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O ecocídio por trás de Flávio Bolsonaro

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O engenheiro florestal Argemiro Teixeira Leite-Filho, do INPE,  que há anos tem estudado os impactos do desmatamento da Amazônia sobre as chuvas que alimentam o Sudeste e o Centro-Oeste cunhou um termo que explica o risco do crescimento econômico a qualquer custo – o agrossuicídio. 

O que esta palavra explica é como a perda da floresta influi diretamente na quantidade de água que cai sobre as maiores lavouras e pastagens do país. Provou com análises de imagens de satélite que, nas partes mais desmatadas de Rondônia e Mato Grosso, o clima está mais seco. Ou seja, aqueles produtores que derrubaram e queimaram por ganância, no longo prazo estão perdendo seu principal insumo – a água. Sem os rios voadores criados pela umidade da floresta, o agronegócio, considerado o motor econômico do Brasil, pode se tornar inviável.

Ao ouvir as propostas do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL), tenho convicção de que o Brasil pode cometer um suicídio ecológico. Por trás de seus discursos que prometem simplificar a vida do empreendedor e do produtor rural, há uma mensagem de que um eventual governo vai liberar geral: pode desmatar que não haverá multas, pode garimpar que não haverá fiscalização, pode grilar que terra roubada vai ser regularizada.

Foi o que aconteceu no governo de Jair Bolsonaro. O antigo presidente perseguiu os fiscais do Ibama e congelou a cobrança de multas por crimes ambientais. As áreas de garimpo ilegal cresceram 92% em quatro anos, como mostrei em uma coluna há duas semanas. Muitas outras boiadas passaram e o resultado deste projeto destrutivo se revelou nas taxas de desmatamento: no governo Bolsonaro as derrubadas na Amazônia aumentaram 59,6%.

Nas redes de desinformação bolsonaristas há uma tentativa de emplacar a mentira de que foi no governo Lula que aconteceu a tragédia dos garimpos na Terra Indígena Yanomami. Ou ainda que, nestes últimos anos, o desmatamento bateu recordes. Apenas dando um google, pode-se checar estes dados e comprovar que políticos aliados de Flávio seguem mentindo sem pudor. 

Foi a fiscalização do Ibama e do Exército do atual governo que conseguiu expulsar os garimpeiros do território Yanomami. Foi no governo Lula que as derrubadas voltaram a cair. Na semana passada, tivemos a ótima notícia de que o desmatamento na Amazônia e no Cerrado chegou ao nível mais baixo da história. 

É possível dizer que, durante o governo de Bolsonaro, o Brasil estava caminhando a passos largos para um ecocídio. Este também é um termo já existente. É utilizado como um conceito que embasa processos levados à Corte Penal Internacional. Juristas e ONGs buscam neste momento imputar responsabilidade a governos e empresas que, com suas atividades destrutivas, tornam a vida no planeta insustentável. 

Pense nas mudanças climáticas. Nunca estivemos num momento tão crítico no balanço entre o clima e a saúde humana. Nesta semana, por exemplo, uma análise de dados sobre a frequência e intensidade das ondas de calor revelou que, enquanto nos anos 1960 havia em média cinco eventos de calor extremo no mundo, no ano passado foram 102 episódios de “tempestades de calor”. Frente a este cenário de emergência, o que encontramos em Flávio Bolsonaro? Um negacionista desonesto que repete a ladainha de Trump que o mundo está esfriando. É uma postura ultrajante e perigosa. O Brasil, país que detém a maior floresta tropical úmida do planeta, não pode aderir a um governo que feche os olhos para a emergência climática.

Se já temos indícios de que a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal estão sofrendo com a falta de chuvas, um projeto de poder bolsonarista, que não respeita as regras ambientais, apenas nos empurra para a beira do abismo. Não é exagero pensar que o suprimento de água, energia e mesmo a disponibilidade de comida barata estão diretamente ameaçadas pela eleição de Flávio Bolsonaro.

É muito grave sua afirmação de que, caso eleito, não vai demarcar novas terras indígenas. Se o Brasil ainda tem florestas preservadas e rios limpos, isso se deve em grande parte ao cuidado que os povos indígenas tiveram com seus territórios. Privá-los do que já é garantido pela Constituição já seria um crime de violação aos seus direitos. Mas promover a destruição e a invasão destes territórios é algo que afetará a todos os brasileiros, desta e das futuras gerações.

A mensagem de que a nossa legislação ambiental será desmontada já está clara nos discursos de Flávio Bolsonaro e seu programa de governo. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo do dia 9 de outubro, ele pretende revisar o papel do Ibama, do ICMBio e da Funai para facilitar a aprovação de novos empreendimentos. Já em evento nesta segunda (19/10) no Pará, prometeu fazer um programa para regularizar a propriedade de terras sem titularidade. Em outras palavras: anistiar grileiros que tomaram as florestas preservadas e as queimaram impunemente.

Os projetos autoritários que seguem ganhando espaço ao redor do mundo têm em comum uma utopia da refundação da sociedade. O conservadorismo como tal é uma promessa de futuro que olha para o passado. Assim avançou a plataforma MAGA (Make America Great Again), de Donald Trump, que se aproveita do desespero econômico gerado pela perda de competitividade americana frente à China para apelar aos desempregados.

Junto a esta falsa promessa de um passado glorioso, há um canto de ódio que promete a terra arrasada. A destruição e a guerra como uma forma de forjar a nação. Você já viu isso por aqui não viu? De maneira igualmente grotesca, a motosserra de Javier Milei traz essa mensagem: vamos destruir tudo. E agora infelizmente, a Argentina está pagando o preço com mais pobreza e caos econômico.

Se os impactos na economia de uma tática suicida como essa já estão se provando desastrosos, é importante alertar para o que isso pode representar para o meio ambiente. Uma plataforma de governo similar à que foi liderada no governo de Jair Bolsonaro levará o país a um colapso ambiental. Um voto como esse é um ecocídio.

Para saber mais

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Homens praticam tiro contra imagem de Lula em clube de São Paulo

Em um clube de tiro, uma dupla de homens armados pratica contra um alvo com o desenho do rosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre risos, eles dizem “Faz o L” e “esse não vai participar da próxima eleição”. A câmera foca no rosto do boneco de Lula, mostrando furos de bala na parte superior da imagem. “Olha a carinha dele. Só na testa.” A legenda do vídeo é “toma essa picanha”.

No vídeo, os homens dizem:
– “Esse não vai participar da próxima eleição.”
– “Faz o L.”
– “Olha a carinha dele. Só na testa.”
Na legenda da publicação, escreveram: “Toma essa picanha”.
No vídeo, os homens dizem:
– “Esse não vai participar da próxima eleição.”
– “Faz o L.”
– “Olha a carinha dele. Só na testa.”
Na legenda da publicação, escreveram: “Toma essa picanha”.

O homem que postou o vídeo em seu perfil no WhatsApp foi identificado como Maurício Archangelo, dono de empresas na Zona Leste de São Paulo. Ao ser contatado, ele disse não se lembrar do vídeo. A reportagem explicou que ele estava, naquele momento, no dia 21 de outubro, publicado em seu status. Ele disse que ia ver e desligou. Neste intervalo, o vídeo foi apagado.

Em uma nova ligação, Archangelo disse que não sabia do que se tratava, desligou de novo e bloqueou o contato. A reportagem insistiu com outro número de telefone. Desta vez, Archangelo não respondeu às perguntas e se limitou à perguntar como foi feito o acesso ao seu status do WhatsApp.

No perfil do empresário no Instagram, que é aberto, há outra foto de Archangelo em um clube de tiro. Ele também já postou uma imagem de um bebê de poucos meses com uma arma na parte de trás da fralda. 

Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, avalia que a conduta de atirar na foto de um presidente pode ser enquadrada como crime de ameaça, que é prevista como “Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave”. 

“Vindo de pessoas que têm acesso a arma de fogo e se tratando de políticos como Lula, que já tiveram a caravana em 2018 atingida por tiros e que na época da tentativa de golpe, em 2023, foi demonstrado que havia um plano para matá-lo também a tiros, isso é algo bastante grave e que deve ter providências sérias das autoridades”, afirma. Para ele, a investigação deve ser não só contra as pessoas que atiraram, mas também sobre o clube de tiro por permitir o uso dessas silhuetas em alvos de tiro”, complementa.

Em 2021, um vereador de Fortaleza foi condenado a pagar indenização por danos morais após atirar numa foto de Lula. No ano seguinte, quando o petista foi eleito para o seu terceiro mandato, o PT denunciou que clubes de tiro estariam usando a imagem do político em alvos e acionou a justiça.

Para o cientista político da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) o episódio da imagem de Lula ser usada como alvo por bolsonaristas é simbólico do processo de normalização da violência deste grupo. “Passa a ser normal tratar adversários como inimigos a quem se deve eliminar”, aponta.

Clube de tiro já foi alvo de ação policial no passado

Publicação de Maurício Archangelo na rede social Instagram
Publicação de Maurício Archangelo em rede social

A gravação ocorreu no Clube e Escola de Tiro 556, localizado na zona leste de São Paulo. O proprietário, Vinicius Monteiro Pires Inácio, afirmou estar viajando e desconhecer o episódio. Ele afirmou que os clientes “podem levar o alvo que quiserem”, desde que sejam caricaturas, e não fotos de pessoas reais. Também enfatizou que não incentiva e nem compactua com atos de incitação ao ódio.

Segundo ele, é comum que usuários do clube levem imagens como demônios ou o coringa, mas os funcionários não autorizam o uso de fotos de familiares e pessoas, famosas ou não.

Logo após ser procurado pela Agência Pública, o clube de tiro fez um post no Instagram dizendo que é “expressamente proibida a impressão e utilização de imagens de pessoas reais como alvos em nossas instalações.” O post cita os artigos do Código Civil e do Código Penal que atribuem a conduta como criminosa. A empresa também diz que o descumprimento “poderá resultar em medidas administrativas e, conforme o caso, responsabilização civil e criminal”.

Inácio, que é influenciador ligado a pautas conservadoras conhecido como Magnata, afirma que a empresa exige que os usuários tenham as permissões regulares para utilizar o recinto, porém “não é possível observar o que os clientes fazem o tempo todo”. 

Em sua página pessoal, ele postou um vídeo na semana anterior ao primeiro turno mostrando pessoas com camisetas do Bolsonaro atirando, com a legenda “Domingo vai ser assim de novo”. O clube de tiro fez um evento para exibir a contagem de votos, com cerveja e petiscos.

O proprietário do clube afirma que é de direita, mas não compactua com o episódio. “A minha opinião política e partidária nunca teve sigilo. Tanto que eu perdi uma conta com mais de 800 mil seguidores no Instagram por expor o que eu penso. Mas uma coisa é o Vinícius, pessoa física. Outra coisa é o Magnata, proprietário do clube de tiro 556. Eu não deixo que opiniões políticas interfiram na minha empresa. Todo mundo é bem vindo lá”, disse.

Em 2023, o clube de tiro foi alvo de uma operação policial que apreendeu 38 armas. Segundo o SBT News, o estabelecimento estaria fazendo rifas de armas de fogo com números vendidos a partir de R$ 1 o número, o que é proibido. Também, segundo a reportagem, deixava pessoas sem treinamento usar qualquer tipo de arma.

Segundo a portaria Nº 20.749, de setembro de 2020, “armas e munições, explosivos, fogos de artifício ou de estampido” não poderão ser objeto de operação filantrópica, mediante distribuição de prêmios. A portaria também estabelece que “a distribuição de prêmios mediante sorteio, vale-brinde, concurso ou operação assemelhada realizada por organizações da sociedade civil, com o intuito de arrecadar recursos adicionais destinados à sua manutenção ou custeio, depende de prévia autorização do Ministério da Economia”.

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As eleições brasileiras que poderiam ser em Portugal ou na EU

Eleições no Brasil, EUA e UE: esquerda identitária e direita antissistema desviam o debate do essencial — soberania e redistribuição de riqueza.

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As eleições brasileiras têm sido férteis na expressão dos estereótipos eleitorais mais comuns que, na sua esmagadora maioria, são responsáveis pelo acentuado resvalamento para uma política superficial, estéril em debate de soluções efectivas para o futuro colectivo, mas profundamente rica em estética carnavaleira, mais liberal ou mais conservadora, em acesa maledicência e numa tendência exacerbada para o insulto fácil ou até para as mais vis ofensas pessoais.

Nada que não se conheça dos EUA e da forma conservadora, tacanha, acanhada e recuada como aí é discutida a política nacional, em que uma e outra barricada evitam debater os assuntos realmente fracturantes, classificados de «radicais»; nem nada que não se conheça da velha Europa, cuja perda de qualidade da classe política em nada difere, hoje, do que se passa no Brasil, na Argentina ou noutras paragens marcadas pela submissão dos principais dirigentes políticos ao imperialismo anglo-sionista, ao poder imenso da oligarquia ou, em última análise, à necessidade de conciliação das políticas caseiras para com a agenda internacional do imperialismo.

Enquanto olhamos para uma esquerda apanhada, não raras vezes, pelo identitarismo individualista e liberal, assim desviada dos locais de trabalho, do chão de fábrica, dos dramas da exploração, que estão na base dos problemas mais profundos com os quais se debate a maioria da população, constatamos também uma direita que funciona como o outro lado da moeda: ao liberalismo nos costumes de parte da esquerda (a liberal), a direita responde com o conservadorismo; às promessas de justiça social da esquerda (a liberal), a direita responde com mais liberalismo e até “ultraliberalismo”. Uma e outra acabam por falar muito pouco do que interessa realmente, centrando-se muitas vezes em assuntos acessórios, mais ligados à estética do que à essência.

Não obstante, com um olhar atento, podemos sempre desenterrar o que se esconde por trás de um e outro panfletarismo. Uma das mais importantes temáticas em confronto hoje nas sociedades ocidentais – ou ocidentalizadas, como é o caso do Brasil, da América Latina e da Europa Latina – consiste na tensão entre soberania e submissão ao imperialismo anglo-sionista. Se, na Europa – nos casos de Portugal, Espanha ou Itália –, essa tensão é mediada por uma UE já submetida, que tende a funcionar como uma camada protectora das tensões nacionais e uma vez levantada a questão da soberania, a tendência é, das duas uma, ou vê-la como uma extensão da soberania europeia, o que esconde o real problema, ou vê-la como uma tentativa de discussão da saída da UE, o que ainda é visto como um tabu em alargados círculos de um campo ou outro; no Brasil, essa tensão fica mais exposta, uma vez que não existe uma União Americana para mediar as relações externas do país para com os EUA e Israel, os grandes representantes do imperialismo anglo-sionista.

E, neste caso, é interessante verificar que, do lado bolsonarista, de onde se poderia esperar a proposta nacionalista, tal não sucede, ou sucede muito residualmente, pois, mesmo quando sucede, a tentativa é desmascarada pelo excessivo apoio que as redes sociais norte-americanas dão à candidatura de Bolsonaro, ou pelas constantes ingerências de Trump e dos seus apaniguados no processo eleitoral brasileiro. Por muito que a direita quisesse mostrar-se como defensora da nação e da sua independência, o efusivo apoio dos EUA à candidatura em causa faria cair a máscara, pois os EUA – e Israel – nunca apoiariam com tanta veemência e de forma tão expressa quem não lhes fosse dócil. A omissão de Lula nos comandos algorítmicos de Silicon Valey acaba por denunciar qual dos dois candidatos é mais dócil aos interesses dos EUA.

Já do lado de Lula da Silva, aí sim, têm surgido as propostas mais demarcadas em matéria de defesa da soberania, mesmo que alguma dessa intensidade possa depois colidir com os ditames pragmáticos da realpolitik, ditados pela necessidade de conciliar com um centrão marcadamente pró-imperialista. De qualquer das formas, esta linha demarcadora existe, e parece-me pouco crível que alguém, no pleno uso das suas faculdades mentais, possa escolher um protegido de Trump para a defesa dos interesses soberanos do Brasil, em vez de um experiente conciliador, mesmo que não revolucionário.

Sabendo da importância que esta questão tem, depois, para a gestão e utilização soberana dos recursos endógenos e a sua afectação a um plano de desenvolvimento independente, parece-me de difícil defesa a escolha de Bolsonaro, no caso de pesar, nessa escolha, a questão soberana. Tal como na UE, também não é na direita que os soberanistas têm encontrado as melhores práticas, talvez com excepção de Viktor Orbán — que governou a Hungria durante dezasseis anos, até às eleições de abril de 2026 —, mas mais por necessidade de alinhamento com a Rússia e a China, em consequência das escolhas da UE em matéria energética e industrial, do que por necessidade de construção de um projecto de nação realmente soberano. Aliás, se mais provas fossem necessárias, tivemos o total alinhamento de Orbán com o sionismo para percebermos que o desencontro para com a UE era apenas tático, e não uma questão de fundo ou de defesa da soberania nacional. Nem por um momento Orbán renunciou à NATO nem se afastou de Israel e do sionismo — factores que usou como plataformas de sustentação contra a burocracia de Bruxelas. A submissão a Trump, essa, também foi explícita e verbalizada com o fulgor de quem via nele “um enviado de deus”!

Já no caso de Meloni, Babis e outros, a questão é a mesma: muita conversa, mas, no final, o mesmo alinhamento, o que deixa antever para onde virão a virar os partidos como a AfD. Perante as questões fundamentais, também estas alinharão, ou pela submissão a Bruxelas, ou pela submissão directa ao sionismo e ao imperialismo dos EUA. Outros, como Meloni, conseguem fazer um meio-caminho que, no final, tem as mesmas consequências sociais. No que conta realmente, os jovens continuam a deparar-se com o desemprego, a não conseguir casa, as infraestruturas a degradar-se, os direitos laborais sob ataque cerrado e os salários em desvalorização acelerada face ao aumento brutal do custo de vida. Não existe um local onde esta «nova direita» esteja implantada e sentada nas cadeiras do poder, onde isto não se passe.

Daí que subsista um outro paralelo importante entre as eleições brasileiras e o que se passa na Europa e no Ocidente em geral: quer no Brasil, quer nos EUA, quer na Europa, esta «nova direita» utiliza também a agenda identitária como linha divisória em relação à esquerda. Supostamente, a «esquerda» – liberal, acrescento eu – seria responsável por uma decadência dos costumes e dos valores culturais e religiosos, pela decadência social e moral dos defensores desta deriva «wokista».

Ora, esta demarcação tem funcionado como justificação para muitos que, tendo-se apresentado como críticos do sionismo, defensores da multipolaridade, anti-imperialistas e defensores das soberanias do Sul Global, vêm agora usar este suposto «wokismo» da esquerda para justificar a eleição de um representante da submissão ao imperialismo como Bolsonaro. Esta demarcação tem um problema: mais «wokista» do que o «wokista» é aquele que faz do wokismo a coisa mais importante da política, seja quando se está a favor, seja quando se está contra.

À esquerda, muitos não são capazes de identificar nas pautas excessivamente identitárias uma agenda individualista, fraccionária e fragmentadora das classes trabalhadoras, com origem nos próprios EUA, cujos serviços de manipulação de massas transformaram o ser «woke» (alerta para as injustiças sociais) numa espécie de panfletarismo identitário que extraiu ao movimento «woke» a dimensão classista e de redistribuição justa da riqueza que possuía e lhe deu uma panóplia de identidades em troca, transformando a preocupação com a igualdade, a justiça social e a liberdade – uma preocupação materialista e universalista – numa preocupação tribalista, individualista e, acima de tudo, desconectada da dimensão material, ou seja, da dimensão da justa redistribuição da riqueza produzida pelo trabalho.

Mas, à direita, quando se utiliza essa deriva tribalista e individualista como linha divisora, nega-se também o que distingue, de facto, a esquerda da direita. É que na matriz histórica que distingue esquerda de direita está a riqueza: quem a domina e como é repartida. De um lado, quem defende que a propriedade e a riqueza não devem ser a medida da liberdade e da iniciativa política e que todos os seres humanos devem ter direito a uma vida digna (universalismo) e, do outro, à direita, a plutocracia fisiocrática, ou seja, a ideia de que a liberdade e a capacidade de intervenção política devem medir-se pela riqueza que se tem. Daí que os sufrágios liberais assentassem numa lógica censo-censitária – ou seja, identitária –, em que o que contava era a riqueza que se tinha, se era homem e se sabia ler e escrever, e não fosse a luta, nomeadamente a das mulheres sufragistas, a conseguir alcançar o que hoje designamos por «sufrágio universal» e ainda estaríamos assim. Julgo que também as terão acusado de «wokistas», nos termos em voga na altura!

Assim, de lá para cá, ou seja, desde o momento fundador da dicotomia «esquerda–direita» da Revolução Francesa, a direita se empenha mais do lado da conservação da propriedade nas mãos de quem a tem, e a esquerda mais do lado da democracia real, da democracia económica, social e cultural, negando a ideia de que os ricos tenham de permanecer ricos e que os pobres tenham de permanecer pobres — em jeito de tradução, o que chamamos de progressismo universalista, por oposição ao progressismo individualista, o qual tende sobretudo para as questões da identidade individual.

Assim, quando esta direita embarca na lógica antiwokista, fazendo desta agenda o aspecto mais importante da discussão política, como se o que importasse realmente não fossem as coisas que nos permitem viver, sustentar, alimentar e fruir o nosso corpo e espírito, esta direita fá-lo apenas com uma intenção: desviar a atenção para uma questão superficial, para que nas propostas em discussão não entre o que lhe é mais caro: a redistribuição justa da riqueza e a democracia económica, social e cultural. Assim, o que mais lhe importa permanece indiscutível e as eleições transformam-se num carnaval de bandeirinhas do contra e a favor. Quem escolhe onde vota por causa do wokismo de outro é tão wokista quanto ele.

Mas não se ficam por aqui as semelhanças. Outra é a questão da segurança e do combate ao crime: à direita, propaga-se a ideia de que o crime se combate com violência brutal; à esquerda, defende-se que, enquanto houver pobreza, não será possível erradicar o crime. Ora, não é preciso ser muito inteligente para perceber que a primeira proposta falha nos locais onde mais se dela fala: nos EUA. Nenhum país tem mais prisioneiros comuns — também poucos terão mais prisioneiros políticos —, nenhum país gasta tanto em suposto combate ao crime, nenhum país desenvolvido tem tanto crime. Porque, nos EUA, os viveiros do crime comum, os guetos negros e latinos, onde vivem populações desesperadas, desprovidas de condições básicas de emprego, de educação e de serviços públicos essenciais, continuam sobrelotados e cada vez mais empobrecidos. Ora, esse é apenas o crime do desesperado, o que surge na televisão.

Outra forma de crime e que também constitui um paralelo na agenda direita/esquerda, é a questão da corrupção. Se esta «nova direita» faz bandeira da corrupção e a esquerda pouco fala dela, também é verdade que, quando eleita, esta «nova direita» faz tudo menos acabar com a corrupção. Não é preciso ir mais longe do que Trump para constatarmos um caso de corrupção empedernida. E quem do bolsonarismo esperava o fim da corrupção também ficou a praguejar no deserto: o governo Bolsonaro foi, ele próprio, um antro de corrupção. Talvez se devesse começar por discutir que, para acabar com a corrupção, é preciso acabar com o que a origina: a imensa disparidade na distribuição da riqueza, que faz com que uns possam usar o seu imenso poder económico para obter do poder político o que lhes falta em legitimidade eleitoral. Este crime, o de colarinho branco, sendo até mais insidioso e originando as causas profundas do outro, não surge tão amiúde nas televisões.

Na imigração temos, talvez, a única das grandes diferenças entre as eleições na América Latina, no Brasil e nos países do capitalismo avançado. Mas a imigração surge também como uma forma de identitarismo superficial da direita. Quanto mais a «nova direita» fala de «excesso de imigração», mais esquece que quem emprega esses imigrantes são os mesmos que a financiam e apoiam, que os imigrantes vêm trabalhar nos sectores económicos com os salários mais baixos, explorados pelos patrões mais retrógrados e conservadores — base social da direita radical —, e que o patronato só recorre à imigração como último recurso, porque a sua agenda antilaboral fez com que os trabalhadores não tenham hoje condições para projectar um futuro com estabilidade, porque os jovens, vítimas da transformação da habitação em especulação imobiliária, deixaram de poder programar um futuro em família e porque os pais e as mães, vítimas dos horários desregulados impostos pelo patronato e consagrados em lei pela direita, não têm tempo para a sua família.

O mais grave é que, quanto mais negam as condições materiais necessárias, mais dizem defender a família e os respectivos valores. Uma clara mostra de hipocrisia e cinismo, que nega as causas profundas do problema — um problema que afecta todo o Ocidente. É mais fácil, como têm feito, negar que a crise da natalidade está intrinsecamente ligada ao sistema vigente. Sabem onde não havia crise da natalidade? Nos países socialistas do leste. Países industrializados, letrados e bem alimentados, que duplicaram as suas populações em 70 anos. Hoje, tomados pelo capitalismo, encontram-se na lenga-lenga dos países do capitalismo avançado. Daí não sairão até que mudem as características fundamentais de um sistema económico que não apenas não dá tempo à mulher para ter filhos, como destrói a coesão familiar com a desregulação do trabalho e, consequentemente, da vida.

Ora, o que é mais interessante deste debate político é que os que há uns anos, os que diziam não haver direita e esquerda, que os políticos eram todos iguais, são agora os que vêm dizer que a salvação está nesta «nova direita» e são os que se acirram quando lhes dizemos que esta «nova direita» nada tem de «nova» e que, ao invés, tresanda a fascismo clássico.

Nunca são fascistas, mas submetem-se ao sionismo e ao império anglo-sionista; não são fascistas, mas usam da demagogia e do discurso fácil usados pelo fascismo clássico; não são fascistas, mas usam das bandeiras de massas como o fez o fascismo clássico; não são fascistas, mas usam a religião e a suposta degradação dos costumes para desviar as atenções do essencial, como o fez o fascismo clássico; não são fascistas, mas chegados ao poder privatizam, atacam direitos laborais e fecham serviços públicos essenciais, como fez o fascismo clássico; não são fascistas, mas atacam o conhecimento, desvalorizam o estudo e o empenho individual, como fazia o fascismo clássico; não são fascistas, mas desconsideram a experiência política, o percurso individual e colectivo, como fazia o fascismo clássico, para desconsiderar as instituições; não são fascistas, mas assumem um discurso racialista, xenófobo, supremacista e ultra-individualista, como fazia o fascismo clássico; não são fascistas, mas são todos anticomunistas, antissocialistas e contrários ao progresso social, como era o fascismo clássico; não são fascistas, mas são apoiados pela oligarquia e pelo patronato mais retrógrado, bem como pelo imperialismo, como era o fascismo clássico.

Não são fascistas, mas cheiram, voam, cantam e vociferam como os fascistas…

Chamem-lhe o que quiserem, mas uns «anos 30» do século XXI, armados de IA e de redes sociais? Não, obrigado! Não podemos esperar diferente de quem tem os mesmos patrões e quer mandar nos mesmos empregados…

Espero que, depois, me poupem ao adágio repetitivo do «fomos enganados».

FONTES E NOTAS DE VERIFICAÇÃO

Encarceramento nos EUA — os EUA têm a maior população prisional do mundo (cerca de 2 milhões de pessoas) e a maior taxa de encarceramento de qualquer democracia; em taxa por habitante, apenas El Salvador, Cuba e Turquemenistão a superam (World Prison Brief / Prison Policy Initiative, 2026). https://eji.org/news/u-s-remains-world-leader-in-number-of-people-incarcerated/

Jair Bolsonaro — condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses de prisão (11 de setembro de 2025) por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada e abolição violenta do Estado democrático de direito; cumpre pena desde 25 de novembro de 2025. https://apublica.org/especial/o-julgamento-de-jair-bolsonaro/ ; https://checamos.afp.com/doc.afp.com.A2V88ZQ

Donald Trump — condenado em maio de 2024 por 34 crimes de falsificação de registos comerciais; em janeiro de 2025 foi-lhe aplicada uma liberdade incondicional (sem pena de prisão nem multa), com recursos ainda pendentes em 2026. https://www.bbc.co.uk/news/articles/c4g3m95ykzko ; https://www.axios.com/2026/08/28/trump-hush-money-conviction-appeal

Viktor Orbán — a Hungria é membro da NATO e Orbán foi aliado próximo de Netanyahu e de Israel; nas eleições de abril de 2026, Péter Magyar pôs fim a 16 anos de governo de Orbán. https://apnews.com/article/hungary-israel-euro-2024-soccer-1514e137b54b18a1fed8be8b6cd89b19 ; https://www.ynetnews.com/article/hjef3yqnbx

Sufrágio — em Portugal, o voto censitário só foi extinto em 1968; as mulheres obtiveram um direito de voto limitado em 1931 e a igualdade plena apenas com a Constituição de 1976. https://www.europeana.eu/pt/stories/votes-for-women ; https://arquivomunicipal.lisboa.pt/fileadmin/arquivo_municipal/difusao/publicacoes/cadernos/Cad04.pdf

Origem do termo «woke» — inglês afro-americano, com registos desde os anos 1920–1940, popularizado a partir de 2014 pelo movimento Black Lives Matter. https://www.merriam-webster.com/wordplay/woke-meaning-origin ; https://www.latimes.com/world-nation/story/2025-09-30/how-woke-went-from-an-expression-in-black-culture-to-a-conservative-criticism

Origem dos termos «esquerda» e «direita» — disposição dos deputados na Assembleia Nacional Constituinte francesa, em 1789. https://observador.pt/opiniao/a-grande-dicotomia-o-que-ainda-separa-a-esquerda-da-direita/

Criminalidade — a taxa de homicídios dos EUA (≈6,4 por 100 mil habitantes) é muito superior à dos restantes países desenvolvidos, mas inferior à do Brasil (≈22–23) ou do México (≈25); por essa razão, o texto original «nenhum país tem tanto crime» foi ajustado para «nenhum país desenvolvido tem tanto crime». https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/gsh/2023/GSH_2023_LAC_web.pdf

 

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Foragido, líder do garimpo ilegal Rodrigo Cataratas tem empresas e bens de luxo nos EUA

No Brasil, Rodrigo Cataratas gosta de manter um perfil espalhafatoso nas redes sociais. Condenado na primeira instância por liderar o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, ele tem mais de 43 mil seguidores no Instagram, onde defende a garimpagem, pede anistia para o ex-presidente Jair Bolsonaro (preso por tentativa de golpe de Estado) e ataca o governo do PT. 

Mas Rodrigo Martins de Mello – seu nome verdadeiro – é bem mais discreto sobre um aspecto importante da sua vida: seus bens de luxo e suas atividades empresariais nos Estados Unidos, país que frequenta desde os anos 90. Agora sabemos o porquê de tamanha discrição. 

Em dezembro de 2025, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes decretou a prisão preventiva de Cataratas por ter ajudado na fuga de Alexandre Ramagem, o ex-diretor da Abin do governo Bolsonaro condenado pela trama golpista. Seu pedido de habeas corpus foi negado pela ministra Carmem Lúcia na última terça-feira (19/10), segundo informação do site Amado Mundo confirmada pela Agência Pública. “Consta que o mandado de prisão está pendente de cumprimento, pela ausência de localização do paciente até esta data”, escreveu a ministra na decisão. O pedido de prisão preventiva só veio à público nesta semana, já que o processo corre em sigilo.

Pela primeira vez, suas redes estão em silêncio. “Ele sumiu do mapa”, relatou um ex-parceiro de negócios nos EUA localizado pela Pública.

Uma investigação conjunta da Pública e do ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos) encontrou rastros do empresário do garimpo ilegal e de sua vida nos Estados Unidos. Ele tem registro de votação como Republicano na Flórida, onde apenas cidadãos norte-americanos podem votar, e manteve empresas ligadas a seu nome e ao de parentes e colegas. Os negócios, todos na Flórida, vão de aluguel de iates à demolição, passando pelo e-commerce.

Uma das empresas ligadas a Cataratas é a X One Charters LLC, fundada em 10 de julho de 2023 e registrada no endereço do apartamento do condomínio Sole Mia, em Miami – onde Cataratas hospedou Ramagem em setembro de 2025, como revelou a Pública. Segundo o documento de fundação da companhia, Cataratas era o dono da empresa. Mas em janeiro de 2026, um mês depois do pedido de prisão preventiva, os registros foram atualizados e ele saiu da sociedade, que passou a ter como diretor Marcos Felix Ribeiro.

Embora no papel a empresa hoje pertença Ribeiro, o WhatsApp de contato do site é um número de Roraima que pertence ao próprio Rodrigo Cataratas.

Print de tela das informações de contato de um número de WhatsApp pertencente a Rodrigo Mello
Print de tela das informações de contato de um número de WhatsApp pertencente a Rodrigo Mello

A empresa foi fundada na época em que Cataratas atuava, segundo o Ministério Público Federal, como um dos líderes de um grupo criminoso responsável por garimpo ilegal e degradação ambiental na Terra Indígena Yanomami. Ele foi condenado a 16 anos de prisão e ao pagamento de uma indenização no valor de R$ 31 milhões, mas recorreu e aguarda em liberdade.

A X One Charters oferece aluguel do iate de mesmo nome, segundo seu site. O valor pode variar entre R$ 500 mil e R$ 1,2 milhão por algumas horas nas águas de Miami. A embarcação conta com quarto, sala, cozinha e uma área externa de lazer. “Uma embarcação confortável com muitos assentos e acomodações. Cabine espaçosa com AC e banheiro. Sistema de som Premium com Bluetooth para seu entretenimento e tapete aquático para nadar enquanto você aprecia a incrível vista do horizonte da cidade de Miami a partir das águas. Venha conosco para uma experiência incrível”, diz o site, que pode ser lido em inglês, espanhol ou português. Nas fotos, grupos de turistas se deleitam nas águas azuladas da Flórida.

Imagem mostra parte externa de um iate no mar
Imagem mostra área interna de um iate
Imagem mostra área interna de um iate
Iate conta com quarto, sala, cozinha e área externa de lazer; o aluguel pode variar entre R$ 500 mil e R$ 1,2 milhão por algumas horas nas águas de Miami

Na mesma alteração nos registros realizada em janeiro de 2026, o endereço da X One Charters mudou. Em vez do Sole Mia, a empresa agora fica sediada em um rancho de 34 acres, o Sunniland Ranch, de propriedade do mesmo Marcos Felix Ribeiro. Procurado pela Pública, ele confirmou ter tido transações comerciais com Cataratas em um negócio de mineração na Guiana. Segundo ele, o iate foi dado a ele como pagamento por uma escavadeira sua que ficou no país sulamericano – uma troca estimada em cerca de R$ 500 mil reais (US$ 100 mil).

“Eu peguei esse barco que na realidade é um pesadelo, porque está com problema de vazamento de óleo, um barco desse aqui na água, é 15 mil dólares de multa. Eu tive que tirar esse trambolho da água e no final vai sair mais caro”, diz.

Marcos Felix disse à Pública que conheceu Cataratas quando ele estava com frequência nos EUA, por volta de 2022. Rodrigo de Mello teria visitado seu rancho por ser um local que possui pista de pouso e uma escola de aviação, algo que tem grande afinidade com a área de atuação de Rodrigo Martins de Mello, que teve escola de treinamento de pilotos em Roraima e duas empresas de táxi aéreo. Rodrigo foi considerado pela Justiça como o operador logístico, por meio de aeronaves e helicópteros, do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.

Empresa de frete com parceiro de longa data

No mesmo rancho está registrada ainda outra empresa que tem ligação com Cataratas, a Cargo Flow. A empresa tem como diretor, além de Marcos Felix Ribeiro, um roraimense de nome Marcel Anderson Coelho Carvalho, que trabalhou com Cataratas em diversas ocasiões, incluindo a extração ilegal de minérios no território Yanomami.

Fundada em março de 2025 em São Petesburgo, outra cidade da Flórida, a empresa está registrada junto às autoridades americanas para realizar transporte de cargas comerciais em trajetos interestaduais nos EUA. Neste mesmo registro, o endereço de correspondência da Cargo Flow é o mesmo do apartamento do Sole Mia.

Segundo seu site, a Cargo Flow realiza entregas de produtos no varejo ou atacado, encaminhamento de fretes “do porto ao depósito”, além de entrega de partes para a indústria de peças de avião. “Nossa missão é simplificar a logística para que nossos clientes possam se concentrar no que fazem de melhor, enquanto nós cuidamos dos aspectos críticos, sensíveis ao tempo e complexos de suas cadeias de suprimentos com precisão e cuidado.”

Seu dono, porém, não se apresenta como empresário. O brasileiro Marcel Anderson Carvalho orgulha-se de ser piloto de avião e de trabalhar como contratado, viajando para lugares como Dubai, Guam, África do Sul, Washington e Califórnia. 

Mas, segundo o MPF de Roraima, ele também participou do esquema, liderado por Cataratas, de extração ilegal de minérios em terra indígena. O roraimense de 35 anos mantém o canal de YouTube “Marcel the Pilot”, onde descreve sua jornada de estudante de dentista até piloto treinado.

Print de vídeo do canal de YouTube “Marcel the Pilot”
Canal de YouTube “Marcel the Pilot”, onde Marcel descreve sua jornada de estudante de dentista até piloto treinado

Nele, Marcel descreve ter trabalhado como instrutor de aviação em uma escola de Boa Vista – Rodrigo Cataratas teve uma escola do tipo – e como, depois, “seu chefe” o convidou a trabalhar pilotando helicópteros em áreas remotas da floresta, incluindo contatos com indígenas isolados. Em algumas cenas, ele aparece ao lado de indígenas Yanomami. Após o trabalho na Amazônia, ele conta ter ido trabalhar em um barco de pesca de atum nas Filipinas.

Aldeia de indígenas yanomami
Marcel relata ter trabalhado como instrutor de aviação e piloto de helicóptero na Amazônia, onde teve contato com indígenas Yanomami

Não há descrição sobre suas atividades comerciais na Flórida. Mas a investigação de Agência Pública e ICIJ conseguiu determinar que ele ficou hospedado no apartamento do Sole Mia entre maio e agosto do ano passado, pouco antes de Ramagem ser acolhido pela família Martins de Mello no mesmo local.

Marcel durante hospedagem no apartamento do Sole Mia
Marcel durante hospedagem no apartamento do Sole Mia

Marcel trabalha com Rodrigo Martins de Mello desde pelo menos 2016, quando seu nome figurava como funcionário da empresa Cataratas Poços Artesianos Ltda, segundo o Ministério Público Federal.

Em 16 de outubro de 2018, Marcel foi flagrado durante um patrulhamento fluvial do Exército no rio Uraricoera, na área do garimpo do Espadim, no interior do território Yanomami. Dois garimpeiros conseguiram fugir, mas Marcel foi detido. Em seu depoimento à polícia, reconheceu ter transportado combustível do município de Amajari (RR) até uma pista de pouso na mata. Marcel declarou à época que era “piloto de avião e helicóptero” e que estava “desempregado”. Ele também disse que havia trabalhado para a Tarp Taxi aéreo – outra empresa de Cataratas – até dois meses antes.

No helicóptero, Marcel carregou seis carotes de combustível, com capacidade de 50 litros cada um. Este tipo de combustível é geralmente transportado por helicóptero até a área de garimpo para fazer funcionar as máquinas necessárias para a extração de ouro e cassiterita. O helicóptero, um Robinson R44 Raven, estava em nome de um “testa de ferro” mas, segundo o MPF, pertencia a Rodrigo Cataratas.

Tanto Marcel quanto seu pai seriam integrantes da organização criminosa liderada por Cataratas, segundo a denúncia oferecida pelo MPF. “Indivíduos responsáveis por realizar e viabilizar a atividade de garimpo ilegal em terras indígenas mediante a operação irregular de aeronaves empenhadas no transporte de pessoas, insumos e minérios, incluindo aquisição, armazenamento e transporte ilícito de combustíveis”. Marcel foi denunciado por transporte de substâncias perigosas sem autorização.

Em agosto, Rodrigo Martins de Mello tornou-se réu em outro processo por liderar uma operação de venda, lavagem e comercialização de ouro e cassiterita proveniente da TI Yanomami que teria movimentado mais de R$ 200 milhões de reais entre 2021 e 2023. O esquema contava com a participação da empresa White Soldier, que fundia a cassiterita e vendia os lingotes de estanho “esquentados” com certificação para o mercado internacional. 

Foi justamente neste período que as empresas Cargo Flow e a X One Charters foram fundadas nos EUA.

A Agência Pública e o ICIJ enviaram questionamentos a Rodrigo Cataratas sobre se ele utilizou dinheiro de garimpo ilegal para obter empresas e imóveis nos EUA, mas não obtiveram respostas.

Marcos Felix Ribeiro, cujo rancho consta como sendo a sede da X One Charter e da Cargo Flow, disse à Pública que montou a empresa Cargo Flow junto a Marcel para vender peças de aviação e maquinário. Segundo ele, a empresa nunca fez nenhuma venda e, por isso, pediu para tirar seu nome da sociedade. Ele afirmou ainda que se desentendeu com o Marcel: “Nunca mais liguei pra ele, nunca mais me ligou”.

Ribeiro afirmou ainda que não sabia do passado do Rodrigo Cataratas nem dos problemas dele no Brasil.

Marcel Carvalho afirmou à reportagem que é residente nos EUA desde 2022 e se mudou para a Flórida depois de se divorciar, onde alugou um quarto em um apartamento desocupado. Ele não esclareceu se o apartamento era de Rodrigo Cataratas, mas afirmou que não mantém “nenhum negócio, sociedade ou vínculo empresarial com Rodrigo Martins de Mello”.

Sobre a Cargo Flow, disse apenas que a correspondência era enviada para o Sole Mia e hoje em dia a sede da empresa é em Orlando. “Quanto à mineração ilegal, não tenho um posicionamento a apresentar sobre o assunto”, completou. 

Casas de luxo e Sole Mia

Cataratas aparece ligado a dez endereços no estado norte-americano desde outubro de 1997. Em 2015, ele adquiriu uma casa de quatro quartos em Boca Ratón, cidade ao norte de Miami conhecida por ter campos de golfe, parques e belas praias. A casa tem dois andares, 250 metros quadrados, quintal, uma piscina coberta e acesso a um lago artificial. Seu valor estimado, hoje, supera os R$ 4 milhões (814 mil dólares). A propriedade pertenceu a Rodrigo Cataratas e à sua ex-esposa, Marcia Phelipe Martins de Mello, até o divórcio do casal. Desde 2021, a propriedade está em nome da ex.

  • Casa em Boca Ratón que pertenceu a Rodrigo Cataratas é avaliada em mais de R$ 4 milhões
    Casa em Boca Ratón que pertenceu a Rodrigo Cataratas é avaliada em mais de R$ 4 milhões
  • Casa em Boca Ratón que pertenceu a Rodrigo Cataratas é avaliada em mais de R$ 4 milhões
    Casa em Boca Ratón que pertenceu a Rodrigo Cataratas é avaliada em mais de R$ 4 milhões
  • Casa em Boca Ratón que pertenceu a Rodrigo Cataratas é avaliada em mais de R$ 4 milhões
    Casa em Boca Ratón que pertenceu a Rodrigo Cataratas é avaliada em mais de R$ 4 milhões

Antes disso, o casal esteve ligado a um endereço em um apartamento no norte de Miami e em um predinho residencial em Dade County, outro condado da cidade.

Hoje, Cataratas tem um apartamento de 96 m² no luxuoso condomínio Sole Mia, cujo aluguel mensal gira em torno de R$ 20 mil reais, com um lago artificial de 28 mil metros quadrados, areia e coqueiros plantados ao redor, além de campo de futebol, quadras esportivas, playground, pista de cooper, trilhas para caminhadas e spa. A propriedade é estimada em R$ 1,6 milhão (320 mil dólares).

Foi neste apartamento que Rodrigo Cataratas e sua família hospedaram Ramagem em setembro do ano passado, depois de ajudá-lo a fugir do Brasil pela Guiana. Alexandre Ramagem ficou no apartamento de 11 de setembro até meados de novembro de 2025. Foi lá que recebeu sua esposa, Rebeca Ramagem, e os filhos em 17 de novembro.

Enquanto esteve por lá, o foragido Ramagem contou com a ajuda do filho de Cataratas, Celso, e da esposa do minerador, Priscila Melo, para resolver problemas com o condomínio, conforme revelou a Agência Pública. Celso afirmou em mensagem do WhatsApp ter falsificado um documento de contrato de aluguel para ajudar Ramagem a tirar sua carteira de motorista nos Estados Unidos.

Mas, assim que a estadia de Alexandre Ramagem no Sole Mia foi descoberta pela imprensa, Rodrigo Cataratas fez questão de dissociar-se do seu nome. Uma carta escrita para ser enviada ao condomínio e assinada por ele dizia ter descoberto pela imprensa que Ramagem não podia deixar sair do Brasil e pedia sua saída imediata “para evitar quaisquer problemas para o condomínio ou para mim mesmo”. “Notifique-o IMEDIATAMENTE da minha determinação de que ele deixe minha propriedade. Sinceramente, Rodrigo Martins de Mello”, dizia a carta encontrada no celular da sua então esposa, Priscila Freitas de Melo.

Empresas da família

O rastro empresarial de Rodrigo Martins de Mello nos EUA vem de longe.

Em 2 de abril de 1998, ele registrou a CRM Trading Company em Miami, uma empresa que trabalha com “toda e qualquer finalidade” de acordo com as leis da Flórida. Curiosamente, a empresa tem as iniciais do seu filho primogênito (Celso Rodrigo de Mello) e foi aberta apenas duas semanas antes do seu nascimento. O irmão mais velho de Cataratas, que tem o mesmo nome, Celso Martins de Mello Filho, aparece como “tesoureiro e secretário” da empresa, que foi extinta em setembro do ano seguinte.

Rodrigo de Mello abriu ainda outra empresa com as iniciais do primogênito na Flórida, a CRM Business LLC. A empresa foi aberta em seu nome e da ex-esposa, Marcia Phelipe Martins de Mello, em março de 2015 na cidade de Fort Lauderdale.

Ambos aparecem como gerentes da empresa até 2019, quando Márcia passa a figurar sozinha neste cargo. No mesmo ano, o novo marido de Márcia assumiu a gerência da empresa – ao mesmo tempo em que assumiu também a casa que pertencia a Cataratas em Boca Ratón.

Pouco depois, Márcia e o atual marido estabeleceram 5 fundos “trust”, todos constituídos na Flórida entre abril e junho de 2021 para gerenciar imóveis em diferentes cidades –  Coconut Creek, Boca Ratón, Deerfield Beach. Somadas, as propriedades administradas por esses fundos valem cerca de R$ 7,5 milhões ( 1,5 milhão de dólares).

O filho de Cataratas e Márcia, Celso, é cidadão americano, como fez questão de afirmar o próprio Rodrigo em suas redes sociais. Quando Celso foi preso por ajudar a fuga de Ramagem, Rodrigo Cataratas postou no Reels do Instagram um texto dizendo que a prisão de um cidadão americano “amplia o debate jurídico e diplomático sobre a condução do caso”, e que o consulado foi avisado.

Celso abriu três empresas nos últimos anos nos EUA

Em agosto de 2024, o filho de Cataratas abriu a Engage Financial Strategies no seu endereço na cidade de Coral Springs, onde vivia em uma casa de três quartos avaliada em mais de R$ 3,2 milhões (639.680 dólares). Tanto ele quanto a esposa, Mariana Poerschke de Mello, foram designados como administradores desta empresa, que atualmente consta como “inativa”.

Em janeiro de 2023, Celso abriu outra empresa, inicialmente voltada ao comércio online, a Cool Stuff E-Commerce LLC. Em 7 de junho, o nome da companhia mudou – assim como, aparentemente, o ramo de atividade. Segundo registros oficiais da Flórida, Celso mudou o nome para Demello Demolition LLC.

Outra empresa criada por Celso também leva suas iniciais: CRM Demolition and Construction LLC, fundada em janeiro de 2023. Embora ele tenha pedido a dissolução da empresa apenas seis meses depois por estar inoperante, ela segue “ativa” nos registros oficiais e em 2024, foi registrada uma nova agente para representá-la.

Celso Rodrigo de Mello atualmente vive em Boa Vista com a esposa Mariana, que é influenciadora digital. Nas fotos do casal no Instagram, é possível vê-lo com uma tornozeleira eletrônica, resultado da prisão por ter facilitado a fuga de Ramagem.

Celso, que é sócio do pai em empresas no Brasil, também foi condenado a oito anos de prisão pela mineração ilegal na terra Yanomami.

‘Ameaça direta à segurança nacional’

O estado da Flórida é apontado como um dos destinos favoritos do ouro garimpado ilegalmente da Amazônia.

O secretário de Estado do EUA, Marco Rubio, já chegou a afirmar, quando era senador, que o ouro ilegal vendido em Miami é uma “ameaça direta à segurança nacional”. O combate ao ouro ilegal chegou a ser sua bandeira quando era senador. Em uma audiência no Senado em 2019, ele afirmou que “há um grande custo humano se não conseguirmos controlar este problema” e mencionou as consequências da mineração ilegal: tráfico de pessoas, corrupção, envenenamento por mercúrio, contrabando de drogas, desmatamento da Amazônia e enriquecimento de “poderosos” grupos criminosos.

“Infelizmente, meu país se tornou um grande porto de entrada para esta atividade”, disse, completando que o ouro “é refinado, transformado em joias, colocado nos nossos eletrônicos e então vendido aos consumidores dos EUA – grande parte, se não tudo, irrastreável”. 

A postura combativa anterior de Marco Rubio contrasta com a intervenção do governo de Donald Trump no caso de Alexandre Ramagem.

Ele chegou a ser detido por estar ilegalmente no país, mas foi liberado por pressão do Departamento de Estado dois dias depois, embora o Serviço de Imigração estivesse ciente do apoio recebido do garimpeiro ilegal.

Procurado pela reportagem, o departamento de imigração afirmou que Ramagem segue ilegalmente nos EUA e pode ser deportado e preso, conforme revelamos na quarta-feira (21).

A atuação de Rodrigo Cataratas no garimpo ilegal durante o governo Bolsonaro levou os Yanomami à fome generalizada e à morte de 570 crianças indígenas por causas evitáveis. Seu filho Celso Rodrigo de Mello também foi condenado. Segundo o MPF, as operações de garimpo ilegal geralemnte são feitos por organizações familiares.

Em seu Instagram, Cataratas usa uma foto com Jair Bolsonaro como imagem de perfil com a palavra “anistia”. Em 2022, ele foi candidato a deputado federal pelo PL e declarou, na época, um patrimônio de R$ 33,6 milhões, incluindo dez aeronaves. Este ano ele chegou a anunciar sua candidatura, mas desistiu e se mudou para a Guiana, onde segue fazendo atividades de mineração. Na época, ele pagou um publieditorial no jornal Folha de Boa Vista anunciando que, “com coragem e ação”, estava levando sua retroescavadeira para o país vizinho.

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Ministério Público encurrala Meta para barrar bloqueios e restrições nas eleições

Em dois movimentos distintos, um judicial e outro extrajudicial, o Ministério Público Federal (MPF) quer barrar bloqueios, suspensões de contas e restrições de alcance promovidos pela Meta no Instagram, Facebook, WhatsApp e Threads.

Na Justiça Federal do Rio Grande do Sul, o MPF ajuizou nesta quarta-feira, 21 de outubro, uma ação civil pública, com pedido de urgência. Em outra frente, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) enviou recomendação à Meta, cobrando providências imediatas.

A ação lida especificamente com as denúncias que fazem parte da representação feita pelas organizações Ctrl+Z, Artigo 19, Conectas e Sleeping Giants Brasil, que mostram que a Meta bloqueou conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio. A Agência Pública mostrou que além dos bloqueios, a plataforma derrubou perfis com acusação de terrorismo e nudez, mesmo não havendo conteúdos nesse sentido. A Procuradoria pede o restabelecimento imediato de contas, páginas e conteúdos afetados pelas restrições apontadas na representação.

A ação pede ainda que a Justiça Federal proíba o uso exclusivo de algoritmos para decisões de bloqueio de conteúdo e que as futuras reavaliações e análises de recursos sejam conduzidas obrigatoriamente por equipes humanas especializadas, com a fixação de multa diária de R$ 500 mil por conta afetada, em caso de descumprimento.

O MPF apurou que as restrições arbitrárias impostas pela companhia foram operadas por meio de algoritmos automatizados, sem notificação clara sobre as supostas violações ou oportunidade de contestação por canal efetivo com revisão humana. Essa prática provocou o enfraquecimento do engajamento de conteúdos cívicos e o cerceamento do debate democrático.

Ao público, no dia 16, a Meta reconheceu que “a conta de anúncios da campanha de Lula foi desativada por engano por pouco mais de 1 hora”, mas afirmou que não se tratou de “razões políticas”.

Após pedir para ‘Flávio abrir o sigilo’, dona de comunidade é bloqueada pela Meta

Uma das vítimas das restrições foi a arquiteta Carolina Martins, 43, de Brasília. Ela criou um grupo e uma comunidade visando angariar apoio para a candidatura de Lula no segundo turno. O grupo chegou a ser derrubado, acusado de “terrorismo” sem fundamentação pela empresa. Ela teve a conta de WhatsApp derrubada e ainda está sofrendo outras restrições da Meta.

Ao divulgar esta semana a proposta do presidente Lula para que ambos os candidatos abram seu sigilo bancário, feita após o debate da rede Bandeirantes, Martins postou uma imagem que dizia “Flavio Abra o Sigilo”. Na segunda-feira, dia 19, ela foi suspensa pela Meta de postar links em suas publicações no Instagram até 16 de novembro sob a acusação de “práticas comerciais proibidas”.

Recomendação quer resposta da Meta em 48 horas

Já a recomendação, que é uma medida extrajudicial para uma empresa ou ente público realizar medidas para corrigir uma ilegalidade, foi expedida pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, em Brasília, e direcionada diretamente à Meta para que a companhia adote medidas urgentes de transparência e proteção à liberdade de expressão nas redes Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp durante o período eleitoral.

À empresa foi dado prazo de 48 horas para responder se acatará as recomendações do MPF e para detalhar as providências que serão adotadas durante o segundo turno das eleições, além de 30 dias para apresentar um relatório conclusivo.

A medida da PFDC vem depois da instauração de investigação no último dia 13 na qual o MPF pediu à Meta uma série de informações. A companhia enviou uma resposta ao MPF no dia 19 de outubro, complementada ontem, 20. 

Nas respostas, segundo a PFDC, a Meta teria alegado, em síntese, que a sua moderação se basearia nos Padrões da Comunidade e na legislação local, que não levaria em conta a orientação política ou ideológica dos usuários.

As respostas foram consideradas genéricas pelo MPF e não abordaram as moderações indevidas e não esclareceram caso a caso no que se baseou cada restrição, conforme demandado no ofício da semana passada.

A manifestação da Meta não mencionou as suspensões fundadas em enquadramentos graves (como terrorismo e abuso sexual), nem das remoções que teriam ocorrido após denúncias em massa. A recomendação à Meta é assinada pelo Procurador Federal dos Direitos do Cidadão, Paulo Thadeu Gomes da Silva, e mais cinco procuradores do MPF que atuam na área de direitos humanos.

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Bet Blaze funcionou em endereço de empresas ligadas a Willer Tomaz, investigado pela PF

Um relatório de análise da nuvem associada ao celular do advogado Willer Tomaz de Souza, produzido pela Polícia Federal (PF), revela que a Foggo Entertainment Ltda, empresa responsável pelas operações da plataforma de apostas Blaze no Brasil, utilizou o mesmo endereço comercial que já havia sido registrado anteriormente por empresas ligadas a Willer Tomaz e a seus ex-sócios. Tomaz ganhou manchetes de todo o país em agosto devido a seu processo contra a própria Blaze, tentando reaver R$ 163 milhões que teria apostado na plataforma, o que chamou a atenção da PF e do Ministério da Fazenda por suspeita de lavagem de dinheiro.

O imóvel localizado na Alameda Prudente de Moraes, nº 86, no bairro Mercês em Curitiba, consta nos registros cadastrais da Foggo Entertainment — CNPJ que recebeu transferências milionárias enviadas por Willer — e já havia sido sede da RioPag S/A, processadora de pagamentos de apostas da Loterj, além de outras sociedades vinculadas a um ex-sócio de Willer.

A análise do iCloud do aparelho celular e Willer Tomaz foi possível a partir de quebra de sigilo autorizada pela Justiça após operação de busca e apreensão contra o advogado e empresário no âmbito da operação Sem Desconto, que investiga as fraudes no INSS. A apuração da PF aponta que o advogado realizou diversas transferências bancárias fracionadas e sistemáticas de R$ 100 mil para a conta da Foggo Entertainment. Ao rastrear a estrutura societária e operacional da empresa de apostas, os investigadores identificaram a sobreposição de endereços entre a operadora da Blaze e a Riopag S.A.

Para os investigadores, a coincidência de endereços “reduz a força de uma leitura puramente casual e justifica aprofundar a investigação sobre eventuais vínculos societários, comerciais ou operacionais entre o investigado, antigos parceiros e a estrutura responsável pela atividade de apostas”.

Uma das suspeitas da PF é que a plataforma de apostas não fosse utilizada apenas para apostas recreativas, mas como meio de circulação intensiva, pulverização do dinheiro e eventual retorno de capital. A análise dos extratos de Willer Tomaz revelou movimentações diárias na plataforma que chegaram a superar R$ 35 milhões em dias específicos, acumulando registros contábeis de perdas na ordem de R$ 40,83 milhões entre junho e outubro de 2025.

Com o cruzamento do endereço em Curitiba e a identificação de saques em cassinos no exterior, as autoridades buscam determinar se as perdas registradas na conta de apostas eram efetivas ou se retornavam ao patrimônio do grupo por meio de estruturas empresariais interpostas.

Dinheiro que circula em várias etapas/empresas

Até o momento, o “amigo advogado” de Flávio Bolsonaro (PL) tem negado ser sócio ou acionista de várias empresas, inclusive as ligadas à operação de bets que funcionavam legalmente no estado do Rio de Janeiro até a primeira semana de outubro. No entanto, um email extraído do iCloud do aparelho celular do empresário, enviado pelo próprio Willer Tomaz para a instituição Magnum Bank, indicam, segundo a PF, “o controle ou vínculo de fato” de Tomaz sobre uma longa lista de empreendimentos, incluindo a RioPag S/A, que opera o meio de pagamento de prêmios da Loterj desde 2023.

Na mensagem em questão, Willer “declara ser sócio ou acionista” de uma lista de companhias, incluindo Rio Pag S/A e Embrasis. “Inclusive daquelas em que seu nome não consta formalmente do quadro societário”, escreve a PF.

Materiais obtidos pela Agência Pública e o relatório da PF ajudam a desenhar a estrutura entre as companhias ligadas à RioPag até chegar a Tomaz, um arranjo que envolve empresas atualmente registradas no Distrito Federal e no Rio de Janeiro.

Certidões emitidas pelas Juntas Comerciais do Distrito Federal e do Rio de Janeiro mostram que a RioPag tem uma única acionista, uma empresa atualmente chamada Capital Pretium S/A (antes chamada de Pixs Holding SA). Por sua vez, a Capital Pretium também possui apenas uma sócia, a Empresa Brasileira de Sistemas de Computação (Embrasis S/A). Até 6 de outubro de 2026, quando houve alteração de diretoria e do estatuto social da empresa, os dois únicos acionistas da Embrasis S/A eram Willer Tomaz (82,5%) e sua irmã, Christine Tomaz de Souza (17,5%).

Oficialmente, o advogado amigo de Flávio Bolsonaro não exerceu papel de gestão ou direção em nenhuma delas. A PF conseguiu estimar o fluxo financeiro entre a teia de empresas até que o dinheiro chegasse a Willer Tomaz. Segundo a investigação, a RioPag repassava aproximadamente 15% de seus recursos à atual Capital Pretium. A Pretium passava à Embrasis cerca de 90%, enquanto a Embrasis, dos irmãos Christine e Willer Tomaz, fazia o repasse “quase integral”, segundo a PF, de seus volumes financeiros.

Segundo relatórios mensais apresentados pela RioPag ao governo do Rio de Janeiro obtidos pela Pública, entre março de 2024 (quando assumiu o controle da operação) e agosto de 2026, a RioPag registrou mais de R$ 185 milhões em receitas. O valor dizia respeito a serviços como o pagamento de prêmios de produtos lotéricos, de bilhetes de ‘raspadinha’ a apostas esportivas (bets). A PF identificou ainda que Willer teria recebido ao menos R$ 67,7 milhões da Embrasis ao longo de 2024, conforme declaração de Imposto de Renda Pessoa Física reproduzida no relatório da operação.

Para SPA, Blaze não cumpriu requisitos para o combate à lavagem de dinheiro

Willer Tomaz de Souza foi a pessoa com o “maior volume total de depósitos” em bets no país em 2025, segundo uma nota técnica assinada em 1º de outubro de 2026 pelo subsecretário de Monitoramento e Fiscalização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. Ainda assim, WTS, como é citado no documento, teria sido enquadrado pela Blaze como um cliente de risco “médio” ao invés de risco “crítico”. O exemplo é utilizado para ilustrar uma série de “indícios de infrações administrativas” por parte da bet – entre as quais constam “ausência de seleção e análise de operações suspeitas” de lavagem de dinheiro.

“Uma rápida pesquisa em fontes abertas na internet mostra que o cliente já esteve detido sob suspeita de corrupção”, aponta a pasta, que alega que Willer Tomaz deveria ter sido avaliado como um cliente de risco “crítico” para que fossem tomadas “medidas especiais importantes” como “comunicações ao Coaf” em relação às movimentações do advogado.

Segundo a nota técnica, o amigo de Flávio Bolsonaro “girou cerca de R$ 5 bilhões em apostas no período, e somou quase R$ 200 milhões acumulados em saques” na Blaze somente naquele ano. Para a SPA, tais valores “deveriam ao menos haver passado por seleção e análise, ainda que a análise concluísse pela ausência de indícios” de lavagem de dinheiro.

Para a Fazenda, “operações do mesmo cliente [Willer] também chamam a atenção” pelo volume de dinheiro movimentado, pela frequência da movimentação e também pela multiplicidade de operações simultâneas. De acordo com a nota técnica assinada pelo subsecretário Carlos Renato Xavier de Resende, as operações poderiam ser enquadradas em práticas proibidas pela legislação que regulamentou a atividade das bets no país – tais como “possível uso de ferramenta automatizada” e “depósitos ou saques em curto espaço de tempo, sugerindo fracionamento ou dissimulação”.

Houve diversas situações em que múltiplos depósitos ou saques ocorreram num curtíssimo espaço de tempo, como, por exemplo, um mesmo dia (30/10/2025) em que foram realizados cinco depósitos de R$ 500 mil em uma mesma hora da manhã, outros cinco do mesmo valor em uma mesma hora da tarde, e outros quatro do mesmo valor em uma mesma hora da noite, totalizando R$ 7 milhões em depósitos em um único dia”, segundo a SPA. A pasta aponta ainda que, no dia seguinte, houve “doze saques de R$ 500 mil realizados em um espaço de 18 minutos”
somando R$ 6 milhões.

A nota técnica destaca ainda que a Blaze “falhou em evidenciar uma devida avaliação do perfil econômico desse cliente [Willer Tomaz]” e que “a observação do extrato de operações dele (em especial os vários depósitos e saques em períodos curtíssimos descritos anteriormente) levantam a possibilidade – sujeita a análise, naturalmente – de operações estruturadas (aquelas em que as movimentações financeiras são divididas em várias partes menores, visando-se a não disparar gatilhos de alerta e/ou chamar a atenção dos responsáveis pelo monitoramento, fiscalização ou persecução criminal)”.

Para basear seus argumentos, a SPA afirma que a Blaze comunicou ao Coaf a existência de apenas sete operações suspeitas na plataforma em 2025 e outras nove em 2026, e nenhuma delas envolvia valores acima de R$ 15 mil.

“Chama a atenção o fato de uma empresa identificar, selecionar, analisar e comunicar ao Coaf atividade atípica em operações de valores comparativamente irrisórios, enquanto a atividade de um cliente que fez 629 apostas individuais de valor igual ou superior a R$ 500 mil (cada uma) ao longo de um ano (sendo quatro delas de R$ 1 milhão, e 394 delas de exatos R$ 500 mil) – o cliente sobre cuja atividade se discorreu anteriormente – sequer tenha sido objeto de análise pela mesma empresa”, segundo a nota técnica da Fazenda.

Procurado pela Pública, a assessoria de imprensa de Willer Tomaz informa que “todos os pontos levantados repetem informações já divulgadas e reiteradamente esclarecidas nas últimas semanas”: “Requentá-los às vésperas do segundo turno, a partir de dados sigilosos vazados, tem o evidente propósito de interferir no processo eleitoral. O advogado Willer Tomaz não cometeu nenhuma irregularidade. Nunca dividiu conta bancária com o senador Flávio Bolsonaro, tema que já motivou queixa-crime por difamação; as viagens foram convites entre famílias, sem contrapartida; e as questões de natureza pessoal estão sob análise dos tribunais.”

A Foggo Entertainment afirma que “esclarece que atua em estrita conformidade com a legislação e a regulação vigentes, adotando políticas rigorosas e contínuas de prevenção à lavagem de dinheiro (PLD), monitoramento de transações e comunicação de operações atípicas aos órgãos competentes”. Em nota à Pública, a companhia reitera de forma categórica que “Willer Tomaz atuou exclusivamente na condição de cliente da plataforma, não possuindo qualquer tipo de participação societária, direta ou indireta, vínculo de controle, ou ingerência na gestão da empresa. 

Em respeito às questões de sigilo, além da legislação de privacidade e proteção de dados, bem como aos ritos legais, a Blaze não comenta detalhes operacionais de clientes nem investigações em andamento, reafirmando que permanece à disposição das autoridades e órgãos reguladores para prestar todos os esclarecimentos necessários.”

O advogado Willer Tomaz ao lado do senador Flávio Bolsonaro
O advogado Willer Tomaz ao lado do senador Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro e a conta de holding

Ainda no âmbito da operação Sem Desconto, a PF mapeou uma rede de relações operacionais, financeiras e pessoais entre o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz. Os apontamentos  apresentados no relatório mostram desde a inclusão do senador como usuário com plenos poderes em conta bancária empresarial até o custeio de viagens familiares em aeronaves privadas por uma offshore vinculada a negócios de apostas esportivas.

De acordo com o relatório, Flávio Bolsonaro esteve cadastrado com perfil de usuário master na conta bancária da Alcazar Holding mantida junto ao Banco Santander. A condição permitia o gerenciamento da conta até 22 de maio de 2025, quando uma secretária do escritório de Willer Tomaz encaminhou e-mail à instituição financeira solicitando expressamente a remoção do acesso do parlamentar e do próprio advogado.

A Alcazar Holding detinha, inclusive, 33,33% do capital social da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., sociedade proprietária de um jato executivo Legacy 650. A Fraction ganhou projeção pública por ter sido utilizada como pagadora em operações de cessão de ativos vinculadas a investigações sobre o Banco Master e o grupo Viking Participações, ambos de Daniel Vorcaro.

Os arquivos examinados pela PF expõem, ainda, um histórico de deslocamentos internacionais realizados em conjunto por integrantes das famílias de Willer Tomaz e de Flávio Bolsonaro. Os relatórios de voos em jatos executivos para destinos como Cascais (Portugal) e Nice (França), apontam que a aquisição de passagens e a logística de transporte foram intermediadas pela Cathedral Holding.

Segundo a PF, a Cathedral Holding não atuava apenas na esfera patrimonial ou no custeio de despesas pessoais do grupo. A empresa figura no organograma do grupo de Willer Tomaz como sócia da Rede Loto Ltda – primeira operadora a obter credenciamento junto à Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para explorar apostas esportivas no estado por meio do domínio BestBet.

Conversas secretas e limpeza na Googlesfera

O relatório da PF com base no iCloud do aparelho celular do advogado Willer Tomaz registra ainda que Flávio Bolsonaro era um dos contatos favoritados pelo advogado no aplicativo Confide. A plataforma é um aplicativo que oferece troca de mensagens privadas de vida curta, que desaparecem após pouco tempo, sem histórico aparente no aparelho.

Os peritos identificaram ainda planilhas e comprovantes de pagamentos efetuados por Willer Tomaz a prestadores de serviços encarregados de remover reportagens e desindexar links do buscador Google. A ideia era tentar controlar o que a plataforma apresentava entre os resultados ao público que buscasse os nomes de Willer Tomaz ou do amigo Flávio Bolsonaro, evitando conteúdos negativos ou indesejados pelo empresário.

Entre os conteúdos que deveriam ser excluídos estava uma reportagem que abordava a atuação política de Flávio Bolsonaro em relação ao projeto de lei dos jogos de azar e sua presença em reuniões com operadoras de cassinos em Las Vegas.

A Pública buscou a equipe de Flávio Bolsonaro, que não respondeu aos questionamentos até o momento. Em caso de resposta, este espaço será atualizado.

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Que a injustiça não te entristeça, que te radicalize

Cerca de 500 mil pessoas foram às ruas em protestos na França nos últimos dias, em atos que começaram pedindo reformas no sistema educacional e evoluíram para reivindicações sociais mais amplas, que já influenciam outros países da Europa.

Os protestos começaram em setembro, quando estudantes bloquearam o acesso a uma escola na região de Paris para exigir mais recursos para a educação. Rapidamente, alunos de outras escolas aderiram, e as manifestações se espalharam pelo país, reivindicando mais professores, mais recursos e a melhora da estrutura dos prédios. A demanda escalou, e se transformou na manifestação de uma insatisfação generalizada com o alto custo de vida, a queda na qualidade dos serviços públicos e com o governo.

O governo tem falado em atos de violência, depredação de patrimônio e incêndios. As autoridades francesas detiveram mais de 6,8 mil pessoas – mais de 5 mil menores de idade.

As manifestações inspiraram levantes na Itália, Albânia e Portugal.

Na Grécia, os estudantes reclamam do custo de vida e do aumento de mensalidades e taxas. Na Espanha, professores exigem melhores salários. Na Albânia, estudantes protestam contra as condições nas universidades, os custos do ensino superior e a falta de apoio financeiro. Em Portugal, a demanda é também por custos mais baixos de taxas nas universidades. 

Na Argentina, milhares de estudantes e professores foram às ruas na última quinta-feira, 15 de outubro, em protesto contra o governo de Javier Milei.

Essa onda de protestos também tem sua contrapartida no Brasil. “Estamos na rua contra a extrema direita e, sobretudo, contra o que ela representa de retrocesso no nosso país” me disse em entrevista no último Pauta Pública o vice-presidente da União Nacional dos Estudantes, Gutemberg Rodrigues, sobre os atos e assembleias que têm sido organizados de forma espontânea por todo o país desde o dia 5 de outubro, sobretudo em apoio à reeleição de Lula, e que têm levado milhares de pessoas às ruas.

É sempre muito bonito ver os estudantes ocuparem os espaços públicos, e o Brasil tem momentos históricos importantes nesse sentido – seja na época da ditadura militar, com a Passeata dos Cem Mil em 1968, o movimento pelo Passe Livre em 2013, ou quando os secundaristas ocuparam as escolas de São Paulo em 2015.

Neste momento, em que tanto está em jogo no futuro do país dependendo do resultado das eleições que acontecem em poucos dias, e que ouvimos apenas que a juventude tem se radicalizado à direita, que há uma apatia na GenZ, que o elo de rebeldia com a esquerda se desfez e que não há mais pensamento crítico ou pautas coletivas, esse levante jovem no mundo é um alívio para nossos corações cansados.

Que esse levante dos estudantes, no Brasil e pelo mundo, nos sirva de inspiração  e nos dê energia nestes poucos dias que faltam para o segundo turno, em que nossas cabeças estão cheias, nossos corações estão pesados e parece que a energia vai acabar a qualquer momento. 

Mas que nos inspire também para além destas eleições, porque a luta não acaba com a apuração de votos, seja qual for o resultado.

Tem aquela frase bonita que o artista mexicano Enrique Cedillo criou para o Partido Comunista Mexicano e que eu gosto de lembrar sempre: “Que a injustiça não te entristeça, que te radicalize”.

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Políticos têm rede ‘paralela’ na Meta sem declarar ao TSE

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Candidatos nas eleições deste ano estão usando uma estratégia em comum: além das contas oficiais nas redes sociais com milhões de seguidores que foram declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), muitos têm uma rede paralela de perfis de apoio que copiam parte do conteúdo das páginas dos políticos. Esse “exército alternativo” turbina o alcance, com menções cruzadas e postagens iguais feitas quase ao mesmo tempo.

Segundo a Agência Pública apurou, Flávio Bolsonaro, que disputa a presidência, tem ao menos sete perfis de apoio não declarados ao TSE com mais de 100 mil seguidores cada. Juntos eles reúnem mais de 2,5 milhões de seguidores. Para se ter uma comparação, o principal perfil oficial de Flávio declarado ao TSE tem 14,8 milhões.

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Além de fazerem propaganda com o número de urna do candidato, essa rede de perfis de apoio divulga links para grupos oficiais de Bolsonaro e o @ oficial de Flávio.

Algumas delas postam o mesmo conteúdo com minutos de diferença. Isso aconteceu no último final de semana, quando uma conta de apoio com mais de 770 mil seguidores publicou o mesmo corte da entrevista de Flávio para a Rede Globo com minutos de diferença, indicando o perfil oficial.

Print de entrevista de Flávio Bolsonaro à Globo
Print de entrevista de Flávio Bolsonaro à Globo
O mesmo corte da entrevista à Globo foi divulgado pelo perfil oficial de Flávio e uma das páginas de apoio com minutos de diferença. A única diferença foi a inclusão de letterings

Os perfis de Flávio não são recentes. A maioria deles foi criada em 2022 ou fim de 2023, quando Lula tomou posse. Do outro lado da disputa, André Janones, deputado federal (Rede-MG) e a principal cabeça por trás da estratégia digital de Lula (PT) no segundo turno, também tem uma página de apoio no Instagram que não foi declarada ao TSE nem por Lula, nem pelo deputado. Nesse caso, o perfil de Janones foi criado em 6 de outubro deste ano, quando o político afirmou que a sua conta oficial estava sendo alvo de perseguição por grupos bolsonaristas e corria risco de ser derrubada. No vídeo, ele assume a criação da página.

O perfil de apoio de Janones traz um link tanto para o @ oficial do político, quanto para o de Lula. Com 1,6 milhão de seguidores, a página também divulga o canal de WhatsApp do “Exército de Lula”, onde são compartilhadas as diretrizes para engajar a favor do candidato.

A Pública apurou com especialistas em direito eleitoral que explicam que ter uma conta de apoio não configura um crime, porém, há limites para o que essas contas podem fazer – e que ficam mais difíceis de serem fiscalizados pela falta de transparência das plataformas.

Como a Pública já mostrou, a Meta deixou anúncios pagos com dinheiro estrangeiro circularem sem rótulo de conteúdo político nestas eleições, o que impede saber quem pagou pelos anúncios e quais postagens foram impulsionadas. A Pública também revelou que a plataforma não tem sido transparente nos critérios que usa para ampliar ou derrubar o alcance de contas.

A advogada Caroline Lacerda, doutora em Direito Eleitoral pela Universidade de Brasília, explica que as campanhas exploram essas contas paralelas de forma estratégica. Um dos motivos é contornar a regra do Tribunal Superior Eleitoral que impede as plataformas de recomendarem os perfis oficiais dos candidatos políticos para os usuários. As páginas de apoio não estão sujeitas a essa limitação.

“A regra de não recomendação cria um incentivo evidente para que as campanhas terceirizem o alcance em perfis paralelos”, explica ela. “As páginas de apoio funcionam, na prática, como caminho alternativo para furar o bloqueio de recomendação dos perfis oficiais. Isso é lícito quando a página é espontânea e sem dinheiro por trás.”

O advogado Fernando Neisser reforça que as publicações em contas de apoio não podem ser impulsionadas através de pagamento. “Por não serem contas oficiais da campanha, elas não precisam ser informadas ao TSE. Por outro lado, essas contas não podem fazer impulsionamento pago de absolutamente nenhum conteúdo eleitoral”, diz.

É aí que a falta de transparência da Meta dificulta a fiscalização. Só é possível saber se houve algum pagamento não declarado através de uma investigação – como o procedimento aberto a pedido da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) contra a empresa – ou se a própria Meta identificar alguma irregularidade, e decidir combatê-la.

Com base na decisão do TSE de que pessoas físicas não podem pagar para promover conteúdos eleitorais, a Meta decidiu, por exemplo, remover três publicações de conteúdo eleitoral de uma página no Facebook em apoio ao candidato Flávio Bolsonaro com 13,7 mil seguidores. Os posts, que circularam nos meses de agosto e outubro deste ano, receberam pagamento para ampliar seu alcance – o que é uma conduta proibida e está sujeita à multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil. 

“Perfis de apoio devem ter identificação de seus autores, e devem ser de pessoas físicas. Qualquer outra forma de propaganda eleitoral pode ser caracterizada como irregular, sujeita à remoção do conteúdo eleitoral e até da conta inteira. Se for um caso reiterado, consistente e articulado, poderá configurar abuso de poder midiático”, afirma Luiz Scarpino, especialista em Direito Eleitoral.

A reportagem questionou o TSE sobre os achados da apuração, que respondeu que “não se manifesta sobre casos concretos, que podem vir a ser objeto de análise pela Justiça Eleitoral”.

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A Pública procurou as assessorias de Flávio e Janones e dos demais políticos citados na matéria. O espaço segue aberto para respostas.

Campopiano e Pavanato também mobilizam rede de apoio paralela

Além de Flávio e Janones, dois campeões de voto do PL em São Paulo também têm perfis que parecem operar em rede: o segundo deputado federal mais votado do país, Lucas Pavanato, e a deputada estadual que teve mais votos no Brasil, Eduarda Campopiano.

Campopiano tem ao menos sete contas de apoio, além do perfil que foi informado ao TSE. Juntos, esses perfis têm cerca de 1,8 milhão de seguidores, mais da metade dos 3,2 milhões que ela tem no perfil oficial atualmente. Essa rede de perfis que se declaram “de apoio” à política atuam em rede, um marcando o outro, e muitos divulgam na bio o número de urna de Campopiano, além de divulgar links que direcionam para o instagram oficial e para a comunidade oficial da candidata. 

Lacerda explica que esse comportamento é considerado válido desde que essa seja uma iniciativa orgânica e espontânea vinda dos próprios usuários. “Se a campanha pede para alguém criar a página, dirige o conteúdo ou paga por ela, a iniciativa é da campanha, não da pessoa”, ressalta.

A falta de transparência nas plataformas também dificulta saber quem é o verdadeiro dono de um perfil. “O que prova a existência de uma conta fantasma oficial da campanha é, se houver suspeita suficiente, entrar com ação, obter a quebra dos metadados de acesso daquela conta e identificar que aquele login está sendo feito pela equipe oficial da campanha”, explica Neisser. Fora isso, o que resta é observar o padrão de atividade dos perfis para identificar indícios de irregularidade.

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No maior perfil de apoio a Campopiano, com 847 mil seguidores, há publicações feitas em collab – isto é, em conjunto – com a conta oficial do chefe de gabinete e coordenador de campanha de Campopiano, David Itiúba. Como explica Scarpino, ao envolver o núcleo operativo da campanha, esse tipo de relação corre o risco de ser considerada irregular. 

“Pode ser que esses perfis nasçam independentes, mas se tais páginas de apoio venham, em algum momento, a tangenciar o núcleo da campanha, passariam a merecer o mesmo tipo de restrição como comunicação à Justiça Eleitoral, tal como ocorreu no canal do Janones”, explica ele.

O canal Exército do Lula, organizado pelo deputado federal André Janones, foi suspenso por decisão do TSE e só voltou ao ar no dia 14 de outubro, após o político registrá-lo no TSE, conforme determinação do presidente da corte, Kassio Nunes Marques.

Já Lucas Pavanato tem ao menos cinco contas dedicadas à sua campanha, diferentes da principal declarada ao TSE. Segundo o levantamento, esses perfis juntos têm mais de 230 mil seguidores.

Ao todo, o levantamento encontrou outros políticos que também têm contas ativas de apoio não declaradas à Justiça Eleitoral. A maioria, 66%, foi de políticos do PL, seguidas de 22% de partidos como o MDB, PSD, PSDB, União, Podemos e 11% de candidatos diretamente ligados ao governo, de partidos como o próprio PT, o PSOL, PSB, PDT, dentre outros.

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Bolsonarista, Gusttavo Lima pressionou Vorcaro por acordo para movimentar R$ 23 bilhões

De óculos e chapéu de couro marrons, camisa e calça pretas e cordão de ouro no pescoço, o cantor sertanejo Gusttavo Lima recebeu em sua residência o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL), a quem declarou apoio ao lado de duas dúzias de estrelas do gênero, todos homens, nesta terça-feira (20). Em vídeo publicado nas redes sociais, o Embaixador, como é conhecido, falou sobre o momento difícil para o povo brasileiro que não teria poder de compra e reclamou como hoje “com R$ 100, você não faz nem um churrasco”, “porque está tudo tão desonesto, uma taxa de juros desonesta”, sintetizou, gravando ao lado do seu candidato, no andar de cima da residência em frente a uma janela de vidro que revelava, de fundo, um jatinho executivo à disposição da dupla.

Gusttavo Lima e Flávio Bolsonaro posam para foto com jatinho ao fundo
Gusttavo Lima e Flávio Bolsonaro posam para foto com jatinho ao fundo

“Quando eu era criança, eu só tive oportunidade de estudar porque eu tive Bolsa-escola, Bolsa Família…”, afirma o embaixador sertanejo, ao que o filho 01 de Jair Bolsonaro responde “vai ser tudo mantido, tá garantido”, atribuindo o discurso de risco de corte de investimento em educação ou programas sociais, como houve no governo de seu pai, a “fake news”. 

Além de Lima, que tradicionalmente se dizia da direita não extrema, mas apoiou os Bolsonaros nas últimas eleições, estiveram na fazenda do senador Wilder Morais (PL) para a reunião em apoio ao presidenciável nomes como Amado Batista, Murilo Huff, Zezé Di Camargo, Rodolffo, da dupla com Israel, Marrone, da dupla com Bruno, Jorge, da dupla com Mateus, e Hugo, da dupla com Guilherme.

Mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF), obtidas pela Agência Pública, revelam que o hoje Embaixador quase foi “Gusttavo Lima, da dupla com Vorcaro”, protagonista em um dos maiores escândalos de corrupção e fraudes financeiras da história recente do Brasil.

Flávio Bolsonaro durante encontro com cantores sertanejos
Flávio Bolsonaro durante encontro com cantores sertanejos

O diálogo do dia 6 de novembro de 2024 inclui uma proposta de movimentação de R$ 23 bilhões em um ano por parte do “Embaixador” para o empresário, preso por suspeita de fraude financeira desde março na Operação Compliance Zero. As mensagens compreendem o período de julho de 2024 a novembro de 2025.

A “oportunidade” se referia ao fornecimento de maquininhas de cartão de crédito. Vorcaro não tinha sociedade pública ou formal com empresas do setor; porém, investigações da Polícia Federal (PF) e do Banco Central (BC) apontam para a suspeita de que ele usaria marcas de fintech, pertencentes ao Grupo Entre, para movimentar recursos e lavar dinheiro.

Às 9h49 da manhã, Gusttavo Lima envia a Daniel Vorcaro: “vamos falar sobre o meio de pagamento? Operação Super BH”. O Super BH em questão é uma rede de mais de 300 supermercados em 90 municípios de Minas Gerais e Espírito Santo que pertence ao bilionário Pedro Lourenço, amigo pessoal e padrinho de casamento do cantor. A rede Super BH não retornou aos pedidos de comentários por parte da reportagem.

Os amigos Lourenço e Lima já fizeram outros acordos financeiros no passado. Em 2016, o dono da rede de supermercados chegou a emprestar R$ 6 milhões ao cantor para financiar a gravação de um DVD, conforme relato do próprio artista em entrevista ao podcast André Piunti, em outubro de 2025. 

A fortuna de Lourenço é diversificada em vários empreendimentos. Em abril de 2025, ele se tornou sócio majoritário do clube de futebol Cruzeiro, adquirido por ele por cerca de R$ 600 milhões. O antigo dono era o ex-jogador Ronaldo “Fenômeno”, que também tinha ligações com Vorcaro e, em 2024, captou R$ 25 milhões em capital de giro por meio do Fundo Victória, que pertencia ao Banco Master, como revelou a Veja. A Pública procurou Lourenço para comentar sobre o negócio, mas, até o momento, não obteve resposta. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

O Embaixador dá continuidade ao diálogo e adverte: “temos que andar rápido ou perdemos”. Vorcaro responde “vamos”. Posteriormente, os dois entram em uma chamada de voz durante 2 minutos e 28 segundos e o cantor envia dois arquivos nomeados como “Pedro – taxas atualizadas” e complementa: “Vamos distribuir as maquininhas em cada loja física. 23 bi ano que vem é o movimento”. 

A projeção é bem dimensionada. Naquele ano, o faturamento, segundo dados publicados pela própria rede, foi de R$ 21 bilhões. No ano seguinte, R$ 25,72 bilhões. Vorcaro, no entanto, passa 12 dias em silêncio. Àquela altura, o Master já havia adquirido o Will Bank e estava a quatro meses de ser comprado pelo Banco de Brasília (BRB), mas, nos bastidores, as operações de rendimentos ofertadas pela empresa já estavam sob escrutínio.

Em 18 de novembro, Gusttavo Lima insiste com outro arquivo “Pedro – taxas atualizadas”. “Vamos trabalhar, bb. Pelo amor de Deus. Focar”. O ex-banqueiro responde: “Bora. Amanhã alinhamos”. Em áudio, o Embaixador pressiona: “Irmão, essas são as taxas do Super BH. Falei com o pessoal lá e ‘ó, se conseguir cobrir o que for, seja 1%, tá fechado com a gente’. Deve passar uns 20 bi no próximo ano e a gente tem que definir pra ontem”. O Embaixador volta a cobrar no dia seguinte: “meio [de] pagamento. Bora explodir ele. Super BH”. 

Lima e Vorcaro trocaram mensagens até uma semana antes do banqueiro ser preso pela primeira vez, em novembro de 2025. Nas mensagens, não há confirmação de que o acordo tenha avançado e saído do papel.

Mesmo se definindo como neutro, Gusttavo Lima é alinhado a políticos de extrema direita. Em 2018, defendeu publicamente a posse e o porte de armas de fogo para cidadãos e ainda frisou ser a favor da revogação do estatuto do desarmamento. Em outubro de 2022, durante um show em Miami (EUA), declarou apoio à reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. O cantor também declarou ter entre seus ídolos o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), em 22 de agosto deste ano. 

Nikolas Ferreira encontrou Gusttavo Lima nos bastidores da Festa do Peão de Barretos
Nikolas Ferreira encontrou Gusttavo Lima nos bastidores da Festa do Peão de Barretos

Ficha Limpa*

Os diálogos entre Daniel Vorcaro e Gusttavo Lima, mantidos entre os anos de 2024 e 2025, não explicitam qual seria a sua parcela de ganhos na negociação, nem o nome da empresa de máquinas de cartão de crédito envolvida na transação. Todavia, as investigações da PF e do BC associam Daniel Vorcaro à fintech Entrepay, liquidada extrajudicialmente pelo BC junto às empresas Acqio e Octa, todas do Grupo Entre, em 27 de março de 2026 – mostrou o Estadão em reportagem publicada no mesmo dia da liquidação.

A PF segue o rastro dos pagamentos do Grupo Entre, que, segundo os investigadores, teria sido o responsável por repassar parte dos R$ 61 milhões solicitados a Vorcaro pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) para o financiamento do filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, ainda não lançada. A informação foi publicada pelo Intercept, em 9 de junho deste ano. 

“A liquidação extrajudicial foi motivada pelo comprometimento da situação econômico-financeira da instituição líder do conglomerado, bem como por infringência às normas que disciplinam sua atividade e por prejuízos que sujeitam a risco seus credores”, anunciou o BC à época.

Segundo o Estadão, em março deste ano, o fundador do Grupo Entre, Antônio Carlos Freixo Júnior, seria como um operador que usava a infraestrutura do conglomerado Entre em benefício de Daniel Vorcaro. Conhecido como “Mineiro”, Freixo foi alvo da segunda fase da operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras envolvendo o Banco Master numa teia relacional com empresários e agentes públicos. Procurado, o Grupo Entre não respondeu aos questionamentos da Pública.

Antônio Carlos Freixo assinou acordo de delação premiada com a Procuradoria-geral da República (PGR) em 8 de agosto deste ano, revelou o G1. A reportagem, publicada em 3 de setembro, revela que “Mineiro” afirmou ter movimentado cerca de R$ 1,3 bilhão para o ex-banqueiro, entre 2020 e 2025. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, homologou a delação em 9 de setembro e o processo está sob sigilo. 

Os diálogos entre o cantor e o ex-dono do Master também mostram que, entre julho de 2024 e março de 2025, Gusttavo Lima tentou negociações com Vorcaro envolvendo o Will Bank, controlado pelo Master e que teve a liquidação decretada em 21 de janeiro de 2026. As operações ilegais, no entanto, já eram apontadas pela Justiça Brasileira meses antes da tentativa de negócio, segundo reportagem do ICL Notícias. Entre as práticas fraudulentas identificadas pela PF, o banco digital teria usado o dinheiro depositado pelos clientes para adquirir Certificados de Depósito Bancário (CDBs) dentro da própria estrutura financeira, sem a autorização dos clientes, para inflar artificialmente os números da instituição. 

Imagem gerada por IA do cantor Gusttavo Lima como presidente da República
Cantor sertanejo anunciou a vontade de se candidatar à Presidência da República em janeiro de 2025

Apelido Carinhoso*

Em 4 de janeiro de 2025, Gusttavo Lima enviou a Vorcaro o print de uma enquete online com a participação de mais de 52 mil internautas. Nela, 52% dos participantes responderam que votariam no artista numa possível candidatura ao Planalto. Dois dias antes, o cantor sertanejo anunciou a vontade de se candidatar à Presidência da República.

“Você é foda. Que loucura. Vou ser seu ministro da Fazenda rsrs”, reagiu com empolgação o banqueiro com quem o cantor manteve contato até uma semana antes de sua primeira prisão, em novembro de 2025.

Os planos de presidência foram deixados de lado em 19 de março de 2025, quando Lima recuou e anunciou, por meio das redes sociais, ter desistido da corrida eleitoral. “Peço a todos que respeitem a minha opinião, minha posição e a minha imparcialidade”, resumiu, preferindo se manter apenas como “Embaixador”.

A proximidade entre os dois é expressa nas mensagens de 28 de outubro de 2024, quando o empresário destacou: “Saudades de ti. Vamos [nos] encontrar para avançar nos temas”. O cantor, por sua vez, respondeu com um áudio de 9 segundos: “Uai, urgente, bebê. Cheguei, tô no Brasil, cheguei hoje. Saudades, cara. Tá doido?! Vai me matar de saudade”. 

A parceria entre os dois também se traduz em apoios que não ficam explícitos no conteúdo revelado pelos diálogos de WhatsApp. Em 9 de setembro de 2024, uma reportagem do Fantástico, da TV Globo, mostrou que a Justiça determinou o bloqueio de R$ 20 milhões, além do sequestro de imóveis e embarcações, da empresa Balada Eventos, pertencente a Gusttavo Lima. O empreendimento era investigado pela Polícia Civil de Pernambuco por suspeita de participar de um esquema de lavagem de dinheiro proveniente de jogos de azar.

No dia seguinte, Lima buscou contato com Vorcaro: “mano, tá ae ?!”. O ex-banqueiro respondeu: “fala, irmão”. Em seguida, Gusttavo Lima agradece: “obrigado pelo apoio”. A conversa se encerra com Vorcaro reforçando a cumplicidade: “estamos juntos sempre! Bora pra guerra”. 

A Pública procurou a defesa de Daniel Vorcaro para entender por qual empresa ele pretenderia assumir o contrato proposto por Gusttavo Lima e a natureza da relação dos dois, mas até o momento, não obteve resposta. Se houver manifestação, este espaço será atualizado.

Gusttavo Lima e você*

O cantor Gusttavo Lima foi procurado antes mesmo de fazer sua declaração de apoio pública a Flávio Bolsonaro, por email, por meio de sua assessoria de imprensa, mas preferiu não se manifestar sobre sua relação com Daniel Vorcaro até a publicação desta reportagem. Este espaço será atualizado tão logo o artista deseje se manifestar.

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BRICS e os limites da ação coletiva no Oriente Médio

Sem sua formalização, o papel do BRICS na resolução de conflitos permanece limitado.

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Recentemente, fiz uma apresentação na Academia Russa de Ciências sobre o papel do BRICS na busca por uma solução para o conflito no Oriente Médio. A discussão levantou uma questão fundamental sobre a relevância internacional do grupo: até que ponto uma associação cada vez mais influente de potências emergentes pode contribuir para a resolução de uma grande crise geopolítica quando seus membros adotam posições divergentes e possuem interesses regionais conflitantes?

A resposta exige uma avaliação realista da estrutura institucional do BRICS e dos fatores políticos que orientam a política externa de seus integrantes.

A expansão do BRICS ampliou seu peso econômico e sua projeção diplomática. Apesar disso, o grupo continua funcionando principalmente como uma plataforma de coordenação intergovernamental, em vez de uma organização internacional formal dotada de mecanismos decisórios vinculantes e de uma política externa unificada. Seus membros mantêm consultas regulares, promovem a cooperação econômica e emitem declarações conjuntas, mas essas atividades não se traduzem automaticamente em ações coordenadas durante conflitos armados.

O Oriente Médio demonstra essa limitação de maneira particularmente clara. Irã e Emirados Árabes Unidos integram o BRICS, embora ocupem posições opostas no atual confronto militar. Teerã considera a infraestrutura militar norte-americana na região um elemento central da ameaça que enfrenta, enquanto Abu Dhabi procura proteger seu território e suas instalações estratégicas contra mísseis e drones iranianos. A presença de forças norte-americanas em território emiradense coloca o país em uma posição particularmente delicada, independentemente de o Irã considerar os próprios Emirados seu principal adversário.

Outros integrantes enfrentam dilemas semelhantes. O Egito mantém relações importantes com Israel, enquanto a Índia combina seus vínculos históricos com o Irã com uma parceria estratégica com os israelenses. Ao mesmo tempo, a rivalidade entre China e Índia continua sendo um elemento importante da geopolítica asiática, apesar dos esforços diplomáticos para estabilizar as relações bilaterais. Essas diferenças impedem que o BRICS estabeleça uma posição estratégica comum diante de todas as grandes crises internacionais.

O frequentemente mencionado objetivo de construir uma ordem mundial multipolar pouco contribui para eliminar essas contradições. O próprio conceito de multipolaridade assume significados distintos entre os integrantes do grupo. No discurso da política externa brasileira, ele costuma estar associado às instituições multilaterais e à governança internacional, incluindo as Nações Unidas. Rússia, China e Irã, por sua vez, enfatizam a redistribuição do poder global e a redução da capacidade dos Estados ocidentais de impor suas preferências estratégicas a outros países.

Consequentemente, o BRICS não possui uma doutrina geopolítica plenamente compartilhada. Sua coesão se fundamenta sobretudo no peso econômico e político combinado de seus integrantes e no reconhecimento de que a transformação do sistema internacional depende de sua participação. Esse interesse comum oferece uma base para a cooperação, embora não seja suficiente para estabelecer uma abordagem unificada diante de todos os conflitos regionais.

Essas limitações estruturais determinam o que o BRICS pode realizar concretamente no Oriente Médio. Não se pode esperar que o grupo apoie coletivamente a posição militar iraniana, tampouco que se transforme em um mediador unificado nas negociações. Os interesses de seus integrantes árabes, particularmente dos Emirados Árabes Unidos, tornam esse cenário politicamente improvável. Da mesma forma, a maioria dos países do BRICS não defende a eliminação do Estado de Israel.

Ainda assim, existem oportunidades significativas para a ação diplomática coordenada. Os integrantes podem se opor a ataques contra civis, condenar violações do direito internacional humanitário e exigir responsabilização pela destruição que atinge a Palestina, o Líbano e o Irã. Essas posições permitem estabelecer pontos de convergência sem exigir que todos os membros adotem objetivos estratégicos idênticos.

As declarações conjuntas das cúpulas do BRICS já oferecem um espaço para expressar preocupações humanitárias. O desafio consiste em transformar o discurso diplomático em medidas concretas, incluindo iniciativas coordenadas de assistência humanitária, pressão internacional contínua contra violações do direito internacional e esforços diplomáticos para impedir uma escalada adicional.

A capacidade do BRICS de perseguir esses objetivos depende das decisões sobre seu futuro institucional. Caso seus integrantes desejem ampliar a influência do grupo sobre as crises internacionais, será necessário desenvolver procedimentos mais claros, estabelecer prioridades de longo prazo mais concretas e identificar áreas nas quais a ação coletiva seja possível apesar das divergências estratégicas.

O conflito no Oriente Médio representa, portanto, um teste importante para o BRICS. Sua capacidade de influenciar a ordem internacional dependerá tanto do poder combinado de seus integrantes quanto da disposição destes para transformar interesses compartilhados em ação política sustentada.

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Emprestado pelo City, promessa argentina será titular em Omonia x Benfica

O técnico Marco Silva, do Benfica, confirmou em entrevista coletiva que Claudio Echeverri vai ser titular no jogo desta quinta-feira (22) contra o Omonia Nicosia, pela Europa League.

O técnico benfiquista elogiou o meia argentino, revelado pelo River Plate e emprestado pelo Manchester City ao clube português.

“De vez em quando dou para vocês [jornalistas] uma novidade. O Claudio vai começar amanhã o jogo. Tem entrado muito bem”, afirmou Silva nesta quarta (21), na véspera da partida.

“Tem dado respostas que me têm deixado bastante satisfeito. Mas não podemos esquecer que é mais um jovem. Temos falado muito do Prestianni e de outros jogadores, mas estamos falando de mais um jovem de 20 anos que tem entrado sempre com uma grande personalidade. Estou muito otimista com a resposta que poderá dar, mas vamos ver a resposta começando um jogo como titular. Ele tem características muito próprias que apreciamos e que em posições mais adiantadas podem fazer a diferença.”

Além de Echeverri, o goleiro Anatoliy Trubin também tem a titularidade praticamente garantida. Isso foi reforçado nesta quarta-feira por Marco Silva, que já tinha adiantado esse cenário logo após o Benfica x Celtic, também pelo torneio continental.

O duelo entre Benfica x Omonia Nicosia, nesta quinta-feira, às 16h (de Brasília), terá transmissão exclusiva do CNN Esportes no YouTube, em parceria com a Itatiaia Esporte.

Conheça Gianluca Prestianni, argentino acusado de racismo contra Vini Jr

 

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Departamento de imigração dos EUA diz que Ramagem é imigrante ilegal e violou leis

A detenção-relâmpago de Alexandre Ramagem nos EUA no começo deste ano parece ter criado uma guerra de narrativas dentro do próprio governo americano. 

Enquanto o Departamento de Estado afirma que a Polícia Federal “manipulou” o sistema legal americano, o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) diz que Ramagem é um “imigrante ilegal” e está sujeito a detenção e deportação. Segundo o DHS, o fato de Ramagem ter feito um pedido de asilo político não lhe dá proteção. 

Ex-diretor da Abin e ex-deputado federal pelo PL, Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele está nos EUA desde que foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em setembro do ano passado, quando fugiu do Brasil através da Guiana com auxílio de um criminoso condenado por garimpo ilegal na terra Yanomami.  

Em abril, o ICE, a polícia imigratória dos EUA que responde ao Departamento de Segurança Interna, prendeu Ramagem em Orlando por permanecer além do prazo do seu visto de turista, mas ele foi libertado dois dias depois. Ele não pagou fiança, segundo Paulo Figueiredo, que afirmou diversas vezes que sua empresa de consultoria de imigração, a Immigrex, está auxiliando Ramagem. Procurado pelo ICIJ, Figueiredo afirmou que não sabia como localizar Ramagem e não podia falar em nome da Immigrex.

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“Obrigado, Presidente Trump e todos na administração”, escreveu Figueiredo no X em 15 de abril, dia que Ramagem foi solto. Eduardo Bolsonaro agradeceu a Trump e ao Secretário de Estado Marco Rubio. Sóstenes Cavalcante, líder do PL, disse que Rubio ajudou a acelerar a libertação, ou ela teria levado pelo menos duas semanas.

Imigrantes detidos geralmente precisam comparecer diante de um juiz de imigração para solicitar libertação sob fiança. No caso de Ramagem, a reportagem não encontrou nenhuma petição judicial. 

O próprio Ramagem já havia sugerido antes que tinha costas quentes. Em um vídeo publicado em novembro de 2025, após o Supremo Tribunal Federal do Brasil ordenar sua prisão, ele disse que estava nos Estados Unidos com o conhecimento do governo americano. “Nas palavras até do governo americano para mim: ‘que bom que temos um amigo que está em segurança a salvo aqui nos Estados Unidos’. Então a gente tem esse apoio dos norte-americanos”. 

Em 20 de abril, cinco dias após a libertação de Ramagem da custódia de imigração, o Departamento de Estado dos EUA suspendeu o credenciamento do policial federal Marcelo Ivo de Carvalho, que era o oficial de ligação da PF lotado em Miami para trabalhar com o ICE e que ajudou na localização e detenção de Ramagem. 

“Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”, escreveu o assessor do Bureau de Assuntos do Hemisfério Ocidental do departamento no X. “Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro envolvido deixe o nosso país por tentar fazer isso”. A embaixada dos EUA no Brasil compartilhou o texto. Em resposta, Paulo Figueiredo tuitou: “tchau, querido”.

No entanto, o Brasil havia protocolado um pedido formal de extradição no Departamento de Estado em 30 de dezembro de 2025, mais de três meses antes da prisão, segundo o Ministério da Justiça.

Em resposta, o governo Lula suspendeu a permissão de um agente de imigração americano lotado em Brasília, que deixou o país em 22 de abril. Em um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores disse que os EUA falharam em consultar o Brasil primeiro, como exige o acordo entre os dois países sobre adidos policiais, e ignoraram a “boa prática diplomática de diálogo entre nações amigas, como Brasil e Estados Unidos, ao longo de mais de 200 anos de relações”.

Agora, o porta-voz do Departamenrto de Segurança Interna confirma que Ramagem está ilegal no país. Em resposta para a ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), parceiros da Agência Pública nesta investigação, o porta-voz afirmou: “Em 13 de abril, o ICE prendeu Alexandre Ramagem Rodrigues, um estrangeiro ilegal do Brasil. Ele entrou legalmente no país em 11 de setembro de 2025, em caráter temporário, com permissão para permanecer no país por seis meses, mas optou por permanecer ilegalmente além do prazo autorizado, em violação às leis da nossa nação. Ele foi liberado da custódia do ICE em 15 de abril, enquanto aguarda o resultado do seu processo de deportação”. 

Segundo o DHS, “um caso de pedido pendente NÃO confere nenhum tipo de status legal nos Estados Unidos. Se uma pessoa entra ilegalmente no nosso país, ela está sujeita a detenção ou deportação”. O porta-voz reforçou o recado destacando o “NÃO” em caixa alta na resposta. 

O DHS garante que Ramagem receberá o devido processo legal. E conclui: “Sob o Presidente Trump e o Secretário Mullin, nossa mensagem é clara: estrangeiros ilegais não são bem-vindos em nosso país”.

Procurada, a Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário.   

Foto de Ramagem após a detenção em Orange County
Foto de Alexandre Ramagem após a detenção em Orange County (EUA)

Um caso que foge à regra 

O caso de Ramagem se destaca em relação aos de centenas de milhares de imigrantes que buscam asilo nos Estados Unidos.

Desde que Trump voltou ao poder em 2025, juízes de imigração ordenaram a remoção de mais de 440.000 solicitantes de asilo, mais do que nos oito anos anteriores, segundo uma análise recente do Washington Post. A libertação da detenção tornou-se a exceção. 

No final de 2025, o ICE estava deportando mais de 14 pessoas diretamente da detenção para cada uma que liberava para aguardar uma audiência, segundo o American Immigration Council, um grupo de defesa que analisou dados do ICE. Em dezembro, a administração pausou o processamento de todos os pedidos de asilo pendentes. 

Um daqueles que ainda esperam é Luis Galeano, um jornalista nicaraguense que fugiu da repressão do governo Ortega à mídia independente e teve sua cidadania nicaraguense cassada em 2023. Em setembro, o ICE o deteve em Orlando enquanto ele dirigia para o Uber. 

Como Ramagem, ele havia entrado legalmente nos Estados Unidos com uma estadia temporária, segundo o Departamento de Segurança Interna, e permaneceu após o prazo enquanto buscava asilo, que ele havia solicitado em 2019. 

Diferentemente do ex-diretor da Abin, ele passou quase duas semanas detido e só foi libertado depois que um juiz de imigração fixou uma fiança de 10 mil dólares. 

O Departamento de Estado, que disse em fevereiro que o governo da Nicarágua havia silenciado e banido a mídia independente, não se pronunciou publicamente sobre o caso de Galeano. 

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Flávio Bolsonaro & família: as perguntas que a Pública já respondeu e você precisa saber

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou à disputa pela Presidência da República carregando um sobrenome que dispensa apresentações, e uma série de controvérsias que vão muito além dos seus discursos de campanha. O filho 01 de Jair Bolsonaro tenta transformar a herança política do pai em votos, enquanto episódios que marcaram a trajetória política de sua família voltam ao centro do debate eleitoral na disputa do segundo turno das eleições de 2026.

Mas você sabe o que realmente aconteceu? Qual é a relação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro? O senador defendeu um policial acusado de matar uma menina de cinco anos? Seu pai, Jair Bolsonaro, sabia do plano para assassinar Lula? Reunimos o que você precisa saber sobre o candidato, o que é fato e o que é mentira, para te ajudar a esclarecer dúvidas antes de ir às urnas no domingo, 25 de outubro.

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Golpistas durante invasão em Brasília em 8 de janeiro de 2023

1. Jair Bolsonaro mandou matar Lula? O que era o plano Punhal Verde Amarelo?

O plano Punhal Verde e Amarelo previa o assassinato das três autoridades antes da posse de Lula, em janeiro de 2023. Sua execução envolveria militares das Forças Especiais do Exército, conhecidos como kid pretos, treinados para operações de alto risco.

O plano foi descoberto durante as investigações sobre a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022, e detalhado em reportagem da Pública de abril de 2025. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), o documento foi elaborado pelo general da reserva Mário Fernandes, ex-integrante do governo Bolsonaro.

De acordo com a denúncia da PGR, Fernandes apresentou o plano a Jair Bolsonaro. As investigações da Polícia Federal também identificaram reuniões clandestinas, compra de celulares para comunicação entre os envolvidos e operações de monitoramento a Alexandre de Moraes.

2. Flávio Bolsonaro mentiu sobre sua relação com Daniel Vorcaro? O banqueiro financiou o filme sobre Jair Bolsonaro?

Sim, quando o assunto é o Caso Master, Flávio Bolsonaro mentiu uma sequência de vezes. O financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro orçada em R$ 134 milhões, foi apontado como foco de desgaste para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Áudios e mensagens revelados pelo The Intercept Brasil contradizem declarações do senador, que havia negado manter contato com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

Em uma das mensagens, Flávio cobrou pagamentos atrasados para a produção. Após a divulgação das conversas, confirmou a negociação, mas mudou de versão e afirmou que se tratava de financiamento privado para uma obra privada, sem oferecimento de vantagens em troca.

Em áudio enviado a Vorcaro, Flávio demonstrou preocupação com os pagamentos e com a repercussão da produção: “Todo efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir com esse filme pode ter o efeito elevado a menos um aí, cara”. Segundo informações apresentadas na coluna de Marina Amaral, a produtora Karina Ferreira Gomes afirmou que Vorcaro teria financiado mais de 90% da obra.

O texto também aponta que organizações ligadas à produtora receberam R$ 4,6 milhões em emendas parlamentares de deputados do PL e discute os questionamentos apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre possível abuso de poder econômico e financiamento político irregular. Essas suspeitas dependem de apuração e decisão das autoridades competentes.

Em foto, Jair, pai de Flávio Bolsonaro, aparece em foto com máscara fora do rosto na pandemia de COVID-19

3. A família Bolsonaro é antivacina? O que aconteceu durante a pandemia?

O país terminou o governo Bolsonaro, em 31 de dezembro de 2022, com 693.853 mortes registradas pela doença. Mas as consequências da atuação do governo durante a crise sanitária foram além das declarações públicas do presidente, que incluíram o não interesse em compra antecipada dos imunizantes e o desestímulo à população de tomá-los sob risco de “virar jacaré”, como foi popularizado um de seus deboches sobre o assunto.

Reportagem da Agência Pública acompanhou as investigações sobre a condução da pandemia e os resultados da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, instalada no Senado em 2021. O relatório final da comissão apontou possíveis crimes atribuídos a Bolsonaro e a outros integrantes de sua administração, entre eles epidemia com resultado morte, charlatanismo, incitação ao crime e prevaricação.

A CPI pediu o indiciamento de 78 pessoas, incluindo o ex-presidente, e apontou possíveis crimes contra a humanidade.

Uma investigação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) também identificou uma atuação sistemática do governo federal na disseminação de medidas contrárias ao enfrentamento da pandemia, como noticiou a Pública. Para a pesquisadora Deisy Ventura, da Faculdade de Saúde Pública da USP, houve uma estratégia coordenada que contribuiu para a propagação da doença.

4. Flávio Bolsonaro defendeu um policial acusado de matar uma criança de cinco anos?

Sim, e a Pública lembrou dessa história a partir do relato de quem ainda espera por justiça: a mãe de Ana Clara, uma menina de cinco anos morta após ser atingida por um disparo em fevereiro de 2021, em Niterói (RJ). 

Ana Clara brincava com o irmão de dois anos na porta de casa quando foi atingida. Sua mãe, Cristiane Gomes da Silva, contou à Pública que ouviu disparos e correu até a filha. Segundo ela, o policial inicialmente não prestou socorro.

O policial militar Bruno Dias Delaroli tornou-se réu pela morte da criança. Em 2024, quando já exercia o mandato de senador, Flávio Bolsonaro atuou como advogado em sua defesa. A história foi descoberta pelo ICL Notícias.

Em foto, imagem de Nossa Senhora Aparecida em fundo em referência à fala de Flávio Bolsonaro sobre querer que o Brasil fosse declarado “de Jesus Cristo”.

5. Flávio Bolsonaro queria retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida?

Flávio disse querer que o Brasil fosse declarado “de Jesus Cristo”, o que é diferente de retirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida, mas foi o suficiente para gerar uma onda de temor católico, devido aos frequentes acenos da família Bolsonaro ao movimento evangélico.

A acusação de que Flávio Bolsonaro apoiava a retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida ganhou força antes do 1º turno. A controvérsia surgiu a partir de um projeto de lei apresentado pelo ex-deputado Professor Victório Galli (PP-MT), pastor evangélico, que pretendia substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos católicos apostólicos romanos”. A proposta foi arquivada em 2008, conforme mostrou o Pública.

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A discussão ganhou grandes proporções nas redes sociais, com mais de 1,3 milhão de publicações e 12,4 milhões de interações entre 23 e 27 de setembro, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque (IDX), divulgado em análise da Pública.

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1 com ausência de Flávio Bolsonaro

6. Flávio Bolsonaro é contra ou a favor do fim da escala 6×1?

O candidato se declarou contra a redução da escala 6×1 ao longo da maior parte da discussão sobre o assunto, defendido pelo governo federal, mas mudou de posição oficial às vésperas do segundo turno das eleições de 2026. No entanto, nos bastidores, prometeu a empresários e apoiadores revisar a decisão e estabelecer regras de transição menos radicais do que as estabelecidas atualmente no Congresso Nacional.

Flávio era contrário à redução da jornada de trabalho sem diminuição salarial, por considerar que a medida prejudicaria a economia. No entanto, na votação realizada em 14 de outubro, o texto foi aprovado pelo Senado e Flávio votou a favor à distância, enquanto participava de um ato de campanha em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

A Pública revelou que, enquanto o Senado discutia o fim da escala 6×1, aliados de Flávio se reuniam no gabinete de Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha, para discutir estratégias eleitorais. A apuração mostra que o grupo buscava evitar que o governo Lula capitalizasse politicamente a aprovação da proposta. Apesar do voto favorável, Flávio sinalizou aos empresários que, caso eleito, poderia adotar medidas compensatórias para reduzir os impactos das jornadas sobre as empresas.

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Hospitais do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro e a acusação de Lula na Band

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“Eu queria fazer a pergunta: se ele [Flávio Bolsonaro] tem noção da destruição que ele fez nos seis hospitais federais do Rio de Janeiro, que nós agora estamos recuperando”. Essa foi a fala do presidente e candidato à reeleição Lula (PT), no último debate realizado pela TV Bandeirantes no domingo, 18 de outubro.

O presidente acusou o concorrente Flávio Bolsonaro (PL) de mandar nos hospitais federais do Rio durante o governo do pai, Jair Bolsonaro. Lula falou de UTIs fechadas, de unidades sucateadas e de um “pedágio” cobrado de funcionários para estacionar no que Flávio respondeu que Lula estava “vomitando um monte de mentiras”.

A informação usada por Lula foi revelada pela Agência Pública em 1º de outubro, na reportagem de Caio Briso, que trouxe documentos oficiais e entrevistas que indicam como o senador Flávio Bolsonaro, sem cargo no Executivo à época, exerceu forte influência sobre a rede de saúde entre 2019 e 2022, em plena pandemia de Covid-19.

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O Rio é a única cidade do país com hospitais administrados pelo governo federal, herança dos tempos em que era a capital do país. São seis unidades: Bonsucesso, Andaraí, Cardoso Fontes, Ipanema, Lagoa e Servidores do Estado. Com orçamento alto e muitos contratos terceirizados, a rede virou um “feudo” de políticos fluminenses, segundo fontes consultadas sob reserva pela reportagem que traz detalhes de como Flávio Bolsonaro influenciou a saúde do Rio no governo de Jair Bolsonaro.

No debate, Flávio chegou a assumir uma mea culpa sobre o mal resultado da gestão do pai na saúde. “De fato, a saúde não foi uma área que a gente teve o melhor resultado. Eu faço aqui esse mea culpa”, afirmou o senador. Apesar disso, ele argumentou que Jair comprou as vacinas, sem informar que o presidente deu várias declarações contrárias à compra de vacinas, além de desinformar sobre o efeito delas.

Leia a fala de Lula na íntegra

“Eu queria fazer a pergunta: se ele [Flávio Bolsonaro] tem noção da destruição que ele fez nos seis hospitais federais do Rio de Janeiro, que nós agora estamos recuperando. Fizemos parceria com a iniciativa privada, com a prefeitura, para que a gente dê conta daqueles hospitais. Aquele hospital tem que ser hospital de qualidade, aquele hospital tem que ser referência.

Mas sabe o que ele fazia quando ele tomava conta desses hospitais? Ele cobrava até pedágio dos funcionários, os caras pagavam estacionamento. Então, quem está assistindo pode ir lá perguntar, pode ir lá perguntar, pode ir nos hospitais perguntar para a enfermeira, para médico. Tinha um hospital lá do Rio de Janeiro, federal, que ele tomava conta, que não tinha cozinha (…) Então é o seguinte, rapaz: pelo amor de Deus, quando a gente trata de saúde, você tem que tratar de saúde com respeito, com muito respeito (…)”.

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Segundo turno das eleições será referendo sobre futuro da Amazônia

Depois dos resultados do primeiro turno, observadores ambientais acreditam que o dia 25 de outubro não será apenas a disputa final entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro: a votação será também um referendo sobre o futuro da Floresta Amazônica.

“Estamos muito preocupados com os riscos para a Amazônia caso Flávio vença a eleição, porque ele nega as mudanças climáticas”, afirmou Carlos Nobre, uma das maiores autoridades na área e um dos cientistas brasileiros mais conhecidos do mundo. “Se ele for eleito, certamente o desmatamento na Amazônia vai aumentar. Estamos em uma situação muito grave.”

Flávio Bolsonaro faz campanha com uma agenda favorável ao agronegócio e à desregulamentação. O candidato do PL, que terminou o primeiro turno à frente de Lula por 2,2 milhões de votos, promete zerar o desmatamento ilegal até 2029. Mas o programa de governo do filho de Jair Bolsonaro também defende um processo de licenciamento ambiental “ágil e moderno”, que “não servirá mais como instrumento para bloquear quem deseja investir e gerar empregos”.

Monica de Bolle, economista do Peterson Institute for International Economics, nos Estados Unidos, avalia que uma vitória de Flávio repetiria o mandato de seu pai, marcado pelo aumento do desmatamento, pela queda acentuada no número de autos de infração ambiental e pela quase duplicação das emissões de carbono na Amazônia em 2019 e 2020, na comparação com a média registrada entre 2010 e 2018.

“Jair Bolsonaro basicamente desmantelou a estrutura de fiscalização. E acho que isso provavelmente aconteceria de novo”, afirmou de Bolle.

Onipresente, mas sem direito a voto na próxima eleição, a própria Amazônia está em jogo. A floresta enfrenta uma série de ameaças, da seca às queimadas, passando pela extração de madeira e pelo desmatamento. Embora o Código Florestal permita que proprietários rurais desmatem até 20% de suas terras na Amazônia, a rede de monitoramento MapBiomas estimou recentemente que 97% da supressão da vegetação nativa na Amazônia em 2025 apresentava indícios de ilegalidade.

Durante o atual mandato de Lula, as taxas de desmatamento na Amazônia caíram a cada ano. Se o Brasil voltasse ao ritmo registrado durante o governo de Jair Bolsonaro, a floresta perderia cerca de 45.600 quilômetros quadrados nos próximos quatro anos, em comparação com aproximadamente 23.000 quilômetros quadrados caso o ritmo observado em 2025 fosse mantido. A diferença equivale a uma área aproximadamente do tamanho do estado de Sergipe.

Os resultados do primeiro turno sugerem que os interesses do setor agropecuário provavelmente contribuíram para o bom desempenho de Flávio Bolsonaro. Lula perdeu votos em quase todos os municípios do país na comparação com seu desempenho em 2022. Mas, como a Agência Pública mostrou, nos municípios onde o agronegócio representa mais da metade da economia local, sua votação caiu quase oito pontos percentuais, três vezes a perda registrada nas áreas onde a atividade não predomina.

Se o próximo governo acelerar o desmatamento, as consequências podem ser devastadoras para a Floresta Amazônica, para seus moradores e para as atividades econômicas que dependem de sua preservação. Há décadas, cientistas que estudam florestas e clima alertam para um possível ponto de não retorno: se uma área grande demais da floresta for derrubada, o ciclo da água deixará de ser forte o suficiente para sustentar um ecossistema de floresta tropical.

Em seu lugar, a região se transformaria em uma floresta degradada e em um ambiente seco, como o cerrado, provocando a liberação líquida de carbono que intensifica o aquecimento global e reduzindo as chuvas que abastecem as plantações de soja nas áreas próximas.

O ponto de não retorno em questão depende de vários fatores e é difícil de estimar. No entanto, o limite de desmatamento mais citado é de 20% a 25% da cobertura florestal da Amazônia, intervalo proposto pela primeira vez em 2018, por Nobre e pelo biólogo conservacionista norte-americano Thomas Lovejoy.

Os dois argumentaram que “as sinergias negativas entre desmatamento, mudanças climáticas e uso generalizado do fogo” colocariam a floresta em um ciclo de retroalimentação quando esse limite fosse ultrapassado. Um estudo publicado na revista Nature, em maio deste ano, estimou que a faixa do ponto de não retorno estaria mais próxima de 22% a 28% de desmatamento, considerando o aquecimento global de 1,5 a 1,9 grau Celsius que o mundo provavelmente deve registrar até meados deste século.

Cerca de 18% da Amazônia — que se estende por nove países — e 22% da Amazônia brasileira já foram desmatados.

Nico Wunderling, cientista climático da Universidade Goethe de Frankfurt (Alemanha), liderou o estudo publicado em maio na Nature. Ele estimou que a retomada das práticas adotadas durante o governo de Jair Bolsonaro levaria ao desmatamento de cerca de 1% da floresta da bacia amazônica ao longo do próximo mandato presidencial. Nesse ritmo, “chegaríamos à zona de perigo em meados ou no final da década de 2030”, disse ele à Grist.

Por outro lado, se Lula cumprir sua promessa de zerar o desmatamento até o início da década de 2030, ainda seria possível evitar um processo descontrolado, na opinião de Wunderling. Embora as mudanças climáticas sejam um processo global que exige coordenação internacional, o desmatamento é “a alavanca sobre a qual é mais fácil agir para reverter o quadro”, afirmou.

O final da década de 2030 está além do período abrangido pela eleição de 2026, e a ciência ainda não permite determinar com precisão qual será o ponto de não retorno. Mesmo assim, o resultado da disputa pode colocar a Floresta Amazônica em uma trajetória decisiva. 

Ronaldo Christofoletti, oceanógrafo da Universidade Federal de São Paulo, compara a situação à contratação de um seguro para um veículo. “Por que pago o seguro? Porque um acidente pode acontecer. Quando? Não sei.”

Para Christofoletti, o que está em jogo na eleição é justamente como lidar com essa incerteza. “Não esperem milagres dos cientistas”, afirmou. “Mas confiem que o ponto de não retorno está cada vez mais próximo.”

A campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu ao pedido de comentário para esta matéria.

Enquanto isso, o agronegócio organizado trabalha pela eleição de Flávio no segundo turno. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) declarou apoio ao candidato do PL, que prometeu deixar a escolha de seu ministro da Agricultura a cargo da bancada.

Mesmo que Flávio não vença o segundo turno, o agro talvez já tenha saído vitorioso. Em 4 de outubro, o PL elegeu 121 deputados federais, o maior número de cadeiras conquistadas por um partido desde a promulgação da Constituição de 1988. Reportagem da Pública mostrou que a bancada indígena diminuiu no Congresso e lideranças já se preparam para um mandato de desmonte e retrocesso.

Para o agronegócio, isso significa que áreas atualmente protegidas de atividades econômicas poderão em breve ser liberadas para exploração. “Mesmo que Lula seja reeleito”, ele estará muito enfraquecido”, afirmou de Bolle.

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Empresa ligada a Willer Tomaz foi administrada por diretor da Polícia Civil do DF

Uma empresa ligada ao advogado Willer Tomaz – alvo da segunda fase da operação Sem Descontos, que apura desvios indevidos em aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS – teve como administrador um diretor da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF). Durante quatro meses de 2025, Delcimar de Oliveira Silva, que havia assumido a diretoria de Tecnologia da Informação (TI) em fevereiro de 2023, respondeu como administrador da Direção Táxi Aéreo LTDA enquanto era remunerado pela instituição pública, o que é vedado por lei.

A Direção Táxi Aéreo LTDA foi adquirida em maio de 2024 pela Jet Line Locações e Serviços Aéreos S/A, naquele ano representada por Lídia Maria Figueiredo Mazelli, apontada como administradora de empresas de Willer Tomaz. Sete meses após a incorporação, a Direção Táxi Aéreo passou a ser administrada pelo então diretor da PCDF, informação que consta no contrato social da empresa, conforme documentos obtidos pela Agência Pública. 

Procurado, Delcimar de Oliveira Silva afirmou ser “policial civil aposentado” e declarou que, “durante o curtíssimo período em que estive no [Direção] Táxi Aéreo, encontrava-me afastado das minhas funções na PCDF”. O servidor saiu da ativa no ano passado. Segundo o Portal da Transparência do Distrito Federal, no entanto, o então servidor recebeu proventos pela função de “diretor/ delegado de polícia” da corporação entre dezembro de 2024 e abril de 2025, como confirmado por cópias dos comprovantes de pagamento, obtidas pela Pública.

  • Comprovantes de pagamento de Delcimar de Oliveira Silva obtidos pela Pública
  • Comprovantes de pagamento de Delcimar de Oliveira Silva obtidos pela Pública
  • Comprovantes de pagamento de Delcimar de Oliveira Silva obtidos pela Pública
  • Comprovantes de pagamento de Delcimar de Oliveira Silva obtidos pela Pública
  • Comprovantes de pagamento de Delcimar de Oliveira Silva obtidos pela Pública
  • Comprovantes de pagamento de Delcimar de Oliveira Silva obtidos pela Pública

A reportagem apresentou os dados das guias de pagamento a Silva. Também questionou o motivo de ter sido exonerado do cargo de diretor em período similar à sua saída da Direção Táxi Aéreo. O ex-diretor, no entanto, limitou-se a dizer que “não tem outras considerações a acrescentar”.

Arranjo incomum

De acordo com o inciso X do artigo 17 da Lei 8.112/1990, é vedado a servidores públicos participação em gerência ou administração de sociedade privada, personificada ou não personificada, e de exercerem o comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou comanditário. 

Comprovante da participação de Delcimar de Oliveira Silva na administração da empresa
Comprovante da participação de Delcimar de Oliveira Silva na administração da empresa
O que a legislação proíbe expressamente é a participação na gestão empresarial, seja formalmente, como administrador designado no contrato social, seja materialmente, por meio da condução efetiva dos negócios. Essa restrição decorre das peculiaridades da atividade policial, que exige dedicação ao serviço público, disponibilidade funcional, imparcialidade e prevenção de conflitos de interesses.”
Vinícius Nascimento
Consultor legislativo e professor de direito para carreiras policiais

Segundo a Lei 15.047/2024, que institui o regime disciplinar da Polícia Federal e da Polícia Civil do Distrito Federal e atualiza a legislação de 1965, “participar da gerência ou da administração de empresa, de fato ou de direito, qualquer que seja a sua natureza” é considerada uma das “infrações disciplinares praticadas por servidor puníveis com demissão”. De acordo com Nascimento, a regra não é diferente “quanto ao policial que exerce cargo de confiança”. A lei foi sancionada pelo presidente Lula e entrou em vigor em 17 de dezembro, dois dias antes de Delcimar de Oliveira Silva assumir a administração da empresa ligada a Willer Tomaz.

Procurada para explicar o arranjo incomum que permitiu que o então diretor de TI ocupasse um cargo de administração em empresa privada, a PCDF informou que Delcimar de Oliveira Silva não integra mais o quadro ativo na instituição. A instituição admitiu não ter “conhecimento da situação” e que a questão foi “encaminhada para a Corregedoria Geral de Polícia para conhecimento”.

Delcimar assumiu a administração da empresa dois dias após a entrada em vigor da Lei 15.047/2024
Delcimar assumiu a administração da empresa dois dias após a entrada em vigor da Lei 15.047/2024

Sucessão recorrente dentro da família Tomaz

Conforme certidão de inteiro teor da Direção Táxi Aéreo LTDA, o diretor da PCDF deixou a administração da empresa em maio de 2025, quando o cargo passou para Flávia Tomaz, esposa do advogado. No mesmo mês, Delcimar de Oliveira Silva foi exonerado da direção da Polícia Civil e saiu em licença não remunerada. Um ano depois, ao retornar à ativa, em maio de 2026, o então servidor solicitou aposentadoria. Dias após consegui-la, porém, foi agraciado com abono de permanência – benefício pago a servidores que cumpriram requisitos para se aposentar voluntariamente, mas escolheram continuar trabalhando.

No mesmo período em que o então servidor se retirou da Direção Táxi Aéreo, Lídia Mazelli deixou a sociedade da Jet Line, passando o controle total da empresa a Flávia Tomaz. Diferentemente da vida luxuosa do casal, Mazelli mora em um prédio de três andares, sobre uma loja de móveis, no Riacho Fundo, região administrativa do Distrito Federal.

Segundo os documentos aos quais a Pública teve acesso, todas as modificações e alterações no contrato social da Direção Táxi Aéreo foram feitas pela Voga Serviços Contábeis – companhia de Alexandre Caetano dos Reis, sócio do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e irmão de Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro (PL). Alexandre Reis também faz a contabilidade de empresas do filho 01 de Jair Bolsonaro.

Trecho de alteração contratual da direção da empresa Táxi Aéreo LTDA
Trecho de alteração contratual da direção da empresa Táxi Aéreo LTDA

Questionado sobre o período da administração de Delcimar de Oliveira Silva, Willer Tomaz informou que o gestor “encontrava-se afastado de suas funções na Polícia Civil do Distrito Federal durante o período em que participou da administração da empresa de táxi aéreo”. “As empresas às quais Willer Tomaz está vinculado exercem suas atividades em conformidade com a legislação e as normas da Anac, sem pendências perante os órgãos de fiscalização”, declarou o advogado em nota à Pública.

Empresa “familiar”

Segundo dados públicos, a Jet Line foi constituída em setembro de 2008, com capital social de R$ 1 milhão. Na Receita Federal, apenas os nomes de Flávia Oliveira Correa Tomaz e Christine Tomaz de Souza, irmã de Willer Tomaz, constam no quadro societário da Jet Line. 

A Jet Line funciona no mesmo endereço da empresa que adquiriu em 2024 – a Direção Táxi Aéreo LTDA, aberta em 2021, com capital social de R$ 200 mil, por um servidor público e uma médica.

Apesar de estar oficialmente em nome de Flávia Tomaz, o site oficial da Direção Táxi Aéreo aponta como responsável pelo domínio o advogado Willer Tomaz. 

Além do diretor da PCDF, a Direção Táxi Aéreo também teve, a partir de janeiro de 2026, um coronel da reserva da Aeronáutica como administrador. O militar Virgínio Augusto Corrieri de Castro permaneceu no cargo por cinco meses até devolver o cargo para a esposa de Willer Tomaz, em maio deste ano.

A Pública tentou contatar Castro por meio do telefone de uma das empresas pertencentes a ele, mas não obteve retorno. O espaço será atualizado no caso de manifestação.

De acordo com a Receita Federal, a Direção Táxi Aéreo funciona no Hangar 36 do Aeroporto Internacional de Brasília e tem como principais funções o transporte aéreo de passageiros não-regular, manutenção e reparação de aeronaves, comércio atacadista de outras máquinas, além do transporte aéreo de carga e serviços de reservas.

A Jet Line conta com ao menos quatro aeronaves. Uma delas era do DJ Alok e foi vendida à empresa ligada a Willer em setembro de 2024. Em 2018, esse mesmo jatinho transportava Alok e convidados quando saiu da pista durante decolagem no Aeroporto da Serrinha, em Juiz de Fora (MG). Ninguém ficou ferido.

Relação com a Anac

Em 20 de julho de 2026, Willer Tomaz pediu permissão à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para a construção de um aeródromo de uso privado, denominado WT-01, no interior de uma casa localizada no Conjunto 4 da QI 1 do Lago Sul, onde funciona seu escritório de advocacia e outras empresas vinculadas a ele.

A solicitação foi feita pela WT Administração de Imóveis e Bens S/A, também ligada a Tomaz. De acordo com investigações da Polícia Federal, o CNPJ da WT foi utilizado na compra da residência de R$ 6 milhões do senador Weverton Rocha (PDT-MA), no Lago Sul, e de um apartamento de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, em São Paulo. O imóvel de Zettel foi utilizado por Flávio Bolsonaro durante a campanha presidencial, segundo a revista piauí. Foi também a WT Administração que teria recebido R$ 136,5 mil do Senado, pagos como complemento de auxílio-moradia desde 2023 em benefício do senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro.

Casa localizada no Conjunto 4 da QI 1 do Lago Sul, em Brasília, onde funciona o escritório de advocacia e outras empresas vinculadas a Willer Tomaz
Casa localizada no Conjunto 4 da QI 1 do Lago Sul, em Brasília, onde funciona o escritório de advocacia e outras empresas vinculadas a Willer Tomaz

O imóvel de Willer que recebe o aeródromo é uma velha conhecida da política brasileira. Em 2004, a residência ficou conhecida como “República de Ribeirão”, quando servia de ponto de encontro para políticos, empresários e lobistas ligados ao então ministro da Fazenda Antonio Palocci e ocorriam negociações investigadas no episódio do Mensalão.

O pedido à Anac foi feito apesar do histórico da Jet Line junto à agência reguladora. Em 2022, a empresa foi punida por “recusa de exibição de livros, documentos contábeis, informações ou estatísticas aos agentes da fiscalização”. Naquele ano, a fiscalização solicitou cópia autenticada das páginas do diário de bordo que contém o termo de abertura, páginas e os dados dos voos realizados entre 1º de setembro de 2019 e 31 de dezembro de 2019; além da lista de passageiros de todos os voos realizados nesse período, e os motivos de cada viagem. As informações não foram apresentadas e, apesar de Tomaz recorrer como advogado da Jet Line, alegando não obrigatoriedade de manutenção desses registros, teve de pagar R$ 8 mil em multa.

A Anac também instaurou procedimento investigatório após o piloto de uma aeronave da Jet Line impedir a inspeção de servidores da agência, também em 2022. Após o início do processo, a empresa apresentou os documentos solicitados pelos agentes. O procedimento foi arquivado.

A Pública procurou a Agência Nacional de Aviação Civil, mas não obteve retorno até a última atualização do texto. No caso de manifestação, o espaço será atualizado.  

O advogado Willer Tomaz ao lado do senador Flávio Bolsonaro
Willer Tomaz mantém uma relação próxima com o senador Flávio Bolsonaro

A origem do advogado famoso em Brasília

A trajetória de Willer Tomaz começou no setor de informática. Em 1999, ele abriu uma empresa em Taguatinga (DF), que faliu. Tomaz migrou de área, formou-se em direito e passou a atuar como advogado e empresário. Ele acumulou patrimônio com imóveis, propriedades rurais, veículos de luxo e participações em empresas.

Em 2017, Tomaz foi preso na Operação Patmos, que também atingiu o então presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves. O advogado foi investigado por suspeita de atuar junto ao procurador da República Ângelo Goulart Villela em favor dos interesses de Joesley Batista e sua empresa, a JBS. O advogado negou as acusações. Dois meses depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou sua soltura.

Tomaz mantém uma relação próxima com o senador Flávio Bolsonaro. Os amigos, como se declaram, são vistos com frequência juntos. Recentemente, além de ter utilizado o apartamento de São Paulo do advogado durante a campanha presidencial, Flávio também usufruiu de propriedade de Tomaz em Angra dos Reis (RJ). 

Algumas das propriedades e negócios de Tomaz aparecem associados a empresários investigados em outros casos, entre eles Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Em agosto de 2026, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão na casa do advogado durante a Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS. Tomaz nega participação nas fraudes.

O amigo de Flávio Bolsonaro voltou para a mira da Polícia Federal (PF) depois que foi tornado público um processo que ele moveu contra a empresa de apostas online Blaze. Tomaz alega sofrer de ludopatia e pede ressarcimento por perdas em bets na ordem de R$ 163,2 milhões. O Ministério da Fazenda e a PF se voltaram ao caso para apurar irregularidades da plataforma e verificar a possibilidade de lavagem e dinheiro em operações no episódio. 

A defesa de Willer Tomaz afirma em nota que as empresas às quais o empresário está vinculado “suas atividades em conformidade com a legislação e as normas da Anac, sem pendências perante os órgãos de fiscalização. Quanto às locações imobiliárias, os contratos são regulares, celebrados a valores de mercado e sujeitos aos deveres legais de confidencialidade e proteção de dados pessoais. Os pagamentos são realizados diretamente pelos locatários, não cabendo à locadora prestar esclarecimentos sobre a origem de seus rendimentos.”

Além disso, o advogado diz não ter “qualquer envolvimento com as fraudes investigadas na Operação Sem Desconto e ressalta que a denúncia oferecida contra ele no âmbito da Operação Patmos, em 2017, foi definitivamente rejeitada”, além de que “repudia a tentativa de associá-lo a supostas irregularidades por meio da reunião de episódios distintos, sem demonstração de qualquer conduta ilícita de sua parte.”

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Departamento de Estado dos EUA financia ONG que questiona liberdade de expressão no Brasil

Um dia antes do primeiro turno das eleições, o engenheiro civil brasileiro Jamil Assis estava em Nashville, nos Estados Unidos, para participar de uma conferência, a Global Free Speech Summit, ou Cúpula Global de Liberdade de Expressão, em português. Assis estava ali para falar sobre como a liberdade de expressão estaria em declínio no Brasil, sua especialidade. Ele é diretor de relações institucionais do Instituto Sivis, um think tank sediado em Curitiba, no Paraná, que se autointitula apartidário e atua com atividades educativas relacionadas aos valores democráticos.

“Antigamente, chamar um político de ladrão era quase um esporte nacional. Mas agora custa mais caro. É realmente perigoso chamar as pessoas de ladrões no Brasil”, disse Assis, em Nashville. E completou: “A autocensura tornou-se um grande problema [no Brasil]: a ideia de que você não diz em voz alta o que pensa, ou que algumas opiniões não são expressas no debate público, em família, no trabalho ou na escola”.

Quem também esteve no evento foi Sarah Rogers, subsecretária de Estado para Diplomacia Pública dos EUA. É ela a responsável pelo departamento que criou o fundo que destinou US$ 1 milhão a ONGs que se opõem ao que o governo norte-americano classifica como “excesso” de poder judicial e “censura” por parte do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro, de acordo com matéria do jornal inglês The Guardian.. Para ela, democracias em todo o mundo estariam passando por uma “recessão na liberdade de expressão”. 

Dias antes, em 23 de setembro, o Departamento de Estado dos EUA havia liberado um financiamento de quase 30 mil dólares (cerca de R$ 150 mil, no câmbio atual) para o Instituto Sivis, para um projeto sobre liberdade de expressão com duração de um ano. O projeto em questão, relacionado aos programas de diplomacia pública e pago através do Consulado dos EUA em São Paulo, prevê “desenvolver um currículo comparativo sobre a Primeira Emenda dos EUA e a liberdade de expressão para instituições de ensino superior do Brasil, capacitar docentes e realizar um curso-piloto com mais de 150 alunos, a fim de fortalecer a educação cívica e as relações acadêmicas entre o Brasil e os EUA”. O grant com o nome do Sivis estava disponível no site USAspending.org, fonte oficial sobre gastos federais norte-americanos, mas os dados detalhados do grant e da Sivis foram retirados da página dias depois. A Pública manteve uma cópia dos dados originais. Não há confirmação de que o dinheiro já foi repassado.

Comprovante de aprovação de verba do Departamento de Estado dos EUA ao Instituto Sivis
Comprovante de aprovação de verba do Departamento de Estado dos EUA ao Instituto Sivis

Não se sabe se o financiamento ao Sivis faz parte do novo fundo do governo americano para iniciativas contra as ações do STF entendidas como censura e abuso de poder – afinal, não há uma lista pública sobre os beneficiários. Ao Guardian, o Departamento de Estado afirmou que os programas ainda estavam em “análise ativa”. Segundo publicou o UOL, a identidade dos beneficiários é mantida sob sigilo até mesmo de membros do Congresso dos EUA e de servidores públicos. 

Procurado, o Sivis afirmou que “todos os seus financiamentos são totalmente transparentes, e o apoio de organizações nacionais e internacionais não implica qualquer ingerência sobre suas atividades, posições ou decisões institucionais”. Em nota, alegou também que “sua atuação é conduzida com plena autonomia em relação a seus financiadores”. A organização não respondeu, entretanto, se recebeu o financiamento do Departamento de Estado dos EUA.  

Currículo sobre a Primeira Emenda dos EUA nas universidades brasileiras 

O aporte demonstra que pelo menos uma ONG brasileira tem se beneficiado da guinada do financiamento do Departamento de Estado para projetos de direita e conservadores no mundo, uma nova diretiva do governo de Donald Trump. 

Na mesma semana em que recebeu a aprovação do aporte, a diretoria do Sivis se posicionou publicamente sobre um eventual impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes. Em texto publicado na revista Oeste, o diretor executivo do Sivis, Henrique Zétola, defendeu que o impeachment de Moraes seria “um imperativo republicano”. No evento em Nashville, Assis analisou as recentes decisões do STF. “Antes de 2023, na opinião da maioria das pessoas, não havia nenhuma grande ameaça à nossa democracia. Era apenas a Suprema Corte agindo de forma muito corporativista e se protegendo. Mas eles encontraram uma desculpa perfeita em 2023 para ‘proteger a democracia’. E a maioria das pessoas agora está percebendo que não era esse o caso”, disse Assis no evento. 

O financiamento liberado pelo Departamento de Estado vai apoiar o Sivis a desenvolver um currículo sobre a Primeira Emenda dos EUA e a liberdade de expressão. O público-alvo desse currículo são instituições de ensino superior brasileiras. O instituto se comprometeu a capacitar docentes e realizar um curso-piloto para mais de 150 alunos. 

Porém, o professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) Ivan Paganotti explica que há diferenças entre o entendimento do que é liberdade de expressão nos EUA e no Brasil. “A Primeira Emenda determina que o Estado não só não pode limitar a liberdade de expressão, como não pode fazer normas que regulem essa liberdade de expressão”, discorre. Já no Brasil e em alguns países europeus, há regras colocadas pelo Estado limitando esse direito. “A própria Constituição, quase todo o inciso em que ela fala sobre liberdade de expressão vem com uma adversativa, um ‘mas’ ou ‘entretanto’ sobre outros direitos que podem colidir, como a privacidade, o direito à honra e à imagem”, complementa Paganotti.

O governo norte-americano vem numa cruzada para impor a sua visão sobre o que é a liberdade de expressão a outros países, o que resvala especialmente nas tentativas de regulação do ambiente digital e nas decisões dos Judiciários. Em agosto do ano passado, o presidente da Comissão Federal de Comércio dos EUA apontado por Trump afirmou em uma carta a empresas de tecnologia que governos estrangeiros estariam agindo para censurar os norte-americanos. Já o vice-presidente norte-americano, JD Vance, chegou a sugerir que os EUA se retirassem da OTAN caso a União Europeia tentasse regular o X, ex-Twitter. “O poder americano vem com certas condições. Uma delas é o respeito à liberdade de expressão”, afirmou ele em uma entrevista com o youtuber Shawn Ryan.  

A Comissão de Assuntos Judiciais da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, controlada pelos republicanos, também passou a produzir relatórios que acusam governos estrangeiros de censurar conteúdos nas redes sociais. 

O governo Trump tem usado acusações de censura e perseguição política para pressionar o STF brasileiro. Em abril deste ano, em uma publicação sobre o Brasil, a comissão chegou a alegar que o país representa “uma ameaça significativa aos direitos de liberdade de expressão dos americanos” e que estaria atuando em parceria com censores em todo o mundo no que chama de “complexo industrial da censura”.

Sob o argumento de proteger a liberdade de expressão, impôs sanções ao ministro Alexandre de Moraes e chegou a justificar o tarifaço contra o Brasil com acusações de censura a cidadãos e empresas americanas. No Brasil, o consulado dos EUA em São Paulo chegou a fazer reuniões com influenciadores bolsonaristas e ligados à extrema direita neste ano sobre os rumos da liberdade de expressão no país. 

1,1 mi do Google e conexão com Gazeta do Povo

O Instituto Sivis se define como “um think tank apartidário que trabalha para fortalecer os verdadeiros valores democráticos através da educação para a democracia e da liberdade de expressão”. Sediado em Curitiba, no Paraná, está localizado no mesmo endereço da Acta, o family office da família Cunha Pereira, acionista do Grupo GRPCOM — dono do jornal de direita Gazeta do Povo, entre outros veículos de comunicação. Foi esse o mesmo endereço usado no projeto submetido ao Departamento de Estado dos EUA. 

Em 2024, o Sivis criou o Centro Voxius de Liberdade de Expressão e, por meio dele, vem acumulando financiamentos internacionais de entidades interessadas em patrocinar projetos destinados a combater um suposto aumento da censura no Brasil. O Voxius “busca construir fundamentos para a liberdade de expressão no Brasil, com base em um diagnóstico profundo do contexto político-social” e tem como um dos eixos de atuação o combate à regulação e o controle de conteúdo, incluindo monitoramento governamental, como o das decisões do TSE e dos TREs nas eleições, e casos de “censura pelo governo e remoção de conteúdo pelas plataformas”.

O Instituto Sivis tem apoio institucional das Big Techs e atua como voz alinhada ao lobby anti-regulação em Brasília. 

Em abril do ano passado, Jamil Assis esteve no escritório do Google para debater justamente liberdade de expressão e regulação digital. “O evento contou com organizações da sociedade civil e o especialista em liberdade de expressão Joan Barata, da The Future of Free Speech, e ilustrou os debates com a discussão sobre o caso europeu. Agradecemos ao Google e ao Joan pelo excelente evento!”, escreveu o Instituto no seu LinkedIn. Na mesma época, o Sivis esteve na sede da Meta para discutir a decisão do STF que impôs responsabilização às plataformas por conteúdo ilegal. 

Diretor do Instituto Sivis, Jamil Assis, durante visita ao escritório do Google
Jamil Assis durante visita ao escritório do Google

O instituto captou R$ 1,5 milhão em doações com um projeto submetido à Lei Rouanet em 2024 para desenvolver seu plano anual e um livro “que vai apresentar as complexidades da cultura democrática brasileira”. Desse valor, 74% foram repassados pelo Google – 1,1 milhão de reais.

O instituto também é apoiado pela Meta e pelo TikTok, segundo seu site. O TikTok afirmou, por nota, que “Nos últimos anos, trabalhamos com 27 organizações da sociedade civil dedicadas à pesquisa e ao impacto social no ambiente digital. Valorizamos o diálogo com uma variedade de entidades como parte essencial para seguirmos construindo uma plataforma responsável e transparente”. O Google Brasil afirmou, também por nota, que “desde 2023, apoia diferentes iniciativas e projetos por meio de investimentos via Leis de Incentivo Fiscal” e que “qualquer organização pode submeter seu projeto já aprovado em leis de incentivo, em qualquer nível federativo, por meio do site oficial”. Alegou ainda que “em todos esses anos, já apoiou mais de 70 projetos de impacto social, em áreas como saúde, educação, cultura e esporte, beneficiando mais de 2 milhões de pessoas em todo o país”. A Meta não respondeu à reportagem.

O Sivis já chegou a defender, em audiência do Conselho de Comunicação Social do Senado, que a regulação das redes sociais não seja feita por meio de uma lei em específico e a dizer que a regulação digital pode afetar a liberdade de expressão.

Diretor do Instituto Sivis, Jamil Assis, durante audiência pública no Senado sobre regulação de redes sociais com foco em moderação de conteúdo e remoção de contas de usuários
Diretor do Instituto Sivis, Jamil Assis, durante audiência pública no Senado sobre regulação de redes sociais com foco em moderação de conteúdo e remoção de contas de usuários
Diretor do Instituto Sivis, Jamil Assis, durante audiência pública no Senado sobre regulação de redes sociais com foco em moderação de conteúdo e remoção de contas de usuários

Em fevereiro deste ano, Assis abriu uma apresentação durante o Fórum da Liberdade América Latina, realizado entre os dias 26 e 27 daquele mês no Peru, afirmando que o Brasil vive uma “recessão da liberdade de expressão”. Ele concorria ao prêmio Smart Bets e conseguiu captar para o Sivis 65 mil dólares, o equivalente a cerca de R$ 335 mil no câmbio atual, dado pela rede global de think tanks de direita Atlas Network. No texto em que anuncia a vitória, a Atlas menciona o STF como uma instituição que tem gerado “uma cultura de autocensura no Brasil”.

“Os tribunais eleitorais e a Suprema Corte recorrem cada vez mais a noções vagas de ‘desinformação’ e ‘discurso de ódio’ para remover conteúdos, restringir críticos e ameaçar plataformas, muitas vezes sem critérios jurídicos claros ou o devido processo legal, o que tem levado a uma cultura de autocensura”, diz a organização.

A Atlas Network é uma rede de organizações liberais ligada à expansão do pensamento ultraliberal no mundo e à ascensão da extrema direita na América Latina na última década. “Na América Latina, a ascensão de [Javier] Milei, de [José Antonio] Kast, de Bolsonaro, da extrema direita, de forma geral, está totalmente conectada à Atlas Network”, explica o professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Luan Brum.

Em entrevista ao podcast da Atlas em março deste ano, Jamil Assis chegou a dizer que as autoridades públicas e o Estado brasileiro estariam “concentrando múltiplos esforços em várias frentes para restringir o espaço para a discordância e opiniões diferentes ou minoritárias” e mencionou especificamente o STF. 

Com o prêmio da Atlas, o Sivis criou o Boletim Liberdade de Expressão e Monitoramento das Eleições (Leme), um monitoramento das decisões da Justiça Eleitoral brasileira nas eleições de 2026 envolvendo plataformas digitais, inteligência artificial e liberdade de expressão. A iniciativa pretende municiar jornalistas durante as eleições e promover ideias de reformas para os legisladores e integrantes do executivo eleitos durante o próximo mandato. O levantamento já foi repercutido em meios como a Gazeta do Povo, no Brasil247, no Estadão e na CNN.

“Cultura de Censura Estatal” 

Outro repasse feito ao Sivis neste ano vem de uma instituição que não divulga publicamente os valores transferidos, a Rising Tide. A fundação tem um financiamento ativo para o Centro Voxius, do Sivis. No texto que descreve a iniciativa, a fundação afirma que “no Brasil, as regulamentações digitais e eleitorais estão se tornando mais rígidas sob o pretexto de combater a desinformação, criando uma cultura de autocensura e censura estatal”.

Ativo por dois anos, a começar de 2026, o projeto “traduzirá evidências globais sobre os benefícios e a necessidade da liberdade de expressão para o contexto brasileiro”. Será publicado um livro e realizadas “oficinas de contra-argumentação para líderes da sociedade civil, ativistas e jornalistas com alternativas à censura estatal que respeitem os direitos humanos”. Ele inclui também mesas-redondas intersetoriais fechadas, seguindo as regras da Chatham House, ou seja, nas quais informações debatidas nos encontros podem ser divulgadas, mas não a identidade e a afiliação de quem fez as declarações.

O livro que o Sivis pretende publicar com esse financiamento chama-se O Futuro da Liberdade de Expressão, de autoria de Jacob Mchangama e Jeff Kosseff, lançado em inglês neste ano. Mchangama é um advogado dinamarquês responsável por popularizar o termo “recessão da liberdade de expressão”. Mchangama é também o fundador da The Future of Free Speech, organização que consta na lista de parceiros do Sivis e foi a responsável pelo evento de Nashville onde estavam Assis e Rogers.  

Ele também foi convidado de honra da Meta no encontro realizado em julho do ano passado na sua sede, onde o Sivis esteve presente. O encontro foi liderado por Margareth Kang, gerente de políticas públicas da Meta, área que trata de lobby dentro da empresa. 

“Nesta terça-feira, o Sivis esteve na sede da Meta, em São Paulo, para um diálogo enriquecedor com o professor Jacob Mchangama sobre um tema crucial: liberdade de expressão na era digital. A conversa abordou questões centrais no cenário brasileiro, como a responsabilização de plataformas por conteúdos de terceiros, especialmente após a recente decisão do STF sobre a inconstitucionalidade parcial do Art. 19 do Marco Civil da Internet, além das iniciativas de regulação da inteligência artificial”, escreveu a organização.

Mchangama também é diretor do think tank dinamarquês Justitia, financiado pela Associação da Indústria de Computadores e Comunicações (Computer & Communications Industry Association, CCIA, na sigla em inglês). Como a Pública mostrou, a CCIA é um grupo de lobby que tem como membros Google, Meta, Microsoft, Amazon, Uber, Apple, Pinterest e E-Bay, e está ligado à ameaça de Donald Trump de investigar práticas comerciais do Brasil. O grupo já chegou a divulgar uma nota aplaudindo o tarifaço contra o Brasil imposto por Trump.

Há ainda outra organização que tem apoiado o Sivis. Entre 2024 e 2025, a FIRE financiou o Sivis para produzir uma pesquisa sobre autocensura e liberdade de expressão nas universidades brasileiras. Com o resultado da pesquisa, o Sivis passou a publicar artigos alegando que as universidades estão se afastando da pluralidade intelectual e que a liberdade acadêmica estaria se deteriorando no país. 

A FIRE se dedica à defesa da liberdade de expressão, especialmente no ambiente universitário. Ela já foi criticada por tentar criar a impressão de que a liberdade de expressão está permanentemente ameaçada nas universidades americanas. Suas principais doações vêm das fundações ultraconservadoras dos EUA, como Earhart, John Templeton e Lynde e Harry Bradley.

Procurada pela Pública, a FIRE afirmou que repassou em 2024 o valor de 35,144 dólares, cerca de R$ 177 mil, para a Future of Free Speech. O financiamento era para o estudo sobre liberdade de expressão nas universidades feito em parceria com o Sivis. A FIRE afirmou que disponibilizou informações sobre sua metodologia e os questionários usados nos EUA para o Sivis, mas não se envolveu na adaptação deles para a pesquisa feita no Brasil tampouco na implementação.

Já a The Future of Free Speech alegou que nunca forneceu qualquer financiamento ao Sivis. “Cuidamos da logística administrativa e de pagamentos de um financiamento da FIRE destinada ao Sivis porque temos experiência na administração de subvenções internacionais”, explicou a entidade. Segundo a organização, o Sivis conduziu a pesquisa de forma independente, sem orientação ou supervisão deles. 

A Future of Free Speech afirmou ainda que não faz parte da Justitia e nunca recebeu financiamento da CCIA. A Rising Tide não respondeu até a publicação da reportagem.

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Charles Darwin e a origem do agnosticismo

A diferença entre um ateu sóbrio e um ateu New Age parece ser mais uma questão de temperamento do que de filosofia, assim como a diferença entre ateu e agnóstico no século XIX.

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Amigos estranharam a minha qualificação de Darwin como único grande cientista inequivocamente ateu, pois ele se considerava agnóstico. Eu confesso que tendo a apagar esse rótulo da minha cabeça, porque a distinção formal entre ateísmo e agnosticismo presumida por ele – a saber, que o agnóstico não sabe se Deus existe, enquanto o ateu sabe que Deus não existe – não tem correspondência na realidade, pois não tenho notícias de um único ateu famoso que pretenda provar a inexistência divina. Nem Dawkins, o ateu mais caricato da mídia, diz que isso é possível. Em Deus, um delírio, cap. 2, ele se consideram um ateu de facto, definido pelo mote: “Eu não tenho como saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável, e vivo segundo a premissa de que ele não existe.” Assim, se levarmos em conta a distinção tradicional, o ateu mais famoso do mundo não é ateu, mas agnóstico.

Outra figura com postura similar é a de Bertrand Russell, com sua famosa analogia do bule voador. Podemos provar que não há um bule em órbita dando voltas ao redor do planeta? Não. Mas não temos nenhum motivo para acreditar que tal bule exista. Deus é como esse bule: não dá para provar que ele não existe, mas não é razoável acreditar que exista. Por isso, Russell se considerava agnóstico na teoria e ateu na prática.

Darwin

Se o termo “agnóstico” tem serventia, é para descrever as pessoas que de fato vivem em estado de dúvida quanto à existência de Deus. Charles Darwin (1809 – 1882) era filho de pai deísta e de uma unitarista. O deísmo consiste em negar toda religião institucionalizada e afirmar que Deus existe, porém não se importa com a humanidade. Sendo um inglês do século XVIII, o pai de Darwin muito provavelmente acreditava no Grande Arquiteto de Newton e dos maçons. O unitarismo é um novo sabor do arianismo, pois nega a divindade de Jesus e tem-no como um grande reformador moral, equiparável a Sócrates. Os unitaristas tomaram Harvard no século XIX, e Newton era secretamente arianista. Podemos então dizer que Darwin não teve um lar propriamente cristão; ainda assim, ele pensou muito em ser pastor anglicano e se casou com uma cristã fervorosa. Sem dúvida, Darwin passou por crises de fé, o que fez dele um agnóstico nesse sentido que descreve o estado psicológico.

Até onde se sabe, primeira vez em que ele se descreve como agnóstico é em 1879, aos 70 anos, numa carta privada a John Fordyce. Segundo relatos, em 1881 ele afirmou a um grupo de livres pensadores que nunca abandonou o cristianismo até os quarenta anos de idade (o que seria o ano de 1849). Teria ele abandonado o cristianismo e adotado as crenças do pai e depois abandonado até mesmo ela? Não conheço a resposta, mas é uma questão vital para a trajetória científica de Darwin, pois pelos rótulos de hoje Newton seria um criacionista ou defensor do design inteligente pelos rótulos de hoje.

O depoimento mais iluminador é o da sua autobiografia, redigida entre 1876 e 1881 para a sua família. Cito James Moore em “Mito 16: Que a evolução destruiu a fé de Darwin – até que ele se converteu novamente no leito de morte”: “Não disposto a abrir mão do cristianismo, ele havia tentado ‘inventar evidências’ para confirmar os Evangelhos, o que prolongou sua indecisão. Assim como sua carreira como ministro religioso havia sofrido uma lenta ‘morte natural’, sua fé também foi mirrando gradualmente. Mas não houve retorno após o golpe de morte. Sua hesitação se cristalizou em uma convicção moral tão forte que ele não via como alguém – nem mesmo [a esposa] Emma – ‘pudesse desejar que o cristianismo fosse verdade’. Pois se fosse, ‘a linguagem pura e simples’ do Novo Testamento ‘parece mostrar que os homens que não creem, e isto incluiria meu pai, irmão e quase todos os meus amigos, serão punidos por toda a eternidade. E esta é uma doutrina maldita.’ Em anos posteriores o teísmo original evidente em As Origem das Espécies se desgastou, e agora, ‘sem crença segura e persistente na existência de um Deus pessoal ou na existência futura como retribuição e prêmio’, Darwin sentia que deveria ‘se contentar em permanecer agnóstico’.” O pai de Darwin, marco para a crise de fé, morreu em 1848, um ano antes dos quarenta anos.

Darwin não morreu indeciso; ele morreu decidido de que o cristianismo era imoral porque mandaria seus entes queridos para o inferno. Se o termo “agnosticismo” se aplica, é para estabelecer um estado de ignorância após a negação de Deus tal como as religiões abraâmicas o reconhecem. Darwin sabe que a Bíblia está errada e que seu Deus não existe. Mas o que é Deus ou qual a verdade, ele não sabe.

Por certo, o descobrir o estado final de Darwin não é suficiente para descobrir o impacto de suas cambiantes convicções religiosas sobre seu pensamento, já que a redação de A origem das espécies (1859) durou duas décadas.

A origem do termo “agnosticismo”

Entre o início da descrença de Darwin e sua primeira autodeclaração como agnóstico, passaram-se nada menos que trinta anos. Uma razão simples para ele não ter usado esse termo cedo é que ele não tinha sido inventado. Pouco se menciona isso, mas “agnosticismo” é um termo com inventor e data de nascimento: em 1869, quando Darwin tinha já 60 anos, Thomas Henry Huxley (vulgo “Buldogue de Darwin”, avô de Aldous, o escritor apologista de abertura da mente via drogas, e de Julian, o eugenista fundador do WWF e primeiro UNESCO), inventou o termo numa reunião da Sociedade Metafísica, uma sociedade algo secreta da qual só participavam membros convidados. Darwin não era membro. O supracitado Bertrand Russell tinha um parente deísta que era membro: Lord Arthur Russell, sobrinho do Conde John Russell, avô de Bertrand. Arthur Balfour, da Declaração Balfour, também era membro. Eu não podia estar lá porque eu não era nascida, mas a Enciclopédia Britânica diz que a invenção ocorreu em tais circunstâncias, então eu acredito.

Uma definição pública do agnosticismo pelo vovô Huxley foi oferecida ao público pela primeira vez em 1889, na revista Popular Science (ou Pop Science), que existe até hoje. Ei-la: “O agnosticismo, de fato, não é um credo, mas um método, cuja essência reside na rigorosa aplicação de um único princípio. Esse princípio é de grande antiguidade; é tão velho quanto Sócrates; tão velho quanto o escritor que disse ‘Examinai tudo, retende o que é bom’ [1 Tess. 5,21]; é a fundação da Reforma, que simplesmente ilustrou o axioma de que a todo homem deveria ser dada uma razão para a fé que está nele; é o grande princípio de Descartes; é o axioma fundamental da ciência moderna. Positivamente, o princípio pode ser expresso assim: Em questões intelectuais, siga a razão até onde ela lhe levar, sem se preocupar com nenhuma outra consideração. E negativamente, assim: Em questões intelectuais, não ter a pretensão de que as conclusões que não são demonstradas ou demonstráveis são certas. Isto eu tenho por fé agnóstica, que, se o homem mantiver íntegra e incorrupta, não há de se envergonhar em olhar o universo face a face, independente do que o futuro lhe reserve.”

Por essa definição, não há nenhuma relação óbvia com uma postura perante à questão da existência divina, mas o conjunto do texto deixa implícita da negativa: de cabo a rabo, Huxley diferenciar a si próprio de Comte, e o agnosticismo da Religião da Humanidade comteana. Ele precisa se diferenciar porque são iguais a descrença em um Deus abrâmico, o cientificismo e o triunfalismo à la Fim da História. As diferenças, que Comte e os positivistas eram cientistas medíocres e criaram uma igreja de estrutura inspirada no catolicismo, ao passo que os agnósticos ingleses do XIX eram brilhantes e não tinham nenhuma intenção de fundar uma igreja.

Cabe apontar o sabor unitarista da retórica, que visa a traçar uma linhagem racionalista e contestadora que surge em Sócrates, atravessa a Bíblia e chega ao seu pináculo na atualidade, destituída de sobrenaturalidade. Outra figura importante do XIX inglês que a adotava era John Stuart Mill, em Sobre a liberdade. A esposa e colaboradora dele era unitarista.

E, é claro, vemos aí a oposição – talvez, sem precedentes históricos – entre ter espírito científico e crer em Deus. Podemos dizer que o Buldogue de Darwin, durante a vida de Darwin, ostracizou o deísmo da ciência, já que a Evolução era apresentada como refutação da existência do Arquiteto newtoniano.

Questão de termos

No frigir dos ovos, Thomas Huxley era o que hoje entendemos por ateu – e provavelmente também Darwin, já que ele escolheu o termo criado pelo amigo para designar a própria posição. O engraçado é que nem mesmo Comte se dizia ateu. Ao que parece, o espírito do ateísmo e do cientificismo eram generalizados na intelectualidade do XIX, mas a disposição a assumir o rótulo se limitava a radicais como Friedrich Engels, Karl Marx (cuja dissertação, de 1841, foi sobre Demócrito e Epicuro, pais do materialismo) e Mikhail Bakunin. Provavelmente, a diferença entre os termos “ateu” e “agnóstico” naquela época se limitava à disposição de chocar a sociedade. Nem os positivistas franceses, nem os evolucionistas ingleses, queriam chocar. Já os comunistas e anarquistas queriam.

Com o tempo, no XXI, ser ateu não choca mais ninguém; nos círculos mais estudados, é a norma. Daí a disposição a enterrar o termo “agnóstico”, ou reservá-lo às pessoas que estejam num real estado de dúvida.

Outra questão semântica é o que entendemos por Deus. Há quem diga coisas como “para mim, Deus é energia” – daí a gente se pergunta se faz sentido dizer que Deus é isso que faz o meu ventilador girar e depois aparece na conta de luz. Nos Estados Unidos, um dos poucos países ocidentais no qual ainda é possível chocar dizendo-se ateu, é comum as pessoas se rotularem como “spiritual, but not religious” (espiritual, mas não religiosa), e tipicamente essas pessoas vão atrás de esoterismos – cristais, horóscopo, meditação zen, gurus tão feios quanto tarados etc. – sem aderir a nenhuma religião particular. Isso só pode ser herança do deísmo, até porque a maçonaria tem uma grande importância na formação do país e é deísta. Não à toa, esse deísmo do século XXI pode se confundir com o ateísmo, como os seus predecessores renascentistas, os libertinos. Sam Harris mesmo é um ateu adepto do New Age.

Agora, não deixa de ser uma ironia histórica que um dos inventores do termo “psicodelia” (do grego, “revelação mental”) seja neto do inventor do termo “agnosticismo”. Parece que uma parcela da humanidade não desiste de experiências extáticas e de revelações mesmo quando abandona a transcendência divina e, assim passa a procurá-la na matéria. A diferença entre um ateu sóbrio e um ateu New Age parece ser mais uma questão de temperamento do que de filosofia, assim como a diferença entre ateu e agnóstico no século XIX.

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No próximo dia 25 de outubro, lembre-se que a economia também é política

Começo a nossa conversa desta quinzena pedindo licença para tomar um caminho um pouco mais informal que o habitual. Essa coluna se torna em parte um pedido, em parte um desabafo de uma economista cansada, mas ainda em pé.

Desde os resultados do 1º turno das eleições, no início do mês, está difícil pensar, falar ou postar sobre qualquer outra coisa. Em meio a tentativas de vira-voto, vídeos caseiros, ligações para familiares distantes e algumas conversas nas ruas, vi um post no Instagram de um apoiador de Flávio Bolsonaro que dizia algo na linha de “essa semana, alguém virá conversar com você sobre política. Pergunte para ele se ele sabe o que é taxa Selic, inflação, curva de juros e como isso impacta a economia e o bolso dela.”

A ironia é que existem várias e vários economistas que sabem bastante sobre tudo isso e, ao contrário da sugestão do Instagram, continuam defendendo uma agenda progressista. Inclusive, fica a dica para você ler minha coluna: (Quase) tudo o que você precisa saber sobre o Copom e a Taxa Selic, divulgada aqui na Agência Pública em 11 de agosto.

Além da ironia, a verdade é que essa mensagem implica que, quem entende de verdade de economia não vota na esquerda — ou em Lula. Como se as pautas progressistas fossem inerentemente prejudiciais ao desempenho econômico do país.

Existe um mito bastante difundido de que uma gestão econômica responsável imediatamente se traduz em escolhas amargas: ajustes fiscais, arrochos e escalas de trabalho ultrapassadas — superadas por propostas como a de Rick Azevedo, Erika Hilton e dos movimentos de trabalhadores que conquistaram semana passada o fim da Escala 6×1 no Brasil (longa vida!) Em síntese, a ideia é de que quem estudou Ciências Econômicas, que são “inquestionáveis, técnicas e objetivas”, sabe que o verdadeiro preço das políticas sociais é o afundo econômico do país.

O que eles não contam é que toda história tem um lado. E que quem normalmente assume o personagem técnico, isento e portador das más notícias tem um. E não é o nosso.

Sob a gestão econômica de Paulo Guedes, o grande guru dos economistas “sem lado”, o Brasil cresceu uma média de 1,5% ao ano, excluindo os anos atípicos da pandemia da conta. Nos três primeiros anos do terceiro mandato de Lula, o crescimento foi de 2,98%. O cálculo é feito a partir da série de variação real do Produto Interno Bruto, do IpeaData.

O mesmo discurso tecnocrata foi utilizado para atacar quem propunha a viabilidade da redução da jornada de trabalho. Fazendo cálculos, alguns economistas afirmaram que a redução da jornada custaria até 11% do PIB brasileiro. Usando o mesmo método, mas premissas diferentes, a professora Marilane Teixeira, do CESIT Unicamp, chegou num crescimento de produtividade em 4%, na manutenção do PIB e em 3,62 milhões de novos empregos.

Isso não quer dizer que uma conta esteja mais certa do que a outra, mas que conta nenhuma, como raciocínio econômico nenhum, é imparcial ou apolítica.

Quando se veste de técnica e isenta, a economia ganha autoridade para defender argumentos às vezes classistas, às vezes racistas, misóginos ou xenofóbicos. Em geral, impopulares, no sentido mais cru da palavra: antipovo.

Quem se lembra da frase famosa do economista Delfim Netto, ministro da Fazenda durante a Ditadura Militar, que dizia em fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo? A defesa era pelo crescimento econômico primeiro, e a distribuição depois, às custas de um arrocho salarial forte e de intensa concentração da renda nas mãos de poucos.  

Para citar a ilustre professora Maria da Conceição Tavares, no programa Roda Viva de 1995:

“Uma economia que diz que precisa primeiro estabilizar, depois crescer, depois distribuir é uma falácia. E tem sido uma falácia. Nem estabiliza, cresce aos solavancos e não distribui.”

É por isso que peço, leitoras e leitores, que não se deixem enganar por esse discurso dos “tecnocratas alucinados”, como dizia a professora. 

Um economista que quer te vender um plano econômico que promete crescimento às custas da sua qualidade de vida, na definição da jornada de trabalho, ou na condução do Ministério da Fazenda, não o faz porque é isento e não enxerga alternativas. Faz porque sabe que é difícil argumentar contra um conhecimento elitizado.

A economia é política tanto quanto é técnica, e toda técnica, vale lembrar, é também um instrumento político potente.

Finalizo citando mais uma vez a professora, que foi capaz de reunir Dilma Rousseff e José Serra na mesma sala, à véspera das eleições presidenciais de 2010. Dois de seus alunos mais famosos e rivais declarados, inclusive no projeto econômico. Na ocasião, para celebrar os 80 anos de Conceição, esquerda e direita se uniram e brindaram a democracia acima da técnica.

Só faz de conta que a política não lhe interessa quem manda, meu bem. E Deus sabe que a política interessa muito.”
Maria da Conceição Tavares
em aula de Economia Política ministrada no Instituto de Economia da Unicamp em 1992.

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‘Dark Horse da Shopee’: 2º filme sobre Bolsonaro teve convite a Vorcaro e é alvo da Ancine

Um segundo filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro guarda muitas semelhanças com Dark Horse, produção que ficou famosa por ter recebido pelo menos R$ 62 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e por ter colocado o candidato à presidência Flávio Bolsonaro sob investigação da Polícia Federal. Entidades ligadas ao documentário A Colisão dos Destinos, que estreou em maio nos cinemas com salas vazias, também receberam emendas parlamentares de deputados bolsonaristas — entre eles Mario Frias (PL-SP). Assim como Dark Horse, o documentário está mencionado em mensagens do celular de Vorcaro, que foi convidado a ver a obra em uma sessão particular junto com Flávio e Jair. A diferença, no entanto, é o valor da produção.

Enquanto a produção internacional teve custo declarado de R$ 75,1 milhões – valor maior que grandes produções como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto -, A Colisão dos Destinos teria gasto apenas R$ 4,5 mil, conforme declarou a produtora à Agência Nacional de Cinema (Ancine).

Por conta deste valor, considerado baixo pela agência para um longa-metragem, a Ancine abriu uma diligência contra a produtora Dori Filmes, responsável pelo documentário. O filme foi lançado simultaneamente em 17 estados, em maio deste ano, e tem participações do ex-presidente e seus filhos, além de políticos bolsonaristas.

Em um documento obtido pela Agência Pública, a Ancine solicita que a Dori Filmes confirme o valor do financiamento. “O valor informado não condiz com os custos de uma obra audiovisual”, justificou a diligência. Em resposta, a produtora alegou que não houve gastos com produção e finalização porque “todos os técnicos trabalharam de forma voluntária, como parceiros da obra”, tratando-se de um projeto “inteiramente sem dinheiro”.

Peça de divulgação de documentário sobre Jair Bolsonaro, que estreou em maio

Apesar da alegação, a Dori Filmes e outra entidade audiovisual também ligada ao diretor Doriel Francisco receberam R$ 860 mil em emendas parlamentares dos deputados federais Mario Frias, Marcos Pollon (PL-MS) e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, além de R$ 22 mil da cota parlamentar de Frias. Além disso, também houve pagamentos de R$ 600 mil por meio do diretório do Partido Liberal e R$ 84 mil da ONG Academia Nacional de Cultura, comandada por Karina Gama, a produtora de Dark Horse. O montante total recebido pelas entidades ligadas ao documentário foi de R$ 1,5 milhão.

Os recursos entraram no caixa das entidades ligadas ao documentário A Colisão dos Destinos no período em que estava sendo produzido. Somente a Dori Filmes, de propriedade de Francisco, ficou com R$ 106,4 mil desse total.

O relatório da Ancine também aponta que o deputado federal Mário Frias ocupou a função de produtor executivo do filme, cargo que é responsável pela gestão financeira da produção. O documento cita ainda que o argumento do documentário foi escrito por Frias em parceria com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que foi cassado em 2025 e que atualmente vive nos Estados Unidos.

A Pública foi ao endereço oficial da Dori Filmes, na zona rural de Sobradinho, no Distrito Federal. Em vez de uma sede empresarial, a reportagem encontrou casas simples e sem muro em um terreno de difícil acesso por estrada de terra. Não há indícios físicos da produtora no local, e um vizinho afirmou desconhecer a existência da empresa. Disse também nunca ter ouvido falar de Doriel Francisco.

Endereço que consta como sendo da produtora Dori Filmes

Além da diligência sobre o valor da obra, a Ancine também abriu uma investigação para apurar os dados de exibição do documentário nos cinemas. A agência informou, em resposta à Pública via Lei de Acesso à Informação, que a distribuidora de A Colisão dos Destinos (função que foi exercida pela própria Dori Filmes) não reportou quantas salas exibiram a obra e qual foi o tamanho do público. O envio destas informações é obrigatório. A empresa foi notificada e está correndo o prazo para enviar os dados de forma voluntária.

A Colisão dos Destinos estreou em 14 de maio, em 56 salas de cinema que permaneceram esvaziadas. O lançamento ocorreu um dia depois de O Intercept Brasil revelar que o senador Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para produzir Dark Horse. Este valor, no entanto, é superior aos R$ 75,1 milhões declarados pela produtora de Karina Gama à Ancine. Por conta disso, o candidato à presidência é investigado por suspeita de corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. 

Nos bastidores da Ancine, A Colisão dos Destinos foi apelidada de “Dark Horse da Shopee” por remeter a uma versão de baixo orçamento do longa de produção internacional.

Frias queria exibir filme a Vorcaro junto com Flávio e Jair Bolsonaro

A Colisão dos Destinos também aparece nas conversas vazadas do celular de Vorcaro, às quais a Pública teve acesso. Em 21 de março de 2025, Mario Frias procurou o banqueiro às 7h25 da manhã. “Bom dia, irmão”, ele disse. Em seguida, enviou um arquivo de vídeo com o trailer do documentário.

O deputado disparou várias mensagens em sequência para Vorcaro:

“Quando você quer assistir ao documentário? Aí no dia sala? Só me fala dia e hora convida o Ciro kkkk [sic]. E bora assistir ‘A Colisão dos Destinos’. O único documentário do mundo feito sobre o homem. Tmj”, escreveu. Vinte minutos depois, Vorcaro respondeu apenas “Bom dia”.

Frias continuou: “Só marcar. Tá pronto. Chama quem você quiser e me fala dia e hora, irmão. Vc vai adorar o filme.” O banqueiro sinalizou que poderia “na outra semana”, “pois a que vem não irei a bsb”, continuou. O deputado respondeu: “Fechado”.

Em outra conversa, de 27 de março de 2025, o empresário e lobista Thiago Miranda diz a Vorcaro que Flávio Bolsonaro e Frias pediram para levar Jair Bolsonaro para assistir ao documentário na casa de Vorcaro. “Flavio e Mario me pediram isso. Querem levar o presidente na sua casa para assistirem juntos com vc o documentário”, disse.

O banqueiro mais uma vez foi sucinto: “Vamos marcar sim”. Miranda insistiu: “Me passa duas opções de data que fica melhor pra você semana que vem?” Não fica claro, pelas mensagens, se o encontro aconteceu. Na época, a assessoria de Flávio negou que tenha ocorrido.

Na pré-estreia do filme, o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, disse à CNN que o filme iria reforçar a campanha de Flávio à presidência da República. “Eu vou fazer campanha com este documentário nos municípios do meu estado para todos verem a história de um homem que admiramos.” O filho de Bolsonaro teve 47% dos votos válidos no primeiro turno das eleições.

Nós procuramos Doriel Francisco, Dori Filmes, Mario Frias, Marcos Pollon e Eduardo Bolsonaro, mas não obtivemos resposta até a sua publicação. O espaço permanece aberto.

Dinheiro de ONG ligada a Dark Horse

A Colisão dos Destinos também tem relação com a ONG Academia Nacional de Cultura, comandada por Karina Gama, a produtora de Dark Horse. A ONG fez um repasse de R$ 84 mil para a Dori Filmes entre 2025 e 2026. A informação consta de um relatório da Polícia Federal, revelado pela Folha de S.Paulo, no contexto das investigações sobre o Dark Horse. Até o momento, a produtora não se manifestou sobre o motivo do pagamento.

Em 2024, ano em que A Colisão dos Destinos foi rodado, Mário Frias repassou R$ 22,4 mil de sua cota parlamentar à Dori Filmes por serviços de divulgação do mandato, como revelado pelo Metrópoles. Segundo as notas fiscais apresentadas à Câmara, com valores entre R$ 3,5 mil e R$ 7 mil, a produtora teria confeccionado folders e vídeos sobre a atuação do deputado.

Ainda naquele ano, Frias também destinou uma emenda parlamentar de R$ 180 mil, via Ministério da Cultura, para a ONG Passos da Liberdade. O diretor Doriel Francisco integra a presidência da entidade como primeiro secretário e é coautor de outras obras audiovisuais da organização.

A Passos da Liberdade ainda recebeu verbas de emendas de Eduardo Bolsonaro, enquanto ainda tinha mandato, e do deputado Marcos Pollon, nos valores de R$ 500 mil e R$ 180,9 mil, respectivamente. Na época, os deputados disseram que o dinheiro seria para o financiamento do documentário Nós (anteriormente chamado de Genocidas), sobre regimes autoritários comunistas. Doriel Francisco é creditado como co-roteirista do filme. As emendas passaram a ser descritas no site da ONG depois de reportagem do UOL.

O diretório do PL também enviou R$ 600 mil do fundo partidário para a Passos da Liberdade sob a justificativa de “prestação de serviços de assessoria de comunicação e de produção audiovisual” em Minas Gerais. À Folha, a organização confirmou o contrato com o PL para “prestação de serviços de comunicação institucional”.

Com sede em Porto Alegre, a ONG é presidida por Rodrigo Cassol Lima, que foi o número dois da Secretaria Nacional de Desenvolvimento Cultural durante o governo Bolsonaro. Na época, o órgão era subordinado à Secretaria Especial de Cultura, chefiada por Mário Frias. O filme Nós é dirigido por outro ex-membro do governo Bolsonaro: Gustavo Lopes, que foi secretário nacional de Audiovisual.

Em resposta à Pública, a Passos da Liberdade disse que não teve participação financeira e nem envolvimento com a produção de A Colisão dos Destinos. A organização também disse que o documentário Nós deve ser lançado em streaming em novembro e que o contrato com o PL é de natureza institucional. Leia a íntegra.

Prestação de serviços em campanhas bolsonaristas

Após a estreia de A Colisão dos Destinos, a Dori Filmes foi contratada por duas campanhas bolsonaristas nas eleições deste ano para produção de vídeos. A vereadora de São Luís, Flávia Bethier (PL-MA), que se autointitula “a bolsonarista do Maranhão” e é presidente do PL Mulher no estado, pagou R$ 30 mil pelos serviços da Dori e mais R$ 19.700 para a Star City, empresa da qual Doriel se tornou sócio em junho deste ano. Ela concorreu a uma vaga como deputada federal e passou como suplente.

Cena do documentário mostra Jair jovem com os três filhos mais velhos

Entre junho e julho, Berthier patrocinou uma caravana que levou exibições gratuitas do filme a São Luís e mais de 20 cidades do interior do Maranhão. Flávio Bolsonaro gravou um vídeo agradecendo a política pela iniciativa. “Bora resgatar o Brasil começando pelo Maranhão”, diz ele. Também houve apresentações em cidades de Pernambuco.

Outro candidato que contratou o diretor do documentário de Bolsonaro para prestar serviços para sua campanha, por R$ 20 mil, foi Vilmar Vigo, conhecido como “Bolsonaro da Shopee” por se parecer fisicamente com o ex-presidente. Vigo concorreu à Câmara Federal pelo Mato Grosso, mas não se elegeu.

Doriel Francisco entrou como sócio em duas empresas – a Star City Mídia e Capital Facilities Gestão Administrativa e Imobiliária – em junho deste ano, pouco antes do período eleitoral. Ele se tornou sócio de Deuselis Braga André Filho, lotado como assessor parlamentar do senador Izalci Lucas (PL).

Deuselis é dono de páginas nas redes sociais que reúnem influenciadores de direita e faz campanha para Flávio Bolsonaro. Ele também comanda páginas que agrupam atos conservadores pelo Brasil e organiza protestos de direita. Mais recentemente, organizou uma motocarreata em Brasília. O próprio candidato gravou um vídeo, ao lado de Deuselis, chamando para o ato.

A página de Deuselis nas redes sociais, chamada “Influenciadores de Direita”, é mencionada como “parceira” na produção de A Colisão dos Destinos, junto com uma agência de marketing político de Brasília de pequeno porte. Berthier e Deuselis não responderam ao pedido de entrevista.

O documentário A Colisão dos Destinos exibe a “história não contada” do ex-presidente preso por tentativa de golpe de Estado, retratado como uma figura simples que foi escolhida por Deus para comandar o país. As filmagens aconteceram antes de ele ser condenado por tentativa de golpe de Estado e proibido de dar entrevistas.

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