Protestos contra o custo de vida incendeiam grandes cidades em quase toda a Europa
Não havia redes sociais em 1968. Os protestos que, em maio, iriam alterar radicalmente o sentimento de liberdade e cidadania que ainda marca a Europa, e que começaram nas fábricas da Renault antes de chegarem às universidades, circunscreveram-se a uns bairros de Paris e a uns pequenos focos na Alemanha. Foram presas mil pessoas – no passado fim-de-semana, em toda a França, foram presas mais de 2.500. A 30 de maio, o presidente De Gaulle marcava eleições antecipadas e, em junho, o partido gaullista ficou próximo dos 50%. O assunto estava resolvido. Ou deu ideia que estava!
Atualmente, as redes sociais, dizem os analistas, permitem replicar manifestações em tempo real onde quer que haja um foco previamente ‘infetado’ ou razões relevantes que as possam incentivar. Foi isso que aconteceu, para já, em França, Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Bélgica, Reino Unido e Albânia. Anteciparam-se os sérvios (ver artigo na página 40) e segue-se a Alemanha: o movimento juvenil ‘Gen Z steht auf’ (‘Geração Z levanta-se’), convocou manifestações nacionais para o dia 31 de outubro em grandes metrópoles como Berlim, Hamburgo, Colónia, Munique e Frankfurt.
A causa dos protestos
Se a crise da habitação – que atirou os autóctones dos centros das grandes cidades europeias para as periferias cada vez mais afastadas e a posse das frações habitacionais para a coluna dos ativos dos fundos de investimento – é a causa mais imediata das manifestações, o aumento do custo de vida e a deterioração das expectativas a curto prazo explicam a rapidez e a facilidade da disseminação pan-nacional dos protestos. Portugal e Espanha estão neste grupo, assim como, em parte, a Grécia e a Itália. Em Londres, têm ocorrido grandes manifestações convocadas por organizações como a London Renters Union (LRU), que mobilizaram milhares de inquilinos para protestar contra as rendas “descontroladas”.
Mas, de um modo geral, os manifestantes protestam contra os cortes que vão sendo decididos nos Orçamentos de Estado de vários países, que quase invariavelmente tendem a incidir sobre os capítulos sociais (Segurança Social, reformas, transferências para a Saúde, para a Educação, etc,). Com a prioridade europeia a resvalar para a defesa e segurança, estes cortes já tinham sido antecipados pelos analistas e as promessas governamentais (e da Comissão Europeia) de que estas transferências não iriam ocorrer foram desde a primeira hora dignas de pouco crédito. França, Itália, Grécia, Reino Unido e Bélgica figuram neste grupo mais ‘generalista’.
Mesmo assim, ocorrem protestos mais ‘subliminares’: a defesa do combate às alterações climáticas, por exemplo, mas também a chamada de atenção para o crescimento do desemprego e da precariedade de emprego entre os jovens – que é, afinal, uma das causas que explica a incapacidade financeira para fazer face ao aumento das rendas cobradas nas grandes cidades.
A resposta dos governos
Neste contexto, as declarações dos governos que recusam a ‘importação’ dos protestos como ‘combustível’ para as manifestações nos seus países, revelam apenas pouca aderência à realidade ou falta de entendimento face aos novos processos de disseminação. E, basicamente, não servem para nada – como ficou claro em Portugal: depois das primeiras declarações musculadas do ministro da Administração Interna, Luís Neves, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, teve de suavizar o discurso oficial, dizendo que o Governo tem, afinal, “toda a simpatia e compreensão” pela angústia dos cidadãos fustigados pela crise da habitação.
No caso de Espanha e de Portugal, os protestos estão ainda concentrados na questão da habitação – o que obrigou mesmo à criação de um novo suporte linguístico: as acampadas. A resposta em cada um dos países não podia ser mais diferente.
Em Espanha, o chefe do governo tentou aprovar nova legislação que contivesse o problema e atacasse a sua raiz, mas não conseguiu; resultado: o governo caiu e foram marcadas eleições antecipadas. Mas as acampadas – uma forma de protesto ‘inventada’ em Espanha – não sofreram qualquer ataque direto.
Em Portugal, o Governo enviou as forças de segurança para ‘limpar’ as praças onde decorriam as acampadas, umas vezes de forma mais musculada outras nem tanto, para deleite do espetáculo televisivo e dos ‘dois minutos de fama’ que qualquer declaração em direto proporciona.
Em Paris, e depois de um ‘fim-de-semana alucinante’ (o transato), o governo macronista de Sébastien Lecornu decidiu-se por uma intervenção mais musculada – ao mesmo tempo que tenta aprovar o Orçamento do Estado para 2027, todo ele cheio de cortes de financiamento, de aumento de impostos e de congelamentos de prestações sociais. Precisamente aquilo que levou os manifestantes para as ruas. O exército acabou por ir ser ‘desaquietado’ dos quartéis, tendo sido convocado para manter a ordem. E os municípios decretaram o recolher obrigatório em algumas cidades ou em partes delas – como é o caso de Paris – coisa de que não há memória (nem no auge dos protestos dos ‘gilets jaunes’) a não ser durante a pandemia, por razões não comparáveis.
Em Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni tratou de, ao invés de ‘correr atrás do prejuízo’, antecipar a resposta: enviou o exército para Milão, Turim e Bolonha e fez aprovar legislação especial para caçar os mais ‘destemidos’: qualquer indivíduo que participe num grupo de pelo menos cinco pessoas e que utilize objetos potencialmente perigosos (como pedras, paus, pirotecnia ou barreiras) arrisca uma pena de até cinco anos de prisão e uma multa máxima de 20 mil euros; as penas são agravadas se os manifestantes ocultarem o rosto ou se provocarem ferimentos em agentes policiais; para os líderes ou organizadores que promovam a violência em manifestações, a pena pode ascender a 12 anos de prisão.
O executivo implementou uma política de indemnização imediata pelos danos infligidos ao património público ou privado (viaturas, montras e estátuas). No caso de o autor do vandalismo ser menor de idade, a responsabilidade financeira e a conta dos prejuízos são transferidas diretamente para os pais, que assim são levados a proibir saídas com amigos que podem resultar muito dispendiosas. A polícia pode aplicar o alargamento do regime de detenção preventiva a jovens entre os 14 e os 17 anos e as autoridades passam a poder deter menores preventivamente caso haja fortes indícios de que representam um “perigo público iminente”.
Boquiabertos, os partidos da oposição afirmam que o governo está a usar atos isolados de vandalismo e pilhagem como “pretexto” para sufocar o direito constitucional à manifestação pacífica. E criticam a criação do crime de “participação violenta”, argumentando que serve principalmente para intimidar cidadãos que protestam legitimamente contra o aumento do custo de vida.
Por seu turno, face aos ataques com cocktails Molotov e incêndios provocados em edifícios ministeriais e tribunais, o governo albanês, liderado por Edi Rama (um socialista que chefia um governo de centro-esquerda) respondeu com uma forte mobilização policial, recorrendo ao uso contínuo de gás lacrimogéneo, canhões de água e balas de borracha para dispersar as multidões.
Os radicalismos
Todas estas ocorrências são excelente pasto para o crescimento de radicalismos à direita e à esquerda, como invariavelmente referem chefes de Estado e de governo dos países afetados pelas manifestações. O mais básico bom-senso e os especialistas aconselham vivamente a que a resposta das autoridades se concentre nas causas e não nos efeitos: não no que está a jusante, mas sim no que está a montante dessas manifestações
