.
“Este movimento começou e não vai parar, porque as condições de vida são as que são, ainda não mudaram e enquanto elas não mudarem o movimento não para”, declarou.
Caráter apartidário não impede aproximação a outras causas
Questionada sobre uma eventual associação a outras causas por ter participado na marcha da CGTP, Cristiana Leal respondeu que não se opõe a essa ligação quando estão em causa “a melhoria das condições de vida e o aumento dos salários”.
“Nós somos um movimento apartidário, mas os partidos são formados por pessoas e essas pessoas estão connosco e estão com o nosso movimento”, afirmou.
A porta-voz criticou ainda o presidente da Câmara do Porto, que acusou de ter “agredido e atacado” os manifestantes.
Apesar de participarem na marcha, os membros do movimento não foram autorizados a discursar, uma situação que Cristiana Leal desvalorizou. Depois de entoarem o hino nacional, os jovens gritaram “Pedro Duarte, demissão”.
Uma roda de ferro, feita por um ferreiro para um menino brincar, pode parecer um episódio pequeno. Nas palavras de Arménio Aleluia Martins, torna-se memória de uma pessoa, de um ofício e de uma terra. O menino era ele; o ferreiro, José Martins.
Talvez esteja aqui uma das qualidades mais bonitas do seu percurso: reconhecer grandeza onde outros poderiam ver apenas uma história sem importância. Aos 86 anos, o jornalista e escritor publica Cidadãos que Conheci em Paderne, o seu 13.º livro. Reúne 63 biografias, cruzando recordações com fotografias, documentos e testemunhos. Mas faz mais do que guardar o passado: devolve presença às pessoas que ajudaram a construir a comunidade.
A entrevista publicada nesta edição mostra um homem para quem o afeto não dispensa o rigor. A gratidão, explica, não autoriza a acrescentar qualidades ou acontecimentos. É uma lição de jornalismo e também de respeito: homenagear alguém exige conhecer a sua vida, não inventar-lhe uma grandeza conveniente.
Esse compromisso atravessa um percurso que merece reconhecimento. Dirigiu A Avezinha, Hora de Albufeira e Diário do Algarve, trabalhou na rádio e nas agências noticiosas e fundou a Biblioteca-Museu do Jornal A Avezinha. Ao jornalismo juntou o associativismo, o teatro, a música e o desporto. Não se limitou a contar a vida da sua terra: participou nela.
Ao recordar Maria da Conceição Elói e Maria Feliciana Marim Marques, entre as fundadoras de A Avezinha, dá também lugar às mulheres que escreveram e fizeram a história local.
Paderne pode orgulhar-se deste trabalho. E o Algarve deve reconhecer ne-le uma forma de serviço público: preservar aquilo que nenhuma estatística consegue substituir, a experiência concreta das pessoas. Uma região também se conhece pela atenção que dedica a quem a construiu, longe da notoriedade.
Esta homenagem não pretende encerrar um percurso. Pretende agradecer uma presença e acompanhar o trabalho que continua. Quem dedicou tantas páginas aos outros merece encontrar, nestas páginas, o reconhecimento da comunidade.
A roda do ferreiro sobreviveu na memória do menino. Arménio transforma agora essa memória numa herança partilhada.
Ernesto Nuno Cabrita, empresário e guia turístico ligado à divulgação da história e do património de Faro, morreu na sexta-feira, 16 de outubro. O seu falecimento motivou, este sábado, mensagens de pesar do município, de associações e de amigos, que recordam os passeios pela cidade, a paixão pelas motas e a boa disposição com que recebia quem se cruzava consigo.
A morte ocorreu na sequência de um acidente de mota em Caliços. Como o POSTAL noticiou, o alerta para o despiste foi dado às 20h22, segundo o oficial de dia ao Comando Nacional da GNR, citado pela Lusa. A mesma fonte indicou que a vítima mortal era o condutor do motociclo e que não houve feridos.
Município recorda um homem que vivia Faro com orgulho
Numa publicação nas redes sociais, o Município de Faro lamenta o falecimento “prematuro e inesperado” de Ernesto Cabrita, destacando o seu trabalho como empresário e guia turístico e a ligação à cidade cuja história, identidade e memórias partilhava com os visitantes.
A autarquia sublinha o espírito empreendedor e a forma entusiasta como promovia Faro, contribuindo, através da sua atividade, para dar a conhecer o concelho.
“Ficando a memória de um homem que vivia Faro com genuíno orgulho e paixão”, escreve o município, que apresenta condolências à família, aos amigos e às pessoas que acompanharam o seu percurso pessoal e profissional.
Os passeios turísticos em tuk-tuk e, mais recentemente, numa réplica do Ford T surgem também nas recordações partilhadas por quem o conhecia.
“O Ernesto era Faro”
O deputado Cristóvão Norte recorda uma relação construída ao longo de muitos encontros, desde os tempos do liceu até à participação em listas autárquicas, passando pelas conversas no café e na rua.
Na homenagem, evoca ainda Ernesto Cabrita como copiloto de ralis de Rui Ginjeira e uma expressão que se tornou a saudação entre ambos: “Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe!”
“O Ernesto estava sempre por aí, como se fizesse parte da paisagem humana de Faro. Para mim, fazia”, escreve Cristóvão Norte, que lembra também o orgulho com que o guia lhe explicou os pormenores da réplica do Ford T.
O testemunho destaca a generosidade, o entusiasmo e a capacidade de proporcionar bons momentos a quem o rodeava. “Tinha essa raríssima qualidade de distribuir boa disposição”, afirma, encerrando a despedida com as palavras: “Até sempre, Ernesto. O Ernesto era Faro.”
Moto Clube, confraria e comerciantes prestam homenagem
O Moto Clube de Faro confirmou o falecimento do seu sócio e membro, descrevendo-o como “uma pessoa especial, de sorriso fácil, sempre alegre e bem-disposto”.
Na nota de pesar, o clube recorda um profundo conhecedor de Faro, das suas gentes e memórias, que gostava de partilhar esse conhecimento. Destaca igualmente a sua companhia nas viagens de mota, “sempre pronto a partilhar a estrada e os bons momentos”.
A Confraria Marinha da Ria Formosa, da qual Ernesto Nuno Cabrita também fazia parte, assinala o seu compromisso com a preservação e valorização do património marítimo, cultural e ambiental da região.
A organização, que indica 16 de outubro como a data do falecimento, recorda o guia turístico e responsável pelo projeto Look Al – Cultural Experience como um membro dedicado. “A sua partida priva-nos de um homem de causas, de um amigo e de um confrade exemplar”, escreve.
Também a Associação do Comércio da Baixa de Faro salienta o contributo de Ernesto Cabrita para divulgar a riqueza cultural e patrimonial da cidade. Na sua mensagem, descreve-o como “um defensor incansável do nosso património, de um amigo e de um dinamizador exemplar”.
A equipa das Ruínas Romanas de Milreu juntou-se às manifestações de pesar, recordando Ernesto Nuno Cabrita como “um farense orgulhoso da história da sua terra e amigo de Milreu”.
Na publicação, a equipa refere que, ao longo de mais de duas décadas, Ernesto e o seu tuk-tuk levaram centenas de visitantes ao monumento. Destaca a simpatia e a boa disposição que marcaram essa relação, bem como “uma alegria que iremos recordar com carinho”.
A nota de pesar termina com a apresentação de condolências à família e aos amigos.
Das voltas de mota às histórias contadas aos visitantes
As homenagens de amigos recuperam episódios de convivência e diferentes facetas do guia turístico.
Jorge Carvalho da Silva partilhou a recordação de um passeio de mota ao Alto do Malhão e destacou a capacidade de Ernesto Cabrita para contar histórias e prender a atenção de quem o ouvia.
“Conhecias Faro como poucos e, ao volante do teu Tuk Tuk, levavas os turistas a descobrir a nossa cidade”, escreveu. Na mesma publicação, recordou os encontros em Bordeira, nas charolas, e o início do ano vivido entre rimas.
Marta Correia evocou o empreendedor farense ligado à Look-Al e aos passeios em tuk-tuk, associando-lhe a expressão “#AskErnesto”. Na sua homenagem, escreveu que deixou “um legado de histórias, paixões, sorrisos e abraços”.
Manel DaCulatra recordou a amizade com Ernesto e o contributo do guia turístico para dar a conhecer a história de Faro. Na sua publicação, descreveu-o como um homem inteligente, culto e apaixonado pelo que fazia.
“No turismo histórico de Faro, deixaste a tua marca, partilhando o teu conhecimento e ajudando a dar vida à história da nossa terra”, escreveu.
Para além do percurso profissional, a homenagem destaca o caráter, a humildade e a amizade sincera de alguém que deixou uma marca na vida de quem o conheceu. “Faro perde alguém que conhecia e valorizava a sua história. O turismo perde um homem que fazia a diferença. E eu perco um amigo de quem gostava muito e cuja ausência vou sentir”, afirmou.
“Parte o homem, fica a memória. Parte a presença, fica a saudade”, acrescentou, encerrando a despedida com as palavras: “Faro ficou mais pobre. Eu também. Até sempre, pequeno grande homem.”
O restaurante “O David”, em Faro, juntou-se às manifestações de pesar, lembrando alguém que passou de cliente a amigo e ajudou a divulgar o estabelecimento junto de outras pessoas.
“Tu foste muito mais do que um cliente, Ernesto”, lê-se na publicação. O restaurante agradece a amizade e o apoio, descrevendo a morte como uma perda inesperada.
Paulo Castro, numa outra mensagem, recorda o sorriso e o contentamento com que Ernesto Cabrita saía para trabalhar no seu “Ford T”, levando a cultura farense aos turistas que visitavam a cidade.
Publicações questionam lomba, mas causas do despiste não estão esclarecidas
Além das homenagens, algumas publicações nas redes sociais levantam dúvidas sobre a segurança rodoviária no local.
Paulo Castro e Augusto José Guerreiro associam o acidente a uma lomba que descrevem como estando instalada numa curva. Guerreiro, numa publicação identificada com a localização de Caliços, questiona também a inclinação da via e o desgaste do piso, defendendo que as lombas deveriam ter sido colocadas nas retas anteriores, para obrigar os veículos a reduzir a velocidade antes da curva.
Nos comentários surgem opiniões divergentes. Alguns participantes contestam a localização da lomba e questionam a sinalização, enquanto outros defendem a sua função de redução da velocidade e salientam a necessidade de adaptar a condução às condições da estrada.
Estas apreciações não constituem uma conclusão sobre as circunstâncias do acidente. A informação da GNR divulgada pelo POSTAL confirma o despiste e a morte do condutor, mas não identifica as causas nem estabelece uma ligação entre a lomba e o acidente ou atribui responsabilidades.
Não me seduz o hábito, tão português como a sardinha assada e a indignação de café, de distribuir qualificações às personalidades políticas como quem distribui cartas num serão de província. Também não é de dar crédito à ideia de que a simples ocupação de um cargo transforme um cidadão numa figura providencial. Se a cadeira ministerial tem a vantagem de permitir que uma pessoa se sente, não consta que lhe acrescente inteligência, carácter ou visão.
Ainda assim, seria razoável exigir de quem aspira a governar os outros algumas qualidades que o distingam dos demais. Chamam-lhes líderes. A palavra, outrora associada à autoridade, à visão e à capacidade de mobilização, parece hoje designar, por vezes, um campeão da resistência passiva, aquele que chegou ao lugar e conseguiu permanecer nele sem que ninguém o desalojasse.
A oposição é, por natureza, um terreno propício ao surgimento de líderes. Quando o poder hesita, pode propor; quando o Governo falha, pode apresentar alternativas; quando o país se inquieta, pode demonstrar que existe outro caminho. É, pois, desconcertante olhar para um dos partidos fundadores da democracia portuguesa e encontrar tamanha dificuldade em fazer emergir uma figura capaz de lhe devolver ambição, entusiasmo e sentido de futuro.
O espetáculo é, por vezes, confrangedor. De um lado, um espanto burocrático; do outro, uma espécie de fofura política, tão embalada na sua moderação que até as críticas parecem pedir licença antes de sair. Uma política de pantufas, sem arestas, sem sobressaltos e sem o inconveniente de acordar alguém.
Sobre a Administração Interna, os protagonistas e as polémicas ocupam o seu espaço. Sobre a TAP, foi Pedro Santos quem veio esclarecer. Sobre a Economia, Centeno continua a ser uma referência incontornável no confronto e na clarificação. Quando chega a vez da liderança da oposição, instala-se uma mornice de discursos redondos, declarações prudentes e ideias previamente submetidas a uma comissão de segurança.
Fala-se de alternativa, mas nem sempre se percebe qual; fala-se de futuro, mas o caminho permanece envolto em neblina; fala-se de liderança, mas pratica-se uma cautelosa administração das expectativas. O país pede um rumo e recebe uma intenção, pede uma ideia e recebe uma promessa de reflexão.
Ora, ser líder não consiste em comparecer com pontualidade, apertar mãos com urbanidade e pronunciar frases convenientemente vagas para que todos possam concordar.
Um líder precisa de comunicar com clareza, estabelecer prioridades, inspirar confiança e assumir responsabilidades. Precisa de empatia genuína, de capacidade para agregar vontades e, sobretudo, de coragem. Não se exige um incendiário, mas alguém que tenha a ousadia de defender uma ideia, a firmeza de tomar decisões.
A moderação é uma virtude quando nasce do discernimento. Quando nasce do medo de desagradar, não passa de uma apagada prudência eleitoral de gravata bem ajustada.
Também a apresentação conta. Não porque a política deva transformar-se num concurso de elegância, embora alguns pareçam acreditar que um fato bem cortado constitui meia reforma do Estado, mas porque a postura e a expressão devem transmitir confiança e autoridade. O problema surge quando a embalagem se transforma no principal argumento de venda e o conteúdo fica adiado para a próxima legislatura.
Há pessoas que entram numa sala e mexem com o ambiente. Outras entram, sentam-se e deixam tudo exatamente como estava. Ambas podem ser excelentes pessoas; nenhuma se torna líder apenas por isso.
Entretanto, a sociedade portuguesa parece bloqueada num estranho impasse. À esquerda, à direita ou ao centro, multiplicam-se as hesitações e os cálculos. Os problemas acumulam-se, os cidadãos tornam-se mais exigentes, mas uma parte da classe política continua a comportar-se como se cumprir o ritual democrático bastasse para merecer confiança.
Não basta. O eleitor já não procura apenas alguém que saiba falar; procura alguém que tenha alguma coisa para dizer. Há discursos pronunciados de forma tão impecável que não deixam vestígios na memória, nem vincos no espaço público: entram pelo ouvido, atravessam a expectativa e desaparecem sem produzir sequer a perturbação de uma ideia.
É certo que a liderança se aprende e aperfeiçoa. Mas uma coisa é aprender a liderar; outra é passar anos no lugar à espera de que a competência se manifeste, como um milagre administrativo.
E o entusiasmo? Onde está ele?
Não falo da agitação artificial dos comícios, mas daquela energia capaz de transformar uma ideia numa vontade coletiva. Quando ela falta, sobra a gestão do quotidiano: uma declaração num canal de TV, uma reunião acolá, uma promessa embrulhada com cuidado e a esperança de que a conjuntura resolva aquilo que a personalidade não consegue resolver.
E assim chegamos ao nosso moderado: bem-comportado, gravata impecável, voz serena e uma louvável preocupação de não partir um prato. É possível que venha a ser um bom ministro, competente na gestão de dossiers e prudente na decisão. Não seria justo negar-lhe essas virtudes. Mas há uma diferença entre administrar uma pasta e conduzir um partido, entre gerir uma estrutura e inspirar uma comunidade.
Nas aldeias, costuma dizer-se que as pessoas são para aquilo para o que nascem. Não será uma sentença definitiva, pois há capacidades que se conquistam com trabalho. Mas a política parece ter esquecido uma verdade elementar: nem todos os lugares servem a todas as pessoas, e nem todos os que chegam ao topo estão preparados para ocupá-lo.
Talvez o drama da nossa classe política resida justamente na facilidade com que confunde a ausência de escândalo com a presença de mérito, a prudência com a visão e a sobrevivência partidária com a capacidade de mobilização.
Continuamos, assim, a assistir ao desfile dos que bem dominam a arte de não desagradar a ninguém. Falam sem se comprometer, prometem sem se expor e permanecem sem transformar. Uma qualidade preciosa para quem pretende passar despercebido.
Para quem pretende liderar o país, já é outra história.
Preservar a memória de quem ajudou a construir Paderne é o propósito de Cidadãos que Conheci em Paderne, o 13.º livro de Arménio Aleluia Martins. Publicada pela Arandis Editora, a obra reúne 63 biografias de pessoas que o jornalista e escritor conheceu, cruzando recordações pessoais com fotografias e testemunhos de familiares e amigos. Das oficinas às associações, da poesia à imprensa, estes percursos ajudam a compreender a história da freguesia e a transmiti-la às novas gerações.
Das recordações pessoais à memória coletiva
Em Cidadãos que Conheci em Paderne, reúne 63 biografias de pessoas com quem conviveu. O que tornou necessário transformar essas relações pessoais numa memória partilhada da terra?
Foi a vontade de preservar a memória de pessoas que deram muito a Paderne, cada uma à sua maneira. Conheci-as, convivi com elas e guardei episódios que não dizem respeito apenas à minha vida. Através dessas pessoas, também podemos conhecer melhor a terra: o trabalho, as atividades culturais, as associações, as relações familiares e os gestos de solidariedade.
Quando comecei a escrever estas crónicas, estava longe de imaginar que um dia formariam um livro. O trabalho foi aproximando recordações e testemunhos, permitindo reunir histórias que fazem parte da identidade da nossa freguesia. Como escrevi na nota de abertura, foi, acima de tudo, um exercício de gratidão.
Também reconheço que ficaram pessoas por biografar. O tempo não permitiu registar todas as vidas que mereciam estar nestas páginas. Por isso, não apresento este livro como uma história completa de Paderne. É um contributo para que algumas dessas vidas continuem a ser conhecidas e para que outras possam ainda ser contadas.
“Escrever este livro foi, acima de tudo, um exercício de gratidão.”
Arménio Aleluia Martins. Fotos DR
Define este livro como um “exercício de gratidão”. Como conciliou o afeto pelos biografados com o rigor do jornalista, sobretudo ao cruzar as suas recordações com os testemunhos das famílias?
O afeto é uma razão para escrever, mas não deve substituir a informação. Conhecer uma pessoa permite recordar um gesto ou uma conversa; não significa conhecer todos os momentos da sua vida. Neste trabalho, a minha memória juntou-se à colaboração dos familiares e amigos dos biografados.
Essas pessoas facultaram-me informações, documentos e fotografias que foram fundamentais para construir os retratos. Não são apenas elementos que acompanham o texto: ajudam a situar as pessoas nas suas famílias, nas suas atividades e na comunidade. A disponibilidade e a confiança de quem colaborou deram uma dimensão mais ampla às recordações que eu tinha guardado.
Entendo a gratidão como o reconhecimento do que alguém fez, e não como uma licença para lhe acrescentar qualidades ou acontecimentos. O respeito por estas pessoas pede que a homenagem permaneça ligada às suas vidas concretas. Foi esse património humano que procurei preservar, com a ajuda de quem também o conheceu.
O valor dos gestos e das vozes menos ouvidas
No retrato do ferreiro José Martins, recorda uma roda que ele lhe fez para brincar. O que torna alguém digno de figurar na história de uma terra, para além dos cargos ou da notoriedade?
A marca que deixa na vida dos outros. No caso de José Martins, guardo a recordação de um homem que, na sua oficina, transformou um pedaço de ferro numa roda com a qual percorri as ruas da aldeia. É um episódio simples, mas permite recordar uma pessoa através das suas mãos, do seu ofício e da relação que estabeleceu comigo.
Um cargo pode ajudar a compreender um percurso, mas não o resume. Uma terra também se constrói com o trabalho de quem mantém uma oficina, ensina, toca numa banda, escreve versos ou participa numa associação. É importante olhar para essas contribuições sem medir todas as vidas pela mesma forma de reconhecimento.
No retrato de José Martins, acompanho também a família e o percurso das filhas, ligadas ao ensino, à poesia, à economia, ao teatro e à solidariedade. Essa continuidade ajuda a perceber que uma biografia não termina na atividade profissional de uma pessoa: prolonga-se nas relações que criou e na vida da comunidade.
Conta que Amélia da Silva Júdice rasgava os próprios poemas por receio de não serem aceites. Que dificuldades encontrou ao recuperar o contributo das mulheres para a vida cultural de Paderne?
A história de Amélia mostra logo uma dificuldade: uma parte da criação não chegou a conservar-se. Os poemas que rasgou deixaram de poder ser lidos. Ficou, porém, o testemunho desse receio e ficou a obra que mais tarde partilhou. Depois da morte do marido, começou a escrever com maior frequência e a publicar em A Avezinha. Os filhos promoveram depois, no Brasil, a edição dos seus livros.
É importante não confundir a falta de oportunidade ou de reconhecimento com a ausência de talento. No livro, refiro as limitações que Amélia encontrou no acesso aos estudos. Outro percurso é o de Albertina Coelho Rodrigues, que não frequentou a escola e cuja poesia guardada na memória encontrou ajuda para chegar à escrita. São experiências diferentes, mas ambas mostram quanto dependia de alguém escutar, incentivar e conservar.
Quero, neste contexto, dar especial relevo a Maria da Conceição Elói. Apesar de não ter prosseguido os estudos depois da escola primária, continuou a aprender através da leitura dos clássicos e do contacto com pessoas que lhe proporcionaram conhecimentos de francês e de piano. Ao longo de cerca de setenta anos, escreveu poesia, contos, novelas e crónicas jornalísticas. A sua atividade literária esteve também ligada à vontade de ajudar os mais desfavorecidos, preocupação que esteve na origem do jornal manuscrito A Avezinha, em 1921.
Quero igualmente destacar Maria Feliciana Marim Marques, uma das quatro fundadoras do jornal, que assinava com o pseudónimo “Violeta”, enquanto Maria da Conceição Elói usava “Madressilva”. Recordá-las é reconhecer que as mulheres não foram apenas tema das páginas da imprensa local: estiveram também na sua origem, tomando a iniciativa de escrever e de comunicar com a comunidade.
Ao recuperar estas vidas, interessa-me que as mulheres sejam conhecidas pelo que criaram e fizeram, e não apenas pelas suas relações familiares. O que sobreviveu merece ser lido; o que se perdeu deve lembrar-nos a importância de dar atenção às vozes que ainda podemos ouvir.
“Cada conversa foi uma descoberta; cada memória partilhada, uma peça indispensável do património humano de Paderne.”
Trabalho, mudança e imprensa regional
A história de José Cordeiro Bispo e da sua família passa da cerâmica ao turismo. Como ajudam estes percursos a compreender as mudanças de Paderne e do Algarve para além da imagem de destino de férias?
Ajudam a perceber que, por detrás de uma transformação económica, existem pessoas, decisões, trabalho e relações familiares. José Cordeiro Bispo chegou a Paderne em 1960, com António Simões Vicente, para negociar uma pequena fábrica de tijolos e telhas em Mem Moniz. A atividade começou em arrendamento e passou depois à propriedade. Naquele espaço, onde tinham existido um lagar e uma moagem, desenvolveu-se o trabalho da cerâmica.
O seu percurso estendeu-se a outros investimentos, e a família deu continuidade aos projetos turísticos em Albufeira. Essa continuidade é importante: não se trata apenas da história de um empresário, mas de um caminho prosseguido por diferentes gerações.
Quando acompanhamos estas vidas, encontramos um Algarve de agricultores, oficinas, fábricas, comércio e associações, e percebemos como essas atividades se relacionaram com o turismo. A região não pode ser compreendida apenas através daquilo que oferece a quem a visita. É também o lugar onde as pessoas trabalham, constituem família e constroem o seu futuro. As biografias permitem dar nomes e percursos a essa história.
A imprensa regional e a memória das suas fundadoras
Recorda a oferta de décadas de exemplares de A Avezinha por uma assinante. Que parte da história de Paderne e do Algarve ficaria por contar sem o trabalho da imprensa regional?
Ficaria muito mais difícil conhecer a vida quotidiana das comunidades. A imprensa regional dá espaço a pessoas, iniciativas e acontecimentos que, muitas vezes, não encontram lugar noutros jornais. E aquilo que parece pequeno quando é publicado pode tornar-se indispensável para compreender uma época.
A oferta foi feita por D. Paula Trindade Anacleto, uma assinante dedicada de A Avezinha, quando o jornal regressou à publicação. Entregou-me exemplares desde a fundação até 19 de dezembro de 1949. No livro, recordo essa documentação, guardada na Biblioteca-Museu do Jornal A Avezinha e integrada no Arquivo Municipal de Albufeira. Foi um gesto de preservação com valor para toda a comunidade.
Preservar o jornal é também preservar a memória de quem lhe deu vida. Por isso, faço questão de lembrar Maria da Conceição Elói e Maria Feliciana Marim Marques entre as suas fundadoras. Quando A Avezinha retomou a publicação, em maio de 1977, Maria da Conceição Elói assumiu a direção. Havia nessa continuidade uma ligação entre a origem do jornal e a vontade de o devolver aos leitores de Paderne.
A ligação à poetisa teve ainda outra expressão importante: depois da sua morte, A Avezinha promoveu a publicação dos seus versos em livro, concretizando um desejo que ela não realizara em vida. Com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Albufeira, Ecos da Minha Voz saiu em janeiro de 1983, com o título que a própria autora escolhera. É um exemplo concreto de como um jornal pode ajudar a preservar e a divulgar a criação literária de uma comunidade.
O próprio livro mostra também o papel do jornal na divulgação da poesia de Amélia da Silva Júdice e de Maria de Lurdes, filha do ferreiro José Martins. A imprensa não guardou apenas notícias: ajudou a tornar visível uma criação que podia ter permanecido nas gavetas. É essa ligação entre informação, cultura e proximidade que considero tão importante conservar.
“Porque uma terra vive das suas paisagens, mas perdura sobretudo pela memória das suas gentes.”
Uma herança para continuar
Escreve que uma terra perdura pela memória das suas gentes. O que gostaria que um jovem de Paderne fizesse com este livro, para que ele não se limitasse a guardar o passado?
Gostaria que o usasse como ponto de partida para fazer perguntas. Que procurasse saber quem foram as pessoas cujos nomes encontra nas ruas, nas associações ou nas conversas da família. Que olhasse para uma fotografia antiga e tivesse vontade de identificar os rostos, o lugar e a ocasião.
Não lhe pediria que vivesse voltado para trás, nem que repetisse o caminho destas pessoas. Cada geração tem a sua vida para construir. Mas conhecer o que outros fizeram pode ajudar a perceber melhor aquilo que recebemos e a responsabilidade de lhe dar continuidade.
Há também histórias que não couberam neste livro. Um jovem pode encontrar, na sua própria família ou entre os vizinhos, testemunhos que acrescentem outras páginas à memória de Paderne. Gostaria que a leitura despertasse essa curiosidade e esse cuidado.
Se este trabalho levar alguém a ouvir uma pessoa mais velha, a conservar um documento ou a contar uma história que ainda não foi registada, já estará a fazer mais do que guardar o passado. Estará a preparar aquilo que as gerações seguintes poderão conhecer de nós.
Arménio Aleluia Martins: uma vida entre a imprensa, a cultura e Paderne
O jornalismo, a música, o teatro, o desporto e o associativismo cruzam-se no percurso de Arménio Aleluia Martins. Aos 86 anos, o escritor padernense publica Cidadãos que Conheci em Paderne, o seu 13.º livro, dando continuidade a uma atividade em que a informação, a criação cultural e a memória da comunidade ocupam lugares centrais.
A sua formação passou pelos cursos de Guia-Intérprete, pelo SNI, e de Direito do Trabalho, pelo ITE, a que se juntou o curso de Jornalismo e Gestão do Centro de Formação dos Jornalistas de Paris. Em França, estagiou no diário Le Progrès, em Lyon, antes de regressar a Portugal e desenvolver uma carreira ligada a jornais, rádios e agências noticiosas.
Dos jornais à rádio
Arménio Aleluia Martins dirigiu os jornais regionais A Avezinha, Hora de Albufeira e Diário do Algarve. Na rádio, foi diretor de informação da Rádio Albufeira e da Rádio Barrocal e colaborou com a RDP.
Foi também correspondente do Diário de Notícias e delegado no Algarve da agência noticiosa ANOP e do jornal O País. A estas funções somam-se colaborações com outros jornais e estações de rádio, regionais e nacionais. A ligação à preservação documental tem expressão na Biblioteca-Museu do Jornal A Avezinha, em Paderne, de que é fundador. O novo livro prolonga esse interesse pela memória: reúne biografias acompanhadas de fotografias, num trabalho que contou com informações e documentos facultados pelas famílias.
Uma presença nas associações e na vida cultural
No movimento associativo, presidiu à Associação de Imprensa Regionalista do Algarve, ao Clube de Golfe da Comunicação Social, ao Padernense Clube, à Sociedade Musical e Recreio Popular de Paderne e ao Imortal Basket Club.
A nota biográfica fornecida ao POSTAL identifica-o ainda como presidente da direção do Grupo de Amigos de Paderne e das assembleias da Casa do Povo de Paderne, da Casa do Benfica em Albufeira e da Associação Prime Skills, além de dirigente da Associação de Pesquisa e Estudo da Oralidade.
A participação cultural não se limitou às funções diretivas. Foi ator e diretor de grupos de teatro, músico na banda da Sociedade Musical de Paderne e monitor de cursos de teatro e jornalismo. É autor e coordenador editorial de livros e revistas, tendo também proferido palestras e apresentado trabalhos em congressos.
Reconhecimento pelo trabalho desenvolvido
Entre as distinções recebidas encontram-se a Medalha de Honra Municipal de Grau Ouro, atribuída pela Câmara Municipal de Albufeira, e o Louvor de Mérito Jornalístico da Comunicação Social Regional e Local, atribuído pelo Secretário de Estado do Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro.
Foi igualmente homenageado pelo Governo Civil de Faro e distinguido como Profissional do Ano pelo Rotary Club de Albufeira.
Com Cidadãos que Conheci em Paderne, publicado pela Arandis Editora, com prefácio de Nuno Campos Inácio e apoio da Junta de Freguesia de Paderne, volta a centrar a escrita nas pessoas da sua terra. As 63 biografias recuperam percursos que conheceu e acompanhou, acrescentando ao registo dos nomes as atividades, as relações e as histórias que os ligaram à comunidade.
A mobilização em Faro foi destacada pela porta-voz do movimento pelo direito à habitação, Cristiana Leal, que considera que os protestos assumem uma dimensão nacional. Em declarações à Lusa este sábado, 17 de outubro, garantiu que o movimento continuará depois de terminar a autorização municipal para se manifestar na Praça D. João I, no Porto.
“Em Faro também está a haver muita mobilização e eu acredito que vão ser grandes manifestações”, afirmou, sublinhando que “isto não é uma luta só do Porto, isto é uma luta do país inteiro”.
A porta-voz referiu também ter informações positivas sobre a mobilização na Madeira e apontou “uma grande mobilização” em Lisboa, tanto para a manifestação como para a acampada prevista a seguir.
Semana de protestos foi “o despertar de um povo”
Cristiana Leal fez o balanço após participar na manifestação da CGTP, que reuniu milhares de pessoas no Porto. A marcha partiu da Praça da Batalha e terminou na Praça D. João I, centro dos protestos do movimento ao longo da última semana.
Cerca de uma centena de pessoas do movimento integraram a manifestação e foram recebidas com palmas à chegada à praça.
“Esta última semana foi uma vitória e foi o despertar de um povo”, afirmou a porta-voz, destacando a capacidade de mobilizar participantes, envolver outras cidades e manter os protestos durante uma semana.
“Fomos recebidos com todo o carinho, as pessoas sabem que nós estamos a lutar pelo mesmo que elas, estamos todos a lutar pelo mesmo e é só isso que importa”, acrescentou.
Segundo a Lusa, Cristiana Leal foi uma das vítimas da carga policial que pôs fim à acampada na madrugada de quinta-feira.
Assembleia popular marcada para as 19:00
A porta-voz apelou à participação na assembleia popular agendada para as 19:00 deste sábado, na Praça D. João I.
A autorização da Câmara do Porto para os protestos naquele espaço termina em 20 de outubro, mas Cristiana Leal assegurou que isso não determinará o fim da mobilização.
“Este movimento começou e não vai parar, porque as condições de vida são as que são, ainda não mudaram e enquanto elas não mudarem o movimento não para”, declarou.
Movimento reafirma caráter apartidário
Questionada sobre a possibilidade de a participação na marcha da CGTP associar o movimento a outras causas, a porta-voz respondeu que não se opõe a essa ligação quando estejam em causa “a melhoria das condições de vida e o aumento dos salários”.
“Nós somos um movimento apartidário, mas os partidos são formados por pessoas e essas pessoas estão connosco e estão com o nosso movimento”, afirmou.
Cristiana Leal criticou ainda o presidente da Câmara do Porto, que acusou de ter “agredido e atacado” os manifestantes.
Apesar de participarem na marcha, os membros do movimento não foram autorizados a discursar, uma situação que a porta-voz desvalorizou. Depois de entoarem o hino nacional, os jovens do movimento gritaram “Pedro Duarte, demissão”.
Uma criadora de conteúdos digitais, de 26 anos, residente em Portimão, foi detida pela Polícia Judiciária (PJ) por suspeita de planear o rapto de um seguidor de Espinho. Segundo o Jornal de Notícias (JN), a mulher pretendia recuperar 3.500 euros que tinha transferido para uma viagem à Grécia.
Identificada pelo jornal como Mia, a influenciadora do TikTok e do Instagram terá pedido a outro seguidor, de 28 anos, residente em Santa Maria da Feira, que executasse o plano. O homem, também produtor de conteúdos na internet, foi igualmente detido.
De acordo com o comunicado da PJ citado pela Lusa, os dois são suspeitos dos crimes de sequestro, roubo e coação agravados e de posse de arma proibida.
Desentendimento sobre férias motivou pedido de devolução do dinheiro
A mulher conheceu nas redes sociais o jovem de 20 anos que viria a ser alvo do alegado plano. Depois de manterem contactos à distância, decidiram passar férias juntos e dividir as despesas, ficando o rapaz responsável pelas reservas e pelo pagamento.
Segundo a PJ, após um desentendimento, a suspeita exigiu a devolução do dinheiro que lhe tinha transferido. O reembolso não foi possível porque a tarifa das reservas não era reembolsável.
O JN adianta que a influenciadora acreditou ter sido burlada e procurou recuperar o montante com a ajuda do outro suspeito. O objetivo, descreveu a PJ, era “atrair o ofendido a um encontro com o intuito de o constranger a devolver o referido montante”.
Dois jovens ameaçados com arma de fogo
Os factos ocorreram em 17 de julho. O jovem visado compareceu no encontro acompanhado por um amigo de 18 anos, mas os suspeitos terão prosseguido com o plano.
Segundo a investigação, o homem de 28 anos obrigou os dois jovens, sob ameaça de arma de fogo, a circular de automóvel durante cerca de uma hora por ruas de Espinho e de Vila Nova de Gaia. Durante o percurso, exigiu a devolução do dinheiro reclamado pela mulher.
A PJ refere que a execução do plano “só foi interrompida pela aproximação de uma viatura policial, que motivou a fuga do autor material”.
Após a apresentação de queixa, a investigação permitiu identificar e localizar os suspeitos, detidos em Portimão e em Santa Maria da Feira, de acordo com o JN. A Judiciária adiantou ter recolhido elementos de prova que reforçam os indícios.
Tribunal impõe apresentações três vezes por semana
Segundo o JN, numa informação também reproduzida pela revista VIP, os dois detidos foram ouvidos no Tribunal de Instrução Criminal e ficaram sujeitos a apresentações três vezes por semana às autoridades e a proibição de contacto.
O homem ficou ainda proibido de possuir armas de fogo.
A iniciativa “Alte pela janela do tempo” integra a participação do Algarve nas comemorações do Dia Internacional do Património Cultural Imaterial, assinalado este sábado, 17 de outubro. A programação nacional reúne cerca de 50 atividades dedicadas à descoberta e valorização do património imaterial.
No Porto, a Casa das Artes acolhe a celebração promovida pelo instituto Património Cultural, com a abertura da exposição itinerante “Culturas Vivas – Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial 2026”, segundo a Lusa.
Exposição e esclarecimentos sobre a salvaguarda das manifestações culturais
A mostra reflete o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI), que recebeu 14 novas manifestações até setembro deste ano, elevando o total para 89 inscrições.
O objetivo é “estimular a reflexão sobre memória coletiva, transmissão de conhecimentos e construção das identidades”, explica o instituto público.
A Casa das Artes recebe também a ação “Património Imaterial na Hora”, com sessões de esclarecimento sobre os procedimentos de inventariação, asseguradas por técnicos do Património Cultural e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte.
A iniciativa procura “aproximar o público dos mecanismos de salvaguarda, incentivando as comunidades a identificar, documentar e valorizar as suas manifestações culturais”.
Catorze novas entradas abrangem festas, artes e saberes tradicionais
Entre as manifestações inscritas este ano estão o Entrudo de Lazarim, o Combate da Coca, de Monção, o Andor da Senhora da Pena, no distrito de Vila Real, e o Cortejo dos Trajes de Papel de São Bartolomeu, no Porto.
A lista inclui também a Vela Votiva de Santa Marta de Portuzelo, em Viana do Castelo, o Figurado de Barcelos, a Dança da Morgadinha, de São João de Lourosa, em Viseu, e a Festa do Menino de Vila Chã de Braciosa, em Miranda do Douro.
Juntam-se a Tradição das Tunas do Marão e do Alvão, a Arte de Manuseamento e Construção do Bote Baleeiro das Lajes do Pico e a Arte dos Caldeireiros de Santa Marta de Rossas, no Minho.
Completam as novas inscrições a arte dos muros em pedra seca no Maciço Calcário de Sicó, na Região Centro, a Arte de Construções de Pedra Seca na Serra do Caramulo e a Feira da Golegã.
Programa nacional cruza gastronomia, música e práticas artesanais
Além da proposta algarvia, a programação inclui “Coimbra nas Rotas Culturais Europeias”, “O Saber fazer – A Farinha Torrada de Sesimbra”, “Os Órgãos de Tubos da Igreja dos Clérigos” e oficinas de Bordado de Arraiolos.
Estão igualmente previstas “A Safra do Sal”, em Aveiro, “Produção de Marmelada”, em Arganil, a “Exposição Etnográfica Saloia de Alvarinhos”, em Sintra, “Vozes, Saberes e Práticas”, no Funchal, e propostas ligadas aos Pauliteiros de Miranda.
As atividades distribuem-se por diferentes pontos do país, de Bragança ao Algarve e da Madeira ao Alentejo. A programação pode ser consultada no portal do instituto Património Cultural.
Portugal tem oito manifestações na lista representativa da UNESCO
O Dia Internacional do Património Cultural Imaterial é celebrado desde 2024. A data coincide com a adoção, em 17 de outubro de 2003, da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO, ratificada por Portugal em 2008.
Portugal conta com oito manifestações inscritas na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade: Fado, Dieta Mediterrânica, Cante Alentejano, Falcoaria, Figurado em Barro de Estremoz, Carnaval de Podence, Festas do Povo de Campo Maior e Arte Equestre.
Movimentos e coletivos do Algarve convocaram para este sábado, 17 de outubro, às 17:30, uma concentração na Rotunda do Fórum, em Faro, pelo direito à habitação, contra a repressão e em solidariedade com a acampada do Porto.
Os promotores sublinham que o Algarve “é uma das regiões onde é mais difícil comprar ou arrendar casa” no país, segundo a notícia da Lusa. A iniciativa integra uma jornada de protestos que inclui manifestações da CGTP em Lisboa, Porto e Coimbra contra o aumento do custo de vida.
CGTP contesta preços da habitação, combustíveis e alimentação
A central sindical convocou as manifestações sob o mote “Mais salário, melhores pensões e serviços públicos | Contra o aumento do custo de vida | Novo rumo para Portugal!”.
No Porto, o início foi marcado para as 10:30, com um percurso entre a Praça da Batalha e a Praça D. João I. Em Coimbra, à mesma hora, a mobilização liga a Rotunda Portugal dos Pequenitos à Praça 8 de Maio.
Em Lisboa, a manifestação está marcada para as 14:30, com partida do Cais do Sodré e chegada ao Rossio.
Em declarações à Lusa, o secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, afirmou que a iniciativa pretende dar voz a quem enfrenta dificuldades devido ao “brutal aumento” dos preços das casas, dos combustíveis e do cabaz alimentar. O dirigente criticou também a situação dos serviços públicos, defendendo que cada pessoa tenha “a oportunidade de lutar contra a política em curso”.
Movimento anuncia regresso das tendas à Praça D. João I
O protesto da CGTP no Porto termina na praça onde decorrem, há uma semana, ações pelo direito à habitação. A organização do movimento anunciou que voltará a montar tendas e a acampar no local.
“Voltaremos. Permaneceremos”, afirma num comunicado divulgado na sexta-feira, que prevê apoio à manifestação da CGTP às 12:00 e uma nova acampada às 19:00.
No fim de semana anterior, mais de 50 pessoas permaneceram na Praça D. João I após uma manifestação pelo direito à habitação e contra o custo de vida, realizada no Porto e noutras cidades.
Na madrugada de quinta-feira, o movimento denunciou uma carga policial que, segundo os manifestantes, terá provocado ferimentos em 39 participantes, dois dos quais em estado grave. Nessa noite, cerca de três mil pessoas juntaram-se aos manifestantes iniciais.
Tetos às rendas e mais habitação pública entre reivindicações
O movimento apresenta seis reivindicações principais. Contesta a lei das rendas, pede limites máximos aos valores do arrendamento, o fim dos despejos e da compra de imóveis por fundos abutres, mais habitação pública e a recuperação de imóveis devolutos para esse fim.
Funchal também tem manifestação contra o empobrecimento
Na Madeira, a delegação regional do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais convocou uma manifestação no Funchal, a partir das 10:00, sob o lema “Contra o Empobrecimento, pelos Direitos e por uma Vida Melhor”.
O sindicato sustenta que a inflação na região “mantém-se acima da média nacional, encarecendo ainda mais os bens e serviços essenciais”. Defende, por isso, que cabe ao Governo Regional adotar medidas concretas para responder às dificuldades acrescidas dos trabalhadores.
A Assembleia Distrital do PSD/Algarve aprovou por unanimidade uma moção do antigo deputado e diplomata da União Europeia José Mendes Bota que pede ao Governo uma solução legislativa de exceção para desbloquear obras da EN125, retirando da subconcessão intervenções cuja realização seja justificada por razões de segurança e interesse público.
O documento, aprovado em Faro a 12 de outubro e enviado ao POSTAL, considera “insustentável” o impasse jurídico que, segundo os subscritores, impede há mais de oito anos o avanço de obras de construção e requalificação. A proposta aponta a Variante de Olhão como exemplo de uma intervenção que foi retirada do contrato e executada sob responsabilidade direta da Infraestruturas de Portugal (IP).
Troço entre Olhão e Vila Real de Santo António no centro das críticas
A moção descreve um Algarve dividido entre duas realidades: os troços requalificados, sobretudo no Barlavento, e o segmento entre Olhão e Vila Real de Santo António, que classifica como “abandonado”.
Os sociais-democratas associam o bloqueio das intervenções a prejuízos para a região e para a população. O quadro anexo ao documento inclui, entre as vias não construídas ou requalificadas, as variantes de Luz de Tavira e de Odiáxere, além de intervenções nas ligações de São Brás de Alportel e de Faro à A22. Para ultrapassar o impasse, a Assembleia Distrital insta o Governo a escolher obras que possam ser retiradas do contrato “por via legislativa de exceção”, invocando “imperiosas razões de segurança e de superior interesse público”.
Variante de Olhão apontada como precedente
A solução defendida inspira-se no acordo que, segundo a moção, a IP e a Rotas do Algarve Litoral (RAL) celebraram em 10 de outubro de 2023 para retirar a Variante de Olhão do âmbito da subconcessão. A intervenção passou a ser tratada como obra pública direta, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), sob responsabilidade da IP. O documento refere que a variante foi executada e inaugurada a 12 de maio de 2026.
Sete anos de arbitragem e um pedido de 445 milhões de euros
No centro da contestação está o processo arbitral iniciado pela RAL contra a IP em 4 de setembro de 2019. Segundo a cronologia apresentada, a subconcessionária alegou incumprimento da empresa pública e inviabilidade do modelo, reclamando uma indemnização global de 445 milhões de euros.
A moção ressalva que o valor efetivo depende integralmente da decisão final do Tribunal Arbitral, que, à data da aprovação do documento, continuava por proferir. Os 445 milhões correspondem, portanto, ao montante reclamado, não a uma indemnização fixada.
A Assembleia Distrital considera “inadmissível” que tenham decorrido sete anos sem uma decisão definitiva, quando, segundo sustenta, o contrato de subconcessão estipula um prazo de seis meses. Critica ainda o ritmo do processo e considera que este contraria o objetivo de maior rapidez associado à arbitragem.
Entretanto, o documento refere que decisões parciais e providências cautelares determinaram pagamentos da IP, incluindo cerca de 30 milhões de euros, já liquidados, por trabalhos que a RAL alegou ter executado. Acrescenta que a empresa pública paga mensalmente 1,2 milhões de euros para custos de operação e manutenção.
Contrato de 2009, renegociação e recusa do Tribunal de Contas
A moção recua a 20 de abril de 2009, data da assinatura do contrato original, que abrangia 244 quilómetros de traçados existentes e 29,5 quilómetros de novas vias. O conjunto de intervenções incluía novas variantes, reabilitação de pavimentos, 75 rotundas, 29 nós de ligação e 193 passagens hidráulicas e pontes. Segundo o documento, os compromissos assumidos pelo Governo de José Sócrates no Memorando de Entendimento com a Troika, assinado em 17 de maio de 2011, levaram à renegociação do contrato para reduzir os encargos públicos.
Um acordo preliminar de modificação, de agosto de 2015, antecedeu a assinatura do contrato alterado, em 23 de outubro de 2017. Este previa manter na subconcessão a rede já intervencionada e transferir para a gestão direta da IP as obras ainda por executar.
O Tribunal de Contas recusou o visto ao contrato alterado em 20 de junho de 2018, através do Acórdão n.º 29/2018. Na descrição apresentada pela moção, a recusa esteve relacionada com compensações financeiras consideradas ilegais, que teriam sido ocultadas ao tribunal em 2010. O texto sustenta que o contrato alterado não entrou em vigor e que a rede prevista no acordo inicial permaneceu sob responsabilidade da RAL.
Ação dos bancos suscita crítica a “Estado contra Estado”
O documento refere também uma ação indemnizatória apresentada no final de julho de 2019 pelo consórcio bancário composto por BPI, Caixa Geral de Depósitos, Santander e SG, contra a IP, no Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada. Os bancos reclamaram 43 milhões de euros, alegando o cancelamento indevido das garantias bancárias das operações de financiamento da subconcessão, na sequência da recusa do Tribunal de Contas. Trata-se de uma ação distinta do processo arbitral movido pela RAL.
A Assembleia Distrital estranha a participação da Caixa Geral de Depósitos numa ação contra outra empresa de capitais públicos, descrevendo-a como uma situação de “Estado contra Estado”, com cada instituição a defender os seus interesses. Na mensagem enviada ao POSTAL, José Mendes Bota classifica o bloqueio como uma “situação escandalosa” que prejudica o Algarve. “Há que agitar as águas, há que romper. Isto é inadmissível, acho eu…”, afirma.
O despiste de um motociclo esta sexta-feirta à noite na localidade de Caliços, no distrito de Faro, deixa uma vítima mortal, disse à Lusa fonte da GNR.
Segundo o oficial de dia ao Comando Nacional da GNR, morreu uma pessoa neste acidente que “era o condutor do motociclo” e não houve feridos.
O alerta deste acidente foi dado pelas 20:22, segundo a mesma fonte.
Cláudio Pereira, conhecido artisticamente como Kelad, encontrou em Tavira a inspiração para uma canção de amor e gratidão. “Menina de Tavira”, com lançamento para esta sexta-feira, dia 16 de outubro, e acompanhada de um videoclipe, nasceu de uma paixão vivida durante os quase seis meses em que trabalhou e residiu na cidade. Aos 26 anos, o músico natural de Castro Daire cruza bossa nova, fado, pop e R&B e conta ao POSTAL o caminho das gravações caseiras ao estúdio, entre a vontade de criar uma identidade própria e os custos de fazer música.
A confiança recuperada nos palcos
Cresceu numa família ligada à música, mas a mudança de voz afastou-o do canto. O que o ajudou a recuperar a confiança para voltar a cantar?
Foram sobretudo os meus amigos e conhecidos que me incentivaram a voltar a cantar, a fazer covers e a participar em pequenos eventos da minha vila, como o festival da canção, as galas de Natal e as festas locais. Voltar a pisar palcos ajudou-me a recuperar a confiança. Ver os meus irmãos a fazer música também me deu vontade de me lançar aos leões. Não encaro isto como uma competição, gostava de alcançar o patamar da minha irmã, que já teve algumas músicas com bastante sucesso. Quem sabe, um dia, não façamos os três uma colaboração musical?
Gravou a voz do primeiro original dentro de um armário. Qual foi o maior desafio para passar dessas gravações caseiras a um trabalho em estúdio com vários músicos?
Penso que o maior desafio foi a nível monetário. Gravar em estúdio é caro porque é preciso pagar a captação, a mistura e a masterização. Quando envolve vários músicos e uma música ainda pouco trabalhada, as sessões podem demorar mais e os custos aumentam. Também senti alguma dificuldade em trabalhar com outros músicos por ter ideias muito fixas. Nem sempre estávamos em sintonia, o que tornou o processo de construção musical mais desafiante. Ainda assim, foi uma experiência importante para aprender a trabalhar em conjunto.
“Voltar a pisar palcos ajudou-me a recuperar a confiança”
Fotografia tirada durante a Gala do Gapafit, em 2023. Crédito: Manuel Oliveira Fotografia
Uma paixão que mudou o olhar sobre Tavira
Viveu e trabalhou quase seis meses em Tavira. Que momento desse período melhor explica a ligação que criou com a cidade?
Diria que foi quando comecei a desenvolver sentimentos pela Menina de Tavira e vivemos um romance que parecia saído de um conto de fadas. Estávamos felizes e tudo parecia perfeito. Quando ela regressou à sua cidade natal, comecei a sentir saudades, mas de uma forma boa, porque ficava feliz por ter vivido aqueles momentos. Ao mesmo tempo, muitos lugares de Tavira passaram a ter um significado especial para mim: as ruas por onde passeávamos, a ponte romana e até os pequenos pormenores da cidade ficaram associados a essas memórias. Foi assim que Tavira se tornou muito mais do que uma cidade bonita.
“A saudade existia, mas vinha acompanhada de gratidão”
“Menina de Tavira” nasceu de uma paixão real. Como transformou a saudade dessa pessoa na primeira canção assumidamente feliz do seu repertório?
Acho que surgiu de forma bastante natural. Há uma frase de que gosto muito e que resume bem o sentimento da música: “Como sou sortudo por ter algo que torna tão difícil dizer adeus.”
Antes de ir para Tavira, já tinha um rascunho, mas estava pouco desenvolvido e ainda não tinha nome. Quando cheguei à cidade e comecei a passear pelas ruas, ganhei inspiração e pensei: “Vou escrever uma música chamada ‘Menina de Tavira’.” Depois, acabei por conhecer a Menina de Tavira e o resto foi história.
Lembro-me de passar por um cartaz com o nome verdadeiro dela e pensar logo: “Fogo, ela está mesmo em todo o lado!” Quando cheguei a casa, peguei na guitarra e comecei a compor o resto da canção. Ao contrário das músicas anteriores, mais ligadas à dor e à confusão de relações que terminaram, esta nasceu da felicidade de ter vivido algo especial. A saudade existia, mas vinha acompanhada de gratidão.
Da bossa nova às imagens de uma cidade
Neste single, cruza bossa nova, fado, pop e R&B. Como encontrou, entre estas influências, o som que melhor conta esta história?
“Menina de Tavira” é inspirada em “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, mas quis dar-lhe uma identidade portuguesa. Inspirei-me também em artistas como António Zambujo, Miguel Araújo e Slow J, que mistura a guitarra portuguesa com sonoridades de hip-hop e R&B.
Queria criar algo romântico e melódico, com a bossa nova como ponto de partida, mas que soasse genuinamente português. A guitarra portuguesa ajudou a dar-lhe essa identidade e permitiu criar uma parte que se aproxima bastante do fado. O objetivo era juntar influências diferentes sem perder a essência da história que queria contar.
“O maior obstáculo será o dinheiro, porque produzir músicas e videoclipes de qualidade implica investir em estúdios e profissionais”
Imaginou o videoclipe como uma curta-metragem romântica. Que lugares de Tavira eram indispensáveis para contar essa história e porquê?
A ideia original era fazer uma curta-metragem. Gosto muito de cinema e sempre quis escrever e realizar o meu próprio filme. Escolhi os locais a dedo e pesquisei no terreno para filmar nos sítios mais bonitos de Tavira e, sempre que possível, em lugares por onde eu e a Menina de Tavira passámos.
Dois locais que queria usar não estavam disponíveis, mas encontrámos alternativas igualmente bonitas. Para mim, o mais importante era que os lugares tivessem significado: as ruas floridas lembravam-me os vestidos que ela usava; as casas piscatórias e os azulejos eram coisas de que ela gostava; e a ponte romana era onde passeávamos à noite. Quis ainda filmar num restaurante onde jantámos, porque aquele onde tivemos o primeiro encontro estava fechado. O videoclipe é também uma homenagem à cidade que marcou esta fase da minha vida.
Um álbum entre a ambição e os custos
Está a preparar um álbum. Que futuro deseja para Kelad e qual é hoje o maior obstáculo para o alcançar?
Estou a preparar um álbum que deverá chamar-se Unidos pelo Trauma, Separados pelo Amor, inspirado nas minhas experiências de vida e numa relação que vivi intensamente com alguém que partilhava vivências semelhantes às minhas. Apesar da ligação que criámos, a relação acabou por terminar porque percebemos que era o melhor para ambos.
Gostava de chegar a mais pessoas, criar uma identidade própria e construir um público que se identifique com as minhas músicas. Ao Kelad do futuro, desejo boa sorte, disciplina e motivação. Quero não ir abaixo se as músicas não tiverem o alcance esperado e investir mais no marketing, correndo atrás dos meus sonhos mesmo que tenha de sair da minha zona de conforto.
O maior obstáculo será o dinheiro, porque produzir músicas e videoclipes de qualidade implica investir em estúdios e profissionais. A falta de motivação e disciplina também são desafios que procuro trabalhar diariamente.
Cláudio Pereira (Kelad). Foto DR
Do armário de casa às ruas de Tavira: a viagem musical de Kelad
Um armário de casa foi a solução que Cláudio Pereira encontrou para gravar a voz do seu primeiro original e reduzir o eco. Sem grandes meios, contou com o amigo Daniel Tejo para a mistura e a masterização. “Quero Voltar”, lançado em 2021, marcou o início de um percurso que chega agora a “Menina de Tavira”, uma canção construída de raiz e gravada com vários músicos.
Natural de Castro Daire, Kelad tem 26 anos e cresceu numa família ligada à música: o pai foi DJ e os dois irmãos também cantam.
Na primeira comunhão, ouviu elogios à sua “voz de anjo”. Hoje, revê esse registo com humor e alguma distância em relação ao entusiasmo de quem o escutou. A mudança de voz afastou-o temporariamente do canto, mas não da música. Chegou a sonhar em ser DJ e tentou aprender piano, oferecido pelas tias, sem conseguir manter a disciplina.
O incentivo do melhor amigo, Bernardo Vicente, ajudou-o a regressar. Festivais escolares, festas de aldeia, galas de Natal e iniciativas solidárias deram-lhe oportunidades para voltar a cantar diante de um público.
Aprender entre canções e pausas
A vontade de escrever originais ganhou força durante a pandemia. Depois de “Quero Voltar”, entre o R&B e a pop, lançou “Quem Diria”, em 2022, cruzando hip-hop e pop numa história de amor não correspondido. No ano seguinte, “Saudade Interlúdio” levou-o pela primeira vez a um estúdio: gravou na Produsom, em Viseu, com a participação do saxofonista Sr. José.
Entretanto, concluiu a licenciatura em Turismo e Lazer e começou a trabalhar nessa área. A música perdeu algum espaço no quotidiano. Continuava a escrever, mas algumas ideias ficavam por terminar. “Preciso de sentir que tenho alguma coisa para dizer”, explica na nota biográfica enviada ao POSTAL.
Em 2024, comprou uma guitarra e começou a aprender sozinho. Surgiu então o primeiro esboço de “Menina de Tavira”, que ganhou forma durante a temporada em que trabalhou e viveu na cidade algarvia. Uma paixão ajudou a desbloquear a escrita: o tema desenvolveu-se em cerca de mês e meio.
Ao contrário das canções anteriores, marcadas por relações terminadas e sentimentos difíceis de compreender, esta guarda a felicidade de uma experiência vivida. Kelad descreve-a como a primeira canção assumidamente feliz do seu repertório.
Uma cidade transformada em música e imagens
“Menina de Tavira” foi gravada nos Satori Studios, em Viseu. O músico escreveu a letra, interpretou o tema e participou no arranjo musical. Aos instrumentais encontrados na Internet, que serviram de base aos três singles anteriores, sucedeu agora um arranjo instrumental original.
Bernardo Vicente colaborou na guitarra clássica; Pedro Bento, no baixo e nas guitarras clássica e elétrica; Francisco Henriques, na guitarra portuguesa; e Daniel Tejo e Pedro Bento, na bateria. Pedro Bento assegurou também a mistura e a masterização.
A realização do videoclipe ficou a cargo de Kelad, com Bernardo Vicente como correalizador e a colaboração do videógrafo Kurt. O músico imaginou um rapaz pobre e uma rapariga rica que percorrem Tavira, quase se encontram e acabam por se conhecer. Entre as referências cinematográficas que identifica estão “La La Land” e “Before Sunrise”.
As ruas floridas, as casas piscatórias e os azulejos tornaram-se parte dessa narrativa. Mostrar Tavira foi também uma forma de agradecer à cidade que o recebeu durante quase seis meses. Enquanto prepara um álbum, Kelad procura continuar a transformar experiências reais em canções: guardar o que viveu e encontrar quem se reconheça nessas histórias
O tribunal determinou, em 15 de outubro, a prisão preventiva de um homem de 44 anos suspeito de cinco crimes de abuso sexual contra a filha da namorada, uma menina de 11 anos. Os factos terão ocorrido numa residência na zona de Silves, entre abril de 2025 e abril de 2026.
Segundo uma fonte policial ouvida pela Lusa, o suspeito foi ouvido em tribunal nesse dia. A medida de coação poderá vir a ser alterada para prisão domiciliária.
PJ aponta aproveitamento da ausência da mãe
De acordo com a Polícia Judiciária (PJ), o homem coabitava com a criança e terá aproveitado os períodos de ausência da mãe para a abordar e praticar atos sexuais.
A investigação indica ainda que o suspeito oferecia presentes à menina para a manter em silêncio.
A mãe terminou o relacionamento assim que os factos se tornaram conhecidos, acrescentou a PJ.
O homem é vigilante de profissão. O inquérito é titulado pelo Ministério Público de Silves.