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Castração química: crueldade de palanque, fracasso de política pública

2 September 2026 at 16:00

No último domingo, Flávio Bolsonaro se encontrou com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de El Salvador. Após a conversa, que aconteceu em um hotel em São Paulo, o candidato elogiou as políticas de Segurança de Nayib Bukele, que, segundo ele, foi responsável por “implementar um dos maiores e mais eficazes resgates de soberania e devolver a segurança pública para o povo deles”.

Bukele, que se autodenomina “o ditador mais cool do mundo” é hoje um dos ícones da extrema direita punitivista, sendo celebrado por seu governo de Estado de exceção permanente, encarceramento em massa que já levou mais de 100 mil pessoas para as prisões, a suspensão de garantias processuais e violações de direitos humanos que têm sido reiteradamente denunciadas por organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional.

Essa “bukelização” da segurança pública – tema de encontro da Fiesp esta semana – é bastante presente nos discursos de Flávio Bolsonaro e em seu plano de governo, intitulado “Brasil sem Medo”. Entre as propostas repetidas aos gritos de “vagabundo” isso, “ladrãozinho” aquilo, pelo candidato em seus palanques, uma se destaca por ser ao mesmo tempo tão simbólica do espírito do tempo como ineficaz e inconstitucional: A castração química para estupradores e pedófilos.

Para começar, é necessário fazer uma diferenciação. A violência sexual contra crianças e adolescentes nem sempre é cometida por um “pedófilo”. Nem todo pedófilo é abusador. E nem todo abusador sexual é um pedófilo.

A pedofilia consta na Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) e diz respeito aos transtornos de personalidade causados pela preferência sexual por crianças e adolescentes. O pedófilo não necessariamente pratica o ato de abusar sexualmente de meninos ou meninas. O abusador é quem comete a violência sexual – independentemente de qualquer transtorno de personalidade –, geralmente se aproveitando da relação familiar de proximidade social, ou da vantagem etária e econômica. Por isso, ao contrário do que se pensa, fazer essa diferenciação não significa “passar pano” pra pedófilo. Significa que qualquer um, mesmo sem transtornos de personalidade, pode ser um predador.

O Brasil enfrenta uma epidemia de estupros, como mostrou o último Anuário da Segurança Pública. Foram 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável contabilizadas, com cerca de 76% a 78% das vítimas menores de 18 anos ou que se enquadram na definição legal de vulnerabilidade (menores de 14 anos ou pessoas que não podem oferecer consentimento). O Mapa Nacional da Violência de Gênero, que foi divulgado no último dia 25, também traz que quase 29 milhões de mulheres foram vítimas de violência doméstica ou familiar no Brasil nos últimos 12 meses. Quando se fala em violência sexual contra crianças e adolescentes, 64% dos casos de estupro de vulneráveis também são cometidos dentro de casa.

Mas a proposta de Flávio, requentada da campanha de seu pai e de projetos de lei que tramitam na Câmara e no Senado, e embalada como resposta “firme” contra estupradores, é, na verdade, uma fraude.

Primeiro porque ela parte da ideia de que a violência sexual nasceria de um impulso masculino descontrolado, de um suposto excesso biológico que poderia ser domesticado por intervenção hormonal.

A castração química nada mais é do que um procedimento que se caracteriza pela manipulação de hormônios que buscam reduzir, temporariamente, o nível de testosterona. Essa redução pode acarretar, entre outros efeitos colaterais, em redução da libido ou da ereção. E, embora adotada em alguns países como pena voluntária ou condicional para liberdade (Como nos Estados Unidos, Coreia do Sul e Polônia) em casos de estupro, a aplicação e eficácia da medida não possui evidência científica comprovada e está longe de ser consenso entre profissionais da saúde e juristas, que consideram a prática uma pena cruel e degradante e que viola a Constituição Federal e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos.

Vale lembrar que a castração química era empregada compulsoriamente contra homossexuais em diversos países da Europa entre os anos de 1940 e 1960, onde a homossexualidade era proibida. Um dos casos mais conhecidos foi o do matemático britânico Alan Turing, responsável por decifrar códigos nazistas na Segunda Guerra Mundial, que foi condenado por “indecência grave” em 1952 e submetido ao procedimento, o que contribuiu para o seu suicídio em 1954.

Durante o regime nazista na Alemanha, experimentos de castração química e cirúrgica também foram realizados em prisioneiros.

A biologização dos desejos, da sexualidade, da orientação sexual, do gênero, da potência e da libido têm sido uma chave para variadas narrativas da extrema direita ao longo da história, mas tem ganhado força atualmente. É o homem que só é homem se tiver um pênis, a mulher que só é mulher se tiver uma vagina, a orientação sexual fixada nas genitálias, os úteros que deveriam estar à disposição da reprodução independente da vontade das pessoas acopladas a eles, as festas de testosterona do Vale do Silício como um culto à masculinidade, o “High-T Department of War” de Trump, o determinismo genético — a lista é longa e perigosa.

Outra característica dessas narrativas é a de oferecer soluções “fáceis”, quase mágicas e imediatas para problemas complexos. Como disse a coordenadora institucional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Martins, em entrevista ao Podcast Pauta Pública, os crimes sexuais no Brasil estão ligados mais à cultura que à biologia. “As violências tanto contra as mulheres quanto contra crianças e adolescentes, nesse contexto sexual, são resultado de um processo histórico de naturalização dessas violências, que têm uma construção cultural e social na base de tudo isso” definiu.

Não existe um hormônio que carrega em si códigos de instrução para cometer um crime e diversos estudos psicológicos e mesmo criminológicos apontam que a motivação principal por trás dos crimes sexuais não é a satisfação de um impulso, mas a busca por controle, poder, dominação e humilhação das vítimas. Faz porque pode. Porque é mais forte. Porque acha que tem posse. É preciso evitar a violência antes que ela aconteça e isso pede outros tipos de políticas públicas.

Lacan costumava dizer que “a anatomia não é o destino”. Para ele, o que define a sexualidade humana é como o sujeito se posiciona diante da linguagem. Os hormônios podem ditar a intensidade de um impulso decorrente da libido ou da agressividade física de base, mas é a mente humana, moldada pela cultura, escolhas e valores, que decide como canalizar essa energia. A violência sexual é um ato de dominação, poder e falta de consentimento, legitimada social e culturalmente. Não um mero processo biológico controlável.

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Loulé associa-se ao Mês da Sensibilização para os Cancros do Sangue

2 September 2026 at 11:52

Em setembro assinala-se o Mês da Sensibilização para os Cancros do Sangue. A Câmara Municipal de Loulé junta-se oficialmente à Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) como parceiro institucional no relançamento da campanha “O sangue que há em mim”, este ano sob o mote “Se eu mandasse”, e desafia as pessoas a usarem o poder da sua voz.

Com o objetivo de amplificar a consciencialização sobre as doenças hemato-oncológicas, a campanha deste ano foca-se na transição da identificação de problemas para a procura de soluções concretas, partindo da experiência direta de quem vive a doença e dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde.

O mote desafia-nos a refletir sobre tudo o que pode contribuir para cuidados mais humanos, mais próximos e mais equitativos. A campanha pretende, assim, promover uma comunicação mais positiva e estimular uma intervenção cívica empática e informada, capaz de transformar a experiência de quem vive com doença hemato-oncológica.

Para estruturar estas propostas, a APCL desafiou 9 profissionais de saúde e 11 doentes a responderem a questões divididas em quatro eixos estratégicos: diagnóstico e acesso aos cuidados, humanização, organização dos serviços do SNS e apoio ao doente durante e após os tratamentos. As respostas revelam uma forte sintonia e serão divulgadas progressivamente ao longo de todo o mês de setembro.

Em Portugal, os cancros do sangue representam cerca de 7,8% de todos os tumores diagnosticados. O Município de Loulé reforça, através deste apoio institucional, o seu compromisso com a promoção da literacia em saúde, a equidade no acesso aos cuidados e a construção de uma comunidade mais informada e empática para com os doentes e cuidadores.

A nível nacional, a campanha arranca oficialmente no dia 3 de setembro, em Lisboa, e assinalará várias datas específicas ao longo do mês, como o Dia Mundial da Leucemia (4/09) e o Dia Mundial do Linfoma (15/09). Toda a informação e conteúdos serão partilhados nos canais digitais da APCL e das entidades parceiras, entre as quais a Autarquia de Loulé.

Fundada em 2002 por sobreviventes e médicos do IPO de Lisboa, a Associação Portuguesa Contra a Leucemia tem como missão apoiar doentes e famílias, financiar a investigação científica e aumentar a literacia em saúde. Em 2023, inaugurou a Casa Porto Seguro para acolher doentes deslocados em tratamento.

Spertia e Buli: i due Spartani che andarono da Serse

2 September 2026 at 09:29

di Matteo Forlani

Quando entrarono alla corte di Susa, Spertia e Buli non chiesero un’alleanza, denaro o la liberazione di qualche prigioniero. Chiesero di essere uccisi. Le guardie ordinarono loro di gettarsi a terra davanti a Serse, ma i due rimasero in piedi, pronti a subire con la forza l’umiliazione che si rifiutavano di compiere volontariamente. Erano arrivati da Sparta per consegnare le proprie vite al posto di due araldi persiani assassinati anni prima. Il re avrebbe potuto accettare quell’offerta e trasformarla in una vendetta esemplare. Scelse invece di rimandarli a casa.

La vicenda occupa poche pagine del settimo libro delle Storie di Erodoto, fra il passaggio dell’esercito di Serse in Macedonia e l’invasione della Grecia. È rimasta nell’ombra di avvenimenti più celebri, dalle Termopili a Salamina, eppure contiene una delle scene più sorprendenti delle guerre persiane. I due Spartani — indicati anche come Sperthias e Bulis nelle traslitterazioni moderne — sembrano uscire dallo stesso mondo che avrebbe reso celebri i guerrieri di Leonida. Il passaggio più inatteso appartiene però al loro nemico. Serse, il sovrano che si preparava a invadere la Grecia, rifiutò di violare una legge che Sparta aveva già calpestato.

Terra e acqua

Tutto era cominciato intorno al 491 a.C., quando Dario inviò messaggeri in diverse città greche per domandare «terra e acqua». Consegnare quei due elementi significava riconoscere la superiorità del Gran Re e accettare di entrare nel sistema politico dell’Impero achemenide. Gli obblighi concreti potevano essere stabiliti in seguito; il gesto iniziale dichiarava chi occupasse la posizione dominante. Il significato preciso del rituale è ancora discusso dagli studiosi, anche perché lo conosciamo soprattutto attraverso fonti greche, ma Erodoto non lascia dubbi su come venisse percepito dalle comunità alle quali era rivolto: era una richiesta di sottomissione.

Molti accolsero gli araldi e consegnarono ciò che Dario chiedeva. Atene e Sparta reagirono in modo diverso. Gli Ateniesi gettarono i messaggeri persiani nel barathron, la cavità nella quale venivano precipitati alcuni condannati a morte. Gli Spartani spinsero i loro in un pozzo, invitandoli a prendere da lì la terra e l’acqua da portare al re. La risposta aveva l’efficacia brutale di una battuta destinata a essere ricordata. Dei Persiani uccisi non ci sono rimasti neppure i nomi. Nella cultura greca, tuttavia, l’araldo godeva di una protezione che sopravviveva perfino allo stato di guerra. Poteva recare una minaccia, intimare la resa o parlare per conto di un nemico, ma colpirlo significava distruggere il canale attraverso il quale anche i combattimenti potevano essere sospesi, i morti recuperati e una pace negoziata.

Anni dopo, quando Serse rinnovò la richiesta di terra e acqua alle città greche, escluse deliberatamente Atene e Sparta. L’assenza degli araldi ricordava che con quelle due comunità la diplomazia era già fallita nel modo più irreparabile. Per gli Spartani il silenzio persiano non cancellava comunque l’offesa. Il problema non dipendeva soltanto dalla reazione del Gran Re: riguardava gli dèi, i rituali pubblici e la possibilità stessa di prendere decisioni con il loro consenso.

Dopo l’uccisione, racconta Erodoto, i sacrifici cessarono di offrire presagi favorevoli. Prima di una decisione pubblica o di una spedizione militare, le vittime sacrificali dovevano mostrare che gli dèi approvavano ciò che la città stava per compiere. Quando i segni continuavano a risultare negativi, l’intera comunità si trovava davanti a un ordine del mondo che sembrava essersi inceppato.

A provocare la sciagura sarebbe stata l’ira di Taltibio, l’araldo di Agamennone nell’Iliade. A Sparta l’eroe possedeva un santuario e i Taltibiadi, che si proclamavano suoi discendenti, conservavano il privilegio ereditario di svolgere le ambascerie della città. Non era quindi una figura remota confinata alla guerra di Troia. Il suo culto proteggeva una funzione ancora viva, indispensabile perfino a una società educata al combattimento. Uccidendo gli inviati di Dario, Sparta aveva offeso insieme una consuetudine condivisa e il custode divino di quella consuetudine.

La devozione sopravvisse a lungo. Nel II secolo d.C. il viaggiatore Pausania ricordò a Sparta un tumulo attribuito a Taltibio e scrisse che gli venivano ancora offerti sacrifici come a un eroe. La tradizione registrata da Erodoto non poggiava quindi sul nome occasionale di un personaggio omerico: richiamava un culto radicato nella memoria della città.

Due vite per due araldi

Le assemblee si susseguirono senza trovare una soluzione. Alla fine fu fatto proclamare un appello: esisteva un Lacedemone disposto a morire per la città? Si offrirono Spertia, figlio di Aneristo, e Buli, figlio di Nicolao. Erodoto ricorda che appartenevano a famiglie nobili ed erano fra gli uomini più ricchi di Sparta. Non è un particolare ornamentale. A offrirsi non furono due uomini senza peso, scelti perché più facili da perdere, ma due membri della ristretta comunità degli Spartiati. Avevano prestigio, ricchezze e figli che sarebbero riapparsi molti anni dopo nella stessa storia.

La loro missione aveva una logica che oggi può apparire estranea. Non partivano come colpevoli materiali dell’assassinio e neppure come negoziatori incaricati di ottenere il perdono. Rappresentavano Sparta anche con il proprio corpo: due morti persiani sarebbero state compensate da due morti spartane. Nel mondo raccontato da Erodoto, la responsabilità poteva oltrepassare l’individuo, aderire a una famiglia o ricadere su una comunità intera. L’offerta di Spertia e Buli cercava di ricomporre un equilibrio, non di dimostrare che la città non aveva sbagliato.

La destinazione era Susa, nell’attuale Iran sud-occidentale, una delle capitali nelle quali il sovrano achemenide riceveva funzionari e delegazioni provenienti dall’impero. Durante il viaggio i due furono accolti da Idarne, un alto comandante persiano responsabile delle coste dell’Asia Minore. Li fece sedere alla propria tavola e provò a mostrare loro i vantaggi del servizio imperiale. Il Gran Re sapeva riconoscere gli uomini valorosi; se gli Spartani avessero accettato la sua amicizia, avrebbero potuto ricevere onori e il governo di terre greche. Idarne poteva fare una simile offerta: apparteneva all’élite di un impero abituato a premiare la lealtà e a servirsi delle aristocrazie locali.

Spertia e Buli gli risposero che il consiglio nasceva da un’esperienza incompleta. Idarne conosceva bene il servizio al re, ma non aveva mai assaggiato la libertà; se l’avesse conosciuta, avrebbe combattuto per difenderla «non soltanto con le lance, ma anche con le scuri». La frase è diventata la parte più famosa dell’episodio. Erodoto scriveva molti decenni dopo, perciò non sappiamo se quelle parole siano state davvero pronunciate a tavola. I discorsi delle Storie servono anche a mostrare il carattere dei protagonisti e le idee che attraversano l’opera. Chiamare Idarne “schiavo”, d’altra parte, non descrive la sua condizione giuridica: era un dignitario potente. La risposta spartana trasforma la dipendenza da un sovrano nel contrario della libertà politica e anticipa il modo in cui i Greci vincitori avrebbero ricordato lo scontro con la Persia.

Il re che rifiutò la vendetta

Idarne li aveva accolti come ospiti e aveva offerto loro una via d’uscita. Alla corte di Susa fu Serse a spostare ancora una volta il significato dell’incontro. Le guardie pretesero la proskynesis, il gesto di deferenza previsto dal cerimoniale achemenide. La sua forma variava secondo il rango e poteva comprendere un inchino o una prosternazione. Per i Persiani esprimeva la gerarchia della corte; agli occhi di molti Greci assomigliava invece a un atto riservato agli dèi. Spertia e Buli rifiutarono di compierlo davanti a un uomo, pur sapendo che quella resistenza poteva anticipare la loro esecuzione di pochi istanti.

Quando furono ammessi alla presenza di Serse, spiegarono la ragione del viaggio. Sparta li aveva inviati affinché pagassero la pena dovuta per gli araldi di Dario. Gli Spartani, rispose il re, avevano infranto una legge riconosciuta da tutti uccidendo dei messaggeri. Lui non avrebbe imitato la condotta che condannava e, mettendo a morte i due volontari, non avrebbe liberato la loro città dalla colpa. Spertia e Buli avevano offerto la propria vita; Serse rifiutò che fossero loro a stabilire il prezzo.

Il rifiuto poteva servire anche alla politica regale. Risparmiare due aristocratici nemici consentiva a Serse di presentarsi come un sovrano capace di dominare la propria ira e di rispettare una norma universale. Nel racconto di Erodoto, però, il valore del gesto non viene ridotto a calcolo. Lo storico parla apertamente di magnanimità. È un dettaglio importante, perché incrina l’immagine di un’opera costruita soltanto per celebrare la superiorità morale dei Greci. Proprio mentre Spertia e Buli pronunciano una fiera difesa della libertà, il Gran Re mostra una forma di autocontrollo che Sparta non aveva saputo esercitare.

Il debito passa ai figli

Spertia e Buli tornarono vivi. Erodoto osserva che l’ira di Taltibio cessò comunque per qualche tempo: il viaggio non aveva prodotto le due morti previste, ma aveva mostrato che Sparta riconosceva la gravità dell’offesa. Lo storico, tuttavia, non chiude qui la storia. Compie un salto di circa mezzo secolo e segue il debito fino alla generazione successiva.

Nel 430 a.C., all’inizio della guerra del Peloponneso, Nicolao figlio di Buli e Aneristo figlio di Spertia partirono a loro volta come ambasciatori. Sparta cercava l’appoggio e il denaro della Persia contro Atene. La delegazione fu intercettata in Tracia, consegnata agli Ateniesi e condotta in città. Tucidide racconta che gli uomini vennero uccisi nello stesso giorno, senza processo, e che i loro corpi furono gettati in una fossa. Per Atene si trattava di impedire a emissari pericolosi di raggiungere il Gran Re e di rispondere alle esecuzioni compiute dagli Spartani ai danni di mercanti e marinai. Erodoto guardò allo stesso avvenimento con occhi diversi: la collera di Taltibio, scrisse, aveva infine raggiunto i figli di coloro che avevano tentato di placarla.

Al di fuori delle Storie non possediamo un racconto indipendente dell’incontro con Serse. Le parole scambiate con Idarne e con il re appartengono alla forma letteraria scelta da Erodoto; anche il legame fra il sacrilegio dei padri e la morte dei figli rivela il suo bisogno di riconoscere un ordine negli avvenimenti. È proprio questo intreccio a rendere la vicenda più interessante di una semplice curiosità sul coraggio spartano. Vi convivono la memoria di un delitto diplomatico, il bisogno collettivo di espiazione, due concezioni della libertà e una riflessione sul limite del potere.

Spertia e Buli erano partiti convinti che Sparta potesse liberarsi dalla colpa soltanto attraverso la loro morte. Serse rifiutò di trasformare due innocenti nella moneta con cui saldare il sangue versato. Quando, molti anni dopo, i loro figli ripresero la strada della Persia e furono uccisi prima di raggiungerla, Erodoto riconobbe nella coincidenza il ritorno di un debito mai estinto. Era il modo antico di chiudere una storia che la clemenza del re aveva lasciato in sospeso.

L'articolo Spertia e Buli: i due Spartani che andarono da Serse su Vanilla Magazine scritto da Matteo Forlani

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Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro voltam a atacar Agência Pública

31 August 2026 at 18:30

A Agência Pública de Jornalismo Investigativo, agência de notícias mais premiada do Brasil, está sob novo ataque por parte do influenciador Paulo Figueiredo. Nos últimos 10 dias, ele fez pelo menos quatro postagens na rede social X atacando a reputação da organização e da sua diretora executiva, Natalia Viana, além de ter lhe enviado mensagens irônicas e agressivas. 

As postagens foram realizadas pouco depois da Agência Pública solicitar a ambos as suas versões sobre os fatos apurados  em duas reportagens. Na primeira, a Pública noticiou que Paulo doou US$ 10 mil dólares, o máximo permitido, à deputada republicana Elvira Salazar um mês antes dela propor um projeto de lei para penalizar Alexandre de Moraes; a segunda reportagem, feita em parceria com o ICL Notícias, traz um levantamento sobre o estilo e padrão de vida do influenciador e seu aliado Eduardo Bolsonaro nos EUA. 

Em ambos os casos, Figueiredo chamou a Agência Pública de “agência puta” e fez diversos ataques misóginos à equipe e à diretora executiva. Segundo Paulo, é assim “como jornalista que se prostitui tem que ser tratado(a)”. Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) e ex-deputado, retuitou uma das postagens no X, ampliando seu alcance.  

Estes não são os primeiros ataques misóginos da dupla às jornalistas da Agência Pública, uma organização sem fins lucrativos que é referência internacional em jornalismo investigativo contando no seu portfólio com mais de 90 prêmios, como o prêmio Gabo da Fundação Gabriel García Márquez, o Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e o Prêmio Maria Moors Cabot da Universidade de Columbia, nos EUA. 

Em abril de 2024, Eduardo e aliados lançaram uma campanha de desinformação contra a Agência e sua repórter. 

Dias antes, a Agência Pública fora o primeiro veículo brasileiro a noticiar a campanha liderada por Eduardo Bolsonaro para pedir retaliações ao Brasil por conta do processo judicial contra Jair Bolsonaro e outros cúmplices por tentativa de Golpe de Estado – muito antes da articulação render sanções reais contra empresas brasileiras e membros do Judiciário, no ano passado. 

Após a publicação, Eduardo Bolsonaro e Figueiredo passaram a acusar a Pública de ser “a mídia de George Soros”. Passaram ainda a expor nossa repórter, citando seu nome, e incitando seu público online. Paulo Figueiredo ofendeu nossa repórter. 

Há mais de quatro anos investigamos e documentamos as articulações e relações internacionais de Eduardo Bolsonaro, por se tratar de tema de absoluto interesse público que afeta a maioria da população. O tipo de jornalismo realizado pela Agência Pública, técnico e aprofundado, colabora com a qualidade do debate público acerca de alguns dos mais relevantes episódios recentes da história brasileira. 

Estes ataques, entretanto, não são isolados a um veículo. Eles se inserem em um contexto maior de violência e misoginia do grupo bolsonarista voltado às mulheres jornalistas. 

De acordo com relatório da Abraji, no ano de 2024, 31% dos registros de ataques contra jornalistas foram motivados por gênero, um salto em relação ao ano anterior. Durante o governo Bolsonaro, Jair e seus filhos realizavam em média um ataque a jornalista por dia, segundo a mesma organização. A organização internacional Repórteres Sem Fronteiras chegou a declarar que os ataques à imprensa eram um método do governo de Jair Bolsonaro.

Os ataques recentes são ainda mais graves porque suscitam violência contra profissionais mulheres em um momento de aumento de casos de feminicídio que tem sido, inclusive, pauta durante esta campanha eleitoral. 

Com as postagens de Paulo e o retuite de Eduardo, nossa diretora e a própria Agência têm recebido diversas mensagens agressivas e ameaçadoras, que estão sendo devidamente documentadas para ação posterior. 

Repudiamos essas tentativas de intimidação e ataque à nossa reputação e nossa equipe, formada majoritariamente por mulheres. Eles são ainda mais chocantes quando vindos de figuras centrais a uma campanha para a presidência da República que promete agir contra a violência de gênero. 

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Calendario escolar de Galicia para el curso 2026 - 2027: inicio de las clases, días festivos y vacaciones de Navidad

13 May 2026 at 17:07

Las vacaciones de verano están llegando a su fin y los estudiantes gallegos volverán a las aulas en las próximas semanas. La Consellería de Educación ha publicado en el Diario Oficial de Galicia (DOG) el calendario escolar para el curso 2026-2027, que fija la fecha de inicio de las clases el 9 de septiembre. Pero no será para todos los estudiantes igual.

Ese miércoles será la 'vuelta al cole' de los alumnos de Infantil, Primaria, Secundaria, Bachillerato y Formación Profesional, así como los de cursos de especialización y enseñanzas de régimen especial. Estos últimos tendrán flexibilidad para el inicio, pero tendrá que ser como máximo el 16 de septiembre. Los niños que se incorporen a cuarto de Infantil contarán con un periodo de adaptación gradual hasta el día 15 de septiembre.

El curso terminará con carácter general el lunes 21 de junio de 2027. Sin embargo, los segundos cursos de FP básica, media y superior finalizarán antes, el 15 de junio. Los de segundo de Bachillerato dependerán del calendario de la Prueba de Acceso a la Universidad (PAU). La evaluación ordinaria tendrá que realizarse a partir del 12 de mayo de 2027, mientras que la extraordinaria deberá celebrarse a partir del 9 de junio.

Vacaciones escolares para el próximo curso

Educación también establece tres periodos de vacaciones durante el curso. Las primeras serán las de Navidad, que tendrán lugar del 21 de septiembre de 2026 al 6 de enero de 2027, ambos incluidos. El descanso de Carnaval se fija para el 8, 9 y 10 de febrero. Las últimas serán las de Semana Santa, que se desarrollarán entre el 22 y el 29 de marzo.

Más allá de los periodos de vacaciones, el calendario incluye otros días sin actividad lectiva. El 7 de diciembre de 2026 se celebrará el Día do Ensino, por lo que los estudiantes no tendrán clase. A estos se suman las fiestas estatales, autonómicas y locales, como el lunes 12 de octubre, por la Hispanidad, o el martes 8 de diciembre, por la Inmaculada.

El calendario recoge que las pruebas de evaluación de diagnóstico del próximo curso, fijadas por el Gobierno del Estado a través de la ley educativa LOMLOE, tendrán lugar entre el 19 y el 23 de abril para segundo de la ESO y entre el 26 y el 30 de abril para cuarto de Primaria.

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28 August 2026 at 08:23
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Centro Tecnológico especializado na área avança com o investimento do Município de São Brás de Alportel

27 August 2026 at 07:00

Está em curso a obra de criação do Centro Tecnológico Especializado na área da restauração, mediante a remodelação e ampliação da Academia dos Sabores, na Escola Secundária José Belchior Viegas e o apetrechamento com equipamentos da especialidade que permitem ditar este espaço de todas as condições de excelência para uma aposta na formação nesta área de forte potencialidade na região.

A obra resulta de uma candidatura apresentada pelo Agrupamento de Escolas ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). 

Para garantir que a intervenção possa ser concretizada na sua totalidade e que o novo espaço reúna todas as condições previstas, o Município de São Brás de Alportel assegura a verba necessária para complementar este financiamento mediante a obra de adaptação do espaço.

A obra representa um importante investimento na modernização das condições de ensino e de formação profissional no concelho, através da criação de um espaço dedicado à área da Cozinha, integrado no Centro Tecnológico Especializado (CTE) Industrial.

O financiamento atribuído ao projeto foi estabelecido até ao montante máximo elegível de 194.850,00euros. No entanto, na sequência do procedimento de contratação pública promovido pelo Agrupamento de Escolas José Belchior Viegas, a empreitada foi adjudicada por 231.925,37 euros, acrescidos de IVA.

Para garantir a execução integral da intervenção, a Câmara Municipal deliberou assegurar a verba necessária para complementar o investimento necessário.

A decisão reforça o compromisso do Município com a qualificação das escolas, a valorização da formação profissional e a criação de melhores oportunidades para os jovens são-brasenses, garantindo que um investimento desta importância possa avançar sem comprometer a intervenção prevista.

A Academia dos Sabores é um projeto desenvolvido em estreita articulação entre o Município de São Brás de Alportel e o Agrupamento de Escolas José Belchior Viegas, refletindo uma aposta conjunta na melhoria das condições de ensino e na preparação dos jovens para os desafios do futuro.

Wozu der geheime Besuch des CIA-Direktors in Moskau?

26 August 2026 at 11:25
Der Dienstag war in Moskau ein interessanter Tag. Russische Medien meldeten am Morgen unter Berufung auf Flightradar, ein um 7.50 Uhr in Riga gestartetes US-Militärflugzeug vom Typ Boeing C-17 Globemaster III sei um 9.04 Uhr auf dem Moskauer Flughafen Vnukovo gelandet. Zwei Tage zuvor sei die Maschine von der Airbase Andrews, wo auch die Flugzeuge […]

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O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores

24 August 2026 at 08:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

O ano letivo de 2024 seguia seu curso normal quando Jadir Anchieta, professor de História, começou a ouvir comentários de estudantes que diziam ter saudades de Jair Bolsonaro. Era uma aula sobre o período entreguerras, ministrada a uma turma do 9º ano do Ensino Fundamental na Escola Estadual São Tarcísio, no município catarinense de São Bonifácio. O professor havia acabado de entrar na sala quando um grupo de alunos passou a fazer provocações sobre temas políticos. Foram poucos minutos, mas, para Jadir, a cena durou uma eternidade. A dinâmica parecia ensaiada. Cerca de quatro alunos o bombardearam com perguntas e cobraram um posicionamento sobre o tema. Ele sabia que aquele comportamento fugia ao perfil da turma e a direção da escola precisou mediar o conflito. O que o professor de História não sabia, contudo, era que a cena havia sido gravada pelos estudantes.

Em diferentes regiões do Brasil, o roteiro percorrido por Jadir Anchieta tem se repetido. Há um padrão em curso, segundo Rodrigo Timm, advogado do Observatório Nacional da Violência Contra Educadores (Onve). Primeiro, estabelece-se um clima de desconfiança em torno do ambiente escolar e de seus profissionais. Em seguida, os alunos são incentivados, muitas vezes pelos próprios pais, a gravar os professores em vídeo ou em áudio. Essas gravações são, então, retiradas de seu contexto original e repassadas a parlamentares da extrema direita. O material ganha espaço nas redes e se transforma em um ativo político. 

Um levantamento da Agência Pública identificou, desde as últimas eleições gerais, em 2022, até 2025, ao menos 18 parlamentares, a maioria do Partido Liberal (PL), que fizeram ataques a professores. Entre eles estão nomes como Júlia Zanatta (PL-SC), Jessé Lopes (PL-SC), Alex Brasil (PL-SC), Ana Campagnolo (PL-SC), Alan Lopes (PL-RJ) e Fernando Cordeiro (PL-SC), todos em busca de uma vaga nas eleições de outubro. A estratégia de atacar professores é, ainda, uma maneira de ascender politicamente: é o caso do vereador Fernando Cordeiro (PL) de Chapecó, no oeste catarinense, que quase triplicou a votação no município após liderar ataques contra uma docente e agora se prepara para disputar o cargo de deputado federal por Santa Catarina. Cordeiro recebe apoio da deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), que, em seu mandato, ficou conhecida por denunciar “professores doutrinadores”, ganhando projeção política após processar sua orientadora de mestrado.

A gravação da aula de Jadir, por exemplo, foi parar nos perfis da deputada federal Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina. O professor e a direção da escola foram surpreendidos pela exposição nas redes sociais. Dias depois, em uma nova publicação, Zanatta comemorou as providências imediatas tomadas pelo governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, também do PL. Tratava-se da abertura de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), instaurado para apurar a conduta de Jadir por agir “de forma inadequada no exercício de suas funções”. A postagem que expôs o professor de História alcançou mais de 30 mil curtidas e foi compartilhada por outros nomes da extrema direita, como o vereador Fernando Cordeiro, do PL de Chapecó.

A repercussão do caso escalou até a Câmara dos Deputados, em Brasília. O deputado federal Gustavo Gayer, do PL de Goiás, apresentou uma moção de repúdio contra Jadir na Comissão de Educação, então presidida por Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, mas a proposta foi rejeitada por 20 votos a 13. Durante a sessão, outros parlamentares denunciaram a instrumentalização do episódio. O deputado Tarcísio Motta, (PSOL-RJ), afirmou que o caso era mais uma manifestação de uma parcela da extrema direita, em busca de ganhos eleitorais por meio da perseguição a profissionais da educação.

Apesar da moção de repúdio ter sido barrada no Congresso Nacional, as consequências estaduais seguiram seu curso. Em decorrência do PAD aberto pela Secretaria de Educação de Santa Catarina, Jadir foi afastado de suas funções em março de 2024. O afastamento foi prorrogado duas vezes até que, em agosto do mesmo ano, ele foi demitido. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) anulou o PAD apenas em maio de 2025 e determinou a readmissão do professor. Na decisão, o desembargador responsável argumentou que a “sala de aula não é um campo de polícia ideológica” e que o docente não pode estar “submetido a censores discentes, tampouco à disposição de visões idiossincráticas de bedéis mascarados como pais”.

Montagem mostra incitação à violência contra o professor Jadir Anchieta

Processos contra educadores aumentam nas eleições

No levantamento da Pública, também foram analisadas as características de 596 PADs abertos pela Secretaria de Educação de Santa Catarina e publicados no Diário Oficial entre janeiro de 2021 e 31 de dezembro de 2024. Os dados mostram que, em ambos os anos eleitorais, a abertura de processos contra educadores como Jadir foi maior. Fernando Penna, coordenador do Onve, observa que, em períodos de disputas políticas, o número de processos contra educadores aumenta, o que evidencia que as escolas se consolidaram como espaços de embate ideológico.

A análise dos PADs também identificou indícios de punições desproporcionais, espetacularização dos casos e prolongamento indevido dos trâmites. Cerca de um terço dos processos analisados pela reportagem no período foi arquivado, seja pela inocência do servidor, seja pela inexistência do fato. Para Penna, o índice revela que muitos PADs são abertos sem materialidade, desprovidos de testemunhos efetivos ou de evidências de infração. São instaurados de forma vazia, com o propósito de intimidar.

Para Jadir, o arquivamento do processo não apaga os impactos da exposição. O professor conta que ficou profundamente abalado pela violência sofrida. Precisou deixar São Bonifácio, foi alvo de ameaças e viu milhares de pessoas o xingarem na internet. Eram desconhecidos, e ele não sabia se representavam um perigo real. Quase dois anos após a abertura do PAD, Jadir avalia que a ação orquestrada serviu para “faturar cliques e votos”.

A situação de Jadir, contudo, não se encerrou com a decisão judicial. Em julho de 2025, mesmo sob a vigência da Lei Federal nº 15.100/2025, que proíbe o uso de celulares em sala de aula, o professor teve, mais uma vez, a aula gravada por alunos. O áudio foi, novamente, divulgado nas redes sociais. Entre os comentários, o deputado estadual Sargento Lima, do PL, que já havia discursado contra “professores doutrinadores” na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, afirmou que o episódio provava a importância da instalação de câmeras nas salas de aula. 

Lima já havia se envolvido em outro episódio, em fevereiro de 2023, relacionado à orientadora educacional Juliana Andozio, que foi vítima de uma sindicância acusatória, suspensa e afastada, após permitir que uma aluna trans usasse o banheiro feminino da escola. De acordo com a educadora, seis famílias queriam saber “qual banheiro a aluna trans usava” e “queriam proibir as discussões sobre gênero, orientação sexual, diversidade, questões da mulher, da democracia e do grêmio estudantil na escola”.

Juliana sofreu ataques após as “denúncias” feitas pelo vereador Bericó (PL) nas redes sociais. Seu carro foi alvo de ovos, pedras e limões. “Jogavam coisas na escola, jogaram fogos de artifício em mim, jogaram lixo na minha casa. Eu tive que ir morar três meses na casa da minha mãe porque passavam motoqueiros na frente da minha casa me xingando de coisas horrorosas”, desabafa.

O caso chegou à tribuna da Alesc quando o deputado Sargento Lima (PL) ameaçou a educadora. “Fosse minha neta, uma das minhas enteadas, meu filho, uma dessa, um suplente estaria assumindo a minha vaga aqui porque eu estaria na cadeia. Simplesmente isso”, disse o parlamentar na sessão de 15 de março de 2023. O processo que acusava Juliana de “doutrinação político/partidária” foi anulado em janeiro de 2024.

O relatório “Um estudo quantitativo da perseguição a educadoras/es no Brasil”, publicado em 2025 pelo Onve, aponta que a violência contra professores começou a se intensificar a partir de 2010. Os picos ocorreram em 2016, 2018 e 2022, anos marcados pelo impeachment de Dilma Rousseff e por duas eleições presidenciais. A pesquisa, que ouviu mais de três mil educadores nas cinco regiões do país, indica que o Sul concentra o maior número de casos, seguido pelo Sudeste. Fernando Penna observa que o dado não surpreende, uma vez que Santa Catarina, estado com maior presença de políticos de extrema direita, foi um dos que registraram o maior número de respondentes.

O coordenador do Onve projeta que, em 2026, a direita mobilizará todas as estratégias políticas que já deram retorno eleitoral para voltar ao poder. A perseguição a educadores e a incitação do pânico moral em torno da ideologia de gênero devem estar no centro dessa mobilização. A hipótese de Penna é que 2026 será um ano particularmente difícil para os profissionais da educação.

Todos os parlamentares citados foram procurados pela reportagem, mas não houve retorno até a publicação. Já a Secretaria de Educação de Santa Catarina afirmou “seu compromisso com a legalidade, a transparência e a proteção da comunidade escolar”. 

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O Governo de Santa Catarina, por meio da Secretaria de Estado da Educação (SED), ressalta seu compromisso com a legalidade, a transparência e a proteção da comunidade escolar. Todos os procedimentos correcionais instaurados pela pasta seguem critérios técnicos e rigorosa análise jurídica, conforme prevê a legislação vigente.

A abertura de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) ocorre apenas quando há indícios de eventual irregularidade funcional, sempre com garantia plena do contraditório e da ampla defesa aos servidores envolvidos. A instauração de um PAD não representa punição antecipada, mas instrumento legal de apuração.

A SED também esclarece que denúncias relacionadas à atuação em sala de aula são analisadas com responsabilidade, considerando o contexto pedagógico, a liberdade de cátedra e os deveres funcionais previstos na legislação.

Em relação às decisões judiciais, a SED respeita integralmente as determinações do Poder Judiciário e cumpre todas as decisões nos termos estabelecidos pela Justiça, mantendo permanente aperfeiçoamento dos seus fluxos e procedimentos internos.

Por fim, a Secretaria reforça que atua de forma séria, equilibrada e responsável para garantir um ambiente escolar seguro, respeitoso e alinhado aos princípios da educação pública catarinense.

Quando a perseguição é transformada em voto

A partir de uma denúncia feita pelo vereador Fernando Cordeiro, de Chapecó, a professora de Língua Portuguesa Ibriela Sevilla foi alvo de um PAD por trabalhar, em sala de aula, o livro Não Alimente a Escritora, da autora catarinense Telma Scherer. A atividade ocorreu em uma turma do primeiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual Professora Angela Lourdes Lago. Pais de alunos acionaram a direção da escola e pediram a demissão da professora, alegando que o livro continha linguagem inapropriada. A obra, que consiste em um poema de 94 páginas, já havia sido utilizada por Ibriela em 2023, na mesma escola, sem suscitar qualquer problema.

O PAD aberto contra Ibriela em 2024 foi arquivado quase um ano depois, quando a comissão responsável concluiu pela inocência da docente. Durante o trâmite do processo, a professora foi exposta nas redes sociais e nas câmaras legislativas municipais e estaduais. Desde o episódio, Ibriela tem acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

Montagem mostra incitação à violência contra a professora Ibriela Sevilla

O vereador Fernando Cordeiro, então em pré-campanha para a reeleição, publicou, em março de 2024, uma crítica à conduta da professora em suas redes sociais. Três dias depois, o caso chegou à deputada estadual Ana Campagnolo, do PL, que repercutiu o assunto na tribuna da Assembleia Legislativa.

Para Fernando Penna, a dinâmica indica uma atuação em rede entre os parlamentares. “Quando um vereador faz a denúncia e uma deputada estadual a divulga, há uma articulação clara. A deputada serve como plataforma, enviando a mensagem de que outros vereadores que fizerem o mesmo também ganharão projeção. Um parlamentar reforça o outro, construindo, assim, um empreendimento político”, diz.

Em 2020, Fernando Cordeiro foi eleito com 1.422 votos, a 14ª maior votação em Chapecó. Em 2024, ele quase triplicou seu eleitorado e tornou-se o vereador mais votado do município. Para o coordenador do Onve, o crescimento expressivo da votação após a perseguição a uma professora exemplifica como esse tipo de violência tem sido convertido em capital político.

Montagem mostra incitação à violência contra a professora Marlene de Fáveri

A própria deputada Ana Campagnolo, que auxiliou Cordeiro na exposição do caso, ganhou projeção política após um conflito com sua orientadora de mestrado, a historiadora Marlene de Fáveri, da Universidade do Estado de Santa Catarina. O episódio foi exposto publicamente durante a campanha eleitoral de 2018, quando Campagnolo foi eleita deputada estadual com mais de 34 mil votos. Até então, ela nunca havia concorrido a cargos políticos e atuava como professora de História em escolas de Chapecó. Após denunciar “professores doutrinadores” em seu primeiro mandato, Campagnolo reelegeu-se em 2022 como a deputada mais votada da história do parlamento catarinense, com 196.571 votos.

Procurado, Fernando Cordeiro alegou que “o objetivo foi representar os pais e alunos que me procuraram solicitando ajuda, representando-os nas instâncias legais e competentes, relatando material apresentado pela referida professora”.

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Um padrão repetido pelo Brasil

Os casos de Jadir, Ibriela e Marlene não são exceção. O roteiro de perseguição e violência se repete esporadicamente em outras regiões do país. Em Magé, no Rio de Janeiro, a professora de Artes Daniela Abreu enfrentou uma situação semelhante. Ela trabalhava há 17 anos no Colégio Estadual Professor Alfredo Balthazar da Silveira e nunca tinha registrado problemas com os alunos. A escola sempre foi reconhecida por sua atuação combativa, com grande adesão do corpo docente ao sindicato. Em contrapartida, grupos locais pressionavam pela militarização da instituição.

Nesse contexto de tensão, em 2022, Daniela passou a ter conflitos com estudantes que faziam declarações racistas em sala de aula. No início do ano, um aluno a agrediu verbalmente e a ameaçou fisicamente. O estopim da violência, no entanto, ocorreu em setembro daquele ano, quando um casal de alunos abordou a professora na sala dos docentes e pediu materiais da campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Daniela recusou o pedido, mas, diante da insistência dos estudantes, cedeu um adesivo e pediu que o aluno o guardasse. Ela não sabia que a interação estava sendo filmada.

Quinze minutos depois, policiais militares e fiscais do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) entraram na escola. Segundo relatos de funcionários, a abordagem ocorreu sem mandado. Vídeos da entrada dos policiais e da entrega do adesivo eleitoral circularam nas redes sociais. Daniela foi acusada de ser doutrinadora, e as imagens simulavam uma prisão que, de fato, nunca ocorreu.

A professora relata que passou por instantes de terror e se sentiu minúscula em meio à barbárie. Ao longo de 2022, ela havia sido gravada em outras aulas sem o seu conhecimento. Mais tarde, compreendeu a intencionalidade daquelas filmagens, que foram utilizadas na sindicância instaurada contra ela.

Montagem mostra incitação à violência contra a professora Daniela Abreu

A perseguição ganhou contornos institucionais em 2023, quando o deputado estadual Alan Lopes, do PL, passou a atacar publicamente a professora. Eleito presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em abril de 2023, o parlamentar foi ao colégio de Daniela para gravar um vídeo no qual afirma ter “desmascarado a maior doutrinadora ideológica do Estado”. Lopes reuniu filmagens clandestinas feitas nas aulas de Daniela e declarou que o período de denúncias engavetadas por doutrinação em sala de aula havia acabado no Rio.

Um levantamento publicado pelo Onve em 2024 revela que, em quatro anos, a Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro abriu 1.320 sindicâncias contra professores. O número representa a média de uma sindicância por dia entre 2020 e 2024. O estudo aponta que agentes públicos têm manipulado o instrumento da sindicância para criminalizar, isolar e silenciar educadores. O pico de aberturas de sindicâncias ocorreu em 2022, ano eleitoral, com quase 500 procedimentos instaurados.

Após a publicação do vídeo pelo deputado Alan Lopes, Daniela foi alvo de uma sindicância e, quatro meses depois, de um PAD. Ela foi acusada de realizar campanha eleitoral na escola, fazer apologia às drogas e enaltecer a vereadora Marielle Franco, assassinada. Segundo o processo, a professora teria descumprido os deveres previstos no Estatuto dos Funcionários Públicos e os preceitos éticos do Código de Ética Profissional do Servidor.

Nesse período, Daniela ficou extremamente fragilizada. Ela conta que grupos organizavam reuniões e a chamavam de “Marielle de Magé”, não como um elogio, mas como um alvo. Diziam que não precisavam mais matá-la, pois já haviam conseguido quebrá-la por dentro.

Em setembro de 2025, o PAD foi arquivado. Assim como no caso de Jadir Anchieta, o arquivamento não apagou as violências sofridas. Daniela foi alvo de ameaças e precisou deixar a cidade para evitar uma tragédia. Desenvolveu crises de ansiedade, falta de ar e depressão. Pensou em abandonar a sala de aula e teve medo de morrer. Foi, segundo ela, o momento mais difícil de sua vida.

Infográfico mostra dados de censura em sala de aula

Os resultados dessa violência

Quase dois anos após a gravação que resultou na abertura de seu Processo Administrativo Disciplinar, Jadir Anchieta continua a ministrar aulas de História. Diante de novas turmas, ele continua abordando temas como o nazifascismo, as crises democráticas e os conflitos políticos do século 20. A diferença, agora, é que a sensação de estar sendo gravado nunca o abandona. Hoje, ele pensa duas ou três vezes antes de falar, o que torna a rotina exaustiva.

Para os pesquisadores do Onve, o método de alguns políticos da extrema direita produz um efeito que vai além dos episódios individuais: cria um ambiente de insegurança e medo, levando os educadores à autocensura. 

Em um contexto de polarização política e com a aproximação de novas eleições, especialistas alertam que o uso de estratégias de perseguição contra educadores tende a se intensificar. As explicações sobre crises democráticas, questões de gênero ou temáticas religiosas continuam no quadro negro. Mas agora, entre os cadernos e os livros, paira sempre a possibilidade de um celular gravando em silêncio.

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