Rui Manuel Marinho Rodrigues Maia
Licenciado em História, Mestre em Património e Turismo Cultural pela UMinho – Investigador em Património Industrial
Esta fantástica “máquina de lavar” de outrora encontra-se no Parque de Merendas do Alvito, freguesia de Caldelas, Sequeiros e Paranhos, concelho de Amares.
Os fontanários e os lavadouros estão pulverizados um pouco por todo o território nacional, são elementos arquitetónicos que pertencem a um paradigma obsoleto que nos remete para um tempo em que não existiam redes de abastecimento de água potável nem redes de águas residuais tal como as conhecemos hodiernamente.
Os lavadouros comunitários surgiram no termo de Oitocentos, há mais de uma centúria, no entanto, os avanços da ciência e da técnica que se operaram desde então permitiram ao Homem moderno deixar para as máquinas o trabalho árduo que antes era braçal. Esse trabalho cabia às mulheres que lavavam as roupas nas margens dos rios ou riachos, passando depois a fazê-lo nos lavadouros, uma vez que estes apresentavam condições de utilização bastante mais confortáveis.
A atividade de lavar a roupa nos lavadouros não era solitária, as mulheres reuniam-se nesses locais promovendo momentos de sociabilização, aproveitando para se atualizarem, cavaqueando acerca de amores e desamores, das suas vidas e das vidas alheias, não surpreendendo que a expressão popular “lavar roupa suja” encontre a sua origem nessa nobre atividade.
As mulheres transportavam as roupas sujas em bacias até aos lavadouros, muitas vezes em cima de uma rodilha colocada em cima da cabeça, permitindo equilibrar as cargas, o que certamente lhes provocaria sérios problemas de saúde. Após lavarem as roupas, as mesmas tornavam-se mais pesadas, o que significava um sacrifício acrescido. Porém, antes de regressarem a casa após lavarem as roupas, as mulheres estendiam-nas em cordas que prendiam às árvores ou a outros elementos que o permitissem para que as roupas pudessem escorrer e ficar a corar, aliviando grande parte do peso provocado pela água.
A atividade era tão exigente que as famílias mais abastadas recrutavam mulheres para lhes lavar e tratar das roupas de casa, promovendo formas de economia local. Não obstante, importa referir que os elevados índices de analfabetismo em Portugal estenderam-se por muitas décadas, pelo que as populações menos instruídas e de estratos sociais mais carenciados dedicavam-se a servir nas casas mais fartas – pertença sobretudo de grandes lavradores, uma vez que a agricultura se afigurou por muito tempo a atividade económica mais expressiva em Portugal, algo que mudou há poucas décadas.
Os lavadouros possuem a configuração de um tanque, podendo ser de granito ou de tijolo e argamassa, contando com pequenas lajes que permitiam esfregar e bater as roupas. A sua configuração é variada, possuindo normalmente uma divisão de entrada para a água limpa, e outra de passagem para as águas sujas, escoando depois para um circuito previamente executado, permitindo nas zonas rurais reutilizar as águas sujas para a rega dos campos.
Em termos gerais, os lavadouros eram cobertos por telhados de duas águas, protegendo quem os utilizava do sol escaldante e das águas da chuva. A roupa era lavada ao longo de todo o ano, todavia, o inverno configurava o período de maiores desafios, pois, lavar as roupas com água gélida deveria ser aflitivo, além das dificuldades para a secar.
No que concerne às questões ambientais, comparativamente com as máquinas de lavar roupa modernas – que utilizam uma panóplia de produtos nocivos para o ambiente, agremiando-lhes toda a energia que consomem – os lavadouros eram bastante inofensivos para a natureza. O sabão que as mulheres utilizavam para lavar as roupas era, grosso modo, o Clarim, que se adquiria nas mercearias em quantidades desejadas (era um “pau de sabão” que podia ser comercializado inteiro, ou cortado a pedido do cliente). A sua composição química era tão sadia que até os peixes o comiam sem que daí resultasse a sua morte.
O lavadouro em apreço, à imagem de muitos outros, encontra-se próximo do ribeiro do Alvito, não sendo de admirar que a escassos metros do mesmo se encontre o que nos parece ser um engenho de água devoluto, eventualmente um moinho. Além disso, como se pode comprovar pela imagem, o lavadouro do Parque de Merendas do Alvito possui seis programas (lajes), em que cada um funciona ao seu ritmo, consoante as necessidades de lavagem das roupas e as necessidades das utilizadoras.
Na sua envolvente encontram-se bancos e mesas em granito, ideais para uma paragem relaxante, ou mesmo para uma refeição no meio da natureza. O concelho de Amares é sobremaneira pitoresco e bucólico, convida à sua descoberta. Não é necessário sair de Portugal para conhecer as belezas do mundo – o Minho é, como diria José Augusto Vieira – “O Jardim de Portugal” – nele se encontrando os prodígios da natureza em harmonia com a criação humana – um ex-libris.
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